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rede - 02/09/2012 ***
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Viciados em rede

Crescem no pas centros para ajudar jogadores compulsivos de aventuras
on-line; convvio social e vida escolar sofrem com o problema MARIANA
VERSOLATO
DE SO PAULO


Jogos de RPG on-line esto criando uma legio de adolescentes
dependentes e levando  especializao do atendimento psicolgico e
psiquitrico no Brasil.

Fenmeno recente, esse tipo de vcio fez tambm com que clnicas para
dependncias qumicas (como lcool e tabagismo) se adaptassem para
tratar a nova patologia.

A Associao Americana de Psiquiatria chegou a considerar a incluso do
vcio em videogames na nova e quinta verso do DSM (Manual de
Diagnsticos e Estatsticas), mas decidiu que ainda no h evidncias
suficientes.

No  raro, porm, que psiquiatras e psiclogos se deparem com casos de
adolescentes e adultos jovens com graves consequncias em suas vidas por
causa do uso excessivo dos jogos. Pesquisas tambm mostram semelhanas
entre os jogos on-line e os de azar, como bingos.

Entre os jogos de videogame, aqueles que tm o maior potencial de criar
dependncia so conhecidos como MMORPG ("massively multiplayer online
roleplaying game"). Traduzindo: diversos participantes se aventuram em
desafios e simulaes de guerras (para citar um dos cenrios do RPG) de
forma intensa, por muitas horas ou at dias seguidos.

O poder viciante desses jogos tem a ver com suas caractersticas: no h
"game over"; o sucesso depende das horas investidas; e os desafios
requerem um grupo de jogadores (para lutar contra o prprio jogo ou
contra outras equipes), o que os torna responsveis pelo time e os
desestimula a deix-lo.

EM BANDO

H tambm um sistema de recompensa pelos desafios enfrentados, e a
interao entre os jogadores acaba funcionando como rede social.

"Muitos dos pacientes contam que o mais legal  a interao com os
colegas no jogo. Dizem se sentir mais valorizados, queridos e eficazes
no jogo do que em casa ou na vida", diz Cristiano Nabuco, pesquisador na
rea de dependncia em internet do Instituto de Psiquiatria da USP.

A psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do setor de dependncias qumicas
da Santa Casa do Rio de Janeiro e mdica do Espao Cliff, conta que
comeou a tratar dependentes de tabaco h 20 anos, mas h pouco tempo
teve de aprender a lidar com os jogadores compulsivos.

"A internet  a dependncia da vez, com um uso cada vez mais
distribudo. Nela, os jogos on-line so os mais perversos", afirma.

Alm do Rio, h servios especializados em dependncias tecnolgicas em
So Paulo e Porto Alegre. Psiquiatras e psiclogos que tratam de
transtornos do impulso tambm tm lidado mais e mais com jogadores
on-line.

Em outros pases, o problema  mais discutido e tambm mais grave:
Coreia do Sul, China e Estados Unidos tm casos de mortes de jovens em
decorrncia de dias ininterruptos de jogos. Nos EUA, no incio do ms,
um garoto de 15 anos foi hospitalizado por exausto e desidratao aps
jogar "Call of Duty" por quatro dias inteiros.

Servios especializados em jogos on-line tambm so mais numerosos e
existem desde 2006 na Europa. Na Coreia do Sul h at um acampamento de
"desintoxicao" de jogos para meninos, onde eles fazem atividade fsica
e reaprendem a brincar.

PASSATEMPO

A tendncia, dizem especialistas,  que o problema comece cada vez mais
cedo, at porque j h redes sociais com jogos para crianas, e o uso de
eletrnicos  estimulado pelos prprios pais.

"Sempre se pensou que era um passatempo inofensivo. Mas comeamos a ver
uma situao curiosa nas famlias: o problema estava dentro do quarto
dos adolescentes, enquanto os pais achavam que assim estavam seguros",
afirma Daniel Spritzer, psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos de
Adies Tecnolgicas, em Porto Alegre.

 o caso de Julio (nome fictcio), 18, do Rio de Janeiro. Sua me, que
tambm preferiu no se identificar, percebeu que o simples gosto por
jogos eletrnicos havia se tornado um vcio quando o filho parou de
estudar e perdeu o interesse em sair de casa.

"O problema piorou aos 15 anos. Se eu pedia para ele sair do computador,
comeava a briga. Ele mentia dizendo que ia dormir, mas ficava jogando.
O que mais doeu foi o afastamento da famlia. No sabia mais o que
fazer."

Ela conta que a coisa piorou de vez quando ele repetiu de ano e comeou
a colocar dinheiro na conta de outra pessoa para que seu personagem no
jogo ficasse mais poderoso. A soluo foi buscar tratamento em uma
clnica privada, no incio do ano.

"Ele no est 100%, mas j melhorou muito. Faz terapia e usa remdio
para controlar a compulso", diz a me.

Segundo Gigliotti,  importante que os pais busquem ajuda porque esse
comportamento pode se arrastar e atrapalhar durante toda a vida.

Quanto  abordagem, Spritzer diz que os pais precisam se aproximar do
filho sem recrimin-lo para abrir um canal de comunicao.

"No adianta virar policial do filho. A ideia do tratamento  reaprender
a usar o computador e colocar outras atividades no lugar." Prximo Texto
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Frase



"Sempre se pensou que era um passatempo inofensivo. Mas comeamos a ver
uma situao curiosa nas famlias: o problema estava dentro do quarto
dos adolescentes, enquanto os pais achavam que assim estavam seguros"

DANIEL SPRITZER psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos de Adies
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Marcelo Gleiser

Sonhos de viagens  Lua

A explorao do espao  a rea da cincia em que  mais clara a sua
dvida em relao  fico

A morte recente de Neil Armstrong, o intrpido astronauta americano cuja
principal distino foi ter sido o primeiro humano a pisar na Lua,
inevitavelmente me levou ao dia 20 de julho de 1969, quando, com os
olhos incrdulos grudados na TV, assisti com meus primos a um feito que
mais parecia fico do que realidade.

O poder transformador da imagem de um ser humano saltitando pelo solo
lunar foi tal que, mesmo para um menino carioca de 10 anos, a vida
jamais seria a mesma. Explorar a Lua adquiriu um significado mtico: o
primeiro passo para a conquista do espao e a emancipao csmica da
humanidade.

Sabendo das dificuldades de virar astronauta no Brasil, optei por
aprender sobre a cincia do espao, devidamente complementada por obras
de fico tratando da explorao imaginria do nosso satlite natural.
Afinal, como disse o pioneiro da explorao espacial Robert H. Goddard,
" difcil dizer o que  impossvel, pois o sonho de ontem  a esperana
de hoje e a realidade de amanh". A explorao do espao , sem dvida,
a rea da cincia em que  mais clara a sua dvida em relao  fico.

Lendo alguns dos primeiros relatos imaginrios de viagens  Lua, vemos
quo alto a imaginao humana voa quando livre de dados, e quo difcil
 transformar imaginao em realidade. Sonhar em ir  Lua e chegar l
so duas coisas muito diferentes, aspectos complementares da nossa
humanidade, como sonhadores e inventores. Toda inveno comea com um
sonho.

A primeira narrativa conhecida de viagem  Lua foi escrita pelo
satirista Luciano (125 d.C.). Em uma obra que inspirou muitos de seus
sucessores ilustres, como Kepler, Cyrano de Bergerac, Jonathan Swift e
Voltaire, Luciano conta como, na companhia de outros 50 exploradores,
saiu pelos oceanos para ver onde terminavam. Um dia, "um vento violento
soprou o navio pelos ares at grande altitudes, mantendo-nos suspensos
por sete dias e noites, at que, no oitavo, demos numa terra, uma ilha
redonda, brilhante e plena de luz".

Uma vez na Lua, os exploradores enfrentam inmeras confuses, incluindo
uma guerra contra o reino do Sol e suas criaturas que, numa tradio que
Luciano atribui a Homero em sua obra "Odisseia", eram extremamente
bizarras. Ao que parece, a guerra  uma condio inescapvel de
criaturas semelhantes aos homens, espcie de enfermidade incurvel. Como
escreveu Luciano, "podemos bem dizer que a guerra  a geradora de todas
as coisas".

Pergunto-me o que o heroico Neil Armstrong, famosamente discreto e
recluso, pensava de fantasias como a de Luciano. Embora se dissesse "um
engenheiro nerd de meias brancas e cheio de canetas no bolso da camisa",
ocasionalmente demonstrava grande inspirao: "Olhando para o passado,
fomos mesmo muito privilegiados de ter vivido numa breve parcela da
histria em que mudamos como o homem olha a si mesmo, o que poder vir a
ser e os lugares aonde ir".

Para este garoto j crescido, Armstrong continuar sendo um raio de luz
num mundo que tanto necessita de heris como ele. E, para mostrar como
levo a complementaridade entre cincia e literatura a srio, um de meus
filhos se chama Lucian.

MARCELO GLEISER  professor de fsica terica no Dartmouth College, em
Hanover (EUA), e autor de "Criao Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI
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