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Copyright  1995 por Philip Yancey

Publicado originalmente por Hodde & Sroughton Publishers, Londres.
Inglaterra.

Os textos das referncias bblicas foram extrados da verso Almeida Revista e Atualizada, 2 ed. (Sociedade
Bblica do Brasil), salvo indicao especfica.

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610. de 19/02/1998.

 expressamente proibida a reproduo total ou parcial deste livro, por quaisquer meios (eletrnicos, mecnicos,
fotogrficos, gravao e outros), sem previa autorizao, por escrito, da editora.


Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

(Cmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)

Yancey, Philip

   Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados / Philip Yancey: traduzido por
Marson Guedes. -- So Paulo: Mundo Cristo. 2005.
    Ttulo original: Finding God in unexpected places.
    Bibliografia.
    ISBN 85-7325-415-7

1. Deus -- Onipresena -- Meditaes 2. Espiritualidade 3. Vida Crist --
Meditaes 4. Yancey, Philip I. Ttulo.
ndice para catlogo sistemtico:
l. Encontro de Deus: Literatura devotional: Cristianismo
Categoria: Espiritualidade / Inspirao


     Publicado no Brasil com todos os direitos reservados pela: Editora Mundo Cristo
     Rua Antnio Carlos Tacconi, 79, So Paulo. SP, Brasil, CEP 04810-020
     Telefone: (11) 2127-4147
1 edio: novembro de 2005
2 reimpresso: 2008


                                                                                                          ~   2   ~
                                                 sumrio

Descobrindo Deus sem realmente procur-lo.........................................................9
  Rumores de outro mundo....................................................................................9
  Nus, mas no o suficiente.................................................................................17
  Nus, mas no o suficiente.................................................................................20
  Olhando para cima............................................................................................23
  Sobre baleias e ursos-polares............................................................................26
  Lendo o Gnesis rodeado pela natureza...........................................................29
  Transtornando o universo..................................................................................31
Descobrindo Deus no trabalho.............................................................................34
  Sirva tambm aos que apenas se sentam e ficam digitando............................34
  Cartas-bomba............................................................................................. .......37
  A Terra do Nunca da mdia religiosa..................................................................39
  O poder da escrita................................................................................... ..........41
  Um Deus abrangente........................................................................................44
Descobrindo Deus nos escombros........................................................................46
  Graa no Ponto Zero...................................................................................... ....46
  Um muulmano em busca.................................................................................53
  Por que eles nos odeiam?..................................................................................58
  A grande partilha.............................................................................................. .60
  O que os outros pensam  importante?............................................................62
  Abrao, Jesus e Maom em Nova Orleans.........................................................64
  Ao longo da fronteira............................................................................... ..........67
Descobrindo Deus numa sociedade em pedaos.................................................70
  Excntricos nas linhas de frente........................................................................70
  As solues para o crack do dr. Donahue..........................................................76
  Ah! Aqueles eram dias, meu amigo...................................................................78
  A sade e o fator Deus......................................................................................81
  Shakespeare e os polticos................................................................................84
  Algum sabe o que aconteceu com o desmo?.................................................86
  Poderia acontecer aqui?....................................................................................88
  Fugindo dos fugitivos........................................................................................90
Descobrindo Deus nas entrelinhas do noticirio...................................................93
  A histria no contada da Rssia......................................................................93
  A estrondosa queda de um muro....................................................................103
  A Grande Bab est vigiando..........................................................................105
                                                                                                              ~   3   ~
  Tremores subterrneos....................................................................................109
  O clamor do continente bem-amado...............................................................112
Descobrindo Deus nas brechas..........................................................................115
  Cinco palavras contaminadas..........................................................................115
  Levando a cura enquanto Roma pega fogo.....................................................117
  Deus vai perdoar aquilo que estou prestes a fazer?........................................122
  Segredos sagrados..........................................................................................124
Descobrindo Deus na igreja ...............................................................................126
  A igreja por trs das grades............................................................................126
  F de mo dupla...................................................................................... ........136
  No se esquea de rir.................................................................................. ....138
  Santos e semi-santos......................................................................................141
  O dia em que o hino no soou to bem...........................................................145
  Querido sr. Frango Frito: favor enviar-nos dinheiro..........................................147
  Colonizadores de Deus....................................................................................149




introduo

      Comecei minha carreira em 1972 como jornalista de revistas. Todos os meses
escrevia quatro ou cinco artigos sobre uma grande variedade de assuntos. Gostava
do ritmo acelerado, da emoo vicria de me aproveitar de outras vidas mais
emocionantes do que a minha, alm da sensao de escrever sem peso na conscincia
(revistas normalmente so jogadas fora e, assim, se eu escrevesse algo entediante ou
estpido em determinado ms, poderia melhorar na edio seguinte).
     O processo de escrever livros exigiu alguns ajustes. Tinha de ser mais
cuidadoso porque um livro pode ficar disponvel por um longo tempo. Se cometesse
erros sobre um fato ou assumisse uma posio controversa, poderia ficar ouvindo
sobre isso uma dcada depois.
     Tambm tive de aprender a ajustar meu tempo de concentrao. Li em algum
lugar que, nos primeiros tempos da rodovia do Alasca, os caminhes articulados
faziam sulcos profundos no cascalho quando transportavam materiais de construo
das cidades apinhadas para o norte. Algum colocou uma placa no comeo da
estrada: escolha bem seu sulco: voc vai ficar nele pelos prximos 300 quilmetros. Levo
cerca de um a dois anos para escrever um livro, e se no fizer cuidadosamente as
escolhas, aquele perodo pode bem se parecer com um sulco interminvel.
      Talvez por nunca ter superado meu instinto jornalstico, intercalo os projetos de
livros com viagens e artigos. Durante vinte anos escrevi uma coluna na contracapa
da revista Christianity Today e habituei-me a no pensar naquela coluna at que o dia

                                                                                                            ~   4   ~
do prazo mximo chegasse. Pelo menos por um dia no ms consigo manter um
pouco de espontaneidade em minha vida de escritor. No dia seguinte retorno o sulco.


     Este livro  um tanto hbrido, porque nele juntei trabalhos espontneos,
adicionei outros e os reformulei em algo que -- espero -- tome a forma de um livro.
Consigo olhar para trs, para os trabalhos dos ltimos anos, e ver quais assuntos e
tendncias chamaram minha ateno como escritor e observador.
      Tenho observado uma polarizao na sociedade americana. A medida que as
decises judiciais e o turbilho da cultura em geral empurram a religio para as
margens, alguns cristos agem cada vez mais como se pertencessem a uma religio
marginal. Cristos pressionados normalmente mostram a tendncia de se afastar do
mundo, erguer a ponte levadia e se refugiar atrs de um fosso protetor Entristeo-
me com essa tendncia porque  diametralmente oposta ao mandamento de Jesus
para agirmos como sal para a carne e luz no meio das trevas. O sal no tem qualquer
efeito quando guardado num frasco na prateleira, e uma lmpada escondida num
armrio no ilumina nada.
     O "castelo" no qual os cristos se refugiam e a igreja. Isso tambm me entristece
porque, para muitas pessoas, o lugar mais improvvel para um encontro com Deus
pode ser a igreja. O prprio Jesus procurou Deus no entre os piedosos na sinagoga,
mas numa viva que tinha apenas dois centavos e num cobrador de impostos que
no conhecia nenhuma orao formal; encontrou lies espirituais em pardais
vendidos no mercado, em campos de trigo e festas de casamento e, sim, at nas
observaes de uma estrangeira miscigenada que teve cinco casamentos fracassados.
Jesus era mestre em encontrar Deus em lugares inesperados,
     Em minha peregrinao, precisei olhar para alm dos muros da igreja para
encontrar Deus. Tendo crescido em meio ao fundamentalismo sulista, minha busca
por Deus foi obstruda pelo racismo, medo e julgamento. No mundo belo e ordenado
da natureza tive os primeiros vislumbres de um Criador que foi generoso ao nos
presentear com um mundo bom e cheio de graa. Conforme comeava a acreditar,
encontrava traos de transcendncia -- as pegadas de Deus -- em lugares nos quais
jamais pensara em procurar
      O telogo John S. Dunne conta de um antigo grupo de marinheiros espanhis
que alcanou o continente sul-americano depois de uma viagem, rdua. As caravelas
navegavam pelas guas do rio Amazonas, uma extenso de gua to imensa que os
marinheiros pensaram ser a continuao do Oceano Atlntico. Nunca lhes ocorreu
beber daquela gua, uma vez que imaginavam ser salgada e, em decorrncia disso,
alguns desses marinheiros morreram de sede. Essa cena -- homens morrendo de
sede enquanto os barcos flutuavam sobre a maior reserva de gua potvel -- tornou-
se para mim uma metfora de nossa poca. Algumas pessoas morrem de fome
espiritual enquanto o man que as cerca apodrece.
   As pessoas meneiam a cabea em desespero por causa do estado em que o
mundo se encontra, a despeito do fato de que em muitos quesitos -- alfabetizao,
                                                                                 ~   5   ~
nutrio, saneamento bsico, moradia -- as coisas realmente melhoraram nos
ltimos cinqenta anos. Perto do fim do sculo passado, um tero de todas as
pessoas da terra foi libertado daquela que, talvez, tenha sido a maior tirania da
histria sem que um nico tiro fosse disparado. No Leste Europeu, um deus caiu por
terra, arrancado de seu pedestal, e em sua base estavam cristos, armados com velas
e com o poder da orao. Na frica do Sul, o lder do ltimo partido na terra com
bases teolgicas racistas abriu o caminho da reconciliao. O prprio F. W de Klerk
informou o motivo: depois de tomar posse, em lgrimas, ele disse  igreja que sentira
o chamado de Deus para salvar todo o povo sul-africano, mesmo sabendo que seria
rejeitado por seu prprio povo. Na China, o maior despertamento de f da histria
irrompeu num Estado ateu que tentava desesperadamente sufoc-lo.
     Temos a tendncia de enxergar o que procuramos. Na poca em que o
microscpio foi inventado, os cientistas acreditavam que o esperma tinha a forma de
pequenos embries e a mulher servia de incubadora. Investigando com os primeiros
microscpios, eles viram e desenharam esses embries, homnculos ou
"homenzinhos", Eles viram o que esperavam ver. de forma semelhante, quando o
grande astrnomo Percival Lowell recebeu seu novo telescpio de 24 polegadas,
numa montanha em Flagstaff, Arizona (LUA), ele "viu" uma rede de canais em Marte
que confirmou as teorias dos astrnomos italianos. Ele fez mapas desses canais num
globo e, em seu livro, de 1908, Mars as the abode of life [A vida habita em Marie] exibiu as
provas de que tais canais foram construdos por seres inteligentes.
     s vezes, como Lowell, vemos coisas que na realidade no esto l e, s vezes,
como os marinheiros espanhis, deixamos de notar o prprio elemento sobre o qual
estamos flutuando. No mundo da f, particularmente,  preciso acreditar em
algumas coisas antes de v-las.


     O trabalho de um jornalista e, simplesmente, o de ver. Somos olhos
profissionais. Como jornalista cristo, aprendo a procurar pelos rastros de Deus,
Tenho encontrado esses rastros em lugares inesperados: entre os principais
propagandistas ele uma nao outrora atia e os refugiados de uma nao ateia no
presente; numa capela ajeitada num depsito no Ponto Zero em Nova York, numa
favela em Atlanta e at numa academia de Chicago; numa reunio da Anistia
Internacional, num retiro de fim de semana com vinte judeus e muulmanos, e num
painel em que se debatia a pergunta "Por que os muulmanos nos odeiam?"; nas
prises do Peru e do Chile e em orfanatos na frica do Sul e em Mianm; nos
discursos de Vaclav Havel e mesmo nas peas de Shakespeare. Este livro, boa parte
do qual adaptado a partir de escritos espordicos,  o relato do que tenho visto nos
ltimos anos.
     Encontrei desconforto em meio  abundncia e esperana contagiante em
circunstancias que deveriam provocar desespero. Encontrei maldade nos lugares
mais inesperados, e Deus tambm.


                                                                                      ~   6   ~
     Este livro foi inicialmente publicado em 1995,1 mas depois de 2001 o mundo
passou por tantas mudanas que senti a necessidade de revis-lo. Em 1995 a
economia estava aquecida, a guerra fria era memria que se esvaa rapidamente, e os
Estados Unidos no enfrentavam nenhuma oposio. Agora, todos os que passam
pela segurana nos aeroportos ou abrem um envelope de aparncia suspeita sabem
que o mundo mudou. Agora o medo e reinante. Removi nove captulos que pareciam
relevantes antes de 11 de setembro de 2001, mas nem tanto depois dessa data, e
acrescentei 14 captulos novos, incluindo uma parte inteira sobre "Descobrindo Deus
nos escombros".
     No peo que voc creia em tudo que creio, ou ande no mesmo caminho em
que tenho andado. Tudo o que peo e que mantenha a mente aberta e olhe o mundo
atravs de meus olhos.
     Conheci uma mulher notvel numa viagem  frica do Sul; chamava-se Joana.
Ela pertencia a uma raa miscigenada, parte negra e parte branca, uma categoria
conhecida l por "coloridos", Quando era estudante incitou movimentos de mudana
do apartheid, e ento viu o milagre que ningum previa, o desmantelamento pacfico
daquele sistema maligno. Logo depois, durante vrias horas ela sentou-se com o
marido, assistindo s transmisses ao vivo das audincias da Comisso de Verdade e
Reconciliao.
     Em vez de simplesmente exultar com a liberdade recm-adquirida, o passo
seguinte de Joana foi eleger como alvo a priso mais violenta na frica do Sul, na
qual Nelson Mandela passou muitos anos. Membros de uma gangue -- o corpo
coberto de tatuagens -- controlavam a priso, impondo com rigor uma regra que
exigia dos novos membros um teste de admisso: agredir prisioneiros indesejveis.
As autoridades faziam vistas grossas, deixando aqueles "animais" se espancar e at
mesmo se matar.
      Sozinha, essa jovem e atraente mulher comeou a visitar dia aps dia os
interiores daquela priso. Ela levou uma mensagem simples de perdo e de
reconciliao, tentando pr em prtica, numa escala reduzida, aquilo que Mandela e
o Bispo Tutu estavam tentando realizar na nao como um todo. Ela organizou
pequenos grupos, ensinou jogos que estimulavam a confiana, conseguiu que os
prisioneiros revelassem detalhes horripilantes da infncia, No ano anterior ao incio
das visitas, a priso tinha registrado 279 atos de violncia; no ano seguinte houve
dois. Os resultados obtidos por Joana foram to impressionantes que a BBC enviou de
Londres uma equipe de filmagem para produzir dois documentrios, de uma hora
cada, sobre ela.
      Conheci Joana e seu marido, que desde ento se juntara a ela no trabalho na
priso, num restaurante da rea porturia da Cidade do Cabo. Como sempre fazem
os jornalistas, pressionei-a a fim de obter os detalhes do que aconteceu para aquela
priso ser transformada. Ela parou com o garfo a meio caminho da boca, levantou os


1
    A primeira edio em portugus foi publicada em 2002 pela Editora United Press
                                                                                     ~   7   ~
olhos e disse, quase sem pensar: "Bem, Philip, Deus j estava presente na priso. Tive
apenas que torn-lo visvel".
      Tenho pensado com freqncia naquela frase de Joana, que seria um excelente
testemunho de misso para todos os que procuram conhecer e seguir a Deus. Deus j
est presente, e nos lugares mais inesperados. Precisamos apenas torn-lo visvel.


                                                                        PHILIP YANCEY




                                                                                 ~   8   ~
Descobrindo Deus sem realmente
procur-lo
Parte 1



                                     Rumores de outro mundo
captulo um
      De acordo com a mitologia grega, houve uma poca em que as pessoas sabiam
com antecedncia o dia exato da morte. Todos sobre a terra viviam com a profunda
sensao de melancolia, pois a mortalidade era como uma espada suspensa sobre
eles. Tudo isso mudou quando Prometeu introduziu a ddiva do fogo. Agora os
humanos podiam ir alm de si mesmos e controlar seus destinos; eles podiam se
empenhar para ser como os deuses. Tomadas pela emoo causada pelas novas
possibilidades, as pessoas logo perderam o conhecimento do dia da morte.
     Ser que ns, modernos, perdemos ainda mais do que isso? Ser que perdemos
totalmente a percepo de que vamos morrer?
     Apesar de alguns autores afirmarem exatamente isso (tal como o terico social
Ernest Becker em A negao da morte2 descobri por trs do rudo da vida cotidiana
rumores de outro mundo que ainda podem ser ouvidos. Os sussurros da morte
persistem e os ouvi, creio, em trs lugares inesperados: numa academia, num grupo
de ativistas polticos e num grupo de terapia de grupo de um hospital. Detectei at
mesmo nuanas -- mas apenas nuanas -- de teologia nesses lugares inesperados.


       Entrei para uma academia em Chicago depois que uma leso no p obrigou-me
a buscar alternativas para a corrida. Levei um tempo para me adaptar 
artificialidade do local. Os clientes ficavam em fila para usar equipamentos cheios de
tecnologia, que simulavam a prtica do remo. Eram completos, com telas de vdeo e
barcos a remo animados, embora o lago Michigan, um lago real que exige remos
reais, permanecesse vazio a apenas quatro quadras de distncia. Em outra sala, as
pessoas se exercitavam em equipamentos StairMaster, que imitavam o ato de subir
escadas -- isso numa regio com grande concentrao de prdios enormes. E ficava
maravilhado com a tecnologia que adiciona diverso programada por computador 
faanha cotidiana de andar de bicicleta.
     Tambm me maravilhava com os corpos humanos que usavam todos esses
equipamentos: a bela mulher com estampas pretas e rosa, imitando as pintas de um
leopardo; a grande concentrao de testosterona que se juntava ao redor dos
aparelhos de musculao. Apropriadamente, havia espelhos cobrindo as paredes, e
uma rpida olhada revelava dzias de olhos verificando os resultados de todo esse
suor e grunhidos, em si mesmos e nos vizinhos.
2
    Record: Rio de Janeiro, 1973
                                                                                 ~   9   ~
     A academia  um templo moderno completo, com ritos de iniciao e rituais
elaborados, seus objetos de adorao  mostra de forma constante e gloriosa. Detectei
um rastro de teologia ali, pois tal devoo  forma humana  uma evidncia da
genialidade de um Criador, que se valeu de sua aptido para a esttica em seus
projetos. Vale a pena preservar a pessoa humana. Mas, no fim, a academia se mantm
como um templo pago. Seus membros se empenham para preservar apenas uma
parte da pessoa: o corpo, a parte menos duradoura de todas.
      Ernest Becker escreveu seu livro e morreu antes que a mania de exerccios
tomasse conta da Amrica, mas imagino que ele veria as academias como um
sintoma inconfundvel da negao da morte. As academias -- junto com a cirurgia
plstica, retardadores de calvcie, cremes para a pele, e uma proliferao infindvel
de revistas sobre esportes, moda de praia e dietas -- nos ajudam a desviar a ateno
da morte para a vida. A vida neste corpo. Se todos ns, juntos, nos esforamos para
preservar o corpo, ento, talvez algum dia, a cincia realize o impensvel: talvez
vena a mortalidade e nos permita viver para sempre, assim como a raa desdentada,
sem cabelo e sem memria dos Struldbruggs na histria de Gulliver
      Certa vez, enquanto pedalava em direo a lugar nenhum numa bicicleta
computadorizada, pensei no comentrio de Kierkegaard de que o conhecimento
sobre a morte  o fato essencial que nos distingue dos outros animais. Olhei  minha
volta, para a sala de ginstica, me perguntando se ns, seres humanos modernos,
somos assim to diferentes dos outros animais. A atividade frentica da qual estava
participando naquele momento era meramente mais um jeito de negar ou de adiar a
morte? Ns, como nao, ficamos mais esguios e saudveis para no ter de pensar no
dia em que nosso corpo musculoso -- em vez de estar "malhando" -- estar retesado
num caixo?
      Martinho Lutero disse a seus seguidores: "Mesmo no melhor de nossa sade,
devemos manter a morte sempre diante de nossos olhos, para que no fiquemos
esperando permanecer eternamente nesta terra, mas tenhamos, por assim dizer, um
p flutuando no ar". Essas palavras parecem um tanto antiquadas hoje, quando
muitos de ns, tanto cristos quanto pagos, passam os dias pensando em qualquer
coisa que no seja a morte. Mesmo a igreja mantm seu foco principal nas coisas boas
que a f pode nos oferecer agora: sade fsica, paz interior, segurana financeira, um
casamento estvel.
     O treinamento fsico tem algum valor, foi o conselho de Paulo a seu protegido
Timteo, mas a santidade tem valor para todas as coisas, sustentando a promessa
tanto para a vida presente quanto para a vida no porvir. Enquanto pedalava,
enfrentando com valentia montanhas geradas por computador, fui obrigado a
perguntar para mim mesmo: qual e meu complemento espiritual para a academia? E
depois, mais perturbador: quanta energia reservo para cada atividade?


     Durante dois anos freqentei mensalmente as reunies na sede local da Anistia
Internacional. Encontrei l pessoas boas e srias: estudantes, executivos e
                                                                                ~   10   ~
profissionais que se renem porque consideram uma atitude intolervel seguir com a
vida alegremente enquanto outras pessoas so torturadas e assassinadas.
      As sedes locais da Anistia Internacional usam uma tcnica absurdamente
simples para combater os abusos contra os direitos humanos: eles escrevem cartas.
Nosso grupo adotou trs prisioneiros de conscincia: todos eles cumprindo longas
sentenas por "atividades antipatriticas". A cada semana discutamos seus destinos e
relatvamos as cartas que tnhamos escrito para autoridades estimadas em seus
respectivos pases.
      Sentados numa confortvel casa geminada, fazamos conjecturas a respeito de
como Jorge, Ahmad e Jose passavam seus dias e noites, enquanto comamos brownies
e vegetais frescos e bebericvamos caf. As cartas de suas famlias forneciam insights
agonizantes sobre as dificuldades deles. Uma vaga sensao de impotncia permeava
a sala, a despeito de nossos esforos de resistir a ela. No tnhamos recebido uma
nica palavra de Jorge em dois anos, e as autoridades de seu pas sul-americano no
mais respondiam s nossas cartas. O mais provvel era que tenha se juntado aos
"desaparecidos".
     O tom da preocupao sincera no grupo me lembrava as muitas reunies de
orao de que participei. Estas, tambm, focalizavam a energia do grupo em
necessidades humanas especficas. Mas ningum na Anistia Internacional ousava
orar, um fato que talvez aumentasse a sensao de desamparo. Apesar de a
organizao ter sido fundada sobre princpios cristos, qualquer rastro de sectarismo
desaparecera h muito tempo.
     "Aqui est uma coisa estranha", pensei numa das noites. Uma organizao
valiosa que existe com o nico propsito de manter as pessoas vivas. Milhares de
pessoas brilhantes e dedicadas se congregam em grupos pequenos, centradas em um
nico objetivo. Mas uma questo nunca  tratada: Porque devemos manter as pessoas
vivas?
     Fiz essa pergunta aos membros da equipe da Anistia Internacional, provocando
uma reao de horror silencioso. O prprio fato de colocar essa questo em palavras
lhes pareceu hertico. Por que manter as pessoas vivas? A resposta  evidente por si
mesma, no ? A vida  boa; a morte  ruim (suponho que eles se referem  vida
animal, uma vez que estvamos mascando vida vegetal enquanto falvamos).
      Os membros da equipe no percebiam a ironia de que a Anistia Internacional
passou a existir porque nem todas as pessoas na histria vem essa equao como
evidente por si mesma. Para Hitler, Stalin e Saddam Hussein, a morte pode ser boa se
ela ajudar a atingir certos objetivos. Nenhum valor definitivo  atribudo a nenhuma
vida humana.
     A Anistia Internacional reconhece o valor inerente de cada ser humano.
Diferentemente, digamos, da academia, a AI no coloca no topo belos espcimes de
sade perfeita: na maior parte, os objetos de nossa ateno estavam machucados e
espancados, sem alguns dentes, despenteados e com sinais de desnutrio. Mas o que

                                                                                ~   11   ~
torna essas pessoas dignas de nosso cuidado? Colocando de forma direta:  possvel
honrar a imagem de Deus num ser humano se no h Deus algum?
      Levantar tais questes numa reunio da Anistia Internacional  convidasse a
um perodo de silncio austero e embaraoso. Algumas explicaes se seguem: "esta
no e uma organizao religiosa...", "no podemos lidar com essas vises sectrias...",
"as pessoas tm opinies diferentes...", "a questo importante  o destino dos
prisioneiros..."
     Em nossa estranha sociedade, parece que as questes mais dignas de ser
levantadas so as questes mais ignoradas. O matemtico francs Blaise Pascal viveu
durante o Iluminismo do sculo XVII, poca em que os pensadores ocidentais
comearam pela primeira vez a desdenhar da alma e da vida aps a morte, questes
doutrinrias que lhes pareciam primitivas e sem sofisticao. A respeito deles, Pascal
afirmou: "Eles professam ler nos deliciado dizendo-nos que consideram nossa alma
apenas como um vento e fumaa frgil, especialmente ao nos dizer tal coisa em tom
de voz insolente e convencido?  isso algo a se dizer de modo festivo? No  isso, ao
contrrio, uma coisa a se dizer com tristeza, como a coisa mais triste do mundo?".
     Continuo pertencendo  Anistia Internacional e contribuindo financeiramente.
Acredito na causa deles, mas acredito nela por razes diferentes. Por que estranhos
-- tais como Ahmad, Jos e Jorge -- merecem meu tempo e energia? S consigo
pensar numa razo: eles carregam em si um sinal de valor definitivo, a imagem de
Deus.
      A Anistia Internacional ensina uma teologia mais avanada do que a academia,
certamente. Ela aponta para alm da superfcie da pele e das formas para a pessoa
interior. Mas a organizao pra por a -- afinal, o que torna a pessoa interior digna
de ser preservada a menos que seja uma alma? E exatamente por essa razo no
deveriam os cristos abrir caminho em assuntos como os direitos humanos? De
acordo com a Bblia, todos os humanos -- incluindo Jorge, Ahmad e Jos -- so seres
imortais que ainda carregam algo da marca do Criador.


    Os freqentadores de academia do o melhor de si para desafiar ou, pelo
menos, adiar a morte. A Anistia Internacional trabalha com diligncia para impedi-la.
Mas outro grupo que freqentei ataca a morte de frente, uma vez por ms.
      Fui primeiramente convidado a participar do Faa seu Dia Valer, um grupo de
apoio para pessoas com doenas de alto risco, por meu vizinho Jim, que acabara de
receber o diagnstico de cncer terminal. Conhecemos l outras pessoas, a maioria na
faixa dos 30 anos, que estavam lutando contra doenas tais como esclerose mltipla,
hepatite, distrofia muscular e cncer Para cada um dos membros do grupo a vida
tinha se resumido a duas questes: sobreviver e, no sendo possvel, preparar-se para
a morte.
     Sentvamos na sala de espera de um hospital, em cadeiras plsticas de
colorao laranja berrante (sem dvida escolhida para fazer a instituio ter uma

                                                                                 ~   12   ~
aparncia mais alegre). Tentvamos ignorar os alto-falantes, periodicamente
esganiando um aviso ou chamando um mdico. O encontro comeava com a
apresentao de cada membro. Jim sussurrou em meu ouvido que essa era a parte
mais deprimente do encontro, porque era muito freqente que algum tivesse
morrido no ltimo ms, desde o ltimo encontro. O assistente social fornecia
detalhes dos dias finais e do funeral dos membros que se foram.
     Os membros do Faa seu Dia Valer se confrontavam com a morte porque no
tinham outra escolha. Estava esperando por um clima bastante sombrio, mas o que
encontrei foi exatamente o oposto. As lgrimas escorriam livremente,  claro, mas
essas pessoas falavam tranqila e livremente sobre a doena e a morte. Estava claro
que o grupo era o nico lugar no qual podiam falar abertamente sobre tais assuntos.
     Nancy exibiu a nova peruca, que comprara para cobrir a calvcie causada pelo
tratamento quimioterapia). Ela brincou dizendo que sempre quis ter cabelo liso e,
agora que tinha um tumor cerebral, finalmente encontrou a desculpa de que
precisava, Estvo, um homem com a doena de Hodgkin, admitiu estar aterrorizado
com o que viria pela frente. Sua noiva se recusou terminantemente a discutir o futuro
com ele. Como ele poderia romper a barreira que ela colocara?
      Marta falou da morte. A esclerose lateral amiotrfica (a "doena de Lou Gehrig")
j tinha deixado suas pernas e braos inertes. Agora respirava com grande
dificuldade, e sempre que adormecia  noite havia o risco de morrer por causa da
falta de oxignio. Marta tinha 25 anos. Algum perguntou: "o que e que voc teme a
respeito da morte?" Marta pensou por um minuto, depois disse o seguinte: "Fico
ressentida por tudo o que vou perder -- os grandes filmes do ano que vem, por
exemplo, e o resultado das eleies. E temo que um dia serei esquecida, que vou
simplesmente desaparecer, e que ningum vai sentir saudades de mim".
      Mais que quaisquer outras pessoas que tenha conhecido, os membros do Faa
seu Dia Valer se concentravam em questes de importncia ltima. Eles,
diferentemente dos freqentadores das academias de ginstica, no podiam negar a
morte; seus corpos carregavam o memento mori, lembretes da morte prematura e
inevitvel. Todos os dias eles eram, nas palavras de Santo Agostinho, "ensurdecidos
pelo estrpito das cadeias da mortalidade". Queria us-los como exemplos para meus
amigos hedonistas, e andar pelas ruas e interromper lestas para anunciar que "todos
ns vamos morrer, Tenho provas disso. Bem ali na esquina h um lugar onde vocs
podem ver isso com os prprios olhos. Vocs j pensaram a respeito da morte?".
     Mas tal conscincia mudaria algum por mais do que alguns minutos? Como
diz uma das personagens do romancista Saul Bellow, o viver se apressa como aves
sobre a superfcie da gua, e uma delas mergulhar ou se atirar subitamente nela, e
no mais voltar, no ser vista novamente. Mas a vida continua. Cinco mil pessoas
morrem por dia na Amrica. Numa noite Donna, membro do grupo Faa seu Dia
Valer, contou que estava assistindo a um programa de televiso da emissora de
servios pblicos. No programa, Elisabeth Kbler-Ross discutia o caso de um menino
na Sua, que estava morrendo por causa de um tumor inopervel no crebro.

                                                                                ~   13   ~
Kbler-Ross pediu-lhe que fizesse um desenho de como se sentia. Ele desenhou um
tanque militar grande e feio, e atrs do tanque, uma casinha com rvores, grama, um
sol brilhante e uma janela aberta. Na frente do tanque, bem no fim do canho, ele
desenhou uma pequenina figura segurando na mo uma placa vermelha de "Pare".
Ele prprio.
      Donna disse que o desenho capturou com preciso seus sentimentos. Kbler-
Ross passara a descrever os cinco estgios de pesar, culminando com o estgio da
aceitao. E Donna sabia que deveria trabalhar pela aceitao. Mas ela nunca
conseguia passar pelo estgio do medo. Como o menininho de frente para o tanque,
ela via a morte como um inimigo.
     Algum trouxe  baila a f religiosa e a crena na vida aps a morte, mas o
comentrio evocou no Faa seu Dia Valer a mesma reao que evocara na Anistia
Internacional: um longo silncio, pessoas pigarreando para limpar a garganta e
alguns poucos olhos vagueando. Pelo resto da noite, o grupo se concentrou nas
maneiras pelas quais Donna poderia superar seus medos e desenvolver-se at o
estgio de aceitao do pesar.
     Sa daquele encontro com o corao pesado. Nossa cultura materialista e sem
dogmas estava pedindo a seus membros que desafiassem os sentimentos mais
profundos. Donna e o menininho suo com tumor cerebral tinham, por puro instinto
primal, esbarrado na base fundamental da teologia crist. A morte e um inimigo, um
inimigo encarniado, o ltimo inimigo a ser conquistado. Como poderiam os
membros de um grupo -- que a cada ms viam famlias se desintegrar e corpos se
deteriorar diante de seus olhos -- ainda desejar um esprito de branda aceitao?
Conseguia pensar apenas numa reao apropriada para a morte iminente de Donna:
dane-se, morte desgraada!
     H tambm outro aspecto da teologia crist que, infelizmente, no era discutido
no Faa seu Dia Valer. O garoto suo incluiu sua viso sobre o cu como pano de
fundo, representado pela grama, pelas rvores e pelo chal com uma janela aberta.
Qualquer sentimento do tipo "aceitao" seria apropriado apenas se e!e estivesse indo
de fato para algum lugar, algum lugar semelhante a um lar. E por isso que considero
a doutrina do cu uma das mais negligenciadas de nossa poca.
     "Acho que  muito difcil para homens secularizados morrer", disse Ernest
Becker, quando se voltou para Deus em seus ltimos meses de vida.
     No museu do Prado em Madri, Espanha, est exposta uma pintura de Hans
Baldung (1545), intitulada As trs idades do homem e a morte. Parece uma pardia
deliberada da imagem clssica de As trs Graas. No cho est uma criana recm-
nascida, descansando tranqilamente. Trs figuras desbotadas e alongadas esto
sobre ela.  esquerda est uma mulher quase nua, o arqutipo da beleza clssica,
com a pele de alabastro, uma figura rolia e acetinada, os cabelos tranados em
longas mechas que caem como cascata pelas costas. A esquerda dessa mulher est
uma velha caqutica, de seios enrugados e murchos, com uma face pronunciada,


                                                                               ~   14   ~
angulosa. A velha est com a mo direita no ombro da mulher bela e, com um sorriso
escarnecedor e desdentado, puxa a jovem mulher em sua direo,
     O brao esquerdo da velha est entrelaado com o de uma terceira pessoa, uma
figura horrorosa, sada diretamente de um quadro de Hicronymus Bosch, o pintor
medieval apaixonado pelo grotesco. Homem ou mulher, no e possvel distinguir
Caractersticas humanas se fundiram com as de um cadver macabro e apodrecido,
com vermes finos e compridos se esgueirando para fora da barriga cadavrica. A
cabea no tem cabelos, quase uma caveira. O cadver segura uma ampulheta.
     A pintura de Hans Baldung restaura, em termos visuais, o que a humanidade
perdeu depois de Prometeu. A bela mulher recobrou o conhecimento da hora de sua
morte. Nascimento, juventude, velhice -- vivemos cada um desses estgios sob a
sombra da morte.
     Falta uma imagem  pintura, uma viso do corpo ressurrecto.  difcil para ns
viver com a conscincia da morte; pode ser ainda mais difcil viver com a conscincia
da vida aps a morte. Temos esperana de corpos recriados enquanto habitamos um
que est envelhecido e atormentado. Charles Williams certa vez admitiu que a noo
de imortalidade nunca pareceu instigar sua imaginao, no importava o quanto
tentasse. "A experincia que temos na terra torna difcil para ns apreender o bem
sem que haja uma armadilha em algum lugar", disse ele.
     O apstolo Paulo escreveu estas palavras para pessoas que, como ns,
realmente no conseguem imaginar o bem sem que haja uma armadilha em algum
lugar:
        Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa [a despeito de todos os
        esforos feitos na academia de ginstica para reverter a entropia], contudo, o nosso
        homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentnea
        tribulao [Leve e momentnea! As vezes em que Paulo ficou preso, foi espancado e
        naufragou me lembram das histrias de prisioneiros torturados que ouo na Anistia
        Internacional] produz para ns eterno peso de glria, acima de toda
        comparao, no atentando ns nas coisas que se vem, mas nas que no se
        vem; porque as que se vem so temporais, e as que no se vem so
        eternas...
        Pois, na verdade, os que estamos neste tabernculo gememos angustiados
        [os freqentadores do Faa seu Dia Valer, com o rosto sugado e abatido dos que
        passam pela quimioterapia, me vm  mente)], no por querermos ser despidos,
        mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, foi o
        prprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do
        Esprito.
                                                                    2Corntios 4:16--5:15


     Sim, precisamos de uma percepo renovada da morte. Mas precisamos de bem
mais do que isso. Precisamos de uma f, em meio aos nossos gemidos, de que a

                                                                                     ~   15   ~
morte no  a ltima palavra, mas a penltima. O que  mortal ser engolido pela
vida. Um dia todos os sussurros da morte tombaro silentes.




                                                                          ~   16   ~
                                   Nus, mas no o suficiente
captulo dois



      Quando me mudei do subrbio de Chicago para a cidade, fiquei surpreso ao
encontrar uma atmosfera urbana mais carregada em termos sexuais. Academias de
ginstica no centro, quadros de anncios, sex shops e a moda urbana, bem, revelavam
mais. Muito mais.
      Parece curioso que uma cultura cada vez mais sofisticada e tecnolgica estimule
tal nfase na sexualidade, o instinto primai que os humanos tm em comum com
todos os animais, mas lenho observado esse padro de forma consistente em minhas
viagens. Na selva amaznica o sexo certamente tem seu lugar, mas numa escala fica
em algum ponto abaixo de uma caada bem-sucedida ou de uma celebrao
comunitria. Em Nova York, Paris ou Tquio, o sexo  sine qua non, a principal fora
motriz da qual os homens de propaganda se valem para vender vinhos finos,
computadores e fio dental.
      Sempre que um cristo se volta para o assunto sexo, percebo que certas defesas
se levantam. Os leitores esperam uma ladainha moralista contra o sexo excessivo na
sociedade moderna. De minha parte, vejo pouco valor nesse enfoque. Em primeiro
lugar, o moralismo no tem muita chance contra a fora bruta dos impulsos sexuais
humanos.
      Mais importante, fico me perguntando se a igreja no adotou um enfoque
completamente equivocado ao tratar do sexo. Com demasiada freqncia, a igreja
tem tratado a sexualidade como uma ameaa, uma rival da espiritualidade. Se voc
est sobrecarregado com sexo, reprima sua sexualidade e sublime essa energia num
anseio por Deus. Entre o terceiro e o quarto sculos, as autoridades clericais
publicavam editos proibindo sexo aos sbados, quartas e sextas-feiras, tambm
durante os perodos de quarenta dias de jejum antes da Pscoa, Natal e Pentecostes,
tudo por motivos religiosos. As autoridades continuaram adicionando dias de
celebrao e dias de apstolos s proibies, que incluam os dias da impureza
feminina, at o ponto em que, na estimativa do historiador John Boswell, apenas
quarenta e quatro dias no ano ficavam livres para o sexo conjugal. Sendo a natureza
humana como e, as proibies eclesisticas eram entusiasticamente ignoradas.
      Questiono a motivao por trs desses editos. Ser que podemos substituir de
forma to direta um impulso (o da unio espiritual) por outro (o da unio fsica)?
Duvido disso. Afinal, no jardim do den, quando Ado tinha perfeita comunho
espiritual com Deus, mesmo naquela poca sentiu solido e anseios que no
encontraram alvio antes de Deus criar Eva.



                                                                               ~   17   ~
     Em vez de contrapor a sexualidade  espiritualidade, uma rivalizando com a
outra, eu as vejo profundamente relacionadas. Quanto mais observo a obsesso de
nossa sociedade com a sexualidade, mais percebo nisso uma sede de transcendncia.
     Meu vizinhos urbanos -- aqueles nos condomnios, nos prdios altos, e at os
que vivem no subrbio -- tem pouca transcendncia na vida. Poucos entre eles
freqentam a igreja; eles acreditam que a cincia j desvendou a maior parte dos
numerosos mistrios do universo, tais como as doenas e o clima. Excetuando-se os
adeptos da Nova Era, eles tm a tendncia de menosprezar prticas supersticiosas
como a astrologia.
     Mas o sexo -- bem, a existe um mistrio ao qual os princpios normais do
reducionismo no se aplicam. O sexo no  algo que voc consegue "desvendar".
Saber coisas a respeito de sexo, at mesmo fazer um curso de ginecologia, no
diminui sua fora mgica. Provavelmente, a coisa mais prxima de uma experincia
sobrenatural que meus vizinhos homens conseguem ter ocorre quando dissecam
cada poro da Catherine Zeta-Jones num vestido vermelho colado ao corpo, ou
quando examinam minuciosamente cada pedacinho da edio anual sobre moda
praia da revista Sports Illustrated.
      Nesse ponto de vista, o sexo no e um rival da espiritualidade, mas, em vez
disso, aponta para ela. Quando a sociedade obstrui de forma to abrangente a sede
humana por transcendncia, devemos nos surpreender que tais anseios se
redirecionem para uma expresso de mero apego ao fsico? Talvez o problema no
seja que as pessoas estejam se despindo, mas que elas no estejam se despindo o
suficiente: paramos na pele em vez de ir mais fundo, de ir at a alma.


     Certa vez conversei com o padre Henri Nouwen, logo aps ele ter retornado de
So Francisco. Tinha visitado vrios ministrios para pessoas com AIDS e estava agora
movido de compaixo pelas tristes histrias de promiscuidade sexual. "Eles querem
amor de forma to intensa que isso os est matando, literalmente", disse ele.
      Cada vez mais vejo o sexo em excesso como uma mutao moderna da idolatria
clssica: o esprito se comprometendo com algo que no consegue suportar seu peso.
Quando Deus repreendeu os israelitas por sua idolatria, no estava condenando a
nsia de adorao deles. Tambm no estava desaprovando as nsias mais imediatas
que os impulsionavam na direo dos dolos: desejo por fertilidade, por bom clima,
por sucesso militar. Em vez disso, ele os condenou por buscar essas coisas em
amontoados inertes de madeira e ferro, em vez de busc-las nele.
     O que o Antigo Testamento chama de idolatria, os ocidentais iluminados
chamam de "vcios". Estes, da mesma forma, so freqentemente coisas boas -- sexo,
comida, trabalho, chocolate -- que extrapolam seu devido lugar e passam a controlar
a vida de uma pessoa. Para os membros dos AA, o lcool representa um "dolo" no
qual ele ou ela investe todos os sonhos e esperanas. O dolo do lcool, assim como o
bezerro de ouro, no consegue suportar o peso de tal comprometimento. Ele sempre
decepciona.
                                                                               ~   18   ~
      revelador que mesmo nossa sociedade secularizada tenha encontrado apenas
uma forma efetiva de romper o padro do vcio: programas de doze passos, cada
passo requerendo submisso a um "Poder superior". Cada um  sua moda, em
desespero, eles se debatem por um elixir que saciar sua sede de transcendncia.
     O padre francs Jean Sulivan fez esta observao acerca da sociedade moderna:
"Os seres humanos no buscam qualquer coisa seno o absoluto, mesmo quando
crem que esto se afastando dele, ou quando, sem o saber, o reprimem ao buscar as
coisas materiais". A represso da espiritualidade , em cada instancia, to perigosa
quanto a represso da sexualidade.
      Estava entretendo-me com tais pensamentos  medida que lia novamente o
relato da conversa de Jesus com uma mulher samaritana, que j tivera cinco maridos
e estava vivendo com o sexto. Duas coisas me impressionaram. Primeiro, fui
relembrado da ternura refinada que Jesus usava ao lidar com pessoas que
fracassaram em algum aspecto. Naqueles dias era o marido que tomava a iniciativa
do divrcio: essa mulher samaritana tinha sido, sem cerimnias, despejada por cinco
homens diferentes.
     Tambm fiquei admirado com a habilidade de Jesus de conectar a sede -- a
sede fsica, de garganta seca, e tambm a sede de intimidade -- com a sede de
transcendncia que somente ele poderia saciar. "Todo aquele que beber desta gua
ter sede novamente, mas todo aquele que beber da gua que dou nunca mais
voltar a ter sede", disse ele.
      Essa "proscrita" mulher samaritana foi a primeira pessoa a quem Jesus
abertamente se revelou como Messias. Aps a conversa prxima ao poo, essa mesma
mulher conduziu um reavivamento por atacado em sua cidade. Quando sua sede
mais profunda foi saciada, uma sede que ela nem sequer tinha reconhecido antes de
Jesus dar-lhe um nome, todas as outras sedes tomaram cada uma seu lugar de
direito.




                                                                              ~   19   ~
                                   Nus, mas no o suficiente
captulo trs



     Enquanto boa parte da mdia estava fervilhando por causa de uma nova
pesquisa sobre sexo na Amrica moderna, lanada em 1994, eu estava pensando a
respeito de um livro, Sex and culture [Sexo e cultura], publicado em 1934. Eu o
descobri nas estantes abarrotadas da biblioteca apertada e sem janelas de uma
grande universidade, e me senti como um arquelogo deve se sentir quando
desenterra um artefato das catacumbas.
      Procurando testar a noo freudiana de que a civilizao  um subproduto da
sexualidade reprimida, o acadmico J. D. Unwin estudou 86 diferentes sociedades.
Seus achados deixaram muitos acadmicos sobressaltados, especialmente o prprio
Unwin, porque as 86 demonstraram uma ligao direta entre a monogamia absoluta
e a "energia expansiva" da civilizao. Em outras palavras, a fidelidade sexual foi o
fator que, considerado isoladamente, mostrou-se mais importante na predio do
desenvolvimento da civilizao.
      Unwin no tinha quaisquer convices religiosas e no fez julgamento moral:
"No ofereo nenhuma opinio a respeito do que  certo ou errado". No entanto, teve
de concluir: "Nos registros humanos no existe nenhum exemplo de uma sociedade
que reteve sua energia, aps uma gerao completamente nova, sem que tivesse
insistido na continncia pr e ps-nupcial".
      Unwin teve vrias centenas de anos de histria em que se basear, contando as
civilizaes romana, grega, sumria, moura, babilnica e anglo-saxnica. Ele
descobriu que, sem exceo, essas sociedades floresceram, tanto em termos culturais
quanto geogrficos, nas pocas que valorizavam a fidelidade sexual. Inevitavelmente
as condutas sexuais se afrouxariam, e posteriormente as sociedades passariam por
um declnio. O ressurgimento s aconteceria quando retornassem a padres sexuais
mais rgidos.
      Unwin parecia desnorteado ao explicar esse padro: "Se me perguntarem por
que as coisas so assim, minha resposta  'no sei' Nenhum cientista sabe... Pode-se
descrever o processo e observ-lo, mas no se consegue explicar o fenmeno". Mas a
tendncia o impressionou de tal forma que props uma classe especial de cidados
"alfa" na Gr. Bretanha. Esses indivduos especialmente promissores fariam votos de
castidade antes do casamento, bem como observariam uma rgida monogamia
depois do casamento, tudo em favor do imprio, que precisava de seus talentos.
     Unwin morreu antes de desenvolver inteiramente sua teoria dos "fundamentos
sexuais de uma nova sociedade", mas os resultados incompletos foram publicados
em outro livro, Hopousia, com introduo de Aldous Huxley.

                                                                               ~   20   ~
     Uma dcada antes de Unwin realizar sua pesquisa, os seguidores de Vladimir
Lenin estavam adotando uma "teoria do copo d'agua" bem diferente a respeito do
sexo. O desejo sexual no era mais misterioso ou sacrossanto do que o desejo por
comida ou gua, e eles reescreveram as leis soviticas de acordo com isso. Tal teoria
logo entrou em colapso e a sociedade sovitica se tornou pelo menos na superfcie --
quase puritana a respeito da moralidade sexual.
      Hoje ouvimos outras verses da teoria do copo d'gua, "O sexo pode
finalmente, depois de todos esses sculos, ser separado da questo demasiadamente
sria que  a reproduo", proclamou Barbara Ehrenreich, num ensaio para a revista
Time. Ela trata dos detalhes: "... o que poderia ser mais moral do que ensinar que a
homossexualidade  um estilo de vida vivel? Ou que a masturbao  inofensiva e
normal? Ou que as carcias ntimas, em muitas situaes, fazem bem mais sentido do
que gerar um filho? A nica tica que pode funcionar num mundo superlotado  a
que insiste que as mulheres so livres, as crianas so amadas e o sexo se d
preferencialmente entre adultos, de forma carinhosa e consentida. Tal tica pertence
perfeitamente  esfera do divertimento".
      O chamado de Ehrenreich  "desmoralizao" do sexo traz consigo o cheiro de
incenso dos anos 60, a poca do nascimento da revoluo sexual moderna. A Aids
tem, temporariamente, diminudo a empolgao com a prtica do sexo sem
restries, mas ouo alguns poucos crticos sociais articular uma tica sexual
coerente. Em nossa sociedade reducionista, o sexo  encarado como um ato
puramente biolgico,  semelhana do beber e do comer. Assim que aperfeioarmos a
tecnologia de proteo, podemos voltar a copular.
     ( estranho que, a despeito disso, o sexo resista ao reducionismo. O cime
ainda se ergue com sua aparncia feiosa e os maridos enganados ainda matam os
amantes de suas amantes, como se a sexualidade envolvesse a conexo de vidas, e
no meramente dos genitais. E numa poca com um nmero sem precedentes de
opes para o controle da natalidade e de educao sexual generalizada, nossa
sociedade produz mais gravidez indesejada do que jamais fez em tempos anteriores.)


     Para ser franco, no sei o que fazer com as teorias de J. D. Unwin sobre sexo e
cultura. Seu livro permanece nas catacumbas das bibliotecas porque prega uma
mensagem que poucos querem ouvir, e o fundamento moral para a fidelidade ("feche
o zper em nome do imprio") facilmente  sobrepujado pela fora hormonal bruta.
Alm disso, seu critrio de "energia expansiva" assume uma aparncia diferente
numa poca que faz cara feia para o imperialismo.
     No entanto, e sem perceb-lo, Unwin pode ter sutilmente avanado, em passos
curtos, na direo da viso crist da sexualidade, da qual a sociedade se afastou
radicalmente. Para o cristo, o sexo no  um fim em si mesmo, mas antes um
presente de Deus. Como todos os presentes desse tipo, deve ser cuidado de acordo
com as regras de Deus, no conforme as nossas.


                                                                               ~   21   ~
     Se fizermos do progresso um deus, e destruirmos o planeta que ele nos deu
para cuidar, tambm nos destruiremos. Se adorarmos o poder e o sucesso,
construindo a maior civilizao que o mundo jamais viu -- ela tambm cair, como a
bablica pesquisa histrica de Unwin mostra com segurana. E se fizermos da
sexualidade um deus, tambm este deus cair, de um jeito que afetar a pessoa como
um todo e, talvez, toda a sociedade.
     O escritor Bruce Marshall disse certa vez que um homem tocando a campainha
num bordel est inconscientemente buscando Deus. Essa afirmao sempre me faz
lembrar da conversa de Jesus com a mulher samaritana ao lado do poo, na qual
usou sua sede de amor para lhe apresentar a Agua Viva.
     Temos duas formas opostas de encarar o sexo, e cada uma delas envolve um
paradoxo. A teoria reducionista do copo d'gua inesperadamente eleva a sexualidade
a um patamar que ela no merece, no qual no consegue se sustentar;  medida que a
adoramos, a sociedade se desintegra. Por sua vez, a teoria da gua Viva enobrece o
que a princpio tenta destronar, ao restaurar o sexo e lev-lo a seu lugar de direito,
como um presente de valor transcendental.




                                                                                ~   22   ~
                                                  Olhando para cima
captulo quatro



      Tenho pensado a respeito do universo ultimamente. Na coisa toda. Depois de
ler algo da prosa elegaca do astrnomo Chet Raymo (Siarry nights [Noites estreladas],
The soul of the night [A alma da noite]), tenho esticado meu pescoo para cima em
ngulos peculiares.
      Aprender coisas sobre o universo no ajuda a auto-estima terrestre. Nosso Sol,
suficientemente poderoso para bronzear a pele branca e atrair o oxignio de cada
planta da terra, est longe do topo da lista pelos padres galcticos. Se a estrela
gigante Amares fosse posicionada no lugar de nosso Sol -- a uma distncia de 150
milhes de quilmetros -- a terra ficaria dentro dela! E tanto nosso Sol quanto
Antares so apenas duas dentre os 400 bilhes de estrelas que inundam o vasto e
desamparado espao da Via Lctea. Uma moeda de dez centavos, se colocada 
distncia de um brao, bloquearia a viso de 15 milhes de estrelas caso nossos olhos
tivessem poder de viso ilimitada.
      Olhando do Hemisfrio Norte, apenas uma nica galxia, Andrmeda,  grande
e prxima o suficiente (meros dois milhes de anos-luz daqui) para ser vista a olho
nu. J aparecia em cartas celestes antes da inveno do telescpio e, at recentemente,
ningum poderia saber que o pequeno ponto de luz mareava a presena de outra
galxia, duas vezes maior do que a Via Lctea e morada de 500 bilhes de estrelas.
Ou que esses vizinhos ao lado no passavam de duas entre cem bilhes de galxias
enxameadas de estrelas.
     Uma das razes pelas quais o cu permanece escuro, a despeito da presena de
tantos corpos luminosos, e que todas as galxias esto se afastando com mpeto
violento umas das outras, a velocidades assombrosas. Amanh, algumas galxias
estaro a quase 50 milhes de quilmetros mais distantes de ns. No tempo que levo
para digitar esta sentena, elas tero se afastado mais de oito mil quilmetros.


      Observei a Via Lctea em plena glria, enquanto visitava um campo de
refugiados na Somlia, ligeiramente abaixo da linha do equador. Nossa galxia se
estendia ao longo de um plio de escurido como uma rodovia pavimentada com p
de diamante. Desde aquela noite -- quando me deitei com as costas na areia quente,
bem longe do poste de luz mais prximo -- o cu nunca me pareceu to vazio e a
terra to grande.
      Tinha passado o dia inteiro entrevistando pessoas que trabalham com
assistncia no megadesastre do momento. Curdisto, Ruanda, Sudo, Etipia -- o
nome do lugar muda, mas o espetculo do sofrimento apresenta uma mesmice

                                                                                 ~   23   ~
lgubre: mes com seios murchos e sem leite, bebs chorando e morrendo, pais
forrageando em busca de lenha
     num terreno sem rvores.
      Depois de trs dias ouvindo narrativas de desgraa humana, no conseguia
elevar meus olhos para alm daquele campo de refugiados situado em um canto
obscuro de um pas obscuro no chifre da frica. At que olhei para a Via Lctea. Isso
subitamente me fez lembrar que o momento presente no abarcava toda a vida. A
histria continuaria. Tribos, governos, civilizaes inteiras podem se levantar e cair,
deixando um rastro de destruio ao longo do caminho, mas no ousei restringir
meu campo de viso s cenas de sofrimento que me cercavam. Precisava olhar para
cima, para as estrelas.
     "Poders tu atar as cadeias do Sete-estrelo ou soltar os laos do Orion? Ou fazer
aparecer os signos do Zodaco ou guiar a Ursa com seus filhos? Sabes tu as
ordenanas dos cus, podes estabelecer a sua influncia sobre a terra?". Estas
perguntas Deus fez a um homem chamado J, que, obcecado com a intensidade da
prpria dor, tinha restringido sua viso aos limites de sua pele cheia de pruridos. 
de se notar que a advertncia de Deus pareceu ajudar J. A pele dele ainda coava,
mas J obteve um vislumbre de outras questes s quais Deus deve atentar num
universo com 100 bilhes de galxias.
     Para mim, o discurso de Deus no livro de J tem um tom grosseiro. Mas talvez
seja esta sua mensagem mais importante; o Senhor do Universo tem direito 
grosseria quando achacado por um msero ser humano, no importando os mritos
de sua queixa. Que ns, descendentes de J, no ousemos perder de vista o
panorama geral, um quadro que se vislumbra mais nitidamente em noites estreladas
e sem lua.


      Pode-se quase caracterizar o desenvolvimento de um povo prestando ateno
em seu interesse na observao das estrelas. Cada uma das grandes civilizaes do
passado -- incas, mongis, chineses, egpcios, gregos, europeus renascentistas --
realizou avanos decisivos em astronomia. H uma ironia operando na histria
humana: uma a uma, as civilizaes adquirem a capacidade de sondar sua prpria
insignificncia, os homens deixam de reconhecer esse fato e elas gradualmente
desaparecem.
     Mas o que dizer de ns, que lanamos naves espaciais como a Viking e as
Apollo, que construmos o observatrio em rbita Hubble, sondas que exploram
Marte e os radiotelescpios VLA, espalhados por 62 quilmetros no deserto do Novo
Mxico? Nossas conquistas nos fazem mais, ou menos, humildes? Mais, ou menos,
reverentes?
     Quase na mesma poca em que lia Chet Raymo, fui assistir ao filme feito pelos
tripulantes de um nibus espacial, usando uma cmera especial Omnimax. As
tempestades de relmpagos foram as que mais me impressionaram. Vistas do espao,

                                                                                 ~   24   ~
os relmpagos surgem e desaparecem num belo padro aleatrio, iluminando a
superfcie de nuvens numa extenso de vrias centenas de quilmetros a cada
exploso. Um claro surge, espalha-se pelo firmamento, brilha intensamente para
ento desvanecer. E o mais espantoso: no se ouve nada.
     Fiquei impactado com a enorme diferena que a perspectiva causa. Na terra,
famlias amontoadas confusamente dentro das casas, os carros escondidos debaixo
dos viadutos numa rodovia, os animais amedrontados na floresta, as crianas
berrando na noite. Transformadores soltando fascas, os rios transbordando, os
cachorros uivando. Mas do espao vimos apenas um brilho suave e agradvel,
expandindo-se para ento recuar, uma mar ocenica de luz.
     Chet Raymo, que dorme de dia e olha as coisas do cu  noite, vive com um
constante senso de maravilhamento, um subproduto da observao do universo. Ele
descreve as galxias que se afastam como sinais do Big Bang da criao, a exploso
gigante que durou um segundo e por meio da qual toda a matria do universo
passou a existir. Ele reconhece que a chance de qualquer coisa boa surgir de tal
exploso so inimaginavelmente pequenas:
        se, um segundo aps o BigBang, a razo entre a densidade do universo e sua
        taxa de expanso tivesse diferido do valor adotado por apenas uma parte em
        1015 (isto , o nmero 1 seguido de quinze zeros), o universo teria
        rapidamente desmoronado sobre si mesmo ou inflado to rapidamente que
        as estrelas e as galxias no poderiam se condensar a partir da matria
        primai... Se todos os gros de areia de todas as praias da terra tossem
        universos possveis -- isto , universos consistentes com as leis da fsica tal
        como as conhecemos -- e apenas um desses gros fosse um universo que
        permitisse a existncia de vida inteligente, ento esse gro de areia seria o
        universo que habitamos.
      Depois de ler Chet Raymo, me voltei para uma passagem que eu sublinhara h
muito tempo no extraordinrio livro Alonc [Sozinho], o relato dos seis meses de
permanncia solitria do comandante Richard Byrd na Antrtida, prximo ao Plo
Sul. Byrd freqentemente se pegava olhando para cima; toda a paisagem era de um
branco inteirio, Vivendo mais ao sul do que qualquer outro ser humano, ele
testemunhou coisas no cu -- tal como o fenmeno da refrao que disparava feixes
coloridas atravs do ncleo do sol -- visveis para ele e para mais ningum na terra.
     Depois de um giro numa tarde gelada (estava 32C abaixo de zero, na estao
da noite contnua), ele se sentou e escreveu a respeito das observaes celestes que
vinha fazendo durante muitas dessas andanas. "Veio a mim a convico de que o
ritmo era ordenado demais, harmonioso demais, perfeito demais para ser um
produto do acaso cego -- e, portanto, deve haver um propsito no todo, que o
homem faz parte deste todo e no  uma ramificao acidental. Era um sentimento
que transcendia a razo; que ia ao corao do homem e percebia l um desespero que
era sem motivo. O universo era um cosmos, no um caos; o homem era por direito
uma parte deste cosmos, assim como o eram o dia e a noite."

                                                                                 ~   25   ~
     Manter o panorama geral em mente requer grande esforo e uma poro
considervel de f. Alguns desses aspectos me fazem sentir que sou inteiramente
insignificante, outros me levam a sentir que sou eternamente significante. Se o Deus,
que projetou a criao com tal preciso, professa um riquinho de interesse no que
acontece neste planeta do tamanho de um gro, o mnimo que posso fazer e
perambular por lugares sem postes de luz e olhar para cima com mais freqncia.




                            Sobre baleias e ursos-polares
captulo cinco



                            A terra est impregnada com o cu
                            E cada arbusto inflamado de Deus
                            Mas somente os que enxergam descalam as sandlias.
                            ELIZABETH BARRETT BROWNING

     Admito ser bastante sensvel ao Argumento do Desgnio. Para mim, toda a
natureza d um testemunho espetacular da genialidade inventiva de nosso Criador.
Considere os exemplos com que me deparei numa viagem para o Alasca.
    Um peixe quase invisvel nada entre os icebergs das guas do rtico e da
    Antrtida, e sua sobrevivncia se torna possvel devido s singulares
    propriedades de seu sangue. Uma protena especial age como anticongelante, o
    que impede a formao de cristais de gelo. Seu sangue no tem nenhuma
    hemoglobina nem pigmento vermelho. Em decorrncia disso, o peixe 
    virtualmente transparente.
    A capacidade instintiva de navegao dos patos comuns, gansos e cisnes os
    torna invejveis para a indstria aeronutica. Nas viagens para o sul, alguns
    gansos mantm uma velocidade de 80 quilmetros por hora e voam 1600
    quilmetros antes de fazer a primeira parada para descansar.
    Quando se trata de navegao, os ursos-polares tambm no so nada
    desleixados. Um urso-polar anestesiado, preso e solto a 480 quilmetros de
    distncia do local de captura, normalmente consegue encontrar o caminho para
    casa, mesmo atravs do gelo  deriva, que muda constantemente, no apresenta
    pontos demarcatrios e poucos odores. Mas os ursos e as aves no passam de
    amadores quando comparados ao modesto salmo, que atravessa a expanso do
    Oceano Pacfico por vrios anos antes de retornar (por meio do odor? Ou do
    campo magntico?) s correntes em que nasceram.
    As crias do boi-almiscarado nascem entre maro e abril, quando as
    temperaturas ainda resistem a sair de 1C abaixo de zero. Assim, quando o

                                                                                  ~   26   ~
    pequenino boi almiscarado cai de uma altura de sessenta centmetros at o cho,
    a temperatura ambiente cai 54C. A me precisa se apressar a lamber o sangue e
    os fluidos da pelagem do bezerro ainda quente, para que ele no congele. Em
    poucos minutos, o bezerro j se equilibra precariamente sobre as patas e comea
    a mamar.
    Em comparao, essa parte  fcil para as ursas-pardas e ursas. polares. As
    mames ursas no sentem nenhuma dor ao dar  luz, pela simples razo de que
    o nascimento ocorre no fim do inverno, no perodo de hibernao. O filhote luta
    para passar pelo canal por onde nasce, d uma espiada no mundo novo e
    descobre sozinho o processo de amamentao. (Imagine a surpresa da mame
    ursa quando a primavera chega.)
    Mais um fato a respeito dos ursos-polares. Durante anos os pesquisadores
    ficaram intrigados com o fato de os ursos-polares e de as focas da Groenlndia
    nunca aparecerem nas fotografias areas por infravermelho, usadas na
    contagem dos animais. Mas as duas espcies apareceriam em tons muito escuros
    nas fotografias por ultravioleta, apesar de os objetos brancos normalmente
    refletirem, em vez de absorverem, os raios de luz ultravioleta. Em 1978 um
    pesquisador do Exrcito americano descobriu a razo. Os pelos do urso-polar na
    realidade no so brancos, mas transparentes. Sob um microscpio de varredura
    eletrnica, os plos aparecem como tubos ocos, sem pigmento. Eles agem como
    minsculos tubos de fibra ptica, captando os raios ultravioleta aquecedores e
    enviando-os pelo tubo para o corpo do urso. Ao mesmo tempo, a pelagem
    fornece um isolamento to eficiente que a temperatura externa do animal
    permanece virtualmente a mesma do gelo em redor -- o que explica o fato de o
    urso no aparecer nas fotos por infravermelho.

     Quando descubro detalhes desse tipo a respeito do mundo natural, fico
inspirado a escrever um hino em honra ao urso-polar ou ao boi. almiscarado. Tal
hino teria um bom precedente: em seu majestoso discurso no fim do livro de J, o
prprio Deus se referiu s maravilhas da criao como provas incontestes do seu
poder e sabedoria. Quando ele e J compararam os currculos, J terminou se
arrependendo no meio do p e das cinzas.
      Como disse, sou bastante sensvel ao Argumento do Desgnio. Ainda assim,
devo reconhecer que nem todo mundo reage  natureza da mesma forma. Como o
romancista Walker Percy observou: "Pode haver sinais da existncia de Deus, mas
estes apontam para os dois lados e so, portanto, ambguos; por isso no provam
nada... as maravilhas do universo no convencem os mais versados nessas
maravilhas, os prprios cientistas".
     Por que o Argumento do Desgnio no e mais convincente? Percy est certo: a
natureza produz sinais confusos. Parti do Alasca com sentimentos de adorao e
admirao; a presa do urso-polar provavelmente v isso de outra perspectiva. E
poderia ficar menos ansioso para escrever um hino caso tivesse ponderado o


                                                                             ~   27   ~
propsito do mosquito do Alasca ou do maruim (cujas crias se aninham dentro da
me e literalmente abrem uma sada devorando-a enquanto saem).


      semelhana da humanidade, o resto do mundo criado apresenta uma
estranha mescla de beleza e horror, de cooperao esplndida e competio
selvagem. Nas palavras do apstolo Paulo: "Sabemos que toda a criao, a um s
tempo, geme e suporta angstias at agora" (Rm 8:22). A natureza  nossa irm
decada, no nossa me.
      C. S. Lewis costumava dizer que o cristo no vai  natureza para aprender
teologia -- a mensagem  truncada demais --, mas antes para encher as palavras
teolgicas com significado: "A natureza nunca me ensinou que existe um Deus de
glria e de infinita majestade. Tive de aprender isso por outros caminhos. Mas a
natureza deu  palavra glria um significado para mim. Continuo sem saber onde
mais poderia t-lo encontrado".
     No aprendi muita teologia em minha viagem ao Alasca. Mas ao andar nas
guas rasas de uma correnteza glacial tingida de vermelho por causa da desova do
salmo, e ao observar uma guia-calva capturar uma perca na baa, realmente
algumas palavras se encheram de significado. Palavras como alegria e assombro.
      A apenas alguns quilmetros de Anchorage, enquanto dirigia pela enseada
Turnagain Arm, notei uma srie de carros parados no acostamento da rodovia.
Quando h carros parados no Alasca, isso normalmente significa animais. Em
contraste com o cu cinza-ardsia, as guas de Turnagain Arm projetavam um tom
ligeiramente esverdeado, interrompido por pequenas ondas de crista espumosa.
Pouco depois vi que no eram ondas espumosas; eram baleias -- baleias-brancas ou
belugas branco-prateadas. Estavam se alimentando a no mais de 15 metros da praia.
      Fiquei l por quarenta minutos, ouvindo o movimento rtmico do mar,
seguindo os crescentes graciosos e fantasmagricos formados pela baleias vindo 
tona. A multido estava silenciosa, reverente at. Passvamos os binculos uns para
os outros, sem dizer nada, simplesmente observando. Mais carros paravam no
acostamento. Cachorros perseguiam-se mutuamente na praia da enseada, seus donos
em outra dimenso. Por apenas aqueles momentos, nada mais -- reservas nos
restaurantes, o planejamento da viagem, minha vida nos 48 estados abaixo deste --
importava.
     Fomos confrontados com uma cena de beleza silenciosa e uma ordem de
grandeza majestosa. Todos nos sentimos pequenos. Ficamos juntos e calados, at que
as baleias se afastaram para mais longe. Ento subimos o barranco juntos, entramos
em nosso carro e retomamos nossa vida ordenada e atarefada que, de alguma
maneira, parecia menos urgente. E nem era domingo.




                                                                             ~   28   ~
         Lendo o Gnesis rodeado pela natureza
captulo seis



      Depois de treze anos morando no centro de Chicago, minha esposa e eu nos
mudamos para um local distante nas Montanhas Rochosas. Eu me pego sentindo
falta das personagens de nossa antiga vizinhana: o catador de latinhas que se
autodenomina Tut Uncommon, o paciente com distrbios mentais que se sentava
num caf o dia inteiro fingindo fumar um cigarro apagado, o excntrico que
perambulava pela rua Clark com uma placa em que se lia: preciso de uma esposa!
      Em nosso novo local de moradia ns vemos mais animais do que pessoas. Alces
pastam na encosta situada atrs de nossa casa, pica. paus bicam o tapume de madeira
e uma raposa vermelha, que chamamos de Foster, aparece todas as noites em busca
de algum petisco. Noutro dia, Foster ficou sentada do lado fora da porta articulada e
ouviu um trecho inteiro do programa de rdio de Garrison Keillor, enquanto eu
colocava o papel de parede em meu escritrio. s vezes ela inclinava a cabea de um
jeito engraado enquanto ouvia msica bluegrass, mas no fim de tudo pareceu estar se
divertindo com o show.
      No muito depois da mudana, comecei a ler a Bblia toda, comeando pelo
Gnesis, e logo descobri que a Bblia assume tons diferentes em novos ambientes. Li
o relato da criao no perodo da neve. As montanhas lampejavam com a luz matinal,
e cada pinheiro se vestia com um manto branco puro, cristalino. Foi fcil imaginar a
alegria da criao original, um tempo em que, como Deus posteriormente descreveu
para J, "as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os
filhos de Deus".
      Naquela mesma semana, entretanto, um baque forte interrompeu minha leitura.
Um passarinho, um pintassilgo com cauda chanfrada e listas amarelas em "v" nas
asas, tinha batido na janela. Ficou cado com a barriga para baixo num montinho de
neve, a respirao entrecortada, com gotas de sangue de um vermelho vvido
escorrendo do bico. Ficou l por vinte minutos, mexendo a cabea esporadicamente
como se estivesse sonolento, at que finalmente fez seu ltimo esforo para levantar,
e ento pendeu a cabea na neve e morreu.
     Considerando as muitas tragdias existentes, tinha testemunhado uma menor.
No noticirio do meio-dia ouvi algo sobre um massacre no Oriente Mdio e um
derramamento de sangue na frica. de alguma forma, no entanto, a morte de um
nico passarinho, encenada bem do outro lado do vidro da janela, trouxe realidade 
gravidade de minha leitura naquele dia: capturou em miniatura a mudana abissal
entre os captulos segundo e terceiro do Gnesis, entre o paraso e a criao decada.




                                                                                ~   29   ~
     O autor do Gnesis era um mestre das afirmaes sucintas. Um relato seco
-- "Assim, pois, foram acabados os cus e a terra e todo seu exrcito" (2:1) -- resume
o processo estupendo que trouxe  existncia quasares e nebulosas, baleias-azuis e
camares anes, pingins e pintassilgos. Apesar de ter sido presumivelmente escrito
bem depois da Queda, os dois primeiros captulos do Gnesis do dicas muito tnues
das tragdias que se seguiriam. "No se envergonhavam", diz o autor a respeito da
nudez de Ado e Eva, um comentrio que faz sentido apenas para leitores
familiarizados com a vergonha.
      Gnesis 2 tambm inclui outro comentrio editorial, um que nunca tinha
notado. Numa cena marcante, Deus faz os animais desfilar diante de Ado "para ver
como este lhes chamaria". Que estranha e nova sensao de onipotncia! O Criador
do universo, em toda sua vastido, assume o papel de Espectador, esperando "para
ver" o que Ado faria.
     Ns humanos recebemos o privilegio da "dignidade da causao", disse Blaise
Pascal, e os captulos seguintes do Gnesis demonstram que a causao pode ser
tanto uma dignidade quanto um fardo. Uma lista curta mostra que os seres humanos
dominam o bsico da vida familiar, agricultura, msica e criao de ferramentas. Mas
tambm dominam a arte do assassinato, fornicao e outros atos sombrios
caractersticos da espcie. No demora muito para que Deus se "arrependa" de sua
deciso de criar: "ento, se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso
lhe pesou no corao" (6:6),
      Ao longo do Antigo Testamento, Deus parece se alternar entre Espectador e
Participante. Por vezes, quando o sangue clama da terra, quando a injustia se torna
insuportvel, quando a maldade ultrapassa todos os limites, Deus age --
decisivamente, at mesmo violentamente. As montanhas fumegam, a terra escancara
sua boca, pessoas morrem. O Novo Testamento, entretanto, mostra o Deus que
generosamente compartilhou a dignidade da causao ao descer para se tornar sua
Vtima. Aquele que tinha o direito de destruir o mundo -- e quase o fez nos dias de
No -- escolheu no lugar disso amar o mundo, a qualquer custo.
      s vezes me pergunto sobre o tamanho da dificuldade que Deus enfrenta para
no agir na histria. Qual deve ser a sensao de ver as glrias da criao -- as
florestas tropicais, as baleias, os elefantes -- destrudas uma por uma? Qual deve ser
a sensao de ver os prprios judeus quase aniquilados? de perder um Filho? Quanto
custa para Deus se refrear?
     Sempre pensei na Queda quanto a seus efeitos sobre ns, humanos, isto , as
penalidades descritas em Gnesis 3. Desta vez fiquei impressionado com seu efeito
em Deus. A Bblia dedica apenas dois captulos para as glrias da criao original.
Tudo o que se segue descreve o curso agonizante da re-criao.
      A Bblia comea e termina com imagens semelhantes. No Apocalipse, o jardim
foi transformado numa cidade, mas um rio passa por meio dele, e nas duas margens
do rio fica a rvore da vida. Agora nenhum anjo portando uma espada flamejante
guarda a rvore; h abundncia de frutos, e at suas folhas ajudam na "cura dos
                                                                                ~   30   ~
povos". Fazendo uma referencia a Gnesis 3, o Apocalipse sumariza a nova realidade
com estas palavras simples: "Nunca mais haver qualquer maldio".
      Passamos nossa vida entre a memria e o antegozo. A viso que tenho de minha
janela, seja das Montanhas Rochosas ou das personagens da rua Clark, fornece meros
vislumbres do que Deus tinha em mente em Gnesis 1 e 2, e daquilo que prometeu
em Apocalipse 21 e 22. Continuo assombrado com o enorme esforo despendido para
restaurar o que uma vez foi espoliado. Tudo porque Deus deu um passo para trs
para ver o que Ado, o que voc e eu faramos.




                                    Transtornando o universo
captulo sete



    Para mim, as dvidas costumam chegar em pacotes com peso esmagador, todas
de uma s vez. No me preocupo muito com nuanas de doutrinas especficas, mas
sempre me pego questionando sobre o grandioso plano geral da f.
     Por exemplo, estou no aeroporto futurista de Denver, observando pessoas que
do a aparncia de ser importantes, vestidas com ternos apropriados para negcios,
pastas grudadas num dos lados como se fossem armas, fazendo uma pausa para
tomar um caf expresso antes de sarem em disparada para outro encontro. Ser que
algum deles, em algum momento, pensa em Deus?, eu me pergunto.
      Os cristos compartilham uma crena estranha em universos paralelos. Um
universo consiste em vidro, ao, roupas de l, pastas de couro e aroma de caf fresco.
O outro consiste em anjos, foras espirituais sinistras e, em algum ponto do espao,
lugares que atendem pelo nome de cu e inferno. Habitamos um mundo material,
podemos senti-lo com as mos; considerar-se cidado de outro mundo -- um mundo
invisvel -- exige f.
     Ocasionalmente os dois mundos se fundem para mim, e tais momentos raros
so como ncoras para minha f, A vez em que fiz mergulho livre num recife de
corais -- e, subitamente, lampejos de cor e de esboos abstratos espocaram ao meu
redor -- tornou-se para mim uma janela que se abre para o Criador que exulta com a
vida e a beleza. A vez em que minha esposa me perdoou por algo que no merecia
perdo -- isso tambm se tornou uma janela, permitindo um vislumbre
surpreendente da graa divina.
       Tenho meus momentos, mas logo as emanaes txicas do mundo material se
infiltram. Sex appeall Poder! Dinheiro! Poderio militar! Essas so as coisas mais
importantes na vida --  o que me dizem -- no as banalidades tolas dos ensinos de
Jesus no Sermo do Monte. Para mim, vivendo num mundo decado, a dvida mais
se parece com o esquecimento do que com a descrena.
                                                                                ~   31   ~
     Diferentemente da maioria das pessoas, no sinto muito saudosismo  moda
de Dickens na poca do Natal. A data cai apenas alguns dias depois da morte de meu
pai. no incio de minha infncia, e todas as minhas memrias dessa poca esto
obscurecidas pela sombra daquela tristeza. Talvez por isso eu raramente me sinta
contagiado com a viso de prespios e rvores vistosamente decoradas. Mas, cada
vez mais, o significado do Natal tem se ampliado para mim, principalmente como
resposta s minhas dvidas, um antdoto para meu esquecimento.
      No Natal, dois mundos se juntam. Se voc ler a Bblia lado a lado com um livro
de histria, ver quanto isso e raro. O livro de histria trata longamente das glrias
do antigo Egito e das pirmides; o livro do xodo menciona os nomes de duas
parteiras hebrias, mas deixa de identificar o fara. O livro de histria d lugar de
honra s contribuies vindas da Grcia e de Roma; a Bblia contm escassas
referncias a esses lugares, a maioria delas negativa, e trata as grandes civilizaes
como meras paisagens estticas para a obra de Deus entre os judeus.
     Mas a respeito de Jesus os dois livros concordam. Liguei meu computador hoje
pela manh e o Microsoft Windows exibiu a data, reconhecendo implicitamente o
que os evangelhos e o livro de histria afirmam: qualquer que seja sua crena a
respeito disso, o nascimento de Jesus foi to importante que dividiu a histria em
duas partes. Tudo o que j aconteceu neste planeta cai nas categorias antes de Cristo
ou depois de Cristo.
      No frio, no escuro, entre os montes pregueados de Belm, o Deus que no
conhece nem antes nem depois adentrou o tempo e o espao. Aquele que desconhece
quaisquer fronteiras deixou-se restringir por elas: o chocante confinamento  pele de
um beb, as atemorizantes limitaes da mortalidade. "Este e a imagem do Deus
invisvel, o primognito de toda a criao", diria posteriormente um apstolo; "Ele e
antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste." Mas as poucas testemunhas oculares
no viram nada disso. Elas viram uma criana lutando para fazer funcionar pulmes
que nunca tinham sido usados.


      Por que Jesus veio  terra? Os telogos tendem a responder a essa pergunta a
partir da perspectiva humana: ele veio para nos mostrar como Deus , para nos
mostrar como o ser humano deveria ser, para oferecer sua vida como sacrifcio. No
entanto, no consigo deixar de pensar que a Encarnao teve outros significados, de
abrangncia csmica.
      Deus ama a matria. Pode-se perceber a sua marca em todos os lugares: rochas
que se abrem para revelar cristais refinados, nuvens rodopiando em torno de Vnus,
a fecundidade dos oceanos (habitao de 90% de todas as criaturas viventes). Fica
claro, de acordo com o Genesis, que o ato da criao trouxe prazer a Deus.
     Mas a criao tambm introduziu um abismo entre Deus e seus sditos, um
abismo que se pode perceber ao longo de todo o Antigo Testamento. Moises, Davi,

                                                                                ~   32   ~
Jeremias e outros que se debateram ousadamente com o Todo-Poderoso atiraram esta
acusao contra os cus: "Senhor, tu no sabes como so as coisas aqui embaixo!". J
foi mais rude: "Tens tu olhos de carne? Acaso, vs tu como v o homem?" (J 10:4),
      Eles tinham suas razes, razes que o prprio Deus reconheceu quando decidiu
visitar o planeta Terra. Escolhendo palavras admirveis, o autor do livro de Hebreus
reflete na vida de Jesus como um tempo em que ele "aprendeu a obedincia", "foi
aperfeioado" e se simpatizou com os homens ao assumir o papel de sumo sacerdote.
H somente um jeito de aprender a se simpatizar, como indica a raiz grega da
palavra sympathos, "sentir ou sofrer com".
     Das numerosas razes para a Encarnao, certamente uma delas era responder
 acusao de J. Tens tu olhos de carne? Sim, certamente.
      Eu, um cidado do mundo visvel, conheo bem a luta envolvida no apego 
crena em um outro mundo, em um mundo invisvel. O Natal vira a mesa e d
indicaes da luta envolvida quando o Senhor dos dois mundos desceu para viver
pelas regras de somente um. Em Belm ambos os mundos se juntaram, se
realinharam; o que Jesus conseguiu realizar no planeta Terra possibilitou que Deus,
um dia, resolvesse todas as desarmonias nos dois mundos. No se admira que um
coro de anjos tenha irrompido espontaneamente numa cano, transtornando no
somente alguns poucos pastores, mas o universo inteiro.




                                                                              ~   33   ~
Descobrindo Deus no trabalho
Parte 2




   Sirva tambm aos que apenas se sentam e
                           ficam digitando
captulo oito



     Durante os anos em que vivemos em Chicago, minha esposa dirigiu um
programa para idosos muito pobres. Uma tpica conversa na mesa do jantar era mais
ou menos assim:
     -- Como foi seu dia, Janet?
     -- Pesado. Conheci uma famlia desabrigada que morava no Lincoln Park e no
comia havia trs dias. Depois de cuidar deles, eu soube que a Peg Martin, aquela com
89 anos, morrera. E depois soube tambm que alguns membros de uma gangue
arrombaram o furgo da igreja e o picharam todinho.
      Depois de acrescentar alguns detalhes de suas aventuras, Janet me perguntaria
sobre meu dia. "Bem, deixe-me ver... O que aconteceu hoje? Fiquei olhando para uma
tela de computador o dia inteirinho, Ah, sim... logo depois do almoo encontrei um
advrbio muito bom!"
     Nossa rotina, sem mencionar nossa personalidade, dificilmente poderia diferir
mais. Janet, animada, rueira, socivel, trabalhava fora, num escritrio na rua Hill, a
desagradvel regio que ficou famosa com a srie de TV Hill Street Blues. Seus dias
eram cheios de aventura e de pessoas; era freqente que ela servisse refeies para
setenta ou mais pessoas de uma s vez, e praticamente todos os dias ela lidava com
vrias dzias de clientes.
      Depois que nos mudamos para o Colorado, ela comeou a trabalhar num
hospital psiquitrico. O paciente tpico admitido nesse hospital morre dentro de dez
dias. Janet agora chegava com histrias de famlias que apresentavam diferentes
reaes de coragem, fria ou desespero, mas todas elas marcadas pela paixo que a
dor faz surgir obrigatoriamente.
      Enquanto isso, seja em Chicago, seja no Colorado, sento-me no escritrio que
fica no poro de casa, olhando para uma tela de computador tremeluzente,  cata da
palavra perfeita (at este momento, os computadores s processam palavras, no as
compem). O principal "evento" do meu dia acontece ao meio-dia, quando o carteiro
chega. De vez em quando o telefone toca. E mais ou menos uma vez por semana


                                                                                ~   34   ~
encontro-me com algum para almoar. O regime de trabalho dirio de um escritor
no  o que se chamaria de glamoroso.
     Voc no consegue imaginar a emoo vicria que senti quando deparei, pela
primeira vez, com a descrio do ato de escrever feita por Philip Roth, em O dirio de
uma iluso:
         Viro frases de cabea para baixo. Essa  minha vida. Escrevo uma frase e
         depois a viro do avesso. Depois olho para ela e a viro do avesso novamente.
         Depois vou almoar. Depois retorno e escrevo outra frase. Depois tomo um
         ch e reviro a frase nova. Depois leio de uma vez s as duas frases, e as viro
         do avesso. Depois me esparramo no sof e penso. Depois me levanto, jogo as
         frases fora e comeo tudo de novo.
      Ele descreveu minha vida com preciso. A diferena abissal entre esse tipo de
vida e o de minha esposa costumava me incomodar. Seguindo o curso normal de
introspeco e de dvidas pessoais, tenderia a fazer pouco de meu trabalho e acatar a
censura de no causar um impacto mais direto na vida das pessoas. "Janet pe em
prtica as coisas sobre as quais escrevo", digo para amigos, meio brincando, meio
falando srio. Eu deixava implcita a concluso evidente de que meu trabalho era, de
alguma forma, menos valioso, menos digno.
      Suponho que vivencio minha prpria verso da sndrome da dona de casa
solitria: sentado em casa o dia inteiro, concentrado em coisas muito especficas,
tenho dificuldades para imaginar que minha rotina faz alguma diferena para o
mundo ou para algum que vive nele. Sim, recebo correspondncias dos leitores, mas
essas cartas chegam bem depois do ato de escrever, e o impacto que elas descrevem 
muito indireto e vicrio. No observo nenhum resultado imediato sempre que me
comparo com minha esposa, que pode observar ao vivo e em cores a mudana da
expresso facial de um? pessoa faminta ao ser alimentada, de um desabrigado
encontrando abrigo, de uma pessoa aflita recebendo consolo.
      Alem disso, Janet chega em casa com histrias to ricas em detalhes fascinantes
que fariam qualquer escritor babar. Lembro-me, por exemplo, de uma visita dela a
uma senhora chamada Beulah no hospital. Beulah nasceu em 1892, filha de uma ama-
de-leite, num latifndio em Louisiana, Sua me, libertada da escravido muito tempo
antes, tinha ficado no latifndio, e Beulah cresceu brincando na varanda frontal com
as crianas brancas e ricas. Depois, Beulah foi quicando de um lugar para outro, do
latifndio para Nova Orleans, do Tennessee para Chicago. Ela j tinha vivido 72 anos
antes de o Congresso chegar a votar o primeiro projeto de lei dos direitos civis.
      Naquela noite Janet chegou em casa repleta de histrias antigas, que Beulah
tinha contado sobre os dias de infncia perto dos diques do rio Mississippi. A
Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a Grande Depresso, a Revoluo Russa --
voc escolhe um evento marcante do sculo XX e Beulah poderia ressuscitar uma
histria sobre esse assumo.
    Ouo essas histrias e penso comigo mesmo: "Se tivesse o emprego de Janet,
nunca mais passaria pela experincia de 'ter um branco' na hora de escrever". Mas
                                                                                 ~   35   ~
neste momento a realidade sbria interviria para corrigir minhas fantasias: "H dois
problemas, Philip: em primeiro lugar, voc seria pssimo no emprego de Janet e, em
segundo lugar, no lhe sobraria tempo para escrever". E assim, na manh seguinte,
depois de comer cereal, me dirijo para o poro a fim de passar outro dia fazendo
barulhinhos, parecidos como o estalo de insetos, no teclado do computador,
     Com o passar do tempo passei a ver que as prprias diferenas entre ns -- de
personalidade, pontos de vista e rotinas dirias -- na verdade representam uma
grande fora. Janet funciona para mim como um segundo par de olhos que enxergam
um mundo que mal conheo. Encontro nisso desafio e estmulo. Minha prpria f 
testada  medida que vejo o empenho dela em trazer esperana para a vida daqueles
que esperam to pouco. s vezes, como agora, suas experincias abrem caminho at
mesmo em meus escritos.
     Por outro lado, posso oferecer a Janet calmaria, reflexo e equilbrio. Tento fazer
de nosso lar um porto seguro: um lugar para tratar das feridas, para obter
perspectiva, para recarregar com vista s batalhas do dia seguinte. (Novamente, o
contrrio da sndrome da dona de casa -- no  isso que as mulheres ofereceram
durante sculos a seus maridos carreiristas?)
      O Novo Testamento usa com freqncia a imagem do corpo humano como
ilustrao da igreja. Um corpo composto de muitos membros, com diversos dons,
pode alcanar muito mais do que um organismo unicelular. As clulas individuais
podem sofrer de uma aparente "desvantagem": uma clula do olho humano, por
exemplo, nunca chega a experimentar o toque, nem a ouvir, tampouco qualquer
outra coisa que no seja a viso. Mas, por causa de sua especializao, aquela clula
do olho pode contribuir para um nvel de viso completamente novo. As amebas,
seres unicelulares, conseguem enxergar o suficiente para se afastar triunfantemente
da luz, mas no passam disso.
     Descobri que o mesmo princpio se aplica tambm ao casamento. No enxergo
mais o trabalho de Janet com uma sensao de competio. Em vez disso, fico
maravilhado com a diferena no temperamento e nos dons espirituais que lhe
permitem passar o dia lidando com situaes que provavelmente me deixariam
louco. Tenho aprendido a me
      orgulhar do trabalho dela, de v-lo como parte de meu prprio culto a Deus. Ao
servi-la, ao oferecer-lhe um ouvido atento, posso fortalec-la e assim ajudar a
assegurar a continuao do trabalho vital que ela exerce.
     Nos dias bons, lembro-me desse princpio, oro por Janet, e procuro meios de
ajud-la a se equipar para seu trabalho exigente e maravilhoso. Quanto aos dias ruins
-- bem, voc provavelmente me encontrar sentado em frente  tela do computador,
com um olhar ligeiramente estrbico, divagando e pensando nos grandes romances
que poderia escrever se passasse meu tempo na rua Hill, em vez de ficar no poro da
minha casa.



                                                                                  ~   36   ~
                                                           Cartas-bomba
captulo nove



     Sempre me lamentei do fato de a escrita ser uma proposio de mo nica. Voc
sabe o que estou pensando, mas eu no sei o que se passa em sua mente -- com
exceo daqueles que se do ao trabalho de enviar uma carta. Por essa razo, decidi
fazer uma retrospectiva nas correspondncias da Christianity Today, revista que
publicou vrios artigos meus.
     Algumas cartas que recebo no tm nenhuma relao aparente com o que
escrevi, e elas me fazem coar a cabea. Bem, na semana passada recebi uma que
comeava assim: "Seu artigo 'Por que no vou a uma megaigreja'  um exemplo
perfeito do estado de coisas na America". O autor da carta prosseguiu por seis
pginas escritas  mo para indicar que a maioria dos problemas sociais na America
moderna se deve ao fato de os "homens religiosos" no usarem mais a Bblia na
verso tradicional. Ainda estou procurando a conexo com meu artigo.
     Um leitor de Houston enviou para mim recortes de todos os anncios locais de
danarinas seminuas, de mulheres exticas e de modelos exclusivos de lingerie. Esse
tipo de anncio nunca aparecera nos jornais de Houston antes de a NASA mudar-se
para l, ele me assegurou. Ele tambm me disse que tinha pessoalmente
testemunhado a detonao de duas bombas atmicas no atol de Bikini em 1946.
Hum...
     Numa carta de doze pginas, escrita em espao nico, um ingls descreveu as
numerosas alergias que ele tinha e um novo programa de Nutrio Eficiente. Em
seguida, ele deu detalhes sobre as revelaes divinas que recebera ao observar
nuvens e a trajetria do vo de certos pssaros. Eu o levo bastante a srio -- afinal,
ele mora no muito distante da casa de William Blake.
     Uma leitora pediu que contribusse com um livro a respeito de toques e abraos.
Ela esperava que eu pudesse "oferecer sugestes prticas sobre as formas de os
homens ficarem  vontade para oferecer abraos e toques de apoio e amor, entre si e,
talvez, at mesmo para mulheres. Por exemplo: permita-se ser abraado antes?
Descubra algum que seja um bom abraador e o observe? Toque primeiro com a
mo? No aperte muito? Evite extenso contato corporal? Saiba quais partes evitar?".
Declinei do convite, uma vez que no sabia a resposta para a maioria das perguntas.
Quem disse que a publicao de livros  uma atividade em declnio?
     Muitas pessoas me escreveram na tentativa de passar por cima dos processos
normais que as revistas adotam na avaliao de textos independentes. Meu favorito
nessa categoria enviou para mim uma camiseta com o nome dele estampado, e
depois um bolo decorado no qual estava escrito: "Preso numa padaria. Envio
trabalho". Dei um pedao do bolo ao editor da revista que enviou pelo correio o aviso


                                                                                ~   37   ~
de que o texto no seria aceito. No entanto, acho que sua ideia recebeu considerao
especial.

s vezes a ligao  clara at demais. Quando escrevi para uma revista a coluna
intitulada "Macarthismo cristo", recebi vrias respostas das pessoas que acharam
que eu estava difamando o senador Joe MacCarthy. Agora tenho uma pasta em meu
arquivo devotada  histria revisionista daquele combatente da guerra fria. (Certa
vez encontrei o senador Eugene McCarthy, candidato  presidncia em 1968, que
passou toda a vida poltica sendo contundido com o inflamado senador do
Wisconsin. No muito tempo atrs, uma pessoa o parou numa rua de Nova York.
"Voc no  o senador MacCarthy?", perguntou o desconhecido. "Sim, por que?",
respondeu MacCarthy. Ento veio a pergunta inesperada: "Voc ainda odeia
comunistas?")
     De longe, o maior nmero de correspondncias que j recebi foi em reao 
minha coluna "Caf da manh na Casa Branca", de 1993. Parei de contar quando
cheguei a 300 cartas, trs das quais -- no mximo -- foram positivas. Os leitores
pareciam ofendidos com o lato de um cristo ousar se sentar  mesma mesa com Bill
Clinton e Al Gore. Sete leitores me perguntaram se eu jantaria com Adolf Hitler.
Fiquei espantado com o tom mrbido de algumas dessas cartas, at que me dei conta
de que os leitores estavam projetando em mim a raiva que, na verdade, era
direcionada a Clinton. Odiaria ler a correspondencia dele.
     Certo leitor me contou que Deus lhe tinha pessoalmente revelado que um
colegial conseguiria se sair melhor do que Bill Clinton governando o pas, e que Deus
estava pensando em deixar "o sr. Satin, no o sat, lev-lo  morte caso no
melhorasse seu desempenho". Ele tambm me revelou algumas dicas importantes
sobre a identidade do anticristo, e incluiu uma esponja que, ao ser colocada na gua,
revelaria o numero de um telefone no qual obteria ajuda para resolver meus
problemas espirituais,
     A carta favorita de todos os tempos veio de um leitor em Seattle. Ele comeou
com algumas piadas a respeito dos adventistas do Stimo Dia e depois passou aos
assuntos srios. Assim como e. S. Lewis tinha aparecido logo aps sua morte para o
escritor J. B. Phillips, esse leitor tinha recebido uma visita sobrenatural de J. B.
Phillips. Ele tambm se encontrou com os compositores Handel e Dvorak, e certa vez
tocou o segundo violino numa orquestra regida por Haydn. Handel, conforme relata
esse leitor, no est mais cego, mas usa culos de lentes grossas que lhe permitem
dirigir seu carro, e atualmente rege um coro numa igreja presbiteriana que tem
apenas 33 membros. Dvorak mora na cidade de Edmonds, em Washington.
     Com segurana absoluta, esse leitor prometeu que, se me mudasse para Seattle
dentro de 30 dias, ele agendaria um encontro pessoal com C. S. Lewis. Isso foi perto
da poca em que estava me mudando para o Colorado, e foi quando solicitei 
agncia de correio que, a partir daquele momento, encaminhasse todas as
correspondncias de trabalho para o escritrio da revista, em Illinois.




                                                                               ~   38   ~
                 A Terra do Nunca da mdia religiosa
captulo dez




     Passo muito tempo de minha vida num escritrio que fica no poro de casa,
sozinho. Por isso, quando volto  superfcie, s vezes me sinto como uma toupeira
ofuscada pela luz, Isso ficou muito evidente quando concordei em fazer uma turn
como escritor pela mdia. Durante vrias semanas visitei estaes de rdio e televiso
como parte da campanha para apresentar meu livro Decepcionado com Deus.
     Estava em Dallas. Soube que tinha me metido numa encrenca quando, Logo no
primeiro dia, a estao de rdio agendou para mim um programa de entrevistas
junto com um comediante cristo. Especialista em fazer sons com a boca e as mos,
ele conseguia reproduzir com preciso os barulhos de animais de quintal, carros de
corrida e desastres com trens. Cobrimos os assuntos essenciais, dividindo-os entre
ns: ele conseguia fazer uma imitao perfeita de um jato decolando, e eu tentava
explicar por que Deus permite que jatos se espatifem no cho. Por que ser que me
senti como personagem de uma pera-bufa?
     Ao sair de l, fui de carro para uma estao de televiso batista, a fim de atender
telefonemas num programa de aconselhamento televisivo. O programa era
excepcionalmente bem administrado, mas tinha l seus aspectos estranhos. O tpico
"Decepcionado com Deus" atraa pessoas para o telefone, gente com histrias
pessoais que deixariam qualquer um retorcido: abuso infantil, alcoolismo, cncer,
AIDS -- tinha de tudo. Enquanto as pessoas despejavam seus traumas por meio de
linhas telefnicas que faziam chiado, podia apenas olhar para a cmera e menear a
cabea, de forma simptica. Enquanto isso, na periferia de minha viso, os
produtores do programa estavam correndo de um lado para outro, segurando
grandes cartazes: "Esse cara  um chato. Tire-o do ar!" e "Acelere! Trinta segundos
para o intervalo comercial!" Em Los Angeles, passei trs horas e cinqenta minutos
numa agitao impotente, preso num congestionamento, ouvindo o programa de
rdio do qual deveria participar. "Sabemos que voc est a em algum lugar no
trnsito, Philip", disse graciosamente o ncora no ar. "No se preocupe, apenas dirija
com cuidado." Realmente dirigi com cuidado -- como poderia me arriscar andando a
dez quilmetros por hora? Tambm fiquei preocupado, e por um bom motivo: no
cheguei ao programa.
     Em So Francisco, apareci no mesmo programa com uma ex-danarina de Las
Vegas, que ento estava encabeando um esforo de construir uma torre de 60
andares, em forma de cruz, em cada grande cidade dos Estados Unidos. Ela havia se
convertido depois de uma experincia de quase-morte numa mesa cirrgica. "Minha
carreira estava em decadncia, por isso tive de aumentar novamente meus seios",
disse ela. Enquanto estava anestesiada, um anjo a conduziu ao inferno, onde ela viu
                                                                                  ~   39   ~
um veculo com dezoito rodas, todo ele construdo com carne humana -- "at mesmo
os pra-lamas eram feitos de carne!" -- jogando adolescentes americanos num lago
de metal derretido. Agora eu pergunto: como um trabalho de teologia popular pode
competir num programa que apresenta histrias como essa?
     Minha turn pela mdia se encerrou na Heritage USA, nos vestgios da
organizao que sobreviveu  queda de Jim e Tammy Faye Bakker. J tinha estado l
duas vezes, uma no auge dos Bakkers e outra durante o reinado mais sombrio de
Jerry Falwell. O clima dessa vez era sensivelmente diferente. O conjunto central de
edifcios ao estilo Disneylndia se destacavam na escurido tal como Las Vegas
depois de uma bomba de neutrn. Havia vrios edifcios nessa cidade fantasma, mas
nada de gente. Toda a exuberncia se fora. Os condomnios foram fechados, os
guindastes de construo permaneciam inertes, o espelho d gua estava seco. Senti
uma clima lgubre quando sa para me exercitar na Calada da F, demarcada com
placas de bronze, inscritas com frases de propriedade e f. O ministrio televisivo, no
entanto, ainda se arrastava, operado por uma equipe esqueltica sob a superviso de
um tribunal de falncias.
     Refletindo em minhas visitas anteriores, percebi que a mudana mais
significativa estava nos prprios membros da equipe. Muitos tinham sido
contratados pelos Bakkers, a quem tinham tratado como celebridades, mas
gradualmente se desiludiram com as chocantes revelaes de corrupo. O
remanescente decidira ficar porque realmente acreditava no ministrio. Eles me
pareceram humildes, genunos, quebrantados. Eles me pareceram cristos.


Depois de trs semanas passando por experincias desse tipo na Terra do Nunca da
mdia religiosa, cheguei a algumas concluses subjetivas e nada cientficas:
    1.As estaes de televiso crists contratam um nmero desproporcional de
    mulheres bonitas, que usam cabelos e vestidos longos. A maioria delas tem
    sotaque sulista.
    2.Em pelo menos metade das vezes, o entrevistador passa os olhos no livro de
    um escritor convidado cinco minutos antes do programa de entrevistas.
    3.As estaes carismticas no conseguem entender como algum poderia ter
    vontade de escrever um livro a respeito de decepo com Deus.
    4.Dos programas que visitei, aqueles conduzidos pelos batistas do sul e pelos
    adventistas eram os mais bem organizados, e os ncoras tinham mais disposio
    para uma conversa substancial. (Mas tente conseguir uma xcara de caf decente
    num estdio adventista!)
    5.Nos programas seculares, os que telefonam para a estao esto obcecados
    com uma nica pergunta: "Como um Deus amoroso permite tanto sofrimento?".
    Nos programas cristos, os que ligam esto obcecados com o oposto: "Sim, Deus
     a causa direta do sofrimento, e a razo disso  que..."

    Levei algum tempo para me ajustar  artificialidade embutida na mdia. Na vida
normal, voc determina como est se relacionando com o resto do mundo atentando
                                                                                 ~   40   ~
para dicas, tais como a linguagem corporal e o contato visual. se estiver falando para
um grupo e todos esto com os olhos semicerrados e quase bocejando, voc comea a
achar que no est se comunicando bem. Mas, obviamente, a audincia do rdio e da
televiso permanece invisvel. Tem algum prestando ateno? no d para dizer. No
prprio estdio de televiso, os ancoras s se do ao trabalho de parecer interessados
no que voc est dizendo quando a cmera est num ngulo que os inclui. Caso
contrrio, eles bem podem estar verificando a prxima pergunta, sussurrando para o
produtor, ajeitando-se com um espelho ou arrumando a gravata.
     O formato com telefonemas, cada vez mais popular, adiciona outro nvel de
artificialidade. Aprendi rapidamente por que os polticos se valem de frases curtas. A
mensagem deve se adaptar  mdia, no o contrrio. Quando uma mulher, em
soluos, ligou para me contar a histria de uma vida cheia de tragdias sem trguas,
no consegui dizer "perdoe-me^ mas no h nada que eu possa dizer para voc nos
prximos
noventa segundos para corrigir um problema to arraigado quanto esse". Em vez
disso, busquei uma drgea, um resumo, alguma percepo que, mesmo de forma
abreviada, pudesse oferecer uma nova perspectiva ou simplesmente dar esperana.
Noventa segundos depois, passamos para o comercial e nunca mais soube nada
dessa mulher
     s vezes as pessoas ao telefone iniciavam as histrias dizendo: "Nunca contei
isso para ningum". Era uma revelao assustadora, do tipo que vai ao mago da
fora -- e da fraqueza -- das transmisses religiosas: algumas pessoas tm
relacionamento mais ntimo com seus aparelhos de TV do que com qualquer outro ser
humano.




                                                  O poder da escrita
captulo onze




H uma cena no filme Black robe [Hbito negro] em que um missionrio jesuta tenta
convencer um cacique huroniano a deix-lo ensinar a tribo a ler e a escrever. O
cacique no enxerga nenhum benefcio na prtica de fazer alguns rabiscos num
papel, at que o jesuta faz uma demonstrao. "Conte-me algo que no sei"", diz ele.
O cacique pensa por alguns instantes e responde: "A me da minha mulher morreu
na neve no inverno passado".
     O jesuta escreve uma frase, caminha uns poucos passos at seu companheiro,
que d uma olhada no escrito e pergunta ao cacique: "Sua sogra morreu numa
nevasca?". O cacique d um salto para trs, alarmado. Ele foi pego de surpresa pelo
                                                                                ~   41   ~
poder mgico da escrita, que permite que conhecimento d saltos no espao e viaje
silenciosamente por meio dos smbolos.
     As Confisses de Agostinho do um vislumbre maravilhoso de Santo Ambrsio,
que dominara a arte de ler silenciosamente, sem mexer os lbios. Agostinho e seus
amigos se juntavam para observar tal faanha, surpresos por Ambrsio conseguir
entender e reter as palavras que no pronunciava, como se fosse telepatia. At o
sculo XIII, na realidade, poucas pessoas conseguiam ler dessa forma inusitada. (O
interessante  que o domnio dessa prtica levou ao surgimento da orao
individualizada: at aquele momento, os fieis consideravam a orao e a leitura como
atividades de grupo.)
     Certa vez li um estudo longo -- e s vezes entediante -- intitulado The history
and power of writing [A histria e a fora da escrita], em que o autor, Henri-Jean Martin,
fornece muitos exemplos do impacto da escrita sobre o mundo. Boa parte da histria
tem considerado a escrita como suplemento  comunicao oral, um meio de
transmisso mais confivel. Os estudiosos registraram os poemas picos, ou as listas
de fatos, como um auxlio  memria, mas raramente usavam a escrita para
comunicar novas idias. Para os poetas picos, a escrita se mostrava excessivamente
restritiva: no poderiam mais encenar para a audincia adicionando adornos s
declamaes. De fato, despida da entonao e da expresso facial, separada do
ambiente sensorial da fogueira ou da sala de jantar, incapaz de dialogar, a escrita
parecia um meio de transmisso delicado e frgil.
     A igreja tem mantido um relacionamento de amor e dio com a escrita, apesar de
ela ter sido inventada como forma de registrar as verdades a respeito do sagrado. (Os
druidas resistiam  escrita por este motivo -- no queriam que seus segredos fossem
disseminados.) O clero abriu caminho ao trazer a alfabetizao para a Europa, e
durante a Idade das
Trevas os monastrios preservaram os clssicos, enquanto a sociedade se esfacelava
ao redor deles.
     Mas a igreja tambm tentou controlar a escrita, queimando livros, censurando e
perseguindo escritores. Tais controles se desintegraram durante a Reforma
Protestante, que acabou coincidindo com a inveno da imprensa. Os reformadores
enxergavam a escrita como um meio de transmisso que estimulava a liberdade. Ao
traduzir a Bblia e outros livros para o vernculo -- e distribuindo-os amplamente --,
conseguiram libertar a doutrina da hierarquia eclesistica que policiava o
pensamento. Em pouco tempo, obviamente, tambm emergiu o policiamento do
pensamento feito pelos protestantes, mas com efeitos menores: a palavra tinha sido
irrevogavelmente libertada.


     Ler o livro de Henri-Jean Martin me levou automaticamente  reflexo sobre
minha prpria peregrinao. Cresci numa igreja sulista e fundamentalista, que
pregava abertamente o racismo, o medo apocalptico do comunismo e o patriotismo
que colocava "a Amrica em primeiro lugar". A doutrina crist era servida no estilo
"creia e no faa perguntas", decorada com laos de ardente emocionalismo.

                                                                                    ~   42   ~
     Para mim, a leitura foi uma fresta de luz que se transformou em uma janela para
outro mundo. Lembro-me do impacto de um livro ameno como O sol  para todos, que
ps em questo os pressupostos do apartheid de meus amigos e vizinhos. Depois, ao
ler livros como Black like me [Negro como eu], The autobiography of Malcolm x [A
autobiografia de Malcolm x], e Letter from Birmingham City Jail [Carta da cadeia municipal
de Birmingham], de Martin Luther King, senti meu mundo inteiro se estilhaar. Como
o estupefato cacique huroniano, tambm experimentei o poder que permitia uma
mente humana penetrar em outra, sem qualquer intermedirio que no um pedao
de pasta de madeira achatada.
     Passei a dar valor especial a um aspecto da escrita, aquele que reala a liberdade.
Os que tinham a palavra nas igrejas que freqentei podiam levantar a voz! e tocar as
emoes como se toca um instrumento musical. Mas sozinho em meu quarto,
dedicando-me a cada pgina virada, encontrei-me com outros representantes do
Reino -- C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Santo Agostinho -- que, com vozes mais
serenas, saltaram atravs do tempo para me convencer de que em algum lugar houve
cristos que conheciam a graa to bem quanto a lei, o amor to bem quanto o
julgamento, a razo to bem quanto a paixo.
     Creio que me tornei um escritor por causa de minha experincia com o poder
das palavras. Percebi que palavras espoliadas, com seus significados completamente
torcidos, poderiam ser regeneradas. Percebi que a escrita poderia penetrar pelas
fissuras, trazendo oxignio espiritual a pessoas presas em caixas hermeticamente
fechadas. Percebi que Deus, quando nos comunicou a essncia da sua auto-
expresso, a chamou de Palavra. A Palavra nos chega da forma mais libertadora que
se pode imaginar.
     Sinto orgulho e vergonha de minha profisso. s vezes temos usado as palavras
como porretes, no como alavancas. Temos usado as palavras para escravizar, no
para libertar. E mesmo assim, de alguma forma, as palavras tm durado. Penso nos
monges irlandeses se afadigando durante semanas, meses at, debruados sobre
cartas nicas de manuscritos iluminados, mantendo a palavra viva numa poca em
que poucas pessoas sabiam ler ou se importavam com isso. Penso na fidelidade de
escritores como Soljenksyn, que se valeu da imprensa em samizdat para distribuir, de
mo em mo, calhamaos de testemunhos manuscritos.
      possvel que estejamos entrando num tipo diferente de Idade das Trevas, um
perodo no qual o Diabo  proprietrio das ondas que se propagam pelo ar, no qual
as palavras so cinzentas e obtusas, se comparadas ao fascnio da realidade virtual e
dos DVDS multimdia. Tenho esperanas, apesar disso. A despeito das ondas de
histeria e de autoritarismo na histria da igreja, as palavras verdadeiras
sobreviveram e emergiram em fases posteriores como foras vivas que transformam
indivduos e culturas inteiras. J experimentei o poder delas. Oro pela igreja, para
que ela, em tempos cada vez mais opressivos, se lembre de que as palavras exercem
seu impacto mais intenso quando so libertadoras.




                                                                                    ~   43   ~
                                             Um Deus abrangente
captulo doze




Tenho um amigo que voltou recentemente de uma visita a pases asiticos onde
cristos sofrem perseguio. Os cristos na Malsia disseram a ele: "Somos muito
abenoados, porque na Indonsia eles esto matando os cristos, mas aqui s temos
que suportar discriminao e restries s nossas atividades". Na Indonsia, onde os
cristos realmente esto morrendo por causa de sua f, eles lhe disseram: "Somos
muito abenoados, porque na Malsia eles no podem publicar o evangelho
livremente, mas aqui ainda podemos".  igreja na Indonsia valoriza o poder das
palavras.
     O trabalho de escritor me d a oportunidade de visitar vrios pases, incluindo
alguns que oprimem os cristos. Tenho notado uma diferena marcante na escolha
das palavras da orao. Quando as dificuldades surgem, os cristos em pases ricos
tendem a orar "Senhor, afasta esta provao de ns!". Em vez disso, tenho ouvido
cristos perseguidos, e alguns que vivem em pases muito pobres, orar "Senhor, d-
nos fora para suportar esta provao".
     Curioso, perguntei a um missionrio dos velhos tempos -- que j fez dezenas de
viagens  China a fim de visitar igrejas sem registro que se renem nas casas -- se l
os cristos oravam por mudanas na poltica restritiva do governo. Ele respondeu
no ter ouvido, nem uma vez sequer, um cristo chins orar pedindo alvio. "Eles
simplesmente assumem que vo enfrentar oposio".
     Um pastor tinha passado 22 anos num campo de trabalhos forados por
promover reunies em igrejas sem autorizao. Quando saiu da priso e voltou para
a igreja, anunciou que tinha mantido registros dirios de seu perigoso trabalho, e que
tinha engatado um milho de vages ferrovirios sem se machucar nenhuma vez.
"Deus respondeu s oraes que vocs fizeram pela minha segurana!", exultou.
Trabalhando prximo  fronteira russa,, sem roupas apropriadas para o frio, tambm
tinha driblado doenas srias durante todo aquele perodo.
     Outro pastor aprisionado ficou sabendo que a esposa estava ficando cega.
Desesperado, relatou ao diretor da priso que estava renunciando  sua f. Ele foi
libertado, mas logo se sentiu to culpado que se entregou novamente  polcia. Ele
passou os trinta anos seguintes na priso.


Certo ano visitei o Brasil e as Filipinas, dois pases relativamente pobres, onde a
igreja est experimentando um crescimento explosivo. Grupos locais tinham me
convidado para trazer encorajamento para a igreja, mas eu acabei recebendo
encorajamento. Nos dois lugares, quando as pessoas recebem literatura crist nas
ruas, elas param e lem; quando convidadas para uma reunio crist, elas vo. Nem
                                                                                ~   44   ~
mesmo a mdia tem aquela casca de cinismo. Polticos e msicos bem conhecidos se
convertem e falam abertamente a respeito de sua f; defensores do evangelicalismo
escrevem colunas em jornais sobre como fortalecer a f. Uma das igrejas em que falei
na cidade de Manilha organiza cinco cultos no domingo; o primeiro comea de
madrugada, s 5h, e tem freqncia de duas mil pessoas.
     Essas naes esto em "lua-de-mel" com o cristianismo. O evangelho ainda soa
como boas novas. Conheci brasileiros que recebem meninos de rua em suas famlias e
levam comida para prisioneiros -- voluntariamente, sem o auxlio de nenhuma
organizao. Vilarejos pobres, que nunca ouviram falar de termos como "justia
social" ou "teologia da libertao", descobrem-se melhorando sua condio
econmica  medida que os arrimos de famlia param de beber, passam a ser
pontuais no trabalho e comeam a agir como cidados responsveis.
     Outras naes j se acomodaram na fase do "divrcio". Naquele mesmo ano
tambm visitei a Dinamarca, que concorre acirradamente com a Repblica Tcheca
pelo menor ndice de freqncia a igrejas. Os campanrios das igrejas ainda se
lanam ao cu cinzento, mas somente os turistas se do ao trabalho de entrar.
Ningum soube me informar sobre um nico lugar em que pudesse encontrar algo
relacionado ao mais famoso pensador dinamarqus, Sren Kierkegaard. No museu
nacional, um cartaz explicava que a cruz, antes um smbolo religioso da Dinamarca,
hoje  considerada uma relquia cultural.
     Algumas naes esto em uma fase madura do casamento. Nos Estados Unidos,
quase metade da populao vai  igreja num ou noutro domingo, e os cristos tm
presena visvel nos campi universitrios e em todas as profisses de maior destaque.
Os polticos que concorrem a cargos eletivos competem entre si fazendo apelos ao
eleitorado religioso. No entanto, as igrejas e as organizaes paraeclesiticas por
vezes do a impresso de operar de forma mais parecida com uma indstria do que
com um organismo vivo. Contratamos pessoas para cuidar de rfos e visitar
prisioneiros; remuneramos profissionais para nos conduzir no louvor, Voltar para
uma igreja nos Estados Unidos tendo visitado uma no Brasil  como sair de uma feira
de vilarejo, onde todos cuidam do gado e tentam agarrar o porco, para a
Disneylndia, onde voc paga um ingresso para observar as feras (parte das quais 
mecanizada) atrs de uma grade.
     De acordo com algumas estimativas, os cristos nos pases ocidentais
desenvolvidos representam apenas 37% de todos os cristos no mundo. A medida
que viajo e leio a histria da igreja, venho observando um padro, o estranho
fenmeno histrico de Deus se "movendo" geograficamente, de um lugar para outro:
do Oriente Mdio para a Europa, de l para a Amrica do Norte, e da para os pases
em desenvolvimento. Essa  minha teoria: Deus se dirige para os lugares em que a
sua presena  desejada.
     Esse  um pensamento assustador para um pas como os Estados Unidos, dono
de uma economia robusta, com 500 canais de TV via satlite com programas de
entretenimento, sem mencionar a Disneylndia.



                                                                               ~   45   ~
Descobrindo Deus nos escombros
Parte 3



                                              Graa no Ponto Zero
captulo treze




     Os telefones de nossa casa comearam a tocar em 11 de setembro, o dia do
ataque. Recebi telefonemas da Inglaterra, Holanda, Austrlia e tambm da imprensa
americana. "Voc escreveu sobre a questo do sofrimento. O que tem a dizer a
respeito dessa tragdia?"
     Na verdade, no tinha nada a dizer. Os fatos eram to massacrantes, to
incompreensveis, que fiquei atordoado, em silncio. Qualquer coisa que me viesse 
mente para dizer -- horrvel... no ponha a culpa em Deus... vimos a face da
maldade... -- soaria como um cliche estril. Declinei todos os pedidos de resposta.
Como a maioria dos americanos, senti-me insuportavelmente desamparado, ferido e
profundamente entristecido.
     Na quarta, o dia seguinte aos ataques, me dei conta de que j tinha escrito muito
do que acredito a respeito do problema do sofrimento. Escrevi Deus sabe que sofremos
em 1977. Tinha 28 anos e nenhum direito de me atracar com questes de teodicia --
e tambm nenhuma capacidade para resistir. Afinal, nenhuma outra questo  mais
premente, que precise ser encarada com tanta urgncia por aqueles que se
identificam como cristos. Fiz uma reviso do livro em 1990, acrescentado cerca de
cem pginas e a perspectiva da Idade Mdia.
     Naquela noite enviei uma proposta por e-mail para minha editora, a Zondervan,
sugerindo que encontrssemos um jeito de distribuir esse livro pelo preo mais baixo
possvel, para o maior nmero possvel de pessoas. O ttulo do livro trazia, afinal, a
pergunta que todos os americanos faziam naquele momento. Eu abriria mo dos
direitos autorais e eles, dos lucros, como forma de contribuir para uma nao
pesarosa. Eles adotaram a idia com uma rapidez impressionante, pois j estava em
pauta a discusso sobre vrios "livros instantneos". Deixaram de lado esses livros e
decidiram pr todas as fichas em Deus sabe que sofremos, para coloc-lo na mo do
maior nmero possvel de pessoas. Recebi uma ligao na manh seguinte (na
quinta, dois dias depois da tragdia) informando que eles estavam se mobilizando
para uma edio especial.
     Na sexta-feira a Zondervan tinha 500 mil pedidos para uma edio nica, com
todos os lucros direcionados para o fundo das vtimas. Em resumo, foram vendidas
mais cpias em 24 horas do que nos 24 anos anteriores, O Wal-Mart solicitou 125 mil
                                                                                ~   46   ~
livros; as livrarias de aeroportos fizeram pedidos aos milhares. Os lojistas tambm se
sentiam desamparados e se agarraram  chance de oferecer um livro que pudesse
oferecer alguma perspectiva a respeito de questes que estavam consumindo seus
clientes. Contra todas as expectativas, a editora encontrou tempo e papel disponveis
para a impresso e, no sbado, quatro dias depois do ataque s torres gmeas, as
cpias estavam sendo impressas.
     Toda essa agitao, ocorrendo a tal velocidade e com resultados quase
instantneos, fizeram-me sentir consideravelmente menos desamparado. Logo recebi
a primeira reao de um leitor da edio especial. Disse que o regente de seu coro
tinha ido de carro da Flrida para a Carolina do Norte, a fim de ficar ao lado de um
membro da famlia que seria operado. Tinha planejado ir de avio, mas o
cancelamento dos vos depois do 11 de setembro o obrigara a ir de carro. Ele nunca
chegou l; morreu num acidente na estrada. Dentro de uma livraria, em lgrimas,
essa leitora notou meu livro sobre sofrimento e o comprou -- uma entre as muitas
pessoas que sofreram com os "efeitos colaterais" dos atos terroristas.
     Num dia liguei meu computador para ler um artigo extraordinrio de Gordon
MacDonald, pastor e escritor que tambm  um amigo, enviado por e-mail. Gordon,
que j tinha pastoreado uma igreja em Manhattan, desmarcou todos os
compromissos assim que ficou sabendo dos ataques e se voluntariou como capelo
no Exrcito de Salvao. Todas as noites, depois de um dia estafante no Ponto Zero,
ele registrava as vises e os sons e, sim, os cheiros com que ele e sua esposa, Gail,
tivessem se defrontado naquele dia.
     Liguei para Gordon para dizer-lhe como fora profundo o impacto que o artigo
exercera em mim, e quando ele soube que em breve eu estaria na cidade de Nova
York para uma turn do livro, insistiu que eu fizesse uma visita ao Ponto Zero e visse
com meus prprios olhos. Cinco minutos depois, ele retornou a ligao, dizendo que
arranjara tudo com os altos oficiais do Exrcito de Salvao.


A equipe do Exrcito de Salvao -- Deus os abenoe -- no conta com as pessoas
mais espertas do mundo em matria de publicidade. Gordon MacDonald me disse
que certos grupos sempre se certificavam de que as entrevistas para a mdia fossem
feitas com seus furges e logotipos aparecendo em destaque ao fundo, para as
cmeras de televiso. Tal pensamento jamais ocorreria a uma organizao com o
nome de Exrcito de Salvao.
     Sempre que falo para grupos do Exrcito de Salvao, brinco dizendo que, se
algum fizesse um campeonato para o nome de organizao mais paradoxal, eles
certamente ganhariam. Imagine a ruidosa juno de uma antiquada palavra teolgica
-- salvao -- com uma palavra militar -- exrcito. Mas, pelas minhas contas, esse
exrcito  hoje o terceiro maior exrcito atuante do mundo. Com disciplina e
comprometimento militares, eles se renem para trazer graa e cura a um mundo
desesperadamente necessitado.
     Tenho um lugar todo especial em meu corao para o Exrcito de Salvao
porque meu bisav se converteu a Cristo, saindo de uma vida de alcoolismo, numa
misso de resgate na Filadlfia conduzida pelo Exrcito de Salvao, Ele foi ao culto
                                                                                ~   47   ~
na igreja porque queria uma tigela de sopa, tendo ido  frente no apelo por pura
educao. Ele era o homem mais surpreso da Filadlfia quando a orao funcionou
de verdade. Depois daquela noite ele nunca mais ps uma gota de lcool na boca.
Passou o resto da vida se desculpando com os filhos, ento j crescidos, que tinham
sido vtimas de seus violentos repentes de alcolatra.
     Li alguma coisa sobre a histria do Exrcito, e adoro a deciso de William Booth
de formar uma igreja entre os "trofus da graa", os mendigos do leste de Londres,
quando nenhuma igreja tradicional os aceitava. Booth compreendeu, como poucos na
histria, que a verdade da graa de Deus, assim como a gua, escorre para a parte
mais baixa. Usando uniformes que mudaram pouco em um sculo, os soldados de
Booth arregaam as mangas e atendem s necessidades humanas mais bsicas.
     O Exrcito de Salvao pode apresentar disciplina e comprometimento militares,
mas talvez no a mesma preciso. Com a agenda bastante apertada, tinha conseguido
fazer os arranjos para um giro no Ponto Zero junto com o comissrio visitante da
Austrlia, mas ficamos esperando  toa por duas horas antes de o pessoal do ES
conseguir tratar da logstica e da papelada exigida para passarmos pelas barreiras de
segurana. Aquele "tempo desperdiado" me deu a oportunidade de conversar
informalmente com alguns dos salvacionistas que estavam servindo no Ponto Zero.
     Enquanto bebericava caf  espera de que algo acontecesse, encontrei o major
Carl Ruthberg, que normalmente estava alocado na Times Square. Depois da
tragdia ele trabalhou no consultrio do mdico. legista, o lugar para onde os corpos
e partes de corpos eram trazidos para identificao. O necrotrio estava equipado
com caminhes refrigerados de ltima tecnologia, alinhados ao lado de prateleiras de
ao e sacos pretos amontoados aos milhares. Duas semanas aps o atentado, apenas
5% dos corpos tinham sido encontrados. Um grupo foi encontrado intacto, de mos
dadas, mas isso era raridade. O resto permanecia soterrado debaixo de toneladas de
escombros ou tinham simplesmente evaporado devido ao calor.
     O rabino judeu enviado para o necrotrio disse que sua tradio no o preparara
para essa tarefa. Os judeus tm a prtica de ficar com o corpo desde a morte at o
sepultamento, e  por isso que os arranjos do funeral so feitos dentro de 24 horas.
No Ponto Zero, havia poucos corpos com os quais ficar. Quando estive l, duas
semanas inteiras haviam se passado e vrios milhares de corpos ainda estavam
faltando.
     O major Ruthberg me contou que os ces farejadores ficavam to desencorajados
que seus adestradores tinham de brincar com eles a fim de mant-los interessados;
eles se escondiam debaixo de cobertores para que os cachorros os "encontrassem". Os
cachorros faziam buscas durante um dia inteiro para encontrar, talvez, um pedao de
roupa, um cotovelo ou um pedao de pele. Eles cortavam as patas nas bordas afiadas
do ao e ganiam de frustrao porque,  semelhana dos humanos no trabalho de
resgate, tinham muito pouco para mostrar por seus esforos.
     Ele tambm me contou o que acontecia quando se encontravam evidncias de
que um bombeiro ou um policial tinha sido localizado -- talvez um distintivo, um
farrapo do uniforme, uma arma ou uma bota. Todo o maquinado era desligado, o
Ponto Zero se silenciava, e todos os bombeiros na cena formavam duas filas e
                                                                               ~   48   ~
ficavam atentos. Ento, os resgatadores que retiravam o uniforme, ou uma parte do
corpo, andavam, em silncio pelo meio das duas filas de bombeiros fazendo
saudaes, na direo do necrotrio. L envolviam o saco preto numa bandeira
americana e o colocavam numa ambulncia, que passava por outra fila de bombeiros
fazendo saudaes, acompanhados por batedores em motocicletas, com as luzes
piscando, mas ainda em silncio.
      "Estou trabalhando lado a lado com heris", disse o major. "E te digo que eles
amam a Deus. Eles podem ser detetives dures de Nova York, ou oficiais do FBI, mas
no necrotrio a ternura vem  tona. Eu me sinto privilegiado de estar ali, de
simplesmente oferecer uma palavra branda, um toque. Temos bem poucas histrias
de sobreviventes aqui, mas ns a contamos vez aps vez. Fico relembrando os
milhares que escaparam, em parte por causa de seus esforos, depois dos impactos.
Perdemos vrios milhares, mas poderia ter sido dez vezes mais do que isso.
Precisamos ter esse equilbrio, um lembrete de que alguns sobreviveram".
     Gordon MacDonald nos conta de quando entrou num antigo bar prximo ao
Ponto Zero, com todas as janelas quebradas, de forma que se podia ver por dentro.
Atrs de tudo estavam as garrafas de bebidas e os copos da forma que tinham sido
arrumados antes do dia da exploso. As mesas e as cadeiras estavam reviradas, com
grossas camadas de poeira e concreto pulverizado cobrindo todas as superfcies. No
espelho acima da bancada do bar algum escrevera o nome e o nmero de sua
brigada de incndio, depois adicionou a frase "uns saem correndo, ns entramos
correndo!".
     Passei a acreditar que esse lema capta a prpria misso do Exrcito de Salvao.
Salvacionistas como o major Ruthberg, e outros que conheci, no tem habilidades ou
treinamento incomuns que os distingam dos outros cidados. Eles tm, no entanto,
um firme compromisso de disparar para dentro de lugares que o instinto
naturalmente manda evitar, e l permanecer. Agem assim a despeito das
dificuldades.
     Como jornalista, s vezes divido as pessoas que entrevistei em "estrelas" e
"servos". As estrelas so as pessoas que colocamos nas capas de revistas e que
paparicamos: beldades, polticos, os ricos, os heris do esporte. Ns despejamos
ateno sobre eles apesar de, como descobri, muitos deles viverem vidas
atormentadas que nunca desejaria imitar. Tambm tenho entrevistado servos, que
levam ao p da letra a afirmao que Jesus sempre repetia, de que achamos nossa
vida ao d-la no servio de outros. Essas so as pessoas que me trouxeram de volta
para a f. E no Exrcito de Salvao encontro uma organizao inteira mobilizada
para pr esse esprito de servio em ao.
     Encontrei poucas "estrelas" no Exrcito de Salvao. Sim, existem capeles,
conselheiros para viciados e administradores com boas habilidades e excelente
treinamento. Mas por causa da crena e da cultura, o Exrcito de Salvao no acende
holofotes sobre essas pessoas. Como bons soldados, cada uma delas tem uma tarefa a
realizar, e a misso permanece sempre em foco, em vez das pessoas que cumprem
aquela misso.


                                                                               ~   49   ~
    Meu guia no Ponto Zero foi o tenente-coronel Damon Rader, irmo do general
Paul Rader. H quatro irmos Rader, e todos serviram de oficiais de ponta no ES:
um como mdico, outro como general, outro como telogo e o outro, Damon, como
missionrio na Zmbia.
    Foi assim que Gordon MacDonald descreveu Damon Rader em seu artigo:
         O coronel Damon Rader, nosso parceiro,  cada vez mais, a cada dia que
         passa, um deleite para ns. Quando entramos no carro para ir cidade, ele
         segura com firmeza o volante e comea a sussurrar uma orao que se
         funde  sua respirao. "O Senhor  nosso refgio e fortaleza, ajuda-nos,
         querido Deus, fortalece-nos.., faz de ns uma bno... ah, Deus, ajuda estes
         homens e mulheres". E durante o caminho, de tempos em tempos, eu o
         ouo resvalando numa frase de orao. Ele realmente entra e sai da
         presena de Deus. E no h nada forado nisso. Ele deu sua vida inteira
         para o Exrcito, perdeu a esposa nove anos atrs e lamenta imensamente
         essa perda. Estava na Zmbia desde 1959 e planeja voltar para l -- apesar
         de estar aposentado -- em janeiro, "assim que meu substituto naquele lugar
         colocar os ps no cho e sentir-se confiante de que est verdadeiramente no
         comando". Ele e realmente infatigvel. Com 62 anos tenho energia para
         encarar esses dias de 10 a 12 horas de trabalho, mas o observo bem de perto
         para ver se ele est suportando. E est! Ele tem uma palavra animadora e
         santificadora para cada um. Os velhos William e Catherine Booth ficariam
         orgulhosos de Damon; ele  de uma safra antiga e preciosa do Exrcito.
         Amo o cristianismo robusto deste homem.
Tambm passei a apreciar a encorajadora robustez do Exrcito. Vi mais sorrisos e
ouvi mais piadas informais no centro do Exrcito de Salvao do que veria ou ouviria
pelo resto do dia. Esses soldados trabalharam no necrotrio e serviram nas linhas de
frente em circunstncias que fariam bombeiros e policiais dures entrar em colapso.
No entanto, ao longo dos anos eles desenvolveram uma fora interior fundamentada
na disciplina, na comunidade e, acima de tudo, numa viso clara de quem estavam
servindo. O Exrcito de Salvao pode ter uma hierarquia de comando, mas cada
soldado sabe que est desempenhando seu papel para a audincia do nico. Como
algum me disse, os salvacionistas servem a fim de receber o prmio definitivo do
prprio Deus: "Muito bem, servo bom e fiel".


Quando finalmente conseguimos a permisso para passar pelas barreiras de
segurana, a rua tinha nova-iorquinos nos dois lados -- nova. iorquinos! --
carregando bandeiras com mensagens simples: "Ns amamos vocs", "Vocs so
nossos heris", "Deus os abenoe", "Obrigado". Gordon MacDonald disse que nos
primeiros dias uma multido se colocou em filas com mais de dez pessoas de
espessura,  meia-noite, dando vivas para todo veculo que passava. Os
trabalhadores estavam se alimentando daquele apoio do mesmo jeito que seus
veculos consumiam combustvel. Tinham bem poucas notcias boas num dia.
Encaravam a tarefa enormemente depressiva de remover toneladas e mais toneladas
                                                                                ~   50   ~
de ao retorcido, poeira compactada, equipamentos esmagados e vidros quebrados.
Mas cada vez que eles passavam pelas barricadas, viam uma multido de fs
torcendo por eles, como o tnel de animadoras de torcida pelo qual os jogadores de
futebol americano passam, relembrando-os de que toda a nao apreciava o servio
deles. Num furgo do Exrcito de Salvao com luzes piscando, atramos uma das
maiores torcidas entre todas.
     Moiss Serrano, o oficial do Exrcito de Salvao que nos guiava, era o diretor
interino para a cidade. Tinha assumido o cargo havia pouco mais de um ms antes
do choque dos avies. Ele trabalhava 36 horas seguidas e dormia quatro, 40 horas e
dormia seis, mais 40 horas e dormia seis. Ento tirava um dia de folga. Seu assistente
teve um colapso emocional logo no incio, no mesmo furgo no qual estvamos, e
talvez nunca consiga se recuperar.
     Muitos salvacionistas que encontrei vieram com urgncia da Flrida, membros
das equipes de furaces que mantm cantinas repletas e caminhes cheios de
suprimentos bsicos para enviar s cidades e vilas devastadas por furaces. Quando
os edifcios de Manhattan ruram, eles mobilizaram os caminhes e se dirigiram para
Nova York.
     O chefe da equipe me disse: "Para dizer a verdade, cheguei aqui na expectativa
de lidar com ianques, se voc entende o que quero dizer Em vez disso, tudo so
sorrisos e 'obrigado'".
     Os representantes do Exrcito de Salvao certamente o aconselhariam e orariam
com voc se quisesse, e no Ponto Zero os salvacionistas -- usando jaquetas vermelho-
brilhante com a insgnia "capelo" -- eram requisitados exatamente por esse motivo.
No entanto, eles estavam l para dar assistncia a necessidades humanas mais
bsicas: refrescar olhos que ardiam por causa da fumaa e fornecer hidratantes para
os que tinham os lbios ressecados, e protetores para as botas dos que andavam por
cima do metal aquecido. Eles operavam cabines de hidratao e cantinas com
petiscos. Ofereciam um lugar de descanso e preparavam na hora pratos com frango
fornecidos como cortesia pela Tyson. No dia da minha chegada, eles distriburam
1500 cartes telefnicos para que os trabalhadores ligassem para casa. A cada dia
serviam 7500 refeies. Eles ofereciam um osis de compaixo num deserto cheio de
destroos.
     Passamos por cinco barreiras, sendo a ltima conhecida por Zona Vermelha,
controlada por soldados americanos cumprindo a faxina militar "As coisas ficaram
mais rgidas por aqui", gritou nosso guia salvacionista, a fim de superar o barulho
das mquinas e dos geradores. "A nata de Nova York recebe treinamento em relaes
pblicas. O exrcito americano no". Quando nos aproximamos do Ponto Zero,
mudamos do furgo para um veculo aberto, semelhante a um carro de golfe.
Soldados usando mscaras de gs borrifavam com gua e desinfetante os pneus --
gua para combater partculas de amianto, desinfetante para combater os germes que
proliferam em torno de um cenrio de morte. Eles examinavam cuidadosamente a
identidade de cada pessoa e faziam acenos indicando que podamos prosseguir.
     Tinha estudado os mapas dos jornais, mas nenhuma representao
bidimensional poderia captar a escala de destruio. Por cerca de oito quarteires os
                                                                                ~   51   ~
edifcios estavam desertos, as janelas quebradas, pedaos pontudos de ao rasgavam
a rua por baixo, parando numa altura bem acima do cho. Milhares de escritrios
equipados com mquinas de fax, telefones e computadores estavam vazios,
recobertos por escombros. No dia 11 de setembro, as pessoas estavam sentadas ali
apertando teclas, fazendo ligaes, pegando uma xcara de cafe para comear o dia e,
de repente, deve ter parecido que o mundo estava chegando a seu fim.
     Os capeles tinham me avisado sobre o repugnante odor da morte, mas senti
principalmente o cheiro acre dos destroos que j estavam queimando havia duas
semanas. O ar estava limpo. Fiquei surpreso porque as ruas e caladas estavam
limpas, sem a cobertura de p. Os constantes borrifos, somados a duas tempestades,
tinham causado tal efeito.
     Estudei os rostos dos trabalhadores, uniformemente soturnos. No vi um nico
sorriso no Ponto Zero. Como poderia haver sorrisos num lugar assim? Nada tinha a
oferecer alm de morte e destruio, um monumento ao pior que os seres humanos
podem fazer uns aos outros.
     Vi trs barracas armadas num edifcio desocupado do outro lado das torres
gmeas: Policiais de Cristo, Bombeiros de Cristo e Saneadores de Cristo (este ltimo
uma obra de caridade que gostaria de apoiar). Os capeles do Exrcito de Salvao
me disseram que os policiais e os bombeiros tinham pedido dois cultos de orao por
dia, realizados no local. A Cruz Vermelha, uma organizao no sectria, perguntou
se os salvacionistas se incomodariam de cuidar disso. "Vocs esto brincando?  para
isso que estamos aqui!"


Enquanto falava com as pessoas da imprensa a respeito da edio especial de Deus
sabe que sofremos, inevitavelmente o entrevistador me
fazia a pergunta: "Bem, onde est Deus numa hora como essa?". As vezes, eu
contradizia as coisas perniciosas que outros porta-vozes cristos tinham dito a
respeito dos ataques, afirmando que estes eram o julgamento de Deus sobre a
America, trazendo confuso e culpa a um tempo que implorava por consolo e graa.
Falei da reao de Jesus a respeito das tragdias, especialmente em Lucas 13. E
normalmente contaria do homem que se aproximou de mim e disse; "Desculpe-me,
no
tenho tempo para ler seu livro. Voc pode me responder essa pergunta numa frase
ou duas?".
     Perplexo, pensei por um momento e disse: "Acho que a resposta a essa pergunta
e outra pergunta. Onde a igreja est quando sofremos? Se a igreja est cumprindo
sua tarefa -- tratando das feridas, consolando os pesarosos, oferecendo comida aos
famintos --, no acho que as pessoas vo ficar se perguntando tanto sobre onde Deus
est quando sofremos. Elas sabero exatamente onde Deus est: presente em seu
povo na terra".
     Gordon MacDonald tinha escrito em seu artigo o seguinte:
         E mais de uma vez, eu me perguntei -- como todos perguntam -- Deus est
         aqui? E cheguei  concluso de que ele est mais prximo deste lugar do

                                                                              ~   52   ~
          que qualquer outro lugar que tenha visitado, A estranha ironia e que, em
          meio a esta catstrofe absoluta de propores indizveis, h uma beleza na
          forma pela qual os seres humanos esto agindo, o que desafia a imaginao.
          Todos -- sublinhe isso, todos -- so irmos ou irms entre si. No h
          nenhum estranho entre os milhares no local de trabalho. Todos conversam;
          todos cooperam; todos fazem a prxima coisa que precisa ser feita.
          Nenhuma tarefa  pequena demais, humilde demais ou, por outro lado,
          grande demais. As lgrimas escorreram livremente, o a feto se expressou de
          forma mtua e aberta, a exausto foi desafiada. Todos ns deixamos de nos
          preocupar conosco mesmos. As palavras "no se trata de mim" nunca foram
          to verdadeiras.
   Nenhum culto numa igreja; nenhum santurio de igreja; nenhum culto
religiosamente inspirador j falou to profundamente  minha alma e testemunhou
da presena de Deus como aquelas horas na noite passada, no local da tragdia.
    Em todos os meus anos de ministrio cristo, nunca me senti to vivo como me
senti naquela noite. A nica vez que consigo me lembrar de ter sentido algo
semelhante foi a semana que Gail e eu trabalhamos no projeto Habitat para a
Humanidade, na Hungria. Mesmo amando tanto o ato de pregara Bblia, e outras
coisas que tenho tido o privilgio de fazer ao longo dos anos, estar naquela rua,
dando gua fresca para os trabalhadores, orando e chorando com eles, ouvindo suas
histrias, foi o mais prximo que j me senti de Deus. Mesmo que isso parea
melodramtico, continuo dizendo para mim mesmo: "Este  o lugar onde Jesus mais
quer estar".
    O presidente Bush citando o salmo 23 na Catedral Nacional, o gaitista da igreja de
Saint Paul na Manhattan de baixo tocando "Maravilhosa Graa" vezes seguidas em
sua gaita-de-foles, os trabalhadores do saneamento fazendo uma ligeira parada na
capela improvisada, os trabalhadores do Exrcito de Salvao espalhando graa, os
capeles confortando os que sofriam pela perda de pessoas amadas -- graas a eles,
ns sabemos onde Deus est quando sofremos.




                                    Um muulmano em busca
captulo catorze




Estamos cada vez mais acostumados s aes violentas dos islamitas radicais. Eles
matam missionrios batistas no Iraque, explodem trens na Espanha, jogam bombas
num clube noturno em Bali, atiram em soldados americanos no Afeganisto, fazem
refns nas Filipinas, planejam atos terroristas ao redor do mundo. Entretanto, at os

                                                                                ~   53   ~
ataques ao World Trade Center, os Estados Unidos estavam livres de atentados desse
tipo em seu territrio. Os acontecimentos daquele dia entraram na conscincia
nacional americana a golpes de marreta, como se fossem um meteoro vindo do
espao sideral.
     Todo meu trabalho cessou na manh do dia 11 de setembro de 2001. Como a
maioria dos americanos, fiquei preso em frente  televiso, observando o desenrolar
daqueles incrveis acontecimentos. Os primeiros relatos especulavam que cinqenta
mil pessoas tinham morrido nos ataques, uma estimativa que se provou
misericordiosamente alta.
     No dia seguinte ainda no consegui trabalhar. Sentei-me  mesa vendo uma
televiso porttil, ainda tentando absorver as notcias. Foi ento que, subitamente, o
fax se ps a funcionar, cuspindo a carta de uma pessoa com a qual nunca me
encontrei, um paquistans que vive nos Estados Unidos. A carta fornece um foco
pessoal para um conflito normalmente discutido em carter global, e tambm prope
um importante desafio para a igreja. Para mim, tudo o que estava acontecendo no
mundo passou a ter uma colorao diferente por causa dessa carta.


12 de setembro de 2001
Caro sr. Yancey

        Considerando a terrvel tragdia que aconteceu ontem nesta nao, no sei
        se  uma poca apropriada para escrever a respeito de questes pessoais.
        Mas, talvez por causa do que aconteceu, penso que deveria escrever essa
        carta, porque agora estou convicto de que existe o mal neste mundo.
        Durante os ltimos meses tenho feito minha prpria busca espiritual, a
        procura de um Deus de amor e de bondade. Sei que o senhor deve ser uma
        pessoa extremamente atarefada e eu sou apenas um cara comum, mas
        espero que o senhor encontre tempo para ler esta carta.
            Por que estou escrevendo para o senhor? Porque depois que li seus livros,
        fiquei com a sensao de que o senhor tem um corao muito gentil, algum
        que realmente tem uma idia boa e verdadeira sobre o que  a essncia do
        cristianismo (que obviamente no  o legalismo).
            Tendo crescido no Paquisto, era um muulmano moderadamente
        religioso, mas nem em pensamento um muulmano rigoroso. Sempre tive
        um profundo desgosto e desconfiana com respeito ao sistema islmico de
        l, por causa da hipocrisia e do fanatismo. Mas sempre tive uma boa viso
        da f islmica em si (apesar de nunca ter feito nenhum estudo detalhado
        dela, e soubesse apenas o que me ensinaram nos livros escolares e na
        mesquita).
           Vim para os Estados Unidos em 1999, para fazer ps-graduao. Nos
        ltimos meses, alguns acontecimentos em minha vida me fizeram pensar
        em Deus. Um amigo meu teve um tumor cerebral, e isso me causou imensa
        dor, fazendo-me buscar pela resposta ao "por qu". Ento comecei a fazer
        algumas pesquisas dentro de minha religio. Li alguns livros a respeito do
                                                                                ~   54   ~
          profeta Maom e da f islmica, escritos por estudiosos ocidentais (alguns
          pareciam ter um vis, mas outros pareciam no ter nenhum envolvimento
          pessoal). Fiquei realmente chocado ao descobrir uma srie de coisas a
          respeito de minha religio que nunca soube pudessem fazer parte dela.
          Tinha uma imagem muito idealizada de minha religio e ela se fez em
          pedaos. Eu me senti, e ainda me sinto, trado e machucado. Numa
          sociedade fechada como a do Paquisto, ningum consegue realmente ter
          uma viso sem vis da f islmica, pais, de acordo com a lei, qualquer tipo
          de crtica ao islamismo  passvel de morte. E certamente no tinha pensado
          sequer uma vez na f crist l no Paquisto, embora haja uma srie de
          pontos comuns entre o islamismo e o cristianismo.
    medida que descobria essas coisas no to aceitveis sobre a f islmica, percebi
que estava sendo atrado para a f crist, sem motivo aparente (uma vez que
ningum jamais tentou conversar comigo a respeito dela ou me convencer por
qualquer meio). E o que  meio desconcertante  que esse interesse no cristianismo
realmente surgiu do nada. Assim, tentei ler algo a respeito disso, mas logo percebi
que precisava conversar com algum. No sabia de nenhuma igreja nem de nada.
Ento simplesmente liguei para um pastor batista e fui encontr-lo. Nos ltimos
meses eu me encontrei regularmente com ele, e a cada encontro fazia-lhe uma srie
de perguntas, e ele me dava alguns livros para ler. Li tambm uma srie de outros
livros: de Hans Kng (telogo alemo), C. S. Lewis, Peter Kreeft, Ravi Zacharias,
Billy Graham, Max Lucado, Lee Strobel e outros. Enquanto aprendia mais sobre a f
crist, percebi que ela realmente no  to simples quanto algumas pessoas pensam.
   Para um muulmano, ficar to interessado na f crist e de fato impensvel. Veja
bem, numa cultura como a paquistanesa, a religio no  apenas uma coisa pessoal.
Faz parte de tudo. Integra a vida social e familiar. Ningum nem mesmo imagina
desistir da f islmica; e simplesmente impensvel. Por isso, enquanto estava fazendo
todas essas pesquisas sobre o cristianismo, no tive coragem de contar para minha
famlia no que estava metido. Comecei a evitar conversas com minhas duas irms e
com meus pais no Paquisto. Mas em um ou outro momento dava algumas dicas,
contando-lhes gradualmente tudo o que estava fazendo. E minha famlia, em especial
minha me, ficou muito amargurada. E  por isso que estou passando por tantas
coisas dolorosas, porque amo realmente minha famlia tanto que no desejo magoar
ningum.
    Mas h muitas coisas sobre o islamismo, que no consigo sequer fingir que as
aceito de corao. No tenho mais uma religio, eu a perdi completamente. Acredito
de fato em Deus, mas no acho que posso dizer que continuo sendo muulmano de
corao. E isso tem sido devastador, em especial para minha me. Meus pais esto
me visitando nos Estados Unidos nestes dias, e j tive vrias discusses sobre religio
com eles. J conversamos sobre questes como o conceito de salvao no Isl (que 
por meio de atos) e o conceito cristo. Eles acham completamente ridculo o conceito
de um salvador e de uma pessoa morrendo pelos pecados de outra -- que tudo o que
se deve fazer  crer nesse salvador e que as obras no lhe daro a salvao. Para ser
honesto, tambm acho esse conceito um tanto estranho.

                                                                                 ~   55   ~
   Eles simplesmente acham muito estranho a afirmao de que no h categorias de
pecado, que pecado  pecado, que no h pecado maior nem menor, que, de acordo
com Jesus, o dio e to grave quanto o assassinato. Eles me perguntam com a maior
naturalidade: "Voc est louco, ou coisa parecida, para ficar dizendo coisas desse
tipo?". Conversamos sobre a suposta impreciso e corrupo da Bblia. O Isl no
acredita no nascimento virginal de Jesus, mas diz que ele era um profeta de Deus,
nada mais. Tambm que ele foi levantado por Deus e no foi crucificado -- os judeus
s pensaram que o tinham crucificado. O Isl acredita at mesmo na segunda vinda
de Jesus.
   Eu me descubro defendendo as crenas crists, contra a minha famlia.
Argumento dizendo que a crucificao  um fato histrico. E como  possvel que
algum to especial a ponto de nascer de uma virgem e que at mesmo voltaria para
o mundo, seja apenas um profeta de Deus e nada mais? Levantei objees contra a
prpria imagem sensual do cu no Alcoro (que diz que as pessoas no cu obtero
belas virgens e coisas desse tipo) e as comparei com a viso bblica de que o cu 
somente uma reunio com Deus, enquanto o inferno e basicamente a separao de
Deus. Tambm discutimos sobre uma srie de outras coisas.
   Mas a descoberta mais dolorosa para mim a respeito da f islmica foi o conceito
de militncia. Costumava pensar que esses fanticos eram apenas pessoas mal
informadas que sujam o nome do Isl.  certo que o Isl no permite matar mulheres
e crianas inocentes, mas, como descobri, seus ensinamentos so bem diferentes dos
de Jesus, que deseja que voc de a outra face. O Isl diz que e muito melhor perdoar,
mas voc tem um direito legtimo de se vingar Jesus insiste no perdo de forma
absoluta.
   Meu entendimento  que, de acordo com a f crist e as palavras de Jesus, o
perdo de nossos pecados est condicionado ao perdo que damos a outras pessoas.
Nesse aspecto, seu livro O Jesus que nunca conheci foi bastante elucidativo, como
tambm o livro teolgico On being a christian [Sobre ser cristo], de Hans Kng. Como
agora sei, a violncia tem um forte precedente no Isl, e o Alcoro realmente encoraja
a guerra em algumas circunstncias, quando nem todas exigem a guerra defensiva. 
medida que fazia minhas recentes leituras do Alcoro e de suas explicaes, e da
histria da vida do profeta Maom, descobria que o conceito de dominao poltica
pela fora predomina fortemente. E a terrvel tragdia que aconteceu neste pas
ontem -- parece-me que  a conseqncia lgica dos ensinamentos de que est tudo
bem se voc devolver na mesma moeda, que voc est obrigado a garantir a vontade
de Deus por meio da guerra, se necessrio. Aqui poderia estar enganado, mas acho
que  isso o que acontece quando se tenta garantir a vontade de Deus neste mundo
terreno em vez de acreditar que seu Reino no  deste mundo, mas de outro.
   Percebo que coloquei meus pais numa situao extremamente dolorosa. Minha
me est muito angustiada. Ela fica me implorando para no abandonar minha f. Eu
a amo tanto... No consigo expressarem palavras quanto a amo. E ela me ama ainda
mais do que isso. Mas eu simplesmente no sei o que fazer, Como posso forar meu
corao a crer em algo que no me parece certo? Parece que estou entre a cruz e a
espada. Ainda tenho uma srie de questionamentos sobre as crenas crists, mas
                                                                                ~   56   ~
agora sei que, se decidir me converter, estarei trazendo uma quantidade imensa de
tristeza. E essa  a ltima coisa que quero fazer. Seria como desistir de tudo aquilo
com que fui criado. Meus parentes ficariam chocados e escandalizados e me
colocariam no ostracismo. Alm disso, minha condio legal neste pas expira no ano
que vem. Considerando minha atual viso do Isl e minha viso simptica e
favorvel ao cristianismo, no consigo me imaginar voltando ao Paquisto. Seria
simplesmente impossvel. Mas como faria para permanecer aqui neste pas? O senhor
acha que tem um jeito?
    O senhor acha que eu encontraria amigos amorosos e de mente aberta na igreja?
Seria razovel dizer que algumas pessoas levantariam a guarda e no desejariam se
relacionar com algum que pertence a uma cultura asitico-indiana diferente?
Algum que tem cor de pele diferente e fala com sotaque?
    Minha me veio para c me visitar com grandes esperanas de arranjar meu
casamento aqui com algum de nossa cultura. Mas que moa de nossa cultura
consegue imaginar casar-se com algum que no  mais muulmano?
             Golpeei as esperanas de minha me, sinto que a estou decepcionando.
          Acima de tudo, ela est extremamente angustiada com o lato de que,
          conforme os ensinamentos islmicos sobre o Alcoro, qualquer um que
          abandonar o Isl e se convertera outra f queimar para sempre no inferno.
          Ela diz que no consegue nem comeara pensar nisso. E eu consigo
          imaginar a dor dela.
            Eu mesmo estou experimentando dor e uma imensa confuso. Minha
         famlia acha que fiquei meio louco. No sei, talvez eles estejam certos. Tenho
         certeza de que se decidir me converter vou sofrer uma srie de
         conseqncias, No consigo prever o que vai acontecer, j que o fato de
         algum se converter a outra f  totalmente sem precedentes em minha
         famlia e entre as pessoas que conhecemos, Mas ento penso nas palavras de
         Jesus; "De que adianta ganhar esta vida e perder a vida que realmente
         importa?", Mas veja, no se trata apenas de minha vida. Tenho o direito de
         magoar tanto meus pais, que me criaram com tanto sacrifcio e devoo?
         Realmente estou muito confuso, muito perdido. Por favor, diga-me o que
         fazer.
           Deus o abenoe.



Tenho me correspondido com o autor dessa carta desde ento. Ele ainda est
dividido entre a crena intelectual e a emocional -- a ruptura que isso causaria em
sua famlia caso se converta ao cristianismo.




                                                                                 ~   57   ~
                                         Por que eles nos odeiam?
captulo quinze




Aps o 11 de setembro e duas guerras subseqentes, os americanos tem leito essa
pergunta a respeito dos muulmanos. O presidente Bush formulou a pergunta em
tom de perplexidade. Ns, americanos, pensamos ser generosos, otimistas e justos,
por isso  chocante perceber que inspiramos um dio forte o suficiente para incitar
assassinatos em massa.
     Os resultados de um levantamento feito por uma agncia de pesquisa sublinham
o abismo existente entre a percepo dos americanos e a do resto do mundo.
Enquanto apenas 18% dos americanos consideraram "as polticas e atuaes dos
Estados Unidos no mundo" o principal motivo dos ataques terroristas contra ns, em
outros lugares esse quadro se elevou para 58%, chegando a 81% no Oriente Mdio.
      Recentemente assisti a uma mesa-redonda na qual especialistas internacionais e
luminares americanos trataram da pergunta "Por que eles nos odeiam?". Um
consultor de administrao britnico e um historiador americano ganhador do
prmio Pulitzer responderam com uma atitude que beirava a resignao: "Qu3l  a
novidade? Os outros sempre ficam ressentidos com os que esto no topo. Olhe para a
histria dos imprios, os que tem posses contra os despossudos".
      Para minha surpresa, o nico paquistans no debate defendeu os Estados
Unidos. "Somente os americanos poderiam convocar um debate como esse", disse ele.
"Veja o que os imprios francs e britnico fizeram. Quando seus sditos os
criticaram, eles os aprisionaram ou atiraram neles. Onde quer que eu v, vejo
americanos tentando aprender mais a respeito do Isl e esto examinando de forma
crtica seu prprio pas. Isso me impressiona". Ele tambm observou que os
terroristas tiveram que lanar o ataque em solo americano porque os Estados Unidos
no ocupam outros pases, uma poltica que ironicamente o terrorismo mudou.
     Uma professora universitria americana fez uma analogia para a qual muitos
menearam a cabea em concordncia. Ela citou um de seus colegas, que tinha parado
de namorar alunas da graduao. Ele disse: " como dar ajuda para um pas do
Terceiro Mundo. Voc faz tudo por eles, e depois eles acabam te odiando".
     Por outro lado, os participantes citaram exemplos que davam algum sentido ao
dio dos muulmanos. Os diplomatas mencionaram a poltica americana no Oriente
Mdio; ns, afinal, somos os fornecedores de metralhadoras para helicpteros e
avies de caa usados pelos israelenses contra os palestinos.
     Um debatedor mencionou a sndrome de SOS Malibu. Essa longa srie de
televiso, que mostra homens musculosos e beldades exibindo seus corpos nas praias
da Califrnia, tomou o lugar de Dallas como srie de televiso americana mais
exportada. "Somos atrados por aquilo que mais tememos", disse um compenetrado

                                                                              ~   58   ~
debatedor muulmano. "Imagine o que a decadente cultura americana representa
para um jovem muulmano que, fora de sua famlia, jamais viu o joelho de uma
mulher, ou nem mesmo seu rosto."
     Num de seus livros, o socilogo francs Jacques Ellul notou a tendncia
paradoxal de que o evangelho cristo tende a produzir valores na sociedade que
contradizem diretamente o evangelho. Internacionalmente, os Estados Unidos so
conhecidos por sua grande riqueza, poderio militar e liberalidade sexual -- todas as
trs vo diretamente contra o ensinamento de Jesus.


Quando Samuel Huntington levantou pela primeira vez o espectro de um "choque
de civilizaes", muitos especialistas receberam sua profecia com zombaria. No
muito tempo atrs, a maioria das naes islmicas estava lutando a favor de um
estado secular. Agora os fundamentalistas esto em ascendncia, resistindo
vigorosamente a alguns dos valores cardinais do Ocidente: direitos humanos,
democracia, igualdade sexual, capitalismo, viso de mundo cientfica, pluralismo
religioso.
     A maioria dos americanos entende a diferena entre um cristo comprometido,
que aceita Jesus como modelo de vida, e um "cristo aculturado", que por acaso mora
num pas de herana crist. Nem todas as pessoas nos outros pases conseguem fazer
essa distino. Boa parte do mundo tira concluses a respeito do "Ocidente cristo"
assistindo a MTV, SOS Malibu e filmes violentos. Os muulmanos chamam as armas
nucleares de "a bomba dos cristos". (Quando perguntaram a Mahatma Gandhi se ele
permitiria que seus filhos se tornassem cristos, ele respondeu: "Sim, desde que eles
no bebam usque nem comam carne" -- at mesmo ele identificava o cristianismo
com a cultura europia, que permitia o que era proibido para os hindus.)
     Talvez os cristos americanos devessem prestar mais ateno ao "choque de
civilizaes" que acontece mais prximo de casa, o conflito inevitvel entre dois
reinos que se sobrepem. Vivendo em meio ao decadente Imprio Romano, h cerca
de 1600 anos, Agostinho de Hipona fez uma distino crucial entre a "cidade de
Deus" e aquilo que chamou de "cidade dos homens". Ns possumos dupla
cidadania, disse ele, e devemos pesar cuidadosamente se a lealdade a uma delas 
conflitante com a lealdade  outra.
     Algumas pessoas nos Estados Unidos julgam o sucesso de nosso pas por
medidas tais como Produto Interno Bruto, poderio militar e domnio mundial. O
Reino de Deus mede coisas como o cuidar dos oprimidos e o amor pelos inimigos.
No podemos nos esquecer de que a parbola de Jesus em Mateus 25, a das ovelhas e
dos bodes, apresenta o julgamento das naes. Na contagem final, Deus julga as
naes pela forma com que tratam os pobres, doentes, famintos, estrangeiros e
prisioneiros.
      Enquanto o governo dos Estados Unidos trava uma guerra contra o terrorismo,
talvez ns, cristos, devssemos lanar nossa prpria guerra particular -- no contra
os terroristas, mas contra as condies que facilitam seu surgimento. Podemos
aumentar nossas doaes a organizaes como a Fraternidade Brasileira de
Assistncia aos Condenados e International Justice Mission [Misso Internacional de
                                                                               ~   59   ~
Justia], que dramatizam ao redor do globo as lies de Mateus 25; e para a Viso
Mundial e o Exrcito de Salvao, que mostram os "valores ocidentais" sob uma luz
diferente; e para o International Students [Estudantes Internacionais], que trabalha
para fazer conexes entre estudantes internacionais e hspedes cristos. Quo
diferente seria a viso que o mundo tem de ns caso se associasse o Ocidente com a
"sndrome de Jesus", em lugar da "sndrome de SOS Malibu")



                                                   A grande partilha
captulo dezesseis




Por mais de uma dcada os americanos tm assistido na televiso a turbas de
muulmanos gritando, exigindo a "morte do Grande Sat", enquanto queimam
bonecos representando nossos presidentes. A geografia dos protestos muda --
primeiro no Ir e na Lbia, depois no Lbano, e ento em lugares como Iraque e
Afeganisto -- mas o fervor e o mesmo. Alguns religiosos fanticos nesses lugares
sinceramente nos desprezam.
     A maioria dos americanos no sabe o que fazer com essas cenas. Nossos lderes
polticos, para ns, parecem mais com aquele tio preferido do que com tiranos. O
rtulo "Grande Sat" causa uma exasperao toda especial, pois pensamos nos
Estados Unidos como um pas cristo, bem mais devoto do que, digamos, a Europa
Ocidental. Pelo menos ainda vamos  igreja. Como algum pode pensar que somos
pagos?
     Uma nova grande partilha se iniciou entre as duas maiores religies do mundo,
cristianismo e islamismo. No sculo passado ns nos acostumamos tanto 
polaridade entre o comunismo e o capitalismo a ponto de esquecer que o mundo
ocidental j esteve obcecado com uma polaridade religiosa. Cabe a ns promover o
entendimento mtuo para que no descambemos para outro conflito de 800 anos de
durao.
     As crticas islmicas ao Ocidente sempre tm o centro na embolorada palavra
materialismo. Quando essa palavra descreve a busca pelo enriquecimento e confortos
para os consumidores, poucas naes arbicas desaprovam: graas aos rendimentos
do petrleo, o Golfo Prsico  uma das regies mais ricas do mundo. Mas o
materialismo tambm se refere a uma abordagem filosfica, a crena de que a vida
humana consiste principalmente (ou simplesmente) naquilo que tem lugar aqui e
agora, no mundo da matria.
     Os discpulos do Isl tendem a considerar excessiva a preocupao do Ocidente
com esta vida, e no com a eternidade por vir. Uma das razes pelas quais Saddam
Hussein apostou numa invaso ao Kuwait  que ele duvidava que o Ocidente, e os
                                                                              ~   60   ~
Estados Unidos em particular, estivesse dispostos a arriscar a vida de milhares numa
guerra. Como contraste, o conflito entre o Ir e o Iraque j tinha provado que
centenas de milhares de muulmanos fieis morreriam alegremente num "martrio
glorioso" pela promessa de passar instantaneamente ao paraso. Na seqncia, a
Europa e os Estados Unidos tm aprendido, ao lado de Israel, que realmente no h
nenhuma defesa infalvel contra os homens-bomba suicidas.
     Numa ironia da histria, o Isl cooptou a palavra mrtir. Os primeiros cristos
prevaleceram sobre Roma porque optaram pelas recompensas eternas, em vez da
mera sobrevivncia fsica. Recusaram-se a renunciar  f, e o sangue dos mrtires se
transformou na semente da igreja. (H uma diferena central: os cristos estavam
morrendo nas mos dos romanos, em vez de matar outras pessoas.) Hoje em dia
ouvem-se bem poucas conversas no Ocidente a respeito de recompensas eternas e
muita conversa a respeito de manter a morte a uma distncia segura. Jovens rabes
que estudam nos Estados Unidos saem daqui impressionados, e freqentemente
escandalizados, com a quantidade de energia que investimos na vida fsica. Faa um
levantamento dos mostrurios de revistas numa banca perto de sua casa, contando os
ttulos devotados  musculao, dieta, moda e mulheres nuas -- todas elas emblemas
da importncia que damos  materialidade.
     Puritano  outra palavra crist cooptada pelas sociedades islmicas. Enquanto
lutavam nas duas Guerras do Golfo, pela primeira vez na histria recente, os
soldados americanos tiveram que se virar sem o lcool e a Playboy, em respeito ao
rigoroso cdigo islmico dos pases que cederam bases para os militares. Poucos
deles perceberam, entretanto, que a diferena nos padres morais entre o Isl e o
Ocidente  filosfica, no puramente cultural.
    Ao determinar a moralidade, a sociedade americana tende a aplicar o princpio
fundamental: "Isso fere algum?". Portanto, a pornografia  lega], mas no se
envolver violncia explcita ou crianas molestadas. E legalmente permitido ficar
bbado, desde que no se quebre a janela dos vizinhos ou dirija um carro, pondo
outros em perigo. Tudo bem em exibir violncia na televiso, porque todo mundo
sabe que so personagens fazendo encenao.
    O padro de medida da moralidade trai nosso materialismo implcito. Enquanto
definimos "ferir" no sentido mais fsico, as sociedades islmicas a enxergam em
termos mais espirituais. Nesse sentido mais profundo, o que poderia ser mais danoso
do que, digamos, divrcio ou a pornografia, a violncia como divertimento, ou
mesmo a representao cnica da maldade banalizada nas novelas da televiso? E
olhando a partir dessa perspectiva que os Estados Unidos ganharam a reputao de
"Grande Sat".
    O mesmo materialismo se demonstra por meio de nossos mtodos preferidos de
punio. Os americanos se escandalizam com as "brutalidades" islmicas, tais como
decapitaes, espancamentos pblicos e ladres com mos amputadas. "Como eles
conseguem ser to cruis?", ns nos perguntamos. Mas ns trancafiamos
adolescentes em celas abarrotadas com criminosos perversos; ser que em algum
momento ponderamos sobre o que acontece na alma deles? "No temam os que

                                                                              ~   61   ~
podem matar o corpo mas no podem matar a alma", advertiu Jesus. E mais uma vez:
" melhor perder uma parte do corpo do que o corpo inteiro e ir para o inferno".


O escritor italiano Umberto Eco [O nome da rosa, O pndulo de Foucault] escreveu um
fascinante relato de uma viagem pela America, intitulado Travels in hyperreality
[Viagens na hiper-realidade]. Ele tambm saiu daqui impressionado com nosso
materialismo bsico. Os americanos do substncia a seus mitos, observou ele. Os
gregos antigos celebravam seus heris em canes e poesias ao redor de fogueiras; os
americanos trocam apertos de mo com eles, vestidos com roupas felpudas na
Disneylndia.
     Os programas religiosos na televiso intrigaram Eco: "Se voc acompanhar os
programas religiosos na televiso no domingo de manh, passar a compreender que
Deus somente pode ser experimentado como natureza, carne, energia e imagem
tangvel. E uma vez que nenhum pregador ousa nos mostrar Deus na forma de um
manequim barbado, ou como um rob da Disneylndia, Deus somente pode ser
encontrado na forma da fora natural, alegria, cura, juventude, sade e prosperidade
econmica". Onde est o mysterium tremendum, Eco perguntou a si mesmo; onde est
o Deus santo, numinoso e inefvel?
     Devo confessar que, dentre as grandes religies mundiais, o islamismo  a mais
difcil para eu entender e apreciar. Acho a doutrina pouco convincente e o fanatismo
aterrorizante. Mas as questes levantadas pelo islamismo deveriam inquietar os
cristos do Ocidente. O Isl tem, acima de tudo, acalentado a crena em um Deus
santo, numinoso. Tambm tem alimentado uma profunda lealdade  vida espiritual e
imortal, no apenas a material e mortal. Ns, os "infiis", temos de aprender algumas
lies.


          O que os outros pensam  importante?
captulo dezessete




Durante a Guerra contra o Iraque ouvi uma pessoa que ligara para um programa
cristo de rdio sugerir: "Por que a gente no pe abaixo o prdio das Naes Unidas
em Nova York e reconstri o World Trade Center no lugar?". O ncora do programa
concordou entusiasticamente. Durante a hora seguinte houve uma enxurrada de
zombarias a respeito da Frana, da Alemanha e de outras naes que tinham objees
"covardes"  guerra, ao mesmo tempo que desprezavam sem pestanejar todos os
interesses rabes. Os Estados Unidos -- e o que parecia estar implicado -- tm o
direito, at mesmo o dever, de sair sozinho e restabelecer a ordem ao mundo.


                                                                               ~   62   ~
     Por viajar com freqncia para o exterior, fico impressionado com a diferena
entre a percepo que os americanos tm de si mesmos e a percepo que outros
pases tm de ns. Alguns dos que vivem fora dos Estados Unidos nos consideram
arrogantes, egostas, decadentes e negligentes. Julgam os valores americanos pelo rap
e pelos programas de televiso, boa parte dos quais glorifica o sexo, riqueza e
violncia. Eles sabem que as Foras Armadas americanas possuem mais armas de
destruio global que todos os outros exrcitos juntos. E eles percebem que a nao
mais rica do planeta contribui com apenas a metade do valor da contribuio
europia para a ajuda internacional.
     O extravasamento de simpatia depois do 11 de setembro demonstrou que os
Estados Unidos, com todas as suas falhas, ainda conseguiram atrair um grande
reservatrio de boa vontade. "Somos todos americanos agora", proclamou a
manchete de um jornal. O fato de esse jornal ser o de maior circulao na Frana
mostra o quanto dessa boa vontade j se dissipou desde ento.
     Ouvi um ex-embaixador americano no Paquisto, um devotado amigo da
Amrica, expor a situao da seguinte forma: "Nos dias da guerra fria, havia dois
gigantes no palco -- um gigante bruto e um gigante gentil. Agora h apenas um
gigante, e tememos que esteja se tornando um bruto".
     Mesmo nossos aliados mais prximos vem os Estados Unidos como uma nao
solitria que desconsidera os tratados que no servem a seus interesses. Voltamos
atrs no Protocolo de Kyoto, Lei do Mar, Tribunal Criminal Internacional, assim
como nos tratados que controlam as minas terrestres e armas qumicas. As pessoas ao
telefone naquele programa de entrevistas repetiram algumas dessas desistncias com
orgulho. "Quem precisa do resto do mundo?", perguntou uma pessoa.
     Bem, ns precisamos do resto do mundo, como a guerra no Iraque deixou claro.
Quando a televiso transmitiu o abuso cometido pelo Iraque contra os prisioneiros
de guerra americanos, ns apelamos  Conveno de Genebra. Quando os rumores
sobre as armas qumicas se espalharam, ns ameaamos instaurar um tribunal
internacional de crimes de guerra.  medida que os custos da reconstruo se
multiplicaram, ns nos voltamos para os outros pases em busca de ajuda para aliviar
o dbito iraquiano.
     Espero e oro, pedindo que nossa presena militar no Oriente Mdio leve 
estabilidade na regio e reduza o terrorismo ao redor do globo. Temo exatamente o
oposto, que semear o vento nos leve a colher tempestades.
     Um amigo meu que viajou para a Malsia trouxe de l um recorte de jornal com
o discurso do primeiro-ministro daquele pas. "Neste exato momento no podemos
fazer nada para impedir que os Estados Unidos faam o que bem entenderem",
admitiu o lder malaio. "O poder deles  grande demais. Nossa nica esperana 
produzir nossas prprias armas, nossa prpria 'bomba islmica'. Ento poderemos
enfrentar o gigante."
     Minhas preocupaes se originam em parte das discusses com o grupo de
cristos conservadores mais enervados por causa do antiamericanismo: os
missionrios. Eles suportam o impacto da opinio mundial e, s vezes, pagam por
isso com a prpria vida. Um deles escreveu: "Os rabes esto interpretando a guerra
                                                                               ~   63   ~
contra o Iraque corno uma agresso crist contra um pas islmico. Essa falsa
percepo est to profundamente arraigada entre os rabes, que isso corri qualquer
percepo do cristianismo como uma mensagem de amor e paz".
     No papel da nica superpotncia mundial, os Estados Unidos carregam uma
profunda responsabilidade de liderana. s vezes precisamos usar a fora, s vezes
precisamos nos refrear. As vezes precisamos agir contra a opinio mundial.
Entretanto, o conhecido psiquiatra M. Scott Peck, autor de livros como A trilha menos
percorrida e O povo da mentira, faz uma observao intrigante:
          notvel que duzentos anos atrs essa nova nao no gastava
         virtualmente nenhum dinheiro ou energia na tentativa de controlar o
         comportamento de outras naes do mundo. Mas, uma a uma, quase dez
         em dez, as pessoas de outras naes seguiram nosso exemplo espiritual e
         poltico, na busca das mesmas liberdades para si mesmas.  difcil ignorara
         concluso de que, desde aquele tempo, nossa liderana poltica e espiritual
         declinou na proporo inversa do aumento da quantia de dinheiro e esforo
         que despendemos para manipular outros pases... Eu fico pensando, se ns
         nos Estados Unidos nos concentrssemos -- como nossa prioridade
         inquestionavelmente dominante-- em fazer de nossa sociedade a melhor
         sociedade que podemos ser, se as naes do mundo poderiam uma vez
         mais, sem qualquer presso que no a influncia do exemplo, comear a nos
         imitar.




       Abrao, Jesus e Maom em Nova Orleans
captulo dezoito




Ocasionalmente sou convidado para ajuntamentos incomuns como conseqncia de
meus escritos. Um dos mais memorveis teve lugar em Nova Orleans, a convite do
psiquiatra M. Scott Peck. Ele defende a teoria de que o processo de construo de
uma comunidade deve ser precedido pela resoluo das discordncias, e ele juntou
trinta pessoas dspares a fim de testar essa teoria,
     Peck reuniu dez cristos, dez judeus e dez muulmanos, um microcosmo
representando a discordncia mais irascvel da civilizao ocidental. A questo
central que lanava sua sombra sobre ns era: "As pessoas que fazem afirmaes
fundamentalmente diferentes a respeito da verdade conseguem conviver sem se
matar?". Ns nos reunimos num centro de retiros catlico no fim de semana anterior
ao carnaval. (Tente explicar as razes crists desse surto de bebedeira e sexo para os

                                                                                ~   64   ~
seguidores de outra religio.) Durante trs dias ns discutimos, digamos, todo tipo
de assunto.
     Certas diferenas culturais logo vieram  tona. Scott Peck conduz suas oficinas
de construo de comunidades seguindo uma frmula que depende de afirmaes
introspectivas comeando por "eu" e compartilhamento pessoal Os judeus
responderam calorosamente a essa abordagem. "No se esqueam de que ns
inventamos a psicoterapia", brincou um rabino. Os participantes muulmanos, no
entanto, mostraram pouco entusiasmo. Um imame tentou explicar: "Ns temos uma
averso cultural  psicoterapia. Raramente se ouvir um muulmano falar a respeito
de problemas pessoais. Apenas no acontece".
     Por conseqncia, ns, os cristos, freqentemente nos achvamos de lado na
discusso, observando os muulmanos reagir aos autoquestionamentos
contemplativos dos judeus com pronunciamentos rgidos de verdade absoluta. Estes,
por sua vez, provocavam mais afirmaes dos judeus que comeavam com "eu", e
mais pronunciamentos dos muulmanos. Na verdade, foi cmodo ficar de lado; os
cristos no tm uma histria muito boa com essas religies, e preferi sem hesitao
esse novo papel de mediador entre os pogroms3 e as cruzadas do passado.
     Aprendi uma nova palavra em Nova Orleans, suplantacionismo, que me ajudou a
entender a aparente segurana dos muulmanos. Os judeus se ressentiam da noo
de que a f crist tinha suplantado o judasmo. "Sinto como se fosse uma curiosidade
histrica, como se minha religio devesse ser colocada num asilo de velhinhos", disse
um. "Fico irritado s de ouvir a expresso "Deus do Velho Testamento' ou mesmo a
palavra 'Velho' Testamento, na verdade". Fui obrigado a concordar que o cristianismo
tem um aspecto francamente suplantacionista. Jesus
apresentou a "nova aliana" ao mesmo tempo em que transformou a ceia da Pscoa
judaica naquilo que os cristos agora chamam de "a Ceia do Senhor". Depois, o
apstolo Paulo se referiu  lei do Antigo Testamento como um "tutor" ou "pedagogo"
que nos leva a Cristo.
     No entanto, no tinha me apercebido de que os muulmanos olham para ambas
as crenas com uma atitude suplantacionista. Do ponto de visa deles, assim como o
cristianismo rompeu as barreiras do judasmo e incorporou partes dessa tradio, o
islamismo rompeu as barreiras do cristianismo e do judasmo e incorporou partes
dessas duas tradies. Abrao foi um profeta, Jesus foi um profeta, mas Maom foi O
Profeta. O Antigo Testamento tem seu lugar, assim como o Novo Testamento, mas o
Alcoro e a "revelao definitiva". Ouvir outros falar de minhas crenas de um jeito
to condescendente me fez vislumbrar os sentimentos que os judeus experimentaram
por dois milnios.
     Ironicamente, foi a linguagem comum do sofrimento que pareceu juntar os trs
grupos. Muitos dos participantes judeus tinham perdido membros da famlia no
Holocausto, e alguns tinham servido como voluntrios nas guerras entre Israel e os
vizinhos rabes. Do lado muulmano, uma mulher nos contou os horrores que
desabaram sobre sua outrora adorvel vizinhana em Beirute, no Lbano. Outro
3
 Ataques violentos a pessoas com a destruio dos ambientes (casa, negcio etc). Os programas foram
utilizados na Rssia contra os judeus e a minoria, principalmente entre o final do sculo XIX e incio do sculo XX.
                                                                                                             ~ 65 ~
muulmano fez um relato esmagador do massacre de Deir Yassin em 1948, quando os
membros da gangue Israeli Stern mataram 250 membros de seu vilarejo e jogaram os
corpos num poo. Ele, com dez anos, foi gil o suficiente para escapar. Mas um
soldado atirou a sangue frio em seu irmozinho de dois anos e em sua av de 96
anos.
     O sofrimento s vezes funciona como um fosso e s vezes como uma ponte. O
muulmano que escapou dos soldados no Deir Yassin sofreu um acidente de carro
nos Estados Unidos, anos depois. Foi uma enfermeira judia que parou, amarrou um
torniquete usando seu xale cheiroso e, cuidadosamente, retirou cacos de vidro de seu
rosto. Ele acredita que ela salvou sua vida. A esposa desse muulmano, uma mdica,
continuou dizendo que certa vez tratou de um paciente com uma tatuagem estranha
no pulso. Quando ela fez perguntas sobre aquilo, ele contou. lhe do Holocausto, um
acontecimento histrico que fora omitido do currculo dela no colgio, na faculdade e
na ps-graduao que fez nos pases rabes. Pela primeira vez ela pde compreender
o sofrimento dos judeus.
     Por que os seres humanos continuam fazendo isso uns com os outros?
Iugoslvia, Irlanda, Sudo, Cisjordnia -- ser que no h fim para o sofrimento
instigado pela religio? Como Gandhi observou, a lgica do "olho por olho e dente
por dente" no pode se sustentar indefinidamente; no fim de tudo, as partes
envolvidas acabam cegas e desdentadas.


Quero deixar claro que nosso encontro em Nova Orleans no mudou a equao do
Oriente Mdio nem aumentou as probabilidades de paz entre as trs religies mais
representativas. Mas o encontro nos transformou. Desta vez nos concentramos nas
intersees e nas conexes, no apenas nas fronteiras. Ns conhecemos o Hillel, o
Dawud e o Bob, rostos humanos por trs dos rtulos de judeu, muulmano e cristo.
     Cada tradio conduziu um culto de adorao -- os muulmanos na sexta, os
judeus no sbado, os cristos no domingo -- e os demais foram convidados como
observadores. O culto muulmano consistiu principalmente de oraes reverentes ao
Todo-Poderoso. O culto judeu consistiu de leituras dos Salmos e da Tora. alm de
canes aconchegantes. Ns, os cristos, celebramos a Ceia do Senhor, e falamos
sobre como isso nos ajuda a olhar novamente para a morte de Cristo, ansiar pela sua
volta e viver no presente, um estado de graa possibilitado pelo seu corpo, partido
por ns.
     Os trs cultos apresentaram semelhanas notveis e nos relembraram quanto
essas trs tradies tm em comum. Talvez a intensidade do sentimento entre as trs
tradies tenha sua origem em herana comum: as disputas familiares so sempre as
mais obstinadas, e as guerras civis, as mais sangrentas.
     Um rabino reagiu da seguinte forma ao fim de semana: "Eu no queria vir para
c. Quase desisti. Dez dias atrs tinha visitado Auschwitz, Permaneci ali, onde vrios
milhares morreram -- somente pelo 'crime' de ser judeus. Em Auschwitz, alguns
catlicos pediram que eu orasse com eles. Como poderia? Eu sabia que a Igreja
Catlica tinha se mantido em silncio enquanto membros da minha famlia eram
forados a cavar a prpria sepultura.
                                                                                ~   66   ~
      "No estava pronto para me encontrar com cristos e muulmanos to cedo.
No conseguia me desvencilhar de meu prprio sofrimento. Esse fim de semana tem
sido difcil para mim, mas agora posso dizer que estou contente por ter vindo. Foi a
dor da cura que senti, no a dor da ferida recm-aberta.
      "Agora, alguns de ns ouviram as histrias dos outros. Fomos afetados. Mas as
instituies que representamos continuam odiando, continuam assassinando. Ser
que os acontecimentos deste fim de semana podem produzir mais do que uma bela
experincia para os poucos de ns que se reuniram? Ser que existe alguma maneira
de mudar os prprios sistemas, algum jeito de quebrar o ciclo?".
     O rabino completou o ciclo, voltando  questo central do fim de semana:
"Pessoas que afirmam verdades fundamentalmente diferentes conseguem viver
juntas sem se matar?". Essa, infelizmente,  uma pergunta que no pode ser
respondida durante um fim de semana em Nova Orleans.




                                            Ao longo da fronteira
captulo dezenove




O cu primeiro assumiu um amarelo lgubre, depois ficou da cor do carvo. Uma
chuva de gros comeou a cair, cobrindo pra-brisas e caladas, revestindo-os com
manchas midas, com a cor e a consistncia de argila branca. Estvamos sentindo a
Lbia, as areias lanadas ao ar por um tempestade anmala, a pior dos ltimos 25
anos, soprada atravs do Mediterrneo at se depositar em Chipre. Estava l para
participar de uma conferencia de cristos ligados  imprensa, e a tempestade de areia
parecia um smbolo pungente da mentalidade paranica dos cristos da regio.
     Os lados sul e leste de Chipre ficam de frente para centenas de milhes de
muulmanos; pelo lado norte, a Turquia invadiu e ainda ocupa um tero da ilha.
Bandeiras com o braso do crescente muulmano tremulam desafiadoramente no ar,
colocadas no alto de igrejas que foram tomadas de assalto a partir do topos das
colinas de Nicsia. Apenas uma faixa estreita ocupada pelas foras de paz da ONU
impedem que os dois lados se lancem  guerra.
     Os trabalhadores cristos da conferencia se juntaram para discutir novas formas
de alcanar o mundo muulmano. Eles usavam pseudnimos para despistar agentes
muulmanos que os estivessem perseguindo: nos restaurantes e em locais pblicos
eles falavam sussurrando e freqentemente olhavam  sua volta. No deixavam
nenhuma anotao para trs depois de encerrar as reunies.
     Semelhantes a cogumelos virados para cima, as parablicas que captam sinais de
satlite brotaram nos telhados rabes, e agora programas cristos esto trafegando
em lugares como Arbia Saudita, Iraque e nas favelas de Cairo. Recentemente a Sria
se resignou ao que era inevitvel, e os provedores de Internet agora esto levando

                                                                               ~   67   ~
sites cristos para dentro das casas particulares. Os ministrios cristos recebem
cartas com mensagens como esta: "Eu deveria contar para meus pais que me tornei
cristo? E um crime com pena capital se converter aqui, e posso ser executado. O que
vocs me aconselham?".


O Egito, o maior pas da regio, h tempos tem tolerado uma forte minoria crist.
Durante minha visita, os evanglicos estavam comemorando o sucesso de uma
cruzada Luis Palau pouco tradicional. Impedidos de alugar estdios para eventos
evangelsticos, eles organizaram centenas de igrejas para conduzir cruzadas
alternativas, usando fitas de vdeo. O prprio Palau apareceu numa grande igreja
presbiteriana do Cairo; depois de uma noite de trabalho inesgotvel para os
voluntrios, as fitas de vdeo desse culto foram mostradas no dia seguinte em igrejas,
sales e em ptios abertos, totalizando 500 locais em todo o Egito.
     Ironicamente, os jovens cristos vem algumas vantagens em viver numa cultura
muulmana. Como um deles me disse: "Sim, ns temos restries, mas ns e os
muulmanos temos convivido durante sculos. Fui para os Estados Unidos estudar,
mas certamente no ia querer constituir famlia l. Aqui no ternos pornografia,
lcool e pouco sexo antes do casamento, e me sinto seguro andando nas ruas.
Enquanto tiver liberdade de culto, prefiro viver no Egito".
     Esse mesmo jovem, no entanto, admitiu que raramente vai  igreja copta na qual
foi batizado. Afinal, o culto  celebrado em copta antigo, uma lngua que ningum da
congregao entende. Dura vrias horas, durante boa parte do culto a congregao
fica em p, e o culto est recheado de simbolismos icnicos obscuros. No Oriente
Mdio no h coisas como igrejas adaptadas ao gosto dos que a freqentam. A
maioria dos pases probe o apostolado e, sem sangue novo, as igrejas tendem a se
basear em rituais familiares, impedindo as inovaes.


O Lbano, assim como o Egito, j foi conhecido por sua mistura amigvel de
diferentes crenas. Isso foi antes de os grupos religiosos formarem milcias e
comearem a se malar. Mais de 150 mil morreram numa guerra civil que durou
quinze anos, e a grande maioria dos edifcios em Beirute ainda exibe as marcas de
estilhaos e buracos de bala.
     As cicatrizes psicolgicas so bem mais profundas. Um americano que estava de
visita me disse que assistiu a um jogo de basquete que precisou ser interrompido por
causa de briga -- entre as duas torcidas, no entre os jogadores. "Eles esvaziaram
toda a quadra, com exceo de alguns estrangeiros como ns. Os jogadores
continuaram a disputa e os torcedores foram para as ruas continuar a rinha."
     Uma moa de vinte anos no consegue se livrar das memrias da guerra.
Durante anos, cada vez que se dirigia a um evento na igreja, tinha que passar por
duas ou trs barreiras militares. Como poderia deixar de lado as memrias? Uma
cabea humana presa ao capo de um Mercedes-Benz; um atirador sendo arrastado
pelas ruas, com os ps amarrados ao pra-choque de um carro; a cabea recebendo
pancadas grotescas no asfalto.
                                                                                ~   68   ~
    As milcias "crists" eram to notrias por sua crueldade quanto as equivalentes
muulmanas. Hoje em Beirute, os santurios cristos mais proeminentes so
devotados a Elias. V-se o profeta nas igrejas, nos cruzamentos de estrada, nas
esquinas, sempre representado com uma espada na mo. Os peregrinos trazem flores
para ele e beijam a esttua. Afinal, Elias massacrou 850 falsos profetas (num local
prximo  rodovia). Eles reconhecem Jesus como a figura central de sua f, mas Elias
 um mascote militar bem mais impressionante.
     Conheci no Lbano uma mulher que lera minuciosamente meu livro
Decepcionado com Deus  luz de vela, num poro, enquanto bombas destruam seu
prdio. Outra est ativamente tentando aplicar os princpios de Maravilhosa graa a
seus vizinhos: "grileiros" que se apossaram ilegalmente de seu apartamento e
continuamente roubam dela gua e energia eltrica. Quando relembro minha viagem
ao Oriente Mdio, penso em como  fcil escrever a respeito do evangelho dentro de
minha cabana serena no Colorado, e como  duro colocar isso em prtica naquele
solo -- hoje, literalmente, a fronteira da f.




                                                                              ~   69   ~
Descobrindo Deus numa sociedade em
pedaos
parte 4


                               Excntricos nas linhas de frente
captulo vinte




Com o bafo fedendo a lcool, um homem velho, de cabelos grisalhos e olhos
remelentos, vestindo uma jaqueta de colegial gasta, estende a mo e balbucia um
monlogo quase ininteligvel a respeito de dinheiro para pegar um nibus. A histria
soa no mnimo estranha, e a sabedoria das ruas lhe diz onde provavelmente sua
doao vai parar Talvez voc devesse se oferecer para lev-lo a um restaurante ou
para uma misso de socorro. Mas voc no o faz. Voc indica um no com a cabea,
enfia as mos nos bolsos e continua andando.
    Voc esbarra em gente assim sempre que vai ao centro da cidade. Por dentro,
isso fica incomodando. Madre Teresa, John Wesley, Dwight L. Moody -- eles no
virariam as costas. Eles fariam alguma coisa para ajudar o homem, mesmo que fosse
encontrar um ministrio que suprisse as necessidades do homem. "O rosto de Jesus,
disfarado da forma mais angustiante", como certa vez Madre Teresa definiu os
mendigos de Calcut. Ela estava certa. Realmente, o mais angustiante disfarce.
     No fim do dia, a racionalizao j "tampou o sol com a peneira", eliminando os
vestgios de culpa. Afinal, voc tem assuntos srios para tratar No  possvel cuidar
de todas as necessidades humanas. Alem disso, outras pessoas se especializaram em
ministrar aos que vivem nas ruas -- talvez voce faa doaes em dinheiro para
alguns desses ministrios.
     Mesmo assim, voce se pergunta: como seria se um cristo levasse ao p da letra
os mandamentos radicais de Jesus e os pusesse em prtica? Com que ou quem se
pareceria hoje o bom samaritano, numa Amrica urbana?
"Tal pessoa poderia se parecer com Louise Adamson", disse-me um amigo de
Atlanta. Ela  missionria, mas de um tipo que nunca tinha encontrado antes. Ela se
parece mais com um bom samaritano de tempo integral "Voc precisa conhec-la",
diz ele. E vai conhec-la assim: no diminuto gabinete de uma igreja presbiteriana
envelhecida, debaixo das sombras de um estdio de beisebol na lista de espera para
ser demolido.
     A moblia e surrada, doada pelo governo. O carpete tem o cheiro de restolhos de
sola de sapatos acumulados por trinta anos, Louise tem cerca de sessenta anos, na
minha estimativa. Ela tem um nariz avantajado, dentes fortes e retos, a pele do rosto
um tanto esburacada, uma cabea repleta de cabelos j grisalhos. Ela est usando um
vestido roxo, simples, que poderia ter vindo de qualquer dcada, menos dessa. A voz
                                                                                ~   70   ~
dela faz estalidos durante a fala, dando a impresso de que est  beira do choro
(provavelmente uma impresso verdadeira: se comear a anotar o nmero de vezes
em que se derrama em lgrimas, o nmero logo chega a treze).
     H bastante tempo livre para fazer essas observaes, pois Louise fala sem
perder o flego. H 45 minutos atrs voc fez uma pergunta, e ela avana sem sinal
de esmorecimento. Ouvir Louise  como ouvir rdio mudando de uma estao para
outra, escutando s escondidas programas de entrevistas, cada um tratando de um
assunto sem relao com os demais. A diferena  que a Louise est trocando as
estaes, no voc.
      "Louise, fale-me sobre voc", foi assim que comeamos h 45 minutos, e ela
comeou de seu nascimento, recontando sua vida. "Sou como Gideo, o menor da
casa de Manasses, chamado em alta voz de um milharal, de um algodoal..." O
algodoal fica no norte da Gergia, que  onde Louise cresceu. Ela muda de assunto
algumas vezes, mas cedo ou tarde volta ao tema das complicaes de sade na
infncia.
      "Tive pneumonia dupla trs vezes antes dos seis anos, e era comum um casal de
negros vir para aliviar meus pais do peso de cuidar de mim. Em nossa casa no havia
preconceitos raciais, nenhum mesmo. Certa noite meu pulmo entrou em colapso, e
meus olhos reviravam dentro da cabea, e ningum achava que eu passaria daquela
noite. Um vizinho se ofereceu para cavar minha sepultura. Mas -- acredito que foi
um milagre -- acordei no meio da noite, comecei a respirar e avisei que queria po
de milho com repolho. Ainda me lembro do que minha me disse. Ela disse: 'Louise,
voc no  mais dona de sua vida. Deus a salvou com um propsito. Busque-o'."
     As lgrimas comeam a escorrer. A lembrana tinha despertado uma profunda
reao emocional em Louise. "Ah, os caminhos do Senhor so to belos, to
incompreensveis, to difceis de descobrir."
     Aproveitando a deixa, fao a segunda pergunta: "Foi nesse momento que voc se
sentiu chamada para servir a Deus?". Imediatamente me dou conta da abordagem
nada convencional de Louise na interpretao da Bblia: "Voc sabe, como se diz em
Isaas 40, 'Espere no Senhor?' Bem, tomei isso como meu lema. Quero esperar no
Senhor como uma garonete espera pelas mesas. Quero servir-lhe a cada dia". E de
repente ela d um salto de vinte anos para a frente e j est descrevendo os dias em
que era estudante em Atlanta.
     Na dcada de 1940, ao mesmo tempo que trabalhava em tempo integral e
estudando de noite em trs dias da semana, Louise ofereceu-se como voluntria para
um trabalho de misses nas favelas de Atlanta, em bairros afro-americanos com
nomes exticos como Buttermilk Basin e Cabbagetown. "Eu organizava gincanas
bblicas. A maioria das casas era construda sobre estacas ou blocos de concreto, e
quando chovia a gente limpava as teias de aranha e se empoleirava embaixo das
casas para fazer nossas reunies. Foi l que Deus me revelou a grande face das
misses -- a dor no corao, a tristeza, a necessidade. Mas eu sabia que precisava de
mais treinamento, por isso depois do curso universitrio me inscrevi num seminrio
batista no sul".


                                                                               ~   71   ~
     Algum lhe avisa que Louise tem um gosto por guardar bagulhos, e ela no o
decepciona: tira uma grande caixa de papelo debaixo de uma mesa, cheia de
recortes de jornal amarelados. Ela separa artigos que descrevem graficamente as
favelas do ps-guerra e os l em voz alta. Mais uma vez as lgrimas correm: "Oua
isso. Trs meninas, com sete, nove e 11 anos de idade. A me delas, uma prostituta, as
amarra na cama para que homens as molestem. Voc consegue imaginar isso? Era
simplesmente um enorme oceano de sofrimento naqueles dias. O resto do mundo
tocou a vida como se as pessoas nesses bairros no existissem. Elas eram como a
dcima terceira tribo de Israel, uma tribo perdida. Essa era a maior favela na parte sul
de Chicago".
     Louise tem um detalhado mapa interno da sociologia da cidade em
transformao, mas sua memria guarda pouca semelhana com o que se pode ler
num livro-texto de sociologia. E assim que ela conta: "Na dcada de 1950, a parte
central da cidade comeou a rodear as principais igrejas. Deus estava ali, dizendo
para ns "No fujam! Fiquem! Trouxe as multides at voces'. Como ouvi uma vez de
um pregador negro, Deus disse a Moiss nas margens do mar Vermelho: 'Em vez de
simplesmente fazer alguma coisa, fique onde est!'. E era isso que Deus estava
dizendo para a igreja, apenas para ficar onde estava.
      "Mas ns no ficamos, a maioria no ficou. Ns fugimos. E por isso na dcada
de 1960 os arruaceiros comearam a tocar fogo nas cidades. Deus queria que seu
povo abaixasse as barreiras raciais, superasse as diferenas, abrisse as portas. Se ns
mesmos no fizssemos isso, outros fariam no nosso lugar.
       "Ento na dcada de 1970 Deus disse: A igreja no esteve  altura do desafio nos
anos 50 e 60, por isso vou mover meu Esprito do meu prprio jeito'. Foi ento que o
movimento de Jesus teve seu incio, e veio um novo derramamento do Esprito de
Deus. Deus estava to na nossa frente que muitas pessoas nunca o alcanaram".
     Durante aquelas dcadas, Louise tentou no comer poeira. Ela conseguira um
marido no seminrio, e ele aceitou pastorear uma igreja na parte central da cidade,
todos brancos, naquilo que os moradores de Atlanta gostam de chamar de "bairro em
transformao". A vizinhana estava mudando rpido demais para o gosto dos
brancos, e a igreja estava dividida na questo de fazer ou no a integrao racial. A
questo da participao dos negros como membros finalmente veio  tona numa
reunio congregacional cheia de dio.
     Louise se lembra bem da reunio. "Estava muito orgulhosa de meu marido e da
posio que tinha assumido. A igreja estava lotada. Os conservadores tinham
recrutado vrios membros que ainda estavam na lista de membros, mas que no iam
 igreja havia anos. O voto foi secreto, e por uma margem de 39 votos eles decidiram
manter os negros afastados. Meu marido pediu demisso e ns perdemos tudo --
nosso sustento, a casa pastoral, tudo. E quer saber de uma coisa? Eu acho que o
Esprito de Deus deixou a igreja naquele dia. Comeou a morrer a partir daquele dia.
Eram tempos negros, quando a gente se perguntava se Deus tinha abandonado a
cidade."



                                                                                  ~   72   ~
Quatro anos depois o marido de Louise morreu. Ela ficou no bairro, vivendo com
um sustento modesto dado por meio do Comit de Misses nos Lares dos Batistas do
Sul. Nos anos 1970 ela trabalhou principalmente com crianas, ensinando a Bblia em
classes com 1500 numa semana.  medida que conhecia as crianas, passou a
conhecer as necessidades delas. Logo ela estava distribuindo comida e roupas,
comparecendo ao tribunal de menores como testemunha, visitando hospitais e
prises. Se Louise cruzasse com crianas vindas de famlias violentas, ela pedia a
seus pais que deixassem as crianas morar com ela. Fazendo assim, ela foi "me" para
catorze crianas. "Deus  ou no  muito bom? Ele sabia exatamente o que estava
fazendo quando no me deu nenhum filho. Teria ficado to atarefada que no estaria
disponvel para essas preciosas criaturinhas.
     "Nunca fiz planos para um 'ministrio' formal. Meu Deus! Deus simplesmente
trazia essas pessoas maravilhosas para dentro da minha vida. A Igreja Batista me
deixou usar suas instalaes nos dias de semana, desde que os negros no viessem
nos domingos. Certo dia apareci com uma menininha negra que tinha acabado de
aceitar Jesus. Ela perguntou ao pastor se podia ser batizada, e a igreja entrou numa
espcie de pnico. Dentro de dois meses a congregao tinha se mudado para Stone
Mountain, a trinta quilmetros a leste de Atlanta".
     "Mas por alguma razo os batistas continuaram me sustentando, e logo uma
igreja presbiteriana abriu suas portas. Eles me deram as chaves e disseram: 'Louise,
voc pode trazer quem voc quiser para nossa igreja -- negros, amarelos, prostitutas,
alcolatras, qualquer um'. No  maravilhoso como Deus prove? Lembra-se do salmo
que fala do lamaal, de um atoleiro? Deus est resgatando as pessoas do atoleiro, e 
muito ruim saber que algumas dessas igrejas no ficaram nas redondezas e no
conheceram gente assim."
     Durante todo esse tempo, Louise teve que enviar relatrios oficiais para o
Comit de Misses nos Lares dos Batistas do Sul. Seu mtodo ministerial no se
encaixava em nenhuma das categorias preestabelecidas do comit. Louise chama seu
ministrio de "ministrio da estrada para Jeric", por causa da parbola do bom
samaritano, que ajudou um homem quase morto na estrada para Jeric. "No tenho
uma comisso nem comit, ou qualquer coisa parecida. Costumava trabalhar por
meio das igrejas locais, mas elas acabavam indo embora. Agora trabalho sozinha. As
pessoas me do comida e roupas, e eu as distribuo por a."
     Louise fica um tanto incomodada quando questionada a respeito de
planejamento e organizao. "Como algum pode se programar num ministrio
como o da Estrada para Jeric? Basta simplesmente andar pela estrada e procurar as
vtimas, e pode ter virado o dia antes de voc chegar a Jeric. No se pode estruturar
as crises das pessoas. Elas surgem sem qualquer aviso, como um furaco. E j estou
aqui h muito tempo, muitas pessoas ligam para mim antes de ligar para a polcia ou
para os bombeiros. Ns dificultamos demais as misses, voc no acha?  apenas
uma questo de viver para Deus e amar os que esto  sua volta. O Senhor estrutura
todos os meus dias. E no fim de cada dia tenho vontade de cair ajoelhada, cantando o
refro do Aleluia!"


                                                                                ~   73   ~
    A igreja presbiteriana no final tambm fechou as portas, depois que a
congregao tinha diminudo para cerca de uma dzia de membros. Eles pediram
que Louise continuasse usando o prdio, certos de que sua presena desencorajaria
vandalismos. Ela praticamente se mudou para o santurio esvaziado, dando aulas
sobre a Bblia ali, ensinando mes solteiras, dando abrigo aos sem-teto. Depois de
algum tempo, alguns poucos jovens profissionais cristos com conscincia social se
mudaram para o bairro, e a igreja ressurgiu. "Voc v" -- Louise disse
triunfantemente -- "Deus nunca abandonou este lugar! Ele sempre esteve aqui."


Ouo as histrias de Louise a tarde toda.  medida que o sol se pe, descendo por
trs das rvores l fora, fico emocionado e inspirado, mas tenho somente uma idia
muito vaga de como Louise na realidade gasta o tempo. O que aconteceu ontem, por
exemplo, ou hoje? Ser que ela simplesmente acorda de manh e fica esperando o
telefone tocar? Eu a interrompo para fazer essa pergunta.
     "de manh? No, no, normalmente toca de noite. Vamos ver, ontem. Ah, sim.
Uma me com a qual tenho trabalhado me ligou ontem por volta da hora do jantar.
Fui para l na hora e a encontrei no meio do assoalho, com o rosto todo machucado.
O marido tinha batido nela de novo. Havia uma garrafa grande com remdios
vendidos somente com prescrio ao lado dela no cho, e ela me disse que tinha
lutado o dia inteiro para no tom-los. Duas crianas estavam berrando a plenos
pulmes no quarto ao lado. Tinha trazido algumas coisas para comer, ento fizemos
o jantar, acalmamos as crianas e passamos as duas horas seguintes limpando a casa
juntas. Depois disso, estvamos cantando hinos juntas enquanto fazamos a limpeza.
     "Quando cheguei em casa, a canseira baixou. Recebi outro telefonema por volta
de meia-noite. Trs velhinhas tinham sido trancadas numa casa durante trs dias,
sem comida. Minha primeira reao foi 'Senhor, estou cansada. Quero ir para a
cama'. Mas Jesus disse para amarmos o prximo como a ns mesmos, e se fosse a
minha me naquele apartamento, eu gostaria que algum a alimentasse. E ento fui
direto para a loja.
     "Elas moravam no terceiro andar. Levar as compras at o segundo andar me
deixou exausta. Mas em algum ponto da escadaria do terceiro andar, foi como se
Deus me desse uma injeo de B-12. Entrei e passei trs horas com aquelas adorveis
senhoras. Fizemos um banquete no meio da noite. Fiquei to animada que mal
consegui dormir quando cheguei em casa."
     E quanto  exausto? "Bem, com certeza fico cansada, e quando a coisa fica feia
eu vou para uma fazenda no norte da Gergia por uma semana e pouco. Mas Jesus
disse para buscarmos primeiro o reino de Deus, e que todas essas coisas nos seriam
acrescentadas. E quer saber de uma coisa? Isso  verdade. As vezes acontecem
algumas coisas que desencorajam. No ano passado minha casa foi arrombada trs
vezes. Normalmente sei quem foi -- moleques atrs de dinheiro para as drogas. Da
ltima vez foram dois moleques que durante anos eu tentava ajudar. Descobri onde
eles estavam, disse-lhes que obviamente no daria queixa e perguntei se poderia orar
com eles. Ento o melhor de tudo aconteceu. Ouvi da me de um moleque que seu
filho tinha dito a ela:  dona Adamson deixa a gente intrigado. Eu arrombo a casa
                                                                              ~   74   ~
dela e ela vem pr gente com um carregamento de comida e uma Bblia. Isso me
incomoda'. Agora, isso no  formidvel? Se ele tivesse ido para a priso, ele sairia de
l to enlouquecido que nunca conseguiria alcan-lo para Jesus. Agora ele no
consegue tirar Jesus da cabea!"
     Louise est chorando novamente, e quando pra comea outra histria, a
respeito de uma de suas crianas adotadas. Atualmente ela serve de guardi de doze
crianas que lhe foram confiadas pela Vara de Menores. Ouo essas histrias at que
o sol desaparece completamente, as luzes se acendem e chega a hora de ir embora. L
fora, na rua, depois de se despedir de Louise, e depois de ela orar em voz alta por
uma volta segura para casa, dou de frente com uma das catorze crianas que Louise
criou.
     O nome da garota  Faye, e quando lhe digo que passei a tarde com Louise, ela
comea a tagarelar animadamente, exatamente como Louise. "Que mulher. Oro todos
os dias 'Senhor, ensine-me a ser mais parecida com Louise. Ensine-me a amar as
pessoas e no ser to egosta'. Tinha oito anos quando me mudei para casa de Louise,
e no tinha nenhuma idia do que era o amor. Agente morava num cortio com a
gua e o gs cortados, e meu pai na priso. Quando meu irmozinho se queimou
todo num fogo que a gente tinha acendido para se aquecer, Louise se ofereceu para
ajudar me criando. Pela primeira vez na vida estava com algum que no tinha medo
de me tocar ou de abraar. Ela me disse que a coisa mais importante na vida era que
Jesus me amava, e ento ela abraou esse amor. Ela me acordava s trs da manh
dizendo: 'Venha, querida, precisamos sair'. Eu dormia num colchonete no cho do
carro enquanto ela disparava para se certificar que estava tudo bem com algum que
tinha sido despejado de casa.
     "Tive uma irm que saiu de casa batendo os ps treze anos atrs e disse: 'Nunca
mais vou voltar a esse lugar abandonado por Deus'. Ela estava correndo atrs de
fortuna e se casou com um cara que ela pensou que a faria rica. No funcionou. Os
filhos dela voltaram para c, presos nas drogas. Mas acho que a coisa que aprendi
melhor de Louise foi que Deus no abandonou este lugar. No passou nem perto
disso. Ele ainda est aqui."


Louise Adamson  uma verdadeira excntrica. Sua casa combina bem com a
vizinhana em que serve. Sofs velhos atravancam a varanda ( espera de pessoas
necessitadas), Carros caindo aos pedaos ficam estacionados no gramado (logo sero
doados a famlias pobres). Ela no se encaixa no padro de nenhum ministrio ou
assistncia social que voc conhea. Ela no tem nenhuma equipe ou programa
organizado. Ela no d recibos dedutveis do Imposto de Renda para seus doadores
(embora ela tenha guardado fielmente seus prprios recibos durante anos -- numa
grande caixa de papelo que fica na sala de visitas). Se voc perguntar a ela a respeito
do planejamento para os prximos cinco anos, ou mesmo para os prximos cinco
dias, ela vai ficar olhando para voc com um ar de perplexidade. Ela diz que precisa
ficar livre para ouvir o Esprito de Deus, Ela simplesmente acorda e pede que Deus a
use, todos os dias.

                                                                                  ~   75   ~
     Enquanto isso, nos gabinetes universitrios os socilogos analisam o ciclo de
dependncia das classes baixas. Em seminrios, os especialistas em urbanismo bolam
estratgias para tratar dos problemas da regio central da cidade. Foras-tarefa do
governo estudam o problema e a crise dos desabrigados. Esses programas vo sugar
bilhes de dlares, e vrios anos se passaro antes que os resultados apaream.
     Uma coisa me ocorre, enquanto dirijo meu carro numa subida para a pista
expressa que faz a curva em torno do estdio: se cada cristo em Atlanta reagisse ao
evangelho tal como Louise, a cidade seria um lugar bem diferente. Eu me pego
desejando que haja mais excntricos.

        As solues para o crack do dr. Donahue
captulo vinte e um




Pela primeira vez na vida assisti a um episodio inteiro de Donahue na TV, e foi um
clssico. O assunto do dia, os bebes do crack foi o prosseguimento das reportagens
sensacionais publicadas no New York Post e no Wall Street Journal sobre outro
problema social que deveria aterrorizar o pblico americano.
     Na primeira parte os reprteres do Post vieram para explicar o problema. Cerca
de quatro milhes de bebes nasceram de mes usurias da droga crack, uma forma
excepcionalmente potente de cocana, Esses bebs nascem viciados e com peso
abaixo do normal e freqentemente apresentam problemas fsicos e psicolgicos. Os
mais velhos dessa gerao esto agora invadindo as classes das escolas pblicas, que
j tm muito o que fazer com as crianas "normais". Os filhos do crack apresentam
perodo de concentrao incrivelmente baixo e mostram poucos sinais de conscincia
moral.
     Em resumo, est se alastrando pelos Estados Unidos um grande grupo de jovens
cidados que vo deixar ainda mais apertados os recursos educacionais e de sade,
dando todas as indicaes de que -- em algum momento -- vo aumentar o fardo
dos centros de deteno para jovens e adultos. Na previso dos reprteres, os filhos
do crack se tornariam o problema social nmero um dos Estados Unidos.
     Os produtores do Donahue deram um jeito e conseguiram convencer duas mes
do crack -- uma afro-americana e outra branca -- a aparecer no programa. Depois
que os reprteres do Post delinearam a abrangncia do problema, Donahue
apresentou as duas. A tenso na platia aumentou visivelmente. Os espectadores de
classe mdia, a maioria composta de mulheres, que tinham acabado de saber que os
usurios de drogas haviam desencadeado uma praga na sociedade, agora teriam a
chance de encarar ao vivo duas pessoas reais, portadoras dessa praga.
     A me do crack branca parecia estar drogada no exato momento da entrevista.
Como que jogada numa cadeira que ficava atrs de vidros escuros de proteo, ela

                                                                              ~   76   ~
dava respostas indolentes e quase ininteligveis. A mulher afro-americana, grvida
do segundo filho do crack, mostrou-se bastante articulada, "J estou limpa faz dois
dias", disse ela. "Algum foi legal comigo e me tratou com respeito. me colocaram
num quarto de hotel por duas noites e me trataram como gente, e pela primeira vez
senti vontade de mudar. Quis melhorar. E por isso no precisei fumar crack" Muitos
aplausos.
     Donahue se precipitou num sermo: "Veja, essas mulheres precisam de
compaixo", disse ele, apontando com as mos apenas na direo delas. "Ns
precisamos nos livrar dessa moralidade de 'palmatria'. De que adiantaria punir
essas mulheres?" Mais aplausos.
     Ento ele se voltou para a mulher afro-americana e fez a pergunta que
indubitavelmente estava  espreita na mente de boa parte da audincia. "Agora,
ajude-nos nisso. Estamos tentando entender. Voc j teve um beb do crack certo? E
voc viu os problemas fsicos que essa criana teve que enfrentar. Mas voc
engravidou de novo. Por que?"
     Ela pensou por um momento. "Bem, tudo o que posso dizer  que acidentes
acontecem mesmo", disse ela finalmente. Com isso ela perdeu a simpatia da platia.
Alguns vaiaram. Outros balanaram a cabea com raiva. Como pagadores de
impostos, eles seriam chamados a contribuir com dezenas de bilhes de dlares para
pagar pelos problemas apresentados pelos bebs do crack. Acidentes podem
acontecer -- mas quatro milhes de acidentes?
     Uma assistente social, a ltima a participar do painel, entrou rapidamente na
discusso. "A nica forma de essas mulheres poderem sustentar o vcio  se
prostituindo, fazendo vinte ou trinta programas por noite. Na condio de sade em
que se encontram, elas normalmente no menstruam e muitas vezes no percebem
que esto grvidas at o quarto ou quinto ms de gravidez, ento tarde demais para
fazer um aborto legal."
     Entretanto, a julgar pelos comentrios e perguntas que se seguiram, a platia j
tinha esgotado todas as reservas de compaixo. "Por que deveramos pagar por esse
comportamento irresponsvel?", perguntou uma mulher, tremendo de raiva. "No
so elas que deveriam arcar com as conseqncias? E elas no esto prejudicando
somente a si mesmas -- o que dizer daqueles bebes inocentes?"
     Outra sugeriu que qualquer mulher que desse  luz um beb do crack fosse
esterilizada. Donahue aproveitou o gancho dessa sugesto: "E deveramos esterilizar
as mes alcolatras? As mes Rimantes? Deveramos soltar a polcia para bater de
porta em porta, farejando mulheres que no so adequadas para ter filhos?". A
mulher pareceu confusa, mas sustentou sua sugesto inicial. Algo precisa ser feito.
     Afinal, o que pode ser feito? A educao  a resposta, disseram os reprteres do
Post. Sim, a educao, fez eco a assistente social. A articulada me do crack balanou
a cabea afirmativamente, concordando; a me de fala arrastada simplesmente
balanou a cabea. Por acaso, estava assistindo ao programa Donahue na sala de estar
de um amigo, sentado ao lado de um mdico que trabalhava no pronto. socorro do
hospital Cook County de Chicago. Quando os convidados de Donahue se aliavam
em torno da sugesto de educao como o elixir curador de todos os males, esse

                                                                                ~   77   ~
mdico de repente comeou a rir bem alto. "Os drogados que atendo me do aulas a
respeito de sua condioTM, disse ele. "Eles gostam de passar por vtimas pobres e
ignorantes, mas descobri que boa parte deles consegue interpretar os indicadores de
um exame de sangue e de outros sinais vitais melhor do que a maioria dos
profissionais da sade".
     se a educao fosse a resposta simples, o crack teria entrado dessa forma na
classe mdia alfabetizada? Se a educao fosse a resposta, a mulher grvida no
debate no teria parado com esse hbito depois de dar  luz seu primeiro filho -- ou,
pelo menos, usado um contraceptivo seguro? Se a educao por si s fosse a resposta,
fumantes e alcolatras seriam hoje uma raa extinta na America.
     Faz muito tempo que os Alcolicos Annimos descobriram que a trajetria para
a cura envolve mais do que uma soluo rpida baseada no aumento do
conhecimento. De fato, envolve uma mudana que parece mais teolgica do que
educacional. De alguma forma, a "vtima" do vcio precisa recobrar um senso
subjacente de dignidade humana e de escolha, um profundo despertamento que
normalmente requer muito tempo, ateno e amor.
     Os membros do AA recitam seu credo em todas as reunies, um credo que
renuncia  noo de que qualquer um de ns est desamparado ou  vtima de foras
irresistveis. Sou um ser humano, moralmente responsvel, e as escolhas que fao
afetam no somente a mim, mas tambm a minha famlia e a sociedade que me cerca.
Vou precisar de ajuda
-- de meus amigos e de minha famlia, de companheiros que esto passando por
isso, de um Poder Superior, mas desde o incio preciso ser o dono de minha
capacidade de fazer escolhas morais.
     H muito tempo tenho me impressionado com a forma singular que os
Alcolicos Annimos combinam coisas aparentemente opostas: compaixo que
continua insistindo na responsabilidade moral; o apoio comunitrio que de alguma
forma promove a dignidade individual; a auto-realizao que surge da dependncia
de um Poder Superior.  bem natural que esses conceitos guardem semelhana com a
teologia crist, uma vez que o AA foi fundado por cristos comprometidos. Mas essas
idias so bem difceis para comunicar  sociedade como um lodo
-- muito mais ainda de infiltrar no programa Donahue.




                  Ah! Aqueles eram dias, meu amigo
captulo vinte e dois



                             As coisas se desmancham; o eixo no as suporta;
                             O mero anarquismo est  solta no mundo,


                                                                               ~   78   ~
                              A ma r avermelhada com o sangue est  solta, e em todos os
                              lugares
                              A celebrao da inocncia morre afogada;
                              Aos melhores falta qualquer convico, enquanto os piores
                              Esto repletos de apaixonada intensidade.
                              W. B. Yeats




                     Assim como a Grande Depresso e a Segunda Guerra Mundial
marcaram toda uma gerao, a dcada de 1960 deixou suas marcas naquela gerao.
Aqueles que cresceram nessa tumultuada dcada ainda esto lidando com seu
impacto -- toda a sociedade, de fato, est lidando com isso.
     Eu tinha dez anos quando comeou e vinte quando terminou. De certa forma,
passei por essa dcada protegido por uma camada de Teflon, provida pela subcultura
religiosa. Nunca tive gosto por msica composta depois de 1890 e nunca me senti
tentado por drogas psicotrpicas. Mais, passei a segunda metade dos anos 60 no
campus de uma universidade crist: enquanto os estudantes de universidades
seculares mantinham os reitores como refns e faziam explodir prdios, nossos
colegas mais arrojados faziam lobby de forma mansa contra a freqncia compulsria
 capela. Ainda assim, a despeito de meu isolamento, fui profundamente afetado por
aqueles anos de descontentamento.
     Naquela poca parecia que o mundo estava prximo de atingir um limiar.
Quando os estudantes parisienses tomavam as barricadas em 1968, os polticos
conservadores esganiavam ao falar do fim de toda a civilizao e da irrefrevel
procisso do comunismo. Gurus cristos como Francis Schaeffer prediziam a
crescente inquietao que levaria  anarquia cultural. Ningum, absolutamente
ningum, predisse o que realmente aconteceu nas duas dcadas seguintes; o
retraimento das preocupaes polticas para os assuntos privados, uma exploso nos
cursos de MBA, as conquistas da cultura yuppie, a retrao do ativismo a favor dos
direitos civis, a eleio de Ronald Reagan e de dois George Bushes.
     Tornou-se evidente que os anos 60 representaram, mais do qualquer outra coisa,
uma exploso demogrfica inesperada. Os baby boomers foram uma das poucas
geraes na histria dos Estados Unidos maiores do que a gerao seguinte;
naturalmente, o rito de passagem deles teria um impacto desproporcional. A bolha
populacional continuou seu movimento passando pela adolescncia e pelo incio da
vida adulta como um porquinho se movendo por meio do aperto de uma jibia:
certamente remodelou o ambiente a seu redor, mas num momento ou em outro,
como tudo o mais, tambm foi absorvida.
     Os anos 60 comearam com uma nfase nos ideais: paz, amor, comunidade,
justia, igualdade. Uma renovada nfase na espiritualidade levou muitos estudantes
do colgio e da universidade a "ficarem altos com Jesus". Apesar disso, a paixo pelos
ideais  difcil de sustentar, e gradualmente o foco mudou da essncia para o estilo. As
corporaes americanas se apressaram, despejando jeans e tnis estilizados, franjas de
                                                                                    ~   79   ~
couro cortados a mquina e camisetas manchadas e pr-lavadas. Pelos faciais
brotaram em lugares improvveis: em banqueiros, polticos e agentes da bolsa de
valores. Bandas como Grateful Dead, que no incio da carreira se rebelavam contra o
sistema, tornaram-se propriedades no valor de bilhes de dlares.
     A medida que os ideais se esvaneceram ou foram cooptados, o que permaneceu
foi a nfase nas coisas do corpo. Considere o legado duradouro dos anos 60: o
envolvimento ativo com ambientes externos; msica que, literalmente, pode ser
sentida com as clulas vibratrias do corpo; a conscincia corporal expressa por meio
da meditao, do tai chi ou de outras transmutaes da Nova Era; drogas; e,  claro, a
revoluo sexual. Todas essas marcas de nosso cenrio moderno expressam uma
corporalidade acentuada que remonta aos anos 60.
     Considero irnico e triste o tato de muitos desses elevados ideais dos anos 60
terem se evaporado, deixando-nos com meros emblemas fsicos, pois o que me
marcou nesse perodo nada tinha a ver com esses emblemas. Penso nessas coisas com
a nostalgia da paixo daquela dcada. Apesar de selvagem e disforme, essa paixo
era forte o suficiente para instigar milhares de clrigos e estudantes a se dirigir para o
sul em nibus e arriscar a vida por uma causa no Mississippi ou no Alabama, e forte
o suficiente para inspirar estudantes a resistir a uma guerra que no poderiam apoiar
Nos anos 60, as pessoas pensavam mais com o corao do que com a cabea.
     Os anos 60 questionaram valores nacionais que nos so caros, como poder
global, crescimento econmico ilimitado e consumo exibicionista. se algum
perguntasse sobre objetivos de carreira, nunca se ouviria a resposta: "Acho que vou
me especializar em especulao financeira, ou talvez em financiamentos de alto
risco". A resposta respeitvel naquela poca era "assistente social" ou "servios
jurdicos para os pobres". Os estudantes tambm questionavam coisas do cotidiano,
tais como o ritual machista do futebol americano e das beldades ostentando sua
lascvia.
     Hoje em dia, as beldades lascivas, o futebol americano e o crescimento
econmico esto todos indo de vento em popa. Aparentemente a jibia conseguiu
lazer a digesto. Mas a coisa estranha  que muitas das questes importantes
levantadas nos anos 60 so agora mais relevantes do que nunca. As pessoas se
preocupavam com o meio ambiente naquela poca, muito antes de ouvirmos frases
como "aquecimento global" e "diminuio da camada de oznio". Eles se
preocupavam com a dvida pblica que Lyndon Johnson eslava acumulando para
financiar a Guerra do Vietn; aquela quantia de dinheiro mal pagaria os juros
mensais da dvida pblica em anos posteriores. Eles se preocupavam com a super
populao quando a frgil Terra suportava dois bilhes a menos de seres humanos.
Talvez o grande problema do esprito da dcada de 1960  que veio  tona trinta anos
antes.
     Tenho uma vaga premonio de que ainda no vimos o fim do protesto
convulsivo. Talvez a juventude deste sculo retome as marchas nas ruas, protestando
contra a monstruosa dvida pblica que legamos a eles, o planeta poludo e
superpovoado, com solos esgotados e recursos minerais exauridos que deixamos
para trs. E -- quem sabe? -- ns os idosos que crescemos durante os anos 60

                                                                                    ~   80   ~
estaremos fazendo agitaes por maiores benefcios previdencirios, de sade e
outras liberalidades que passamos a chamar de "direitos".




                                          A sade e o fator Deus
captulo vinte e trs




Quando o doutor David Larson estudava psiquiatria, os professores mais experientes
o advertiram: "Voc causara danos a seus pacientes se tentar combinar sua f crist
com a prtica da psiquiatria.  clinicamente impossvel". Os supervisores insistiram
que a religio normalmente prejudica a sade mental das pessoas.
       "A pesquisa confirma esse conceito?", Larson se perguntou. Ou  um mito
transmitido nos crculos acadmicos? Sua curiosidade o levou a uma busca que
durou os 15 anos seguintes, at sua morte prematura em 2002, com 54 anos de idade.
Ele passava boa parte do tempo lendo minuciosamente peridicos acadmicos e
obscuros relatrios de pesquisa, refletindo nas "variveis curvilneas negativas" e em
outros dados, buscando indicaes a respeito de como a religio afeta a sade mental
e fsica.
      Logo de sada Larson notou que a maior parte das pesquisas ignorava
completamente o tema da religio. Isso parecia estranho, uma vez que 90% dos
americanos crem em Deus. 40% freqentam semanalmente cultos religiosos e uma
minoria expressiva afirma que a religio  muito importante em suas vidas. Essa
omisso poderia .ser um indicativo do vis anti-religioso da rea? Menos da metade
dos psiquiatras e psiclogos afirma crer em Deus, e um levantamento descobriu que
40% consideram a religio institucionalizada como "sempre, ou freqentemente,
prejudicial  sade".
      Apesar de as pesquisas modernas tenderem a evitar questes explcitas sobre a
f, Larson descobriu que algumas trouxeram perguntas bsicas a respeito do
envolvimento religioso. Ele examinou esses achados e depois ampliou sua busca,
incluindo qualquer coisa que pudesse indicar o efeito do comprometimento com a f
crist sobre a sade. O que ele descobriu o deixou impressionado. Esta  uma
amostra dos dados:
    Pessoas que freqentam regularmente a igreja vivem mais.  religiosidade
    reduz marcadamente a incidncia de ataques cardacos, esclerose arterial e
    hipertenso arterial.
    As pessoas religiosas apresentam menor probabilidade de abusar do lcool e
    probabilidade bem menor de usar drogas ilcitas. Por outro lado, um estudo

                                                                                ~   81   ~
    descobriu que 89% dos alcolatras perderam o interesse na religio durante a
    adolescncia.
    Prisioneiros que se comprometem com alguma religio apresentam menor
    probabilidade do que seus companheiros de voltar  cadeia depois de serem
    libertados.

     satisfao conjugal e bem-estar geral tendem a aumentar com

         a freqncia  igreja; a taxa de depresso diminui.
       O compromisso religioso oferece alguma proteo contra um dos maiores
        problemas de sade do pas: o divrcio. As pessoas que vo regularmente 
        igreja apresentam probabilidade duas vezes maior de continuar casadas.


    A proteo contra o divrcio  importante pelos seguintes motivos:

    O divrcio aumenta dramaticamente o risco de morte prematura por derrame,
    hipertenso,  cncer    nas   vias     respiratrias   e     cncer intestinal.
    Surpreendentemente, ser divorciado e no-fumante  apenas ligeiramente
    menos perigoso do que fumar um ou mais maos de cigarros por dia e
    permanecer casado! (Ser que o Ministrio da Sade deveria colocar nos
    documentos de divrcio advertncias a respeito desse risco?)
    O divrcio tambm abala a sade mental, especialmente nos homens. O ndice
    de suicdios de homens brancos  quatro vezes maior com o divrcio, e a
    probabilidade de precisar de cuidados psiquitricos e dez vezes maior.
     O divrcio tem um custo devastador para os filhos. A proporo de criminosos
        provenientes de lares com apenas um dos pais  o dobro. Na verdade, a
        estrutura familiar se mostra mais eficiente do que a posio econmica na
        predio de uma vida criminosa. Crianas provenientes de lares fraturados
        so mais suscetveis a dificuldades escolares, ao uso de drogas e  tentativa
        de suicdio.

    Em resumo, Larson descobriu que o compromisso religioso, longe de causar
problemas de sade, tem um efeito pronunciado na reduo destes. "Em sua
essncia, os estudos verificaram empiricamente a sabedoria do livro dos Provrbios",
concluiu ele. "Os que seguem os conselhos bblicos vivem mais, aproveitam melhora
vida e ficam menos doentes. Os fatos esto para o lado de dentro; precisamos colocar
a palavra do lado de fora." Como consultor do Instituto Nacional de Sade, e
catedrtico do recm-formado Instituto Paul Tournier (patrocinado pela Sociedade
Crist de Medicina e Odontologia), ele procurou fazer exatamente isso.


O doutor Larson, que morava prximo a Washington, capital, acreditava que esses
fatos deveriam influenciar polticas pblicas. "Ningum deve esperar que as pessoas
de deciso escrevam leis que reflitam os valores bblicos, mas descobri que eles
reagem fortemente a duas coisas: 1) manter-se vivo e 2) economizar dinheiro. Ns

                                                                               ~   82   ~
sabemos, alm de qualquer dvida, que o divrcio, por exemplo, causa prejuzos
para ambas as partes e custa muito  sociedade -- uma poltica pblica no deveria,
de alguma forma, favorecer os casamentos estveis?"
     Os pesquisadores de Larson indicam o fator determinante como sendo o grau de
compromisso religioso, no uma afiliao particular. Mrmons, judeus, catlicos e
protestantes dedicados manifestam ndices de sade melhores. O psicanalista Carl
Jung escreveu: "Tenho tratado de vrias centenas de pacientes; os protestantes em
maior nmero, um nmero menor de judeus e no mais do que cinco ou seis
catlicos. Entre os pacientes da segunda metade de minha vida... no houve um cujo
problema, como ltima opo, no fosse o de encontrar uma perspectiva religiosa
para a vida.  seguro dizer que cada um desses caiu doente por perder algo -- aquilo
que as religies vivas de cada poca tm dado a seus seguidores -- e nenhum desses
realmente se curou sem antes recobrar sua perspectiva religiosa".
     De acordo com Larson, seria difcil inventar uma receita melhor para a sade do
que a prescrio de nove ingredientes dada em Glatas 5: amor, alegria, paz,
pacincia, amabilidade, bondade, fidelidade, mansido e domnio prprio. Paulo
comenta animadamente; "Contra essas coisas no h lei".  vista do que revelou a
pesquisa de Larson, talvez devssemos adicionar uma nota de rodap; "Deveria
haver uma lei para promover essas coisas".
     Tenho l minhas dvidas de que qualquer quantidade de dados empricos
convencer o congresso americano a aprovar uma lei que siga as orientaes que as
pesquisas de Larson sugerem. Como nao, parecemos bem mais interessados em
preservar o direito  autodestruio. Entretanto, os achados nos fornecem uma pista
que pode se mostrar til para a igreja no sculo XXI.
     Num passado no muito distante, a igreja e o estado americano reconheciam
muitos dos mesmos valores: a sacralidade e a dignidade da vida humana, fidelidade
sexual, estabilidade familiar, disciplina e moderao. Esses valores tm se afastado
cada vez mais, e a igreja talvez no seja capaz de impedir essa tendncia na
sociedade secularizada. Mas podemos nos esforar para atingir o desafio original de
Jesus: o de servir como sal da terra, luz do mundo, cidade sobre o monte.
    Apesar de no podermos converter o monte inteiro, no podemos nos
envergonhar de erigir um tipo diferente de cidade na paisagem de nosso perturbado
planeta. Como a pesquisa mostra com clareza, o que  "bom" no sentido moral, na
cidade de Deus, tambm  bom no sentido pragmtico, na cidade dos homens.
Parafraseando John Locke, o cristianismo faz sentido nesse mundo e tambm no que
h de vir.




                                                                              ~   83   ~
                                  Shakespeare e os polticos
captulo vinte e quatro




Num momento de idealismo, durante um ano-novo tomei a deciso de ler todas as 38
peas de Shakespeare em um ano. Cinco anos se passaram antes de atingir esse
objetivo, mas surpreendentemente a tarefa pareceu bem mais com diverso do que
com trabalho. Sempre ficava ansioso pela chegada da noite reservada para
Shakespeare, descobrindo que as peas infalivelmente eram espirituosas e profundas,
e estranhamente atuais.
     Certa vez, enquanto ouvia a CNN bem baixinho ao fundo, decidi refletir no que
tinha aprendido. "O amor esfria, a amizade se rompe, os irmos se dividem. Na
cidade, revoltas, nos campos, discrdia; nos palcios, traio; e se arrebentam os
laos entre pais e filhos." Essas palavras de Rei Lear soaram suspeitosamente como
comentaristas descrevendo o mundo moderno. rida demais para muitas geraes, a
pea Rei Lear foi encenada por sculos com um final feliz. Agora que as sensibilidades
modernas alcanaram sua viso sombria, tornou-se a pea de Shakespeare mais
reverenciada.
        Novas vivas, cada manh, ululam; novos rfos soluam; novas dores no cu
batem" -- isso foi Macbeth ou Jess Jackson? As descries que Shakespeare faz do
crime, injustia, guerra, traio e ganncia demonstram que, no importa o que cada
partido poltico diga, esses problemas no so mutaes na Amrica de nossos dias;
eles esto por a desde o den.
     Algumas diferenas marcantes entre a viso elisabetana do mundo e a nossa
tambm sobressaem. Ouvindo os polticos de ambos os partidos, tenho a ntida
sensao de que, se to somente consegussemos manter a economia funcionando,
derrotssemos o terrorismo e educssemos os garotos que se desviaram nas gangues,
ento voltaramos  era dourada na America. Os problemas sociais (o equivalente
moderno mais prximo de "maldade") tm razes na pobreza e na falta de educao
     Shakespeare discordaria: "Por tudo quanto vejo, tanto se adoece por comer em
excesso como por definhar  mngua", observou a empregada de uma herdeira em O
mercador de Veneza. Shakespeare mostrava respeito genuno pela decncia das classes
mais baixas. Os verdadeiros viles eram ricos e poderosos, pessoas como Macbeth e
Ricardo III, que tinham todas as vantagens da educao, riqueza e excelente linhagem.
Fico impressionado pelo fato de muitos dos grandes da literatura -- Shakespeare,
Tolstoi, Balzac, Dickens -- zombarem da ideia de que a pobreza est na raiz da
maldade. Para eles, a maldade levanta sua feia cabea mais monstruosamente dentro
das classes mais altas.
     Rei Lear faz a melhor das afirmaes: "Os buracos de uma roupa esfarrapada no
conseguem esconder o menor vcio; mas as togas e os mantos de prpura escondem
                                                                                ~   84   ~
tudo. Cobrem o crime com placas de ouro..." Lear aprendeu essa lio da forma mais
difcil. Expulso de seu prprio castelo por suas avarentas filhas, ele perambulou
sozinho no meio de uma terrvel tempestade, encontrando finalmente abrigo numa
caverna com um exilado. A experincia revelou-lhe a "teologia do avesso", e pela
primeira vez ele entendeu os apuros por que passam o pobre e o desabrigado:
         Pobres desgraados nus, onde quer que se encontrem, Sofrendo o assalto
         desta tempestade impiedosa. Com as cabeas descobertas e os corpos
         esfaimados, Cobertos de andrajos feitos de buracos. Como se defendem
         vocs de uma intemprie assim ? Oh! Eu me preocupei bem pouco com
         vocs! Pompa do mundo, e este o teu remdio; Expe-te a ti mesmo no
         lugar dos desgraados, E logo aprenders a lhes dar o teu suprfluo.
         Mostrando um cu mais justo.


No e a nica cena em Rei Lear que apresenta uma semelhana subjacente com a
Encarnao de Jesus,


Os republicanos jogam a culpa dos males da sociedade no governo dos democratas,
enquanto os democratas jogam a culpa no Congresso republicano -- ou vice-versa,
dependendo da dcada. As personagens de Shakespeare tendem a implicar Deus:
"Pudeste,  Deus, apartar-te de tais gentis cordeiros e arremess-los para as
entranhas do lobo? Estavas dormindo quando tal feito se tez?", clama algum depois
de um assassinato. "O Deus, vs tu isto, e suportas por to longo tempo?", lamenta-se
outro.
      Esses clamores angustiados ironicamente revelam a crena na Providncia que
subjaz a todas as peas de Shakespeare. S levanta os punhos contra Deus quem
ainda acredita que ele est ativo. Como se v mais claramente no ciclo de peas que
gira em torno de Henrique VI, a histria -- para Shakespeare -- envolve mais do que
o surgimento e a queda de governantes e naes. O tumulto e a agitao civil na
Inglaterra significava o julgamento de Deus. Essa e uma mensagem rspida, do tipo
que nunca se ouve na CNN.
      Na poca de Shakespeare, as pessoas ainda tocavam a vida debaixo da sombra
da recompensa e da punio divinas, um pressuposto que tende a colocar a maldade
dentro de certas fronteiras. Em Ricardo III, um assassino de aluguel treme diante de
sua misso, mostrando temor: "No de o matar -- porque tenho ordem -- mas de ser
condenado por o ter morto, e disso no h ordem que defenda". E em Henrique vi o
conde de Warwick ora: "... antes que meus joelhos se levantem da face fria da terra,
lano minhas mos, meus olhos e meu corao a Ti, Tu que estabeleces e removes
reis...". Nossos lderes poderiam se valer de uma dose dessa humildade.
      Uma ltima ironia me causou impacto enquanto ponderava sobre a era
elisabetana e a minha prpria era. Comparando as personagens de Shakespeare com
os polticos dos dias atuais, no consegui deixar de considerar o quanto ns, homens
e mulheres, encolhemos. As "polticas da marginalizao" dominam nos Estados
Unidos. Vndalos vandalizam porque no conseguem se controlar; adolescentes
                                                                               ~   85   ~
engravidam porque os impulsos so mais fones do que elas; as mulheres que
defendem o direito de escolha fazem abortos porque no tem outra escolha. A
mensagem  clara: somos produtos de nossos genes, nossa famlia e nossa cultura,
nada mais.
     Em contraste, as personagens de Shakespeare andam a passos largos, cruzando o
palco na direo dos gigantes. Considero maravilhosamente renovador ler sobre
pessoas que tm um senso pessoal de destino. No se trata de autmatos ou vtimas,
mas de indivduos livres fazendo escolhas, algumas malignas e outras nobres. Como
o dramaturgo mestre insiste, eles precisam conviver com as conseqncias. Lady
Macbeth tinha outras esperanas: "Arranjai um pouco de gua, para das mos
tirardes todas essas testemunhas manchadas", disse ela a seu marido, enquanto
lavavam as mos ensangentadas. Ela no podia estar mais errada,
     Lady Macbeth morreu assombrada pela culpa, e seu marido pranteou por ela
com estas eloqentes palavras de desespero:
        A vida  apenas uma sombra ambulante,
        Um pobre cmico que se empavona e agita
        Por uma hora no palco, sem que seja, aps, ouvido;
         uma histria contada por idiotas,
        Cheia de fria e muita barulheira, que nada significa.
As peas de Shakespeare, em si mesmas, oferecem evidncias suficientes para refutar
tal niilismo. Como escreveu o estudioso da era vitoriana A. c. Bradley, em palavras
que se aplicam a quase todas as personagens de Shakespeare: "Ningum jamais
termina uma tragdia com a sensao de que o homem  uma pobre criatura. Ele
pode ser miservel, e pode ser medonho, mas ele no  pequeno".  o suficiente para
deixar voc nostlgico.




               Algum sabe o que aconteceu com o
                                         desmo?
captulo vinte e cinco




"A salvao deste mundo humano no reside em nenhum outro lugar que no no
corao humano... A nica espinha dorsal de nossas aes, se devem ser aes
morais,  a responsabilidade. Responsabilidade com algo mais elevado do que minha
famlia, firma, pas, sucesso -- responsabilidade com uma ordem de existncia em
que todas as nossas aes so indelevelmente registradas e onde, e somente nesse
lugar, elas sero apropriadamente julgadas."
    Essas palavras, proferidas diante do Congresso americano, no vieram da boca
de Billy Graham nem de Pat Robertson, mas da boca de Vaclav Havel, ento
presidente de um dos pases menos religiosos da terra, a Repblica Tcheca.
                                                                             ~   86   ~
     H alguns anos, quando o Biblioteca do Congresso convidou Havel para ser
editor convidado de sua revista Civilization [Civilizao], ele devotou a edio 
necessidade de fundamentos religiosos, concluindo: "Tenho me tornado cada vez
mais convencido de que a crise da mui necessria responsabilidade global  devida,
em princpio, ao fato de termos perdido a certeza de que o universo, a natureza, a
existncia e nossas vidas so obras de uma criao guiada por uma inteno definida,
que tem um significado ltimo e segue um propsito definido". Ele chamou ateno
para o fato de a civilizao ocidental ser "a primeira civilizao ateia na histria da
humanidade".
     A seo de cartas da edio seguinte incluiu um sem-nmero de fortes reaes
adversas. Como um intelectual do calibre de Havel pde fazer um apelo para
voltarmos  religio? Ser que ele no sabe que a religio gera violncia, racismo,
censura e intolerncia Havel pde lazer isso porque -- obviamente -- tinha vivido
sob um regime ateu que superou qualquer religio que tivesse se perdido no
caminho.
     Havel no se classifica como cristo, pois ele entende corretamente que fazer isso
exigiria reconhecer Jesus como a encarnao de Deus. Sua "teologia" permanece vaga,
prxima ao desmo clssico: Deus criou o mundo e ento o confiou a ns, exigindo de
ns apenas a aceitao de nosso papel como sditos a uma ordem superior.
     Os pronunciamentos de Havel sobre a religio -- s vezes profticos, s vezes
nebulosos -- trazem  minha mente a analise contundente e abrangente feita por
outro intelectual do incio do sculo xx. de fato, o diagnstico que Havel faz da
podrido moral na sociedade moderna se baseia fortemente em T S. Eliot. A
semelhana de Havel, Eliot enfrentou um mundo moralmente tumultuado. Hitler
controlava a Europa Ocidental, e Stalin controlava a poro leste, assim Eliot se
voltou ao cristianismo com relutncia, como a nica fora capaz de enfrentar esses
demnios.
     Durante sua caminhada, no entanto, Eliot ganhou a f que ainda falta para
Havel. Ele disse: "Assumo como verdade que a revelao crist  a nica revelao
plena e que a plenitude da revelao crist reside no tato essencial da Encarnao...
Considero a diviso entre os que aceitam, e os que negam, a revelao crist como a
mais profunda diviso entre os seres humanos".
     Alguns acusaram Eliot de acolher o cristianismo por motivos utilitrios, porque
o mundo precisava disso. Ele protestou: "No h nada pior do que defender o
cristianismo, no por ser verdade, mas porque pode trazer benefcios", disse ele.
"Justificar o cristianismo porque fornece um fundamento para a moralidade, em vez
de demonstrar a necessidade da moralidade crist partindo da verdade do
cristianismo, e uma digresso muito perigosa".


A edio de Civilization editada por Havel continha um relato sobre uma exibio
aberta na Biblioteca do Congresso, "A Religio e a Fundao da Repblica
Americana", Uma das vitrinas exibia um relato feito por um homem que encontrou o
presidente Thomas Jefferson a caminho da igreja, carregando um grande livro de
oraes, de capa vermelha. O amigo perguntou a razo de Jefferson ir  igreja, uma
                                                                                 ~   87   ~
vez que no acreditava em nada do que se dizia l. Jefferson retrucou: "Senhor,
nenhuma nao at agora existiu ou foi governada sem a religio. Nem pode ser. A
religio crist  a melhor religio que foi dada ao homem, e eu, como principal
magistrado deste pas, estou obrigado a sancion-la com meu exemplo". (Jefferson,
dizia uma nota na pea, foi  igreja todos os domingos durante sua presidncia --
uma igreja que se reunia no Senado!).
     Ouvindo Havel, notando em suas palavras sentimentos como os sustentados por
Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, sou relembrado de um mistrio da histria
religiosa. Havel parece promover a mais respeitvel forma do desmo, que preserva
os altos padres da religio ao mesmo tempo que elimina alguns de seus excessos.
Algum sabe o que aconteceu com o desmo?
     A despeito de ser apoiado pelos principais intelectuais da Revoluo
Americana, a despeito de estar baseado na melhor razo e cincia de seus dias, o
desmo virtualmente desapareceu do cenrio por volta de 1810, bem antes mesmo da
morte de Jefferson.
     Diferentemente de Vaclav Havel, tenho pouca f que uma nova gerao de
destas racionais se levantar para restaurar uma forma de ordem e moralidade
globais. Concluo que o desmo falhou, e sempre falhar, por causa de seu conceito de
Deus. Alguns poucos intelectuais podem se agradar na adorao de um senhorio
ausente, mas a maioria dos cristos prefere a noo de Jesus, de Deus como um Pai
amoroso. Precisamos de mais do que um mero relojoeiro que de corda no universo e
o deixe tiquetaquear. Precisamos de amor, misericrdia, perdo e graa -- qualidades
que somente um Deus pessoal pode oferecer.
     T. S. Eliot captou com clareza o contraste: "Para mim, a religio trouxe pelo
menos a percepo de algo acima da moral e, portanto, extremamente aterrador; ela
me trouxe no a felicidade, mas o senso de algo acima da felicidade e, portanto, mais
aterrador do que o sofrimento e a misria comuns: a prpria noite escura e o
deserto... Escolheria antes andar temendo diariamente a eternidade, como sempre
fao, do que sentir que isso foi somente um jogo infantil, no qual os competidores
igualmente receberiam prmios insignificantes no final".



                                       Poderia acontecer aqui?
captulo vinte e seis




Henri Nouwen escreveu num tom melanclico a respeito da visita que fez  sua casa
de infncia na Holanda, onde em uma gerao o vibrante catolicismo se desvaneceu
num ritual antiquado. Poucos meses antes de sua morte, ele falou para uma multido


                                                                               ~   88   ~
insignificante de 36 estudantes no seminrio no qual estudara, num tempo em que
havia o alvoroo de centenas de candidatos vidos pelo sacerdcio.
     A prpria famlia devota tinha se alegrado quando ele escolheu sua vocao,
apesar de muitos na famlia terem perdido o interesse mais tarde. Ele podia ser
chamado para batizar um sobrinho ou sobrinha, mas na maioria das vezes como uma
relquia cultural. "Sinto como se fosse um artista que nem chega perto de entreter",
disse ele depois de um desses eventos.
     Numa viagem aos Pases Baixos, deparei com muitos lembretes do declnio
abrupto da f europia. Os cristos holandeses me contaram que, um sculo atrs,
98% de toda a populao holandesa freqentava a igreja com regularidade; no espao
de duas geraes esse nmero no chegava a 20%. Quase metade das igrejas na
Holanda foi destruda ou foi transformada em restaurante, galeria de arte ou
condomnio.
     Fui a um culto vespertino em Bruxelas, na Blgica, numa igreja renomada por
seus vitrais. Dez de ns nos sentamos sob os altos arcos gticos, eu e minha esposa
ramos os nicos com menos de 70 anos de idade. Do lado de fora, um nmero bem
maior de turistas estava em p numa fila, reclamando do aviso que anunciava o
fechamento da igreja aos turistas durante o culto. Para a maioria dos europeus, a
igreja parece completamente irrelevante.


Um correspondente alemo me escreveu a respeito da reao dos europeus ao
terrorismo islmico. Os jornais de l expressaram pensamentos deste tipo: Os
muulmanos fanticos esto dispostos a morrer pelo seu Deus; ns no acreditamos mais em
Deus. Quais so nossas alternativas? Percebi algo da mesma ansiedade existencial na
Holanda. Os muulmanos tm uma presena mais pronunciada e visvel na Europa
Ocidental do que nos Estados Unidos, e os movimentos xenfobos na Alemanha,
Espanha, Austria e Frana tem se alimentado das ansiedades resultantes.
     A Holanda agora exige que os novos cidados sejam proficientes em sua lngua e
conheam algo da cultura do pas. Mas uma vez mais os europeus perguntam a si
mesmos: o que nossa cultura oferece como alternativa? A nova constituio da Unio
Europia mal reconhece a herana crist do continente.
     Meus anfitries na Holanda olham para os Estados Unidos como um modelo de
pas moderno que mantm uma f religiosa vitalizada. No entanto, sempre que viajo
para a Europa e vejo principalmente as conchas vazias de uma instituio que
dominou o continente durante 1500 anos, fico me perguntando se o mesmo padro se
aplicar  Amrica. O declnio da f que A. N. Wilson -- ele mesmo um dos smbolos
dessa f -- documentou no livro God's funeral [O sepultamento de Deus] se dar nos
Estados Unidos?
     Wilson escreve: "O funeral de Deus no foi, como muitos no sculo XIX podem
ter pensado, o fim de uma fase da histria intelectual humana. Foi o retraimento de
um grandioso Objeto de Amor". Wilson admite uma grande perda em pelo menos
duas reas. Pela primeira vez na histria, muitas pessoas no sentiram mais a
necessidade de orar ou de adorar. Tambm de forma singular, muitos deixaram de
enxergar um mundo de valores externos a si mesmos, nenhuma verdade objetiva e
                                                                                  ~   89   ~
transcendente. Os seres humanos tambm precisam definir valores e significado -- e
se o sculo anterior oferece alguma indicao das conseqncias, temos pela frente
um faturo bem rido.




                                             Fugindo dos fugitivos
capitulo vinte e sete



Tenho a sensao de que o pas est indo na direo errada", disse uma amiga minha.
Muitas pessoas compartilham dessa intranqilidade. Os crimes violentos
aumentaram em 560% desde a dcada de 1960. A promiscuidade -- no sexo, drogas,
violncia e consumo -- tornou-se o esprito de poca. Os Estados Unidos podem ser
considerados um pas cristo somente no sentido mais vago do termo. "Deus virar
as costas para a Amrica", disse minha amiga, meneando a cabea com tristeza.
     Toda essa preocupao com o "declnio da Amrica" me fez pensar no quanto
Deus presta ateno s fronteiras entre pases. Deus realmente julga os Estados
Unidos ou qualquer outro pas como uma entidade nacional: Sempre ouvi este versculo
citado como uma frmula para o reavivamento nacional: "se o meu povo, que se
chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus
caminhos, ento, eu ouvirei dos cus, perdoarei os seus pecados e sararei sua terra"
(2Cr 7:14). Mas essa promessa foi feita como parte do relacionamento entre Deus e os
hebreus antigos com base na aliana, na ocasio da dedicao do templo de Salomo,
o lugar da habitao de Deus na terra. Ser que temos algum motivo para pressupor
que Deus tenha feito um arranjo similar com os Estados Unidos?
     E certo que o Antigo Testamento mostra Deus lidando com entidades nacionais:
os profetas proferiam julgamentos tanto sobre Israel quanto sobre a Filistia, Assria e
Babilnia. Mas o Novo Testamento parece introduzir uma grande mudana: Deus
agora no est trabalhando principalmente por meio de naes, mas por meio de um
reino invisvel que transcende as naes. Jesus enfatizou o "reino dos Cus" como o
foco central da atividade de Deus na terra, um reino que permeia a sociedade de
forma afete gradualmente o todo, como sal jogado sobre a carne.
     Agora, enquanto reflito nas histrias de Jesus a respeito do reino, percebo que
muita da intranqilidade entre os cristos de hoje surge de ama confuso entre os
dois reinos, o visvel e o invisvel. Cada vez que uma eleio se aproxima, os cristos
discutem se esse ou aquele candidato  o "homem de Deus" para a Casa Branca.
Projetando-me de volta aos tempos de Jesus, tenho dificuldade de imagin-lo
ponderando se Tibrio, Otvio ou Jlio Cesar... -- sem mencionar Nero ou Calgula
-- era o "homem de Deus" para o imprio. O que acontecia em Roma estava num
plano completamente diferente do plano do reino de Deus.
     O apstolo Paulo se preocupava profundamente com igrejas individuais na
Galcia, feso, Corinto e Roma, mas no encontro nenhuma indicao de que sequer
pensasse no Imprio Romano "cristianizado". O livro do Apocalipse mantm o
                                                                                  ~   90   ~
padro: ele registra mensagens especficas s sete igrejas, mas ignora a entidade
poltica de Roma no papel de "Babilnia, a grande, a me das meretrizes e das
abominaes da terra".


Alguns historiadores argumentam que a igreja perde de vista sua misso
original  medida que se aproxima do centro de poder. Testemunham isso a poca de
Constantino, a Idade das Trevas e a Europa de um pouco antes da Reforma. Pode ser
que estejamos vendo a histria se repetir. A igreja tem enfrentado a tentao
constante de se transformar no "patrulhamento moral" da sociedade.
     Em 1991,  medida que o comunismo perdia a fora na Polnia, 70% dos
poloneses aprovavam a Igreja Catlica como fora moral e espiritual. Agora, somente
40% a aprovam, principalmente por causa da "interferncia" que exerce na poltica. A
Polnia moderna no pratica a separao entre igreja e Estado: uma nova lei de
imprensa diz que as transmisses de rdio e TV devem "respeitar o sistema cristo de
valores", e o Estado patrocina o ensino do catolicismo nas escolas pblicas polonesas.
Mas o relacionamento ntimo entre a igreja e o governo tem resultado na perda de
respeito pela igreja.
     Em vrios momentos da histria dos Estados Unidos (na dcada de 1850, a poca
da Proibio, e mais recentemente durante o movimento da Maioria pela Moralidade
na dcada de 1980), a igreja foi marcada pela ascendncia na poltica. Agora, pelo que
parece, a igreja e poltica podem estar se direcionando para lugares diferentes.
Quanto mais compreendo a mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus. menos
alarmado fico com essa tendncia. Nosso verdadeiro desafio, o foco de nossa energia,
no deveria ser a cristianizao dos Estados Unidos (sempre uma batalha perdida),
mas, em lugar disso, o empenho para sermos a igreja de Cristo num mundo cada vez
mais hostil. Como disse Karl Barth: "[a igreja] existe... para estabelecer no mundo um
novo sinal que  radicalmente diferente da maneira [do mundo] e que o contradiz de
uma forma que  cheia de promessas".
     Ironicamente, se na verdade os Estados Unidos esto deslizando por uma
escorregadia ladeira moral, isso pode permitir que a igreja seja melhor no
estabelecimento de "um novo sinal... que e cheio de promessas". J enxergo alguma
evidncia dessa tendncia. Os colunistas, socilogos e polticos hostis, todos eles, j
tiveram que concordar a respeito dos efeitos dolorosamente danosos causados por
famlias chefiadas por apenas um dos pais. Enquanto isso, o socilogo Robert Bellah,
depois de entrevistar centenas de casais casados, identificou os cristos evanglicos
como o nico grupo que conseguia articular um motivo para o compromisso com o
casamento que vai alem dos interesses egostas. Uma pesquisa como essa, trazida 
tona pelo doutor David Larson, cada vez mais d apoio aos saudveis ganhos
colaterais de uma vida de f.
      "Num mundo de fugitivos", disse T. S. Eliot, "a pessoa que vai na direo oposta
sempre dar a impresso de estar fugindo." Enquanto a America escorrega, vou orar
e trabalhar para que o reino de Deus avance. Se as portas do inferno no vo
prevalecer contra a igreja, o cenrio poltico contemporneo dificilmente vai
representar uma ameaa significativa.
                                                                                 ~   91   ~
~   92   ~
Descobrindo Deus nas entrelinhas do
noticirio
parte 5



                      A histria no contada da Rssia
captulo vinte e oito



Toda a historia, uma vez tirada a casca e exposta sua essncia,  na verdade
espiritual", escreveu o historiador Arnold Toynbec. Os eventos na antiga Unio
Sovitica demonstram a verdade dessa afirmao. Viajei para l fazendo parte de
uma delegao de dezenove lideres cristos no inverno de 1991, pouco depois do
golpe abortado que deps temporariamente Mikhail Gorbachev e pouco antes de
Bris Yeltsin ascender ao poder. Aonde quer que fssemos, oficiais do governo e civis
igualmente afirmavam que a crise de seu pas era moral e espiritual Ouvimos essa
opinio expressa de forma to imensa e freqente que passei a enxerg-la como a
histria no contada da Rssia.

     Praticamente do dia para a noite, a Rssia passou da posio oficial de atesmo e
hostilidade para se tornar, talvez, o campo de misses mais aberto do mundo. A todo
lugar que fssemos, os oficiais nos convidavam para organizar programas de
intercmbio, trabalhos assistenciais, centros de estudos e empreendimentos
arriscados para publicar literatura religiosa. Os lderes russos exprimiam o medo de
um colapso total e anarquia, a menos que sua sociedade descobrisse uma forma de
mudar sua essncia (principalmente por causa do lobby feito pela Igreja Ortodoxa
russa, muitas restries logo foram restabelecidas).
     Depois do desfile de polticos e lderes de governo seguindo o mesmo roteiro de
invarivel polidez e respeito pelo cristianismo, ficou fcil perder de vista quo
radicalmente o pas tinha mudado. Os lderes russos pareciam bem mais receptivos 
influncia crist do que, digamos, seus equivalentes nos Estados Unidos. Ser que os
predecessores


Faltam as pgs. (156-157)



que um membro da delegao, Alex Leonovich, falasse na inaugurao de sua igreja.
       "Houve vrios anos sem nenhum encorajamento", disse Baslio. A essa altura
ele j chorava sem restries e a voz falhava, mas no baixou sequer um decibel. "As
palavras desse homem, irmo Leonovich, eu carreguei no corao. Ele foi o nico que

                                                                                ~   93   ~
me encorajou quando minhas mos estavam atadas s costas." Ento Baslio se
aproximou, segurou Alex pelos ombros e o beijou  moda russa uma, duas, quinze
vezes: "um beijo para cada ano, disse ele, de espera pelo retorno de Alex".
     "E agora, essas mudanas, mal consigo acreditar nelas", disse Baslio para
finalizar. "Temos passado pelo vale das lgrimas. Quando Billy Graham veio em
1959, permitiram que ele aparecesse na varanda, mas no podia falar. Pensar que
voc est aqui em Moscou, o centro da descrena, com permisso de conversar e
tomar ch com os lderes de nosso pas. E um milagre! Irmos e irms, sejam
ousados! Com suas asas vocs esto erguendo os filhos do Senhor. Os cristos do
lugar de onde venho esto orando por vocs neste minuto, Cremos que a visita de
vocs nos ajudar a alcanar nosso pas para Deus. Deus abenoe todos vocs."
     de repente, fiquei queimando de vergonha. Aqui estvamos ns: dezenove
cristos profissionais, que viviam confortavelmente de nossa f, hospedados num
dos hotis mais luxuosos de Moscou. O que sabamos a respeito do tipo de f
grantica que e necessria nesse pas de pessoas que suportaram tamanho
sofrimento? O que nos deu o direito de representar os Baslios da Rssia diante do
presidente e do Parlamento, sem mencionar a KGB?
    Ficamos ali e oramos com Baslio, e ento ele se foi. Mais tarde, naquele dia, Alex
Leonovich mudou as escalas de sua passagem area, incorrendo numa multa
enorme, a fim de estender sua permanncia. "Como poderia recusar o convite de
Baslio:", disse ele. Nosso grupo saiu para ser homenageado em grande estilo, com
um banquete na embaixada da Ucrnia, e no vimos Baslio novamente at mais
tarde naquela noite.


Estava esperando ansiosamente o evento programado para aquela noite, uma visita
ao Clube dos Jornalistas. A recepo extraordinariamente educada que estvamos
recebendo em Moscou estava me deixando nervoso. Sabia que um estado
inteiramente ateu no tinha se aquecido para o cristianismo da noite para o dia, e
ansiava por um dilogo verdadeiramente substancial. Queria que fossemos
desafiados com perguntas difceis sobre a diferena que o cristianismo poderia fazer
num pas que estava se esgarando. Podia contar com jornalistas cnicos e obstinados
para providenciar esse desafio, pensei.
     Pensei errado. Eis o que aconteceu no Clube dos Jornalistas de Moscou.
Primeiramente ns -- os cristos norte-americanos, acomodados num palco
iluminado de um pequeno teatro -- nos apresentamos. O diretor da Fraternidade
Internacional de Assistncia aos Condenados, Ron Nikkel, normalmente taciturno,
estava se sentindo bem expansivo. "Winston Churchill disse que podemos julgar uma
sociedade por suas prises", comeou ele. "Por esse critrio, tanto a ex-Unio
Sovitica quanto os Estados Unidos so tragdias. Nossas prises so terrveis."
      "J estive em prises em todas as partes do mundo, e temos conversado com
socilogos, behavioristas e especialistas em direito criminal. Nenhum deles sabe
como gerar mudanas nos prisioneiros. Mas ns acreditamos -- e tenho visto provas
abundantes disso -- que Cristo pode transformar uma pessoa de dentro para fora.

                                                                                 ~   94   ~
Jesus, ele mesmo um prisioneiro, foi executado, mas ressurgiu. Agora, muitos
prisioneiros esto ressurgindo, graas a ele".
     A sala ficou em silncio, e ento esses "jornalistas cnicos e obstinados" fizeram
algo que no teria previsto nem mesmo em mil anos. Eles irromperam em aplausos
sonoros e prolongados. Foram estas as perguntas que lanaram para Ron: "Como e
esse perdo? Como podemos encontr-lo? Como fazer para conhecer a Deus?".
Depois, um dos jornalistas nos disse que sua profisso tinha uma afinidade especial
com os prisioneiros, uma vez que muitos deles tinham passado algum tempo na
priso. Durante muitas dcadas, os prisioneiros tinham sido os principais portadores
da verdade numa sociedade baseada em mentiras.
     Evidentemente, no seria a elite jornalstica de Moscou que desafiaria nossas
crenas crists fundamentais. Pareciam bem mais interessados em capt-las, como se
quisessem agarrar segredos raros da vida que tinham sido ocultados por setenta
anos. Depois que todos ns no palco acabamos de nos apresentar, os prprios
jornalistas falaram.
     Um senhor de cabelos grisalhos e de aparncia distinta foi o primeiro a se
levantar, identificando-se como um dos editores da Gazeta Literria, e ns sabamos
que era um dos peridicos de maior prestgio na Rssia. "No h dvidas de que
vocs conhecem os problemas de nosso pas", disse ele. "No entanto, eu lhes digo que
o maior problema no  a falta de salsichas.  bem pior, temos falta de idias. No
sabemos o que pensar. Tiraram o cho debaixo de ns. Agradecemos profundamente
sua vinda ao nosso pas e por sustentar diante de ns a moralidade, a esperana e a
f.  bonito v-los nesse lugar. Vocs representam exatamente aquilo de que
necessitamos."
     O prximo a falar foi o extremo oposto, um dissidente que se especializou em
escrever stiras polticas. Vestido de modo desleixado, despenteado e apaixonado,
careca mas com espetaculares sobrancelhas de cinco centmetros de espessura, ele
tinha a aparncia de uma personagem sada diretamente de um romance de
Dostoievski. Esse tipo falava com uma voz quase to alta quanto a de Baslio. Ele
tinha uma gagueira pronunciada -- estranho de se ouvir numa lngua estrangeira --
e assim que chegava a um ponto de clmax ele ficaria preso numa palavra. "Vocs so
nossa salvao, nossa nica esperana!", gritou ele. "Tnhamos um pas na legalidade,
uma sociedade com crenas religiosas, mas tudo isso foi destrudo em setenta anos.
Nossas almas foram su-su-su-sugadas. A verdade foi de-de-destruda. No ltimo
estgio, que acabamos de superar, at mesmo o moral c-c-c-c-comunista estava
destrudo."
     Em seguida, foi uma bela mulher loira, vestindo uma blusa de seda vermelha,
saia de couro e botas combinando, que se encaminhou pelo corredor entre as
cadeiras. Ela ficou bem perto do palco, suas mos apertando uma bolsa de grife. No
tinha visto ningum com roupas to finas em Moscou. Meu tradutor sussurrou-me
que ela era uma famosa apresentadora do noticirio. "Estou to comovida por estar
aqui esta noite", disse ela, e ento fez uma pequena pausa para controlar a voz.
      "Estou tremendo! Sinto-me to abenoada de saber que os lderes americanos
esto preocupados com questes morais e espirituais. Sou uma pessoa que recebeu
                                                                                 ~   95   ~
educao religiosa, mas ainda s dei meu primeiro passo para entender o que Deus .
Inumerveis visitantes vieram aqui para lucrar em nosso pas, mas estou muito
agradecida porque a intelligentsia americana teve cuidado suficiente para vir e se
encontrar com pessoas em nveis to importantes e tratar desses assuntos."
    Depois se seguiram outros, que se levantaram para fazer outras avaliaes por
demais generosas, semelhantes a essas e que nos deixavam constrangidos, a respeito
da importncia de nossa delegao. Em encontros anteriores, tentamos fazer meno
das falhas da sociedade e da igreja americana, mas os jornalistas pareciam
completamente desinteressados em apologias ou crticas. Eles pareciam, antes,
famintos -- aflitivamente famintos de esperana.
     Pensei na recepo que nosso grupo teria no Clube da Imprensa, em
Washington, capital. Pensei nas perguntas que prontamente instigaramos dos
editores da New Republic ou da Esquire. Tentei imaginar alguma de nossas famosas
apresentadoras de telejornais mostrando-se vulnervel diante dos colegas, como
aquela mulher loira tinha se mostrado. Enquanto ruminava esses pensamentos, notei
na platia uma figura familiar dentro de um engraado terno verde.
    As luzes do teatro tinham sido diminudas durante as apresentaes, mas agora
que a platia estava reagindo, outras luzes foram acendidas. Sentado na ltima fileira
estava Baslio, aquele da voz de sirene martima e da igreja de dois minutos no gulag.
Desde aquele momento fiquei de olho em Baslio, me perguntando como um ex-
condenado da Moldvia estava se sentindo num ambiente desses, entre as
celebridades de Moscou.
    Sempre que algum mencionava a palavra "Deus" ou "Jesus", Baslio levantava os
punhos acima da cabea, e mesmo do palco quase conseguia ver um brilho opaco
atravs do buraco entre seus dentes. Na ltima fileira, fora da viso da platia,
Baslio estava agindo como o carismtico lder de uma torcida formada por um nico
integrante.
     Pela primeira vez naquele dia tive um vislumbre de nosso grupo, vendo-o pelos
olhos de Baslio: seus embaixadores, indo aonde ele no seria convidado, falando
palavras que nem sempre conseguia acompanhar, abrindo portas que ele achava que
estavam trancadas e seladas para sempre. Ns, que nos sentimos to indignos em sua
presena naquela manh, tambm tnhamos um papel a cumprir. Nossa parte seria
ajudar a garantir que Baslio continuasse livre para cultuar, dentro ou fora do campo.
    Baslio representava os milhes de cristos russos que tinham vivido sua f com
temor e tremor. Incrivelmente, as mesas tinham sido viradas. Agora os jornalistas de
Moscou aplaudiam quando ouviam histrias de prisioneiros convertidos, e ansiavam
por novidades a respeito de Deus como pacientes terminais anseiam por uma cura.
Eles se agarraram s nossas palavras sobre o cristianismo como os economistas
russos se agarraram s palavras sobre o capitalismo, como se estivssemos
contrabandeando uma frmula secreta do Ocidente capaz de salvar a terra deles.
    No entanto, no estvamos trazendo bens importados do Ocidente. O Deus a
quem estvamos servindo esteve o tempo todo na Rssia, cultuado avidamente nos
campos e nas igrejas sem registro reunidas nas casas e nas catedrais que os
comunistas no tinham arrasado.
                                                                                ~   96   ~
    Esses jornalistas, todos eles mestres no circuito de festas da alta sociedade de
Moscou, nunca tinham conhecido um santo simples como Baslio, Nos termos mais
simples, nossa tarefa era apresent-los.


No dia seguinte ao encontro com os jornalistas, um confronto direto e desafiador
com a ideologia marxista finalmente cruzou nosso caminho, numa visita  Academia
de Cincias Sociais. O nome pode confundir: at o golpe de agosto, a academia
funcionava como uma importante escola de formao de lderes marxista-leninistas.
Raisa Gorbachev deu aula l certa feita, e muitos lderes mundiais do antigo
bloco socialista estudaram nessa escola de elite.
     Como tudo na Rssia, a academia estava passando por mudanas tumultuosas.
At o inverno de 1991, a escola era generosamente financiada pelo Partido
Comunista, mas pouco antes de nossa visita os subsdios foram abruptamente
cortados. Os catedrticos da academia, paparicados e privilegiados, agora
literalmente no tinham a menor idia de onde viria o prximo pagamento.
Debatendo-se para sobreviver, a Academia de Cincias Sociais estava se
aproximando dos cristos, que ainda tinham alguma credibilidade com o indcil
populacho. A academia estava at negociando o estabelecimento de um
departamento de estudos do cristianismo.
     Dentre todas as pessoas na Rssia, os professores da academia representavam os
verdadeiros fiis. Alimentados com a teoria comunista praticamente desde o
nascimento, tinham devotado a vida  propagao dessa doutrina. Ainda podiam ser
vistas relquias daquela intensa
devoo nos cartazes quase religiosos colocados em toda a Rssia: Lenin viveu. Lenin
vive. Lenin viver. Eles no estavam preparados para colocar Jesus no lugar de Lenin.
     Os professores reconheciam que tinham perdido, talvez para sempre, a batalha
das idias. O acalentado sonho do marxismo tinha acabado. A liberdade os assustava,
mas no podiam negar seus benefcios. Um historiador presente mencionou duas
correntes que podem brotar de uma fonte comum de revoluo: uma conduz  livre
organizao dos cidados e outra conduz ao poder absoluto.
      "Ns comeamos com ideais comuns", disse ele. "Os lderes de nossas duas
sociedades falavam de justia, igualdade e direitos individuais. Mas, de alguma
forma, vocs produziram uma sociedade que, com todos os seus problemas, ainda
propaga cortesia e civilidade. De alguma forma, comeando com ideais semelhantes,
ns aqui produzimos uma sociedade de bestas-feras. Matamos nossos prprios
cidados em nome do Estado. Sabemos que precisamos nos mover em direo 
democracia liberal, mas no sabemos como. No sabemos mais sobre quais valores
construir uma sociedade,"
     A maioria dos grupos com que nos encontramos nos cobria avidamente com
perguntas. Os catedrticos da academia pareciam os mais ansiosos para falar. Ao
ouvi-los, senti-me como se estivesse numa sesso de terapia poltica, meneando
minha cabea com empatia enquanto pacientes neurticos despejavam suas
ansiedades.

                                                                               ~   97   ~
     No meio dessa discusso excessivamente gentil, um dos catedrticos do
marxismo, um especialista em filosofia, ps-se de p e pediu a palavra (todos os
outros participantes tinham permanecido em seus assentos). Manchas vermelhas
surgiram em seu rosto, e assim que iniciou sua fala a raiva comeou a jorrar. Os
outros na sala olhavam para o lado ansiosamente, preocupados com o fato de ele
estar abandonando a cortesia no dilogo. Mas nada detinha esse homem. Ele viera
para fazer um discurso -- na verdade, uma diatribe --, e no para confraternizar
com o inimigo.
      "No precisamos ter Deus para ter a moralidade!", disse ele. "Erich Fromm
desenvolveu uma refinada moralidade fundamentada no
Homem com 'H maisculo'. Deus  desnecessrio. Por que fingir que Deus existe?"
     A voz do filsofo aumentou de intensidade, e seu rosto ficou ainda mais
avermelhado. Ele pontuava o ar com o dedo a cada item de sua argumentao, e
pensei nas pinturas de Lenin dirigindo-se aos trabalhadores. Pensei tambm nos
pregadores de palanque da parte sulista onde me criei.  bvio! Esse homem era um
evangelista fantico, o ltimo marxista de Moscou que era marxista at a ltima gota
de sangue. Ele estava ali para arrebanhar convertidos, e no fazia a menor diferena
se ele fosse a ltima pessoa do mundo que acreditava nessas coisas. Ele era um ateu
amargurado e ferido e aproveitou a chance de dar o troco.
     "O marxismo no fracassou!", gritou ele. "Sim, Stalin cometeu erros. Sim, mesmo
nosso bem-amado Lenin cometeu seus erros. Talvez at mesmo Marx tenha cometido
erros. Mas voltemos ao Marx do incio, no ao velho Marx. L encontraremos a
pureza da viso socialista. L encontraremos a moralidade fundamentada no
Homem com 'H
maisculo'.  disso que precisamos. Quanto ao cristianismo, j o experimentamos na
Rssia -- durante mil anos ns o experimentamos."
     Ns, membros da delegao, estvamos nos ajeitando nervosamente em nossos
assentos. Ter algum gritando contra voc no  uma sensao agradvel, foi o que
percebi, e guardei com cuidado o pensamento para refletir posteriormente. Alguns
membros de nosso grupo estavam cochichando com o colega do lado, e outros
estavam pigarreando, prontos para disparar numa refutao.
     O filsofo prosseguiu por dez ou 15 minutos at que finalmente o mestre de
cerimnias o obrigou a parar. Senti no clima da sala uma estranha mistura de
vingana e desconforto. Os catedrticos aguardavam nossa reao, e me encolhi de
medo das possibilidades. Alguns de ns no estvamos assim to distantes dos
pregadores de palanque, eu sabia, e a ltima coisa que a academia precisava era de
um evanglico magoado se debatendo com um ateu ferido. Pela providencia divina,
foi Kent Hill quem tomou a palavra.
     Kent Hill parece mais catedrtico do que os acadmicos. Usa culos, tem um
porte de erudito e fala num tom suave e comedido, a sntese do discurso racional.
Tambm tem doutorado em estudos russos, lecionou numa universidade e foi
presidente de outra antes de assumir um cargo no Departamento de Estado do
governo americano. No senti nenhum tipo de inveja do holofote sob o qual ele tinha


                                                                              ~   98   ~
se colocado, mas no conseguia imaginar uma figura mais adequada para falar em
nosso favor.
      "Em primeiro lugar, quero afirmar seu direito de manter suas crenas",
comeou Kent, esperando respeitosamente pelo tradutor russo. "Eu me preocupo
com a intolerncia hoje na Rssia -- a intolerncia contra os ateus. Fiquei sabendo
recentemente de um incidente em que um grupo permitiu que um cristo falasse,
mas gritou para impedir a fala de um ateu. No viemos com esse esprito. Ns
apoiamos a liberdade de religio, e isso inclui a liberdade para aqueles que no
acreditam em Deus."
     A tenso se esvaiu da sala como se algum tivesse aberto um escape de ar. Os
professores concordaram com a cabea e at mesmo o filsofo fez um ligeiro meneio.
Kent prosseguiu.
      "As questes que levantou nesta noite, senhor, so questes importantes. De
fato, no consigo pensar em outras mais importantes. O senhor tocou em questes de
significado ltimo para a humanidade e para o universo. Nosso grupo tem pensado
profunda e longamente acerca dessas questes. Chegamos a algumas concluses e
adoraramos discuti-las com vocs."
      "Mas uma noite de discusso dificilmente faria justia  importncia desses
assuntos. No me sinto  vontade para apresentar uma resposta breve. Posso dar
uma sugesto? Eu e minha famlia estamos nos mudando para Moscou em
dezembro, e vou ministrar um curso de apologtica crist na Universidade Estadual
de Moscou. Terei alegria em voltar a essa academia junto com amigos cristos e
organizar um frum no qual poderemos considerar esses importantes assuntos."
     Novamente, todos assentiram com a cabea. Kent retomou: "Mas, uma vez que
tenho a palavra, gostaria de mencionar a razo pela qual mantenho minhas crenas".
A essa altura, Kent assombrou a todos passando a falar fluentemente em russo. Os
professores removeram os fones de ouvido e agora ns, americanos, ramos os que
ouviam a traduo simultnea.
    Kent contou de um perodo de dvida na sua vida, quando ficou tentado a
abandonar suas crenas cristas. Ele comeou a ler o grandioso romance de
Dostoievski, Os irmos Karamazov -- com essa meno, mais assentimentos de cabea
-- que lida com muitos dos assuntos levantados pelo filsofo da academia.
      "Inicialmente fiquei atrado por Ivan, o agnstico. Seus argumentos contra Deus
eram poderosos, especialmente os que tratavam do problema do mal. Percebi nele
sinceridade e uma mente brilhante. Enquanto lia o livro de Dostoievski ia perdendo
gradualmente a f. Mas, para minha surpresa, em algum momento fui vencido pelo
amor demonstrado pelo irmo de Ivan, Aliosha. Ivan tinha argumentos refinados,
mas no tinha amor. Ele conseguia fazer um raciocnio que chegasse  moralidade,
mas no conseguia criar o amor necessrio para satisfaz-la. Em algum momento,
passei a acreditar em Cristo porque encontrei nele uma fonte desse amor."
     Com isso, Kent Hill se sentou e nosso encontro com a Academia de
Cincias Sociais se transformou.
    Enquanto saamos dos fantasmagricos prdios de mrmore, ocorreu-me que
Kent Hill tinha feito muito mais do que neutralizar um confronto constrangedor. Ele
                                                                               ~   99   ~
tinha nos dado um modelo para evangelizar a Rssia, talvez o nico modelo que
realmente funcione. Em primeiro lugar, ele comeara com um respeito genuno pelas
prprias crenas russas, mesmo por aquelas diametralmente opostas s suas.
Diferentemente do professor de filosofia, ele ouviu com cortesia e compaixo antes
de falar. Com o passo seguinte, ao se mudar para Moscou, Kent tinha se
comprometido com um ministrio que se encarna. Por si mesma, nenhuma delegao
de estrangeiros visitando a Rssia durante uma semana ou um ms trar mudanas
de longa durao ao pas. Mas salpicar a Rssia com pessoas dedicadas, que
compartilham das dificuldades e do alvoroo, pessoas dispostas a ficar na fila do po
em Moscou, talvez isso possa se tornar o sal que d sabor  sociedade como um todo.
     Finalmente, Kent indicou a fonte da verdade que est latente na prpria cultura
russa. O momento em que passou a falar em russo -- uma mudana quase instintiva
 medida que sua resposta se tornava pessoal -- e a referencia a Dostoievski
comunicaram bem mais para aquela audincia do que se tivesse citado uma epstola
inteira do Novo Testamento.
     Tambm foi por meio das leituras de Dostoievski que Soljenitsyn comeou, pela
primeira vez, a entender a primazia do espiritual sobre o material. Isso abriu
caminho para sua experincia de converso num campo de trabalhos forados, o que
mudou o curso de sua vida e, em ltima anlise, afetou o curso de seu pas.
Soljenitsyn tambm se tomou um cartaz indicando o caminho de volta para Deus.
Como Kent Hill tinha revelado to gentilmente, as sementes da renovao j esto em
solo russo.


Em Crime e castigo, Dostoievski escreve sobre a perigosa sensao de viver no
espao de um metro quadrado em um penhasco, numa salincia estreita na qual mal
cabem dois ps, circundado de todos os lados pelo abismo, o oceano, a escurido
eterna, a solitude eterna e a tempestade eterna. Decidi que essa  uma boa imagem
para a Rssia moderna. Todos conhecem o perigo em todos os lados; ningum sabe
como descer do penhasco.
    O que aconteceu de errado na antiga Unio Sovitica? A imprensa se concentra
no sistema econmico fatalmente avariado. Curiosamente, no vi uma nica meno
na imprensa daquilo que cada lder russo insistiu conosco: a crise ameaadora no 
a econmica ou poltica, mas, antes, moral e espiritual. O fracasso do marxismo,
diziam-nos vez aps vez,  acima de tudo teolgico.
    Discursando ao receber o Premio Templeton, em 1983, Alexander Soljenitsyn
disse:
         H mais de meio sculo, quando ainda era uma criana, lembro-me de
         vrias pessoas mais velhas darem a seguinte explicao para os grandes
         desastres que tinham se sucedido na Rssia; "Os homens se esqueceram de
         Deus; e por isso que todas essas coisas aconteceram". Desde ento gastei
         quase cinqenta anos trabalhando na histria de nossa revoluo; no
         processo li centenas de livros, coletei centenas de testemunhos pessoais e j
         contribu com oito volumes no esforo de remover os destroos deixados

                                                                               ~   100   ~
         por essa convulso social. Mas se hoje me pedissem para formular da forma
         mais concisa possvel a principal causa dessa revoluo perniciosa, que
         tragou cerca de 60 milhes de pessoas do nosso povo, nao poderia colocar
         de forma mais precisamente do que repetir: "Os homens se esqueceram de
         Deus;  por isso que todas essas coisas aconteceram".
Soljenitsyn prosseguiu dizendo: "Eu, por minha vez, enxergo hoje o cristianismo
como a nica fora espiritual vivente capaz de se incumbir da cura espiritual da
Rssia". Quando fez essas observaes, a Unio Sovitica ainda era uma
superpotncia, e Soljenitsyn era amplamente atacado por suas vises antiquadas.
Agora, menos de uma dcada depois, nossa delegao ouviu uma avaliao quase
idntica dos principais lderes do pas. Mais do que qualquer outro pas, a Unio
Sovitica se aventurou a andar sem Deus. "A religio vai desaparecer", predisse Marx
taxativamente, e suas crenas curiosas foram tornadas obsoletas pelo Novo Homem
Socialista. Mas a religio no desapareceu e nenhum Novo Homem Socialista
emergiu.
     O sculo XX testemunhou a encenao em grande escala de uma pea sobre
moralidade, com conseqncias catastrficas. O que o futuro reserva? No avio,
voltando para casa, vrios membros de nossa delegao tentavam especular Todos
ns percebemos as enormes transformaes que j surgiram. A nova abertura para a
religio excedeu o que qualquer um de ns poderia esperar. Nesse aspecto, as
oraes de milhes de cristos, do lado de dentro e de fora da Rssia, foram
respondidas.
     Tambm tive a sensao do pico, mas confesso que minha tendncia  para o
realismo, e a esperana no me vem facilmente. Mal consigo divisar com o que uma
Rssia restaurada se pareceria, menos ainda uma Rssia redimida.
     Somente uma coisa me d esperana. Nunca me esquecerei das expresses nos
rostos de Baslio, da loira apresentadora de telejornal e nem mesmo do vice-
presidente da KGB. AS parbolas a respeito do reino, da figueira e do grande banquete
explicitam uma verdade: Deus vai aonde ele  desejado. Ele no fora a sua presena
para indivduos ou naes, seja para os judeus do sculo primeiro, seja para os
americanos do sculo XXI. E quando revejo minha viagem  Rssia, uma impresso
sobressai s outras: nunca em minha vida estive em meio a pessoas com um apetite
mais voraz por Deus.

Faltam as pgs. (169-170)

         nenhuma vida aps a morte, nenhum "salvador" que de recompensas para o
         auto-sacrifcio ou que puna o egosmo e a voracidade. Depois que os
         discpulos receberam esse ensino, sou enviado para ensin-los a ser homens
         e mulheres nobres e honorveis, a despender toda s as energias fazendo o
         bem para o benefcio da sociedade, ale mesmo a ponto do auto-sacrifcio.
         Eles devem ser amveis, dizer apenas a verdade e viver uma vida
         moralmente pura. Mas eles no tm a motivao para bondade. Eles vem
         que num mundo puramente material somente aquele que se apressa e

                                                                              ~   101   ~
         agarra coisas para si mesmo possui alguma coisa. Por que eles deveriam ser
         honestos e negara si mesmos? Que motivao pode se oferecer a eles para
         que levem vidas teis para outros?
Os editores do Pravda admitiram para ns que no sabiam como motivar as pessoas a
demonstrar compaixo. Uma recente campanha de levantamento de fundos para as
crianas de Chernobyl tinha ido a pique. O cidado sovitico tpico preferiria gastar
seu dinheiro em bebida a apoiar crianas necessitadas. As prprias pesquisas feitas
por eles revelaram que 70% dos pais soviticos no permitiriam que seus filhos
entrassem em contato com uma criana deficiente; 80% no dariam nenhum dinheiro
de ajuda; alguns defenderam o infanticdio. "Como podemos reformar, transformar,
motivar as pessoas", os editores nos perguntaram. "Como se faz para as pessoas
serem bondosas?"


As perguntas dos editores indicam a segunda grande falha na antropologia marxista.
Os primeiros comunistas acreditavam que eles -- no Deus -- eram os que
determinariam a moralidade, que ento poderia ser imposta de cima para baixo.
Setenta e quatro anos de comunismo provaram, alm de qualquer dvida, que a
bondade no pode ser legislada a partir do Kremlin e imposta com uma arma
apontada. Numa grande ironia, as tentativas de extrair a moralidade  fora tendem
a produzir sditos rebeldes e governantes tirnicos.
     Pior, os governantes comunistas, que tomaram decises acerca da moralidade,
recapitularam tragicamente a primeira falha: eles tambm eram criaturas decadas.
Os princpios morais mudavam de acordo com quem estava no poder. O Pravda
agora estava demonstrando uma compaixo admirvel ao levantar fundos para as
vtimas do desastre de
Chernobyl. Mas o mesmo jornal, por exemplo, no demonstrou nenhuma gota de
compaixo pelas crianas vtimas da fome imposta  Ucrnia. Que "lei maior"
determinou quando a compaixo se aplicava e quando no se aplicava? O Pravda no
tinha uma resposta.
     Sa da Rssia com a forte sensao de que ns, cristos, faramos bem de
reaprender lies bsicas de teologia. Alguns de meus amigos parecem quase
desconcertados com doutrinas como a da Queda e do pecado original. "O
cristianismo tem uma viso muito pessimista da natureza humana", dizem eles.
     Outros gostariam que Deus desempenhasse um papel mais pronunciado nos
assuntos humanos. "Ele permite liberdade demais", dizem eles. "Por que Deus no
interfere mais? Por que ele deixa que tanta maldade fique sem punio nesta vida?"
     Na Rssia, vi os resultados trgicos das alternativas -- uma viso otimista da
natureza humana e uma moralidade fundamentada na coao, no na transformao
interior. Foi um lembrete sombriamente austero do que acontece quando os seres
humanos ignoram a revelao de Deus e inventam a sua prpria.




                                                                              ~   102   ~
                       A estrondosa queda de um muro
captulo trinta




A razo pela qual os pases que eram comunistas abriram to rapidamente suas
portas para os cristos depois do colapso do marxismo remonta ao testemunho de
cristos que permaneceram fieis ao seu chamado. Eles tambm fazem parte do uma
histria no contada.
     Na antiga Alemanha Oriental, um dos poucos pases do Leste Europeu com
maioria protestante, durante quarenta anos a igreja buscou caminhos para servir 
"cidade de Deus" enquanto vivia numa "cidade do mundo", oficialmente ateia. Uma
vez que muitas alamedas (tais como televiso e rdio) foram fechadas, desde cedo a
igreja assumiu um compromisso de cuidar dos membros mais necessitados da
sociedade, especialmente os portadores de deficincias profundas. E se reuniam
regularmente para adorao e orao.
     Apesar de Jesus ter falado de um reino que "est dentro de vs", ao longo da
histria a igreja tem enfrentado a constante tentao de fazer alianas com centros de
poder externos. A igreja dos Estados Unidos enfrenta exatamente essa tentao hoje,
enfatizando a poltica em lugar da espiritualidade. Mas, num pas como a ex-
Alemanha Oriental debaixo do comunismo, essa possibilidade no existia. Os
cristos de l no tinham nenhuma "base de poder" como essa, nenhuma que no
fosse o poder do amor e da orao.
     Mas, contra todas as expectativas, quando o momento decisivo para a mudana
finalmente chegou para o bloco do leste, a igreja abriu o caminho numa revoluo
pacfica. Os alemes-orientais olham retrospectivamente para o dia 9 de outubro de
1989 como die Wende, "o ponto da virada". O evento crucial teve lugar, bem
apropriadamente, em Leipzig, um bastio da Reforma onde Lutero pregou no sculo
xvi e Bach tocou rgo no sculo XVIII.


Durante 1989, quatro igrejas em Leipzig (incluindo a Thomaskirche de Bach)
estavam organizando reunies semanais de orao nas segundas-feiras, s 5h da
tarde. As reunies de orao tinham comeado sete anos antes, em 1982, quando o
pastor Christian Fuchrer convidou seus procos a se ajuntar para orar pela paz. Os
pastores regiam os velhos hinos luteranos, dirigiam-se a suas congregaes com uma
Bblia numa mo e o jornal do dia noutra, e conduziam rodadas de orao. Desta
forma tentavam dar significado e esperana aos assediados alemes-orientais.
Inicialmente um punhado de cristos, 12 no mximo, se reuniu.
     No entanto, gradualmente as congregaes nessas reunies de orao
comearam a aumentar, atraindo no apenas cristos fiis, mas tambm dissidentes
polticos e cidados comuns. A igreja era o nico lugar onde o Estado comunista
                                                                               ~   103   ~
permitia liberdade de reunio. Depois de cada reunio, os grupos se juntavam e
andavam pelas ruas escuras da velha cidade, segurando velas e faixas -- uma das
mais benignas formas de protesto poltico. Virtualmente, todas as demonstraes de
protesto em todo o pas comearam dessa forma, com um culto.
     Em algum momento, a imprensa do Ocidente se apercebeu da histria.
Alarmada, a hierarquia comunista debatia sobre como se livrar das marchas
pacficas. A polcia secreta circundou as igrejas, s vezes chutando ou agredindo os
que marchavam. Mas as multides em Leipzig continuaram crescendo: centenas,
milhares e depois cinqenta mil.
     O pastor Wonneberger, da igreja So Nicolau, descobriu-se desempenhando o
papel inesperado de lder de fato do movimento. Ele pregava a paz e dava conselhos
prticos sobre tcnicas de no-violncia, mesmo quando a polcia fazia ligaes com
ameaas de morte e montava vigilncia em volta da igreja.
     Em 9 de outubro, praticamente todos esperavam que a presso poltica
alcanasse a massa crtica. Berlim oriental estava comemorando o 40 aniversrio do
Estado comunista e enxergava as marchas em Leipzig como uma provocao. A
polcia e destacamentos do Exrcito se moveram em peso para Leipzig, e o lder
alemo-oriental Erich Honecker lhes deu ordens para atirar nos participantes do
protesto. O pas se preparou para uma reedio da tragdia na Praa Paz Celestial. O
bispo luterano de Leipzig preveniu sobre um massacre, os hospitais abriram espao
nos prontos-socorros, e igrejas e auditrios de concerto concordaram em abrir suas
portas caso os participantes da marcha precisassem se refugiar rapidamente.
     Quando chegou a hora da reunio de orao na igreja So Nicolau, dois mil
membros do Partido Comunista se apressaram a entrar para ocupar todos os
assentos. A igreja simplesmente abriu as galerias que quase nunca eram usadas, e mil
manifestantes tambm se aglomeraram. O Christian Century informa que o culto em
si foi um ponto de virada: membros do partido que foram  reunio com a inteno
de atravancar as coisas, pela primeira vez, perceberam que a igreja na realidade
estava trabalhando por uma mudana pacfica.
     Ningum sabe com certeza a razo pela qual os militares no abriram fogo
naquela noite. Egon Krenz, que sucedeu a Honecker por pouco tempo, tomou para si
os crditos de ter rescindido a ordem. Alguns teorizam que o prprio Mikhail
Gorbachev advertiu Honecker por telefone. Outros acreditam que o Exrcito
simplesmente se acovardou diante das imensas multides. Mas todos do crdito s
viglias de orao em Leipzig por incendiar o processo de importantssima mudana.
No fim, 70 mil pessoas marcharam pacificamente atravs do centro de Leipzig. Na
segunda-feira seguinte, 120 mil pessoas marcharam. Uma semana depois, 500 mil
apareceram -- quase toda a populao de Leipzig.


No incio de novembro teve lugar a maior marcha de todas, quase um milho de
pessoas marchando pacificamente atravs de Berlim oriental. Erich Honecker pediu
demisso, humilhado. A polcia se recusou a atirar nos manifestantes. A meia-noite
do dia 9 de novembro aconteceu uma coisa que ningum tinha sequer ousado pedir
em orao: uma brecha se abriu no odiado Muro de Berlim. Os alemes-orientais
                                                                             ~   104   ~
passaram como uma torrente pelos pontos de vistoria, passaram pelos guardas que
sempre tinham obedecido s ordens de "atirar para matar". Nem uma nica vida se
perdeu enquanto hordas de pessoas marchando com velas derrubavam um governo.
     Como uma tempestade com ventos de ar puro expulsando a poluio, a
revoluo pacfica se espalhou ao redor do mundo. Somente em 1989, dez pases,
somando mais de meio bilho de pessoas -- Polnia, Alemanha Oriental, Hungria,
Tchecoslovquia, Bulgria, Romnia, Albnia, Iugoslvia, Monglia, Unio Sovitica
--, passaram por revolues sem violncia.
     Como escreveu Bud Bultman, produtor e roteirista da CNN; "Ns da imprensa
olhvamos espantados enquanto os muros do totalitarismo vieram abaixo com
estrondo. Mas na pressa de cobrir os eventos cataclsmicos, a histria por trs da
histria foi negligenciada. Ns direcionamos as cmeras para as centenas de milhares
de pessoas orando pela liberdade, velas votivas na mo, e ainda assim perdemos a
dimenso transcendente, o carter explicitamente espiritual e religioso da histria.
Olhamos diretamente para isso e no conseguimos enxerg-lo".
     De fato, alguns enxergaram. Alemes-orientais falam sobre aqueles dias como
um milagre. "As oraes podem ou no mover montanhas, mas certamente
mobilizaram a populao de Leipzig", relatou o New Republic. "Ouvi-los cantando
'Castelo forte  o nosso Deus'  o suficiente para fazer voc acreditar." Vrias semanas
depois do ponto de virada em 9 de outubro, uma enorme faixa apareceu pendurada
numa das ruas de Leipzig: Wir danken Dir, Kirche (Ns te agradecemos, Igreja).



                              A Grande Bab est vigiando
captulo trinta e um




O dramaturgo polons Janusz Glowacki lembra-se de visitar a exposio Isso  a
Amrica em Varsvia, durante os dias mais sombrios do stalinismo. Enquanto ouvia
uma trilha sonora de boogie-woogie decadente, ele gravemente examinava vitrinas
contendo gravatas berrantes, quadros de anncios vistosos, mas de gosto duvidoso,
cruzes da Ku Klux Klan e at mesmo insetos do Colorado, que supostamente tinham
sido jogados de avies  noite para devorar as batatas dos socialistas.
     "A exibio foi montada para evocar horror, nojo e dio", escreve Glowacki. "No
entanto, teve o efeito oposto. Milhares de varsovianos, vestidos com roupas de
feriado, ficavam todos os dias em filas to compridas quanto as filas para ver o
Tmulo de Lenin, e em silncio solene olhavam para o mostrurio, ouviam
respeitosamente o boogie-woogie; querendo dessa forma, pelo menos, manifestar seu
amor cego e desesperanado pelos Estados Unidos."


                                                                                 ~   105   ~
    Agora, mais de uma dcada depois das impressionantes mudanas na Europa,
poloneses e at russos podem livremente inventar suas prprias gravatas berrantes,
quadros de aviso de gosto duvidoso e compor seu prprio boogie-woogie. Contra
todas as expectativas, a cultura ocidental triunfou, disparando bem poucos tiros. A
guerra fria acabou; a Ameaa Vermelha desapareceu. E agora?


O escritor Neil Postman (Amusing ourselves to death [Morrendo de tanto se divertir])
sugere que, apesar de aparentemente termos escapado do 1984 de George Orwell,
ainda estamos correndo grande perigo com o Admirvel Mundo Novo, de Huxley. As
pessoas normalmente confundem os dois livros, mas eles apresentam vises bem
diferentes do futuro. Talvez no devssemos temer o Grande Irmo, mas a Grande
Bab.
      Orwell fez uma advertncia contra um inimigo externo que se vale da violncia e
da propaganda para impor sua vontade -- algo semelhante ao comunismo ou
nazismo, e George Orwell conhecia bem a ambos. Em contraste, Huxley fez
advertncias contra um inimigo mais sutil que vem de dentro. As pessoas
alegremente trocariam sua liberdade e autonomia por uma tecnologia que promete
conforto, segurana e divertimento, predisse ele. Os viles de Orwell usavam uma
mquina que causa dor para forar seus decretos; os viles de Huxley se valeram do
prazer. O regime de Orwell baniu os livros; na fantasia de Huxley, os livros so
abundantes, mas ningum quer l-los.
      Uma vez que 984 chegou e j foi embora e sua ameaa retrocede rapidamente,
talvez seja a hora de atualizar o pesadelo gentil de Huxley. Como seria uma
"Admirvel Sociedade Nova"?
      1. A Admirvel Nova Sociedade conserta os defeitos da personalidade humana. O
neurofisiologista Jos M. R. Delgado causou sensao alguns anos atrs quando fez
um touro em ataque parar completamente ao pressionar um botozinho num
radiotransmissor. Ele tinha implantado um eletrodo no crebro do touro. O ttulo do
livro em que descreveu esse e outros experimentos transmite isso bem: Physical
control of the mind; toward a psychocivilized society [Controle fsico da mente: por uma
sociedade psicocivilizada].
      Abra a torneira dos fundos governamentais, disseram os cientistas
comportamentais, e identificaremos os fundamentos fisiolgicos da violncia, dos
vcios e dos distrbios sexuais e de personalidade. Ento poderemos corrigi-los por
meio de medicamentos ou de cirurgia.
      Admite-se que uma sociedade sem defeitos pode acabar confiscando algumas
contribuies valiosas feitas por aqueles que no se encaixam no padro. Ser que
Beethoven, Schubert e Brahms teriam criado tal msica se os distrbios de
personalidade deles tivessem sido consertados? Poderamos ter perdido a traduo
da Bblia em latim feita por Jernimo, a Vulgata, que serviu  igreja por mil anos (ele
se dedicou a ela como forma de sublimar seu desejo sexual), e Agostinho poderia ter
amaciado as Confisses. Mas pense no quanto Abraham Lincoln -- que raramente
ria, lutava com a depresso e estava casado com uma mulher que provavelmente era
psicopata -- poderia ter melhorado.
                                                                                 ~   106   ~
     2. A Admirvel Sociedade Nova simplifica a moralidade. Durante sculos, a igreja e o
Estado tm aberto picadas no meio de uma densa mata de assuntos relacionados 
sexualidade e  justia social. A nova sociedade dispensa noes como verdade
absoluta e "direitos inalienveis". Somente dois princpios contam: gentileza e
tolerncia.
     O pensamento politicamente correto, baseado na gentileza e na tolerncia,
continuar insistindo em certos ajustes culturais. Huckleberry Finn e os Irmos Grimm
precisaro ser completamente reformulados. Os trechos anti-semitas na obra de
Shakespeare precisam ser eliminados. Estaria uma Bblia politicamente correta muito
distante? (Afinal, Zaqueu no era "baixinho", mas era "portador de prejuzo na
verticalidade").
     3. A Admirvel Sociedade Nova resolve os problemas usando a tecnologia. C. S.
Lewis escreveu: "Para os antigos homens sbios, o problema cardeal da vida humana
era como conformar a alma  realidade objetiva, e a soluo era sabedoria,
autodisciplina e virtude. Para a mente moderna, o problema cardeal  como
submeter a realidade aos desejos do homem, e a soluo  uma tcnica".
     Ns usamos critrios como "desenvolvido, em desenvolvimento e
subdesenvolvido" para as Admirveis Sociedades Novas, evitando palavras com
conotao de valor tais como justo, moral e bom. Profetas de olhar tristonho como
Soljenitsyn costumavam dizer que o Oriente sofredor poderia ensinar valores
espirituais ao Ocidente materialista. No tenho ouvido esse argumento ultimamente;
o Oriente est muito atarefado tentando alcanar o padro econmico do Ocidente.
     A frica e partes da sia parecem estar alm de nossa capacidade tecnolgica de
realizar consertos. Elas tambm tero seu lugar na Admirvel Sociedade Nova:
vamos assistir a relatos de dois minutos sobre a devastao, ensanduichados entre as
notcias sobre esporte e a previso do tempo. Tal atitude tem um bom precedente,
datando, no mnimo, da poca do Decamero, de Bocaccio. Durante a Peste Negra,
alguns homens e mulheres jovens se refugiaram num castelo bem protegido.
Enquanto carroas recolhiam os mortos do lado de fora, esses poucos afortunados se
devotaram aos prazeres e aos jogos, contando as famosas histrias imaginadas por
Bocaccio.
     4. A Admirvel Sociedade Nova eleva o entretenimento acima de todos os outros valores.
Para se ter uma idia do quanto valorizamos o divertimento, considere que um bom
jogador de futebol ganha muitas vezes mais por uma noite de trabalho do que um
professor de fsica no ensino mdio ganha por ano.
     George Orwell temia o Grande Irmo, cuja imagem projetada invadiria todas as
casas. Agora as teias esto no lugar, mas ns escolhemos as imagens que queremos, e
a coisa mais importante  a diverso. Como afirma o estudioso da mdia David
Thorburn, podemos somente permanecer assombrados com a "genialidade televisiva
que propagandeia a banalidade".
     As famlias americanas assistem de cinco a sete horas de televiso por dia,
demonstrando uma obsesso com a diverso sem precedentes na histria.
Naturalmente, o meio altera a mensagem. Assista ao programa Vila Ssamo por trs
minutos e voc ver como a educao fica quando forada a se encaixar num formato
                                                                                    ~   107   ~
divertido. Ou compare os programas bem-sucedidos de teleevangelismo com o culto
tpico numa igreja local.
     Vem-me  mente uma citao antiga de Henry David Thoreau, que tinha uma
viso perturbadoramente mirrada: "Nossas invenes tm o costume de ser
brinquedinhos interessantes, que nos desviam a ateno das coisas srias. No
passam de meios aperfeioados com um fim pouco aperfeioado, um fim que j era
demasiadamente fcil de ser alcanado... Temos uma grande urgncia de construir
um telgrafo magntico que ligue o Maine ao Texas; mas Maine e Texas, talvez, no
tenham nada de importante para comunicar".


Estamos perto ou longe de atingir a Admirvel Sociedade Nova? Uma visita 
Biblioteca do Museu Britnico me fez dar uma parada. Uma das salas expe cartas e
pginas de manuscritos originais de grandes escritores, organizadas
cronologicamente. Passei vrias horas ali, indo de Shakespeare e Donne para
Elizabeth Barrett Browning, Jane Austen e Virginia Woolf. Por fim, cheguei  coleo
de manuscritos mais recentes. L, exposta num envoltrio de madeira com letras
feitas de finssimas folhas de ouro, estava o original rabiscado de uma das canes
mais famosas dos ltimos tempos: Oh yeah, oh yeah, I wanna hold your hand [Quero
segurar a sua mo]. O poeta captou com preciso o esprito da poca.
     Daniel Boorstin, ex-bibliotecrio do Congresso e diretor do Museu Smithsonian
de Histria Americana, faz esta avaliao da cultura contempornea:

         Quando pegamos nosso jornal no caf da manh, esperamos -- at mesmo
         exigimos -- que ele nos traga eventos muito importantes acontecidos desde
         a noite passada. Ligamos o rdio enquanto nos dirigimos de carro para o
         trabalho e esperamos "notcias" que ocorreram depois que o jornal matutino
         foi para a impresso. Quando retornamos,  noite, esperamos que nossa
         casa no apenas nos proteja, que se mantenha aquecida no inverno e fresca
         no vero, masque nos relaxe, que nos dignifique, que nos envolva com
         msica suave e hobbies interessantes, que seja um parque de diverses, um
         cinema e um bar. Esperamos que as frias de duas semanas sejam
         romnticas, exticas, baratas e no exijam esforos. Esperamos um ambiente
         distante quando vamos a um lugar prximo; e esperamos que tudo seja
         relaxante, limpo e americanizado quando vamos a lugares distantes.
         Esperamos ter novos heris em cada temporada, uma obra-prima literria
         por mes, algo espetacular e dramtico por semana, uma sensao rara todas
         as noites. Esperamos que todos se sintam  vontade para discordar e, no
         entanto, esperamos que todos sejam leais, que no balancem o barco ou
         usem a Quinta Emenda. Esperamos que todos acreditem profundamente
         em sua religio, masque no faam pouco dos que no acreditam.
         Esperamos que nosso pas seja forte, grandioso, vasto, variado e esteja
         preparado para qualquer desafio; mas esperamos que nosso "propsito
         nacional" seja claro e simples, algo que direcione a vida de duzentos


                                                                             ~   108   ~
         milhes de pessoas, mas que possa ser vendido numa edio simples na
         farmcia da esquina por um dlar.
            Esperamos tudo e qualquer coisa. Esperamos o contraditrio e o
         impossvel. Esperamos carros compactos que sejam espaosos; carros
         luxuosos que sejam econmicos. Esperamos ser ricos e caridosos, poderosos
         e misericordiosos, ativos e reflexivos, gentis e competitivos. Esperamos ficar
         inspirados com apelos medocres a favor da "excelncia", a fim de nos
         tornemos alfabetizados por apelos analfabetos a favor da alfabetizao.
         Esperamos comer e permanecer magros, estar constantemente nos
         mudando e cada vez mais prximos da vizinhana, ir  "igreja de sua
         escolha" e sentir sua fora guiadora sobre ns, reverenciar Deus e ser Deus.
            Nunca as pessoas dominaram mais seu ambiente. Mas nunca um povo se
         sentiu mais enganado e decepcionado.
Ah, Admirvel Mundo Novo! Boorstin se esqueceu de mencionar que a palavra
cultura, como na expresso "cultura moderna", tambm se refere a algo que cresce em
um meio artificial. Por exemplo, um vrus.




                                         Tremores subterrneos
captulo trinta e dois




Em 1983 um empresrio americano aterrissou no aeroporto de Pequim, entrou numa
limusine que estava na pista e viajou para um encontro no centro da cidade sem
avistar um nico veculo alm da prpria limusine. O motorista estava mais
preocupado em se desviar de algumas dos oito milhes de bicicletas da cidade.
Meros vinte anos depois, em 2003, o governo chins anunciou o registro do carro de
nmero dois milhes.
     A China est andando bem no caminho de transformar o sculo XXI no "sculo
da China". Trinta e cinco por cento dos navios de carga ocenicos esto levando bens
e matrias-primas para alimentar a superaquecida economia chinesa. Empresas de
equipamento pesado estimam que 40% dos guindastes de construo do mundo
esto em operao l. Somente em Pequim, dois mil arranha-cus esto sendo
construdos (apesar de o governo ter decretado que todos os guindastes devem ser
levados embora at 2007, para no atrapalhar a paisagem na Olimpada de 2008, a
vitrina da China para o mundo).
     Enquanto isso, debaixo da tela do radar, a igreja chinesa tem crescido num ritmo
ainda mais rpido do que o da economia. Em 1950, o governo comunista expulsou
sete mil missionrios e fez o mximo que pde para controlar o cristianismo por
                                                                                ~   109   ~
meio das igrejas oficiais (igrejas regulamentadas pelo governo, dedicadas  auto-
administrao, auto. suporte e autopropagao). Durante vinte anos a estratgia
parecia funcionar, at que na dcada de 1970 o movimento clandestino das igrejas
nas casas eclodiu, como se fosse por gerao espontnea.
     At mesmo o governo chins admite que os cristos protestantes tiveram um
aumento de um milho em 1950 para dezesseis milhes hoje. Mas esse cenrio no
contabiliza os muitos milhes que se renem secretamente nas congregaes caseiras.
David Aikman, ex-chefe do escritrio da revista Time em Pequim, sugere em seu livro
Jesus in Pequim [Jesus em Pequim] que os cristos podem somar cerca de oitenta
milhes -- isso num pas oficialmente ateu que vem perseguindo sem trguas os
cristos.
     Aikman ficou to intrigado com os rumores vindos da China, que se mudou
para Hong Kong para pesquisar o fenmeno.  plausvel, diz Aikman, "que de 20% a
30% da populao da China seja crist no 'perodo' de trinta anos". Inevitavelmente,
os cristos encontraro os caminhos para alcanar postos-chave de liderana. "A
China ser cristianizada se a tendncia atual for mantida", diz Aikman.


Entrevistei quatro representantes do movimento chins das igrejas nas casas numa
viagem a Pequim, em 2004. Meus anfitries tinham alugado dois quartos de hotel e
nos mudvamos de quarto para a entrevista seguinte (de forma que, se fossem
presos, nenhum dos cristos chineses pudessem implicar os outros). Embora os
quartos fossem abafados e cheirassem a inseticida, no ousamos abrir as janelas, a
fim de evitar que os representantes do Departamento de Segurana Pblica ficassem
 espreita.
     Tinha trazido comigo cpias autografadas de alguns de meus livros em chins,
mas os anfitries pediram que eu rasgasse a pgina com minha assinatura. Um
autgrafo original num livro provaria que os lderes da igreja tinham contato direto
com o Ocidente, o que prejudicaria ainda mais sua segurana. Claramente, tinha
muito o que aprender sobre operar num ambiente hostil a religio.
     Tinha uma vida expectativa quanto ao encontro agendado com o pastor Allen
Yuan, patriarca do movimento das igrejas nas casas, que corajosamente desafiou as
tentativas do governo de controlar suas atividades. O pastor Yuan sobreviveu a 22
anos de trabalhos forados na priso e, ao ser libertado, imediatamente retomou o
batismo de novos convertidos. A visita que Billy Graham fez  sua casa, em 1994,
atraiu ateno mundial, e quando o presidente Clinton visitou a China em 1998, o
governo proibiu todos os dois mil jornalistas de v-lo.
     Infelizmente, o pastor Yuan ligou para o hotel para avisar que em decorrncia do
encontro anual do Partido Comunista, que estava sendo realizado em Pequim, as
autoridades o tinham novamente proibido de se encontrar com estrangeiros.
     Lao San, supervisor de cerca de cinqenta lderes de igrejas nas casas, viajou dez
horas num trem noturno para contar sua histria. Ele comeou a pregar com doze
anos de idade e se devotou  comunidade crist rural, que compreende em sua
maioria fazendeiros sem educao formal. Ele descreveu um culto tpico na igreja,

                                                                                ~   110   ~
com duas ou trs horas de durao, que inclui muitos cnticos, orao em voz alta e
um sermo de aproximadamente uma hora de durao. Lao San parecia estar com
medo. Recentemente tinha sido atormentado pelas autoridades locais, e percebi que
o prprio fato de se encontrar com um ocidental ps medo em seu corao. Ele me
disse que mantm sua preciosa Bblia enterrada numa caixa em seu quintal. Lao San
manteve a cabea baixa e respondeu s minhas perguntas em frases curtas e
objetivas.
     Em seguida veio o Irmo Josu, um fazendeiro atarracado com cabelos
completamente brancos. Terceira gerao de cristos, ele consegue remontar sua
linhagem a alguns dos missionrios dos velhos tempos. Diferentemente de Lao San,
Josu falava orgulhosa e volumosamente sobre todas as suas atividades. Josu
perdera o emprego durante a Revoluo Cultural, passou seis meses na priso e
agora  apoiado por cristos japoneses que se valem de seus servios para distribuir
Bblias. Ele mantm um grande estoque de Bblias num celeiro, que so trazidas por
"turistas" japoneses; ao longo dos anos Josu distribuiu centenas de milhares dessas
Bblias. (Apesar de 25 milhes de Bblias terem sido impressas e vendidas legalmente
desde 1987, mais da metade dos cristos chineses no tem acesso a um exemplar.)
     O visitante mais impressionante foi o Irmo Xi, um brilhante e apaixonado
homem com 44 anos de idade, que no se encaixava no perfil do cristianismo
campons. Na verdade, na adolescncia Xi encabeou a
Liga Jovem Comunista e depois serviu no Exercito Vermelho. Ele passava prximo a
uma igreja oficial com sua bicicleta todos os dias a caminho do quartel-general do
partido, e ficou intrigado. Ele tinha que trabalhar duro para atrair jovens para o
partido, enquanto a igreja oficial estava sempre abarrotada.
     Certo dia ele decidiu ir  igreja e os testemunhos vibrantes dos cristos o
intrigaram ainda mais. Ele comprou uma Bblia e a leu de capa a capa, do Gnesis at
o Apocalipse. Poucos meses depois, ele anunciou ao dirigente do partido que estava
se tornando cristo. O dirigente se colocou de p num salto e gritou com ele, dizendo
que estava cometendo um grave erro. Estava eliminando toda oportunidade de
melhorar na vida, jogando fora um futuro brilhante. Assim que Xi saiu da sala, o
dirigente ligou para o pai do rapaz para relatar a traio.
     O pai de Xi o recebeu na porta praguejando. "Voc fez uma coisa muito ruim
para ns!", disse ele. "Eu lutei contra o cristo Chiang Kai. chek e lutei contra os
cristos na Coria, e agora eu tenho Jesus na minha prpria casa!" Ele expulsou Xi de
sua casa, jogando seus pertences no cho do lado de fora. Durante vrios dias Xi
dormiu no escritrio de um amigo. Ele via seu pai na rua e tentava falar com ele, mas
o pai sempre virava o rosto.
     Uma dcada depois, depois da cura milagrosa de seu neto, o pai de Xi
finalmente comeou a amolecer. Hoje ele tambm  cristo.
     O Irmo Xi precisa viajar constantemente, despistando a polcia por meio de
escapadas apertadas. "Nunca fui preso, graas  ajuda das igrejas que me escondem",
diz ele. "Certa vez eu sumi trs minutos antes de a polcia chegar." As igrejas nas
casas, reconhecendo as habilidades de liderana de Xi, o promoveram, e agora ele


                                                                              ~   111   ~
supervisiona 260 mil cristos em sua provncia. Ele v sua esposa, tambm uma
renomada lder da igreja, somente uma vez por ano.
     Assim que nossos encontros foram concludos, algum bateu  porta. Era o
pastor Yuan, um espevitado senhor de idade que tinha decidido contrariar a
interdio e se encontrar de qualquer jeito com um estrangeiro. "Tenho noventa anos
e passei 22 anos na priso. O que eles faro comigo?", disse ele com um largo sorriso.
Ele me deu uma foto dos 453 fiis chineses que batizou em 2003.
    Antes de ir para a China, eu me encontrei com um dos missionrios que foram
expulsos em 1950. "Ns ficamos muito aflitos por causa da igreja que estvamos
deixando para trs", disse ele. "Eles no tinham ningum que os ensinasse, nenhuma
imprensa, nenhum seminrio, ningum para tocar as clnicas e orfanatos. Nenhum
recurso, realmente, com exceo do Esprito Santo." Parece que o Esprito Santo est
fazendo muito bem o seu trabalho.


                 O clamor do continente bem-amado
capitulo trinta e trs




Dois meses antes de visitar a China, fiz uma jornada pela bela terra da frica do Sul.
Enquanto a China emerge com cuidado de um governo rigorosamente totalitrio, a
frica do Sul est comemorando a segunda dcada da libertao de um governo com
um rgido apartheid,
     A igreja revela um contraste semelhante. Enquanto a igreja na China opera
principalmente fora das vistas, os cristos da frica do Sul operam impetuosamente
em campo aberto. Desmond Tutu, um bispo anglicano, ganhou o Prmio Nobel da
Paz durante a luta contra o apartheid e continua sendo um heri nacional. Cerca de
70% dos sul. africanos freqentam a igreja, uma das taxas mais altas do mundo.
Mesmo assim, o terrvel espectro da doena se avulta sobre o pas e a igreja,
enevoando o futuro de ambas.
     Mas quem quer ouvir a respeito da AIDS na frica? Agencias que prestam socorro
como a Viso Mundial e a World Concern encaram o problema enquanto tentam
levantar fundos para lutar contra essa catstrofe mundial de sade. Os americanos,
paralisados pela magnitude dos problemas na frica, se perguntam se algo ainda
pode ser feito. Apesar de nunca dizerem isso abertamente, muitos cristos
americanos no conseguem deixar de pensar que "eles merecem isso". Afinal, a AIDS
na frica no se dissemina principalmente por causa da promiscuidade sexual.
     De fato, os que viajam para a frica encontram uma paisagem sexual diferente.
Rapazes adolescentes celebram seu rito de passagem para a vida adulta com uma
cerimnia pblica de circunciso; nas cidades maiores pode-se ver "tendas de
circunciso" de plstico prximas a aeroportos, dentro de trevos rodovirios ou em
                                                                               ~   112   ~
qualquer lugar que exista uma rea livre. Depois disso, os novos "homens" podem
comemorar sua condio como adulto com aventuras sexuais. O continente tem uma
longa histria de poligamia e, em lugares como a frica do Sul, a prtica de separar
os homens trabalhadores de suas famlias ajuda ainda mais a romper os laos
conjugais.
     Ningum est isento: em levantamentos confidenciais feitos pela Viso Mundial,
62% dos pastores sul-africanos admitem ter tido casos extraconjugais, com uma
mdia de trs ou quatro parceiras cada. Os muulmanos orgulhosamente enfatizam
que na frica, a grande fronteira entre o islamismo e o cristianismo, o islamismo est
ganhando fora, em grande parte porque os cristos na frica sub-saariana esto
morrendo numa velocidade mais alta, enquanto as rgidas leis da Shana mantm a
promiscuidade em nveis baixos, e em conseqncia disso a incidncia do HIV nas
reas muulmanas.
     Mas a estratgia de apontar o dedo no ajuda muito na resoluo do problema.
Bruce Wilkinson cutucou uma casa de marimbondos quando fez palestras para
lderes de igrejas africanas tratando dos aspectos pecaminosos da epidemia de AIDS.
Em Uganda, algumas igrejas evanglicas exigem teste de Hiv e no realizam o
casamento de casais a menos que ambos tenham o exame negativo para o vrus --
empurrando assim jovens casais para longe da igreja.
     A negao tambm no ajuda. Na frica do Sul, que tem o maior nmero de
pessoas portadoras de HIV/AIDS no mundo, o presidente Thabo Mbeki questionou de
forma aberta a ligao entre a AIDS e o vrus HIV. Recentemente etc declarou que
nunca conheceu algum que tenha morrido de AIDS. Isso pode ser tecnicamente
verdadeiro (a AIDS diminui a resistncia do corpo a outras doenas, que por sua vez
matam a pessoa), mas essa atitude tem dificultado os trabalhos de conscientizao
sobre a AIDS, que esto tentando alertar os africanos para a urgncia da crise.
     Qualquer que seja a medida, os que trabalham com aidticos enfrentam uma
tarefa herclea. Em certas regies da frica, a expectativa de vida despencou de 65
anos para 33 anos, um nvel que no era registrado desde o sculo XIX. Ouvi muitas
estatsticas sobre a AIDS na frica do Sul, e nenhuma mais atordoante do que esta: os
pesquisadores prevem que em algumas reas, metade dos jovens com menos de
quinze anos morrer dentro de dez anos. Imagine um professor andando por uma
sala de aula e olhando para rostos jovens e vidos, sabendo que metade deles em
breve estar morta.
     Os trabalhadores da Viso Mundial no sul da frica me disseram que o auto-
estigma e o maior obstculo, pois impede as pessoas infectadas de ser testadas ou de
buscar tratamento. Quando Botsuana (onde 38% da populao est infectada com o
HIV, a maior taxa do mundo) ofereceu medicao de graa para os portadores de AIDS,

somente 1% da populao respondeu, devido ao estigma.
     Um trabalhador portador do vrus Hiv, contaminado por meio de transftiso de
sangue, disse para mim: "Para os que no tem compaixo pelos africanos porque 'eles
merecem isso', eu os lembro de que metade das infeces acontece quando um
parceiro promscuo contamina algum 'inocente' e que no suspeita de nada". Com
demasiada freqncia, o HIV tambm  transmitido para a criana que  gerada, ou
                                                                               ~   113   ~
ento essa criana se tornar mais uma entre os milhes de rfos da AIDS que agora
crescem na frica.
     Visitei um centro de tratamento cristo em Johannesburgo para os que esto
num estgio avanado da doena e vi crianas com braos que se pareciam com
palitos, com um olhar perdido, que ficam na cama o dia todo esperando a prxima
convulso. "Mes" voluntrias as visitam para nin-las. Os novos avanos no
tratamento oferecem esperana para algumas crianas, mas nesse nterim muitas
esto morrendo. Uma comunidade prxima tinha media de dois funerais por
semana; agora so 75. Um centro cristo na Cidade do Cabo, que ensina s crianas
tcnicas de impresso, era especializado em convites de casamento; agora o sustento
deles provm da venda de programas de sepultamento.
     De todos os pases do Continente, a frica do Sul  o nico onde a
probabilidade de ouvir palavras como esperana e transformao e mais alta. Heris
que so maiores que sua prpria vida, como Desmond Tutu e Nelson Mandela, ainda
inspiram o pas com o poder da graa e da reconciliao. A AIDS representa uma crise
completamente diferente daquela provocada por um governo de apartheid
entrincheirado.
Aquela era uma crise de teologia e de justia. Essa  uma crise de compaixo, que
exige no a mudana de leis e de governo, mas dos coraes, Podemos olhar para as
crianas com futuros roubados, para um continente inteiro cujo futuro se equilibra
numa balana, e fazer perguntas para Deus. Ou podemos olhar para esses mesmos
problemas e perceber que essas so perguntas que Deus faz para ns. Quem se
preocupa com a Aids na frica?


Faltam as pgs. (193-196)




                                                                             ~   114   ~
Descobrindo Deus nas brechas
parte 6


                             Cinco palavras contaminadas
captulo trinta e cinco




Certo dia minha esposa, Janet, que eslava dirigindo um programa para cidados
idosos num dos bairros mais pobres de Chicago, deparou com essa citao: "O pobre
expressa sua gratido no ao dizer obrigado, mas ao pedir mais". Ela havia acabado
de passar por um dia exaustivo e se sentia cercada de exigncias caprichosas e
insistentes por mais ajuda, Essa citao se mostrou estranhamente reconfortante,
disse-me ela.
     Por que  que o pobre expressa sua gratido to indiretamente? Fiquei
matutando. Por que eles simplesmente no agradecem? Depois de conversar com
Janet a respeito de suas muitas experincias no trabalho, conclu que  por causa da
vergonha -- vergonha de precisar de ajuda, em primeiro lugar. Sei quanto  difcil
para eu pedir a ajuda de algum. Como seria viver num estado de constante
necessidade?
     Indo direto ao ponto: como os que ajudam outras pessoas podem faz-lo sem de
alguma maneira erodir o senso de dignidade delas? Devido a meu instinto de
escritor, imediatamente comecei a pensar em palavras singulares e fiz uma lista.
Todas essas palavras comearam como uma expresso pura da doao, mas foram
contaminadas ao longo do tempo. Essas palavras entulham a lngua portuguesa;
tomadas em conjunto, oferecem uma forte advertncia a respeito dos perigos
inerentes em dar e receber.


Piedade. Derivada da mesma raiz de piedoso, essa palavra j denotou uma forma
elevada de amor sacrificial. No entanto. Deus, um ser perfeito que no tem
necessidades, escolheu dar de si mesmo para suas criaturas. Deus teve piedade das
pessoas necessitadas, tais como os escravos israelitas no Egito. O ato ltimo de
autodoao feito por Deus, a Encarnao, pode na verdade ser visto como um ato de
piedade, motivado pelo amor de Deus por ns, criaturas humanas decadas. Na terra,
Jesus freqentemente se sentia movido de compaixo, ou de piedade. Aqueles que o
imitaram -- o rico tendo piedade do pobre, por exemplo -- expressaram dessa
maneira qualidades divinas.
    Esse era, pelo menos, o antigo significado da palavra. Em algum momento a
nfase foi transferida dos doadores para os recebedores, que foram considerados
fracos e inferiores. Agora ouvimos o xingamento: "no quero a sua piedade!". Aquele
                                                                             ~   115   ~
que mostra piedade  condescendente, falta-lhe at mesmo o amor -- o significado
da palavra praticamente se inverteu.
     Caridade. A Receita Federal ainda reconhece a bondade inerente a essa palavra --
a agncia concede iseno de impostos para doao a organizaes "caridosas" --
mas certamente esta tambm perdeu algo de seu brilho. Na Verso King James da
Bblia, de 1611, o captulo 13 da primeira carta aos corntios pe caridade como
traduo direta de gape, a forma mais exaltada de amor, o tipo de amor que mais se
aproxima do amor de Deus. A caridade flui de uma pessoa que  paciente, gentil,
perdoadora, humilde; a caridade nunca deixa de discernir o melhor nas pessoas.
     No entanto, mais uma vez o significado se inverteu com o tempo: agora
ningum quer ser um "caso de caridade". Aceitamos a caridade apenas no desespero,
como ltima opo.
     Condescender. Enxergo a Bblia inteira como histria passo a passo das
condescendncias de Deus. A Ado no jardim, a Moises na sara ardente, aos
israelitas na nuvem gloriosa e, finalmente, a todos ns na Encarnao, ele
condescendeu, ou "desceu para estar conosco". O verdadeiro cristo segue esse
exemplo, como resumiu claramente o apstolo Paulo nesta passagem: "Tende em vs
o mesmo sentimento que houve tambm em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em
forma de Deus, no julgou como usurpao o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se
esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhana de homens" (Fp
2:5-7).
     Uma vez mais, no entanto, com o tempo o significado da palavra se diluiu.
Perdemos a refinada arte da condescendncia. Quem de ns daria boas-vindas 
observao "voc  to condescendente!"?

    Falta a pg. (201)


     Poderamos evitar esses problemas se simplesmente ignorssemos os
necessitados e nos associssemos exclusivamente com pessoas auto-suficientes. No
entanto, alcanar os necessitados no  uma opo para o cristo.  uma ordem.
Escrevi um livro com o ttulo Deus sabe que sofremos. Nele afirmo que a resposta para
a pergunta "Onde est Deus na hora do sofrimento?"  outra pergunta: onde est a
igreja quando sofremos? Ns, seguidores de Jesus, somos a principal resposta de
Deus para as incontveis necessidades do mundo. Somos, literalmente, o Corpo de
Cristo.
     Quando Jesus viveu aqui num corpo fsico, ele ficou em meio aos pobres, vivas,
paralisados e at mesmo entre os que tinham doenas terrveis. Pessoas com lepra,
por exemplo -- portadores de AIDS dos tempos antigos --, eram obrigados a gritar
"Impuro! Impuro!" se algum se aproximasse. Tocar nessas pessoas era contra a lei de
Moiss. Mas Jesus desafiou a lei e o costume ao se dirigir a portadores de lepra e
toc-los -- um ato assombrosamente condescendente. Esse tem sido o padro
consistente adotado por Deus na histria.



                                                                              ~   116   ~
    Ns, na igreja, o corpo de Deus na terra, tambm somos chamados para alcanar
os que sofrem. Afinal, somos o meio pelo qual Deus expressa seu amor ao mundo, e e
por isso que palavras como piedade e caridade tm origem religiosa.
     Podemos recuperar essas palavras contaminadas? Ou, se no elas, pelo menos o
significado implcito? Fico um pouco esperanoso com o fato de que todas as
palavras dessa lista retm, pelo menos, um lampejo de sua origem teolgica. H
como assemelhar a piedade  de Deus; a caridade pode transmitir uma forma
elevada de amor; a condescendncia pode levar  unidade, no  diviso; um
patrocinador pode exaltar, em vez de desrespeitar os que a ele se submetem; de fato,
o paternalismo pode nos lembrar do real estado como filhos do Pai celestial.
     Na verdade, conheo apenas um jeito de eliminar a grande separao entre a
pessoa que d e a que recebe: o humilde reconhecimento de que todos ns somos
mendigos necessitados, sustentados a cada momento pela misericrdia de um Deus
soberano. Somente  medida que experimentamos a graa de Deus como graa pura,
no como algo que conquistamos ou pelo qual trabalhamos, podemos oferecer o
amor sem cordas que prendam a pessoa necessitada. Existe apenas um Doador
verdadeiro no universo; todos os demais so devedores.



    Levando a cura enquanto Roma pega fogo
captulo trinta e seis




Fiz uma viagem a Mianmar, a antiga Birmnia, um dos pases mais rigorosamente
controlados da terra, numa tarefa designada por uma organizao de caridade. Os
escritores de l me disseram que a capital tem apenas uma livraria, pelo que sabem, a
nica livraria para uma populao de 50 milhes. Eles brincavam dizendo que no
existem livros impressos com permisso em Mianmar, mas somente livros deixados
para trs: eles dependem de estrangeiros que deixam l exemplares como a principal
fonte de livros.
     Quadros de avisos distribudos na cidade proclamavam os "desejos do povo" em
prosa stalinista, tal como "denuncie todos os farsantes s autoridades". Um motorista
de txi apontou para um desses avisos e disse para mim: "No o desejo do povo -- o
desejo do general". Um grupo de trs governantes conduz o pas com pulso de ferro,
reprimindo a religio e as artes e esmagando quaisquer movimentos na direo da
democracia.
     Aung San Suu Kyi, que recebeu o Prmio Nobel da Paz em 1991, deu o melhor
de si para expor e fazer oposio  brutalidade dos governantes de Mianmar. Filha de
um heri nacional, ela vive em priso domiciliar em Yangun (antiga Rangum).
Sempre que ela tenta sair, veculos do Exrcito bloqueiam seu carro, criando
incidentes que atraem a imprensa internacional.


                                                                              ~   117   ~
    Tive um encontro com a equipe de uma organizao crist de ajuda humanitria
s vtimas locais de AIDS. Por sua estimativa, 50 mil rfos da AIDS perambulam pelas
ruas de Mianmar, apesar de o governo negar

    Falta a pg. (204)
concentrar no comportamento do presente, confiando a Deus o Panorama Geral.
Alguns cristos que conheo tendem a confundir essas duas perspectivas. Eles do de
ombros quando se fala da destruio das florestas no mundo e da poluio do ar e da
gua -- o planeta todo no vai ser destrudo, como Pedro profetizou? Nos conflitos
do Oriente Mdio sempre ficam do lado de Israel, ignorando as injustias cometidas
contra os palestinos -- Deus no prometeu abenoar o povo escolhido nos ltimos
dias?
     Tais polticas confundem nosso papel com o de Deus. Os profetas tambm
profetizaram a crucificao, mas isso no significa que os seguidores de Jesus
deveriam ter ajudado a preg-lo na cruz. O Novo Testamento fala de um anticristo,
mas no votarei conscientemente nele mesmo que fazendo isso possa apressar a
Segunda Vinda. Apesar de ter alguns palpites a respeito do futuro, preciso viver no
presente, tratando a terra e seu povo com o mesmo amor e cuidado que Deus
investiu neles ao cri-los, agindo de acordo com minha f em que Deus algum dia
restaurar a terra a esse estado de graa.
     A dica mais iluminadora vem de Jesus, que conhecia melhor do que qualquer um
o destino final deste planeta e o descreveu em detalhes horripilantes. A despeito
disso, ele passou seu tempo na terra curando os doentes, ressuscitando os mortos,
ajudando vivas e rfos, confortando prisioneiros, ministrando aos pobres. Jesus
nos ensinou a orar "Seja feita sua vontade na terra como nos cus" e ento prosseguiu
demonstrando exatamente como isso seria. Ele demonstrou pouca preocupao com
o impacto que seus atos de compaixo poderiam ter na longevidade do Imprio
Romano.

    Faltam as pgs. (207-209)
     Trs dcadas vivendo no problemtico centro de uma cidade desgastaram Bill e
sua famlia. Ele nunca aprendeu a dizer nao. No culto memorial, uma mulher
relembrou com vividz que Bill tinha gastado oito horas aconselhando-a, um dia
antes de ele partir numa viagem de um ms para a Grcia. Um membro da
congregao reconheceu o outro lado, dirigindo-se diretamente  famlia Leslie:
"Sinto muito que Bill tenha dado tanto para ns e deixado to pouco para vocs".
     Bill Leslie fez algumas coisas erradas, mas uma ele captou corretamente; ele
entendia a graa de Deus. A graa se tomou o tema da igreja: no banquete de
aniversrio de cinqenta anos havia uma faixa em que se lia: At aqui pela graa.
     Bill Leslie reconhecia a prpria necessidade que tinha de graa, pregava-a quase
todos os domingos e a oferecia a todos que estavam  sua volta de forma prtica e
direta. Por causa de sua fidelidade, o lado norte de Chicago  hoje um lugar bem
diferente. E assim tambm , creio, o Cu.

                                                                              ~   118   ~
    Yvonne Delk, uma poderosa mulher afro-americana que lidera a Sociedade para
a Renovao da Comunidade, resumiu a vida de Bill com uma eloqncia simples:
"Ele era bblico sem ser fundamentalista, espiritual sem se apartar deste mundo, e
ativamente engajado com o mundo sem se conformar a ele. Voc combateu o bom
combate, completou a carreira e guardou a f. Somos gratos por um homem enviado
por Deus para Chicago, cujo nome  Bill".

    Faltam as pgs. (211-212)


trouxeram a respeito do tmulo vazio. Mesmo depois que Jesus apareceu a eles em
pessoa, diz Mateus, "alguns duvidaram".
    Uma curiosa lei do avesso parece operar nos evangelhos: a f aparece onde
menos se espera e vacila onde deveria florescer.


Lembro-me minha primeira visita ao Old Faithful no Parque Nacional de
Yellowstone. Turistas japoneses e alemes rodeavam o giser, com as cmeras de
vdeo apontadas para o famoso buraco no cho como se fossem armas. Um grande
relgio digital ficava ao lado do local, indicando 24 minutos antes da erupo
seguinte.
     Minha esposa e eu fizemos a contagem regressiva na sala de jantar do Old
Faithftil Inn, olhando o giser de cima. Quando o relgio digital chegou a um
minuto, ns, junto com todos os outros, deixamos nossos lugares e nos apressamos
em direo s janelas para ver o grande evento de gua e vapor jorrando.
     Notei que imediatamente, como se fosse um sinal, uma equipe de garons e seus
ajudantes se aproximaram das mesas para encher os copos de gua e tirar os pratos
usados. Quando o giser parou de jorrar gua, ns, turistas, balbuciamos "aahs" e
"oohs" e disparamos as cmeras; uns poucos aplaudiram espontaneamente. Mas,
dando uma olhadela por cima do ombro, vi que nem um nico garom ou ajudante
-- nem mesmo os que tinham terminado suas tarefas -- estavam olhando pelas
enormes janelas. O Old Faithful, com o qual tinham se familiarizado completamente,
perdera a capacidade de impression-los.


Certa vez, nossa igreja em Chicago enfrentou uma crise. O pastor tinha sado, os
freqentadores estavam perdendo o entusiasmo, o programa de assistncia da
comunidade parecia estar sob ameaa. A liderana sugeriu uma viglia de orao que
duraria a noite toda.
    Vrias pessoas levantaram questes. Era seguro, dada a nossa vizinhana no
problemtico centro da cidade? Deveramos contratar vigilantes ou acompanhantes
para o estacionamento? E se ningum aparecesse? Discutimos longamente a logstica
e a "praticidade" de um evento como esse. No entanto, a noite de orao foi
agendada.


                                                                           ~   119   ~
     Para minha surpresa, os membros mais pobres da congregao, um grupo de
idosos de um projeto habitacional, foram os que reagiram com maior entusiasmo 
viglia de orao. No conseguia deixar de pensar em quantas de suas oraes
deixaram de ser respondidas ao longo dos anos -- afinal, eles viviam nos projetos,
em meio a crimes, pobreza e sofrimento --, mas ainda assim demonstraram uma
confiana pueril no poder da orao. "Quanto tempo vocs querem ficar -- uma hora
ou duas?", era nossa pergunta, pensando na logstica dos furges que fariam o
transporte. "Ah, ns vamos ficar a noite toda", responderam eles.
     Uma mulher negra com mais de noventa anos, que andava com bengala e mal
conseguia enxergar, explicou a um membro da equipe por que queria passar a noite
sentada em bancos de igrejas duros, num bairro perigoso. "Voc sabe, tem muita
coisa que a gente no pode fazer nessa igreja. No somos to estudados, no temos
tanta energia quanto alguns de vocs mais jovens. Mas ns podemos orar. Ns temos
tempo
e f. Seja como for, alguns de ns no conseguem dormir muito mesmo. Podemos
orar a noite toda se for necessrio-"
     E assim fizeram. Enquanto isso, um punhado de yuppies numa igreja do centro
aprendeu uma vez mais uma lio de f vinda dos evangelhos: a fe aparece onde
menos se espera e vacila onde deveria florescer.

    Falta a pg. (215)

perodo mais feliz de suas vidas. De alguma forma um novo esprito de comunidade
e patriotismo brotou para eclipsar at mesmo o horror das bombas e dos foguetes v2.
Nos Estados Unidos, os veteranos trocam histrias da Segunda Guerra Mundial e
Grande Depresso; eles falam afetuosamente sobre privaes tais como tempestade
de neve, do banheiro fora da casa que usavam na infncia; e do tempo na
universidade quando tomavam sopa e comiam po amanhecido durante trs
semanas seguidas.
     Deparei novamente com esse padro quando trabalhava no memorial do dr. Paul
Brand [A ddiva da dor], um cirurgio missionrio que viveu at sua nona dcada.
Enquanto o entrevistava junto com sua esposa, Margaret, a respeito dos sessenta
anos juntos, eles continuavam dando voltas, retornando aos momentos de crise.
     Por exemplo, houve o intervalo em 1946-1947 em que Paul foi para Vellore,
ndia, antes de Margaret. Naquele ano de independncia e partilha, o desassossego
entre hindus e muulmanos comeou a se espalhar pelo lado norte do pas.
Entretanto, no sul da ndia, especialmente na regio ao redor de Vellore, os hindus e
os muulmanos conviviam em razovel harmonia. Assim Paul escreveu para sua
jovem esposa, pedindo que trouxesse seus dois filhos pequenos e se juntasse a ele o
quanto antes.
     Na Inglaterra a situao no parecia to cor-de-rosa. Os jornais de Londres
relatavam que a violncia estava varrendo a ndia, forando a maior migrao
humana na histria. S para Calcut tinham fugido quatro milhes de refugiados. No
noroeste, os siques abordaram trens, obrigaram os homens a abaixar as calas e
                                                                              ~   120   ~
mataram todos os que eram circuncidados (os muulmanos); os paquistaneses
tomaram de assalto trens que iam na direo oposta e mataram os incircuncisos
(hindus).
     Os relatos entusiasmados de Paul Brand sobre a situao em Vellore
contradiziam as notcias atemorizantes das primeiras pginas dos jornais que
Margaret lia em Londres: carnificina no Punjab...  beira da guerra civil... prev-se
massacre de europeus. A famlia dela, sem perceber que os focos de tumultos mais
prximos estavam a mais de 1.500 quilmetros de Vellore, acharam o cmulo da
insensatez ela levar duas crianas para um lugar desses. Mas Margaret, confiando no
marido, deu um passo de f e assim fez.
     Houve outras crises familiares tambm, e ouvi as verses de Paul e de Margaret.
Naquela poca, essas intromisses dramticas pareciam por em questo todo o
relacionamento entre eles. Mas depois ambos recontaram as histrias com nostalgia,
pois as crises se encaixaram -- na verdade, ajudaram a formar -- num padro de
amor e confiana. Olhando retrospectivamente, do alto de sessenta anos, parece claro
que a resposta mtua dos Brands aos tempos tempestuosos foi o que deu ao
casamento deles a fora duradoura.
     Todo casamento tem pocas de crise, momentos de verdade quando um cnjuge
(ou ambos) fica tentado a desistir, julgar que no pode ficar na dependncia do outro,
que o parceiro  irracional ou no merece confiana. Os grandes casamentos
sobrevivem a esses momentos; os fracos se desfazem. Quando acontece o divrcio,
tragicamente, os dois cnjuges deixam escapar uma fora mais profunda que s
surge quando enfrentam juntos esses tempos tempestuosos. Se, por exemplo,
Margaret Brand tivesse considerado seu marido um louco por acenar que deveria vir
 ndia no meio do alvoroo poltico e desse entrada nos papis do divrcio -- isso
teria sido muito triste. Um casamento e uma parceira esplndida na obra de Deus
teria se perdido, irrecuperavelmente.


Grandes relacionamentos tomam forma quando so esticados at o pranto de
rompimento e no se rompem. Vendo esse princpio exemplificado por pessoas como
os Brands, consigo entender melhor um dos mistrios de se relacionar com Deus.
Abrao subindo o monte Mori, J raspando suas feridas sob o sol quente, Davi se
escondendo numa caverna, Elias vagueando em depresso pelo deserto, Moises
fazendo um apelo para mudar a descrio de suas tarefas -- todos esses heris
experimentaram momentos de crise quando foram amargamente tentados a julgar
Deus negligente, impotente ou at maligno. Confusos e no escuro, eles chegaram a
um ponto crtico: dar as costas com amargura ou dar um passo de f. No fim, todos
escolheram a trajetria da confiana, e por esse motivo ns nos lembramos deles
como gigantes da f.
    A Bblia est abarrotada de narrativas de outros que naufragaram nesses testes
-- Caim, Sano, Salomo, Judas. Suas vidas, como os casamentos que fracassam
cedo demais, liberam um odor de tristeza e remorso: ah, o que poderiam ter sido...


                                                                               ~   121   ~
     Tenho notado na Amrica uma mentalidade consumista que tende a se infiltrar
tanto nas relaes quanto no comrcio. Algumas pessoas tratam os parceiros de
casamento como automveis; depois de uns poucos anos est na hora de trocar por
um novo modelo. Alguns cristos tratam a igreja da mesma forma. E alguns at se
aproximam de Deus com um esprito consumista: quando Deus tem um desempenho
satisfatrio, ele merece nossa adorao, mas quando Deus parece distante ou
desinteressado, por que se importar?
     Por que se importar? Porque a fora mais profunda vem somente por meio do
teste.
     Aprendi que a f significa confiar com antecedncia naquilo que s far sentido
visto do avesso, em parte ao ouvir pessoas idosas. Sessenta anos jogam outra luz
sobre o casamento; o sculo tem uma aparncia diferente na viso de uma av. E
creio que a histria humana assumir uma nova aparncia do ponto de vista da
eternidade. Cada cicatriz, cada ferida, cada decepo sero vistas sob uma luz
diferente, banhadas numa eternidade de amor e confiana. Nem mesmo o
assassinato do prprio Filho de Deus pde acabar com o relacionamento entre ele e
os seres humanos. Na alquimia da redeno, o mais perverso dos crimes
transformou-se em um dia que chamamos de Sexta-Feira Santa.



Deus vai perdoar aquilo que estou prestes a
                                     fazer?
captulo quarenta




A verso para o cinema de A cor prpura feita por Steven Spielberg inclui a descrio
comovente de uma parbola da graa. Sugar e a clssica filha prdiga: uma cantora
de clube noturno, sexy e arrasadora, que trabalha arduamente num bar caindo aos
pedaos que fica ao lado de um rio. Seu pai, um pastor que prega sobre o fogo do
inferno e enxofre numa igreja do outro lado da rua, no fala com ela h anos.
     Um dia, enquanto Sug est cantando "Tenho algo para te contar" no bar, ela ouve
o coro da igreja responder, como se fosse um canto responsivo: "Deus tem algo para
te contar!". Sentindo uma pontada de nostalgia ou de culpa, Sug conduz sua banda
at a igreja e marcha pelos espaos entre os bancos bem na hora em que seu pai sobe
ao plpito para pregar um sermo sobre o filho prdigo.
     Ao ver sua filha perdida h tanto tempo o pastor silencia e fuzila com o olhar a
procisso que vem pelo corredor. "At mesmo ns, os pecadores, temos alma", Sug
explica e abraa seu pai, que mal consegue reagir. Sempre no papel de moralista, ele
no consegue perdoar com facilidade a filha que tanto o envergonhou.
     Entretanto, a descrio feita por Hollywood fracassa completamente em captar o
ponto mais importante da parbola bblica. Na verso de Jesus o pai no fuzila com o


                                                                              ~   122   ~
olhar, mas antes fica olhando para o horizonte, vido por algum sinal de seu filho
fugitivo.  o pai que corre, envolve o prdigo nos braos e o beija.
     Ao fazer do pecador o heri magnnimo, Hollywood se desvia do escndalo da
graa. Na verdade, o que bloqueia o perdo no  a reticncia de Deus -- "Vinha ele
ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraou, e
beijou" -- mas a nossa. Os braos de Deus esto sempre estendidos; ns somos
aqueles que se viram e vo embora. E uma verdade maravilhosa, uma das que esto
sujeitas a exploraes tortuosas.


H no muito tempo, sentei-me num restaurante e ouvi ainda outra variao sobre
um tema familiar. Um bom amigo, que chamarei de Daniel, confidenciou que tinha
decidido deixar a esposa depois de quinze anos de casamento. Tinha encontrado
uma pessoa mais nova e mais bonita, algum que "me faz sentir vivo, como h anos
no me sinto".
    Daniel, um cristo, conhecia bem as conseqncias morais e pessoais do que
estava prestes a fazer. Sua deciso de sair de casa causaria prejuzos permanentes em
sua esposa e nos trs filhos. Mesmo assim, disse ele, a fora que o empurrava na
direo da mulher mais nova era forte demais para se resistir.
    Ouvi sua histria com tristeza e pesar Ento, durante a sobremesa, ele lanou a
bomba: "O motivo pelo qual quis v-lo hoje foi para fazer uma pergunta. Voc acha
que Deus pode perdoar algo to horrvel quanto o que estou prestes a fazer?".


O historiador e crtico de arte Robert Hughes conta o caso de um condenado,
sentenciado  priso perptua numa ilha de segurana mxima, afastada da costa da
Austrlia. Certo dia, sem ser provocado, ele se virou contra outro prisioneiro que mal
conhecia e o espancou at que perdesse os sentidos. O assassino foi transportado de
volta ao continente para ser julgado, onde relatou de forma direta e desapaixonada o
crime, sem mostrar qualquer sinal de remorso. "Por qu?", perguntou o aturdido juiz.
"Qual foi o motivo?"
     O prisioneiro respondeu que estava enjoado da vida na ilha, um lugar
notoriamente brutal, e que no via nenhuma razo para continuar vivendo. "Sim,
sim, entendo isso tudo", disse o juiz. "Consigo imaginar por que voc se afogaria no
oceano. Mas por que matar?"
     "Bem, a questo  a seguinte", disse o prisioneiro. "Sou catlico. Se cometer
suicdio vou direto para o inferno. Mas se cometer um

     Falta a pg. (221)

     Vrios meses depois de nossa conversa, Daniel fez sua escolha. No vi ainda
nenhum sinal de arrependimento. Agora ele tende a racionalizar sua deciso como
uma forma de fugir de um casamento infeliz. Ele rejeitou a maioria de seus amigos
cristos -- "so muito bitolados", diz ele -- e em vez disso procura pessoas que
comemoram sua recm. adquirida libertao.
                                                                               ~   123   ~
    No entanto, Daniel no me parece muito liberto. O preo de sua "liberdade"
significou virar as costas para aqueles que mais se preocupavam com ele. Ele tambm
me diz que Deus no faz parte de sua vida nesse momento. "Talvez depois", diz ele.
     Deus assumiu um grande risco ao anunciar o perdo antecipado. No entanto,
ocorre-me que o escndalo da graa envolve a transferncia desse risco para ns.
Como George MacDonald afirma, somos condenados no pelas coisas depravadas
que fizemos, mas por no abandon-las.



                                                        Segredos sagrados
captulo quarenta e um
      Quase todo mundo tem seu momento de desejar a capacidade de ver o futuro. 
com essa pessoa que devo me casar? Devo aceitar essa nova oferta de emprego? No que meu
filho rebelde vai dar? Se to-somente, querido Deus, eu pudesse ter um vislumbre do futuro,
uma mera dica de como isso vai acabar, as decises seriam bem mais simples.
      O que Abraham Lincoln ou Winston Churchill teriam dado por essa viso
sobrenatural durante as crises da guerra? Quanto a ELA pagaria por certos
conhecimentos sobre o estado do Oriente Mdio e da Coria do Norte daqui a dez
anos?
     No entanto,  medida que leio a Bblia, comeo a entender por que Deus
raramente compartilha informaes sigilosas a respeito do futuro. O fato direto e
simples  que a maioria dos humanos no consegue lidar com isso.
      Veja o exemplo do profeta Balao, personagem misterioso do Antigo
Testamento, que recebeu uma srie de mensagens inequvocas de Deus sobre o
futuro dos israelitas (apesar de isso ter exigido um jumento falante, a fim de superar
sua resistncia inicial). No final, Balao deixou de levar em conta a prpria
mensagem, trabalhando contra os prprios israelitas cujo triunfo ele tinha previsto.
Acabou sendo executado como um inimigo do povo de Deus (v. Nm 22,24,31; Dt 23).
      Ou considere o caso de Ezequias. Um dos melhores reis de Jud, ele recebeu de
Deus um prolongamento de vida que no tem precedentes. Mas uma vez que se deu
conta dos quinze anos de bnus, Ezequias se ps a esbanj-los; no processo ele
plantou a semente da queda de sua nao e do cativeiro que um dia se daria na
Babilnia (v. 2Rs 18--20; 2Cr 29--32; Is 39).
     A narrativa clssica do Antigo Testamento sobre a prescincia tem seu centro em
Saul e Davi. O profeta Samuel fez um pronunciamento semelhante para ambos: Saul
perderia o reino, pois Deus tinha escolhido outro para conduzir a nao. O rei Saul
passou mais de uma dcada se rebelando contra esse futuro, tentando
desesperadamente matar aquele que Deus tinha designado como o substituto. Davi,
que compartilhava o mesmo conhecimento prvio, faz um contraste claro.
Recusando-se a tomar o futuro nas prprias mos, ele deixou passar vrias
oportunidades para depor Saul e, por isso, passou aqueles anos se escondendo em
                                                                                    ~   124   ~
cavernas e desertos. Os Salmos revelam que, s vezes, ele se perguntava se Deus
tinha esquecido daquele plano, e mesmo assim Davi permaneceu fiel (v. 1Sm 9--
31).No Novo Testamento, o apstolo Paulo oferece outro exemplo do uso sensato do
conhecimento prvio. As ms notcias a respeito do futuro no o assustaram: ele foi
para Jerusalm a despeito de fortes advertncias de que sua viagem at l resultaria
em captura e aprisionamento. Mas as boas notcias a respeito do futuro no o
tornaram arrogante ou passivo: depois de descobrir numa viso que todos os
passageiros sobreviveriam a um naufrgio em Malta, Paulo assumiu o comando,
dando instrues aos soldados romanos e mobilizando os trabalhos de resgate (v. At
20,21,27,28).
     Esses e muitos outros exemplos bblicos deixam claro que os seres humanos no
lidam tranqilamente com o conhecimento antecipado do futuro ( certo que Ado e
Eva no conseguiram). E bem mais provvel que reajam se rebelando contra as
notcias ruins, como fizeram Saul e Balao, ou ficando arrogantes por causa da
notcias boas, como fez Ezequias.
     Houve um tempo em que eu enxergava a prescincia como um "gnio da
lmpada", um presente mgico que d quele que o recebe uma vantagem invejvel.
Agora a enxergo como um teste de f bastante exigente. Davi no exlio sonhando com
sua coroao, Ezequias discutindo planos de quinze anos, o apstolo Paulo resistindo
a uma tempestade no Mediterrneo, e mesmo Jesus orando no Getsmani -- todos

    Faltam as pgs. (225-226)




                                                                             ~   125   ~
Descobrindo Deus na igreja
parte 7

                               A igreja por trs das grades
captulo quarenta e dois




Sempre tive curiosidade estranha e intensa a respeito do que acontece quando seres
humanos so pressionados at seus limites. Quando criana, costumava ler com
horror silencioso as histrias contidas em O livro dos mrtires, de Foxe. O
anticomunismo era um esporte nacional nos anos 50, e os pregadores nos regalavam
com histrias dos mrtires cristos na Rssia, China e Albnia. Eu at estudei chins
e meu irmo russo, preparando-nos para o dia em que certamente nosso pas seria
assolado. O que aconteceria quando minha f fosse testada ao extremo? Eu me
apegaria a Cristo ou o renunciaria para salvar minha pele?
     Talvez por causa dessas questes que me importunam faz muito tempo, aceitei
uma tarefa incomum como escritor h alguns anos, Ron Nikkel, um bom amigo, me
convidou para visitar alguns cristos nas prises do Chile e do Peru. A cadeias sul-
americanas, eu sabia, forneciam um teste extremado de f para qualquer pessoa.
Embora hoje as condies tenham melhorado, naquela poca o Chile era considerado
um dos mais notrios violadores dos direitos humanos. E as prises no Peru tambm
chegam aos noticirios,  medida que centenas de prisioneiros morrem em rebelies
ali.
     Com que se parece uma "igreja" entre pessoas marginalizadas como essas:
presas, mal alimentadas, vulnerveis a abusos sexuais, sentenciados a anos de
misria no meio de assassinos, ladres, estupradores e traficantes? A esperana do
evangelho consegue sobreviver nessas condies? Decidi ir e conferir.
Estou sentado no meio do culto de uma igreja que tem um pitoresco sabor latino e
pentecostal. Sobre a plataforma, uma "banda" -- formada por dezoito homens
tocando violo, um tocando acordeo e dois homens manejando pandeiros de lato
de fabricao caseira -- est tocando uma adaptao bem animada de uma cano
popular chamada O banquete do Senhor,
    A congregao de 150 pessoas acompanha vigorosamente a banda. Alguns
membros levantam as mos acima da cabea. Outros parecem estar competindo num
concurso do nvel de decibis mais alto. Uns poucos abraam os que esto ao lado. O
salo da reunio est transbordando, e rostos extras em todas as janelas esto se
esforando para conseguir ver alguma coisa.
    Exceto por alguns lembretes visuais, poderia facilmente esquecer que estvamos
nos reunindo numa das maiores prises no Chile. Olho em volta, para a congregao:

                                                                              ~   126   ~
todos homens, vestindo roupas de rua usadas, sortidas e esfarrapadas. Um nmero
impressionante de rostos tem as marcas de cicatrizes.
      Depois da cantoria, um convidado canadense, facilmente identificvel com sua
camisa branca e gravata, vai para a plataforma. O capelo do presdio informa 
multido que esse homem, Ron Nikkel, j visitou prises em mais de cinqenta
pases. A organizao que ele dirige, a Fraternidade Internacional de Assistncia aos
Condenados, leva a mensagem de Jesus aos detentos e trabalha junto aos governos
para melhorar as condies dos presdios. Uns doze internos gritam "amm" bem
alto,
      "Trago para vocs saudaes de seus irmos e irms em Cristo nos presdios de
todo o mundo", comea Ron, fazendo uma pausa para a traduo em espanhol. Ele e
um homem de ombros largos, de altura moderada, e um rosto sardento que lhe d
uma aparncia jovial. Sua voz suave precisa competir com o rudo que vem do lado
de fora -- guardas apitando, internos jogando basquete no ptio de exerccios,
msica no ltimo volume vinda do bloco de celas.
      "Trago-lhes saudaes especiais de Pascal, que vive na frica, num pas
chamado Madagascar. Pascal recebeu treinamento cientfico e se orgulhava de seu
atesmo. Certo dia ele foi preso porque tinha participado de uma greve estudantil.
Foi jogado numa priso com capacidade para 800 homens, mas agora superlotada
com 2500 presos. Eles ficavam sentados em tbuas grosseiras com os cotovelos de um
encostados nos dos outros, a maioria deles vestidos com farrapos e cobertos de
piolhos. D para imaginar a higiene daquele lugar." Os internos chilenos, que
estavam ouvindo com ateno, do suspiros altos de identificao.
       "Pascal tinha apenas um livro disponvel na priso -- uma Bblia dada por sua
famlia. Ele a lia diariamente e, a despeito das crenas atestas que possua, ele
comeou a orar. Ele descobriu que a cincia no conseguia ajud-lo na priso."
(Risadas altas.) "No fim de trs meses, Pascal estava conduzindo um estudo bblico
todas as noites numa sala lotada.
      "Pascal ficou muito surpreso quando o liberaram depois daqueles trs meses.
Algum no governo tinha mudado de opinio. Mas aqui est uma coisa
impressionante: Pascal continua voltando para a priso! Ele faz duas visitas por
semana para pregar e distribuir Bblias. Nas sextas-feiras ele leva enormes panelas de
sopa com legumes, porque tinha percebido que os prisioneiros estavam morrendo de
desnutrio. Muitos deles tinham sido presos por roubar comida -- eles j estavam
com fome antes de entrar l!"
      Os chilenos trocam olhares uns com os outros. A histria est ficando
envolvente. Ron continua.
       "Pascal mostra a diferena que Cristo pode fazer na vida de uma pessoa.
Quando voc sair da priso, provavelmente vai querer apagar isso da mente. Mas
Pascal no conseguiu fazer isso. Ele acreditava que Deus queria que ele voltasse para
compartilhar o que tinha aprendido numa cela fedorenta e superlotada."
      Depois da histria os prisioneiros chilenos, obviamente comovidos, rompem em
fortes aplausos, Ron continua, contando histria aps histria de pessoas que


                                                                               ~   127   ~
encontraram Cristo atrs das grades. Ento os membros da congregao se levantam
para falar.
     Um dos membros da banda, um homem baixo e rijo, com uma cicatriz enorme
que cruzava a bochecha esquerda,  o primeiro a falar. "Eles costumavam achar que
eu era to perigoso que me mantinham acorrentado. E vou dizer para vocs que a
primeira vez que fui para a igreja na priso -- eu estava procurando um buraco para
fugir!" Todos riem, at mesmo os guardas. "Mas ento encontrei a liberdade
verdadeira em Cristo, no apenas um jeito de escapar."
     Outro prisioneiro vai andando com dificuldade at a frente. Ele explica que
perdeu uma perna e boa parte do intestino num tiroteio numa priso argentina. Ele
se tornou um cristo em 1985, diz ele, um pouco depois de localizar o homem que
tinha matado seu irmo. "Antes eu teria matado aquele homem", diz ele. "Mas com
Cristo no meu corao, fui capaz de perdoar-lhe. Agora eu sei que fui chamado para
pregar aos outros aqui no presdio.  um trabalho mais importante do que ser
presidente da General Motors. Como ainda faltam 34 anos para cumprir minha
sentena, vou ter tempo mais do que o suficiente!"
     O culto continua, acumulando calor emocional. Os prisioneiros
espontaneamente se ajoelham nos bancos de madeira grosseira para orar por seus
companheiros de priso. A cantoria, animada pelas palmas e pela batida dos ps,
ficava mais alta e impetuosa. Outros prisioneiros abandonam o jogo de basquete e se
amontoam em torno do vo da porta para ver o que esto perdendo. Quando os
visitantes estrangeiros saem, em meio a abraos e apertos de mo, todos os
prisioneiros ficam. Eles esto apenas comeando a esquentar.


Ainda consigo ouvir a cantoria distorcida enquanto me ajeito com outros visitantes
em torno de uma grande mesa retangular no escritrio do diretor do presdio. O
diretor solicitou a Ron Nikkel e seus convidados que se reunissem com o psiclogo, o
socilogo e os assistentes sociais do presdio. Fica claro que estamos vendo uma das
prises-modelo do Chile, com instalaes e servios modernos.
     Os profissionais da equipe enxergam o efeito da f crist sobre os internos com
um esprito de tolerncia benigna: jogue uma pitada de salitre na torrada dos
internos para controlar seus impulsos sexuais e -- por que no? -- adicione uma
pequena dose de religio para ajudar a controlar o mau gnio. Entretanto, o capelo e
os membros da equipe da Fraternidade Internacional acreditam que o trabalho deles
com os internos pode contribuir muito mais. Usando estatsticas e estudos de caso,
eles tentam demonstrar que nenhum esquema de reabilitao vai funcionar a menos
que leve em considerao as necessidades espirituais dos internos.
     A discusso se alonga sem concluses dentro dessas linhas durante trinta
minutos, e nesse momento o diretor do presdio cruza um limiar de tolerncia. Em
todos os aspectos, o diretor se encaixa com perfeio no esteretipo hollywoodiano
de um militar sul-americano. Apenas um bigode denso quebra a monotonia
petrificada de seu rosto de aspecto doentio. O enorme peito, parecendo uma barrica,
funciona como uma vitrina perfeita para fileiras e mais fileiras de fitas militares
multicoloridas, e as dragonas em seu ombro exibem trs estrelas.
                                                                              ~   128   ~
     Quando o diretor fala, todo mundo fica em silncio. "No me importo com o tipo
de f que esses prisioneiros tm", anuncia ele num tom definitivo. "Mas est claro que
eles precisam de mudana, e eles nunca conseguiro isso sem algum tipo de
assistncia externa. A religio pode dar a eles a vontade para mudar que nunca
conseguiriam desenvolver sozinhos."
     Enquanto ele fala, ainda conseguimos ouvir os prisioneiros cantando na capela
do ptio. "Capelo", continua ele, "um tero dos homens desta priso freqenta seus
cultos. Voc faz vrias visitas por semana, mas eu estou aqui todos os dias. E posso
lhe dizer, esses homens esto diferentes. Eles no fingem estar se comportando
quando voc se aproxima -- eles so diferentes dos outros prisioneiros. Eles tm uma
alegria. Eles compartilham com outros prisioneiros. Eles se preocupam com coisas
alm de si mesmos. E por isso acho que devemos fazer tudo que pudermos para
ajudar esse timo trabalho."
     A fala do diretor prontamente encerra todas as discusses. Todos os profissionais
do presdio assentem com a cabea, indicando sua concordncia. Quando deixamos a
priso, o culto est finalmente terminando. Os prisioneiros esto marchando em
torno do ptio de exerccios em duas fileiras, cantando hinos ao ritmo de tambores e
pandeiros. Olho para meu relgio -- duas horas se passaram desde o incio do culto.
     O txi que nos leva para o centro de Santiago faz um percurso longo e tortuoso e,
enquanto estamos a caminho, Ron pondera sobre o dia na priso. "Isso nunca deixa
de me impressionar, no importa quantas prises eu visite", diz ele. "Ver seres
humanos em condies to miserveis, e mesmo assim louvando a Deus, Pode-se ver
no rosto deles uma alegria e um amor que no encontrei em nenhum outro lugar.
Gostaria que alguns dos cristos abatidos da Amrica do Norte e da Europa
pudessem viajar comigo e ver a diferena que Cristo pode fazer na vida de uma
pessoa. Deus escolhe as coisas fracas e toucas do mundo para confundir as sbias e
poderosas."


"Trago para vocs saudaes de seus irmos e irms em Cristo nos presdios de todo
o mundo", comea Ron novamente, em outro presdio chileno no dia seguinte. Essa
priso transmite um sentimento bem mais opressivo, encalacrada entre edifcios na
rea urbana de Santiago, com ptio de exerccios asfaltado e blocos de celas
colocados verticalmente em prdio altos.
    A capela do presdio, localizada no poro,  especialmente mal iluminada. Para
economizar na energia, os oficiais do presdio desencaixaram metade das lmpadas
fluorescentes do teto (at as lmpadas so protegidas por barras). Estou comeando a
me perguntar se os presdios so projetados por arquitetos competindo para
produzir os prdios mais feios do mundo. Todas as paredes so quadradas,
funcionais e sem ornamentos. As superfcies consistem de concreto sem acabamento
ou barras de ao lisas, sem a mediao de qualquer textura como azulejos, carpetes
ou papis de parede. As prises despem as invenes humanas, assim como fazem
com os seres humanos, ao essencial mais grosseiro.
     "Trago para vocs saudaes especiais do dr. Appienda Arthur, de Gana, no
oeste da frica. O dr. Arthur no cometeu nenhum crime. Ele trabalhava como
                                                                               ~   129   ~
membro do parlamento e conselheiro ntimo do presidente de Gana at que um
golpe subverteu esse governo. O dr. Arthur acabou na priso.
     "Certo dia os soldados levaram em marcha o dr. Arthur para um campo, deram-
lhe uma p e ordenaram que cavasse a prpria cova. Quando j tinha cavado o
suficiente, ele foi vendado, com os braos amarrados nas costas. Ele ficou numa fila
com outros presos polticos.
Uma rajada de tiros foi disparada. Os prisioneiros se torciam no cho, grunhindo. O
dr. Arthur tinha certeza de que uma bala lhe atravessara o corpo. Ele pensou que
estava morto. Mas ento os soldados, dando risadas, removeram todas as vendas.
Eles atiraram com balas de festim, fazendo uma brincadeira cruel com os
prisioneiros.
     "Naquela priso o dr. Arthur leu a Bblia e tambm o livro Born again [Nascido de
novo], de Chuck Colson, fundador da Fraternidade Internacional de Assistncia aos
Condenados. Ele ficou comovido com a histria do homem que, como ele, tinha
cado do poder e ficou preso. Ele se ajoelhou no cho da priso e prometeu a Deus
que passaria o resto da vida em seu servio. O dr. Arthur conseguiu chegar ao
Seminrio Fller, nos Estados Unidos, onde estudou a Bblia. Ele poderia ter obtido
asilo poltico e ficado por l. Mas, em vez disso, decidiu retornar  frica, a Gana, o
pas que quase o matou, a fim de servir a Cristo.
     "Voc pode se encontrar com o dr. Appienda Arthur de volta  priso hoje. Mas
ele est l voluntariamente, como um homem livre. O dr. Arthur agora dirige o
trabalho da Fraternidade Internacional de Assistncia aos Condenados em Gana,
levando a mensagem de Cristo para os prisioneiros de l."
     A essa altura os internos esto meneando a cabea e fazendo interjeies com
"amem" e "aleluia". Ron continua.
      "E trago para vocs saudaes de (ose. um filipino que conheci numa cadeia na
Arbia Saudita, Ele foi preso por assassinato e passou os ltimos cinco anos na
priso. A polcia o torturou para tirar dele uma confisso. Ele desmentiu essa verso
no tribunal, mas foi condenado assim mesmo e provavelmente ser executado".
      "Mas Jos encontrou Cristo naquela priso muulmana, por meio de um colega
de cela cristo. Eu o visitei na priso, um prdio de tijolos com pouca ventilao. A
temperatura l devia estar a quase 45C. Jos teve que gritar para dar a mim seu
testemunho -- os visitantes devem ficar sentados numa rea a mais de um metro de
distncia dos prisioneiros, que ficam trancados em jaulas cobertas com uma malha de
ao dupla. 'Meu tempo aqui  o inferno', gritou Jose. 'Mas no trocaria isso por nada.
Foi aqui que encontrei Jesus!'"
Enquanto o culto na capela prossegue, o diretor militar da priso faz um gesto para
que o sigamos, Ns percorremos apressadamente as lgubres instalaes atravs de
um labirinto infinito de tneis e portes de ferro. Duas coisas ficam ressaltadas: o
odor de desinfetante acumulado por quarenta anos e os grandes quadros
pendurados em vrias paredes com o rosto dos governantes chilenos, fuzilando-nos
com o olhar.
    Nada me preparara para o diretor da mais antiga priso do Chile. Se o diretor da
primeira priso veio diretamente de um elenco principal, esse devia estar
                                                                                ~   130   ~
emprestado do programa humorstico Saturday Night Live. Ele  baixo e magro, com
um punhado desgrenhado de cabelo castanho-escuro. Usando um uniforme verde e
amarrotado, sem distintivos, fitas ou estrelas, ele anda em disparada por seu
escritrio como um redemoinho, arrumando cadeiras, se exibindo ao mostrar sua
coleo de espadas e facas, fazendo piadinhas. Suas sobrancelhas danam para cima
e para baixo enquanto ele fala, servindo de pontuao em suas frases. Na expresso e
nos maneirismos, ele me lembra Pancho, o ajudante do Cisco Kid.
     O diretor se desculpa pela falta de xcaras de caf. "Tenho apenas trs", diz ele,
piscando os olhos. "Bebam rapidamente, e ento vou passar uma gua nas xcaras e
servir os outros convidados." Enquanto Ron Nikkel comea a lhe explicar a
Fraternidade Internacional, aquele homem engraado levanta subitamente a mo
para interromper. "Ah, mas ns precisamos de uma msica!", diz ele. "Vocs gostam
de msica de discoteca, meus amigos?" Ele se apressa na direo de um toca-fitas de
plstico branco e propores exageradas, com o nome de Disco Rob. Um ritmo de
rumba latina enche a sala, e o diretor retorna para sua mesa com um sorriso largo,
acenando para Ron continuar.
      uma cena sada diretamente de um livro de Kafka. Naquela poca as
organizaes de direitos humanos estavam colocando as prises do Chile perto do
fim da lista; era rotina os presidirios fazerem greves de fome por condies mais
humanas. No entanto, estamos sentados no escritrio do diretor de uma dessas
prises, fazendo malabarismos com xcaras de caf e tamborilando os dedos ao ritmo
da rumba.
    As ironias seguem seu curso at a noite. Jantamos num dos restaurantes mais
finos de Santiago, como convidados de um homem rico


    Falta a pg. (237)


Internacional. "Se eu tivesse que escrever um livro sobre a estratgia da Fraternidade
Internacional, daria o ttulo de Subverso santa", diz ele. "Ser que podemos subverter
os poderes do mundo trabalhando com seus refugos, os prisioneiros?
      "Os marxistas fracassaram em suas prises, bem como os muulmanos, hindus e
humanistas secularizados. Nada funciona. A sociedade bane os prisioneiros, tirando-
os de vista, porque eles so um constrangimento, uma admisso de fracasso. Mas
eles permitem que os ministrios com presos entrem, pensando que no poderemos
piorar uma situao que j no permite ter esperanas, E l, atrs das grades, no mais
improvvel de todos os lugares, a igreja de Deus toma forma.
      " uma igreja do Novo Testamento em sua forma mais pura. No Chile, por
exemplo, h cinco mil denominaes e grupos de igrejas diferentes! Mas nas prises
chilenas, os cristos so apenas um grupo.  priso abole todas as distines comuns
entre denominao, raa e classe.
      "No posso dar detalhes de algumas das fronteiras mais emocionantes. Posso
apenas dizer que em sociedades muito fechadas, em que se aplica a pena de morte
para a converso ao cristianismo, as prises esto abrindo as portas para ns. As
autoridades esto permitindo que organizemos seminrios e distribuamos Bblias.
                                                                                ~   131   ~
Nada mais funcionou nessas prises. Por isso, em desespero, eles se voltam para os
cristos. E at mesmo na decadente Europa Ocidental a igreja est dando sinais de
vida -- quer dizer, a igreja atrs das grades."


No se l muita coisa a respeito dessas obras de Deus nas revistas populares. Elas
fazem reportagens principalmente a respeito das controvrsias dentro da igreja:
escndalos entre os evanglicos, assassinato de mdicos que fazem aborto, protestos
contra o papa. Mas h algo alm disso acontecendo no nvel das razes desse povo --
at abaixo desse nvel, nas reas de aterro das sociedades. Na Irlanda do Norte, ex.
terroristas do IRA agora celebram a ceia ao lado de protestantes que eles tinham
jurado de morte. Na Papua-Nova Guin, o ministrio nas prises  conduzido por
um juiz que condenava as pessoas  priso, que ele agora visita em nome de Cristo.
     O bispo Desmond Tutu disse que o mundo ocidental experimentaria a runa
espiritual se fosse privado do "capital moral" de seus prisioneiros. Ele deve saber o
que fala: alguns de seus amigos, distintos porta-vozes da frica do Sul negra,
passaram boa parte de suas vidas atrs das grades. Tutu os coloca numa linhagem
que inclui John Bunyan, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Alexander
Soljenitsyn e Fiodor Dostoievski.
     Ns facilmente nos esquecemos de que as prises ao redor do mundo no so
povoadas apenas por "criminosos" de verdade, mas tambm por pessoas que
sustentam opinies polticas dissidentes. Esto cumprindo pena por aquilo que
pensam, e essas mesmas pessoas usam seu tempo na priso para refinar sua filosofia
poltica. Vladimir Lenin, Adolf Hitler, Fidel Castro, Che Guevara, Menachem Begin,
Anuar Sadat, Franois Mitterrand, Helmut Schmidt e Nelson Mandela, todos esses
do crdito s experincias que tiveram na priso por terem ajudado a formar suas
propostas.
     Assim, um subproduto dos ministrios nas prises  a notvel oportunidade de
ministrar aos futuros lderes do mundo. O resultado recente mais espetacular desse
"subproduto" do ministrio ocorreu nas Filipinas no final dos anos setenta, quando o
lder e porta-voz da oposio, Benigno Aquino, estava definhando na priso. Cheio
de raiva e amargura contra o regime de Marcos, ele usou seu tempo para estudar o
marxismo.
      "Os guardas costumavam deixar os cachorros comer metade do meu jantar e
ento me entregavam o resto", relembra Aquino. "Eu odiava todo mundo." Ento sua
me enviou o livro de Chuck Colson, Born again [Nascido de novo], e Aquino
descobriu-se estranhamente comovido por essa histria to repleta de esperana. Ele
se tornou um cristo e, por causa dessa esperana, foi capaz de sobreviver  priso.
Foi l que ele desenvolveu sua filosofia de revoluo sem violncia.
     Inesperadamente, Aquino ganhou sua liberdade em 1980 quando o presidente
Marcos permitiu que ele viajasse para os Estados Unidos para uma cirurgia cardaca.
Estando l, teve um encontro com Colson, por coincidncia, num avio. Colson se
recorda do incidente: "Notei esse homem asitico me encarando, e ento ele me
pegou pelo brao.

                                                                              ~   132   ~
     'Voc  o Chuck Colson! Seu livro mudou minha vida'. Nunca vou me esquecer
de nossa conversa. Benigno me disse: Algum dia vou voltar para as Filipinas -- seja
para servir no governo ou para retornar  priso. Seja como for, vamos iniciar a
Fraternidade Internacional l. Prometi isso para o Senhor quando sa da priso"'.
     Antes de voltar, Aquino estudou a vida de Dietrich Bonhoeffer, que por sua vez
retornou  Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial com plena conscincia dos
perigos. Aquino,  claro, no conseguiu passar da pista do aeroporto nas Filipinas.
Os militares o alvejaram assim que saiu pela porta da frente do avio. Mas sua
promessa foi cumprida. Dois anos e meio depois, a revoluo sem violncia que ele
pusera em movimento varreu Marcos do poder. E hoje a Fraternidade Internacional
est brotando com vigor nas Filipinas.


"Trago para vocs saudaes de seus irmos e irms em Cristo nas prises de todo o
mundo", diz Ron Nikkei mais uma vez, para outro grupo de prisioneiros. Agora
estamos no Peru e a viagem internacional, combinada com longas reunies noturnas
com voluntrios nas prises, equipes da embaixada e autoridades penais, deixou
suas marcas. O rosto de Ron expressa a exausto da semana anterior.
A sala de reunio fica ao lado de uma fileira de celas. Por isso, alem dos 60
prisioneiros em nossa sala, uns poucos ficam observando timidamente os
acontecimentos de suas camas. Na priso aprende-se a viver com certas coisas:
congesto, rudo de fundo constante, lmpadas sempre acesas e uma completa falta
de privacidade. As prises do Peru so suficientemente avanadas, a ponto de ter um
vaso sanitrio em cada cela -- fica no meio da cela, visvel de todos os lados.

    Boa parte dos prisioneiros na sala de reunio est usando cales de ginstica,
chinelos e uma variedade cmica de camisetas. Enquanto Ron  apresentado, fao
um inventrio visual de algumas das mensagens nas camisetas. "Carteiros do uma
rapidinha." "Algum no Utah me ama." "Clube de Campo Laguna Beach." Nem
mesmo o arame farpado de uma priso do Terceiro Mundo consegue impedir a
entrada de slogans americanos.
     Hoje as histrias de Ron so curtas. Ele est mais para pregar um sermo. "Voc
sabia que Jesus Cristo ficou preso?", pergunta ele ao

    Falta a pg. (241)

     uma lousa provisria e engordurada atrs de Ron, e ele aponta para o versculo,
Ele fala do apstolo Paulo e de suas longas noites na cadeia. "A descrio favorita de
Paulo a respeito de si mesmo e 'prisioneiro de Jesus Cristo'. Mas como Paulo pode
escrever essas palavras sobre se tornar uma nova criatura se passou tanto tempo num
calabouo romano apodrecido?" Ron l algumas das cartas de Paulo escritas na
priso -- palavras brilhantes, felizes. "Eles podiam manter o corpo de Paulo debaixo
do cadeado e da chave", diz ele, "mas sua alma estava livre."
     Depois de uma hora e meia de pregao para uma audincia cada vez mais
receptiva, Ron devolve a reunio para os prisioneiros. Muitos deles vo  frente para
                                                                               ~   133   ~
contar da diferena que Cristo tem feito em sua vida. A julgar pelas reaes dos
prisioneiros, a maior surpresa e Juan. Apoiado nos ombros de uma mulher
voluntria chamada Marie, Juan vai mancando at a frente para contar sua histria.
Os outros internos o conhecem bem, pois Juan tem uma reputao de criador de
problemas. Ele est mancando porque se meteu numa briga com os
guardas da priso. Ele atacou um dos guardas, e os outros o surraram, quebrando a
mo, machucando o rosto e deixando-o parcialmente aleijado.
     Juan fala com uma voz rouca. A prpria fala lhe causa fortes dores, e ele explica
o motivo. Enquanto estava confinado na solitria depois da surra, de alguma forma
ele arranjou uma lata de inseticida e o tomou. Os guardas o encontraram na cela
quase morto. Depois daquela noite de trevas, Marie, uma voluntria, comeou a
visitar Juan com uma misso especial: ela queria lhe dar uma razo para viver.
     Marie subitamente interrompe a histria de Juan para explicar que ela mesma j
est vivendo alm do que esperava -- os mdicos descobriram um tumor inopervel
em seu estmago. Ela mostra o leno que est amarrado em volta da cabea; a
radiao fez a maior parte do cabelo cair.
     Ela disse a Juan no quarto de hospital: "Como voc se atreve a tirar sua vida
quando eu faria qualquer coisa para permanecer viva? Voc no tem esse direito, sua
vida pertence a Deus". Juan se tornou um cristo por meio do testemunho dela.
     Quando Juan e Marie terminam suas histrias, Juan pede a ajuda dos sessenta
homens que o cercam nos prximos dias. Outros internos certamente zombaro de
sua converso. O grupo se ajoelha junto para orar pela cura do corpo de Juan  pelo
fortalecimento de sua f, para que ele atravesse os tempos difceis que o aguardam.
Enquanto eles oram, um diretor leva Ron e o resto do grupo de visitas para outro
crculo de sessenta homens que nos aguardavam em outro bloco de celas.


No fim daquela tarde, dentro de um txi na hora de pico do trnsito de Lima,
pergunto a Ron a respeito de seu sermo. Conheo Ron h vinte anos e nunca teria
esperado que pregasse um sermo desses. Ele sempre esteve  beira do cinismo.
Como muitos de sua gerao, ele carrega as cicatrizes do fundamentalismo que o
tornaram ctico, titubeante. Perguntei a ele o que tinha mudado.
      "Comecei nesse trabalho usando minha formao em criminalstica e,  claro,
que ainda tento incorporar tudo o que aprendi. Mas gradualmente fui me
convencendo de que a resposta duradoura para os problemas da priso no e a
reabilitao, mas a transformao. Inicialmente hesitava em usar frases como 'Cristo
e a resposta', mas, sinceramente, tenho visto que essa frase demonstrou ser
verdadeira. Aprendi certas palavras na infncia, mas no fim foram os prprios
prisioneiros que deram significado a elas. Eles demonstraram a realidade de uma
teologia que fora pouco mais do que um exerccio mental para mim. Eles me
mostraram a f em seu aspecto mais bsico -- o oposto do tipo de teologia que se
ouve na Amrica do Norte, que promete sade e riqueza.
      "Jesus chama de abenoados os pobres, os que choram, os famintos, os odiados,
os excludos e insultados pelos homens. Essa  uma descrio perfeita de muitos
prisioneiros que conheo. Mas eles podem realmente ser abenoados, felizes? Para
                                                                               ~   134   ~
minha surpresa, a resposta  sim. H algo na condio da dura necessidade humana
que os torna receptivos  graa de Deus. Eles se voltam para Deus e so preenchidos.
No foi por acaso que John Bunyan escreveu Grace abounding unto the chief of sinners
[Graa abundante para o principal dos pecadores] enquanto estava na priso.
       "Os mais excelentes programas de reabilitao conseguem apenas oferecer uma
esperana futura, que a vida pode mudar quando os prisioneiros saem. Cristo oferece
uma esperana futura -- mesmo para aqueles que enfrentam a pena de morte -- e
tambm uma esperana presente. Ele consegue dar sentido a uma vida mesmo
quando esta precisa ser passada numa priso opressiva. J vi isso um nmero
suficiente de vezes para duvidar."
     A indstria de computadores tem uma expresso: "teste de usurio*'. Os
engenheiros projetam maravilhosos produtos novos: placas de circuito impresso,
unidades de CD-ROM, digitalizadores pticos. Mas a questo real : os novos produtos
sobrevivero ao uso que de fato os consumidores faro desses produtos? O que
acontecer se for acidentalmente jogado para fora da mesa? Vai sobreviver? Para
Ron, as prises se tornaram o "teste de usurio" da f crist. L a f simples e robusta
passa por teste todos os dias -- por pessoas como Juan, o peruano que se voltou para
Cristo depois de uma tentativa de suicdio fracassada. A verdade eterna do
evangelho ser testada em sua vida durante as prximas semanas.
     Algumas pessoas tentam provar a verdade do evangelho nos sagues da
academia, se esfalfando com a apologtica e a teologia. Outros comparam o tamanho
e a fora do cristianismo com outras grandes religies do mundo. Ron Nikkel diz que
ele simplesmente continua indo aos presdios. L ele encontra a rea de testes final
para o perdo, o amor e a graa. L ele descobre se Cristo realmente est vivo.
     Peo a Ron que se lembre da pior coisa que j viu. Assumi essa tarefa como
escritor para ver como a f sobrevive entre as pessoas que so pressionadas at o
limite. Nos presdios sinistros que visitamos no Chile e no Peru, quem poderia pr
em dvida a alegria que encontramos entre os internos de l? Mas o padro
continuava verdadeiro em todo o mundo? Ele j tinha encontrado um lugar de
desespero absoluto, sem qualquer (resta para a esperana? Qual era o "teste de
usurio" definitivo para o evangelho?
     Ron pensou por um momento e ento me contou de uma vez em que ele e
Chuck Colson visitaram uma priso de segurana mxima na Zmbia. O "guia" deles,
um ex-presidirio chamado Nego, tinha descrito uma priso interna secreta,
construda dentro do presdio, para prender os piores entre os piores transgressores.
Para a surpresa de Nego, um dos guardas concordou em deixar que ele mostrasse as
instalaes para Chuck e Ron.
      "Ns nos aproximamos de um prdio de ao semelhante a uma jaula, com
malhas de arame. s celas se alinham do lado de fora da jaula, circundando um
'ptio' de 12 metros por 4,5 metros. Durante 23 horas do dia os prisioneiros so
mantidos em celas to pequenas que no conseguem se deitar todos ao mesmo
tempo. Durante uma hora eles recebem permisso para andar no pequeno ptio.
Nego passou doze anos nessas celas.

                                                                                 ~   135   ~
      "Quando nos aproximamos da priso interna, podamos ver pares de olhos nos
examinando atravs de um espao de cinco centmetros debaixo do porto de ao. E
quando o porto se abriu, revelou-se uma sordidez como nunca tinha visto antes em
nenhum lugar. No havia instalaes sanitrias -- de fato, os prisioneiros eram
forados a defecar nas prprias tigelas de comida. O sol escaldante da frica tinha
aquecido o cercado de ao a uma temperatura insuportvel. Mal conseguia respirar
na atmosfera ftida e sufocante daquele lugar. Eu me perguntei como era possvel
que seres humanos vivessem num lugar como esse.
     "Mas veja o que aconteceu quando Nego lhes disse quem ramos. Oitenta dos
120 prisioneiros foram para a parede dos fundos e se arrumaram em fileiras. Com
um sinal combinado, eles comearam a cantar -- hinos, hinos cristos, numa bela
harmonia a quatro vozes. Nego cochichou para mim que 35 desses homens tinham
sido sentenciados  morte e em breve enfrentariam a execuo.
      "Fui completamente dominado pelo contraste entre os rostos serenos e
apaziguados e o horror do ambiente que os cercava. Bem atrs deles, no escuro, pude
distinguir no muro um esboo elaborado, desenhado com carvo. Mostrava Jesus,
estendido numa cruz. Os prisioneiros devem ter gastado horas trabalhando no
esboo. Causou-me impacto de grande fora, a fora da revelao de que Cristo
estava ali com eles, compartilhando de seu sofrimento dando-lhes alegria suficiente
para cantar num lugar daqueles.
      "Eu deveria falar para eles, oferecer-lhes algumas palavras de f que os
inspirassem. Mas eu consegui somente murmurar umas poucas palavras de
saudao. Eles eram os professores, no eu."



                                                    F de mo dupla
captulo quarenta e trs




Tive um insight que refrescou meu entendimento sobre o significado da f, vindo de
uma improvvel combinao de fontes: os escritos de dissidentes polticos e um
mstico francs do sculo XVIII.
     Por muitos anos os dissidentes no Leste Europeu viveram sob regimes
opressivos que tendiam a promover a sensao de parania. Como diz o ditado
-- "no  porque voc  paranico que no o esto perseguindo", e esses dissidentes
reagiram de acordo com isso. Eles se encontravam secretamente, usavam palavras
codificadas, evitavam telefones pblicos e publicavam ensaios com pseudnimos em
jornais subversivos.
    Entretanto, na metade dos anos 1970, os intelectuais poloneses e tchecos
comearam a perceber que a constante vida dupla tinha custado muito caro. Indo
                                                                            ~   136   ~
direto ao ponto, eles perderam a noo mais bsica da liberdade e da dignidade
humana. Ao trabalhar em segredo, sempre olhando nervosamente sobre o ombro,
unham sucumbido ao medo, o objetivo que seus oponentes comunistas sempre
tiveram. Eles tomaram uma deciso consciente de mudar as tticas.
     "Vamos agir como se fssemos livres, a todo custo", decidiram os poloneses e
depois os tchecos. O Comit de Defesa dos Trabalhadores na Polnia comeou a
organizar reunies pblicas, normalmente nos prdios das igrejas, a despeito da
presena de informantes conhecidos. Eles assinaram artigos, s vezes colocando o
endereo e nmero do telefone, e distriburam abertamente jornais nas esquinas das
ruas.
     De fato, os dissidentes concordaram em agir do jeito que eles pensavam que a
sociedade deveria se tornar. Se quiser liberdade de discurso, fale livremente. Se
quiser uma sociedade aberta, aja abertamente. Se amar a verdade, conte a verdade.
Vaclav Havel, o dramaturgo e futuro presidente tcheco, abriu o caminho ao
determinar-se a no mais escrever com um olho naquilo que as autoridades
poderiam aprovar, mas a escrever a verdade, no importando as conseqncias.
     As autoridades no sabiam como reagir. s vezes eles reprimiam -- quase todos
os dissidentes cumpriram pena em presdios -- e s vezes eles observavam com uma
frustrao que beirava o desamparo. Nesse nterim, as tticas descaradas dos
dissidentes facilitaram bastante o contato entre eles e o Ocidente. Um tipo de
"arquiplago de liberdade" tomou forma, em contraste brilhante com o sombrio
arquiplago do gulag. Em certo sentido, eles criaram uma sociedade livre ao agir
"como se" a sociedade fosse livre.
     O mais importante foi que a nova abordagem tornou os prprios dissidentes
mais ousados. Eles descobriram uma liberdade interior que d sustento mesmo
quando a liberdade externa  arrancada de supeto. Atinai, a priso fornece as
circunstncias ideais nas quais se aprende a apreciar a liberdade. Contra todas as
probabilidades, eles se apegaram  crena nos princpios fundamentais da verdade e
justia, mesmo quando seus governos tentavam constrang-los e faz-los acreditar no
contrrio.
     A filosofia ousada se espalhou para outros lugares, encorajando os dissidentes
na China, Amrica Latina e frica do Sul. Como Richard Steele escreveu sobre sua
experincia numa priso sul-africana:
         O poder da intrepidez  assustador. Penso naqueles que estavam me dando
         ordens. Eles estavam sob uma tirania real ceram bem mais vtimas do que
         eu era. Quando estavam gritando ordens para mim, tinha uma vvida
         imagem dessas pequenas criaturas me atacando nos ps, querendo me
         demolir com ordens, enquanto eu estava bem acima, certamente no no
         mesmo nvel que eles. Eles podiam me ameaar com qualquer coisa e no
         me pegar, porque eu no estava assustado. Isso foi imensamente libertador
         para mim. Conseguia ser quem eu era sem tem-los. Eles no tinham poder
         sobre mim.



                                                                            ~   137   ~
 notvel que tenhamos vivido para ver esses dissidentes triunfar. Um reino
alternativo de pessoas unidas por idias, um reino de farrapos, prisioneiros, poetas e
filsofos, que veiculam suas palavras nos rabiscos de um samizdat copiado  mo, fez
tombar o que parecia uma fortaleza inexpugnvel num pas aps o outro. Mesmo a
frica do Sul teve eleies livres e aboliu o apartheid sem uma revoluo violenta.


Lembro-me vivamente de assistir ao noticirio da televiso relatando como o clmax
da revoluo no violenta teve lugar nas ruas de Moscou. Russos que tinham
crescido no centro mundial do totalitarismo subitamente declararam "vamos agir
como se fssemos livres" -- em frente ao prdio da KGB, encarando a boca dos
canhes dos tanques. Eu estava em viagem na Escandinvia naquele vero, e
enquanto assistia s imagens, sem traduo para o ingls, podia apenas imaginar os
detalhes do que estava transpirando bem ali, do outro lado da fronteira. No entanto,
o contraste entre os rostos dos lderes do lado de dentro e as massas do lado de fora
me disseram tudo o que precisava saber. Com uma clareza espantosa, eles mostraram
quem realmente estava com medo e quem realmente era livre.
     Nessa mesma viagem li The sacrament of the present moment [O sacramento do
momento presente], um livro notvel escrito pelo mstico francs Jean-Pierre de
Caussade. Escrevendo para um grupo de freiras sitiadas, durante as dcadas caticas
que antecederam a Revoluo Francesa, Caussade estabeleceu para elas um
programa desafiador de orientao espiritual.
     "A f d  terra toda um aspecto celestial", disse Caussade. "Cada momento 
uma revelao de Deus." Independentemente de qual seja a aparncia das coisas num
determinado momento da vida, toda a histria, em ltima anlise, servir para
cumprir o propsito de Deus na terra. Ele aconselha as freiras a "amar e aceitar o
momento presente como o melhor de todos, com perfeita f na bondade universal de
Deus... Tudo, sem exceo,  um instrumento, um meio de santificao".
     As objees imediatamente brotaram em minha mente, como provavelmente
aconteceu com as freiras que leram essas palavras pela primeira vez. "A bondade
universal de Deus" numa nao que est se encaminhando para a sanginolcia e
para a loucura? "Um aspecto celestial" num mundo cada vez mais pago?
Sofrimento, violncia, perseguio -- esses tambm so instrumentos e meios de
santificao?



                                            No se esquea de rir
captulo quarenta e quatro


A espcie humana se distingue em pelo menos trs aspectos, disse o poeta W H.
Auden. Ns somos os nicos animais que trabalham, riem e oram. Descobri que a
lista de Auden fornece um quadro de referncia bem claro para a auto*reflexo. Eu

                                                                               ~   138   ~
me pergunto: e os cristos que vivem em relativa liberdade, segurana e conforto? Se
realmente a f pode transformar as vidas daqueles que sofrem presses no limite da
perseverana humana, o que dizer de ns? Como podemos chegar a esse nvel?


     No trabalho, os cristos descaradamente se distinguem. Na Amrica Latina, nos
pases islmicos e at na China comunista, os oponentes devem reconhecer com
relutncia que, com todas as suas falhas, os cristos so diligentes. Afinal, nossos
antepassados inventaram a tica protestante.
     Valorizamos tanto a tica do trabalho que, de fato, devoramos tudo que est na
vista. Nossas igrejas so administradas como corporaes, nossas horas de silncio se
encaixam num programa que administra nossa agenda (de preferncia num
computador), os pastores mantm o ritmo febril dos executivos japoneses. O trabalho
se tornou para os cristos o nico vcio permitido.
     A essa altura, j deveramos ter dominado a arte da orao, mas tenho minhas
dvidas.  tentador transformar a orao em outra forma de trabalho, o que pode
explicar o motivo de as oraes na maioria das igrejas consistir principalmente de
intercesso. Levamos a Deus nossos pedidos na forma de listas de desejos e muito
raramente nos damos ao trabalho de escutar.
    Tenho notado que as oraes bblicas (como vistas, por exemplo, nos Salmos)
tendem a ser errantes, repetitivas e desestruturadas, mais prximas em sua forma a
uma conversa que se pode ouvir na barbearia do que a uma lista de compras. Estou
aprendendo esse tipo de orao com os catlicos, que captam melhor o conceito da
orao como ato de adorao. Estranhamente, para os que oram o dia todo -- Henri
Nouwen, Thomas Merton, Maerina Wiederkehr, Gerard Manley Hopkins, Teresa de
vila --, a orao se parece menos com uma tarefa que se tem  mo e mais com
uma conversa que nunca se acaba. Como a vida comum,  qual simplesmente se
adiciona uma Audincia.
    Eu me recordo de uma entrevista que Dan Rather fez com Madre Teresa de
Calcut. "O que voc diz para Deus quando ora?", perguntou. Madre Teresa olhou
para ele com seus olhos escuros e profundamente expressivos e disse baixinho: "Eu
ouo". Um tanto desconcertado, Rather fez uma nova investida. "Bem, ento o que
Deus diz?" Madre Teresa sorriu. "Ele ouve."


Na risada, a terceira perna da trade de Auden, os cristos ficam para trs do resto
do mundo. De que outra forma pode-se explicar a baixa circulao de uma revista
humorstica como a Wittenburg Door e as cartas furiosas que as revistas crists
recebem dos assinantes que no conseguem compreender a stira?
    Para corrigir o desequilbrio, W H. Auden props o ressurgimento da prtica
medieval do carnaval, o grosseiro feriado que precede a Quaresma. Ele escreve:

        O carnaval celebra a unidade de nossa raa humana na condio de
        criaturas mortais, que vm para este mundo e dele partem sem nosso
        consentimento, que precisam comer, beber, defecar, arrotar e soltar gases a

                                                                              ~   139   ~
         fim de viver, e procriar para que nossa espcie sobreviva. Nossos
         sentimentos sobre isso so ambguos... Oscilamos entre desejar que
         fossemos animais sem reflexo e desejar que fssemos espritos
         descorporificados, pois em nenhum desses casos causaramos problemas
         para ns mesmos. A soluo do carnaval para essa ambigidade e rir, pois a
         risada e simultaneamente protesto e aceitao.


Falta a pg. (253)


mal se ouvem. Instintivamente, de uma maneira profunda e ambgua, parece
estranho que ns, vertebrados que andam na vertical, tocados pela chama divina,
ajamos de um jeito to parecido com outros vertebrados.
     Quanto  morte, somente ns humanos a tratamos com choque e repugnncia,
apesar de no conseguirmos nos acostumar com a realidade, embora seja universal.
Toda cultura desenvolve cerimnias elaboradas para marcar a passagem final de um
ser humano. Mesmo ns do Ocidente cristo, com a tradicional crena na vida aps a
morte, vestimos os cadveres com roupas novas, os embalsamamos (para que,
posteridade?) e os sepultamos em caixes hermeticamente fechados e cmaras
morturias de concreto. Nesses rituais encenamos uma relutncia obstinada em
render-se  mais poderosa das experincias humanas. Como Lewis sugere, essas
anomalias revelam um estado permanente de tenso interna nos seres humanos.
Uma pessoa na sua individualidade  um esprito criado  imagem de Deus, mas
temporariamente fundido com um corpo carnal. As piadas sujas e a obsesso com a
morte expressam uma sensao estrondosa de discordncia com esse estado
intermedirio. Perdemos a unidade porque muito tempo atrs abriu-se uma fissura
entre nossas partes mortal e imortal; os telogos dizem que esse rompimento
remonta  Queda.
     Os cristos tm uma grande vantagem sobre outras pessoas, continua C. S.
Lewis: no por serem menos decados do que elas nem menos condenados a viver
num mundo decado, mas por saberem que so criaturas decadas num mundo
decado. Penso que, por esse motivo, no devemos nos permitir a ousadia de
esquecer como rir de ns mesmos. Tenho lido alguns dos materialistas clssicos --
Charles Darwin, Karl Marx e Bertrand Russell -- e ainda estou por encontrar o mais
leve sinal de um sorriso escondido furtivamente em meio a suas palavras, O
movimento do "politicamente correto" em nossa poca demonstra uma solenidade
similar. Podemos parodiar apenas o que respeitamos, assim como s blasfema aquele
que acredita.
     de fato, ocorre-me que a risada tem muito em comum com a orao. Nos dois
atos estamos nivelados, livremente reconhecendo que somos criaturas decadas. Ns
nos levamos menos a srio. Pensamos em nossa condio de criatura. O trabalho
divide e faz distines de cargo, a risada e a orao unem.
            W H. Auden termina sua reflexo com a seguinte advertncia:


                                                                            ~   140   ~
        Uma vida humana satisfatria, individual ou coletivamente, somente 
        possvel quando se d o devido respeito aos trs mundos. Sem Orao e
        Trabalho, a Risada do carnaval torna-se feia, as obscenidades cmicas
        tomam-se imundas e pornogrficas, a agresso zombeteira torna-se dio e
        crueldade reais. Sem Risada e Trabalho, a Orao torna-se gnstica,
        excntrica, farisaica, enquanto aqueles que tentam viver somente do
        Trabalho, sem Risada ou Orao, passam a amar insanamente o poder,
        tornam-se tiranos que escravizariam a Natureza por causa do desejo i
        mediato deles -- uma tentativa que s pode acabar em catstrofe completa,
        em naufrgio na Ilha das Sereias.




                                           Santos e semi-santos
captulo quarenta e cinco



As personagens bblicas Esdras e Neemias, que foram contemporneos, enfrentaram
o mesmo desafio de liderana. Cada um deles procurou reavivar os refugiados
abatidos em Jerusalm, persuadindo-os a reconstruir os muros da cidade e purificar a
moral. Mas como foram diferentes as tticas que esses dois homens usaram!
     Quando Esdras chegou a Jerusalm e viu com os prprios olhos a degenerao
moral de seu povo, ficou em estado de choque. Ele rasgou suas roupas, arrancou
cabelos e fios da barba e se sentou estarrecido. Horas depois, Esdras ainda estava
chorando e jogando-se no cho. Sua aflio foi to efusiva e seu arrependimento to
contagiante que todos os lderes da cidade concordaram em mudar seus caminhos.
     Neemias, que entrou em cena poucos anos depois, usou uma abordagem mais
confrontadora. Quando os mercadores se alinharam do lado de fora da cidade para
vender seus produtos no sbado, ele os ameaou com violncia fsica. E quando seus
companheiros judeus se casaram com estrangeiras contra as ordens de Deus, ele
rogou pragas sobre eles, espancando-os e arrancando o cabelo deles.
     Essa ltima cena reala de forma luminosa a diferena entre os dois heris
bblicos: um arranca o prprio cabelo em sua aflio; o outro arranca o cabelo dos
outros em sua raiva.
     Esdras era um sacerdote, um mstico. Tinha recusado uma escolta armada para a
jornada de 1200 quilmetros da Babilnia at Jerusalm, a despeito de esse grupo de
imigrantes transportar 28 toneladas de prata. Preocupado com o fato de que a
presena dos guardas armados poderia demonstrar falta de f, ele escolheu em lugar
disso confiar no jejum e na orao peta proteo.
     Neemias, um burocrata de refinado pragmatismo, no teve esses escrpulos. Ele
entrou em Jerusalm encabeando um destacamento da cavalaria persa e, ao
primeiro sinal de oposio, tambm organizou os judeus em batalhes armados.


                                                                             ~   141   ~
Logo cada um dos operrios do muro estava carregando uma arma na mo que
estava livre.


Esdras e Neemias me puseram a pensar nas abordagens diferentes que as pessoas
adotam ao vivenciar a f crist. Se Esdras era um santo, Neemias era um semi-santo.
     Um santo (da forma como estou usando o termo)  um radical, um extremista
moral que se esquiva de qualquer comprometimento e bem pode parecer tolo aos
olhos do mundo. Madre Teresa se colocava no centro de uma das cidades mais
populosas da terra e fazia discursos contra o controle de natalidade. "Cada criana 
uma ddiva de Deus", dizia ela. Quarenta anos atrs, Martin Luther King Jr. ia atrs
dos xerifes mais maldosos no Alabama e no Mississipi e ficava plantado exatamente
no meio do caminho de seus ces e mangueiras de incndio. O objetivo, King
costumava dizer, no era derrotar o homem branco, mas "despertar um senso de
vergonha dentro do opressor", e o melhor jeito de envergonhar uma nao era lutar
contra a violncia com uma agressiva no-violncia.
     A igreja tambm tem visto alguns semi-santos eficientes. William Wilberforce se
tornou alvo de muitas piadas na Inglaterra do sculo XVIII porque fazia discursos de
uma nota s contra a escravido no Parlamento. Mas no fim sua fidelidade
burocrtica o ajudou a ser bem. sucedido, e a Inglaterra escolheu o caminho da
coragem moral, concordando at em compensar os donos dos escravos nas colnias.
Nos Estados Unidos, Abraham Lincoln acreditava, acreditava de verdade, que
serviria melhor a Deus ao insistir numa guerra at seu final amargo.
     Minha carreira como escritor me deu a chance de observar uns poucos "santos"
contemporneos. Alguns deixaram casas confortveis na Amrica do Norte para
testemunhar a favor da paz na America Central ou para servir em campos de
refugiados na frica cheios de misria; outros gastaram suas vidas dando guarida
aos desabrigados urbanos na America e alimentando-os. Depois de conversar com
essas pessoas, vou embora inspirado, e preenchido com uma viso mais elevada do
que um cristo pode ser.
     Tenho tambm me encontrado com semi-santos. Todos os dias teis, lobistas
cristos vestem ternos de trs peas e ficam rondando o Capitlio para representar os
interesses de crianas que esto morrendo de fome, crianas abortadas, prisioneiros
vtimas de maus-tratos e vtimas de violaes dos direitos humanos. Esses semi-
santos podem desempenhar um papel menos glamuroso, mas algum pode pr em
dvida o que realiza uma organizao como a Bread for the World tanto em benefcio
do pobre quanto do faminto?
     Na ndia de hoje alguns "homens santos" esto liderando uma campanha contra
o desflorestamento, Esses visionrios encorajam os moradores dos vilarejos a se
amarrar s rvores a fim de impedir os madeireiros e suas serras. Equipes de
televiso se amontoam para fazer a cobertura da dramtica cena de protesto (uma
causa que eu, por exemplo, apio). Mas os protestos piedosos na ndia nem seriam
necessrios se cada semi-santo na Amrica diligentemente reciclasse envelopes e
jornais antigos.

                                                                              ~   142   ~
Apesar de precisarmos desesperadamente de santos, eles provavelmente
continuaro sendo uma linhagem rara. A grande maioria dos cristos desse pas
trabalha em empregos "seculares" das nove da manh at as cinco da tarde, vai aos
cultos nos domingos e tenta permitir que a f influencie sua vida. Essas pessoas
podem nunca desfrutar de uma viso singular, ou talvez se livrar da ambigidade
que caracteriza um santo genuno, Mas me sinto reconfortado pelo fato de que a
Bblia parece admitir as duas abordagens.
     Esdras e Neemias, contando a mesma histria a partir de pontos de vista
diferentes, deixam claro que nenhuma das abordagens em si  inteiramente eficaz.
Neemias, o burocrata obsessivo voltado para o gerenciamento, completou em 52 dias
uma misso que Esdras fracassara em cumprir em doze anos: ele construiu um muro
em torno de Jerusalm para prover segurana aos que habitam no lado de dentro.
     Entretanto, uma vez que o projeto de construo tinha se completado, Neemias
se voltou a Esdras para conduzir a celebrao religiosa. O trecho final de Neemias
descreve aquele dia como uma das cenas mais marcantes da histria do Antigo
Testamento. Uma imensa multido de refugiados se reuniu numa enorme praa e
Esdras leu a Lei desde o amanhecer at o meio-dia. Trabalhando em paralelo, os dois
lderes -- Neemias com seu pragmatismo de tolerncia zero e Esdras com sua
impecvel integridade -- dirigiram um reavivamento espiritual tal como no era
visto havia mil anos. Naquele reavivamento, tanto os santos quanto os semi-santos
cumpriram sua parte.


    Falta a pg. (261)


que eles deixaram para trs  suficiente para partir o corao: Nova Harmonia, Vale
da Paz, Nova Esperana, Novo Refugio.
    A Igreja Catlica tambm gerou sua poro de perfeccionismo. Tenho estudado o
governo de So Benedito e lido os envolventes relatos dos primeiros missionrios
jesutas que navegaram at o Japo e a China. Comparadas com essa disciplina e
dedicao, a onda atual de misses de curto prazo se parece mais com uma moda
passageira de consumismo. O que ns, modernos, deixaremos para trs para as
futuras geraes ponderar? Fiquei me perguntando. Os nomes que me vieram 
mente dificilmente inspirariam as pessoas: Vale da Co-Dependncia, Nova
Vulnerabilidade, Novo Compartilhar.


Mas a maioria das comunidades utpicas -- como a que eu estava visitando
sobrevive apenas como museus. O perfeccionismo continua encalhando nas barreiras
de coral do pecado original.
     Um livro escrito por Douglas Frank, Less Than Conquerors [Menos do que
conquistadores], oferece uma anlise perspicaz das armadilhas do perfeccionismo.
Charles G. Trumbull, um dos lderes do movimento Victorious Life, disse certa vez:
" privilgio de cada cristo viver todos os dias sem quebrar as leis de Deus e sem
cometer pecado de forma consciente, seja em pensamento, seja em palavra, seja em
                                                                            ~   143   ~
ao". Ideais to elevados, observa Frank. paradoxalmente levam ao desespero e ao
derrotismo. A despeito de todos os bons esforos, os seres humanos no alcanam o
estado de impecabilidade e no fim freqentemente culpam a si mesmos (uma culpa
encorajada por seus lderes: "Se no estiver funcionando, voc no deve ter f o
suficiente").
     Frank aponta ainda outra falha no perfeccionismo: com demasiada freqncia
ele se desintegra em banalidades (uma das crticas mais cortantes que Jesus fazia
contra os fariseus). Na tentativa de diluir os deleites da carne, a Faculdade Oberlin de
Charles Finney baniu o caf, ch, pimenta, mostarda, leo e vinagre. O experimento
no durou muito tempo, como qualquer um que tenha visitado recentemente a
Oberlin pode atestar.
     Cresci num clima de perfeccionismo severo e tenho passado boa parte de minha
vida me recuperando disso. Descobri em primeira

    Falta a pg. (264)

advertncias implacveis de Tiago, mas no linha notado sua frmula para alcanar a
santidade. Tiago balanceava cada tribulao para lutar de forma mais esforada com
um conselho simples para dependermos de Deus (1:5,17,21; 2:24; 4:3,7;5:11). Ele
conclui: "A misericrdia triunfa sobre o juzo".
     Li Efsios e depois 1 Corntios, Romanos e depois 1 Timteo, Colossenses e
depois 1 Pedro. Em todos os livros, sem exceo, encontrei duas mensagens: os
elevados ideais da santidade e tambm a rede de segurana da graa, um lembrete
misericordioso de que a salvao no depende de satisfazer esses ideais. Efsios puxa
as duas cordas ao mesmo tempo, com preciso; "Porque pela graa sois salvos,
mediante a f; e isto no vem de vs;  dom de Deus; no de obras, para que
ningum se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras,
as quais Deus de antemo preparou para que andssemos nelas".
      Fiquei um tanto aliviado com o fato de a igreja no primeiro sculo j andar sobre
o fio da navalha, inclinando-se ora para o legalismo perfeccionista, ora para o
antinomismo grosseiro. Tiago escreveu para um extremo; Paulo com freqncia
tratava do outro. Cada carta contem uma forte nfase na correo, mas todas
insistiram na mensagem dupla do evangelho.  igreja, em outras palavras, deveria
ser ambas as coisas: um povo que se empenha em ser santo, mas que se tranqiliza
com a graa, um povo que condena a si mesmo, mas no aos outros, um povo que
depende de Deus e no de si mesmo.
     Ainda cambaleamos ao andar sobre o fio da navalha. Algumas igrejas se
inclinam para um caminho, algumas para outro. A leitura que fiz me fez ansiar por
uma igreja do tipo "uma coisa e outra". J vi um nmero demasiado de igrejas do tipo
"e isso, e ponto final".




                                                                                 ~   144   ~
            O dia em que o hino no soou to bem
captulo quarenta e sete




Durante uma srie de domingos pela manh, comecei o dia lendo Paraso perdido, de
John Milton. A linguagem era impressionante, as imagens etreas e os temas nobres.
Ento ia para a igreja, uma congregao que canta "cnticos de louvor"
acompanhados de um teclado e violes. Sem falhar uma s vez, algum solicitava a
favorita das crianas, Nosso Deus  um Deus tremendo, que contm um verso que eu
descartaria sem pestanejar: "Quando ele se levanta como guerreiro, no est apenas
estendendo o tapete vermelho".
     Para mim essa dissonante decadncia, que se inicia em Paraso perdido e
descamba para "Deus tremendo", passou a simbolizar um tremendo dilema esttico.
Como se aprecia a qualidade sem se tornar um
esnobe? No exibo qualquer esnobismo com algumas coisas: visto-me com roupas
surradas, fico em hotis baratos e dirijo um carro quadrado e prtico. Mas consigo
farejar instantaneamente a diferena entre o caf da Mr. Coffee e o passado numa
cafeteira eltrica. E quando o assunto  msica, sempre voto em Bach e Mozart,
deixando de lado canes que tm somente trs acordes principais e uma frase
incua repetida vez aps vez.
     Como se encoraja Bach sem reprimir o esprito de "Kum Ba Yah"? Como apreciar
Milton sem desprezar os folhetos evangelsticos? Ou, para ampliar a questo, como
reconhecer a qualidade nas coisas -- beleza fsica, inteligncia, capacidade atltica --
sem desvalorizar os que no receberam tais ddivas?
Nosso mundo recompensa os talentosos em detrimento dos que no tm talentos.
Fique do lado de fora de um parque de diverses e observe como as crianas tratam
os colegas que parecem desajeitados, feios ou tontos. Pagamos dez milhes de
dlares por ano para atletas profissionais e 40 mil dlares para professores.
Escolhemos jovens garotas de beleza promissora, fazemos que passem fome,
colocamos enchimentos nelas e as esculpimos com o bisturi de um cirurgio para
transform-las em supermodelos que, ento, deixaro as mulheres menos dotadas
(99,9% da populao) com uma crise de auto-imagem permanente.
     A igreja tem oscilado de um lado para outro nessas questes. Os que seguiram a
via negativa, ou caminho negativo, resolveram o problema renunciando a todos os
prazeres sensuais. Eles se mantinham com dietas de po e gua, surravam-se com
chicotes e praticavam rigorosamente o celibato (um lado negligenciado do celibato:
se ningum se casa, ento ningum se sente deixado de lado). Santo Jernimo, um
ilustre proponente dessa escola no sculo IV, tinha um senso esttico pouco
desenvolvido, mas tinha muito tempo para a orao, adorao e atos de disciplina.

                                                                                 ~   145   ~
Como j mencionei, ele sublimou seu impulso sexual na traduo das Escrituras
hebraicas. Esse esforo resultou na Vulgata, usada durante os mil anos seguintes.
     Santo Agostinho, contemporneo de Jernimo, adotou uma abordagem
diferente. Ele tinha um olhar aguado para a beleza, gostava de um bom banquete
romano e trabalhava para melhorar o corpo, a mente e a alma. Agostinho acreditava
que as coisas criadas eram boas em sua essncia; a expresso latina dona bona, ou
"boas ddivas", aparece em todas as partes de seu livro A Cidade de Deus. O truque,
da forma pela qual enxergava as coisas, era manter o equilbrio entre a Cidade de
Deus e a cidade deste mundo. "O mundo  um lugar sorridente", afirmou certa voz
num sermo.
     Ascetas que viviam nus nos topos de colunas e bispos com vestes decoradas com
pele de arminho que viviam em palcios apontam para caminhos diferentes na
resoluo do dilema esttico. Hoje algumas igrejas tocam Bach em rgos mais
majestosos que o prprio Johann poderia ter imaginado. Outros acompanham Deus
tremendo com uma orquestra de quarenta instrumentos. Outros ainda probem a
msica terminantemente. Certa vez fui a um casamento no qual os rudos distorcidos
da Marcha Nupcial de Mendelssohn vinham de uma vitrola posicionada do lado de
fora do santurio; uma extenso bem comprida permitiu aos noivos passar por cima
da regra denominacional que proibia os instrumentos musicais na igreja.


Se a histria crist pode nos oferecer alguma dica, duvido que algum em breve
surja com uma frmula exata para resolver essas questes, Mas realmente acredito
que o cristianismo, e somente o cristianismo, tem trs contribuies essenciais para
fazer:
     1.Coisas boas so uma ddiva, no uma possesso. Agostinho captou bem isso
     com a expresso dona bona. Somos criaturas que receberam por emprstimo
     talento, beleza e inteligncia de um Criador que tencionava que ns usssemos
     isso bem. As coisas criadas ainda retm um brilho opaco que reflete a bondade
     essencial, pistas de sua origem divina. G. K. Chcsterton faz a analogia com
     Robinson Cruso numa ilha rochosa, recolhendo ternamente os poucos consolos
     que podia arrancar do mar, relquias sagradas do navio que afundava.
     2.Neste mundo decado, as coisas boas so resqucios da espoliao. A Queda do
     ser humano mudou tudo, e agora todas as coisas boas tambm apresentam um
     risco implcito e contm dentro de si a possibilidade de explorao e abuso.
     Pense no sexo, na comida, nos grandiosos recursos de nosso planeta. Poder,
     beleza e fulgor -- todas essas so coisas boas, qualidades que o nosso Criador
     possui, mas a histria humana demonstra amplamente o que pode acontecer a
     elas nas mos de seres humanos que provaram da rvore do conhecimento do
     bem e do mal.
     3.Mesmo as coisas exploradas podem se tornar boas. Tenho observado em
     museus de arte que os santos so bem feios, representados com rosto macilento,
     nariz aquilino e cabelo ralo. No sei se eles escolheram um caminho que os
     levou  santidade por causa do ostracismo social (assim como muitos cientistas
     -- sem esquecer os escritores -- que so estudiosos introvertidos), ou se sua
                                                                             ~   146   ~
    aparncia sofreu  medida que as exigncias da santidade comeavam a
    desgastar o corpo. Independentemente disso, os santos, por definio,
    demonstram ostensivamente uma verdade duradoura do Sermo do Monte:
    Deus julga com critrios

Falta a pg. (268)


      Querido sr. Frango Frito: favor enviar-nos
                                        dinheiro
captulo quarenta e oito


Durante um ms atirei em uma caixa grande lodos os apelos de levantamento de
fundos que chegavam pelo correio. Depois a esvaziei e li os contedos daquela caixa:
62 apelos diferentes, totalizando pouco mais de um quilo e meio. Fiquei estarrecido.
Sem minha ajuda imediata, o mundo pode vir abaixo em algum momento da semana
que vem.
     Primeiro li atentamente os apelos polticos, uma variedade de levantamentos
falsificados e telegramas fajutos. O destino poltico da Direita Religiosa alarmava os
polticos liberais, enquanto os conservadores pareciam preocupados com a agenda
social do Partido Democrata.
     Em seguida surgiu uma srie de apelos para causas ambientais (incluindo minha
favorita, os Amigos do Boi-almiscarado). A menos que eu faa algo, mineiros e
madeireiros vo espoliar o que resta da natureza ainda intocada do Alasca, os
mexilhes zebrados vo engolir o lago Michigan, e florestas antigas cairo diante das
serras motorizadas. (Quantas florestas jovens morrem para fornecer o papel para os
maos de levantamento de fundos com o propsito de salvar florestas antigas?)
     O resto da pilha de correspondncias, mais de dois teros do total, veio de
grupos religiosos. H alguns anos dei dinheiro para uma organizao que auxiliava
dissidentes soviticos, que por acaso eram judeus. Agora Simon Wicsenthal  um dos
meus correspondentes mais fiis e tambm recebo apelos de obscuras organizaes
judias. Considere essa carta do juiz Wapner, ex-presidente do Tribunal Popular, hoje
escrevendo em defesa do Instituto Nacional de Asilos Judeus: "Voc j passou por
uma alma pobre e velha numa maca no corredor gelado de um hospital?... As
bochechas plidas e murchas, o cabelo branco e sem vida, os ossos quase sem
carne..."
     Tambm recebi apelos de ordens catlicas. O Monastrio Passionista me
assegurou que, por uma contribuio de no mnimo dez dlares, posso escolher doze
pessoas amadas que esto Purgatrio e elas sero lembradas numa missa especial no
Dia de Finados. Ou poderia enviar meu dinheiro para os Servos do Paracleto, que
ajudam na reabilitao de padres e irmos decados -- uma indstria em
crescimento, pelo que parece.


                                                                               ~   147   ~
    Entretanto, de longe a maioria da pilha tinha no remetente o endereo de
organizaes evanglicas. O que me impressionou foi a grande semelhana com os
apelos de todos os outros: os mesmos "Expresso. gramas" fajutos com "Urgente!" em
vermelho no cabealho, os mesmos PS.s sublinhados com tinta azul, as mesmas
"doaes desafiadoras" que exigem que eu aja dentro de dez dias se quiser que minha
doao dobre de valor. Esse pessoal deve comparecer aos mesmos seminrios.


Um editor na revista Time certa vez calculou que uma mala direta completa,
incluindo postagem e a compra da lista, custa pelo menos 26 centavos de dlar. Os
custos aumentam se a carta for personalizada: "Caro sr. Yancey". Por sinal, essa
personalizao no  uma cincia exata. Meu vizinho, o Frango Frito do Popeye, recebe
cartas endereadas ao "Caro sr. Frango Frito". O escritrio central da Assemblia de
Deus certa vez recebeu uma carta com a saudao "Cara Sra. Deus".
     Muitas pessoas no sabem que, quando uma organizao compra listas para
prospectar novos doadores, talvez apenas uma em cada cem pessoas vai responder
(essa prtica, chamada de "prospeco a frio", no deve ser confundida com
atividades mineradoras no rtico). Assim, pode ser que a organizao gaste 26
dlares para conseguir a primeira doao de 25 dlares. O editor da Time enviava
perniciosamente doaes de cinco dlares para as organizaes s quais fazia
oposio, tal como a Associao Nacional de Armas de Fogo, apenas para observ.
los gastando muitas vezes mais do que essa quantia na tentativa de extrair mais
dinheiro dele.
     Sou contra a sugesto engenhosa mas desperdiadora do editor, e estou
tentando no ser cnico sobre todo esse negcio de levantamento de fundos. Afinal,
eu mesmo j escrevi cartas de levantamento de fundos e tenho simpatia pela
necessidade de uma organizao de se comunicar com os contribuintes. de fato, a
razo pela qual recebo tantas cartas de levantamento de fundos  que dou apoio a
organizaes que tm seus mritos e respondo a seus apelos.
     Mas qual  a hora de dar um basta? Depois de ler consecutivamente 62 cartas,
fiquei impressionado principalmente com os truques empregados. Um grupo
pedindo dinheiro para a Bblias para a Rssia tinha um vistoso carimbo em vermelho
de "Aprovado: Governo da Rssia". Uma estao de televiso crist me prometeu um
milagre se eu desse um mltiplo de sete: 7,77 dlares, 77,77 dlares ou 777,77
dlares; a quantia mais alta tambm me dava direito a uma pgina original de uma
Bblia de 1564 numa moldura. Um amigo meu escreveu para a estao, sugerindo
que lhe enviassem a contribuio e deixasse Deus recompens-los em vez de
recompens-lo com as bnos grandemente multiplicadas que eles tinham
prometido.
     Tinha acumulado uma grande coleo de fitas VHS realando o trabalho de vrias
misses antes de finalmente romper minhas resistncias e comprar um videocassete
(para meu desgosto, a maioria delas tinha apenas dez minutos de durao e no
podia ser reciclada ou usada para gravao). Agora estou acumulando uma pilha de


                                                                              ~   148   ~
DVDS, na expectativa de meu prximo passo em cmara lenta na atualizao
tecnolgica.
    Uma organizao graciosamente me enviou um cheque de 1500 dlares. Para
minha tristeza, descobri que o cheque no tinha sido feito para mim, mas para a
organizao que o tinha enviado para mim, como um jeito astuto de encorajar uma
doao desafiadora. "A cpia desse cheque  vlida somente se acompanhada de um
cheque de valor igual ou superior feito por sr. ou sra. Philip D. Yancey".
    Uma misso se vangloria da prtica de nunca pedir dinheiro diretamente. No
entanto,  engraado ver o nmero "pedidos de orao" urgentes que recebo deles,
pedindo que eu ore, digamos, pela quantia desesperadamente necessria de
dezesseis mil dlares at 1 de maro.

    Faltam as pgs. (272-274)



                                         Colonizadores de Deus
captulo quarenta e nove




Sermes americanos, uma antologia de 939 pginas na prestigiada srie da Biblioteca
da Amrica, inclui sermes de unitaristas, judeus e de um mrmon. Contudo, 45 dos
53 pregadores so cristos declarados, e os conservadores so generosamente
representados por nomes como D. L. Moody, J. Gresham Machcn, Billy Sunday,
Aime Semple McPherson e R. A Torrey, assim como um forte contingente de
puritanos.
     No consigo decifrar como um compilador poderia omitir George Whitefield,
Charles Finney e Billy Graham -- ser que a histria do futebol poderia negligenciar
Pele, Garrincha e Zico? -- mas no geral o editor, Michael Warner, realizou um
trabalho admirvel para qualquer um que se interesse na pregao americana.
(Warner, que cresceu como pentecostal, graduou-se na Universidade Oral Roberts,
saiu do armrio assumindo-se como gay e depois se afastou da f, tornando-se, em
suas prprias palavras, "um intelectual homossexual ateu.")
     Pregadores modernos devem muita coisa aos puritanos, que elevaram o sermo
a um lugar de honra. A Igreja Anglicana tinha rebaixado os sermes a eventos
trimestrais, e os catlicos semelhantemente tinham tirado a nfase da homilia. Os
puritanos ingleses arriscaram-se a ser presos ao se reunir ilicitamente para ouvir
sermes, e os que emigraram para a Amrica aproveitaram ao mximo sua liberdade.
Increase Mather, por exemplo, gastava dezesseis horas por dia estudando e recitava
seus sermes de uma hora de cor.


                                                                             ~   149   ~
    Mais de um sculo depois, pregadores escravos estavam colocando na moda um
novo estilo de pregao, fundamentado no no raciocnio

    Falta a pg. (276)

     John Winthrop pregou o famoso sermo "Cidade sobre o Monte" a bordo de um
navio que levava colonos para a America. "Os olhos de todos os povos esto sobre
ns", disse ele, e se a Amrica fracassar em atingir seus ideais "nos tornaremos
historia e motejo por todo o mundo." Quase dois sculos depois, o ex-escravo
Absalom Jones pregou um poderoso sermo no Dia de Aes de Graas em honra ao
Congresso por abolir o trfico de escravos africanos. Mal sabia ele que outros 55 anos
se passariam antes que os escravos que j estavam na Amrica recebessem a
liberdade.
     Avance rapidamente at o sculo seguinte, e Martin Luther King Jr. estava
repetindo o refro simples: "Queremos ser livres". King  um dos cinco indivduos
que mereceram dois sermes nessa antologia: o sermo "J estive no topo da
montanha" que foi pregado na noite em que seria assassinado e o sermo "No-
conformista transformado", que explora a cidadania crist em dois mundos.
      "Quem deveria articular os anseios e as aspiraes do povo melhor do que o
pregador?", perguntou King. Citando Filipenses, King instigou os fiis a estabelecer
uma "colnia do cu" aqui na terra -- e no se contentar sendo "termmetros que
registram a temperatura da opinio da maioria", mas antes sendo "termostatos, que
transformam e regulam a temperatura da sociedade".
     A filha de King, com seis anos, fez-lhe uma pergunta assombrada. Essa pergunta
ecoa atravs do tempo para todos os que tentam estabelecer uma colnia do cu num
mundo imperfeito: "Papai, por que voc tem que ir tantas vezes para a priso?". No
h dvida de que os puritanos na Inglaterra ouviram perguntas semelhantes de seus
filhos antes de partirem para estabelecer uma Cidade sobre o Monte, uma cidade
cujos ideais os pregadores modernos ainda nos instigam a alcanar.




                                                                               ~   150   ~
~   151   ~
~   152   ~
