ILUSO
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          NAASOM A. SOUSA




     ILUSO
Naasom A. Sousa




          Edio Letras Santas
  Copyright - 2006 by Naasom A. Sousa




              ILUSO
                    NAASOM A. SOUSA




                       ILUSO
     TAIN BRAGA  UMA SIMPLES estudante da universidade
Belinne, que realiza o sonho de cursar comunicao. Aps o
pedido do professor para que a classe conseguisse um estgio
em alguma empresa para avaliao no curso, Tain se torna
locutora da rdio Belinne que se situa no campus da
universidade e tem transmisso para toda a cidade.
     Aps comear os trabalhos na rdio, Tain comea a
receber estranhos telefonemas, que parecem se coincidir com o
desaparecimento -- um a um -- de seus amigos do campus.
Tain ento conhece Felipe Nascimento, que comanda uma
programao evanglica antes do seu horrio, e comeam uma
intensa e interessante amizade.
     Um investigador  contratado pela diretoria da
universidade ao mesmo tempo em que os telefonemas se
tornam ameaadores e Tain comea a ser alvo de manacos
que, por alguma razo querem v-la morta. Por fim, ela se alia
ao investigador Robson Saldanha e ao seu assistente Manoel
Cristovan, que juntos acabam descobrindo um mistrio na vida
da jovem estudante.
    O que ser? Por que seus amigos desaparecem depois dos
misteriosos telefonemas? Quem est por trs deles e por que
querem a execuo de Tain?
    Uma trama intrigante est para se desenrolar onde
qualquer um pode ser o suspeito.




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    NAASOM A. SOUSA




Este  para minha filha Adayla.
Voc  e sempre ser um milagre
 de Deus na minha vida, filha.
            Te amo!




         ILUSO
                      NAASOM A. SOUSA




Filhinhos, vs sois de Deus, e j os tendes vencido; porque maior 
     aquele que est em vs do que aquele que est no mundo.
                           (I Joo 4:4)




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                        NAASOM A. SOUSA

                         NOTCIA REAL
31/1/2002
Reuters, em Bochum (Alemanha)  Assassinato na
Alemanha chama ateno para cultos satnicos.


  Foto - Manuela Ruda fala com seu advogado na corte de
                                    Bochum, Alemanha

      Um estranho assassinato cometido na Alemanha
por duas pessoas que se diziam adoradores do diabo
trouxe  tona o problema do satanismo no pas, onde,
segundo as estimativas de um especialista, h at 7.000 seguidores dessa
prtica, muitos deles tambm simpatizantes do nazismo.
     O casal Daniel e Manuela Ruda confessou o assassinato de um amigo
com um machado e 66 facadas em julho passado, afirmando que o
demnio havia ordenado o crime. Nesta quinta-feira, Daniel foi
condenado a uma pena de 15 anos e Manuela a 13 anos em uma instituio
psiquitrica.
    Segundo psiquiatras que testemunharam no julgamento ocorrido em
Bochum (oeste), os dois possuem graves desequilbrios mentais.
      Os relatos sobre o hbito de Manuela de sugar sangue e sobre o
ritual, no qual ela e o marido mataram a vtima, desenhando um
pentagrama no peito dela e deixando um escalpelo (espcie de bisturi com
dois gumes) saindo-lhe do estmago, assustaram a Alemanha e atraram a
ateno do pas para o satanismo.
     "Se formos estudar pginas de chat na Internet poderemos ver que
os Rudas tornaram-se um objeto de culto entre crianas", afirmou Ingolf
Christiansen, autor de um livro sobre satanismo e comissrio para
assuntos ideolgicos da Igreja Luterana Protestante de Hanover.
     Segundo Christiansen, o satanismo est mais disseminado no Reino
Unido e nos EUA do que na Alemanha, onde estima haver entre 3.000 e
7.000 seguidores da prtica.
      O especialista afirmou que os cultos satnicos possuem muito em
comum com o nazismo, e muitos satanistas na Alemanha possuem
ligaes com grupos de extrema direita.
      "Os dois possuem razes comuns na noo de uma raa superior. O
que para os nazistas  a raa germnica ou o homem nrdico, para os
satanistas  o ser humano superior. E as duas ideologias rejeitam os
valores judaico-cristos", disse Christiansen.




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LIVRO
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 ILUSO
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                     PRLOGO
                 (17 DE MAO DE 1981)

      PODERIA SER UM SALO COMO qualquer outro, mas
infelizmente no era. A penumbra cobria sinistramente o lugar
e tornava-o horripilante, onde inexplicavelmente um odor forte
de enxofre se impregnava no ambiente.
      Havia cinco corpos ensangentados e sem vida no cho
sobre a figura de um pentagrama no centro do recinto. Velas
negras estavam uniformemente espalhadas ao redor da figura
satnica e delas vinham as nicas fontes de luminosidade ali.
Pessoas dentro de uma roupa longa e escura e com capuz sobre
a cabea presenciavam o que acontecia. Todas estavam de
joelhos e produziam um zunido e palavras ininteligveis,
sussurradas, quase sufocadas.
      Um homem em destaque apareceu no lugar e veio
trazendo uma jovem mulher amarrada e amordaada, as roupas
rasgadas. Jogou-a no meio da figura, entre os corpos e ela caiu
numa poa de sangue.
      O zunido aumentou.
      A moa, imobilizada pelas amarras, observou o homem
retirar de dentro da roupa um punhal. Fitou-a e ergueu a arma
pontiaguda at ficar acima de sua cabea. Fechou os olhos e
proferiu palavras incompreensveis aos ouvidos dela, mas os
outros presentes entenderam e aumentaram o alarido. Por fim
ele gritou:
      -- Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que almejamos!
Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que almejamos!
      Ele abaixou o punhal na direo da moa, mas foi
interrompido subitamente quando a porta do lugar foi
arrombada e um tiro foi disparado em sua direo, acertando-o
na jugular, fazendo seu sangue espirrar para todos os lados. O
punhal caiu-lhe das mos e logo a seguir o homem despencou
sem vida. Um esquadro fardado invadiu a sala e o homem que
havia atirado bradou:
      -- Aqui  a polcia. Todos esto presos. No resistam ou
os sacrificados aqui sero vocs!
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     As pessoas com capuzes pareciam no acreditar no que
estava acontecendo. Um outro policial correu rapidamente at a
jovem, tirou sua mordaa e passou a desamarr-la.
     -- Meu Deus! O que aconteceu aqui, Roberto? -- indagou
horrorizado, fitando os corpos cobertos de sangue ao redor,
enquanto a moa tremia e soluava descontroladamente em
seus braos.
     Roberto Amorim, o policial que atirara no homem com o
punhal, olhou para as letras na parede escritas a sangue e leu-as
num sussurro:
     -- ETERNITY.




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              UNIVERSIDADE BELINNE




  E Estacionamento.
  A, B e C        Blocos de salas de aulas e laboratrios
(Complexo educacional).
  F Dormitrio das fraternidades femininas.
  BB Biblioteca.
  L Lanchonete.
  PA Praa de Alimentao.
  P Praa Pequena.
  P Praa Cibele Belinne.
  M Dormitrio das fraternidades masculinas.
  BO Bosque.
  C Campo gramado de futebol.
  G Ginsio de esportes.




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                 CAPTULO UM
              (VINTE E DOIS ANOS DEPOIS)

     A CAMPAINHA SOARA E AS AULAS comearam na
universidade Belinne em Porto Alegre-RS. Era mais um dia
cansativo de aulas e os alunos pareciam mais vagarosos ao
passarem pelo corredor principal e entrarem nas salas,
entupindo-as, sentando nas cadeiras, algumas delas j decoradas
ao estilo de cada um por rabiscos, homenagens amorosas, colas,
etc. O professor do curso de comunicao entrou e as alunas
logo suspiraram. Gilberto Torres era o professor bonito da
universidade. Quase na casa dos trinta anos, era tambm o
professor mais novo do estabelecimento de ensino. Com olhos
e cabelos castanhos-claros, porte atltico e traos marcantes ele
chamava a ateno de alunas e causava inveja de outros
professores.
     O professor Gilberto saudou a todos e sentou sobre a
mesa, mostrando logo sua descontrao e simpatia. Ergueu a
mo para que todos prestassem ateno  sua pergunta.
     -- Muito bem, classe, espero que vocs tenham se virado e
corrido para arranjar um rpido estgio para fazermos uma
avaliao do curso. -- ele observou a reao dos seus alunos ao
absorverem suas palavras. Alguns pareceram bem nervosos
enquanto outros transpareceram segurana. Ele falou: -- Aos
que no conseguiram ainda, darei mais duas semanas para
conseguirem.
     Apontou para um dos que haviam reagido bem ao
comunicado.
     -- Tyson, j providenciou seu estgio, pelo que posso
perceber.
     Tyson Cesrio sorriu. Ele era um jovem bonito e atraente
de famlia rica. Era um dos lderes do time de futebol da
universidade. Alguns o detestavam; outros o amavam. Ele falou
alto para que todos pudessem entender:
     -- Sim, eu conversei com alguns amigos de meu pai que
trabalham no jornal local impresso e eles me aceitaram como
reprter. J escrevi minha primeira matria e logo sair na

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pgina econmica, j que tambm tenho experincia em
economia.
      Houve alguns gemidos e irritadas murmuraes na direo
do garboso rico, que apenas deu de ombros.
      O professor Gilberto apenas teve tempo de acalmar a
classe quando uma mo delicada foi agitada ao alto.
      -- Diga, Gisele.
      -- Fui aceita como auxiliar de redao de um jornal
televisivo. Comeo semana que vem. Estou um pouco nervosa,
mas sei que essa pode ser minha oportunidade de quem sabe,
no futuro, ser uma conceituada ncora na televiso brasileira!
      Vaias surgiram imediatamente e em seguida risadas.
      -- Sonhar no faz mal, Gisele, sei que com persistncia
voc conseguir -- anuiu o professor.
      Os olhos atentos de Gilberto percorreram a sala e se
depararam com a jovem mais intrigante da turma, ao seu modo
de ver. Seu nome era Tain Braga. Tinha dezenove anos, era
inteligente e bonita, com olhos negros penetrantes que
imprimia sinceridade. O professor notava que ela sempre se
mantinha reservada, pelo menos dentro da sala de aula.
Permanecia a mesma pessoa desde que entrara na universidade,
no se deixando influenciar pelos outros alunos da classe que
eram, na sua maioria, filhos de ricos empresrios que estavam
ali apenas para satisfazer o desejo dos pais. Ele apontou na
direo dela.
      -- Tain Braga... voc conseguiu alguma coisa?
      A turma se calou instantaneamente para ouvi-la.
      -- Ahm... Sim -- falou ela em alto e bom som. -- Fiquei
sabendo que a rdio daqui do campus estava precisando de um
locutor, e como sempre sonhei em fazer algo parecido...
      Uma voz masculina grave se fez ouvir:
      -- Voc pegou minha vaga, garota! -- todos olharam para
Jorge Silva, um rapaz negro com aparncia de rapper. -- Aposto
que no sabe fazer um programa de rdio descente...
      -- Ei! Tenha calma a, rapaz -- bradou o professor
Gilberto se erguendo da mesa. -- Acho que se ela ficou com a
vaga  porque, ou ela verificou a vaga na rdio primeiro ou
simplesmente  a mais qualificada para ser uma locutora do que
qualquer um que tenha se candidatado para a vaga.
      Jorge ficou sem palavras para argumentar. Apenas desferiu
mais um olhar odioso na direo de Tain.
      -- Conclua, Tain -- pediu Gilberto.

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     -- Bem... Consegui preencher a vaga e disseram que posso
comear amanh. Tenho alguns projetos para meu horrio e
apresentei-os ao diretor da rdio. Ele gostou e me dar total
apoio. O que posso dizer mais? Estou feliz com isso.
     Mais alguns alunos falaram da sua futura experincia na
rea de comunicao, enquanto os que no haviam sido felizes
em conseguir um rpido estgio para a avaliao apenas ouviam
frustradamente. At que de repente a campainha soou
novamente. Era a hora da pausa.



     Na praa de alimentao da universidade, Tain estava
sentada  mesa acompanhada de Camila Gaspar. Camila era
uma de suas melhores amigas no campus. Uma garota
inteligente, de pele morena clara, cabelos ondulados, olhos que
transmitiam sensibilidade. Tinha o corpo um pouco fora de
forma nos padres atuais, o que lhe fazia muitas vezes mostrar
timidez. Tomavam suco de laranja acompanhado de po
integral quando um par de mos tocou-lhes os ombros e uma
voz ressoou alto gritando:
     -- Ei! Como vo minhas universitrias prediletas esta
manh?
     Ambas se viraram assustadas. Era Valdir Teixeira, um
divertido rapaz de vinte e poucos anos. Alto, magro e nariz
adunco. Era uma espcie de animador da turma.
     -- Voc assustou a gente, Valdir! -- reclamou Camila.
     -- Onde estaro Virgnia e o To? -- indagou Tain. --
Ainda no os vi hoje.
     -- Os dois pombinhos esto se amassando em algum lugar
-- respondeu Valdir fazendo uma careta. Ele j fora apaixonado
por Virgnia, mas o tempo apagou. Sabia que no havia sido
amor. Se fosse estariam juntos at o momento, dizia a si
mesmo.
     Quase no mesmo minuto To e Virgnia se aproximaram
da mesa, abraados, como sempre. Estavam juntos h sete
meses e pareciam felizes. Ambos eram atraentes. Virgnia Sales
era uma jovem esperta, comunicativa e exuberante; To  um
apelido carinhoso para Teodoro Gusmo  era um rapaz de
esprito aventureiro e que gostava de desafios, tanto que ele
mesmo investira numa pequena loja de materiais esportivos.
     Eles cumprimentaram os demais.

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     -- Ol, Camila... Tain...
     -- Como vai o casal vinte?
     -- Melhor impossvel -- gabou Virgnia.
     -- Soubemos que vai trabalhar na rdio Belinne de
comunicao -- comentou To. -- Isso  o mximo!
     Tain explicou:
     -- Era uma vaga que estava aberta para ser preenchida por
algum da universidade e foi sorte eu ser a escolhida. O melhor
 que ser um estgio remunerado e se eu me sair bem posso at
ser contratada.
      Isso  fantstico!  exclamou Valdir.
     Uma grande silhueta passou por trs de Tain e Camila e
chamou a ateno de todos. Era Jorge Silva. Ele se distanciou
fitando Tain com o mesmo olhar ameaador de antes.
     -- Eu, hein! -- exclamou Camila. -- Esse rapaz ficou
maluco por voc ter conseguido a vaga, no foi?
     -- Talvez ele ache que as mulheres tenham que ficar
pilotando um fogo -- disse Virgnia, com indignao no seu
tom de voz.
     Valdir chamou a ateno de todos abanando a mo.
     -- Esse cara no  de nada. O que importa  que em breve
estaremos ouvindo msica de qualidade na rdio Belinne, com a
locutora Tain Braga.
     Todos concordaram e riram.



     A ltima aula do dia havia acabado. Tain, acompanhada de
Camila, descia a escadaria de um dos blocos do complexo
educacional da universidade e caminhava para as instalaes das
alunas no campus. Ela comentou:
      As aulas hoje foram muito boas.
       verdade -- Camila concordou.
     Tain suspirou contente.
       muito bom estar estudando aqui.
     O campus da universidade Belinne era consistida de uma
vasta rea verde com trs grandes prdios centrais -- A, B e C
-- onde se encontravam as salas de aula e todo complexo
educacional como salas de reunies de professores, auditrios,
laboratrios, etc. Um pequeno prdio estava erguido
exclusivamente para ser uma biblioteca, assim como um ginsio
de esportes e um grande campo de futebol, que tomava lugar de

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destaque e fazia a animao dos esportistas, a praa de
alimentao e algumas praas arborizadas que davam ao lugar
ambiente de natureza em meio s estruturas de tijolos e
concreto. Havia tambm dois prdios construdos de tijolos
vermelhos ao redor das estruturas maiores -- um para os
rapazes, outro para as moas. -- Era onde os alunos se
recolhiam aps as aulas, alm de serem os centros das
fraternidades.
     As duas moas caminharam pela rea verde, atravessaram
uma das pequenas praas e chegaram  frente de uma das
fraternidades, a FFE (Fraternidade Feminina Estudantil) onde
as elas dividiam um quarto, quando uma voz masculina
chamou-as:
     -- Ei, meninas, esperem um momento!
     As duas se voltaram e viram ao longe Tyson Cesrio
correndo em sua direo.
     -- L vem ele atrs da sua princesa intocvel -- sussurrou
Camila para Tain.
     -- No comece. No sei porque ele insiste em querer
"algo" comigo. No vejo nada nele, eu ...
     Tyson chegou rpido e no deu tempo para que Tain
completasse seu protesto.
     -- Oi, Camila.
     -- Oi.
     -- Tain, posso falar com voc?
     Tain olhou pelo canto do olho para a amiga e falou:
     -- Desculpe, Tyson, mas eu estou um pouco cansada e
tambm uma pilha de nervos por causa da estria amanh na
rdio. Por isso queria deitar um pouco...
     -- Mas vai levar s um minuto, eu prometo... Por favor.
     Ela suspirou.
     -- Est bem. S um minuto -- voltou-se para Camila. --
Te encontro l em cima em um minuto.
     Camila sorriu e entrou numa das entradas do grande
prdio de dormitrios.
     Tyson fez um sinal com a mo para que ela o seguisse
numa rpida caminhada. Ela consentiu.
     -- Oua, Tain -- ele comeou dizendo --, sei que voc
no vai muito com a minha cara... No sei o porqu...
     -- No sabe porque no quer me ouvir direito, Tyson --
interrompeu ela. -- Nunca quis. Voc  um rapaz rico e
popular aqui na Belinne enquanto eu sou apenas uma garota

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tentando buscar meu espao num mundo competitivo. Voc
estrala os dedos e as coisas acontecem; eu tenho que batalhar
para conseguir o que quero. Voc poderia encontrar centenas
de garotas como eu querendo um bom partido como voc, mas
eu no me incluo nessas garotas. Ser que me tornei um desafio
particular para voc? Sinceramente pessoas como voc no me
atraem. Prefiro me concentrar no meu prprio mundo, se  que
me entende.
     -- Voc  que no entende! -- disse ele levando as mos
ao rosto, como num ato de desespero. -- Na verdade eu quero
tentar me desligar do meu mundo e conhecer o seu!
     -- Que circunstncias levariam a uma pessoa como voc a
querer ser uma pessoa como eu?
      Por que apesar de aparentar um ar aristocrtico e ter
tudo ao meu alcance no passo de uma pessoa infeliz.
     -- Esse papo  velho.  uma cantada antiga -- riu Tain.
      No, no  cantada. Trata-se da realidade da minha vida.
     Tyson sentou-se num banco prximo e ela acompanhou.
     -- O que est querendo me dizer? -- indagou ela, agora
sria.
     -- Sou rfo de me desde os meus dois anos de idade.
Cresci sem o verdadeiro amor materno. Fui criado apenas pelo
meu pai, Augusto Cesrio, o dono da empresa Cesrio
Company S.A., que fabrica componentes eletrnicos para
computadores. Meu pai, por sua vez, s tem olhos para os
negcios. Acho que nem existo pra ele. Por causa disso sofri
toda a minha infncia e adolescncia e acho que  por essa causa
que escolhi fazer comunicao ao invs de finanas ou
administrao. -- Ele fez uma pausa para que ela absorvesse o
que estava escutando. Continuou: -- Com o tempo comecei a
ver que tantas pessoas com menos dinheiro que eu eram felizes
enquanto eu no sabia o que realmente era o amor,
principalmente de um pai afetuoso. Conheci vrias mulheres
interessantes e ricas, mas elas tambm no puderam me mostrar
o amor. Voc entende? Aprendi que no importa o quanto se
tem de recursos num cofre de banco. Sem amor voc sempre
ser infeliz... como eu sou. Quero conhecer voc melhor,
Tain, conhecer seu mundo. Talvez o seu mundo possa alegrar
e dar vida ao meu.
     Por um momento Tain ficou sem palavras. No se
lembrava de alguma vez algum lhe dizer tais palavras. Tyson
continuou:

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     -- Sabe que gosto de voc, mas tem medo de mim pelas
boas condies financeiras de que disponho. Quero que saiba
que isso jamais interferir no que sinto por voc.
     -- Eu sei, Tyson, mas...
     Ele a interrompeu subitamente.
     -- Para provar isso quero que saiba que se precisar de
alguma coisa... qualquer coisa... pode contar comigo. Se estiver
ao meu alcance farei o possvel e impossvel para lhe ajudar. Boa
noite.
     Ele se ergueu e, sem dizer mais nada ou ao menos se
despedir, se distanciou aos olhos da jovem estudante, deixando-
a sem reao.




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                  Escrevendo...
     Foi o dia mais feliz para mim quando pus meus ps na
Universidade Belline. Era um sonho que se realizava. Formar-me
e seguir uma carreira. Aquela alegria mal cabia dentro de mim.
Era algo indescritvel.
     Conheci vrias pessoas legais. Umas muito cultas, outras nem
tanto, mas nenhuma delas me tratava como algum inferior, pelo
menos eu no admitia. Eu estava na Belinne, ora essa! Como
qualquer um ali eu merecia respeito. E realmente me respeitaram.
     Ah... iriam me respeitar muito mais ao passar do tempo e eu
no tinha idia de que aquilo me custaria um preo muito alto.




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               CAPTULO DOIS
     AS AULAS PASSARAM COMO UM foguete na manh seguinte
e a campainha avisando que o dia de curso havia terminado
soou estridente. A hora de se apresentar na rdio havia
chegado.
     Tain tomou em suas mos o caderno e livros do curso,
alm de seu script para o primeiro programa. Olhou para
Camila ao lado e indagou com um sorriso nos lbios:
     -- Pronta para me acompanhar  rdio?
     Camila lanou-lhe um olhar de tristeza e declarou:
     -- Desculpe, amiga, mas recebi uma mensagem pelo celular
e preciso me encontrar com meu irmo. Parece que ele tem algo
srio pra me dizer. Espero que no seja mais uma briga dos
meus pais pela disputa dos bens aps o divrcio.
     Tain se lembrou do toque que o celular da amiga emitiu e
que irritou a professora que dava aula de redao jornalstica.
     -- Tomara que no seja algo do gnero. Isso  pssimo --
torceu Tain.
     -- Tomara.



     Havia alguns alunos no corredor que conversavam e
trocavam idias, sorriam ou apenas passeavam em grupo. Tain
se dirigia sozinha  rdio Belinne quando uma mo tocou-lhe
fortemente o ombro e a fez girar para trs. Seus olhos se
arregalaram ao se depararem com Jorge Silva.
     -- O qu...
     -- S quero que saiba que vou ficar torcendo para que o
seu programa seja uma droga, garota. Eles vo notar que
fizeram a escolha errada. E se no notarem, vou fazer da sua
vida um inferno -- ele jogou-lhe um olhar congelante outra vez
e, sem que desse tempo para que ela dissesse alguma coisa em
protesto, se distanciou.
     Tain ficou a fit-lo pelas costas, petrificada, e observou
Valdir vindo em sua direo. Jorge Silva cruzou com ele e lhe

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deu um encontro e quase jogou o magro rapaz no cho. Valdir
berrou:
     -- T cego, idiota?!
     Jorge voltou-se apenas o suficiente para praguejar: -- Ora,
v se danar! -- e continuou a passos firmes.
     Valdir ladeou Tain e os dois iniciaram uma caminhada
lenta.
     -- Voc viu aquilo? Esse cara t mais perigoso a cada dia!
     Tain concordou com a cabea.
     -- Eu que o diga, Valdir. Eu que o diga. Mas... que tal me
acompanhar at a rdio?
     -- Est indo pra l, agora?
     -- Estou.
     -- timo! Acredita que nunca entrei no estdio da rdio
da universidade? Ser uma tima oportunidade para conhecer
onde voc vai trabalhar. Quem sabe consigo um empreguinho
l tambm e acabo ganhando uma graninha extra, no ?
     Ela apenas riu. Ele no mudava o jeito palhao, mesmo.
     Os dois atravessaram os corredores que restavam at que
chegaram ao moderno estdio da rdio Belinne, que ficava no
interior do Bloco "A". Tain j havia entrado l algumas vezes
quando um dos radialistas havia lhe dado aulas de como
manusear os equipamentos eletrnicos, como a mesa de som
com os volumes dos microfones, aparelhos de CD e MD e do
computador com vrias msicas em formato MP3 e WMA, e
demais aparelhos. Tudo ali j estava passado e repassado na
mente dela e todos os recursos de som j lhe eram familiares.
     Havia um grupo de jovens dentro do estdio, ainda
fazendo um programa que acabaria dentro de cinco minutos.
Um rapaz que aparentava estar perto dos trinta anos estava no
controle de udio e com o microfone perto dos lbios falou:
     -- Infelizmente estamos terminando nosso horrio, mas
temos a certeza que a alegria de Deus continuar a reinar no seu
corao. Saiba que a alegria perfeita e permanente s se
encontra no Pai, Filho e Esprito Santo, e  o nosso Senhor
quem nos d o livramento em todos os dias. Louve-O por isso!
E para ajud-lo, vamos colocar um louvor de estremecer o
inferno. -- A msica comeou a tocar e ento ele finalizou: --
Esse  o seu programa evanglico ESPAO DIVINO chegando ao
final. Nos encontramos novamente amanh no nosso horrio
aqui na rdio Belinne. Que Deus abenoe a todos. Tchau!


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                     NAASOM A. SOUSA

     O volume da msica aumentou e locutor retirou os fones.
Uma jovem que estava junto ao telefone atendeu a ltima
chamada e se desculpou por no poderem atender mais um
pedido musical, pois o programa acabara. Outros dois rapazes
recolhiam os CD's e MD's e guardavam numa bonita maleta. A
hora do programa de Tain havia chegado.
     O rapaz que estava no comando do udio deixou os
controles e saiu da cabine onde o som era abafado e onde eram
mantidos os microfones. Ele encostou a porta atrs de si e
esticou a mo na direo dela.
     -- Voc  Tain Braga, a nova contratada, no ?
     -- Sim -- disse ela radiante tomando a mo dele na sua. --
espero que meu programa faa tanto sucesso quanto o seu.
     Ele sorriu e meneou a cabea em discordncia. Retificou:
     -- O sucesso no  nosso,  do Senhor.  Ele quem nos d
as coordenadas e as estratgias a seguir. Se fazemos tudo
certo... Bingo! Se no...  fracasso na certa.
     Tain apenas sorriu desconsertada.
     -- . S espero que Deus esteja comigo tambm.
     -- Isso s depende de voc -- falou o jovem. -- Meu
nome  Felipe Nascimento.
     Tain sorriu e acenou com a cabea, depois observou ele
tomar a mo de Valdir na sua. Ela permaneceu a fit-lo e achou
algo de incomum no semblante dele. Algo formoso que ela no
conseguia descrever.
     -- Bem, temos que ir. Espero que fiquem bem -- falou o
jovem.
     -- Eu tambm --disse a moa, mostrando ligeiramente seu
nervosismo.
     Felipe abriu caminho para ela passar e sentar na poltrona
onde se acomodavam os locutores. Os demais jovens deixaram
o recinto e num instante estavam apenas Tain e Valdir no
estdio. Ambos podiam ouvir o prefixo da rdio rodando.
Tain sabia que aps isso soariam mais algumas vinhetas e ento
teria que estar com todo o seu material pronto para o comeo
do programa.
     Aps mais alguns minutos ela respirou fundo. A hora "H"
havia finalmente chegado. Ela colocou o MD que trazia a
vinheta do novo programa. O ltimo comercial chegou ao fim e
ela apertou o play do aparelho Sony e uma voz suave pode ser
ouvida: -- Est entrando no ar o mais novo e romntico
programa dos seus finais de tarde. SENTIMENTO MAIOR, com

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Tain Braga!  Ela acionou o boto que ligava o seu microfone
e falou:
     -- Um timo final de tarde pra voc, essa  a estria do
programa mais romntico da cidade, que chegou pra ficar:
SENTIMENTO MAIOR, com Tain Braga! -- O som da msica de
fundo foi elevado por dois segundos e diminudo novamente,
ento ela continuou: -- Se o sentimento maior, que  o amor,
estiver trabalhando a todo vapor dentro do seu corao, esto
essa  a sua estao. -- Outra vez o som se elevou. --
Estaremos juntos at s vinte e uma horas juntinhos, e pra voc
sentir o clima que ir ficar no ar, escute a onde voc est, a
primeirssima msica do programa. -- Uma msica romntica
comeou a ser tocada. --  isso mesmo, espero que o seu amor
esteja a pertinho de voc. Agora so exatamente dezoito horas
e trinta e cinco minutinhos. Boa noite.
     A cantora iniciou a cano melanclica, porm muito
bonita pelas ondas da rdio Belinne e Tain desligou o
microfone. Um pulo de alegria foi inevitvel.
     -- Yes, my darling! -- bradou de contentamento. -- Mais
um sonho realizado. A primeira msica da programao do meu
programa!!!
     Valdir ergueu os dois polegares.
     -- Parabns,Tain. Ouvindo voc ali, reconhece-se que
nasceu pra isso.
     -- , eu nasci, sim.
     A msica chegou ao final e Tain abriu o microfone:
     -- Dedico a prxima cano aos meus amigos na
universidade Belinne: Camila, Virgnia, To e o queridssimo
Valdir, que est nos auxiliando no telefone. -- ela refletiu por
um breve momento e hesitante completou: -- Queria... Queria
mandar um toque especial tambm para Tyson Cesrio.
     Numa reao involuntria, Valdir fitou-a. Sussurrou:
     -- O qu??
     Ela deu de ombros e continuou:
     -- Nosso telefone est  sua disposio. Ligue pra gente e
deixe sua mensagem de amor e carinho pra quem voc gosta.
Fiquem com nossa prxima cano.
     Uma nova msica comeou a rodar e os telefonemas
soaram quase que ininterruptamente. Valdir anotava os
oferecimentos e Tain lia cada um deles durante a programao.
No final do horrio o telefone soou mais uma vez. Valdir
atendeu.

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      -- Esse  o ltimo, ok, Valdir?  comunicou Tain.
      Ele acenou com a cabea e falou ao bocal do fone:
      -- Rdio Belinne, programa Sentimento Maior. Deseja
fazer oferecimento? Pode falar. No? Quer falar com a
locutora? -- Valdir olhou para ela. -- Parece que j conseguiu
seu primeiro f. Disse que s quer falar com voc.
      Ela sorriu e arrematou o telefone em suas mos.
      -- Pois no?
      -- Seu nome  Tain, no  isso?
      -- Isso mesmo, como  o seu?
      -- Michel. Eu queria dizer que sua voz  espetacular.
      -- Obrigada. A sua tambm  muito bonita.
      -- Eu poderia v-la pessoalmente no estdio qualquer dia
desses?
      --  claro! -- Exclamou Tain. Valdir chamou sua ateno
para a msica que estava para acabar. Ela apressou-se. -- Oua,
Michel, a msica est acabando e tenho que rodar a ltima do
horrio, por isso gostaria que fizesse logo seu oferecimento
para eu ler agora, est bem?
      -- No, eu no quero fazer nenhum oferecimento. S quero
lhe falar algumas palavras rpidas. Preste ateno: Como  difcil
respirar perto de voc. A emoo  avassaladora.  como garganta
cortada que sufoca e entontece a alma, fazendo parar o corao. 
como um amigo que parte,  como a morte que chega sem aviso
prvio, deixando at a pessoa mais alegre que conhecemos sem
voz;  como acordar e ver que tudo no existe, por que voc j no
est l.
      Ouve um momento de silncio e por fim Tain comentou:
      -- Bem... me parece romntico, mas um pouco gtico
demais, no acha?
      -- Em todo caso, dedico a voc. -- a ligao emudeceu
subitamente.
      Ela deu de ombros novamente e correu at os controles.
Colocou a ltima msica e anunciou os ltimos oferecimentos,
incluindo um "toque" para Michel. E enfim a primeira noite de
programao chegou ao seu final.



    -- Obrigada, Valdir, por me ajudar no meu primeiro
programa...


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     -- O que  isso, Tain? Voc sabe que sempre estou 
disposio. Mas e a, como  que foi a conversa com o
admirador?
     Ela pensou por um segundo antes de responder:
     -- Ele pareceu legal, romntico, mas... sei l... disse
algumas coisas esquisitas. Recitou um tipo poema, mas com um
requinte mrbido, entende? Vou esperar ele ligar de novo.
Quem sabe ele no muda de gnero.
     Ambos riram. Continuaram caminhando at o prdio de
dormitrios onde Tain ficaria. Abraaram-se.
     -- Mais uma vez obrigada.
     -- No precisa agradecer. Gosto de ver as pessoas
brilharem para o sucesso.
     Ela beijou-o no rosto e subiu a escadaria at a entrada e
ento adentrar no lugar.
     Ainda sorrindo, ele caminhou em direo ao prdio de
dormitrios dos rapazes, mais ao fundo do campus. Deu alguns
passos, mas ento um desejo passou a consumi-lo. Apalpou um
dos bolsos da cala e sorriu. Seria uma boa hora para dar uma
tragada num baseado?



     O lugar estava escuro e solitrio, mas era o local ideal para
ningum v-lo com o cigarro de maconha entre os lbios.
Encontrava-se no interior do vasto bosque  direita do prdio
dos dormitrios masculinos. quela hora era propcia para
matar seu desejo pela erva. Ou no? Olhou ao redor tentando
enxergar algum alm dele por ali, talvez da mesma forma
descumprindo a lei e as normas da universidade, mas estava
certo de ser o nico afundado em meio aquela vastido verde.
     Deu mais algumas tragadas e se sentiu mais leve, feliz.
Encostou-se numa rvore e deixou o corpo deslizar pelo tronco
at se sentar ali mesmo, a cabea pendendo para trs, entrando
em xtase.
     Repentinamente um barulho atrs de si o assustou. Tentou
girar rapidamente o corpo em volta do tronco e nada viu que
pudesse amea-lo. Voltou-se para frente e estremeceu quando
viu uma pessoa de capuz diante de si. Sem dar-lhe chance para
piscar, a pessoa de capuz desferiu-lhe um pesado chute no peito
que o fez bater contra a rvore e cair de encontro ao cho. Com
dificuldade para respirar sentiu a pessoa encapuzada ajoelhar-se

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sobre ele, e sem reao observou quando puxou um punhal
brilhante de dentro da roupa. O fio da lmina passou frio e
doloroso pelo seu pescoo e imediatamente sentiu o gosto de
sangue na boca no mesmo instante em que sentiu que a
respirao j lhe faltava.
     --  como um amigo que parte,  como a morte que chega
sem aviso prvio, deixando at a pessoa mais alegre que
conhecemos sem voz -- sussurrou aquele que segurava o punhal.
     Valdir ainda conseguiu se debater, e antes que viesse a
expirar perguntou-se de quem poderia ser aquela voz, quem
seria a pessoa atrs do capuz. Quem o estava matando? Por
qu?
     No fim, ele morreu sem respostas.




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               CAPTULO TRS
     A NOITE FORA MARAVILHOSA E O SONO um encanto.
Acordou pela manh com o sorriso largo que dava para ser
notado a quilmetros de distncia. Camila, que havia dormido
cedo, saiu do banheiro no canto do quarto e indagou
imediatamente:
     -- Me conta! Como foi na rdio? Desculpe por no poder
ter ido e principalmente por no ter te esperado acordada...
     -- No, primeiro me conte sobre a conversa com o seu
irmo. Foi algo grave como voc previu? H algum problema
com seus pais?
     Ela respondeu enquanto enxugava o corpo do banho que
tinha acabado de tomar:
     -- No entendo o Cleison. Primeiro me telefona dizendo
que precisava falar-me algo urgente e quando nos encontramos
disse que apenas estava com saudades. Eu quase o matei de
tanto bater. -- enxugou o cabelo. -- Pensei que fosse algo
srio. Fiquei com raiva e permaneci com ele pouco tempo.
Voltei para c cedo e no agentei esper-la. Dormi. Sinto
muito.
     Tain j entrava no banheiro quando disse:
     -- No tem problema. Tenho que admitir que senti sua
falta l, mas o Valdir foi muito legal e ficou comigo o tempo
todo. Camila... foi muito bom.  um sonho realizado! Tenho
certeza que nasci pra isso.
     -- E a participao dos ouvintes?
     Tain se lembrou prontamente de Michel.
     -- Foi expressiva, nem parecia que era um programa novo,
mas sim j conceituado e de sucesso.
     -- Que bom! Posso ir com voc hoje? Quero sentir como
 estar dentro do estdio.
     --  claro -- falou Tain abrindo o chuveiro.




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     Tain, acompanhada de Camila, mal havia entrado no
corredor que dava acesso s salas de aula e comearam os
elogios.
     -- Puxa, voc arrasou!
     -- Seu programa  demais!
     -- Hoje vai ser no mesmo horrio, no ?
     -- Estou ansiosa para ouvir aquela msica novamente...
     Os elogios se estenderam at a sala onde as duas entraram.
A primeira voz que ouviram foi a de Jorge Silva.
     -- Programinha mais chato! Algum tinha que ensinar essa
menina a fazer um programa de verdade.
     -- Cala a boca -- falou Tyson levantando-se da cadeira.
     O professor entrou na sala e cumprimentou a todos.
Olhou para os dois, srio.
     -- Vocs querem transformar a sala num ringue? No na
minha presena, ok? Sentem-se. -- Fitou Jorge Silva e sem
desviar o olhar disse para Tain: -- Achei seu programa muito
bom, Tain. Com certeza sua boa nota j est garantida com
antecedncia.
     O olhar de Jorge Silva faiscou. Visivelmente ele fez um
tremendo esforo para no responder ao professor com grande
grosseria. Lentamente, e ainda sem retirar seu olhar petrificante
do professor Gilberto, sentou-se em sua cadeira.
     Tain sorriu. Seu dia j estava ganho e a vida no poderia
estar melhor.
     Ela olhou para o lado e encontrou o olhar de Tyson. Ela
sorriu e o cumprimentou com a cabea. Ele piscou o olho na
direo dela e tambm sorriu.



     A hora do lanche havia chegado e a praa de alimentao
estava repleta de gente mais uma vez. Tain e Camila, como
sempre, estavam juntas. Virgnia e To se aproximaram se
beijando. Camila cutucou Tain com o cotovelo antes de
reclamar com os dois:
     -- Vocs podem parar com isso? Alm de ser um atentado
ao pudor tambm  uma tortura pra ns duas que somos as
solitrias desta universidade.
     To sorriu ao declarar:
     -- Solitrias porque as duas querem. Conheo amigos que
esto loucas para conhec-las.

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     -- At parece que  verdade -- resmungou Camila,
sabedora de que suas formas no atraiam muitos garotos.
     Tain correu os olhos ao longo do ptio e perguntou:
     -- Algum viu o Valdir hoje?
     To se adiantou:
     -- Engraado, fui procur-lo ontem  noite depois do seu
programa e no o encontrei no quarto. O que aconteceu ontem,
hein?...
     Todos olharam para Tain com olhar especulativo e a
mente repleta de pensamentos lascivos.
     -- Ei, pessoal, qual ? -- retrucou a moa. -- Valdir e eu
somos bons amigos e nada mais. Ele me ajudou com o
programa de ontem e me deixou na porta do meu prdio, s
isso. E no admito que vocs pensem qualquer coisa desse tipo
ao meu respeito, est bem?
     Houve um instante rpido de silncio entre eles e ento
To deu de ombros.
     -- T legal, t legal. Foi mal. Mas  estranho mesmo o
Valdir no dar as caras por aqui uma hora dessas. J era pra ele
estar fazendo uma de suas piadas, agora...
     Com um beijo Virgnia calou-o e completou:
     -- Vamos parar de nos preocupar com Valdir! Ele j  bem
grandinho para se cuidar. Daqui um pouco ele aparece por a
com uma piada nova, mas... Tain, como est os preparativos
para o programa de hoje?
     A nova locutora sorriu e relatou com brilho nos olhos:
     -- Estou preparando o repertrio das msicas de hoje, e
acho que est legal. Estou vendo algumas curiosidades para
fazer perguntas no ar e... acho que depois do programa de hoje
devo me encontrar com um empresrio para conversarmos
sobre um patrocnio para os prmios que sortearemos. -- Ela
suspirou excitada com seus prprios planos. -- E no programa
de hoje Camila vai me ajudar.
     -- Ahh... -- Camila mordeu os lbios e de forma
envergonhada balbuciou com as mos inquietas. -- Tain, sinto
muito, mas no havia lembrado de que eu j havia marcado
outro programa hoje...
     -- J sei o que isso significa -- concluiu Tain com
semblante tristonho e cheio de decepo. -- Algum pode
tomar o lugar de Camila?
     Os outros jovens levantaram o sobrolho, desconfiados por
no poder ajud-la.

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     -- Est comeando mais um SENTIMENTO MAIOR aqui na
minha, sua, nossa rdio Belinne -- disse Tain. -- So
exatamente dezoito horas e trinta minutos e a partir de agora
seu corao ir bater mais forte, pois as msicas mais
romnticas estaro tocando aqui. -- Ela apertou o play do
programa de MP3 na tela do computador e uma msica foi
iniciada. Ela lembrou: -- Nosso telefone j est  sua
disposio. Ligue agora mesmo e faa seu oferecimento. Boa
noite!
     O volume foi elevado e Tain retirou os fones dos
ouvidos. O telefone comeou a tocar quase que imediatamente.
Atendeu as ligaes e escreveu todos os oferecimentos, assim
como o pedidos de msicas para serem tocadas. O suor
rapidamente foi saindo dos poros, pois a atividade comeava a
requerer do seu preparo fsico.
     A msica acabou e Tain rapidamente recolocou os fones
de volta nos ouvidos. Ligou o microfone e informou o nome da
msica tocada. Os ouvintes podiam ouvir o barulho do
telefone, que j tocava ao fundo. Todos os oferecimentos foram
mandados pelas ondas da rdio Belinne. Tain suspirou e
apertou o play, soltando mais um sucesso. Respirou fundo e
retirou novamente os fones.
     O telefone tocava constantemente fazendo com que ela
no parasse um s instante. Uma ligao atrs da outra, at que
uma lhe chamou a ateno:
     -- SENTIMENTO MAIOR, boa noite -- saudou Tain.
     -- Voc  Tain Braga? -- indagou uma voz feminina do
outro lado da linha.
     -- Sim, voc deseja fazer um oferecimento ou pedir uma
msica?
     -- No. Eu liguei para avis-la que voc est correndo perigo
de vida -- a voz agora sussurrava em tom sombrio. -- Saia da
universidade o mais rpido possvel ou...
     -- Quem est falando? -- interrompeu Tain. -- Isso 
um trote muito sem graa.
     -- Isso no  um trote -- declarou a voz com firmeza. --
Preste muita ateno. Se voc no sair da universidade eles iro
peg-la. Eles esto por toda parte. Ocupam mais espao a cada dia


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dentro do campus... Eles... eles so parte de uma organizao
antiga que adoram ao demnio...
     -- Quem est falando? Qual  o seu nome?
     -- Meu nome no  importante, mas voc j est avisada.
No posso falar mais, eu...
     A ligao foi cortada subitamente. Tain fitou o telefone
na sua mo sem saber ao certo o que pensar, tentando pr em
ordem as idias.




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            CAPTULO QUATRO
      O DIA SEGUINTE SEGUIU CORRIQUEIRO. Aulas, exerccios,
raciocnios lgicos. No entanto Tain estava resignada. O
telefonema na noite anterior ainda estava causando-lhe
arrepios. Camila perguntava o que tinha acontecido, pois a
amiga estava diferente, mas Tain dava de ombros e tentava
disfarar. Aquilo iria passar. Porque ficar grilada com isso? Dizia
para si mesma. Afinal voc j sabia que alguns malucos poderiam
ligar e passar trotes, no ?



     Tain ficou feliz por estar de volta aos controles da rdio
belinne naquela noite. Como um bordo programado ela disse
animadamente perto do microfone ligado e em boa altura:
     -- Est comeando mais um SENTIMENTO MAIOR!
     Deixou rodar uma msica lenta. Aps isso colocou as
vinhetas de propagandas. Ela sentia-se em casa ali. Como  bom
estar aqui! Era como um ninho aconchegante pronto para
abrig-la e faz-la esquecer do estresse das aulas e da vida.
Abriu o microfone mais uma vez e transmitiu mais uma
enxurrada de oferecimentos. Eram recados para todos os
gostos, desde os humorsticos at as cantadas exaltadas, mas
todas com o qu romntico e encantador. Esse era o esprito do
programa, afinal.
     Esse  o melhor trabalho do mundo! Alegrou-se Tain.
     Retirou os fone para esticar o corpo num alongamento e
ao coloc-los sobre a mesa seus olhos correram pelo cho e se
depararam com um porta-cdulas.
     -- Uma carteira... De quem ser?
     Ela deixou o telefone tocando e pegou o objeto do cho.
Abriu-o e observou os documentos do dono.
     Felipe Nascimento. Era o rapaz que fazia o programa dos
crentes antes do dela, pensou. Olhou a foto na carteira de
identidade. Muito bonito, ela achou. Como notara da primeira
vez, havia algo nele que a atraa. No fisicamente, mas de uma
forma diferente que nem mesmo ela podia entender.
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      Colocou mais algumas canes e percebeu que o horrio
tinha passado como o vento. Lamentou profundamente e sentiu
como que se a melancolia quisesse chegar novamente. Como
gostaria de continuar ali por mais algumas horas...
      Por fim ps mais uma cano romntica ao fundo e
finalizou declarando:
      -- Essa  a ltima do meu horrio e quero oferecer
particularmente para Valdir Teixeira que j algum tempo no
aparece para me ver. D s caras, Valdir! Seus amigos esto com
saudades. -- ela deu uma pequena risada no ar e completou: --
Chegamos ao fim do programa SENTIMENTO MAIOR de hoje.
Espero que tenham gostado das canes que tocamos e quero
agradecer, de corao, a todos que ligaram e fizeram seus
oferecimentos. Voltamos amanh. At l!
      O volume foi elevado e Tain soltou o prefixo da rdio
antes do cantor iniciar a letra da msica.
      -- Misso cumprida mais uma vez -- suspirou ela
contente.
      O telefone tocou mais uma vez. Ela levou a mo ao fone e
o trouxe ao rosto.
      -- Al, rdio Belinne -- anunciou ela.
      -- Parabns, Tain, o programa hoje foi melhor do que
ontem.
      -- Quem fala?
      -- No reconheceu minha voz? Que pena. Sou o Michel...
      -- Oh, sim! -- ela fez uma careta. Como pde esquecer de
seu primeiro f, garota? Reclamou-se. -- Desculpe, mas tive um
programa corrido hoje...
      -- No se preocupe, est perdoada.
      -- Escute... Ahm... O programa acabou agora, por isso
seu oferecimento vai ter que ficar para amanh, ok?
      -- Oh, no, no telefonei para fazer oferecimento. Apenas
queria ouvir sua voz pelo telefone.
      Ela sorriu.
      -- Ento est mentido dizendo que escutou o programa
hoje. Ou ser que no foi o suficiente ouvir minha voz pelo
rdio?
      --  claro que se trata da segunda opo. Escute: tenho uma
coisa pra dizer a voc.

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      Ela afundou ainda mais na cadeira e olhou para o relgio.
Logo teria que estar num restaurante negociando um patrocnio
para o programa.
      -- Estou escutando -- disse ela.
      Michel proferiu:
      -- Sei que o conhecimento vale uma vida, mas o
conhecimento sem amor no vale coisa alguma. O sentimento
dentro de cada um de ns  capaz de sufocar toda cincia e chegar
a mat-la, pois nada  maior do que aquilo que est dentro de ns.
 uma espcie de fio cortante que rasga todo e qualquer obstculo
para se tornar presente em nossa vida. Espero que esse sentimento
esteja dentro de voc, assim como est latente dentro de mim.
      Silncio. Tain suspirou e disse:
      -- Uau! Voc  poeta?
      -- No. Apenas um cara a fim de tornar sua vida mais
excitante.
      Ela sorriu novamente.
      --Escute, Michel...
      De um segundo para o outro a linha j estava muda. A
ligao havia sido encerrada.
      -- Al? -- Tain pedia uma resposta. -- Al, Michel?...
      Ela olhou novamente para o fone indagando se a ligao
tinha cado ou se ele teria realmente desligado no rosto dela.
Bem, quem poderia dizer?
      Um barulho vindo da entrada do estdio chamou-lhe a
ateno repentinamente dando-lhe um susto. Droga! Praguejou
ela. Ser que ainda  o efeito daquele telefonema maluco? Ela
fixou os olhos na porta de vidro que dava acesso ao interior do
estdio onde estava. Ser que algum havia entrado? Quem
poderia ser? Certamente o locutor do prximo programa. Ela
se ergueu da cadeira e caminhou lentamente at a porta, abriu-a
e um corpo atltico deu de encontro com ela.
      -- Oh, me desculpe -- falou Felipe Nascimento.
      -- No foi nada -- disse Tain. -- O que est fazendo
aqui? O outro locutor no vem? Voc vai ficar no lugar dele?
      Felipe estreitou os olhos tentando entender.
      -- Ficar no lugar... No, no. Acho que esqueci minha
carteira aqui e vim procur-la. Voc no a encontrou por ai?
      Tain levantou o sobrolho e lembrou do objeto que
encontrara no cho do estdio.



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     -- Ah, sim! Encontrei. Estava no cho, logo abaixo dos
controles. Voc deve ter deixado cair enquanto trabalhava --
ela entrou e pegou a carteira. Devolveu ao dono em seguida.
     Uma figura masculina apareceu por detrs de Felipe. Era o
locutor do prximo programa.
     -- Al, como vo vocs? -- ele saudou e entrou
rapidamente para a cabine dos controles, j ciente do seu
pequeno atraso, deixando os dois a ss novamente.
     Tain fitou Felipe e achou algo de incomum no semblante
dele como na noite anterior quando o viu pela primeira vez.
Algo formoso que ela no conseguia descrever. Ele era bonito,
moreno de olhos castanhos claros, cabelos negros ondulados
quase lisos, rosto fino.
     -- Pra onde voc vai agora? -- perguntou Felipe.
     Em outra ocasio ela responderia um tpico "para qu voc
quer saber?". Mas simplesmente ela respondeu:
     -- Estou indo me encontrar com um empresrio que, se
der tudo certo, ir se tornar um patrocinador do Sentimento
Maior. Marquei com ele num restaurante aqui perto e dentro de
meia hora ele deve chegar por l.
     Felipe acenou com a cabea demonstrando compreender.
Disse:
     -- Bem, eu estava pensando em lhe convidar para jantar
agora, mas j que tem um compromisso...
     -- No! -- ela achou que tinha falado alto e rpido demais.
-- No h porque deixar essa oportunidade passar. Acho que
nossa conversa s ir durar alguns minutos. Creio que ele  um
homem ocupado e no ir perder muito tempo comigo. Ento,
logo aps conversarmos, voc e eu podemos jantar l mesmo.
O que acha?
     Felipe Nascimento sorriu. Disse:
     -- Pra mim est timo.




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                  Escrevendo...
      Por algum tempo tudo transcorreu na mais pura
normalidade. Aulas, reunies de estudos, noites em claro em busca
do conhecimento, e algumas festas aqui e ali, nada de mais. Mas
isso foi at o momento em que os conheci.
      Era um grupo de pessoas distintas, discretas e alto-astral.
Fizeram-me sentir muito bem entre eles, de maneira que cheguei a
pensar que se me deixassem eu estaria sozinha na universidade e
quem sabe no mundo. Aquilo aconteceu de um jeito que eu no
percebi. A ligao foi paulatina e logo percebi que j me sentia
alma gmea de cada um deles.
      Uma vez, me fizeram uma pergunta surpreendente:
      "Se voc pudesse escolher ter um poder, qual poder
escolheria?"
      Aquela indagao deixou-me sem reao. Deu um branco em
minha mente at que eu pudesse organizar os pensamentos. Enfim
respondi:
      "Acho que queria ter o poder de ficar invisvel quando
quisesse. Seria bem legal".
      Eles olharam um para o outro e riram. Um deles me disse:
      "E se eu dissesse que voc poderia ter esse poder?"
      Eu no entendi naquele momento, mas foi exatamente ali
que tudo comeou a mudar na minha vida.




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             CAPTULO CINCO
     A CONVERSA COM O SR. SILAS SIQUEIRA foi melhor do que
 encomenda. Ele se mostrou o tempo todo interessado no que
lucraria investindo no programa SENTIMENTO MAIOR. Tain,
por sua vez, tentou convenc-lo de que os lucros surgiriam
mediante a propaganda que iria ser feita em todos os blocos do
programa, dentro de vinhetas muito bem montadas por uma
equipe da rdio Belinne. Aquela era uma garantia de que o
capital investido na propaganda e nos brindes fornecidos pela
empresa fonogrfica do Sr. Siqueira iria ser dobrado em pouco
tempo, pois sua empresa e seus CD's iriam ser divulgados.
     Tain pode observar os olhos do Sr. Siqueira brilharem na
expectativa de lucros. Por fim, aps aproximadamente trinta
minutos de negociaes, ele esticou a mo para ela, oferecendo
o patrocnio para o programa. Ela quis dar um salto e um grito
de alegria, mas se conteve e apenas apertou firme a mo dele.
     Tain procurou com os olhos por Felipe. Ele estava a
alguns metros, sentado  outra mesa  sua espera. Ele notou a
euforia estampada no semblante dela e levantou o sobrolho
como que pedindo informaes sobre a negociao.
Timidamente ela mostrou-lhe o polegar para cima e sorriu.
     --  seu namorado? -- indagou curioso o Sr. Silas
Siqueira.
     -- Oh! Desculpe-me -- ela voltou-se para ele e
enrubesceu. -- No, ele no  meu namorado.  apenas um
amigo que me convidou para jantar...
     -- timo, ento. J estava imaginando uma forma de lhe
dizer que no poderia ficar para jantar, pois tenho mais um
compromisso agora.
     -- No tem problema algum, Sr. Siqueira -- ela olhou na
direo de Felipe, que tomava um refrigerante, -- pode ficar
tranqilo.



    O professor Gilberto Torres guardou seu carro numa das
vagas privadas do estacionamento da universidade Belinne,
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saudou o nico segurana que ficava dentro da guarita na
entrada do local e rumou em direo  biblioteca. Passou pelo
prdio de tijolos vermelhos que acomodava as universitrias,
por uma pequena praa, deu a volta pelos grandes prdios em
"L" e chegou  porta do prdio que estava repleto de livros. Ele
procurava um livro referente  sua aula do dia seguinte. Como
ele era um dos professores do curso de comunicao, falaria a
respeito da importncia do relacionamento interpessoal para
um bom ambiente de trabalho.
     Enfiou a chave na fechadura e girou-a. Abriu a porta e
acionou o interruptor acendendo as luminrias no alto da
biblioteca. Olhou para um grande relgio pendurado em uma
das colunas do recinto. Eram quase dez da noite. Ele no iria se
demorar.



     Os dois agora estavam frente a frente. A comida estava
deliciosa, mas talvez fosse por causa do vazio que estavam
sentindo no estmago, j que os ponteiros do relgio estavam
apontando dez horas da noite.
     O restaurante agora estava pouco movimentado, mas
mesmo assim ainda havia algumas pessoas rindo e se deliciando
com o jantar, algumas at  luz de velas -- algo bem romntico
--, coisa que o prprio restaurante se encarregava de produzir
para os clientes dispostos a pagar por isso.
     Tain tomou um gole de refrigerante e perguntou a Felipe:
     -- Ento... voc  evanglico, no ?
     -- Sim, vai fazer oito anos que me converti a Cristo.
     -- E qual  sua idade?... Se no se incomoda com a
pergunta.
     Ele sorriu e meneou a cabea dando a entender que no
havia problema algum na pergunta. Tomou um gole de
refrigerante tambm e respondeu depois de enxugar os lbios
com um fino guardanapo:
     -- Completei vinte e sete anos este ms, mas ainda acho
que no passei dos vinte. O tempo parece correr depois que
completamos dezoito que voc nem imagina. E voc? Quantos
anos tm?
     -- Irei completar vinte e um daqui a trs meses, mas... Me
diga: as pessoas falam muito que os evanglicos, ou melhor, os
crentes, como so mais chamados, so pessoas retradas, que no

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sabem se expressar bem, que tudo no mundo  proibido e s
vezes se tornam at mesmo... chatos. Isso  verdade?
     Felipe ergueu o sobrolho, comeu mais um pouco e deu de
ombros antes de responder a pergunta com outra:
     -- Nesse curto perodo, em que nos conhecemos at esse
momento, tenho transmitido esses predicados para voc?
     -- Oh! No. Por isso perguntei. Estou vendo que isso 
irreal. Voc me pareceu, at agora, uma pessoa muito
comunicativa, que se expressa bem e... bastante simptica.
     Ele colocou os cotovelos sobre a mesa, entrelaou os
dedos e repousou o queixo sobre eles ainda mastigando o
alimento.
     -- Ento voc mesmo pode chegar  concluso de que
essas pessoas que falam isso dos evanglicos no tm a mnima
noo da nossa real situao frente  sociedade, e mais ainda,
no tem a mnima noo do que  ser evanglico e ter um
relacionamento com Deus.
     Tain mastigou um pouco de salada e disse:
     -- Espero que essa minha pergunta no o tenha deixado
bravo. Realmente eu...
     -- No se preocupe. J estou acostumado -- ele
desenlaou os dedos e tomou mais um gole do lquido no seu
copo. -- Alis, todos ns j estamos acostumados com as
coisas absurdas que as pessoas falam, principalmente
relacionadas a Deus. Voc sabia que agora um telogo deu pra
afirmar que o Senhor Jesus era homossexual?
     -- Pxa! No sou religiosa, mas posso dizer que isso  um
absurdo.
     -- Pois . Agora pense: se j esto falando isso do filho de
Deus imagine do que no esto falando dos servos dEle.
     Tain se compenetrou sobre o assunto. Realmente era uma
coisa a se pensar. Levou o garfo com mais salada  boca e ouviu
Felipe falar:
     -- Muito bem... me fale agora de voc. Nasceu e cresceu
onde, quem so seus pais, por que voc  to bonita...? Essas
coisas. Agora sou todo ouvidos.
     De repente Tain sentiu-se tmida. Quase engasgou e
tomou um gole de refrigerante. Respirou fundo e tentou
responder.
     -- Bem, nasci em Gramado, a cidade do festival de cinema.
Minha me e meu pai se conheceram, segundo eles prprios
disseram certa vez, em circunstncias um pouco fora do

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                     NAASOM A. SOUSA

comum, mas nunca me disseram como. Meu pai morreu
quando eu tinha dezessete anos e minha me foi uma verdadeira
leoa para suportar essa perda. Mas o baque maior foi quando ela
soube que eu viria para Porto Alegre por causa da bolsa da
universidade.
     -- Com certeza o mundo dela deve ter desmoronado,
coitada.
     -- Sim, mas eu fiz isso para poder dar algo melhor para ela
no futuro. Quero cuidar dela, sabe? E me formando, sei que
ser um passo importante para que isso se realize. Agora, com o
emprego na rdio, j posso mandar algum dinheiro para ela,
nem que seja um pouquinho.
     --  muito bom saber que se preocupa com sua me. Isso
demonstra que voc  boa pessoa.
     Tain esticou o pescoo e disse em tom sinistro:
     -- Cuidado! As coisas nem sempre so o que parecem ser.
     Ambos riram e tomaram mais refrigerante. Felipe levou a
ltima garfada com aquele manjar delicioso  boca e, depois de
mastigar, indagou:
     -- E como vai o seu programa? Tem se sado bem?
     -- To bem que estou at me surpreendo. Os telefonemas
no param, os ouvintes querem fazer oferecimentos, pedir suas
msicas prediletas... Hoje j ligaram pedindo que eu recite
tradues de msicas romnticas no ar. Est sendo muito
gratificante.
     -- E j apareceu o primeiro f?
     Ela assentiu positivamente com a cabea.
     -- Seu nome  Michel. Ele liga, fala alguma coisa bonita
pra mim e depois... Puft! Desliga na minha cara, pelo menos  o
que parece.
     Felipe riu e disse:
     -- V se acostumando. Com a voz bonita que voc tem
muitos fs podem aparecer, e nem todos podem ser normais.
     -- , eu sei disso -- ela tratou de acalm-lo. -- Mas esse
Michel parece ser bem normal e inteligente. Ele fala coisas
bonitas. Por exemplo hoje, ele falou do conhecimento, da
cincia e do amor. Disse que o conhecimento frente ao amor
no vale nada e que o sentimento dentro de ns  capaz de
matar a cincia. Achei interessante.
     -- Eu tambm. S no gostei da parte de matar. Essa
palavra no fica bem em parte alguma -- disse ele outra vez
sorrindo.

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    Aps Tain terminar seu prato Felipe pediu a conta.



     O relgio da parede da biblioteca marcava agora dez e
quarenta da noite. O professor Gilberto tinha feito algumas
anotaes e agora estava com trs volumes debaixo do brao.
Aqueles livros iriam ajud-lo a preparar sua prxima aula.
     Ele pegou um pedao de papel em cima do balco da
recepo, puxou uma caneta do bolso e escreveu um bilhete
para Silmara, a bibliotecria. Ele logo devolveria os livros.
Assinou o recado e colocou o pequeno papel em cima da
recepo.
     Um barulho subitamente chamou sua ateno para os
fundos do recinto. Algum estaria ali alm dele? Ele olhou na
direo da porta; ela estava entreaberta. Havia esquecido de
tranc-la?
     Novamente ouviu um novo movimento nos fundos da
biblioteca. Quem quer que fosse estava alm das estantes
enfileiradas, longe dos olhos do professor.
     -- Tem algum a?
     Silncio. Assustador silncio.
     Hesitante, o professor caminhou lentamente em direo s
estantes com volumes e mais volumes de livros, alguns deles
raros. O recinto estava com luz escassa, pois a nica iluminao
era cedida por algumas luminrias que ele havia acendido.
     -- Tem algum a? Responda!
     Outro movimento vindo de mais adiante. Eram passos.
Seguramente ele no estava sozinho naquela biblioteca.
     -- Droga! No gosto desse tipo de brincadeira. Saia de
onde estiver!
     Ele correu e tentou passar por todas as estantes.
Possivelmente conseguiria ver quem estava tentando assust-lo.
Entretanto, quando terminou de rodear todas as fileiras de
livros, no conseguiu enxergar nenhum ser vivente. Sua
respirao estava ofegante, seus olhos geis procuravam algum
movimento, mas tudo fora em vo.
     Ele suspirou, deu de ombros e voltou-se novamente para a
recepo. Talvez estivesse ficando maluco, pensou. Foi quando
ouviu um barulho vindo agora de cima da estante ao seu lado.
Numa frao de segundos ele levantou o olhar assustado, e s
pode notar uma pessoa pulando em sua direo. Seus

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movimentos de defesa no foram suficientes para se proteger da
fora do golpe desferido contra ele que o fez cair contra o cho.
Sua cabea bateu fortemente no piso frio da biblioteca,
tonteando-o. Por entre a vista turva tentou observar quem era
aquela pessoa e por que estava fazendo aquilo, mas a falta de
iluminao no local impossibilitou um reconhecimento. Notou
apenas que estava coberto por um capuz. Tentou gritar, mas
seu oponente, ainda sobre ele, puxou uma espcie de fio e o
enrolou em seu pescoo. A dor tornou-se insuportvel, a
respirao j lhe era retirada de forma que o fazia se debater. O
professor tentou num ltimo esforo perfilhar quem estava
tentando tirar sua vida, mas tudo comeou a escurecer e em
poucos segundos seu corpo estremeceu pela ltima vez.
     -- O sentimento dentro de cada um de ns  capaz de
sufocar toda cincia e chegar a mat-la -- falou a pessoa dando
um ltimo aperto com o fio em volta do pescoo do professor
j sem vida.




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               CAPTULO SEIS
      -- NADA DO VALDIR APARECER -- comentou Tain. -- J
estou comeando a me preocupar.
      Era dia novamente. Estavam todos reunidos no ptio da
universidade. Eram dez da manh e estranhamente Valdir no
estava l com suas brincadeiras rotineiras.
      To estava abraado com Virgnia e ambos tomavam um
copo de suco energtico. Ele sacudiu a cabea e afirmou:
      -- Passei hoje pelo quarto dele e nem sinal daquele
palhao. Procurei alguns amigos em comum, mas no souberam
me informar onde ele poderia estar.
      Camila estava com olhar fixo em alguma parte longe dali,
como em uma outra dimenso.
      -- Acho melhor esperarmos at amanh -- props ela. --
Se ele no aparecer devemos falar com o diretor Augusto ou
com o chefe da segurana.
      -- Segurana? Por que segurana? -- quis saber Virgnia.
-- Voc acha que pode ter acontecido algo de ruim com ele?
      -- Deus o livre, Virgnia -- Camila ergue a mo.
      -- Ento?
      -- Quero... Quero apenas me certificar de que as pessoas
responsveis pela segurana do campus trabalhem no sentido de
nos proteger e de averiguar qualquer sumio de quem quer que
seja, no  mesmo? Quem sabe ele avisou algum deles antes de
ter ido a algum lugar.
      -- Voc est certa, Camila -- disse Tain.
      -- Faremos isso, ento -- sentenciou To, por fim. --
Iremos  segurana amanh se Valdir no der s caras.



     Estava se sentindo estranhamente incomodada. Era como
se houvessem olhos a espreit-la furtivamente. Tain andava
pelo corredor em direo  sala de aula, carregando na mente
planos para um novo quadro para seu programa. Mas havia algo
errado. Ela parou subitamente e deu meia volta. Olhou em
redor. Dentro do seu campo de viso estavam estudantes como
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ela, andando pelo corredor, conversando, tentando sorver a
gua que era jogada pelo bebedor num canto isolado.
Aparentemente no havia nada fora do comum.
Aparentemente.
     -- Qual ... -- reclamou consigo mesma. O que Jorge
Silva estava fazendo com seus nervos? Ela abanou a cabea e
voltou-se para a direo anterior. Quase deu de encontro com
algum. Tain recobrou-se do quase choque e notou que a
pessoa era uma mulher, bonita e atraente, quase chegando 
casa dos trinta, loura, olhos tristes.
     -- Perdo... -- falou a mulher.
     -- O que  isso, eu  quem devo me desculpar. Estava
distrada e no percebi que voc se aproximava. Voc est bem?
     -- Sim.
     Tain podia notar traos de tenso na face dela.
     -- Tem certeza?
     -- Sim, mas estou procurando a sala do diretor e no
consigo encontrar.
     --  nova por aqui?
     -- Na verdade no sou estudante. Meu nome  Beatriz
Soliz, sou mulher do professor Gilberto Torres, bom, pelo
menos dividimos o mesmo teto.
     -- Entendo.
     -- Na noite anterior ele disse que viria para a biblioteca
aqui do campus fazer umas pesquisas para sua prxima aula,
mas acabou por no voltar para casa. Quero saber o que houve,
se algum sabe onde ele pode ter se metido.
     Tain Franziu o cenho e apontou para o fim do corredor.
     -- Bem, voc pode encontrar a sala seguindo para o final
do corredor. L h uma placa indicando por onde voc deve ir.
Quando se der conta j estar dando de cara com o diretor
Augusto.
      Obrigada -- Beatriz forou um sorriso. -- Foi um
prazer.



     Seus olhos estavam postos sobre ela enquanto caminhava
pelo corredor. Sua presena no podia ser notada, mas
estranhamente ela procurou pelo olhar de algum. Talvez
estivesse perto demais. Mal podia esperar o momento de t-la
em suas mos. O destino dos dois j estava traado; o propsito

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de suas vidas haveria de ser revelado. Era s uma questo de
tempo.
    Um sorriso amarelo surgiu em seus lbios.
    Tain Braga... em breve estaria com um punhal cravado
em seu corpo, pensou Michel.



     Camila estava preocupada. Seu desempenho nas provas
estava em declnio e sua ltima nota tinha sido um desastre.
Mesmo passando boa parte do seu tempo com a cara "enfiada"
nos livros, sua mente parecia no absorver as informaes
necessrias para realizar boas avaliaes. Aquilo era frustrante e
se continuasse assim sua reprovao seria inevitvel. Pensativa,
entrou no toalete e se deparou com Gisele, a aluna que desejava
se tornar jornalista, fitando a si mesma no espelho.
     -- Como vai? -- cumprimentou Camila.
     -- Bem, mas parece que estou um pouco plida, no acha?
     -- Imperceptvel. Mas se acha mesmo, no h nada que
uma maquiagem no amenize.
     As duas puxaram da bolsa estojos de maquiagem e se
retocaram.
     -- Acho que ficou melhor -- sorriu Gisele.
     -- Parece que sim -- disse Camila indo na direo do
cubculo do sanitrio.
     -- At mais ver.
     -- Tchau.
     Camila fechou a porta do cubculo e sentou no vaso.
Ouviu a porta do toalete se fechar, agora estava s ali, absorta
em seus pensamentos funestos.
     Tenho que melhorar essas notas ou serei uma perdedora!
     Ela ouviu vozes se aproximarem at que a porta do toalete
foi aberta novamente. Em silncio escutou. Eram trs vozes
femininas.
     -- Voc precisa ver o que acontece. A galera  o mximo!
-- interpelou a primeira.
     -- Disseram-me que no  boa coisa. J me disseram que
se trata de uma seita -- rebateu a segunda.
     -- Todos esto enganados -- retrucou a terceira. --Falam
do que desconhecem. No se trata de seita e sim de um grupo
ou organizao onde tudo o que queremos  a liberdade de
sentimentos.

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     --  verdade. O grupo s ir fazer voc enxergar que voc
pode fazer o que quiser, sem retaliaes ou sentimento de
culpa. Mirian, voc  livre! -- explicou a primeira.
     -- No sei, no... Ouvi que esse grupo tem alguma ligao
com o demnio.
     As outras garotas sorriram.
     -- Onde voc escutou isso?
     Mirian hesitou.
     -- De alguns rapazes...
     -- Escute, Mirian, isso  papo furado, pois sabemos que
voc tem problemas em se expressar e se aproximar de rapazes.
     A outra continuou:
     -- No grupo voc ver que esse problema ser passado.
Voc estar ligada a muitas pessoas... e logo voc estar
namorando algum especial. Podemos at te dar uma fora para
que isso acontea. Haver uma festa hoje  noite. Por que no
nos acompanha e conhece o pessoal?
     Camila, sem mover um nico msculo, ouviu uma pequena
risada da garota que antes se encontrava relutante.
     -- Bem... Est bem, irei com vocs. Vamos ver se tudo
isso que vocs dizem  verdade.
     A conversa acabou e as trs saram sem terem notado que
haviam sido ouvidas todo o tempo.
     -- Grupo? Demnio? Rapazes? -- repetiu Camila
levantando do vaso. -- Por quem essa universidade est sendo
freqentada, afinal?



     -- Parecia conversa de gente maluca -- assegurou Camila.
Estava no quarto, sentada sobre a cama com um livro na mo e
outros dois sobre as pernas. No momento olhava para Tain,
que se mantinha atenta ao relato ao mesmo tempo em que
selecionava alguns CD's.
     -- Como assim? Que conversa era essa?
     -- Um papo sobre organizao, demnio, rapazes, festa...
     -- Tirando "demnio" dessa lista no fica assim to
estranho.
     -- Diz isso porque no era voc quem estava l. Precisava
ter ouvido o modo como as duas falavam. Era como uma
persuaso de conquista.
     -- Aliciamento?

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     -- Pode ser. Havia algo de excitante em seu tom de voz.
     As duas pensaram por um momento, at que Tain pausou
sua atividade.
     -- Engraado. Voc ouviu vozes excitantes e eu ouvi uma
voz apreensiva.
     -- Quem?
     -- A mulher do professor Gilberto.
     -- No sabia que ele tinha mulher, do jeito que ele olha
pra voc...
     -- Pra com isso! Ela parecia muito preocupada. Contou
que ele no voltou para casa na noite passada.
     -- Pode ser uma amante -- disparou Camila.
     -- No acho que o professor seja desse tipo.
     Camila fechou o livro e fitou a amiga.
     -- Os homens so todos iguais, voc no sabia disso?
     -- No, no sabia. O que sei  que agora temos duas
pessoas que conhecemos que esto desaparecidas.
     -- No seria muito cedo para fazer uma ligao entre os
dois? Oficialmente nenhum deles foi dado como desaparecido.
     Repentinamente a lembrana de uma voz feminina no
telefone surgiu na mente de Tain:
     -- Eles esto por toda parte. Ocupam mais espao a cada dia
dentro do campus... Eles... eles so parte de uma organizao que
adoram ao demnio...
     A lembrana foi cortada por uma indagao de Camila:
     -- Conte-me mais sobre ontem, quando se encontrou com
aquele rapaz... Felipe, no  esse o nome dele?
     O sorriso de Tain se abriu como num passe de mgica.
     -- , sim. Ele se mostrou ser uma pessoa bem
interessante.
     -- Pena que  crente.
     -- Crente ou no ele  uma gracinha.




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               CAPTULO SETE
      A MENTE DE TAIN ESTAVA PRESA ENTRE quatro
pensamentos: os sumios de Valdir e do professor Gilberto; o
relato de Camila sobre o que escutara no toalete feminino; o
estranho telefonema que recebera durante o programa anterior;
o momento prazeroso ao lado de Felipe Nascimento. Ainda
tinha que se concentrar no programa que faria dentro de
minutos.
      Ela caminhava pela grama do campus, em direo ao
estdio, as idias para aumentar ainda mais a audincia
fervilhando na cabea. Foi quando uma mo tocou-lhe nas
costas. Um arrepio repentino percorreu-lhe o corpo antes que
ela viesse a se virar.
      Tyson sorriu e ergueu as mos.
      -- Desculpe, no queria assust-la.
      -- Tudo bem.
      -- Acho que est indo para a rdio, acertei?
      -- Sim, voc est certo.
      -- Como anda o programa?
      -- Muito bem...
      Tyson levou as mos ao rosto e a interrompeu.
      -- Que pergunta idiota! Eu sei que est maravilhoso, pois
venho ouvindo todo dia. Certamente est com uma audincia
fantstica. Queria te ver trabalhando algum dia no estdio. Ser
que isso  possvel?
      -- Claro! Quando quiser.
      -- Infelizmente no poderei acompanh-la hoje, mas
gostaria amanh -- antes que Tain falasse qualquer coisa ele
completou: -- Seria o mximo ficar do seu lado durante um
programa inteiro.
      Tain sentiu que suas faces avermelhavam. Tentou
disfarar.
      -- Camila ir me ajudar hoje. Amanh ser um prazer t-lo
no estdio.
      Tyson olhou o relgio.
      -- Bom... Ser timo, com certeza. Tenho que estudar
agora. At amanh, ento.
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                     NAASOM A. SOUSA

     Ele se aproximou dela o suficiente para lhe roubar um
beijo no rosto.
     Tain permaneceu a fit-lo se distanciando.
     -- Vamos ver o que o resto da noite tem reservado para
mim.



     Quando Tain empurrou a porta do estdio a primeira
coisa que viu foi os olhos brilhantes e o sorriso largo de Camila
vindo em sua direo. Pelo jeito ela tinha chegado mais cedo
para ver algum, pensou Tain.
     -- Humm... ele  uma gracinha mesmo -- comentou
Camila cutucando a amiga.
     -- Do que voc est falando? -- Tain riu.
     -- Voc sabe. Eu o vi, est fazendo o programa agora.
     -- Est falando de Felipe? -- Tain percebeu que estava
falando alto demais. Levou a mo para tampar a boca.
     -- Do que esto falando? -- surgiu no ar a voz masculina.
     Tain quase caiu para trs. No tinha notado que Felipe
sara do estdio enquanto falavam.
     Tain gaguejou:
     -- E-Estvamos comentando o b-bom locutor que voc .
Seu programa realmente  super-legal... Super-legal...
Ahmm... Hoje trouxe uma amiga. Queria lhe apresentar. --
Apontou para Camila. -- Essa  Camila Corra.
     Felipe apertou a mo de Camila.
     --  um prazer conhec-la. Felipe Nascimento.
     -- Sei quem voc . Tain no cessa de fazer rasgados
elogios a voc.
     Felipe fitou Tain que corou pela segunda vez naquela
noite. Ela sorriu desconsertada.
     -- Apenas comentei que me senti muito bem na noite
passada. Voc foi um perfeito cavalheiro.
     -- Foi um prazer.
     -- Quem sabe no venham a sair novamente, no ? --
Camila deixou escapar.
     Tain abriu um sorriso amarelo e deu um toque brusco
com o cotovelo na amiga.
     Felipe fez de conta que no tinha visto.
     -- Seu programa est para comear. No querem entrar?


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      Ele abriu a porta e deu passagem para as duas. Tain notou
que ele estava s naquele dia fazendo o programa. Observou-o
recolher seu material.
      -- Fez o programa sozinho hoje?
      -- Sim, mas isso no me incomoda. Algumas vezes a turma
precisa realizar outros trabalhos de evangelizao.
      Tain se arrumou na cadeira, ps os fones e conferiu a
ordem das vinhetas que viriam a seguir. Abriu a pasta do seu
programa no computador e preparou rapidamente as primeiras
canes do seu repertrio.
      Aps guardar o material na maleta e fech-la, Felipe
indagou:
      -- Escutem... vocs ouviram falar do sumio do professor
Gilberto?
      -- Voc o conhece? -- perguntou Camila.
      -- Quem no o conhece? Estudei com ele h algum tempo
atrs.  um timo profissional, apesar de novo.
      -- Realmente -- concordou Tain ainda programando as
msicas. -- Voc soube de mais alguma notcia?
      -- Sim, esto comentando que, a mando do diretor, um
investigador particular ir fazer umas averiguaes amanh para
saber o que houve. Parece-me que a esposa do professor
pressionou para que isso fosse feito o mais rpido possvel. O
diretor, por sua vez, acha que ele deve ter fugido com alguma
aluna, mas h quem diga que ele no faria isso.
      -- Ele admirava algumas moas -- disse Camila olhando
para Tain, -- quem sabe ele se cansou de apenas admirar e
resolveu agir.
      -- Eu estou com aqueles que crem que o professor no
faria tal coisa -- Tain disse.
      -- Ouvi dizer que o investigador  um dos melhores da
cidade e que o intuito  o de tentar manter a reputao da
instituio intacta.
      -- E conhecendo o diretor Augusto Pires como
conhecemos -- disse Camila, -- sabemos que far de tudo para
que isso seja provado... de um jeito ou de outro.
      Tain olhou para os dois.
      -- J que esse investigador vir amanh, poderemos
contar-lhe tambm sobre o desaparecimento do Valdir, caso ele
no aparea.
      -- Esse amigo de vocs desapareceu tambm?
      -- Sim -- respondeu Camila.

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     -- Isso est comeando a ficar interessante -- comentou
Felipe.
     -- Tomara que no passe disso: algo interessante. Estou
com um mau pressentimento -- Tain confessou.
     -- Como assim? -- quis ele saber.
     -- No  nada -- disse ela disfarando. -- apenas temo
pelo pior.
     -- Vamos torcer para que no seja nada -- disse Camila.
     -- Vou orar por isso esta noite -- completou Felipe e
acenou para as duas antes de sair. -- Tchau, meninas.
     As duas se entreolharam e deram de ombros. Aquele
negcio de orar no fazia muito a cabea delas.



     O programa daquela noite transcorreu com toda
tranqilidade. Tain torceu para que a dona daquela voz
feminina no ligasse. Ainda se lembrava do calafrio que sentira
ao ouvir o que ela falara. Aquele telefonema e ainda os
desaparecimentos de Valdir e do professor Gilberto faziam-na
pensar se aquilo no haveria alguma ligao. Ela tentou
esquecer aquele assunto.
     Ela tambm esperou pelo telefonema de Michel, o
admirador, mas esse tambm no ligou naquela noite.




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                  Escrevendo...
     No levou muito tempo at eu descobrisse que havia uma
pessoa que liderava o grupo. Um dia me levaram para conhec-la
numa das badaladas festas que aconteceram na universidade. Ela
tambm era uma pessoa simptica e confiante, que transmitia uma
imagem imponente.
     Numa conversa particular essa pessoa me fez crer que existia
uma fora maior no mundo que me via como algum importante e
com imenso potencial, que podia realizar meus maiores desejos
nesse mundo e me proporcionar prazeres sem limites.
     Aquilo me impressionou e atraiu minha curiosidade.
Interessou-me saber quem era essa fora maior no mundo. Pedi
para que me explicasse melhor.
     Explicou-me ento que essa fora h muito tempo vivia entre
ns e que no era bem visto por muitos, mas que isso estava
mudando ao longo dos anos. Era uma fora poderosa emanada
por algum poderoso que agia no mundo. Foi a que ouvi o nome
do anjo cado. Chamavam-no de "O Rebelde".
     A pessoa me apresentou "O Rebelde" como uma vtima de
um Deus possessivo e egosta. Como um ser bom, transformado
erroneamente numa figura bizarra e ameaadora. Foi-me dito que
todos os adjetivos repulsivos postos no anjo cado no denotavam
o que realmente ele era. Perguntou-me se algum to malvolo
seria capaz de proporcionar tantas coisas boas a algum. Eu
respondi que no.
     Disse-me que soubera do meu desejo de ficar invisvel
quando eu quisesse. Jurou-me que aquilo realmente era possvel, e
muito mais, se eu quisesse.
     Eu nunca fui crente de que Deus realmente existisse, muito
menos no demnio. Se ele era realmente mal ou bom eu no tinha
conhecimento. Mas se podia realizar meus mais profundos
desejos... Por que no?
     Com meus lbios eu disse que queria.




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               CAPTULO OITO
     ERA EXATAMENTE OITO E MEIA da manh quando o
telefone tocou no quarto. Foi Camila quem atendeu.
     -- Al?
     -- Oi, Camila. Quem fala  a me de Tain, Ana.
     -- Dona Ana, tudo bem?
     -- Tudo, querida -- a voz de Ana era doce como sempre,
mas algo denunciava certo desconforto. -- Por favor, poderia
passar pra minha filha?
     -- Um momento, dona Ana, j vou passar para ela.
     -- Obrigada, querida. Foi um prazer ouvir sua voz.
     Camila passou o fone para Tain. Esta ficou felicssima ao
ouvir a voz de sua me. Ana era uma mulher extraordinria, na
casa dos quarenta, mas com a fora de uma jovem. Tinha um
jeito todo meigo e era apaixonada pelas pessoas ao seu redor.
Apesar das situaes adversas sempre tentava passar para Tain
algo bom.
     -- Oi, me, estou morrendo de saudades.
     -- Eu tambm, minha filha, voc no pode medir o
quanto. Voc est bem?
     -- Estou, me. J disse para no se preocupar.
     -- Sou sua me, Tain. Jamais vou deixar de me preocupar
com voc. -- Ela suspirou e esperou alguns segundos para
declarar: -- Tive um novo pesadelo com voc na noite passada.
Sabe que no gosto quando isso acontece. Isso aperta meu
corao.
     -- No se preocupe, me. Est tudo bem comigo. Fique
calma, ok? Quantas vezes j disse  senhora que esses pesadelos
so frutos de sua mente preocupada? E so coisas muitas vezes
at sem importncia.
     -- Voc no  uma coisa sem importncia para mim, filha.
     -- Eu sei, dona Ana Braga, mas s quero que isso no
venha encher sua cabea de caraminholas e faz-la ficar em
pnico por nada.
     -- Espero que realmente seja somente caraminholas, filha,
mas quero que tenha cuidado mesmo assim. Prometa isso para
mim.
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     -- Est bem, me. Eu prometo.
     -- Eu te amo, filha.
     -- Tambm te amo, me.
     Ana desligou. Tain tinha quase certeza de ter ouvido sua
me choramingar antes da linha ficar muda. Na verdade era
Tain quem estava preocupada com Ana, pois sabia que ela se
sentia solitria e agora com pensamentos nada tranqilizadores
importunando-lhe a mente. Ela suspirou por fim e torceu para
que sua me ficasse bem e no tivesse mais nenhum pesadelo.



     Ana Braga permaneceu olhando fixamente para o fone. O
desejo que sentia era o de ligar novamente para a filha e dizer
mais uma vez o quanto a amava. Seu corao estava apertado.
Algo lhe dizia que Tain no estava bem ou que algo nada bom
estava prestes a acontecer. Algo terrvel. Ela enxugou as
lgrimas que desceram pelo seu rosto e trouxe as mos fechadas
para junto do peito. Fechou os olhos e suplicou:
     -- Por favor, meu Deus, cuida da minha filha. Livre-a de
todo mal. Amm.



     Uma das secretrias da universidade entrara na sala do
diretor e anunciara o investigador Robson Saldanha.
     -- Mande-o entrar, Amanda -- pedira Augusto Pires.
     Agora o investigador estava em p diante do diretor e ao
seu lado se encontrava um jovem rapaz com cara de CDF, com
culos de armao fina.
     Augusto se aproximou de Robson Saldanha e apertou-lhe a
mo.
     --  um prazer, investigador.
     -- O prazer  meu, diretor. Quero que conhea meu
Assistente -- indicou o rapaz. -- Seu nome  Manoel
Cristovan, uma das mentes mais brilhantes que j conheci e que
o senhor tambm j conheceu.
     O diretor duvidou muito daquilo, mas sorriu
amigavelmente. Voltou para trs de sua escrivaninha e afundou
na confortvel poltrona.
     -- Sabe porque lhe chamei aqui, investigador?


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     -- Informaram-me apenas que h rumores de um
desaparecimento.
     -- No  um rumor e sim uma desconfiana... digamos...
leviana da esposa de um professor da instituio que fora visto
pela ltima vez nas dependncias da universidade.  somente
pela insistncia dela que o solicitamos para essa averiguao, e
serve tambm para assegurar a ela que no temos nenhuma
responsabilidade nessa desapario.
     -- Entendo -- disse Saldanha.
     -- O que quero  que voc faa algumas perguntas, sonde
os ltimos passos do professor, apure se ele tinha alguma
namoradinha com quem possa ter viajado sem aviso prvio, esse
tipo de coisa que sei que lhe  rotineiro.
     -- Vamos fazer o possvel para que esse sumio possa ser
esclarecido -- assegurou o investigador com confiana.
     --  bom que seja assim mesmo. Um rumor desse se
espalhando pelo campus  o que menos queremos no momento
e isso desgastaria a reputao da Belinne. -- o diretor fez uma
pausa para que os dois homens  sua frente absorvessem suas
palavras. -- Eu odiaria pensar que algum viesse a especular que
algo desastroso pudesse ter acontecido com ele aqui dentro do
campus. Um assalto, um seqestro ou at mesmo... -- o diretor
hesitou em continuar.
     -- No se preocupe. O caso logo ser elucidado e a
imagem da universidade continuar intacta.
     -- Confio em voc e em sua fama. Sei que logo estar
novamente aqui com um relatrio final, ainda mais que acredito
piamente que ele fugiu com alguma das vrias alunas que
tinham uma forte queda por ele. Voc pode tomar isso como
partida da investigao.
     Manoel Cristovan anotou aquilo. Saldanha disse:
     -- Pode ser um bom comeo, mas  bom que esteja
preparado para outras hipteses.
     Augusto Pires no pareceu receptivo aquelas palavras.
     -- Se for o caso... Creio que com sua astcia saber levar
tudo isso com bastante descrio.
     -- Pode ficar tranqilo, senhor, seremos bem discretos.



    Era o que ela queria que no acontecesse. Ao entrar na sala
de aula, o primeiro com quem se deparou foi com Jorge Silva.

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Ele a encarou, e sem dizer uma nica palavra apontou os dois
polegares para baixo. Ela sabia o que significava. Era uma
meno quanto ao seu programa.
     -- Por que voc no me deixa em paz? -- pediu ela.
     -- Voc se meteu com o cara errado, garota -- murmurou
Jorge. Ele deu as costas para ela e foi se sentar na ltima fileira
de cadeiras, como de costume.
     Tain suspirou com um n na garganta. Por acaso tenho
alguma culpa? Indagou para si mesma. Sentiu quando Tyson se
aproximou.
     -- Como voc est?
     Ela continuava olhando para Jorge Silva pelo canto.
     Estou amedrontada.
     Respondeu:
     -- Estou bem.
     -- Que bom, no gostaria de v-la triste ou que algo
estivesse errado.
     -- Obrigada.
     Ela sorriu.
     -- Que bom que est sorrindo.
     -- Estou apenas lembrando que voc  a segunda pessoa
hoje que me pergunta se estou bem.
     -- Verdade? Quem foi a outra pessoa?
     -- Minha me.
     -- Pelo menos tem algum que se preocupa com voc.
Meu pai, hoje quando me visitou, nem olhou na minha cara ao
menos para dizer que eu estou mais plido do que de costume.
Preocupou-se apenas em me dar mais dinheiro. Isso  pattico,
no acha?
     -- Sinto muito por voc.
     Camila entrou na sala eufrica e chamou a ateno de
Tain e Tyson.
     -- No sabem quem eu vi saindo da sala do diretor.
     -- Quem? -- Tyson quis saber.
     -- O investigador.
     -- Ele j est aqui? J chegou? -- Tain estava curiosa.
     -- Sim, pelo jeito j deve ter comeado uma investigao
sobre o sumio do professor Gilberto.
     -- Vocs acham que pode ter acontecido algo ruim com
ele ou simplesmente ele estava cheio de tudo isso e se mandou?
-- indagou Tyson querendo a opinio delas.
     Camila deu de ombros.

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     -- Acho que ele se mandou...
     -- Se mandando ou no ele simplesmente desapareceu,
assim como Valdir -- completou Tain. -- E acho que essa
informao tem que chegar aos ouvidos do investigador.




     Tain sondou o investigador Saldanha por alguns
segundos. Ele parecia estar chegando na casa dos cinqenta,
cabelos levemente grisalhos, mas ainda transpirava sade e boa
forma. Parecia um pouco largado, deixando a barba por fazer e
usando roupas que pareciam um pouco amassadas. Ele seria
bom realmente no que fazia? Perguntou-se. Mas para ser
contratado pelo diretor Pires tinha que ser um dos melhores.
     Saldanha estava dizendo:
     -- Ento esto falando que um amigo vocs tambm
evaporou no ar.
     A turma inteira estava diante dele. Camila, Tain, To,
Virgnia e Tyson.
     -- Sim, o nome dele  Valdir Teixeira e estuda junto
conosco aqui na universidade -- informou Camila.
     -- J faz algum tempo que ele sumiu -- contou To.
     -- Mais de dois dias e  muito estranho -- foi a vez de
Virgnia falar. -- Tudo que ele fazia ou deixava de fazer ele
contava para ns.
     -- Resolvemos lhe contar sobre isso, pois estamos
preocupados. E se vocs esto aqui  porque algo de errado
pode estar acontecendo.
     Saldanha olhou para Manoel Cristovan e meneou a cabea.
     -- No exatamente, moa. Tratando-se do professor
Gilberto... estamos aqui apenas para acalmar a situao e
afastar qualquer especulao de crime. Nos foi informado que
ele pode ter se envolvido com alguma aluna. Estamos partindo a
partir desse princpio. Em todo caso iremos averiguar o que
aconteceu com seu amigo tambm.
     -- Essa informao no deixa de ser importante -- disse
Manoel Cristovan, enfim. -- se isso procede, j sero duas
pessoas desaparecidas.
     -- Sim, mas por enquanto no houve nenhum crime --
anuiu Saldanha --, por isso a polcia no foi acionada.


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     -- Sabemos disso -- To disse. -- No demos queixa
antes porque tem que se constatar que a pessoa est
desaparecida a pelo menos quarenta e oito horas, no ?
     Manoel puxou seu bloquinho de anotaes e uma caneta.
     -- No necessariamente, mas em todo caso no se pode
soar o alerta sem esperar um pouco. Mas digam-me: esse seu
amigo tem famlia? J tentaram entrar em contato com
conhecidos para ver se no est na casa de algum deles?
     -- Valdir nunca saia do campus, investigador. Os pais dele
moram do outro lado do pas, pelo que sei, e ele no tinha
nenhum plano de dar uma "escapadinha" -- disse Tain
fazendo aspas com os dedos.
     -- E celular? Valdir tem celular? -- Manoel parou sua
anotao e olhou para todos.
     -- Tem, mas por mais que liguemos para ele... no atende.
     -- Estranho... Em todo caso, quero o telefone dos pais e
amigos dele, vou entrar em contato com eles e depois veremos
o que vem a seguir.
     -- Vamos ao meu quarto -- disse To. -- Tenho os
telefones dos pais dele e de alguns de nossos amigos.



     A turma decidira se reunir outra uma vez aps a ltima
aula do dia. Estavam sentados em bancos de concreto numa das
praas do campus.
     -- O que acharam dele? -- indagou Tain.
     -- Dele quem? -- disse Camila.
     -- Do investigador Saldanha.
     -- Ele no me pareceu ser uma pessoa que se importe com
reputao. -- comentou Tyson. Todos olharam para ele
querendo saber o porqu da observao. Ele emendou: --
Viram as roupas dele? Pareciam retiradas de garrafas!
     Todos os outros trocaram olhares em averso ao
comentrio. Tain suspirou.
     -- Reputao e competncia nem sempre se tiram de uma
presena pomposa e imponente de uma pessoa, Tyson, mas sim
do bom trabalho que ela consegue exercer.
     Entre um beijo e outro em To, Virgnia disse:
     -- Eu achei que ele carrega traos de algum bem
experiente.


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     -- Ser que ele j resolveu algum caso importante? --
Especulou Camila.
     -- Para o diretor mandar cham-lo... ele deve ser bom --
deduziu To.
     Tain olhou para o infinito e pensou no amigo
desaparecido.
     -- Bom ou no s espero que ele descubra onde Valdir
est ou o que aconteceu com ele.
     -- Meu Deus! Nada aconteceu com ele. -- Camila tentou
assegurar. -- Vamos parar de imaginar coisas negativas, est
bem? Vamos pensar que ele estava cheio das aulas e resolveu
dar um tempinho alm das paredes da universidade.
     Tain balanou a cabea convicta de que Valdir no faria
aquilo.
     -- Ora, vamos! Sabemos que o Valdir  louco para se
formar mais do que qualquer um de ns ou qualquer um dentro
nesta universidade. Ele  metido a palhao, mas por outro lado
 responsvel. Certamente ele nos avisaria se tivesse tido
alguma idia mirabolante ou sei l o qu.
     -- Ento... o que ter acontecido para ele ter sumido
assim de uma hora para a outra? -- perguntou Tyson.
     -- No sei -- falou Tain, -- mas o que posso dizer  que
vou fazer o possvel para ajudar aqueles investigadores.




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               CAPTULO NOVE
     A BIBLIOTECA J ESTAVA PRATICAMENTE deserta. Eram
cinco e meia da tarde e os poucos leitores que restavam no
recinto comearam a se retirar logo aps a chegada do
investigador Saldanha e de seu assistente. Eles cumprimentaram
a bibliotecria e ento ela os saudou:
     -- Ol, j estou terminando o expediente e me retirando
tambm, mas podem ficar  vontade. O diretor me deu ordens
expressas para deixar que vocs vasculhem o que quiserem.
     -- Obrigado, senhorita... -- Saldanha procurou algum
crach pela blusa dela.
     -- Rebeca. Rebeca Montes. Acabei esquecendo o crach
em meu apartamento...
     -- No h problema algum, srta. Rebeca. Acho que
ficaremos bem, obrigado mais uma vez.
     Ela sorriu e saiu por ltimo, deixando os dois homens a
ss no grande salo repleto de prateleiras abarrotadas de livros.
     -- Acha que poderemos encontrar algo aqui? --
perguntou Manoel Cristovan, o assistente.
     -- Pelo que sabemos, este foi o ltimo lugar onde o
professor Gilberto foi visto. O vigilante jura que viu quando ele
entrou aqui. Pode ser que encontremos alguma resposta.
     -- Vamos dar uma olhada, ento.
     Eles comearam uma caminhada por toda a biblioteca. Era
um imenso salo dividido em trs espaos: a recepo,
localizada na entrada; as inmeras estantes entupidas de livros
que tomavam quase que completamente todo o espao do
recinto, ao centro; e as mesas de leitura, que ficavam nos
fundos. Os dois homens olharam estante por estante. Elas
estavam separadas por reas acadmicas: Administrao...
Advocacia... Comunicao social... Literatura... Medicina...
Sociologia... e todos os demais cursos que a instituio
oferecia. Aparentemente no havia nada de anormal, at que ao
olhar mais atentamente para uma das estantes, Saldanha parou e
comentou:
     -- J reparou que os livros esto cuidadosamente
organizados por ordem alfabtica?
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     -- Sim. Tenho um amigo que estudou aqui e ele me
contou esse detalhe.
     -- Interessante -- reservou-se a dizer o investigador.
Seguiu a ordem dos livros at que seus olhos se depararam com
algo. Indagou a Manoel: -- Sabe de algo mais sobre como  a
rotina de organizao desses livros?
     -- Todos os dias antes de fechar a biblioteca, eles
reorganizam todo o acervo, e os livros que entregam de ltima
hora permanece sobre o balco at o outro dia, quando so
devolvidos s estantes na ordem adequada.
     -- Ento isto no deveria estar assim -- ele esticou o brao
e apontou para um livro entre tantos outros na estante. O
assistente se aproximou e observou atentamente. Os livros
eram organizados pelos nomes dos autores. Todos os
importantes escritores que comeavam com a letra "J" estavam
rigorosamente distribudos alfabeticamente pela letra a seguir.
Entretanto havia ali um autor que comeava pela letra "D". --
Apenas este livro no est na ordem. Quem cuida da
organizao no trabalhou direito hoje ou chegamos muito
cedo e acabamos por no deixar que a responsvel no
trabalhasse.
     Cristovan leu o letreiro da capa:
     -- Digenes Coelho... "Sorrindo na Escurido Mgica".
     Saldanha puxou o livro e folheou-o rapidamente. Havia
algo dentro dele. Era um papel vermelho, na verdade um
panfleto. O investigador fez uma rpida leitura mental.
     -- Isso  um convite.
     -- Um convite? Para qu?
     -- Para uma viagem... ao inferno.



     -- Posso afirmar com convico que este livro no faz
parte do acervo da biblioteca da Belinne -- o diretor Pires falou
conciso folheando a obra de Digenes Coelho.
     -- Ento como poderia estar entre o acervo? -- Saldanha
fitava-o com curiosidade.
     Robson Saldanha e Manoel Cristovan estavam na diretoria,
ambos sentados frente  mesa bem organizada do diretor onde
agora repousava o panfleto vermelho.
     -- Qualquer aluno poderia ter colocado l. Mas sei que
no est l a mais de quinze dias.  quando fazemos a

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                     NAASOM A. SOUSA

catalogao de todas as obras. -- Pires fechou o livro e fitou
Saldanha. -- Sei que a pergunta  ftil, mas acha que isso tem
alguma coisa a ver com o suposto sumio do professor?
      -- No, ainda no posso afirmar tal coisa. Mas isso era a
nica coisa que no se encaixava no lugar. Devemos no
momento apenas nos reservar  hiptese de que esse panfleto
pode revelar algo no futuro.
      Manoel Cristovan, atento  resposta do seu tutor, atreveu-
se a inquirir:
      -- Diretor, o senhor j soube alguma coisa a respeito sobre
haver no campus grupos satanistas.
      -- Ora, meu jovem, isso no est na minha alada... aqui
no campus temos budistas, evanglicos, catlicos, espritas e,
certamente, deve haver algum maluco que cultue o demnio
tambm.
      Robson Saldanha pegou o panfleto vermelho, que havia
sido impresso em letras garrafais e trazia um layout festivo, e
leu-o em voz alta:
      -- "Convite ao xtase! Grande encontro! Venha conhecer
a verdade que todos no sabem. xtase dos corpos. Viagem ao
inferno - Satanismo ao vivo." -- Saldanha colocou o panfleto de
volta  mesa e apontou para ele. -- Com certeza deve haver um
grupo ou grupos satanistas aqui nesta universidade. E esse
panfleto significa que esto tentando recrutar pessoas para se
juntarem a eles.
      -- Como pode ter certeza disso? O panfleto pode ter
vindo de fora do campus. Algum deve t-lo deixado no livro
acidentalmente...
      -- Pode ser que sim, mas acho pouco provvel. Em todo
caso, gostaria de ficar com o livro e fazer algumas perguntas
com ele em punho... Quem sabe at l-lo.
      -- Fique a vontade, mas me responda: -- o diretor hesitou
antes de perguntar: -- Digamos que se esse grupo exista...
Acha que isso pode causar problemas?
      -- Qual a pessoa que adora o mal pode ser algum bom ou
ter atitudes nobres?
      O diretor j sabia a resposta.



     -- Escute, pesquisei sobre o investigador Robson Saldanha
na internet, e nem imagina o que descobri.

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                     NAASOM A. SOUSA

     Tain atentou-se para Camila enquanto caminhavam em
um dos corredores do prdio de dormitrios femininos. Ela
sabia que Camila era quase um hacker e que qualquer coisa que
quisesse descobrir na grande rede conseguia em poucos
minutos. Curiosa perguntou:
     -- O que descobriu sobre ele?
     --  realmente bom no que faz. J resolveu mais de uma
dzia de casos importantes, mas sua especialidade  de fato com
desaparecimentos. Seu ltimo trabalho foi solucionar o
desaparecimento de uma filha do gerente de uma multinacional
aqui da cidade. No passou duas semanas at Saldanha
descobrir que a criana tinha sido seqestrada e levada para ser
adotada no exterior. Com os recursos disponibilizados pelo pai,
no demorou muito para traz-la de volta.
     -- Ento  bom que ele esteja aqui, no ?
     Tain olhou para o relgio. Era chegada a hora de ir para a
rdio.
     -- Tenho que ir agora, amiga. Mantenham-me informada
de qualquer coisa a mais que descobrir.



     O caminho estava solitrio at o estdio. O silncio
incomodava e chegava at a assustar. Ele levava nas mos alguns
CD's pr-selecionados para o programa daquela noite.
Subitamente sentiu um vento bater contra suas costas e cabelos,
fazendo-os esvoaar contra o rosto. Seu corpo se arrepiou.
Voltou-se rapidamente para trs. Era como se algum tivesse
soprado fortemente, ou estranhamente passado por ela. Ser
que tinha ouvido um pequeno barulho? Uma presena?
Vasculhou com os olhos. Nada estava ali; ningum a seguia.
Talvez aquela noite seria bem fria. Suspirou e voltou-se
novamente para frente.
     SUSTO! Ela deu de encontro com um corpo forte.
     -- Oh, Deus! -- gritou ela instantaneamente, deixando os
CD's carem.
     -- Calma, sou eu!
     Tain se recomps do susto e viu que Tyson sorria para ela
e tentava acalm-la.
     -- Tyson o que deu em voc? Quer me matar de pavor?



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     -- Desculpe -- disse ele ainda com um bonito sorriso no
rosto, -- mas lembra que combinamos que hoje eu iria v-la
operando a rdio?
     -- Ah, sim...  verdade.
     -- Ento... posso acompanh-la? Prometo que tentarei
no atrapalhar e, se quiser, posso at ajudar.
     Ela juntou os ltimos CD's e olhou atentamente par ele.
     -- Claro, vamos.



     -- Podemos averiguar o nome de quem pegou o livro por
ltimo. Talvez encontremos algumas respostas, mas isso se o
diretor estiver errado quanto ao livro no pertencer de fato ao
acervo da biblioteca -- opinou Manoel Cristovan.
     Ele estava sentado numa poltrona no quarto reservado
para o investigador Saldanha e ele. Robson caminhava, como
sempre, de um lado para o outro. Tinha o livro nas mos,
tentando ler rapidamente o contedo de algumas pginas, mas
sempre com o dedo indicador marcando a pgina que guardava
o panfleto. Deu uma parada, olhou para o teto e suspirou
demoradamente. Estava pensativo e seu olhar denotava
presena e ausncia ao mesmo tempo.
     -- O que est pensando? -- indagou Manoel.
     -- O autor... Digenes Coelho. Acho que o conheo. --
tentou puxar algo na lembrana. -- Ele no  aquele
considerado "o mago das letras"?
     Manoel Cristovan levantou as sobrancelhas, mostrando
que tambm havia informaes sobre Digenes guardadas em
sua mente, mas ento acenou negativamente com a cabea e
corrigiu:
     -- Era, no  mais. Lembrei que ele morreu h alguns anos.
     -- Oh... Isso eu no sabia.
     -- Digenes Coelho  um pseudnimo -- esclareceu
Manoel --, ningum sabe qual era o nome verdadeiro dele ou
quem realmente era. S se sabe que morreu em circunstancias
desconhecidas.
     -- Desconhecidas?
     -- Sim.
     -- Ento temos mais um mistrio nas mos: Quem
poderia ser na verdade Digenes Coelho?


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                     NAASOM A. SOUSA




     Os olhos de Tyson se arregalaram de fascnio. Observava
atentamente Tain operar os equipamentos de udio e se
impressionou com a prtica que ela tinha de pr tudo em
ordem cada detalhe da programao.
     -- Caramba, que estdio legal, Tain! Vim aqui h muito
tempo atrs e no sabia que estava to... bacana.
     -- Toda vez que entro aqui me emociono -- confidenciou
ela.
     Tyson permaneceu ao lado de Tain durante todo o
programa. Os dois conversaram e trocaram idias. Ele passou
ento a atender os telefonemas a pedido dela.
     -- Claro, ser um prazer! -- ele disse.
     Quando Tyson atendeu o primeiro telefonema, o celular
de Tain tocou no mesmo instante. O nmero de Virgnia
apareceu no display.
     -- Oi, Virgnia! O que voc manda?
     -- Quero uma msica bem bonita. To est com um
walkman e ns estamos escutando o programa. Oferece uma
bem romntica para ns dois, ok?
     -- Aqui voc manda, minha amiga. Fica na escuta, certo?
Tchau.
     Ela olhou para Tyson. Ele j estava com uma caneta na
mo e com o fone no ouvido atendendo um pedido. Parecia
feliz com a funo. Tain pensou como Tyson devia se sentir
sozinho, ainda que fosse bajulado por muitas pessoas na
universidade por causa do seu dinheiro, pois no recebia amor
paterno nem fraterno. Ele estaria tentando algo com ela para
compensar esse amor? Ele atendeu mais alguns telefonemas e
oferecimentos. Estava se esforando para ser educado e
tentando afastar a imagem do rico boal que menosprezava a
todos ao seu redor.
     Tyson de repente olhou para ela e apontou para o fone.
     -- Tem um tal Michel na linha querendo falar com voc.
     -- Diga para esperar um minuto.
     Tain colocou mais uma msica e foi atender. Tyson
passou o fone para ela.
     -- Al?
     -- No me interrompa, por favor. Escute at o fim o que vou
lhe dizer, pois vou falar de uma s vez...
     Ela notou sua voz um pouco rouca.

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     -- Oua, Michel...
     Michel continuou sem se deixar deter:
     -- No h nada que se compare com sua beleza. Seu rosto 
singelo e meigo, seus traos so como de uma rosa, onde os
espinhos no so notados, mas sim as ptalas prpuras que exalam
um perfume adocicado e faz relaxar. Entretanto, se a arrancarmos
do cho, o corao pra e ela sufoca. No espere que os namorados
se amem para sempre. Mas que seja assim... enquanto dure.
Espero que tenha gostado. Fiz especialmente para voc.
     -- Como sempre, seus poemas so bonitos, mas me
deixam um tanto quanto arrepiada.
     No houve mais nenhum rudo do outro lado.
     -- Michel?...
     A linha j estava muda. Seu admirador j no a estava
escutando.
     Tyson notou o semblante de Tain e indagou:
     -- Tudo bem, Tain?
     -- Ah... Tudo.
     -- Tem certeza?
     -- Sim.
     Tyson ergueu o sobrolho e depois voltou a atender o
prximo telefonema.
     A curiosidade num instante subjugou Tain. Quem
poderia ser Michel? Por que sempre telefonava e logo em
seguida desligava no dando tempo para indagaes? Os
pensamentos dela fluam quando de repente viu a cano chegar
ao fim. Ela despertou do seu transe e acionou o microfone.
Comeou a mandar os ltimos oferecimentos inclusive para
To e Virgnia, depois passou a se despedir. O programa estava
chegando ao seu final.



     Virgnia deu um ltimo beijo em To e se despediu. No
havia como negar. Estavam apaixonados. Era uma linda noite,
de cu lmpido e lua cheia. Ela caminhou em direo ao prdio
"C", onde dormia durante o tempo em que estudava na
universidade. J havia poucos estudantes fora dos seus
aposentos. Todos estavam estudando para as provas que logo
seriam realizadas. Chegou  praa Cibele Belinne -- nome da
falecida filha do dono da universidade que morrera num
acidente de avio havia seis anos. -- Avistou algumas pessoas

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                     NAASOM A. SOUSA

namorando e outras apenas conversando. Fixou o olhar em
duas em especial e os reconheceu. Tyson e Tain! Seus passos
pararam e ficou a observ-los por um momento.
     Teve que rir. Afinal j sabia h tempos que Tyson gostava
de Tain, assim como tambm sabia que ele no tinha muita
iniciativa. Porm se surpreendeu de como ele estava mudado de
algum tempo at aquele momento. Tinha que admitir, agora ele
se mantinha persistente.
     Notou que estavam apenas conversando. Ainda no est
rolando nada, pensou. Quem sabe mais tarde.
     Tain agora estava rindo de alguma coisa que Tyson havia
dito. Talvez ele estava conseguindo algo. Quem sabe, pensou
Virgnia.
     Ela riu novamente e decidiu continuar caminhando,
deixando os dois pombinhos serem bisbilhotados apenas pela
lua e as estrelas.



     Estavam na praa j h alguns minutos. Estava fazendo
uma noite agradabilssima para ambos. Tain estava rindo com
uma piada que Tyson acabara de contar. Ela estava surpresa. Ele
estava se revelando uma companhia afvel e educada. De certa
forma ele a estava cativando.
     -- Essa foi muito engraada -- comentou ela ainda com
um bonito sorriso nos lbios.
     Tyson sorria tambm, at que a expresso do seu rosto
tornou-se sria.
     -- O que foi? Algum problema? -- perguntou Tain.
     Ele meneou a cabea de um lado para o outro antes de
dizer:
     -- No, nenhum.  que o seu sorriso de repente me fez
lembrar o da minha me. Ainda me recordo de quo ela era
bonita... assim como voc -- ele olhou para as estrelas
brilhantes no cu. -- Lembro do quo carinhosa ela era e me
tratava com tanta delicadeza, algo to doce...
     -- Como sua me... faleceu?
     -- No se sabe ao certo. Foi algo repentino. Os mdicos
falaram que foi um ataque fulminante do corao, mas como eu
disse isso se tornou uma incgnita para os mdicos. Minha me
tinha uma boa sade, fazia exerccios fsicos regularmente...
Mas enfim, infelizmente isso aconteceu.

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     -- Sinto muito...
     -- Oh, no sinta. J faz tanto tempo... Mas, o pior  que
sempre me deparo pensando nela. Talvez hoje minha vida seria
um pouco mais alegre. Creio que para isso tenho que encontrar
a pessoa certa para mim -- ele se calou e fixou os olhos nos de
Tain. Ela entendeu o recado e enrubesceu num segundo.
     -- Ahmm... -- ela pigarreou desconcertada. -- ento... O
que achou do programa?
     Tyson sorriu, sabendo que aquela era uma tentativa de se
esquivar da sua investida.



     Ela havia se despedido de Tyson e estava agora batendo 
porta do dormitrio de Virgnia. Demorou s alguns minutos
para que ela abrisse a porta. Estava com uma escova de dentes
enfiada na boca. Certamente j estava se preparando para
dormir.
     -- Desculpe o incmodo, Virgnia -- disse Tain enquanto
a colega corria at a pia para cuspir a pasta na sua boca --, mas
queria saber se houve alguma novidade dos desaparecimentos.
No encontrei Camila no quarto, ento resolvi vir perguntar a
voc.
     Para Virgnia havia uma pergunta mais urgente a ser
respondida.
     -- Como foi com Tyson?
     Os olhos de Tain se estreitaram e sua cabea recuou um
pouco para trs.
     -- Voc nos viu?
     -- S de relance. De longe. Dava para pensar que era um
casal perfeito. S faltaram os beijinhos.
     Tain esboou um leve sorriso.
     -- No h nenhum clima entre ns. Pelo menos no agora,
no nesse momento em que duas pessoas conhecidas minhas
sumiram de uma hora para outra. S queria saber o que
aconteceu com eles.
     -- Acho que toda universidade quer. Dizem que o
investigador foi na sala do diretor relatar algo. Talvez ele tenha
achado algo. Ningum sabe ainda o que .
     -- S espero que seja algo que possa solucionar o sumio
do professor e do Valdir.
     -- Eu tambm. O Valdir faz falta.

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                    NAASOM A. SOUSA

    -- Com certeza. Tenho que ir. At mais -- Tain se
despediu e Virgnia trancou a porta novamente.



     O sono de repente foi embora. Virgnia pegou o livro de
James Patterson que atualmente estava lendo. "Jack & Jill  O
jogo da morte". Contava a estria de um investigador policial
negro (Alex Cross) que estava  frente de dois casos de
homicdios: o primeiro, dois indivduos que estavam
assassinado apenas celebridades da cidade de Washington; o
segundo, um assassino racista estava matando crianas negras
que freqentavam o mesmo colgio onde os filhos de Alex
estudavam. Ela estava no captulo 54, onde iria comear a
verdadeira caada aos assassinos.
     Ela adorava ler. Principalmente no silncio que os
dormitrios da Belinne proporcionava. As paredes eram grossas
o bastante para no se ouvir o que acontecia nos quartos
vizinhos. Os namorados mais assanhados eram os que mais se
sentiam satisfeitos com tal estrutura.
     Nesse momento Virgnia lembrou-se de To e sorriu.
     Ela voltou seus pensamentos ao livro e manteve os olhos
rpidos e atentos em cada palavra. s vezes se demorava em
alguns pargrafos. No porque era lenta na leitura, mas porque
gostava de observar a forma de escrever dos autores, as
combinaes de palavras. Aquilo a fascinava.
     Levou a mo ao criado mudo onde estavam um abajur, um
telefone celular e um copo com gua. Pegou o copo e bebeu o
lquido lmpido e cristalino.
     Repentinamente bateram novamente na porta. Ela
praguejou pela interrupo sbita. Levantou e pegou um
roupo aos ps da sua cama. Olhou para o relgio na parede. J
passavam das onze e meia. Obviamente era sua colega de
quarto, Rita. Esta outra era uma moa esquisita. Quase sempre
chegava tarde e sempre esquecia de levar sua chave, deixando-a
dentro da mochila enfiada debaixo da cama. Virgnia bufou de
descontentamento e caminhou  porta.
     -- Pxa, Rita, quando  que voc vai mudar e se tornar
adulta? -- suspirou novamente, abriu a porta e voltou-se
novamente para a cama, sem olhar para trs. Alguns segundos
se passaram e Rita permaneceu em p  porta. -- No vai
entrar? -- Virgnia perguntou com os olhos grudados no livro.

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No obteve resposta. -- Vamos Rita. No estou de brincadeira
hoje.
     A porta foi fechada e a chave foi girada na fechadura.
Passos se aproximaram da cama de Virgnia.
     -- Por favor, no vou repetir de novo. Leve sua chave, ok?
-- deitou o livro e olhou para Rita. Seus olhos se arregalaram de
pavor. No era Rita que estava ali em p a observ-la; era
algum encapuzado.
     Ela tentou gritar, mas nada saiu de sua garganta. Ela se
engasgou com o prprio ar. Ergueu-se num pulo rpido e viu-se
jogando o livro naquele estranho.
     -- Quem  voc? -- perguntou ela enfim, enquanto se
encostava na parede, sentindo-se acuada. Olhou para a porta e
constatou que a chave tinha sido retirada. Tentou no entrar em
desespero. Falou lentamente: -- Estou esperando meu
namorado. H qualquer momento ele est chegando!
     A pessoa encapuzada pareceu no ligar para o que tinha
acabado de escutar.
     -- Meu Deus... SOCOR...
     Antes de terminar o pedido de ajuda o intruso correu em
direo a ela e com uma incrvel preciso golpeou-lhe o
estmago. Virgnia caiu sobre sua cama, quase sem ar. A pessoa
de capuz se posicionou por sobre ela e passou a aperta-lhe o
pescoo. O ar que j lhe faltava agora era zero. Ela se debatia,
at que seu instinto de sobrevivncia lhe ordenou que fechasse
o punho e com toda a sua fora arremetesse contra a costela de
quem quer que fosse que a estava tentando matar. Ela tentou
manter a calma e fez de acordo com a ordem de sua mente.
Fechou o punho socou com toda sua fora nas costelas do lado
esquerdo do seu oponente. O impacto fez a pessoa encolher de
dor e afrouxar as mos do seu pescoo. Com o outro brao ela
o empurrou para o lado. A pessoa encapuzada foi de encontro
com o criado-mudo, espatifando-se no abajur.
     Os olhos de Virgnia imediatamente enxergaram o celular
arrastando pelo cho. Sua mente agiu rapidamente. Ela pegou o
celular e correu para o banheiro apertando na tecla de
rediscagem, entretanto o inimigo pulou sobre a cama e tomou
impulso nas molas do grosso colcho, voou e caiu sobre ela.
Virgnia estava rendida novamente. O celular deslizou sobre o
cho e parou longe do seu alcance. Seu oponente parecia
enfurecido. Socou-lhe o estomago, fazendo todas as foras dela
se esvarem por alguns segundo. Tempo suficiente para que

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apertasse mais forte o pescoo dela, e, como um gancho, fizesse
com que ela se levantasse. Ela tossiu j lhe faltando o ar.
     -- Al? -- pde-se ouvir a voz baixa e mecnica vindo do
celular de Virgnia. Era a voz de Tain. Isso chamou a ateno
do assassino. -- Al, Virgnia, voc est a?
     Virgnia se esforou para tentar um ltimo grito de
socorro, mas as mos apertavam ainda mais seu pescoo. O
manaco de capuz encostou-a na parede do dormitrio e a
ergueu, fazendo com que seus ps no tocassem mais o cho e
abanassem ao ar.
     Virgnia j estava sem foras, sem palavras, sem ar, sem
esperana e ningum viria socorr-la. O assassino apenas fitava-
a enquanto desvanecia e enfim sussurrou:
     -- Se a arrancarmos do cho, o corao pra e ela sufoca.
No espere que os namorados se amem para sempre.
     -- Virgnia? -- Tain continuava a chamar na linha sem
obter resposta. --Tem algum a?




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                CAPTULO DEZ
      A PORTA NO ESTAVA TRANCADA. Tain apenas girou a
maaneta e entrou no dormitrio de Virgnia. Ela achou melhor
ir at l para ver porque a amiga havia telefonado. Talvez fora
apenas um chamado sem querer. Ela mesma j havia apertado
uma tecla involuntariamente e ligado para algumas pessoas, que
mais tarde retornaram a ligao. Mas por via das dvidas achou
melhor checar. Olhou todo o quarto. Parecia vazio. A cama
estava desarrumada e com o livro de James Patterson sobre ela,
o criado-mudo sustentava apenas o telefone fixo.
Estranhamente o lugar parecia mais limpo do que antes.
      -- Virgnia? -- chamou ela.
      Nada. O quarto estava deserto. O celular que entrara em
contato com o seu tambm no estava por ali. Tain olhou para
o relgio em seu pulso. J passava da meia-noite. Para onde
Virgnia poderia ter ido numa hora daquelas? Ela se sentou
sobre a cama da amiga e fitou o telefone fixo do quarto sobre o
criado-mudo. Pegou o aparelho nas mos e comeou a teclar o
nmero de To.
      Sorrateiramente um vulto entrou no quarto e aproximou-
se por trs de Tain sem que esta percebesse.
      -- Ei! O que voc est fazendo? -- uma voz feminina e
estridente fez Tain ficar de p num pulo. -- Onde est
Virgnia?
      Tain a reconheceu. Era Rita, a colega de quarto de
Virgnia. Ela era uma moa magra, de cabelos negos at os
ombros. Olhos profundos e s vezes inexpressivos. Tinha um
rosto bonito, mas que s vezes era escondido por uma pesada
maquiagem.
      -- Responda -- insistiu Rita. -- Onde est Virgnia?
      Tain abanou a cabea e com voz fraca declarou:
      -- Onde Virgnia est tambm era o que eu queria saber,
Rita.




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     O telefone no quarto de To soou despertando-o de um
sono profundo. Ele praguejou e esfregou seus olhos, que
ardiam. Olhou rapidamente para Jean, seu companheiro de
quarto. Ele nem se mexera. Realmente o mundo poderia
desabar e com toda certeza Jean sequer mexeria um msculo. A
sirene tocou ainda mais trs vezes at que ele atendeu.
     -- Al... -- gemeu ele com a voz engrolada.
     -- Al, To, quem est falando  Tain. Queria saber se
Virgnia est voc.
     -- Comigo? No. Por qu? -- quis ele saber.
     -- Porque ela me ligou h alguns minutos atrs, mas a
ligao caiu. Tentei ligar de volta, mas ela no atendeu. Resolvi
vir at aqui, no quarto dela, mas ela no estava. Por isso quero
saber se no est a!
     -- No -- a voz dele saiu rouca. Pigarreou. -- No, ela
no est aqui. Talvez ela tenha sado com a Rita...
     -- Rita acabou de chegar. As duas no estavam juntas.
Alm do mais, To, voc sabe melhor do que eu que Virgnia,
em tempo de provas, no sai  noite.
     To coou mais uma vez os olhos e passou a mo pelos
cabelos. O sono agora j havia se esvado completamente.
     -- Ento... O que pode ter acontecido para ela no estar
na cama?
     -- No sei, To -- balbuciou Tain pela linha --, No
tenho a mnima idia.



      Teodoro trajava uma roupa que mais parecia ter sado de
uma garrafa de to amassada. Estava agora na companhia de
Tain e Rita, dentro do quarto de onde Virgnia havia sumido.
      -- Ela no falou nada para nenhuma de vocs?
      O olhar de Rita estava distante, at que ela respondeu:
      -- Para mim ela no falou nada.
      -- Nem para mim -- disse Tain.
      To passou os dedos pela testa e meneou a cabea.
      -- Ento no sei o que pensar -- disse ele.
      -- Vocs no discutiram, brigaram? Talvez isso pudesse
ter feito ela dar uma volta -- sups Rita.
      Ele continuava abanando a cabea.



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      -- No! Tivemos uma tarde maravilhosa. Quando nos
despedimos ela prometeu que viria direto para o quarto para
estudar.
      -- Eu passei por aqui aps o programa. Ela realmente
estava no quarto -- afirmou Tain. -- At falei com ela a
respeito das investigaes.
      Rita sentou-se sobre sua cama ainda arrumada.
      -- Se ela no aparecer vai acabar fazendo parte delas.
      -- Rita... com todo respeito -- disse To apontando para
ela --, se for para falar coisas desse tipo  melhor manter a boca
fechada.
      -- O quarto  meu e falo o que eu quiser, na hora que
quiser...
      -- O quarto  de Virgnia, tambm -- ele disse em alta voz
--, e no admito que fale dessa forma...
      Tain ergueu as mos chamando a ateno para si e ainda
exclamou:
      -- Pessoal! Pessoal! Esse no  o momento de discutir.
Temos que achar Virgnia.
      Rita fixou o olhar no seu relgio de pulso e fez alguns
estalos nos lbios, jogando a cabea de um lado para o outro.
      -- Tshh! tshh! tshh! Numa hora dessas? Nem pensar -- ela
se jogou de costas na cama. -- Posso at apostar que a qualquer
minuto ela aparece por a.
      -- Com uma colega de quarto como voc, no se precisa
de inimiga, sabia? -- desdenhou To, dando as costas para as
duas e disparando para fora do quarto.
      Tain olhou para Rita com expresso de zanga e correu
para alcanar Te.



     Tain s conseguiu alcanar To no meio da praa Cibele
Belinne. A noite estava fria e silenciosa. Ela tocou seu ombro e
fitou os olhos tristes dele.
     -- Tenha calma, To. No podemos nos exaltar.
     -- Como posso ter calma, Tain. No vou me aquietar at
ela aparecer. Ela no pode ter sumido... Sumido...
     -- Como o professor Gilberto e Valdir? -- completou
Tain.
     Ele hesitou antes de dizer:
     -- .

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     Ela suspirou, e com expresso sria falou:
     -- Odeio admitir, To, mas de certa forma no podemos
fazer nada alm de esperar at amanh.
     -- No! No, Tain, no posso esperar. J esperamos uma
vez por Valdir e at agora ele no apareceu.
     -- E o que podemos fazer agora? Acordar todos no
campus e perguntar: "Viram a Virgnia Sales por a?"
Poderamos ser expulsos da universidade. S de estarmos fora
do quarto h essa hora j corremos risco. Ainda mais que o
lugar est sob investigao!
     Ele levou as mos ao rosto e ficou assim por alguns
minutos.
     -- , acho que voc est certa. Mas vou contar os minutos
at amanhecer. No vou conseguir pregar os olhos.
     Ela o abraou.
     -- Tente, To. Faa um esforo -- disse j caminhando em
direo ao prdio onde ficava seu quarto.
     To ficou parado onde estava por um momento. Estava
consternado, com o olhar distante, torcendo para que Virgnia
estive bem.



     Michel estava ao longe. Observara da penumbra enquanto
Tain e To conversaram. Era delicioso ver o desespero e
confuso nos rostos deles. Michel sorriu. Ainda podia sentir o
pescoo de Virgnia em suas mos. A morte era o fim para
muitos; para ele era o incio de uma nova etapa. A nova etapa
para ele viria em breve. Mas para isso pessoas ainda precisavam
morrer. Tain Braga precisava morrer.




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                    Escrevendo...
      Era engraado como combinvamos as reunies e festas do
Grupo. Um livro com convites era deixado  biblioteca e da sabamos
exatamente que naquela semana iramos estar juntos para trocar idias
e aprender coisas novas. Algum do Grupo sempre estava de olho no
livro caso algum curioso o pegasse. Se isso acontecesse no era de todo
mau. Era um pretexto para falar do Grupo.
      Aprender. A primeira coisa que aprendi com "meus amigos" foi a
habilidade de sair do corpo, a bicorporeidade. No comeo foi difcil e
aquilo me apavorava, mas aps algum tempo venci o medo e aquelas
experincias passaram a ser uma constate em minha vida. Eu podia ir a
qualquer lugar naquelas viagens atrais. Numa dessas viagens fora do
corpo conheci um homem de aparncia forte, que me apareceu com
cabelos at os ombros, cor de fogo. Apresentou-se como lit Senn. Ao
voltar ao meu corpo e falar com "meus amigos" sobre o ocorrido,
disseram-me que eu havia encontrado meu mentor, mensageiro e guia,
e me congratularam. Instruram-me que eu teria que invoc-lo para me
ensinar todas as coisas que eu no sabia.
      Passei a invocar lit freqentemente. Ele passou a me ensinar
sobre sensibilidade, viagens astrais, feitios, encantamentos, ritos e
outras coisas mais. Aquilo me deslumbrou e passei a gostar muito do
que aprendia.
      Voltei a falar com a pessoa que era lder do grupo. Vi ela mexer
coisas apenas com o olhar e fazer com que objetos aparecessem ou
desaparecessem em sua frente. Eu desejei ardentemente fazer aquilo
tambm. A pessoa me disse que aqueles poderes tinham sido dados pelo
Rebelde, e se eu quisesse ele tambm me daria qualquer poder que eu
almejasse, inclusive o de ficar invisvel. Mais uma vez eu repeti que
queria receber poderes dados pelo Rebelde. A pessoa sorriu garbosa.
Disse-me que meu mensageiro iria me instruir no poder da
invisibilidade e tambm iria me dar algo mais.
      No outro dia chamei por lit, que apareceu e me ensinou a arte
de ficar invisvel. Caminhei pelo campus inteiro e ningum me notou.
Eu era como um esprito. Aquilo me encheu o corao de orgulho, mas
ao mesmo tempo tambm me encheu de dio, pois passei a espionar as
pessoas e vi que muitos delas eram mesquinhas e egocntricas.
      Alguns dias depois lit apareceu novamente quando o chamei,
mas desta vez ele mandou que eu sasse fora do corpo e o seguisse.
Assim eu fiz. Ele me levou por um corredor, em que a entrada tinha

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uma luz fosca, mas,  medida que flutuvamos alm, a escurido
comeava a querer nos engolir. Logo senti um imenso frio congelar
todo o meu corpo e pensei que iria morrer.




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              CAPTULO ONZE
     AS BATIDAS NA PORTA ACORDARAM Tain e Camila.
Ambas se ergueram quase que simultaneamente da cama e se
dirigiram  porta. Camila foi quem abriu. To entrou no quarto
como um foguete. Tain reconheceu as mesmas roupas que ele
usara da ltima vez em que o vira de madrugada.
     -- Ela no apareceu. Fui ao quarto dela e a imbecil da Rita
disse que ela no retornou ou ao menos telefonou.
     Tain olhou as horas em seu relgio de pulso. 7h e 15mim.
     -- O que faremos agora? -- perguntou Camila ainda de
olhos inchados.
     Tain tentou arrumar o cabelo desgrenhado e idealizou:
     -- S nos resta comunicar ao investigador Robson
Saldanha sobre esse novo desaparecimento.



     Robson Saldanha ouvia atentamente To e Tain. Eles
contaram tudo o que aconteceu desde a ltima vez em que
viram Virgnia. Manoel Cristovan estava com seu inseparvel
bloco de anotaes onde rascunhava letras quase ininteligveis
enquanto os outros dois jovens faziam o relato.
     -- No sei mais o que dizer, investigador -- To falava
num tom preocupado, quase aflito. Ele estava sentado ao lado
de Tain num sof dentro da diretoria da universidade. O
diretor Augusto Pires tambm estava presente e escutava-o,
mostrando interesse no assunto. -- No h nenhuma
explicao para minha namorada sumir assim, de uma hora para
outra. Ela no tinha inimigos, no gostava muito de farra,
enfim, era uma pessoa absolutamente pacata. Tambm era
estudiosa, e com as provas chegando no posso compreender o
fato de ela no estar com a cara enfiada nos livros.
     -- Ela no pode estar com a cara nos livros em outra
parte? -- indagou o diretor. -- Afinal, hoje  sbado... Alguns
alunos preferem ficar no campus no final de semana, como voc
e Tain. Mas outros, os que moram perto da Belinne costumam
fazer uma visita  sua famlia...
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                     NAASOM A. SOUSA

      -- Sei disso, senhor, mas j verificamos -- Tain o
interrompeu secamente. -- Sabemos que ela no ia sair do
campus este final de semana, alis, acho que nenhum cursando
ir sair j que estamos superpreocupados com as provas.
Todavia conferimos as coisas pessoais dela e vimos que seus
livros continuam no quarto, dentro do armrio.
      Houve um momento de silncio at que o pigarrear do
investigador Saldanha rompeu-o. Encontrava-se sentado numa
das cadeiras prximas  mesa do diretor. Ele se ergueu e ficou
no centro da sala. Ele comentou:
      -- No posso considerar que o caso de Virgnia j seja
desaparecimento uma vez que no faz nem um dia que ela no
mais foi vista. Entretanto, se for o caso, com este j sero trs
desaparecimentos sem qualquer explicao. E o pior... Estamos
impotentes diante desse fato.
      -- O senhor no encontrou nada at agora que possa levar
a elucidar pelo menos... sei l... alguma coisa, um dos
desaparecimentos? -- agitou-se Tain.
      -- A nica coisa que encontramos foi isto -- o
investigador apanhou o livro de cima da mesa do diretor Pires e
retirou de dentro o convite, mostrando para os dois. -- sabem
alguma coisa a respeito de reunies desse tipo no campus?
      To tomou o papel nas mos. Depois de olh-lo mais
atentamente meneou a cabea e falou:
      -- Nunca pensei que houvesse tal coisa por aqui. Sei que
existe no mundo, mas no aqui na universidade -- ele passou o
panfleto vermelho para Tain. Ela leu o texto, ficou pensativa
por alguns segundos.
      -- Camila ouviu alguma coisa a respeito.
      -- Camila? -- disse o investigador.
      -- Sim. Camila  minha colega de quarto. Contou-me que
estava no banheiro feminino da universidade quando ouviu
vozes de garotas falando desse tipo de culto.
      -- Ao demnio?
      -- Acho que sim.
      -- E voc... no ouviu nada sobre isso tambm, por acaso?
-- quis saber Robson Saldanha.
      Ela pensou mais um instante. Vasculhou na mente at que
o telefonema na rdio apareceu-lhe na lembrana como um
flash.



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     -- H mais ou menos dois dias recebi um telefonema na
rdio de uma garota... Foi meio estranho. Primeiro falou que
eu corria perigo... Alertou-me para eu sair da universidade...
     A expresso do rosto do investigador e seu assistente
comearam a mudar. Havia algo ali. Era talvez uma fresta para
ir adiante naquele caso. Robson Saldanha inclinou-se um pouco
para a frente e quase num sussurro pediu:
     -- Ela falou algo mais?
     Tain franzia o cenho, tentando se lembrar perfeitamente
das palavras da misteriosa garota.
     -- Ela disse que aquilo no se tratava de um trote. Se eu
no sasse da universidade eles iriam me pegar. Disse ainda que
"Eles esto por toda parte" -- ela fechou os olhos e tentou
pronunciar exatamente o que tinha ouvido. -- Disse que
ocupavam mais espao a cada dia dentro do campus.
     -- Talvez seja atravs desses convites -- disse Manoel
Cristovan.
     -- Tem mais -- ela chamou a ateno de todos. -- ela
disse ainda que eles so parte de uma organizao que adoram
ao demnio. Foi o que falou antes de desligar de repente.
     -- Ela se identificou? -- perguntou o assistente.
     -- No. Disse que o nome no era importante.
     -- Eles sempre falam isso -- disse o investigador
esboando um leve sorriso sarcstico.
     -- Mas e da? -- falou o diretor se mexendo em sua cadeira
por detrs da mesa, com uma expresso de desdm. -- Isso 
certamente  um trote. Mas digamos que algum quer pegar a
mocinha. Isso no significa que pode estar relacionado aos tais
desaparecimentos. Pode?
     Todos os olhares se puseram sobre o investigador Saldanha
certos de que talvez obtivessem uma resposta. Ele levou  mo
ao queixo e com uma expresso de reflexo mordeu o lbio.
     -- Talvez possa haver uma conexo -- disse ele enfim.
     -- Como? -- indagou o curioso diretor.
     -- Todos os supostos desaparecidos, at agora, so pessoas
prximas  Tain. Segundo a mulher do telefonema algum est
querendo "peg-la". Entretanto quem est desaparecendo um a
um so seus amigos.
     -- O professor no era to meu amigo assim -- discordou
Tain.



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     -- Todos acham que ele tem ou... tinha... uma pequena
queda por voc -- comentou To. -- De certa forma ele
tambm estava ligado, como Valdir e Virgnia.
     -- Exatamente -- concordou o investigador.
     -- Mas, meu Deus! -- exclamou To levando as mos 
cabea. -- Olhem s para ns! Estamos falando como se
Virgnia tivesse correndo perigo... ou cado nas mos de
algum perigoso...
     Tain tocou o brao de To numa tentativa de acalm-lo.
     -- To, estamos lidando com todas as hipteses -- disse
ela. -- As coisas esto se encaixando e por mais que isso parea
um tanto macabro, temos que lembrar que pode haver pessoas
adorando Sat aqui na Belinne. E se houverem tais pessoas, no
podemos esperar coisas boas -- ela olhou para Saldanha. --
No  mesmo, investigador?
     Ele admitiu balanando a cabea afirmativamente.
     -- Temo que sim. J estive  frente de casos que envolviam
satanistas. No foi uma coisa muito fcil de se lhe dar, pelo
menos na maioria deles.
     To suspirou indefeso.
     -- Ento... o que voc acha que devemos fazer?
     -- Por enquanto apenas fiquem de orelhas em p, atentos,
sentinelas. Vou procurar me basear nisso, mas no me
esquecendo que essa  apenas uma hiptese. Talvez haja
satanistas aqui na universidade, mas isso no significa que esto
seqestrando pessoas ou coisa parecida.
     -- Certo -- disse Tain --, vamos ficar atentos.



     Tain e To estavam  porta da biblioteca. O local estava
repleto de alunos alheios ao que estava acontecendo, apenas
pesquisando e estudando vastos volumes de cada curso. O
movimento no grande salo continuava semelhante aos dias
anteriores ao desaparecimento do professor Gilberto. O diretor
cuidara para que tudo continuasse da mesma forma. Ser que
ningum conhecido de algum deles desapareceu tambm?
Pensava Tain. Ela voltou-se para To.
     -- Como voc se sente? -- indagou com semblante
deprimido para ele, que aparentava no estar nada bem. A
pergunta foi apenas para demonstrar sua preocupao.


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      To suspirou tentando recobrar as foras que pareciam
estar a quilmetros de distncia dele. Confessou:
      -- Estou desconsolado, impotente, inseguro... Mas
desesperado seria a poro maior daquilo que estou sentindo.
Fico inquieto pensando onde ela possa estar.
      -- Temos que pensar positivo, To. Ela deve estar bem.
      -- Ser? -- foi tudo o que Teodoro conseguiu dizer antes
de se distanciar indo em direo ao prdio onde passava as
noites.
      Tain permaneceu ali, em p. Ela suspirou desolada.
Tambm estava preocupada com Virgnia. Valdir era outro que
no saia de sua cabea. E o professor? Aonde eles poderiam ter
ido? Onde estariam agora?
      O que est acontecendo? Perguntou a si mesma sabendo
que a resposta no estava a seu alcance no momento.
      Ela ouviu repentinamente um barulho atrs de si. Numa
velocidade incrvel virou o corpo e viu Felipe Nascimento
saindo da biblioteca. Ele sorriu instantaneamente quando a
notou.
      O que ele estaria fazendo por ali?
      -- Oi -- saudou ele.
      -- Oi. O que faz por aqui?
      -- Tinha que pegar um CD com um amigo que devia estar
por aqui. Mas no o encontrei.
      -- Mesmo?  alguma coisa para o seu programa?
      -- Sim. Quero renovar nosso repertrio tambm.
      Ela sacudiu a cabea e sorriu. Fitou-o mais atentamente e
disse hesitante:
      -- Escute... -- ela disse meio acanhada. -- Eu precisava
falar uma coisa com voc. Estaria livre daqui  uma hora e
meia... duas horas no mximo?
      -- Posso saber por qu?
      -- Voc  evanglico mesmo, no ? -- ela indagou com
leve tom de desconfiana.
      Felipe estreitou os olhos.
      -- Desculpe, acho que no entendi...
      -- A pergunta lhe ofende de alguma forma?
      -- No... Apenas estou curioso. Pelo seu tom de voz
parece que est desconfiando de que eu esteja mentindo?
      -- No, nada disso! Oua... Tm acontecido algumas
coisas esquisitas na universidade e preciso falar com voc sobre
isso.

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     -- Coisas esquisitas? De que tipo?
     -- Apenas coisas. Olha... J que voc se diz um desses
crentes... Que cr em Deus... Talvez possa tirar algumas
dvidas minhas. Mas afinal, pode ou no pode me encontrar na
hora que lhe disse?
     Ele umedeceu os lbios com a lngua e depois disse:
     -- Onde quer que eu a encontre?
     -- Na praa Cibelle Belinne, pode ser?
     -- Estarei l -- disse ele j se distanciando. Ele parou os
passos de repente e fixou o olhar nela. -- A propsito, no
precisa ter dvidas sobre mim. Sou um cristo de verdade. --
Piscou para ela e seguiu em frente.



      A praa de alimentao da universidade ficava aberta todo
o final de semana. Pessoas comprando, pessoas comendo,
conversando, sorrindo, outras apenas em silncio presas a seus
pensamentos.
      Tain comprou dois sanduches e duas latinhas de
refrigerante, pediu para pr em pequenos sacos plsticos e
levou-os  praa Cibelle Belinne. Ela avistou Felipe
Nascimento. Ele j estava  sua espera sentado em um dos
bancos cobertos pela sombra de uma frondosa rvore no centro
da praa. Tain sabia que aqueles bancos eram disputados.
Felipe certamente estava ali desde antes de soar a campainha do
intervalo. Ele tambm a avistou e sorriu. Seu sorriso realmente
era fantstico.
      Ele era realmente crente, certo?
      -- Est com fome? -- ela perguntou j lhe oferecendo um
saquinho plstico com um sanduche e a latinha de refrigerante.
      -- Minha fome no  maior do que minha curiosidade. O
que exatamente quer conversar comigo? Parece ser algo
urgente.
      Ela sentou ao lado dele, abriu seu saquinho e logo deu a
primeira mordida no seu sanduche, em seguida, em silncio,
abriu a lata e tomou dois goles do refrigerante.
      -- E ento? -- requisitou ele.
      -- O que voc pode me dizer a respeito de Satanismo? --
ela indagou ainda mastigando.
      -- O qu?
      -- Satanismo, ora essa! Afinal, voc  crente ou no?

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      Ele franziu o cenho.
      -- J falei que sim. Voc parece duvidar. Por qu?
      -- No sei ao certo, mas alguma coisa me diz que devo
ficar antenada em todos que conheo, principalmente aqueles
que conheci h pouco tempo.
      -- Isso  uma pena. No esperava que nossa amizade
estivesse declinando para a desconfiana.
      -- Olha, desculpe-me -- ela se apressou para dizer. --
Estou um pouco nervosa.
      -- Aconteceu alguma coisa? -- Felipe se mostrou
preocupado.
      -- Primeiramente me fale a respeito de satanismo. --
cortou ela. -- Os crentes falam muito sobre Deus e o diabo.
Quero que me fale desse ltimo. H pessoas que realmente
cultuam aos demnios? O que eles fazem em seus rituais, onde
costumam fazer isso, etictera, etictera e tal. Pode me ajudar
com essas questes?
      Os olhos de Felipe estavam fitos nos de Tain. Por um
momento ele apenas piscou os olhos algumas vezes, e ento
pegou seu sanduche e deu uma bela mordida. Com a boca
ainda em movimento indagou:
      -- Posso saber por que est interessada especificamente
nesse assunto to macabro? No que eu esteja querendo fugir
do assunto, mas eu preferiria falar de Deus e nos benefcios que
temos em segu-Lo. Ainda devo admitir que no  todo dia que
sou convidado para conversar a respeito desse tema.
      -- Eu tambm adoraria ouvi-lo falar sobre Deus, mas o
que estou querendo  que me d explicaes sobre o outro
deus, entendeu?
      Ele assentiu com a cabea.
      -- Sim, mas vai me falar por que est to interessada por
satanismo?
      -- Outra pessoa desapareceu. Por incrvel que parea: mais
uma amiga minha. Aconteceu ontem de madrugada -- ela deu
mais uma mordida no sanduche. -- Com ela j so trs as
pessoas ligadas a mim que somem sem dar explicaes. Recebi
um telefonema estranho onde me disseram que estou correndo
perigo de vida, que tem gente querendo me "pegar" e que fazem
parte de uma organizao que adoram o demnio. No sei se
posso acreditar nisso, mas em todo caso quero obter o mximo
de informaes possveis sobre pessoas desse tipo. Enfim, 
isso. Pode me ajudar?

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                     NAASOM A. SOUSA

     -- Acho que sim.
     -- timo. Ento me diga: o que sabe sobre satanismo?
     Felipe tomou alguns goles de refrigerante e passou a lngua
pelos lbios. Pigarreou e disse:
     -- Bem, ahmm... satanismo  um tipo de religio, mais
precisamente uma seita. Pregam basicamente o oculto, a
ambio pelo poder, busca pelo sucesso, espiritualidade sem
regras. Oferecem uma religio onde o lema : "Faa o que voc
quiser!", onde seus mentores so demnios ou o prprio diabo.
Tm sua prpria bblia, seus livros "sagrados", enfim tudo o que
uma outra seita teria.
     -- Hum... isso parece muito interessante -- comentou
Tain.
     Ele abanou o cenho, srio.
     -- No se iluda, moa. Envolver-se com foras obscuras
requer um preo que voc pensa que pode pagar, mas no pode.
     -- Como assim? Explique melhor.
     Deram mais uma mordida no lanche. Felipe esclareceu:
     -- Primeiro do que tudo voc  conduzido a fazer um
pacto de sangue. Seu prprio sangue  a chave para ingressar
nessa "comunidade", se  que podemos chamar assim. Feito
isso voc se torna um escravo de seus mentores, guias, espritos
supremos. Na realidade todos esses so demnios. Voc ento
passa a fazer tudo o que eles querem.
     -- Mas no h uma escolha? -- indagou ela. -- E se uma
pessoa no quiser...
     -- Depois de ter feito o pacto no h como voltar atrs --
atalhou o jovem. -- Se voc tentar sair do grupo voc ser
atacado. Os mesmos guias, mentores e espritos que antes te
seduziam se encarregam de te afundar. E, com certeza, se voc
entrar nessa e desejar permanecer, a depresso ir te consumir
pouco a pouco. -- Ele levou a latinha  boca novamente. --
Repito: envolver-se com isso requer um preo muito alto. Alto
demais, eu digo.
     -- ... parece um preo incalculvel -- ela terminou o
sanduche e deixou descer pela garganta o restante do
refrigerante. Jogou seu saquinho e a lata num lixeiro ao lado do
banco onde estavam e concentrou-se ainda mais na conversa. --
Voc sabe alguma coisa sobre seus rituais? Eles... eles usam
mesmo sangue nos rituais?
     Felipe Nascimento tambm finalizou o lanche, dando
agora inteira ateno  Tain.

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      -- Na maioria deles, sim. Conhece o termo vampirismo,
no? Isso no  apenas uma histria criada por uma mente
criativa, como Drcula, obra de Bram Stocker. Vampirismo 
real. H pessoas que gostam de beber sangue nesses rituais, e
acredite, at fora deles. No sabem que ao fazer isso esto
dando brecha para mais demnios se apossarem de suas vidas.
Satanismo  real, vampirismo  real e o diabo e os demnios so
reais. E por mais que isso possa parecer atraente, na verdade 
um poo escuro, frio e onde dificilmente se encontra sada. A
porta est aberta para quem quiser entrar no satanismo, esteja
certa disso; mas ela se fechar de tal forma depois de entrar que
chegar a sufocar quem quer que seja. L no se encontra amor,
pois no se pode encontrar uma fagulha de Amor sequer em
Satans; somente dio, rancor e malignidade.
      -- Caramba! Isso  horrvel -- exclamou Tain. -- Mas
mesmo assim ainda h pessoas que queiram tal coisa, no ? --
Ela o viu apenas confirmar com a cabea. -- Voc tem idia de
como  feito esse recrutamento? Creio que uma pessoa para
entrar nessa furada tem que ser convidada, no?
      -- Isso mesmo. Existem pessoas que so treinadas para
recrutar outras para uma iniciao, quero dizer, para entrar num
grupo satanista. No abordam a pessoa de uma vez, porque isso
seria um tanto imprudente. Acho que tudo comea com uma
amizade, depois h questionamentos sobre a vida da pessoa a
ser iniciada. Ela  feliz? Tem medo de alguma coisa? Ambio
por alguma coisa? Tem desejo em conhecer algo mgico,
profundo, desconhecido? Deseja ter participao em uma
fraternidade onde ter prazer, liberdade e outras coisas mais
sem ter que se preocupar em ser tachado de pecador ou
perdido? Coisas desse tipo.  um mtodo simples e prtico.
      Tain por um momento visualizou mentalmente o convite
que o investigador Saldanha lhe mostrara.

          CONVITE AO XTASE! GRANDE ENCONTRO!
    VENHA CONHECER A VERDADE QUE TODOS NO SABEM.
                 XTASE DOS CORPOS.
                 VIAGEM AO INFERNO!
                (SATANISMO AO VIVO).

    Conhecer a verdade que todos no sabem, disse ela a si
mesma. Aquilo se encaixava na estratgia para alcanar as
pessoas curiosas e com desejos pelo poder sobrenatural.

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Grande encontro, pensou. Onde poderia ser? O convite era
esquisito, pois no havia qualquer endereo.
     -- Tudo bem? -- perguntou o preocupado Felipe. --
Espero no t-la assustado.
     -- No, tudo bem. O caso  que eles podem ser pessoas
com poder, invencveis. Como vamos saber se metade da
universidade j no foi iniciada e faz parte dessa maldita seita?
     -- Os satanista so reservados, Tain. -- disse ele. -- No
se pode ter certeza. O que posso dizer com certeza  que
podem ser perigosos, mas no invencveis. O deus a que servem
no  maior do que Jesus. Satans foi derrotado por Cristo
quando este ressuscitou ao terceiro dia depois de ter sido
crucificado para nos livrar da morte. Jesus pisou na cabea do
diabo e subjugou seu poder. Maior  o que est em Cristo do que
aquele que est no mundo. Satanistas podem ser at mesmo
poderosos, mas mais poderosos so aqueles que tem Jesus em
seu corao.
     Tain sorriu.
     -- Agora voc est querendo me iniciar na sua religio!
     -- Talvez -- ele retribuiu o sorriso --, mas na verdade
estou revelando o segredo para derrotar um adorador de
Satans.
     Tain estreitou os olhos e encarou Felipe Nascimento.
      -- Voc parece conhecer bem essas pessoas, rapaz --
comentou ela. -- Ser que j no foi iniciado, hein?
     Ele sorriu e deu mais uma piscadela para ela.
     -- Nem morto, querida.
     Ela tambm sorriu, mas de repente sua expresso tornou-
se sria.
     -- Pra falar a verdade estou assustada com isso --
confidenciou. -- No cria muito em Deus... -- ela tentou
corrigir -- Na verdade ainda no creio muito em Deus.
Contudo, agora fico sabendo que pessoas esto invocando o
demnio no lugar onde estudo. E o pior, estou sendo
aconselhada por um crente.
     -- E o que h de mau nisso? Tain, a melhor estratgia do
inimigo da nossa alma  convencer o mundo de que ele no
existe, ou que ele no  to mau assim. Se as pessoas se
convencerem disso ele no ter muito trabalho para matar,
roubar e destruir cada uma delas -- ele encarou-a enquanto ela
olhou para o cho e suspirou. -- Se voc faz parte do time que


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no cr em Deus e no diabo, Tain,  mais uma candidata a
estar na mira do inimigo. Pense nisso.
     Ela j estava pensando, repensando e temendo.
     Eu liguei para avis-la que voc est correndo perigo de vida.
Saia da universidade o mais rpido possvel...
     Ela voltou-se e fitou os olhos de Felipe. Pareciam olhos
tranqilos e confiantes.
     -- Obrigada, Felipe. Em to pouco tempo voc tem se
mostrado... um bom amigo.
     -- Disponha. E lembre-se: no tem o que temer se sua f e
convico estiverem firmadas em Deus, pai do Senhor Jesus
Cristo.
     Preste muita ateno. Se voc no sair da universidade eles
iro peg-la. Eles esto por toda parte. Ocupam mais espao a
cada dia dentro do campus...
     Ela se ergueu e Felipe a acompanhou. Tain abriu um
sorriso meio torto e ofereceu-lhe a mo.
     -- Nosso papo foi muito produtivo.
     -- Espero que possamos ter outros em breve -- disse ele
tomando a mo dela na sua --, mas sem desconfianas.
     Eles... eles so parte de uma organizao que adoram ao
demnio...
     Tain acenou com a cabea.
     -- Claro! Peo desculpas mais uma vez.
     -- Sem problemas.
     -- Nos falaremos em breve, sim. Quem sabe logo mais
quando no encontrarmos na rdio.
     -- Feito! -- alegrou-se ele.
     Ela se ps a andar de volta para o prdio B, para a terceira
aula do dia. Olhou para trs e viu que ainda estava sendo
observada por Felipe Nascimento. Sorriu e continuou
caminhando.
     Mesmo crente ele  agradvel, pensou. Alis, por que as
pessoas viviam tachando os crentes de idiotas fanticos e loucos?
     Felipe no parecia fantico nem louco e muito menos
idiota, na opinio dela. Quem sabe ele no poderia mostr-la o
que realmente era ser um crente. Quem sabe, pensou ela j
entrando no prdio B.




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              CAPTULO DOZE
     ALGUNS CD'S E MD'S ESTAVAM SOBRE a cama. Tain estava
organizando seu material mentalmente, apenas olhando para o
contedo. A grande parte do material se encontrava na rdio,
mas j sabia a maioria das msicas que iria tocar naquele
programa. Tambm tinha um espao para as canes pedidas
pelos ouvintes. Certificava-se de que seria um bom programa.
Tambm seria a primeira noite em que anunciaria os produtos
do Sr. Silas Siqueira. Ela se orgulhava por aquela vitria
particular. Tentou sorrir para si mesma, porm o clima tenso no
ar devido aos desaparecimentos no lhe permitia qualquer
sentimento de alegria extravagante.
     Caminhou at seu armrio e pegou uma bolsa. Recolheu o
material de cima da cama e depositou no interior da bolsa. Era
hora de dar prosseguimento ao sonho de se tornar radialista.
Dirigiu-se  porta, mas a porta foi aberta antes que ela pudesse
alcanar a maaneta.
     Camila entrou no quarto com olhar distante e passos de
tartaruga. Tain, por alguns instantes, contentou-se em apenas
estud-la e especular porque ela estava daquele jeito.
     -- O que h? -- Tain no conseguiu ficar apenas com as
indagaes presas  sua mente. -- Aconteceu alguma coisa?
     -- Eu ouvi novamente falarem sobre o grupo satanista.
     -- Quando?
     -- H dois minutos atrs.



     O diretor estava atento ao investigador Robson Saldanha e
ao assistente Manoel Cristovan. Ambos estavam tomando uma
xcara de caf na sala do diretor Pires. Encontravam-se sentados
prximos  mesa. Um pequeno bloco de anotaes repousava
sobre o mvel at que Manoel o pegou nas mos e folheou-o
suavemente.
     -- A maioria dos jovens alunos disse que no sabia sobre a
existncia de satanistas aqui -- disse o assistente --, e que
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nunca ouviu algum falar sobre isso dentro da universidade.
Alguns falaram que existia uma seita dessas por aqui, mas no
tm idia de quem so os que prestam esse tipo de culto.
     -- Resolvemos ento investigar as pessoas desaparecidas,
j contando com Virgnia Sales -- relatou o investigador
Saldanha. --Descobrimos que nenhuma delas tinha ligao com
seita alguma.
     -- Isso  interessante -- comentou o diretor.
     -- Sim -- concordou Saldanha. -- Segundo informaes,
Valdir era ateu, e, como tal, no acreditava em Deus e muito
menos ainda no diabo, por isso  impossvel que fizesse parte
em tal seita e adorasse ao demo. -- Tomou um gole de caf e
continuou: -- O professor Gilberto era catlico praticante e
defendia seu credo com unhas e dentes, mesmo sendo tachado
de garanho pelos alunos. Tambm descartamos a hiptese de
ele tomar parte no satanismo.
     -- E quanto  Virgnia Sales?
     -- Virgnia no tinha uma religio certa, segundo seu
namorado, Teodoro. Ele falou que os pais dela se separaram e
ela foi morar com os avs no interior. Os avs parecem que so
evanglicos, mas ela aparentemente no se inclinava para a
crena deles, porm respeitava e cria em Deus. No caso dela
no posso dizer que no estava envolvida, mas  quase certo
que no.
     -- Por que no, investigador?
     -- Quando se tem algum prximo que  crente, sr.
diretor,  difcil a gente se meter com o demnio. E sabe por
qu? Os crentes fazem questo de nos alertar que o diabo 
perigoso demais para brincamos com ele.
     O diretor fitou Saldanha antes de indagar com curiosidade:
     -- Voc  evanglico, investigador?
     Saldanha hesitou por um momento, at que respondeu:
     -- Fui, mas o caminho se estreitou demais para mim. Acho
que no estava totalmente preparado para me dedicar a Deus...
Infelizmente.
     O diretor apenas ergueu o sobrolho e deu de ombros.
     -- Bem, em todo caso obrigado por virem me relatar sobre
o que descobriram, mas ainda gostaria de ser informado sobre o
prximo passo das investigaes.
     Manoel Cristovan terminou o caf e achou que seria a sua
vez de falar.


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                      NAASOM A. SOUSA

     -- J que averiguamos as pessoas que desapareceram --
disse ele --, agora vamos nos concentrar nas pessoas que no
desapareceram e que estavam ligadas s supostas vtimas.
Comearemos com a mulher do professor Gilberto, depois
Teodoro, Camila e Tain. Se soubermos que h mais algum
prximo os sondaremos tambm.
     -- timo. Se precisarem de alguma coisa que estiver ao
meu alcance... Me procurem -- encorajou o diretor Augusto
Pires.



       -- Explique isso melhor, Camila! O que voc ouviu dessa
vez?
     A voz de Tain estava sensivelmente alterada. Camila se
sentou sobre a cama respirou fundo, tentando encontrar as
palavras certas.
     -- Estava navegando na "rede". Quando terminei minhas
pesquisas sa da sala de informtica. Quando ia dobrando o
corredor ouvi vozes e parei para escutar melhor. Desta vez
eram vozes masculinas.
     -- No viu quem eram?
     -- No! No tive coragem de olhar para eles.
     Tain suspirou, decepcionada.
     -- E ento, o que disseram?
     -- Estava tentando persuadir um garoto a participar de
uma reunio, que segundo eles seria animadssima. Foi tudo
muito rpido. Pra falar a verdade fiquei um pouco assustada.
     Tain pensou por um segundo e disse:
     -- Temos que relatar isso ao investigador tambm.
     -- Tem certeza?
     -- Sim. Contaremos amanh -- Tain disse. -- Tenho que
ir agora para a rdio. Estou quase atrasada. No quer ir comigo?
     Camila abanou com a cabea.
     -- No. Acho melhor ficar aqui e respirar um pouco.
Aquietar-me, sabe.  isso mesmo. Acho melhor ficar aqui.
     Tain observou Camila por um breve instante. Ela parecia
fora de si. Com medo talvez? Pessoas estavam desaparecendo.
E se houvesse outros desaparecimentos?
     Que droga! No quero pensar nisso, brigou Tain consigo
mesma. Caminhou at Camila e deu-lhe um beijo no rosto se
despedindo.

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     No caminho para a rdio Tain sentiu como se olhos
estivessem sobre ela, vigiado-a, como se fossem dois ms
emanando energia em sua direo. Uma energia nada agradvel.
Subitamente ouviu um rudo como se fossem passos prximos
a ela, como que a seguindo. Olhou para trs e ao redor, mas
no conseguiu visualizar nada. Era como se uma massa invisvel
estivesse se aproximando. Foi ento que um forte e impetuoso
aperto no corao fez com que disparasse numa frentica
corrida at o estdio da rdio Belinne. No conseguia pensar
em nada mais alm de que precisava desesperadamente correr
at a rdio.
     Ao chegar l foi abordada por Felipe Nascimento, que
estava saindo do estdio.
     -- Meu Deus! -- ele exclamou quando ela quase esbarrou
contra seu corpo. -- O que aconteceu?
     Ela estava ofegante, cansada.
     -- Algum estava me seguindo...
     -- No foi impresso sua?
     -- Impresso ou no, no queria esperar para ver no que ia
dar. Ainda mais porque Camila ouviu pessoas falando sobre a
seita novamente.
     -- Mesmo?
     -- Sim. Isso est me consumindo. Estou com os nervos 
flor da pele, sabia?
     Num movimento automtico Felipe puxou Tain para si a
abraou-a. Ele pode sentir o pulsar acelerado do corao dela.
Estava realmente assustada. Afrouxou o abrao e afastou-se
dela at olh-la nos olhos.
     -- Escute, o meu programa est acabando, ou melhor, j
era pra ter acabado. Relaxe e cumpra seu horrio normalmente.
Passo por aqui depois e, se quiser, conversaremos, ok?
     -- Certo. Obrigada pelo abrao. Acho que estava
realmente precisando disso.
     -- No h de qu -- disse ele em meio a um sorriso.
     Entraram no estdio. Algumas propagandas j estavam
rodando. Ao final, Felipe ligou o microfone, se despediu e
anunciou a prxima atrao. Rodou mais trs jingles e ofereceu
a poltrona  frente da mesa de som para Tain. Ela forou um
sorriso e se sentou.

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     -- At mais. A gente se v depois -- disse Felipe
acenando.
     -- At logo -- disse ela j apertando alguns botes e
inserindo um CD no player.
     O programa comeou e logo os oferecimentos vieram
numa enchurrada...
     Depois de eternos vinte minutos o telefone tocou mais
uma vez. Tain atendeu e ouviu uma voz feminina que soou
nervosa:
     -- Eu disse para voc deixar o campus. Por que no me
ouve?
     -- Escute...
     -- Escute voc! Seus amigos no desapareceram.
Simplesmente fizeram com que eles desaparecessem. Cortaram a
garganta de um com uma navalha, sufocaram outro com um fio de
nylon e asfixiaram outra pessoa com as prprias mos.
     A expresso do rosto de Tain repentinamente se tornou
em puro horror.
     -- Trs j se foram. Voc vai esperar mais o qu?
     -- Voc est mentindo! -- gritou Tain numa atitude
desesperada. -- Por que est fazendo isso comigo? POR
QU??
     -- Saia da universidade. Eles querem voc.
     A linha ficou muda.
     Tain sentia a blis subir  garganta. Sua respirao
entrecortada e o suor no seu rosto dava a entender que seu
organismo estava fora de controle. Correu ao pequeno
banheiro dentro do estdio e vomitou dentro do vaso sanitrio.
Ficou ali por um minuto. Ouviu a msica terminar a passar para
a outra faixa do mesmo CD. Ela no se importava no
momento. O que mais queria agora era se recompor, pensar e,
se possvel, afastar a lembrana daquela voz.
     No pode ser. Eles no podem estar mortos! Pensou ela. Por
que eles? Por que eu?
     Simplesmente aquilo era algo que no podia compreender.
     Eles querem voc.



     A espera por Felipe Nascimento era angustiante. Tain
tentava conter o tremor de seu corpo e o turbilho em sua
mente. Suas mos estavam inquietas e seus dedos

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matraqueavam descontroladamente. Ficou no estdio at que
Lino Lopes, o radialista da prxima programao chagasse. Ele
iniciou seu programa e conversou com ela coisas banais.
     Meia hora se passou e Felipe no tinha aparecido.
     -- Tenho que ir embora -- disse ela tentando impor um
tom de tranqilidade  sua voz.
     -- Certo, at mais -- disse Lino Lopes acenando. -- Tome
cuidado.
     Ela fitou-o por um momento estudando-o.
     Por havia falado aquilo? O que queria dizer? Indagou a si
mesma.
     Eles esto por toda parte.
     Achou melhor deixar o estdio. Mas ao chegar l fora viu
apenas um imenso deserto. Ela sentiu o frio da noite mida e
logo sentiu como se olhos estivessem sobre ela novamente.
     Trs j foram. Voc vai esperar mais o qu?
     Por onde deve andar Felipe Nascimento? Quis
desesperadamente saber.
     Ela comprimiu os olhos, respirou profundamente e iniciou
uma nova corrida para seu dormitrio.




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             CAPTULO TREZE
     -- ELES ESTO MORTOS! FOI O QUE ELA DISSE! Eu no
consigo parar de pensar nisso -- choramingava Tain com o
rosto entre as mos. Estava na sala do diretor sob os olhos
astutos de Robson Saldanha e Manoel Cristovan. O diretor
Augusto Pires estava como sempre coando o queixo e com ar
especulativo.
     A secretria entrou na sala trazendo um copo com gua e
entregou  jovem que transparecia um nervosismo quase
incontrolvel. Tain entrara na sala do diretor assim que soube
que este tinha chegado  Belinne. Felizmente para ela Robson
Saldanha e seu assistente j estavam presentes.
     -- No consegui dormir a noite inteira. Como
conseguiria? -- ela acrescentou. -- Aquela voz no saiu da
minha cabea. Ainda posso ouvi-la dizer que meus amigos no
desapareceram. Simplesmente fizeram com que eles
desaparecessem.
     -- Tente se acalmar, Tain -- pediu o diretor de onde
estava. -- voc no pode dizer que algum morreu s por causa
de um telefonema...
     Ela tomou a gua de uma s vez e disse:
     -- Pode at ser, senhor, mas no vou ficar calma at meus
amigos aparecerem ou quando tudo isso estiver resolvido.
     -- J conversou com seus amigos sobre esse telefonema?
-- quis saber o investigador.
     -- No, Camila j estava dormindo quando cheguei ontem
 noite. Hoje de manh ela se levantou da cama e antes que eu
me decidisse se falava ou no alguma coisa ela j tinha sado.
Acho que no falei nada para poup-la.
     -- Poup-la de qu? -- perguntou Manoel Cristovan, o
assistente.
     Tain suspirou e contou sobre o que Camila havia ouvido
num dos corredores da universidade. Por fim Manoel lamentou:
     --  uma pena que ela no tenha visto quem eram essas
pessoas.
     -- . Infelizmente ela no viu ningum -- confirmou
Tain.
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      O diretor subitamente ergue-se de sua poltrona e fitou o
investigador e seu assistente.
      -- Quero que solucionem esses desaparecimentos o mais
breve possvel. No quero que descansem. Contratei vocs
porque sei que so os melhores, por isso faam jus  sua fama.
No quero rumores na minha universidade. -- Voltou-se para a
jovem. -- Tain, quero lhe pedir que no fale nada a ningum,
nem mesmo com Camila. Vamos deixar que os responsveis
por esclarecer tudo isso faam o seu trabalho -- aquela indireta
fez Robson Saldanha se mexer na cadeira --, o que espero que
seja rpido, e depois veremos o que acontece.
      Um momento de silncio se instalou no recinto at que
diretor falou novamente:
      -- Enquanto isso, Tain, gostaria de lhe perguntar se no
gostaria de deixar a Belinne... Pelo menos por enquanto. Voc
est nitidamente abalada... com essa pessoa ligando para voc...
      Os olhos de Tain se arregalaram como que no
entendendo a questo. Depois sacudiu a cabea.
      -- No, negativo! -- disse ela tentando controlar seu tom
de voz. -- No posso deixar meus amigos assim... No posso
deixar meu programa na rdio...  o meu sonho que est em
jogo tambm.  a minha vida! No posso sair daqui sem
entender tudo isso... O porqu de eu estar envolvida nisso sem
ter a mnima idia do que se trata.
      -- Tain -- Manoel Cristovan chamou a ateno da moa
--, quero que me permita tomar nota de algumas coisas...
Ahmm... A seu respeito de seus amigos, parentes. Talvez haja
algo que at voc mesma tenha deixado escapar ou no sabe.
      Ela respirou fundo e deu de ombros.
      -- No acho que v encontrar algo que eu no saiba, mas
tudo bem. Se precisar de algo estarei  disposio.
      -- Diretor, quero que me responda s mais uma coisa --
disse o investigador Saldanha. -- Perguntei se o senhor j havia
sabido de alguma coisa a respeito de haver no campus grupos
satanistas...
      Augisto pires emendou:
      -- E eu disse que havia vrios grupos religiosos por aqui,
mas que no estava na minha alada saber quais eram ou quem
eram.
      -- Exatamente. Mas deixe-me perguntar outra coisa: no
soube de algo parecido com isso que tenha acontecido nessa
universidade antes que o senhor tomasse posse da diretoria?

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     -- No -- reservou-se o diretor a responder.
     -- Nada relacionado a nenhum dos alunos passados?
     -- No, absolutamente.
     Robson Saldanha suspirou, todavia no deixando escapar
sua frustrao.
     -- Certo -- disse ele. -- Manteremos o senhor informado.



     Ao sair do prdio da diretoria e sentir o calor do sol em
sua face, o primeiro rosto conhecido que viu entre os muitos
universitrios transeuntes pelo campus naquela manh de
domingo foi o de Felipe Nascimento. Ele veio caminhando em
sua direo com expresso sria. Parecia preocupado. Mas ela
deu as costas para ele e caminhou tentando se afastar.



     Ela sentiu quando lgrimas mornas escorreram pelo seu
rosto. Com as costas das mos enxugava-as, mas elas teimavam
em rolar. Deitada sobre a cama Tain apenas se deixava ficar ali
querendo pensar em nada. Que bom se fosse assim, ela pensou.
Fechar os olhos e apagar, dar um "delete" temporrio nos
pensamentos e lembranas.
     O que estava acontecendo? Valdir, o professor Gilberto,
Virgnia... Pessoas que ela conhecia, que estavam por perto. Ela
carregaria uma maldio consigo? O que mais explicaria aquilo?
Pura coincidncia?
     Gostaria tanto de obter respostas... Gostaria tanto de ter
alguma coisa em que se agarrar...
     Pensou em Felipe Nascimento. Por que ele? O que ele pode
significar para mim? Ela se indagou. Talvez nada. Talvez algum
pelo qual seu corao e sua alma haviam simpatizado.
     Suspirou e lgrimas desceram de novo. Afinal por que
estava chorando? Pela tristeza... Solido... Insegurana... ou
por causa daquela dor terrvel que acabara de brotar em suas
tmporas?
     Limpou novamente os olhos e rosto. Estava satisfeita por
Camila no estar ali. Ela no precisava ver o que estava
acontecendo com a companheira de quarto. No mesmo.
     Tain olhou na direo da janela do aposento. Estava
coberta por uma cortina. Assim era melhor. Os raios do sol no

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penetravam. Para ela o dia estava parecendo noite. Achava
melhor assim. Era o que ela queria. Aquilo a ajudaria a dormir.
Dormir. Dormir todo aquele dia. Talvez a vida para ela fizesse
algum sentido na manh seguinte. Ento o melhor para ela era
dormir... Mesmo que no estivesse com um pingo de sono.



     Olhava fixamente para o punhal de ouro em suas mos.
Era uma parte do poder que "ele" lhe havia concedido. Bastava
olhar para aquela arma e chamar seu nome, ento seu senhor
logo se materializava s suas vistas.
     Seus olhos brilhavam ao pensamento que em breve
experimentaria uma fora que jamais imaginaria, algo que
ningum nunca vira antes. J tinha uma poro dentro de si,
mas queria mais, muito mais. Jamais lhe poderiam matar depois
de cumprir sua parte no "contrato". Nunca iria morrer. Nunca.
     Sua risada foi alta. Sabia que agora faltava pouco. Somente
mais dois e a pea principal. Sim, a pea fundamental: Tain.
     A risada ecoou novamente enquanto ergueu o punhal
chamou o nome do prncipe das trevas.




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                   Escrevendo...
      No fim do corredor eu j no enxergava nada. At que lit,
meu guia, abriu uma porta que revelou uma sala toda vermelha. A
iluminao era escassa e tudo o que pude ver foi uma pequena
mesa no centro da sala. Aproximamo-nos da mesa e vi uma folha
de papel sobre ela. Parecia um contrato, mas eu pude visualizar
bem a palavra PACTO em letras grandes logo no topo da folha.
Olhei para meu guia e ele me disse para assinar. Pedi uma caneta
e lit riu. Disse-me que aquele pacto era "especial" e que ao
assin-lo eu estaria entregando minha vida ao Rebelde, por nome
Lcifer, aquele que tinha me dado os poderes que eu havia pedido.
Lembrou-me que ele havia sido leal a mim, por isso eu deveria ser
leal a ele. Insisti na caneta. Meu guia pegou minha mo esquerda e
furou meu dedo indicador e disse que aquele pacto s valeria se
fosse assinado com sangue.
      Com sede de adquirir mais poder no hesitei em assinar.
Escrevi meu nome no papel e logo ouvi a gargalhada de lit
Senn. Como num estalar de dedos voltei ao meu corpo e percebi
que dali por diante minha alma no me pertencia mais.




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         CAPTULO QUATORZE
     A CAMPAINHA DA UNIVERSIDADE SOOU novamente na
manh de seguinte. Era hora de voltar  rotina das aulas, depois
de um final de semana nada agradvel, pensou Tain. Ela sentia
olheiras em seu rosto, e s esperava que no estivessem to
evidentes para que as pessoas viessem a perceber. Mas
certamente estava pattica. Pelo menos se sentia assim. A
cabea doa, os olhos ardiam, a garganta parecia estar seca como
um deserto, mesmo depois de beber uma meia dzia de copos
com gua.
     Chegou  sala de aula e notou que seu dia no iria
melhorar, pois o olhar de clera de Jorge Silva estava
novamente sobre ela. Sentiu um imenso impulso de se dirigir
at ele e dar-lhe o soco no rosto, mas o que adiantaria? O dio
dele s iria crescer em relao a ela. E quem disse que ela no
levaria a pior? Jorge Silva era forte e externava uma aparncia
nada amigvel. Por esse motivo ela baixou o olhar mais uma vez
e sentou no lugar de sempre.
     Abriu o caderno, mas um lampejo na mente a fez congelar
no tempo.
     Jorge Silva.
     Ele poderia ser suspeito de algo? Poderia estar envolvido
de alguma forma no que estava acontecendo?
     Voltou-se para fit-lo e se certificou que o olhar dele ainda
estava sobre ela e com o mesmo furor de antes. Estaria ele
querendo prejudic-la? Perguntou-se. Levou os olhos
novamente para o caderno.
     ...Seus amigos no desapareceram. Simplesmente fizeram
com que eles desaparecessem...
     Estaria ele tomando parte no desaparecimento de meus
amigos? Enredado com a tal seita satnica? O que querem,
afinal? Tain sentiu seu corpo tremer e o estmago embrulhar.
     Saiu correndo sala afora, direto ao toalete para tornar tudo
o que comera no caf da manh para fora.




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     Saldanha observava atentamente o livro de Digenes
Coelho em suas mos. At ento era o livro mais sombrio que
havia lido na vida. Em cada expresso escrita pelo autor,
Saldanha podia sentir um estranho calafrio percorrer-lhe o
corpo e eriar-lhe cada plo.
     Ele se empertigou numa poltrona no quarto separado
especialmente para ele na universidade. Manoel estava fora,
sondando pelo campus e ele estava ali, consumindo e sendo
consumido pelas pginas sombrias daquele volume satnico.
Saldanha respirou por um instante. Seu instinto lhe alertava que
podia haver mais do ele imagina naquele livro. Estava lendo
mentalmente a pgina 58:
      "A magia -- como dizia Aleister Crowley (1875-1947), o
famoso mago ingls --  a Cincia e a Arte de provocar mudanas
de acordo com a Vontade. A Magia  diferente da
bruxaria/feitiaria, pois no necessita de elementos materiais tais
como amuletos, folhas, pirmides e outras pedras, etc. A Magia
est dentro de todos ns, basta almej-la".
      Saldanha se perguntou o que poderia custar a algum que
almejasse tal magia. Seu sangue? Seus bens? Sua vida? Seu
futuro? Sua alma?
      Continuou lendo at chegar a um ponto curioso.
     "A criao da Igreja de Sat deu-se em 30 de Abril de 1966,
por Anton Szandor La Vey, na Califrnia, Estados Unidos. A
partir de ento, o Satanismo passou a contar com rituais
especficos, buscando criar verses prprias da Magia Ritual e da
Magia Sexual, alm de ter sua prpria verso da Missa Catlica,
chamada MISSA NEGRA".
     "Na corrente da Igreja de Sat, no se prega o sacrifcio
animal, substitudo pelo orgasmo sexual; o sacrifcio humano
inexiste, ao menos com a pretensa vtima "ao vivo" -  aceitvel
realizar um ritual visando a morte de outrem, que, ento, ser
uma "vtima sacrificial". Embora no seja imolada num altar, h
alguns Satanistas que praticam a imolao de pessoas. Portanto,
os Satanistas modernos podem vir a realizar sacrifcios humanos,
desde que sejam apenas na forma de rituais representados de forma
teatral. Isto , o sacrifcio  de forma simblica, apenas".
     Saldanha se prendeu aquele pargrafo por alguns minutos.
Leu e releu vrias vezes. Embora no seja imolada num altar, h
alguns Satanistas que praticam a imolao de pessoas. Isso
significava que pessoas poderiam estar sendo imoladas. Mas por
outro lado, o livro ressaltava que "o sacrifcio  de forma

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simblica, apenas". Saldanha suspirou ruidosamente. Eram
pistas difceis de seguir. Continuou a ler at chegar em outro
ponto que chamou-lhe a ateno intensamente:
     A Magia no Sistema da Golden Dawn (Aurora Dourada) 
uma fuso rgida da Cabala prtica com a Magia Greco-Egpcia.
Seu sistema complexo de Magia Ritual  firmemente baseado na
tradio medieval Europia. H uma grande nfase na Magia dos
Nmeros. Os paramentos rituais so de uma impressionante
riqueza simblica, bem como os rituais so bastante variados
de acordo com a finalidade e o grau mgico dos participantes.
Suas iniciaes so por graus, comeando pelo Nefito (0=0),
indo at os graus secretos (6=5 e 7=4), alcanados, e
conhecidos, por poucos. At h bem pouco tempo, fora da
Ordem pensava-se ser o 5=6 o grau mximo da Aurora Dourada.
     Saldanha prendeu a respirao, imerso aos pensamentos
que lhe surgiram repentinamente. Tentou organiz-los
enumerando-os coordenadamente:

    1) O satanismo  um sistema complexo;
    2) Os rituais so variados e diferem de acordo com a
       finalidade e o grau dos participantes;
    3) H satanistas que praticam a imolao de pessoas.
    4) Satanistas modernos podem vir a realizar sacrifcios
       humanos, desde que sejam apenas na forma teatral.

     Satanistas modernos... Pensou o investigador. Graus
secretos... Rituais variados...
     Os pensamentos de Saldanha estavam a mil por hora,
incontrolveis; ora ordenados, ora desordenados, alternando
entre conexes existentes naquilo que j tinha lido. MAGIA...
Era o foco central do livro...
     Provocar mudanas de acordo com a vontade.
     Satanistas... Graus... Rituais. De alguma forma sua mente
classificava tudo naquela ordem. Tudo depende dos graus. Os
rituais variam de acordo com o grau.
     E se houvesse algum na universidade com um grau
avanado na ordem? Ponderou Saldanha. Um grau secreto onde
os sacrifcios humanos poderiam ser reais... aceitveis...
indispensveis?
     Suas iniciaes so por graus, comeando pelo Nefito, indo
at os graus secretos, alcanados e conhecidos por poucos.


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      O corao de Saldanha parecia que explodiria em alguns
segundos de to acelerado que batia. Ele suspirou e tentou
aliviar a tenso, mas um pensamento sombrio invadiu-lhe a
mente:
      E se as pessoas estiverem realmente desaparecendo porque
esto sendo assassinadas, como haviam alertado Tain? Deus do
Cu! Ele tentou afastar aquele pensamento. Levou a mo  testa
e sentiu que suava. Engoliu a seco e passou a ler mais alguns
pargrafos, porm, ao passar os olhos por algumas letras sentiu
que seu corao iria parar.
      "Aleister Crowley disse `no existe Deus seno o homem'.
Essa j era a verdade em que eu acreditava cabalmente antes
mesmo de minha formatura na universidade Belinne em 1966..."
      Afinal Digenes Coelho tinha estudado e se formado na
Belinne. Com que nome? Quem era ele? Coincidncia ou no
aquilo tinha que ser passado a limpo.
      Imediatamente Saldanha se ergueu da poltrona e saiu do
quarto.



      Os olhos argutos de Manoel Cristovan observavam
sutilmente os contornos da face de Tain, que denotava uma
ligeira melancolia. Manoel no se contentou em apenas
observar.
      -- Voc no parece estar muito bem.
      -- Realmente no estou no meu melhor dia, mas devo
confessar que ontem foi ainda pior.
      -- Sinto muito.
      -- No se preocupe, isso vai passar...  o que eu espero.
      Manoel esboou um leve sorriso, tentando descontrair.
      -- Certo, como lhe falei na sala do diretor preciso de
algumas informaes para incluir na investigao. Informaes
a seu respeito, j que so pessoas ligadas a voc que esto
desaparecendo e tambm por causa desses telefonemas...
      -- No quero nem lembrar deles.
      -- Mas infelizmente temos que falar sobre eles tambm.
      -- Eu sei -- assentiu Tain.
      Manoel Cristovan segurou firme seu bloquinho de notas e
encostou a ponta da caneta sobre ele, pronto para escrever.



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      -- Primeiro quero saber se voc tem inimigos na
universidade. H algum que voc acha que poderia lhe querer
algum tipo de mal?
      Na mente dela surgiu imediatamente o rosto de Jorge
Silva.
      -- H um rapaz... Jorge Silva. Ele passou a implicar
comigo depois que consegui a vaga na rdio Belinne. Acho que
ele  o nico.
      -- Tem certeza?
      Tain deu de ombros e exclamou:
      -- Tenho! Procuro no fazer mal a ningum...
      -- Calma, Tain -- tranqilizou-a Manoel --, estou apenas
sondando as informaes. Talvez haja algo que possamos
detectar em meio s perguntas. Tente apenas respond-las da
forma mais precisa possvel.
      Ela respirou profundamente.
      -- Certo. Perdoe-me -- ela tomou uma postura mais firme
para continuar. -- Ahmm... No conheo mais ningum que
possa ter algo contra mim por aqui.
      -- Muito bem, e quanto a sua famlia? Algum poderia
querer lhe prejudicar de alguma maneira para afetar algum
parente seu? Por acaso h alguma ovelha negra na famlia...
"tem irmos?"
      -- No! Somos s minha me e eu... Meu pai faleceu j
alguns anos.
      Manoel escreveu aquilo. Fitou Tain por um momento
antes de perguntar:
      -- Como  seu relacionamento com sua me?
      -- timo, apesar da distncia. Sempre tivemos um forte
lao afetivo. Ela sempre liga pra mim perguntando se tudo est
bem, pedindo para eu me cuidar... Coisa de me mesmo.
      -- Entendo. Onde ela mora?
      -- Gramado -- o rosto de Tain se iluminou de repente.
-- Ah! Tenho uma foto dela aqui no meu caderno. Uma foto
de quando ela era mais jovem -- Ela abriu o caderno e tirou
uma foto. Parecia antiga.
      Manoel deu uma olhada.
      -- Por que anda com essa e no com uma mais recente?
      -- Dona Ana Braga no aprecia muito tirar fotos, e afinal
gosto muito dessa. Olhando para ela me faz imaginar o quanto
vou ser parecida com minha me quando ficar mais velha.
      -- Vocs j se parecem bastante -- ele disse.

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     Manoel deu mais uma olhada atenta na foto e escreveu o
nome de Ana Braga no bloquinho de anotaes.
     -- No que isso vai ajudar nas investigaes? -- indagou
Tain.
     -- Qualquer coisa pode ajudar, j que ainda no temos
certeza de nada. Pessoas no esto mais nas dependncias da
universidade e  s isso que sabemos no momento.
     -- Mas tem os telefonemas...
     Droga! Eu tinha que lembrar disso? Reclamou Tain para si
mesma.
     -- No temos provas desses telefonemas, e sem provas  o
mesmo que dizer que eles nunca aconteceram realmente. Outro
fato  que ele podem no significar nada.
     O investigador Saldanha se aproximou rapidamente e
parou de frente para os dois. Sua aparncia era de excitao.
Parecia ter pressa de algo.
     -- Ol, Tain.
     -- Tudo bem? Alguma notcia nova?
     -- Mais ou menos. -- Virou-se para Manoel. -- Preciso
que voc venha comigo.
     -- Agora?
     -- Sim. Acho encontrei algo interessante.



     A sala de registros da universidade Belinne era bem
organizada. No era to espaosa, mas quem estivesse no
interior do recinto poderia jurar que era muito maior do que os
metros quadrados descritos na planta da instituio. Havia
alguns arquivos de metal juntos num canto da sala, duas mesas
bem organizadas no centro, com um telefone sobre uma delas e
um computador com acesso  Internet completando o
ambiente.
     Saldanha vasculhava os papis dentro dos arquivos de
metal, enquanto deixava que Manoel se encarregasse do
computador.
     -- Infelizmente posso ver que ainda esto informatizando
os registros dos alunos -- disse Manoel para o investigador.
     -- Ouvi dizer que hackers tentaram invadir o computador
e apagar todos os registros, mas no conseguiram deletar todos
-- comentou Saldanha. -- por isso a universidade est repondo
as informaes.

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     -- E quanto ao backup? No foi realizado?
     -- Parece que foi perdido... Ou extraviado.
     Manoel fez uma careta.
     -- Muito conveniente, no acha?
     O investigador apenas concordou com aceno de cabea.
     Saldanha abriu mais uma gaveta e retirou mais algumas
pastas. Verificou cada uma delas e jogou-as sobre a mesa.
     -- O arquivo de Digenes deve estar por aqui. Segundo o
livro dele, o ano  1966, que por coincidncia  o ano em que a
igreja de Satans foi inaugurada.
     -- Ele pode estar blefando, algo como marketing.
     Saldanha concordou mais uma vez e por fim suspirou.
     -- Ele pode ser qualquer um. Ser quase impossvel
deduzir uma conexo. Um nome parecido, uma idade baseada
nas experincias relatadas no livro...  atirar no escuro.
     Manoel ergueu os olhos do monitor e observou o
investigador.
     -- Talvez eu possa encontrar algo mais sobre ele na
internet. D-me uma hora.
     -- Certo. Enquanto isso terei uma conversa com o diretor
Pires. Talvez ele saiba algo sobre isso.
     -- Aproveite para falar com o diretor sobre um aluno
chamado Jorge Silva. Ele pode estar envolvido em algo, pelo
menos  o que Tain acha.
     -- Por qu?
     -- Ele a culpa por ter ganhado o cargo na rdio da
universidade. Parece que ele a tem ameaado e pode estar
querendo prejudic-la.
     -- Falarei com ele -- disse o investigador. -- Faa um
favor para mim: coloque estas pastas de volta no arquivo. -- Ele
acenou e saiu da sala.
     Manoel respirou fundo.
     -- Vamos trabalhar -- balbuciou se levantado e
caminhando em direo s pastas em cima da mesa. Foi quando
seus olhos se depararam com uma pasta entreaberta.
Lentamente pegou-a nas mos, observou mais atentamente e
quase no acreditou. Era o registro da me de Tain. A foto era
quase idntica a que Tain havia lhe mostrado. Ana Braga
parecia estar perto dos trinta anos naquela foto, mas externava
beleza e firmeza nos traos do seu rosto. Observou o ano
escrito na foto: 1983.


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      Ana Braga tinha estudado na universidade Belinne? Tain
havia lhe escondido aquilo, ou de fato desconhecia aquela
informao?
      Manoel virou a pgina e tudo pareceu se complicar ainda
mais para ele. O nome escrito no registro da me de Tain e
assinado no final da folha por ela mesma no era Ana Braga, e
sim... Sueli Fraga.



     -- Temo que o senhor esteja me ocultando alguma
informao, talvez valiosa -- desabafou Saldanha fitando o
diretor nos olhos. Colocou o livro sobre a mesa e respirou
fundo. -- No livro, Digenes relata que estudou aqui.
     O diretor Augusto pires abanou a cabea e se ergueu
abruptamente de sua confortvel cadeira atrs de sua mesa.
     -- Assim como o senhor, eu no tinha conhecimento disso
at agora! -- Afirmou o diretor. -- Como eu poderia saber?
Como voc disse, o homem era um mago e ningum sabia de
fato sua identidade.
     -- De uma coisa estou certo: Digenes est diretamente
ligado ao grupo ou grupos satanistas que atuam na Belinne.
     -- Est querendo dizer que ele deixou... discpulos por
aqui?
     -- Temo que sim. E pelo que li em seu livro, um discpulo
bem avanado pode vir a realizar coisas... -- Saldanha tentou
ser mais especfico. Retificou: -- Talvez rituais de sacrifcio
para mudar algo a seu favor.
     Augusto Pires ficou em silncio. Voltou para trs de sua
mesa e sentou novamente. Procurou ser cuidadoso ao
perguntar:
     -- Acha sinceramente que... as pessoas que desapareceram
esto sendo... -- ele no pode continuar.
     Saldanha emendou:
     -- Sacrificadas? No posso afirmar nada agora. No h
nenhum indcio, nenhuma pista, rastro ou coisa parecida das
pessoas que sumiram e isso  preocupante.
     A expresso que Saldanha viu no rosto do diretor Pires
levou-o a perceber que o acadmico no tinha gostado da
palavra "preocupante".



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     -- Eu realmente estou muito preocupado, investigador. E
o pior: o senhor no me trouxe nada palpvel sobre o caso at
agora. Estamos apenas trabalhando em cima de suposies...
     -- No gosto de me precipitar, diretor -- cortou o
investigador. Ele podia sentir a tenso suspensa no ar. --
Procuro realizar meu trabalho com exatido e no momento
certo ver o resultado que lhe satisfar.
     O diretor bufou em silncio.
     Saldanha se adiantou com mais uma pergunta:
     -- Gostaria de saber se o senhor conhece um dos alunos...
 Seu nome  Jorge Silva. Soube que ele tem uma rixa com
 Tain, e como todos os desaparecimentos esto ligados a ela,
 supomos que talvez ele esteja envolvido.
     -- Jorge Silva  um jovem estouvado s vezes, j tivemos
 reclamaes por culpa de seu gnio, mas suas notas se
 mostram bastante razoveis. Mas quer saber se acho que ele
 seria capaz de ferir algum? Sinceramente: sim.



     Os olhos de Manoel Cristovan estavam vidrados no
monitor, enquanto seus dedos martelavam sutilmente o
teclado. O navegador da internet estava aberto num site de
busca local e o campo de procura estava sendo preenchido com
o nome da me de Tain, Ana Braga. Em trs segundos uma
nova pgina apareceu com o aviso:

          NENHUMA OCORRNCIA ENCONTRADA.

    Manoel no hesitou para digitar em seguida no campo de
busca o nome Sueli Fraga e clicar no boto "Procurar". A
mensagem que surgiu na abertura da prxima pgina foi:

           ENCONTRADAS CINCO OCORRNCIAS.

     Num espao mais abaixo da mensagem estavam as notcias
e links apontando para as pginas relacionadas ao nome Sueli
Fraga. Manoel clicou num link e uma pgina de notcias se
abriu. Ele aproximou o rosto do monitor do computador para
certificar-se daquilo que estava escrito ali. Minha nossa!!
Sussurrou ele. Hesitou por um momento, ento puxou o
celular do bolso da cala e digitou algumas teclas.

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     Tain esticou o pescoo e observou atravs do vidro na
porta do estdio que Felipe nascimento no estava  frente do
programa Espao Divino naquele dia. Outro rapaz estava em
seu lugar.
     Ele notou a presena dela e se ergueu da cadeira em frente
aos controles. Abriu a porta e sorriu.
     -- Voc deve ser Tain Braga -- ofereceu-lhe a mo.
     -- Sim -- ela o cumprimentou apertando-lhe a mo
suavemente. -- E voc ...?
     -- Sidney Romero. Quando Felipe no pode vir eu tomo o
lugar dele.
     -- Sei... -- ela mordeu o lbio, teimando consigo mesma
se faria a pergunta ou no. Perguntou: -- E por que ele no
veio? Aconteceu alguma coisa?
     Sidney voltou aos controles e de l mesmo falou:
     -- Nada demais. Apenas uma forte dor de cabea.
     -- Essas dores de cabea so horrveis -- disse Tain
lembrando do dia anterior. Estava feliz que tinha sumido.
     -- J estou terminando -- ele comunicou apertando alguns
botes.
     Tain apenas acenou com a cabea e abriu um sorriso
amarelo.



    Os olhos de Manoel Cristovan estavam vidrados no
monitor. Sondava cada link, notcia, foto que estivessem ligados
 Sueli Fraga. A investigao iria mudar totalmente de rumo.
Seus dedos batiam nas teclas furiosamente, procurando mais
respostas, mais conexes. Olhou para o celular em cima da
mesa. Pegou-o novamente e digitou mais algumas teclas.
    Tudo iria mudar, pensava ele entusiasmado. Tudo.



     Para a felicidade de Tain o telefone no parava de tocar.
Ela sentia que a programao estava agradando os ouvintes. As
mensagens de incentivo eram constantemente ditas a ela e isso


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                      NAASOM A. SOUSA

fazia com que sua mente e corao esquecessem por alguns
instantes a tristeza que estava sentindo.
     Ela continuou operando os botes, aparelhos, microfone.
Aquilo irrefutavelmente era sua vida. Era aquilo que a realizava
profissionalmente, e estava certa de que se tornaria em uma das
maiores radialistas da cidade.
     Mais um telefonema.
     Ela deixou os controles e trouxe o fone para perto do
queixo.
     -- Sentimento Maior. Aqui voc faz a programao.
     -- Cada vez que ouo sua voz fico extasiado, sabia?
     Ela reconheceu aquela voz rapidamente.
     -- Michel.
     -- Ora-ora. Estou feliz que j reconhece assim minha voz.
     Ela sorriu.
     -- No posso deixar que meu admirador se frustre
pensando que no ligo pra ele.
     -- Pois em comemorao a isso tenho um novo poema para
voc.
     -- timo. Manda ver.
     Ela ouviu um suspiro antes da voz de Michel se tornar
suave, quase melanclica. Ele recitou:
     -- Minha curiosidade me leva  loucura. O que voc tem de
to especial que me prende tanto? Investigo sobre voc e no chego
a nenhuma concluso. Da penso que talvez seja sua doura.
Talvez. O certo  que isso vira a minha cabea e a dor que sinto 
tamanha que parece que tudo  minha volta comea a escurecer.
Voc tira minha respirao.
     Silncio.
     Tain esperou um momento.
     -- Michel? Ainda est a?
     -- Sim. Gostou da poesia?
     -- Sim... -- Ela no tinha certeza. Hesitou por um
momento e perguntou: -- Diga-me: qual o seu poeta preferido?
     -- Por que a pergunta?
     -- Os seus poemas... No leve a mal, mas eles parecem...
gticos.
     -- Voc acha? -- Pela voz dele podia-se perceber que
estava rindo.
     -- Eu acho, sim. Pra falar a verdade eu lembro de alguns
trechos de cada um deles.
     -- Brincadeira!  verdade? Olha, no sei se devo acreditar.

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                     NAASOM A. SOUSA

     -- Vejamos... Da primeira vez que falou comigo voc
disse que a emoo  avassaladora.  como garganta cortada
que sufoca e entontece a alma, fazendo parar o corao,
fazendo a pessoa mais alegre ficar triste. Da segunda vez falou
algo sobre o sentimento sufocar toda cincia e chegar a mat-la
e ento veio com um fio cortante que rasga alguma coisa; na
terceira vez recitou algo sobre uma rosa que ao arrancarmos do
cho, o corao pra e ela sufoca.
     -- Puxa! Voc  boa de memria -- comentou Michel.
     Tain sorriu e abanou com a cabea.
     -- Tenho um amigo que  dez vezes melhor que eu... --
ela se pegou falando de Valdir. Em um segundo os trs
desaparecidos voltaram a povoar a mente dela e um aperto no
corao estava novamente a sufoc-la. Eram trs pessoas que
faziam parte de sua vida de alguma maneira. O alegre Valdir, o
sbio professor e a bela Virgnia. Como o lampejar de um flash
trs palavras vieram-lhe  lembrana:
     Alegre... Cincia... Rosa.
     Trs palavras; trs poemas; trs pessoas desaparecidas.
     -- Meus Deus! -- As palavras saram como um grunhido.
As pessoas desapareceram sempre depois de Michel telefonar, ela
refletiu.
     -- O que foi? -- Michel voltou a falar. Tain se perguntou
por quanto tempo ficou ponderando consigo mesma at chegar
quela concluso que para ela no parecia to absurda: Michel
estava por trs dos desaparecimentos.
     -- Meus amigos... -- ela balbuciou, j com lgrimas nos
olhos. -- O que voc est fazendo com eles? O que...
     Subitamente a linha deu um estralo e ficou muda. Michel
desligara. Tain engoliu a seco, tentando controlar seus nervos,
pr seus pensamentos em ordem. Respirou fundo e enxugou as
lgrimas.
     Os poemas. Seriam na realidade pistas de quem iria
desaparecer a seguir? Talvez. Ela cerrou os olhos, tentou se
concentrar e lembrar do ltimo.
     Minha curiosidade me leva  loucura. O que voc tem de to
especial... Investigo sobre voc... Da penso que talvez seja sua
doura. Talvez...
     Ela suspirou. Abriu os olhos.
     Investigo sobre voc...
     Quem est me investigando? Pensou. Robson Saldanha...
Manoel Cristovan...

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                     NAASOM A. SOUSA

     Ela levou a mo  boca no instante em que pensou que iria
gritar e ao mesmo tempo em que seu instinto lhe alertou que
Michel poderia vir ao seu encalo. Sem hesitar deixou uma
msica tocando e se ergueu da cadeira, abandonando os
controles. Tinha que avisar algum; tinha que dar o fora dali,
pois sentia que algo poderia acontecer a ela tambm.
     O investigador Saldanha e Manoel Cristovan estavam em
perigo. Sua mente avisava-lhe sobre isso ininterruptamente. Ela
abriu a porta do estdio e disparou numa corrida frentica, sem
olhar para o lado sequer.



     Ainda sentado e olhando fixamente para o monitor,
Manoel Cristovan no notou nem ouviu os passos de um vulto
se aproximando pelas suas costas. Sentiu apenas quando um
forte brao laou seu pescoo numa "gravata". Instintivamente,
Manoel tentou no entrar em pnico e se concentrou para no
perder o flego rapidamente. Olhou pelo reflexo do monitor
que algum encapuzado o segurava.
     Apesar de se parecer com um nerd -- que  um
esteretipo que descreve uma pessoa de elevada inteligncia,
atrapalhada e com dificuldades de integrao social, entre
outros adjetivos -- Manoel no nutria exatamente todas as
qualidades mentais de um, e certamente fazia questo de no
carregar suas ms atribuies -- entre elas ser atrapalhado.
Concentrou a quantidade certa de fora no brao direito e
atacou as costelas do oponente com o cotovelo. O agressor
encapuzado gemeu e afrouxou a gravata. Era tudo o que
Manoel esperava. Como um movimento rpido, num golpe de
jud, aplicou um "balo" no oponente e jogou-o por cima do
seu corpo. A pessoa encapuzada deu de encontro com a mesa
onde estava o computador. O monitor espatifou ao cair no
cho. O celular, que tambm estava sobre o mvel, tambm foi
ao cho e escorregou at debaixo de um dos arquivos de metal
no canto do recinto.
     Manoel permaneceu onde estava enquanto a pessoa
encapuzada se recomps rapidamente e ficou em posio de
combate. O assistente de Saldanha logo percebeu que o
movimento era de algum que tinha conhecimento de artes
marciais. Manoel suspirou e no hesitou em tomar posio da


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                     NAASOM A. SOUSA

mesma forma. No iria ser fcil para nenhum dos dois. Desta
vez ambos estavam preparados.
     A pessoa com capuz se precipitou para frente desferindo
um chute ligeiro e violento. Manoel colocou o brao para
absorver o impacto e achou que era a sua vez de ameaar o
outro com um soco. O mascarado tambm soube se defender
muito bem apenas com um movimento de esquiva. Manoel
avanou desta vez com um chute horizontal, mas o oponente se
esquivou mais uma vez e conseguiu em seguida acertar um
chute meticuloso no joelho de Manoel. O assistente gemeu e
no conseguiu se firmar em p na seqncia. Caiu no cho e
levou a mo ao joelho que parecia estar deslocado.
     A pessoa encapuzada, sabendo que a batalha estava ganha,
aproximou-se em silncio e, friamente, com a ponta do seu
calado, chutou fortemente o maxilar de Manoel.
     Manoel estava quase sem sentidos, tudo parecia rodar ao
seu redor, a vista estava turva. Sentiu apenas quando a pessoa de
capuz pegou sua cabea no sentido de gir-la.
     Em um segundo, com um movimento preciso, Manoel
teve seu pescoo quebrado quando o mascarado girou-lhe
totalmente a cabea.
     O certo  que isso vira a minha cabea e a dor que sinto 
tamanha que parece que tudo  minha volta comea a escurecer.
     J sem vida, Manoel Cristovan foi puxado para fora do
recinto.
     Este  o quarto, contabilizava o de capuz. Mas ainda faltam
mais pessoas serem sacrificadas.




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                     NAASOM A. SOUSA




            CAPTULO QUINZE
     TAIN correu at o quarto de Robson. Ofegante, bateu na
porta, chamou pelo investigador e seu assistente, mas obteve
resposta. Certamente ningum estava no interior do aposento.
No hesitou por muito tempo e disparou em direo ao
gabinete do diretor. Eles s poderiam estar l. Que estivessem
l! Torceu.



     As luzes dos corredores at a diretoria aparentavam estar
sinistramente fracas. Ela tentou afastar qualquer pensamento
que a fizesse ficar ainda mais apavorada. Ordenou mentalmente
aos seus ps que corressem ainda mais rpido pelos corredores
desertos. Quando se precisa ver algum ningum aparece.
DROGA! Xingou.
     Enfim rompeu pela porta da diretoria e pegou o
investigador e o diretor desprevenidos. Os dois se assustaram.
     -- Foi ele! Foi ele! -- disse ela j choramingando. --
Michel est matando meus amigos!
     -- O qu?! -- perguntou o diretor se erguendo
imediatamente da sua confortvel cadeira. -- Que  isso,
menina! Quer nos matar de susto? Explique-se melhor, pelo
amor de Deus!
     Ela tomou flego, mas ainda ofegante tentou ser mais
clara:
     -- O rapaz que me liga no programa...  ele quem est por
trs dos desaparecimentos. Descobri isso agora... Ele acabou de
me ligar e, como sempre faz, recita uma espcie de poema meio
maluco, macabro, posso assim dizer, e aps isso as pessoas
desaparecem.
     O investigador Saldanha estudou Tain mais atentamente,
apontou uma cadeira para que ela se sentasse e tentasse se
acalmar, mas logo soube que no adiantaria tentar amenizar o
nervosismo dela diante das circunstncias. Perguntou tentando
transparecer calma:


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                     NAASOM A. SOUSA

     -- Tain... Como voc pode afirmar com tanta veemncia
que esse tal Michel  quem est por trs dos desaparecimentos?
Por que chegou a essa concluso?
     -- Como j falei ele me liga no horrio do meu programa.
Ele me ligou trs vezes e todas as vezes que isso aconteceu uma
pessoa desapareceu depois. Na primeira ligao ele falou de um
amigo, uma pessoa mais alegre que conhecemos -- ela pausou
por um momento. -- ele estava falando de Valdir, que era o
amigo mais feliz que eu tinha do meu lado. Depois disso ele me
ligou novamente e falou de uma pessoa de conhecimento. O
professor Gilberto desapareceu na mesma noite.
     -- Ser que isso no pode passar de uma coincidncia? --
comentou o diretor.
     -- NO! -- murmurou Tain quase num gemido alto. --
No , diretor. Ele voltou a ligar outro dia e falou de
namorados. Namorados, entendeu?! As nicas pessoas que
conheo e que namoram so Virgnia e To. E Virgnia
desapareceu logo a seguir. -- Ela levou as mos  cabea como
que quisesse retirar todos os pensamentos e pressentimentos
nebulosos com elas. -- Podem achar que estou ficando louca,
mas... Mas creio que estou certa. Michel est matando as
pessoas que conheo.
     Houve um instante de silncio no recinto. Robson
Saldanha se conservou pensativo enquanto o diretor levou a
mo ao queixo e props:
     -- Ao contrrio creio que isso no passe de uma
brincadeira que esto fazendo com voc.
     Tain fixou o olhar no diretor. Em seus olhos podia se ver
que uma raiva avassaladora percorreu todo o seu corpo em
segundos.
     -- Desculpe, senhor, mas por favor, pare de se preocupar
com sua universidade uma vez na vida e passe a se preocupar
um pouco mais com as pessoas que estudam nela, pois elas
podem estar morrendo aqui por algum maluco que est a solta!
     Mais um momento em que todos ficaram em silncio
enquanto Tain ainda fuzilava o diretor com o olhar.
     -- Creio ainda que as respostas podem estar nesse livro e
no seu autor -- disse enfim o investigador apontando para a
obra de Digenes Coelho sobre a mesa de Augusto Pires. --
Talvez ele tenha conseguido um seguidor aqui dentro da
universidade que agora est botando as mangas de fora. Vou me
encontrar com Manoel e averiguaremos isso mais a fundo.

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                     NAASOM A. SOUSA

      Subitamente Tain estremeceu e arregalou os olhos
voltando-se para o investigador.
      -- Seu assistente... Onde ele est? -- indagou ela.
      -- Deixei-o na sala de arquivos...
      -- Essa no... Esqueci de dizer que Michel me ligou hoje
de novo e colocou a palavra investigar no poema... -- ela se
ergueu rapidamente. -- Ele pode estar em perigo.
      -- Fique aqui. -- ordenou o investigador antes de sair da
sala em disparada.



      A sala estava como deveria estar: bem organizada.
Organizada at demais na opinio de Robson Saldanha. Os
papis estavam cuidadosamente empilhados. Ele lembrava que
no havia deixado os arquivos daquela forma e curiosamente, o
computador havia sumido. Algum esteve ali alm dele e de
Manoel Cristovan.
      Onde ele poderia ter ido? Saldanha pensou.
      -- Talvez vocs me dem ouvidos agora -- ouviu-se a voz
de Tain  porta da sala.
      O investigador voltou-se para ela e fitou-a com olhar de
desaprovao.
      -- Falei para ficar na diretoria.
      -- Ficar na mesma sala com o diretor Pires? Nem pensar!
-- declarou ela fazendo uma careta de repulsa.
      Aquilo era engraado, mas Saldanha tinha que se preocupar
com Manoel.
      O investigador no pensou muito at meter a mo no
bolso e pegar seu celular. Digitou alguns nmeros e esperou.
Um som agudo repentinamente pode ser ouvido. Saldanha
seguiu o som at debaixo de um arquivo no canto da sala.
Agachou-se e com certo esforo conseguiu alcanar o aparelho.
Era o de Manoel. Tomou-o nas mos e ficou a fit-lo.
      -- Isso  ruim -- resmungou ele.
      -- O qu? -- quis saber Tain.
      -- Esse celular  o amor de Manoel. Ele nunca se separaria
dele.




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                     NAASOM A. SOUSA

     O quarto de Saldanha e seu assistente estava vazio. Os dois
adentraram o recinto e puderam observar o relgio de parede
marcando 23h e 56mim. Ambos trocaram um olhar como que
dizendo que Manoel Cristovan no havia passado por ali nas
ltimas horas.
     Saldanha caminhou at uma escrivaninha que se encontrava
 dois metros de sua cama, bem arranjada pela empregada
contratada pela universidade, e sentou-se a ela. Colocou o
celular do seu assistente sobre o mvel e entrelaou as mos,
permanecendo pensativo. Tain continuou onde estava perto 
porta, fitando-o, tentando buscar no rosto do investigador
alguma pista sobre o que estava conjeturando.
     -- O que faremos agora? -- ela indagou. -- No me diga
que esperaremos amanhecer, porque no agento mais ouvir
isso toda vez que algum some no meio da noite.
     Saldanha no respondeu imediatamente. Pensou mais um
momento e ento voltou o olhar para ela.
     -- Manoel me falou que voc suspeitava de um tal Jorge
Silva. O que tem a me dizer sobre isso?
     Ela no esperou muito para contar:
     -- Ele no engoliu o fato de eu ter conseguido o trabalho
na rdio Belinne. Sempre me olha como se a qualquer momento
fosse partir minha cabea com um machado... Acho ele
perigoso. Muita gente por aqui acha isso tambm.
     -- Voc sabe em qual dormitrio ele dorme?
     -- Com certeza -- respondeu ela.



     As fortes batidas na porta do quarto 132 no prdio de
dormitrios da fraternidade mega-beta fizeram com que
vrios estudantes despertassem no meio do sono. Algumas
cabeas apareceram pelo corredor e notaram que o estardalhao
vinha da frente do quarto de Jorge Silva e Mauro Duarte.
     -- Eles devem ter aprontado alguma -- deduziram alguns.
     -- Agora eles se deram mal -- cochichavam outros.
     A porta foi aberta e um rosto branco e sulcado pode ser
visto. Era um rapaz de aparncia um tanto deprimente. Parecia
doente, mas seu olhar transmitia astcia demasiada. Estava
apenas de calo de time de futebol.
     -- O que quer? -- perguntou ele.
     O investigador Saldanha fitava-o atentamente.

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                     NAASOM A. SOUSA

     -- Jorge Silva est? Preciso ter uma conversa com ele.
     O rapaz estudou Saldanha dos ps  cabea e depois
respondeu.
     -- Ele est, mas...
     -- timo -- cortou o investigador no dando chance para
rodeios --, vista uma camisa e nos deixe a ss para batermos
um papo.
     Mauro hesitou por um momento, ento fez o que Robson
ordenou, em silncio vestiu a camisa. Saldanha entrou e viu
Jorge Silva de bruos sobre a cama. Estava dormindo.
     Mauro deixou o recinto encarando Saldanha. Este apenas
sorriu foradamente para ele tentando transparecer
tranqilidade.
     Voltou-se para Jorge. Podia quase jurar que estava
sonhando. Um lquido pendia do canto da sua boca, ou seja, ele
babava. Saldanha lhe deu dois cutuces fortes no brao. Jorge
Silva acordou assustado. Sentou-se de repente.
     -- O qu... Que est havendo aqui? Quem  voc?
     -- Acalme-se. Sou o investigador contratado pela
universidade e quero apenas ter uma conversa com voc.
     Jorge passou as mos pelo rosto. Suspirou.
     -- Caramba! Voc quase me matou de susto.
     -- Perdoe-me, no era minha inteno. Mas o que tenho a
lhe perguntar no podia esperar at que voc despertasse por si
s.
     Jorge fitou Saldanha, srio. Ento, subitamente soltou uma
risada. Ergueu-se e caminhou at o banheiro do dormitrio.
     -- Engraado... os donos da universidade sempre querem
controlar as pessoas por aqui, mas ultimamente isso tem se
tornado um saco.
     Saldanha ouviu a torneira da pia sendo aberta. Jorge
continuava:
     -- Sabia que queriam proibir a gente de fumar? Acredita
nisso? -- Jorge apareceu com um cigarro, e logo Saldanha
percebeu que no era comum. Maconha. -- Agora, pra
completar o pacote, acordam as pessoas no meio da noite pra
fazer perguntas.
     Enquanto Jorge solvia e soltava fumaa, Saldanha procurou
uma cadeira para se sentar.
     -- Ouvi dizer que perdeu uma vaga na rdio Belinne para
uma garota -- jogou o investigador enquanto se deixava relaxar
sobre a cadeira.

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                      NAASOM A. SOUSA

     Os msculos do rosto de Jorge Silva se mexeram de um
jeito esquisito. Ele se tornou sisudo e repentinamente soltou
fumaa para cima e apontou para Robson Saldanha.
     -- Voc no sabe, mas aquele professorzinho mexeu uns
pauzinhos para a amante dele. Ela s est l graas a ele. Sem ele
ela no estaria l e quem estaria nos controles seria eu.
     Saldanha tratou de anotar aquilo mentalmente.
     -- Por isso voc a tem ameaado.
     -- Quero ver se meto medo nela... pra ela desistir.
     -- Parece que isso no tem funcionado muito.
     -- No.
     Saldanha respirou profundamente enquanto estudava o
quarto. Era bagunado, mal-cheiroso, perecia mais um depsito
mofado. Saldanha se perguntou como algum assim estaria
numa universidade.
     -- Voc deve saber que pessoas vm sumindo de uma hora
para outra da universidade...
     -- Ouvi alguma coisa sobre isso por a.
     -- O interessante  que so pessoas ligadas de alguma
forma com Tain Braga. Inclusive o professorzinho que voc
falou.
     Jorge estreitou os olhos, soltou a ltima fumaa e jogou o
toco do cigarro de maconha no cho, pisando sobre ele em
seguida.
     -- Acha que eu posso ter sumido com algum deles?
     --  isso que estou tentando descobrir.  por isso que
estou aqui.
     -- No fui eu.
     -- Mesmo?
     -- Sim.
     Saldanha sorriu e disse com desdm:
     -- timo. Agora posso dormir mais tranqilo, no ?
     Jorge no retribuiu o sorriso. O silncio tomou conta do
lugar at que Saldanha se ergueu.
     -- Ento... boa noite -- dirigiu-se  porta. -- Mas antes...
-- parou e voltou-se para Jorge mais uma vez -- gostaria de
perguntar que se voc quisesse alcanar um objetivo  o maior,
aos seus olhos  e tivesse eliminar uma pessoa, voc a
eliminaria?
     Jorge parecia estar pensando em algum quando
respondeu:


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    -- Se o objetivo fosse muito importante para mim...
Quem sabe.
    Robson acenou com a cabea e deu as costas para Jorge.
    -- Vou ficar de olho em voc, rapaz -- avisou deixando o
quarto.



     Tain estava na entrada do prdio junto ao guarda -- um
dos que faziam a vigilncia na universidade -- chamado Adelmo
Solrio.
     Quando Saldanha saiu do prdio pegou-a pelo brao e a
fez caminhar junto a ele.
     -- Vamos, temos algo a conversar.
     -- Boa noite, seu Adelmo -- ela se despediu se
distanciando. O guarda apenas acenou. -- O que houve? --
Indagou para Saldanha.
     -- Descobri que ele te ama.
     -- Est brincando, no ?
     -- Humor negro.
     -- Numa hora como essa  mesmo. Mas ele  suspeito?
     -- Todos so. Mas ele  um em potencial.
     -- Isso  timo.
     -- Disse que voc e o professor Gilberto eram amantes e
por isso conseguiu o emprego na rdio.
     Tain fez cara de ofendida e abanou com a cabea.
     -- Muitos alunos acham que tnhamos alguma coisa, mas
isso no  verdade. Ele pode at ter me ajudado, mas nunca pedi
nada... e tambm nunca dei nada em troca.
     -- Isso pode significar que ele gostava de voc.
     -- Quem sabe? Algum pode gostar de uma pessoa de
vrias maneiras.
     Tain passou os dedos pelos olhos. Saldanha observou-a
pelo canto dos olhos.
     -- Quero que v dormir um pouco -- falou o investigador.
     -- Como posso dormir? Com certeza no vou conseguir.
     -- Desculpe a franqueza, mas voc est parecendo um
zumbi. Est pssima. Vou continuar procurando Manoel.
Amanh lhe conto o que encontrei, se  que vou encontrar
alguma coisa.
     -- Tomara que sim -- disse Tain j bocejando.


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                      NAASOM A. SOUSA




                   Escrevendo...
      Depois que assinei o pacto, lit Senn j aparecia para mim
sem eu ter que cham-lo. O meu poder passou a aumentar;
minhas habilidades de viagens atrais, vidncia e invisibilidade j
estavam inteiramente em minhas mos. Aquilo para mim era
tudo. Minha vida tinha mudado muito, inclusive o meu interior.
Os amigos de antes j no existiam mais e agora minha nica
companhia mais chegada era lit. Os meus "amigos" que como eu
haviam entregado sua vida ao Rebelde sempre estavam comigo,
mas era como se no estivessem l. Sentia um vazio dentro de
mim muito grande. Havia muitas festas e reunies onde pessoas
recebiam um grau maior dentro do grupo. Sempre havia algo a ser
feito para merecer um grau maior e sempre isso era acompanhado
de dor.
      DOR. Esse sofrimento fsico passou a me acompanhar
insistentemente todos os dias. Enxaquecas terrveis, dores por todo
corpo como se a cada hora eu recebesse uma surra de algum,
insnias e, quando eu conseguia pegar no sono, pesadelos
indescritivelmente aterrorizantes invadiam minha mente. Em
minha vida j no havia qualquer resqucio de paz.
      Foi ento que o desejo de tirar minha prpria vida passou a
crescer dentro de mim.




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         CAPTULO DEZESSEIS
    COMO   TINHA DITO NA NOITE   anterior, no conseguiu dormir.
Suas foras estavam exauridas e, em seus olhos, os crculos
arroxeados denotavam cansao. O corpo estava um tanto
dodo, pois isso se mantinha ainda na cama.
     Camila estava de frente ao espelho penteando os cabelos.
Olhou o reflexo de Tain e fez uma careta.
     -- Voc est pssima, menina -- disse ela.
     -- No consegui dormir de novo. Por outro lado voc
dorme que nem uma mmia! No reparou nem o momento que
eu cheguei.
     -- No exagera -- sorriu Camila. -- A que horas chegou,
afinal? Estava com aquele crente bonito?
     -- Quem me dera... Mesmo estando acordada a noite
inteira foi como se tudo fosse um verdadeiro pesadelo.
     -- Como?
     -- Aquele cara que achamos que era um admirador...
     -- Michel? -- cortou Camila. -- Ento ele  o seu
pesadelo? Por qu? Ficou com ele e descobriu que ele beija
mal?
     -- Oh, Camila, s vezes voc parece uma ninfomanaca s
vezes! Por favor!
     -- Ento o qu?
     -- Creio que Michel est por trs dos desaparecimentos.
Toda vez que ele liga para mim algum some de repente.
Ontem ele me ligou novamente e o assistente do investigador
Saldanha no foi mais localizado.
     -- Ento isso  mais srio do que imaginvamos.
     -- Sim -- concordou Tain. -- Tenho que descobrir quem
 esse Michel.



     Achou melhor comer alguma coisa. Teorizou que fazendo
isso de repente fortalecia seu organismo. Dirigiu-se para a praa
de alimentao e pediu um lanche reforado. Sentou-se  mesa e
tomou um gole de suco de laranja.
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     Subitamente um par de mos surgiu por trs de sua cabea
e taparam-lhe os olhos. Ela suspirou. No estava com
disposio para brincadeiras. De toda forma, tocou as mos da
pessoa incgnita.
     -- Deixe-me ver... -- ela hesitou por um momento. -- 
voc, To?
     -- Errou feio! -- disse uma voz masculina.
     Tain reconheceu que a voz era de Tyson. Ela esboou um
leve sorriso enquanto ele se sentou ao lado dela e observou seus
olhos.
     -- Caramba! Deram uma surra em voc? Seus olhos esto
super-inchados!
     -- ... No tive uma boa noite de sono.
     -- Que pena. Mas saiba que acho voc linda assim mesmo.
     -- No comece, Tyson, por favor.
     -- Puxa! Voc no me d uma chance mesmo, no ?
     --  que voc me pegou num dia muito ruim.
     -- Certo, certo -- resmungou ele deixando-se acreditar. --
Olha, voc vai assistir ao jogo hoje contra a UFRGS, no vai?
Estamos treinando h muito tempo para essa partida. O lema 
vencer ou vencer. Se bem que comigo no time j  meio
caminho andado.
     -- Agora quem est falando  o velho Tyson que eu
conheo.
     -- Estou brincando. Ento? Voc vai?
     Ela suspirou olhando para seu lanche. Ele parecia
suculento, mas ela no estava com apetite algum.
     -- Prometo que irei pensar seriamente no assunto.
     -- Por favor, diga um sim para mim ao menos uma vez
nessa vida!
     -- Est bem. Sim, eu irei.
     Tyson vibrou.
     -- timo! Escute, tenho que me reunir com o resto do
time agora para os acertos finais. O treinador que nos mostrar
um vdeo de encorajamento, esse tipo de coisa.
     -- Vai l, campeo.
     -- Tchau.
     Num minuto Tain estava a ss com seu lanche e suas
conjecturas novamente.
     Tenho que descobrir quem de fato  Michel, pensou pela
trigsima vez sobre o assunto.


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     Fechou os olhos e tentou imaginar como ele seria. Alto?
Baixo? Magro? Forte? Branco? Negro? Repentinamente a
imagem de Jorge Silva apareceu em sua mente. Seria ele esse tal
de Michel? Sua voz no parecia em nada com a dele. Mas ela
sabia que com a atual tecnologia se podia facilmente alterar uma
voz pelo telefone. Michel poderia ser uma mulher? Droga! Isso
seria difcil de prever. Quem seria Michel e por que estaria
fazendo aquilo com seus amigos? Com ela prpria?
     Seria ele satanista?
     Ela abriu os olhos e estremeceu quando viu Felipe
Nascimento a fit-la fixamente sentado no mesmo lugar onde
momentos antes Tyson estivera.
     -- Que susto voc me deu! -- reclamou ela com o corao
acelerado.
     -- J se olhou no espelho hoje? Voc est horrvel!
     -- Obrigada. Isso  muito lisonjeiro.
     -- Acho que esse no  o melhor jeito de comear o dia,
no ?
     -- Recebendo um elogio desses? No mesmo. Mas est
tudo bem, quero dizer, quase.
     -- O que aconteceu?
     -- Mais algum desapareceu, s isso.
     -- Quem?
     -- Isso no importa no momento. Talvez no tenha
acontecido de fato. Ainda irei me certificar.
     -- Gostaria que me informasse assim que tiver essa
informao.
     -- Certo. Escute, por que no foi ontem na rdio?
     -- Fui com um amigo at uma clnica de dependentes de
drogas. Duas vezes por ms ajudo com aconselhamentos.
     -- Cuidado, daqui a pouco voc vai se tornar santo.
     -- Nunca. Santo s existe um: JESUS.
     -- T legal.
     -- Sabe, eu estava pensando... Quando poderemos jantar
novamente?
     Tain parou por um momento para olhar nos olhos
intensos dele.
     -- At parece que realmente est interessado.
     -- E por que no? Voc foi uma companhia to agradvel
na outra noite e no sou muito de sair, ento... tenho que me
dar ao luxo de sair de vez em quando para comer algo com uma
pessoa interessante.

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      Tain sentiu suas faces corarem. Tentou falar algo mais
no conseguiu. Aquilo a tinha pegado desprevenida.
      -- Ento? -- Felipe requereu. -- Quando iremos jantar?
      Tain ainda se sentia paralisada. At que deu de ombros
num esforo desesperado para se mexer.
      -- No sei. Esto acontecendo tantas coisas que no posso
definir uma noite para jantar -- apontou para o lanche. -- Na
verdade no estou nem com estomago para comer esse lanche!
Mas prometo pensar no assunto.
      Ela quase podia jurar que viu um olhar de decepo vindo
dele.
      -- Certo. Estarei esperando uma confirmao positiva.
      Ele se ergueu e deixou-a sozinha sem falar mais uma
palavra.
      Falei alguma coisa errada? Pensou.
      Degustou a contragosto mais uma poro do seu lanche e
de modo inopinado cruzou um olhar com Gisele. Ela notou-a e
acenou para ela sorrindo. Tain correspondeu com uma
piscadela de olho e um sorriso. No mesmo instante dois
rapazes se sentaram  mesa com Gisele e imediatamente ela
esbanjou entusiasmo.
      Tain tomou mais um gole de suco e permaneceu
observando o que acontecia na outra mesa. Ela suspirou
enquanto terminava de comer.
      De certo vocs esto alheios aos acontecimentos sombrios que
pairavam sobre este campus. Falou em pensamento aos trs.
Sorte de vocs.
      Ela se ergueu da cadeira e deixou a mesa em direo ao
prdio onde se encontrava a diretoria.



      Gisele olhou para os dois rapazes com olhar
desconsertado. No os conhecia, mas isso no importava no
momento, pois eram bonitos e atraentes. O que queriam ali
sentados com ela? Isso para ela no importava tambm. Ela
estudou os dois. Um parecia mais velho. Tinha cabelos
ondulados e tingidos de loiro, porte atltico, sorriso cativante.
O outro era jovial, parecendo seguro de si. Moreno, de cabelos
lisos e de um negro intenso.
      -- Meu nome  Eduardo Paiva. Tudo bem? -- apresentou-
se o mais velho.

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     -- Voc me conhece? -- indagou Gisele.
     -- Sim. -- interveio o mais novo. -- H muito tempo j
estamos reparando voc. Tem muito potencial, sabia?  bonita,
inteligente... Muitas qualidades para uma simples... "mortal"
no meio da multido. -- Estendeu a mo para ela. -- Sou
Henrique Paiva.
     Ela olhou para um e para o outro.
     -- So irmos?
     -- Sim, mas sei que em nada parecemos um com o outro
-- riu Eduardo.
     -- Somos filhos de pais diferentes. A mame no gostava
de relacionamentos longos -- Explicou Henrique.
     Gisele gargalhou. Mordeu os lbios e estreitou os olhos.
     -- Vocs so engraados, mas... o que realmente esto
querendo comigo?
     -- Sem dvida voc tem um intelecto raro -- Henrique
colocou os cotovelos sobre a mesa e repousou o queixo sobre
os dedos --, e ningum pode se negar a estar perto de voc.
     -- Como assim?
     -- Queremos lhe convidar para fazer parte da nossa turma.
     Gisele ergueu o sobrolho.
     -- Turma? Que turma  essa.
     --  como se fosse uma equipe. -- esclareceu Eduardo. --
"A equipe", para ser mais exato. S com os melhores dessa
universidade. A nata, entende?
     Henrique puxou um papel do bolso e entregou para
Gisele. Era uma lista com alguns nomes. Ela reconheceu
algumas pessoas ali, a maioria influente entre os estudantes.
     -- O que essa turma faz?
     -- Ah... Essa  a melhor parte -- Henrique trocou um
olhar furtivo com o irmo --, mas isso  segredo.
     Eduardo se aproximou dela e falou quase num sussurro:
     -- Por isso queremos te convidar pra um encontro que
haver hoje.
     -- Encontro? -- Gisele parecia estar se interessando. E de
fato estava.
     -- . Vai ser muito proveitoso pra voc se for.
     -- Vai ser demais.
     Os irmos sorriram. O sorriso de Eduardo pareceu
encant-la. Ela no sabia, mas aquela fora a "habilidade" que ele
pedira ao seu mentor.


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     Quero sorrir para as mulheres e encant-las de tal forma que
se rendam aos meus desejos, pedira ele.
     Com olhos brilhantes Gisele acenou com a cabea.
     -- Digam-me onde ir acontecer a reunio -- sorriu ela. --
Eu irei.
     Os irmos se entreolharam. Ela estava fisgada. A festa iria
deslumbr-la. Muita gente bonita, desinibida, atraente. Ela veria
algum fazer alguma coisa anormal com suas habilidades, ou
simplesmente pediriam para ela fazer um pedido e seu pedido
seria atendido... eram formas de fazer os aliciados ficarem
curiosos e quererem saber mais a respeito, ficar por dentro. O
prximo passo seria convid-la a buscar seu "guia".
     Eduardo sorriu novamente para ela e lhe entregou um
convite vermelho.
     -- No o perca e no mostre a ningum. Este convite s
servir para voc.
     -- No se preocupe -- ela estava fascinada com os dentes
brancos dele --, no irei perd-lo.



     A porta da diretoria estava aberta e a secretria j estava a
postos para o novo dia de trabalho. Ela sorriu na direo de
Tain, que retribuiu o gracejo.
     -- O investigador Saldanha est na sala do diretor? --
Tain quis saber.
     -- Sim, ele veio cedo hoje. Voc sabe se est acontecendo
alguma coisa de errado?
     -- No, no sei -- falou Tain rapidamente tentando no
parecer mentirosa. -- Ser que eu posso entrar?
     -- Oh, sim. Aproveite que acabei de servir uns biscoitos
com caf. Est uma delcia.
     A estudante sorriu e bateu na porta antes de empurr-la.
Ao entrar os olhares j estavam sobre ela. O diretor estava --
como de costume -- atrs de sua mesa, e o investigador sentado
 sua frente. Ambos estavam com uma xcara de caf na mo.
Ela tentou ser objetiva ao olhar para Robson Saldanha e
indagar:
     -- Alguma notcia do seu assistente, investigador?
     -- No, nenhuma, Tain.
     -- Sente-se, menina -- falou o diretor em tom de
autoridade. Ela se sentou. -- Aceita alguns biscoitos?

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     -- No, obrigada. Acabei de lanchar... -- Ela estava mais
interessada nos desaparecimentos. -- Mas o que vem a seguir?
No descobriu nada durante toda a madrugada?
     -- Voltei  sala dos registros, fui  biblioteca novamente,
imaginei onde ele poderia ter ido, mas nada mudou desde a
ltima vez em que nos vimos.
     -- No pode ser! -- exclamou Tain. -- Pessoas esto
desaparecendo debaixo dos nossos narizes e nada podemos
fazer? Acho que j  hora de chamarmos a polcia, no ?
     A voz de Augusto Pires ressoou firme no cubculo.
     -- No, ainda no!
     -- Como no? -- Tain parecia no acreditar naquela
deciso. -- Temos apenas um investigador para procurar pistas.
Antes tnhamos duas pessoas, mas agora uma desapareceu.
Com uma fora policial aqui tudo poderia se esclarecer mais
rpido.
     -- Tain, eu pedi mais um dia ao diretor -- disse Robson
Saldanha. -- Se no descobrir nada eu passo a bola.
     Tain fitou o investigador com olhar especulativo. Seus
olhos transpareciam preocupao.
     -- S espero que mais ningum desaparea at l, senhor.
     Ela se ergueu da cadeira e se retirou da sala.



     Seus passos rpidos a levaram para fora do prdio da
diretoria e dirigiu-se para o prdio B onde ficava sua sala. Tain
ouviu passos apressados e voltou-se para trs. Notou o
investigador Saldanha correndo em sua direo.
     Ele se aproximou e puxando o ar para dentro dos pulmes
falou:
     -- Quero que me ajude.
     -- Ajuda? Por que no me props isso diante do diretor?
     -- Isso faz diferena? -- perguntou Saldanha
tranqilamente.
     -- No.
     -- Na verdade no queria falar o que tenho a lhe dizer na
frente de Augusto Pires.
     -- Entendo. Peo desculpas -- Tain baixou o olhar.
     -- Certo. Oua: eu e Manoel pesquisamos sobre as
pessoas que desapareceram... E isso no nos levou a muita
coisa. Estou certo de que est faltando investigar as pessoas que

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voc conhece e que continuam aqui na universidade. Talvez isso
possa dar em algo. O que me diz?
     -- Posso lhe dar alguns nomes, mas so muitas pessoas...
     -- Estamos falando de pessoas muito prximas...
principalmente aquelas que se aproximaram de voc no tempo
em que Valdir desapareceu.
     Tain pensou por um instante.
     -- Certo. Daqui  uma hora eu lhe entrego.
     -- At mais -- despediu-se Saldanha caminhando em
direo ao seu quarto.



      Saldanha abriu o celular de Manoel Cristovan e relacionou
as ltimas ligaes dadas por ele. A maioria dos nmeros era
dos pais dele e do prprio Saldanha.
      Ele suspirou e pensou nos pais de Manoel. Era um casal
formidvel e de singular amabilidade. Adoravam o filho em
todos os aspectos e se orgulhavam de sua inteligncia.
      Apertou uma tecla no celular e num segundo a me de
Manoel atendeu.
      -- Ol, senhora. Dei uma folga para Manoel e ele disse que
iria para Curitiba, mas primeiro iria passar por So Paulo para
visitar vocs. Ele ligou para vocs avisando alguma coisa ou
apareceu por a de surpresa? -- Saldanha tinha a esperana de
que ele tivesse pegado um avio e estivesse assistindo televiso
na sala dos velhos.
      -- No. J faz alguns dias que ele no nos liga. Mas  bom
saber que ele est a caminho de So Paulo. Meu Deus! Vai ser
bom t-lo junto a ns por algum tempo. Quando voc o viu
pela ltima vez ele estava com sade?
      -- Sim -- disse Saldanha --, ele estava muito bem. At
mais.
      Ele desligou suspirando angustiado.
      Oh, Deus! Onde aquele garoto pode estar?



    Uma hora depois Tain encontrou Saldanha e entregou-lhe
uma lista de nomes.
    -- A esto todas as pessoas que tive e tenho contato aqui
na Belinne. Espero que possa ajudar.

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     -- Estou certo de que ajudar. Pra onde vai agora?
     -- Tenho uma aula agora e depois vamos todos para o jogo
que haver no campo. O time da Belinne vai jogar um amistoso
contra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um
amigo me fez prometer que eu iria e como a minha palavra 
dvida...
     -- Talvez nos encontremos l. Eu gosto de futebol.
     -- Ento at l -- falou Tain.



     A aula de tcnica de redao parecera passar como um
foguete. Todos estavam ansiosos para o jogo e s falavam em
vitria. Tyson no estivera na aula. Seguramente estivera
concentrado com os demais jogadores do time.
     Boa parte dos alunos agora ocupava as arquibancadas do
campo de futebol da Belinne. Era um campo vistoso e bem
cuidado. Era um dos orgulhos da universidade. O gramado era
constantemente regado e aparado com todo o zelo pelos
funcionrios contratados exclusivamente para aqueles fins. As
arquibancadas eram numeradas e tinham espao para dez mil
pessoas. Tain notou que os lugares que restavam foram
tomados quando faltavam apenas vinte e cinco minutos para o
incio da partida, que estava marcada para as cinco da tarde.
     Tain e Camila subiram na arquibancada ao norte do
campo e logo avistaram To caminhando na direo delas. Seu
semblante no mostrava nenhuma euforia pelo jogo.
     -- Ol, To -- cumprimentou Camila abraando-o. --
Vamos sentar aqui e assistir esse jogo, vai.
     -- Voc no pode ficar com essa cara, To -- comentou
Tain se sentando. -- Vamos torcer para que a lista que
entreguei para Saldanha possa dar em alguma coisa.
     -- Acho que  a nica coisa a se fazer, no  mesmo? --
To disse num gemido. -- S sei que se ela no aparecer vou
acabar ficando louco de pedra.
     -- Tente no pensar nisso, amigo. Sei que algo vai
acontecer para mudar tudo isso -- confortou Camila.
     Tem que acontecer. Pensou Tain.
     -- Saldanha estar no caso apenas por mais um dia --
informou ela.
     Camila arregalou os olhos.


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     -- Isso quer dizer que se no encontrar nenhuma prova
que confirme ou conteste os desaparecimentos ser
substitudo?
     -- Exatamente -- Tain balanou a cabea. -- O diretor
Pires entregar o caso aos tiras.
     -- Talvez j devesse ter feito isso -- To reclamou.
     -- Se dependesse do diretor, ningum jamais saberia do
que est acontecendo por aqui. -- Camila pegou uma goma de
mascar do bolso e jogou na boca. -- Todos poderamos
desaparecer, mas a Belinne deveria permanecer intacta.
     -- Com ou sem o investigador Saldanha esse
desaparecimentos tm que ser solucionados -- Tain suspirou.



     Saldanha estava afundado na poltrona de seu quarto. Com
olhar compenetrado observava atentamente a lista de Tain nas
mos. Eram pessoas com quem ela mais convivia na
universidade. Mais uma vez ele passou os olhos pelos nomes.

    Teodoro Gusmo
    Camila Gaspar
    Felipe Nascimento
    Tyson Cesrio
    Jorge Silva
    Diretor Augusto Pires

     O investigados passou os dedos pelo queixo e tentou
relaxar os msculos do corpo. Eram todas pessoas comuns e ao
mesmo tempo suspeitas. Algum ou alguns deles poderiam
pertencer a uma seita satnica? Serem assassinos? Em um ponto
Saldanha estava seguro: Qualquer um deles poderia ser Michel.
Qualquer um.



     O time da UFRGS entrou no campo primeiro e foi
recebido com sonoras vaias. Os anfitries entraram logo depois
e calorosos e entusiasmados aplausos foram ouvidos. Um
trecho do Hino Nacional foi tocado, o juiz chamou os capites
ao meio do campo, jogou a moeda para o alto e apontou para o
capito do time da Belinne, que preferiu ficar com o seu lado do

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campo. Feito isso, a bola foi colocada no centro do gramado. O
Juiz apitou e o jogo teve seu incio sob gritos desvairados de
excitao dos espectadores.
      Camila era a mais entusistica dos trs. Tain j havia
presenciado vrios momentos de alegria da sua companheira de
quarto, mas nunca como estava agora. Ela sorriu observando a
amiga. Sinceramente gostaria de estar com o mesmo estado de
esprito que ela.
      Camila era boa pessoa. Haviam se tornado amigas na
universidade. Conheciam-se agora quase como irms. Camila
era contida, mas tambm tinha seus momentos de puro xtase,
onde ningum podia segur-la; se bem que isso acontecia quase
sempre quando bebia.
      Naquele momento ela no parecia estar tomada pelo
lcool. Talvez estivesse apenas querendo esquecer todos os
acontecimentos dos ltimos dias.
      Um ensurdecedor grito de GOL tomou conta das
arquibancadas repentinamente fazendo Tain estremecer de
susto e sair de seu transe. Ela voltou-se para o gramado. A
universidade Belinne havia acabado de marcar um gol.
      -- Foi do Tyson, Tain! -- berrou Camila, tentando ser
ouvida acima dos gritos dos demais torcedores. -- Ele chutou
de fora da rea e fez um belo gol!
      Tyson pareceu olhar diretamente para ela e apontou em
sua direo. Disse alguma coisa ao ar. Tain leu nos seus lbios:
"FOI PARA VOC".
      A torcida se sentou e os gritos histricos se transformaram
em murmrios abafados. A partida recomeou e o time
visitante foi ao ataque.
      --  impresso minha ou esse gabola t gostando de voc?
-- perguntou To aps ver a cena de Tyson.
      -- Agora que voc percebeu? -- ironizou Camila.
      -- Ele  s meu... colega! Ele pode at sentir algo por
mim, mas no passamos disso: colegas.
      -- At agora -- acrescentou Camila.
      Os olhos dos trs se voltaram para o campo novamente e
viram quando o atacante da Universidade Federal driblou dois
zagueiros e chutou para dentro do gol do time da casa. Todos
os que estavam no campo praguejaram veementemente.
      -- Isso  uma droga! -- lamentou Camila.
      Tain olhou para o relgio. O primeiro tempo estava nos
seus momentos finais. Ela pegou suas coisas e se ergueu.

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     -- Tenho que ir. O horrio do programa est chegando.
Depois do jogo ao menos me liguem para dizer o placar final,
est bem?
     To e Camila fizeram sim com a cabea, acenaram e
continuaram torcendo nervosamente.



      Felipe Nascimento estava operando a mesa de som. Ele
notou a presena de Tain e acenou para ela. Havia tambm um
outro rapaz com ele. Era Sidney Romero, o rapaz da outra
noite. Ela acenou de volta para eles. Felipe se levantou da
cadeira e deu o lugar para Sidney. Caminhou na direo dela.
      -- Como est o jogo? -- ele parecia interessado.
      -- Empatado at o momento em que eu sa da
arquibancada. Agora no sei mais. -- Ela deu de ombros. -- E
como est por aqui? Tudo tranqilo?
      -- Como sempre. Mas aconteceu uma coisa fora do
comum: o investigador veio aqui me visitar alguns minutos
atrs.
      -- Robson Saldanha veio aqui?
      -- Sim -- ele a fitava fixamente. -- Fez algumas perguntas
e entre elas onde eu estava na hora dos supostos
desaparecimentos, inclusive do ajudante dele. Sinceramente
nem sabia que o ajudante dele tinha sumido.
      Tain suspirou.
      -- Aconteceu h pouco tempo e esse fato est sob sigilo.
      -- Ele quis que eu contasse o que fiz durante todo o dia.
Dei um relatrio completo.
      -- Eu dei o seu nome para ele. Foi preciso. Ele me pediu
isso. Sinto muito.
      -- Tudo bem -- Felipe sorriu. -- Como voc est?
      -- No muito bem. Sinto-me cansada ainda.
      -- Mas sua cara melhorou... um pouquinho.
      -- Voc  muito engraado, sabia?
      Ambos sorriram.
      -- Escute... Pensou sobre minha proposta de jantarmos
novamente?
      Ela hesitou por um momento. Fitou-o nos olhos tentando
perscrutar algo que pudesse denunciar se Felipe era realmente
algum em quem ela pudesse confiar. Seria ele Michel?
Indagava-se. No. Ele no. Qualquer um menos ele.

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      -- Ahmm... Na realidade ainda no.
      Mais uma vez uma expresso de decepo estava
estampada no rosto dele.
      O que voc quer de mim, Felipe? Pensou ela.
      -- Tudo bem. No irei mais chate-la com esse assunto --
ele falou cabisbaixo.
      No! Tain sentiu que a respirao faltou-lhe de repente.
      -- Espere. Que tal hoje depois do meu programa?
      Um sorriso se acendeu nos lbio de Felipe Nascimento
novamente.
      -- Isso seria timo. Posso te levar para saborear umas
massas. Conheo um lugar chamado Atelier das Massas, no
centro.
      -- Perfeito -- concordou ela. -- Adoro massas.



     Tain percebeu que o programa estava transcorrendo de
forma desagradvel naquela noite. Sentia que algo estava errado
ou simplesmente no estava da forma que deveria ser. Seria ela?
O clima tenebroso sobre toda a Belinne ultimamente? O que
est acontecendo comigo? Ela insistia em perguntar a si mesma.
O fato era que ainda pressentia que alguma coisa m estava para
acontecer e aquilo fazia seu estmago embrulhar
constantemente. Num instante desejou abandonar o programa
mais cedo e deixar o estdio. No momento preferia estar perto
de vrias pessoas ao invs de permanecer solitria ali.
     O telefone estava tocando. Se ela bem lembrava j havia
atendido mais de uma dezena.
     -- Programa Sentimento Maior, no que posso lhe ajudar?
     -- Ol, Tain.
     Ela estremeceu subitamente e sentiu um gosto amargo na
boca. Era Michel do outro lado da linha.
     -- O que voc quer? Voc  o responsvel pelo
desaparecimento dos meus amigos, no ? Responda!
     Ela olhou para a porta do estdio. Torcia para algum
entrar naquele instante para dar-lhe segurana.
     -- Liguei apenas para lhe deixar mais um poema. Escute com
ateno.
     -- Esses poemas tm alguma relao com os
desaparecimentos?


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                       NAASOM A. SOUSA

       -- Descubra por si mesma... Se for inteligente como parece
ser.
     -- Espere... Por que est fazendo isso?  algo comigo? O
que fiz a voc?
     -- O poema desta noite  especial.
     Ela tentou se acalmar e prendeu a respirao. Talvez o
poema pudesse conter mais do que parecia como da ltima vez.
     Michel comeou a recitar:
     -- Sempre vejo em um lago dois cisnes muito bonitos e
vistosos. Parecem seguros de si; corajosos. Poderiam ser ns dois,
mas na realidade no so. Vejo um deles mergulhar tentando se
proteger do fogo e o outro se afogar. Que viso! Talvez
sobrevivam. Talvez no.
     -- E o que isso tem de romntico? -- quis saber ela.
     -- Acabou o tempo do romantismo, Tain. Agora chegou
o tempo de ser astuto. Seja astuta, Tain.
     O telefone tornou-se mudo.
     Repentinamente a porta do estdio foi aberta. Tain gelou.
     Michel?
     Ao se voltar e ver os rostos de Camila e To seus nervos
explodiram e Tain comeou a chorar.
     Os dois correram at ela. Camila se ajoelhou e a abraou.
     -- O que aconteceu, amiga? Qual o problema?
     Por entre as lgrimas ela choramingou com o rosto entre
as mos:
     -- Foi Michel... Ele ligou novamente. Acho que algo de
ruim vai acontecer, Camila. Tenho quase certeza disso... Eu...
     A porta do estdio abriu novamente e o guarda Adelmo
Solrio engoliu seco antes de fazer uma declarao.
     -- Houve um acidente...
     Aquela palavra fez com que todos os trs jovens
prendessem a respirao e se pusessem a esperar o pior.
     -- Diga, seu Adelmo... O que aconteceu? -- pediu To.
-- Algum desapareceu aqui na Belinne?
     -- Antes fosse, garoto...
     -- Diga logo... Por favor! -- A voz de Tain era de um
tom desesperador.
     --  a sua me, Tain...
     -- O qu? O que tem minha me? O que aconteceu com
ela?
     -- Ligaram de Gramado para c... Avisaram que sua casa
pegou fogo e sua me ficou muito ferida por causa das chamas.

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                      NAASOM A. SOUSA

     -- No... no pode ser! -- exclamou ela. O desespero
querendo tomar conta do seu crebro. Camila abraava-a
tentando conter-lhe qualquer ato descontrolado.
     -- Levaram ela para o hospital da cidade -- completou o
guarda Adelmo.
      A porta do estdio foi aberta novamente e Felipe
Nascimento adentrou o recinto. Observou no rosto de todos
que havia algo errado.
     -- O que h?
     -- Houve um acidente com a me de Tain em Gramado
-- informou To.
     -- Oh, Jesus...
     -- Preciso ir at l -- disse Tain. -- preciso arranjar um
carro ou algum que me leve...
     -- E o programa? Voc vai deix-lo sem terminar? -- quis
saber Camila.
     -- Esse programa no  mais importante do que minha
me.
     -- Tain, eu estou com o meu carro a fora -- disse Felipe.
-- Eu posso lev-la a Gramado...
     No houve resposta de Tain. Felipe se aproximou e
segurou o brao dela e olhou dentro dos seus olhos. Pareciam
distantes. Ele voltou-se para Camila e disse:
     -- Por favor... at que o prximo locutor chegue eu
gostaria de lhe pedir que coloque uma msica atrs da outra. 
s trocar o CD naquele aparelho -- apontou para o toca CD.
     -- Pode deixar, vou ajud-la -- disponibilizou-se To.
     -- timo. Vamos -- falou Felipe puxando Tain pelo
brao para fora do estdio.
     A mente de Tain no momento estava impregnada apenas
com a voz de Michel e seu novo poema que teimava em se
repetir:
     "Sempre vejo em um lago dois cisnes muito bonitos e
vistosos... Vejo um deles mergulhar tentando se proteger do fogo...
Que viso! Talvez sobrevivam. Talvez no".




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        CAPTULO DEZESSETE
     ELA ESTAVA CERTA DE QUE O CISNE que tentava se
proteger do fogo era sua me. Agora estava crente de que
Michel era o responsvel por tudo o que estava acontecendo.
Mas por qu? Ela se perguntava.
     Seguiam pela rodovia RS-115. A estrada estava escura e
exigia concentrao de Felipe Nascimento, que se mantinha
com os olhos fitos no caminho e seus lbios selados,
respeitando o estado apreensivo e quase catatnico de Tain.
Ele olhou para ela vrias vezes. Notou seu pensamento em
devaneios longnquos. No que ela estaria pensando? O mais
provvel era no estado de sua me.
     Voltou o olhar para a estrada. Certificou-se de que o
combustvel daria para percorrer os 126 quilmetros at
Gramado. Ele gostava de ir at l de vez em quando.  uma
cidade pitoresca que, apesar de "nova",  um dos destinos mais
procurados do pas, especialmente no inverno, pois os turistas
odoram a vasta rea verde, com temperatura sempre agradvel
-- s vezes nem tanto no inverno --, em uma cidade repleta de
bosques com hortnsias em toda sua extenso.
     Alm da fama pelo cinema nacional, Gramado rene um
conjunto de restaurantes de diversas especialidades, como os de
comida italiana e alem, em maioria, alm das particulares
cozinhas de caa, os cafs coloniais e as galeterias e
churrascarias.
     Olhou novamente para Tain. Gostaria muito de lev-la a
um desses restaurantes. Mas nas atuais circunstncias aquilo
estava fora de questo. Principalmente porque aquele no era o
seu objetivo maior naquela viagem.
     Um plano j estava traado para aquela noite.



    O carro parou em frente ao hospital Arcanjo So Miguel.
Tain abriu rapidamente a porta do veculo e saiu em disparada
para recepo do lugar. Uma moa que parecia estar  sua
espera a abordou no caminho, puxando-a pelo brao.
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     -- Tain, espere! -- disse ela.
     Tain a reconheceu. Era Vnia Alencar, uma amiga de
infncia. Vnia era uma jovem de vinte e pouco anos, cabelos
negros que escorriam pelos ombros e personalidade agradvel.
Ela morava a uma quadra da casa de Ana. Tain a abraou e
comeou a soluar num choro sfrego.
     -- O que aconteceu, Vnia? -- perguntou Tain por entre
as lgrimas. -- Onde est minha me?
     Vnia estava com os olhos marejados. Disse:
     -- Papai a encontrou inconsciente dentro da casa em
chamas. Trouxemos ela para c. Papai teve que sair e eu fiquei
para esperar voc.
     -- Quero v-la, por favor! Leve-me at ela!
      -- Vamos, ela est l dentro na sala de emergncias sendo
atendida -- Vnia enlaou Tain e a sentiu trmula e insegura.
Ambas caminharam em direo  recepo.
      Felipe manteve-se  distncia, observando tudo o que
acontecia. As moas falaram com um funcionrio responsvel
pela recepo do hospital e seguiram mais adiante.



     A sala de emergncia estava movimentada. Tain adentrou
o recinto sob a observao de um enfermeiro-monitor e
atentou-se para uma equipe mdica trabalhando arduamente
sobre um corpo imvel e parcialmente queimado. Ela se
aproximou e reconheceu sua me sobre uma maca. Tapou a
boca para no gritar de agonia por ver Ana Braga naquele
estado. Estava com metade do rosto queimado. Os dois braos
com bolhas de plasma parecendo que iriam estourar a qualquer
momento. Algumas partes das pernas tambm se encontravam
queimadas. Calculou em instantes que 50% do corpo de sua
me estava queimado.
     A equipe mdica se mobilizou no atendimento. Uma
enfermeira se ocupou em aplicar soro fisiolgico diretamente
numa veia para hidratar a paciente, enquanto uma auxiliar
colocava uma mscara de oxignio sobre o rosto de Ana. O
mdico j havia avaliado os sinais vitais e agora aplicava um
injetvel para amenizar a dor da vtima.
     Logo se empenharam em retirar a pele queimada de Ana. A
enfermeira s ento notou a presena de Tain. Parou por um
momento e caminhou at ela.

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      -- Desculpe, mas voc no pode ficar aqui.
      --  minha me quem est naquela maca -- informou
Tain com a voz entrecortada. -- Por favor... no me tire
daqui.
      A enfermeira fitou-a por um momento. Tocou-lhe os
ombros e a conduziu para fora do quarto, com pesar.
      -- No h nada que voc possa fazer por enquanto. Se
ficar na sala poder nos atrapalhar.
      -- Eu juro que no irei atrapalhar...
      -- Sinto muito, mas vai ter que se retirar. Sua me est em
boas mos, mas...  sempre bom pedir a algum santo para
proteg-la. Com licena.
      A enfermeira voltou para dentro da sala. Tain levou as
mos  cabea. O corao parecia que iria explodir de angstia a
qualquer momento ao mesmo tempo em que um sentimento de
impotncia encheu-lhe a alma.
      Vnia se aproximou rapidamente e logo Felipe tambm
estava prximo. Tain baixou as mos e fixou o olhar em Vnia.
Depois fitou Felipe e permaneceu com os olhos fixos nele.
      -- Se voc conhece mesmo Deus... Me ajude -- falou ela
com voz fraca. -- A enfermeira me disse para pedir ajuda a
algum santo, mas eu no conheo nenhum. Preciso de voc
agora.
      Felipe Nascimento acenou com a cabea. Ele havia
compreendido.
      O plano traado para aquela noite estava comeando a se
desenrolar, pensou Felipe. E o mentor daquele plano era Deus.



     Com relutncia Tain concordou em sair do hospital e ir
at um lanche prximo chamado Casa das Delcias. Estavam
frente a frente um do outro, sentados a uma pequena mesa
coberta com um pano fino e colorido. O lugar era agradvel e
no estava recebendo muitos clientes naquela noite.
     O relgio na parede marcava onze e trinta e seis da noite.
Felipe fez um gesto e chamou uma atendente.
     -- No me diga que vai pedir alguma coisa pra comer.
     -- Voc precisa comer algo. Saco vazio no se pe em p.
No me diga que no sabe disso.
     Ela suspirou. Realmente seu estmago estava vazio. No
havia como negar aquilo.

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                     NAASOM A. SOUSA

     Felipe pediu quatro panquecas e dois sucos. Voltou-se para
Tain e falou:
     -- Ento voc quer que eu lhe ajude a encontrar um
santo...
     -- Voc  crente! Pode me ajudar. J ouvi falar de Santa
Maria, So Jos... Como  o nome daquele santo que 
chamado das causas impossveis?... Santo Expedito, no ? Eu
nunca falei com nenhum deles. Pode me ajudar com isso?
Minha me...
     -- No  o Santo Expedito quem pode ajudar nas causas
impossveis -- Felipe cortou. -- Voc est errada.
     Ela estreitou os olhos. De certa forma estava confusa.
     -- Mas  o que o povo diz, no ?
     -- Que povo? Certamente  um povo que no conhece a
Deus nem a Bblia.
     -- Como assim? Eu no entendo.
     -- A Bblia no  apenas um livro comum, Tain.  a
Palavra de Deus.  por ela que conhecemos mais a Deus. Se no
conhecemos ou se no entendemos a Bblia no podemos
conseqentemente conhecer nem entender a Deus -- ele a
olhava no fundo dos olhos dela enquanto falava, tentando
transmitir mais do meramente o som da sua voz. -- Ao lermos
a Bblia, em um de seus livros chamado Isaas, lemos que Deus
no d a Sua glria a outras pessoas. Em muitas passagens da
Bblia Ele tambm fala: "Eu sou o Senhor".
     -- Ento Ele no gosta que outras pessoas se passem por
deuses -- disse Tain.
     -- Exatamente. Mas temos que considerar que Deus
enviou Seu Filho ao mundo. Esse  Jesus. Ele veio para morrer
por cada um de ns, pois uma vez que Ado, o primeiro
homem criado por Deus, pecou, foi criada uma barreira entre o
homem e Deus. Para desfazer essa barreira era preciso que
houvesse um sacrifcio e ento Jesus foi sacrificado na Cruz do
Calvrio e desfez essa barreira.
     -- Nunca tinha ouvido falar nisso antes -- disse ela ainda
atenta, com os olhos vidrados de curiosidade.
     Felipe continuou.
     -- Jesus morreu por ns, mas logo aconteceu uma coisa
indita no mundo. Depois de trs dias morto, Jesus ressuscitou
para a vida. Deus fez ento com que Jesus fosse um canal entre
a humanidade e Ele, lhe dando autoridade para isso. Na Bblia
est escrito que Jesus disse: Foi-me dada toda a autoridade no

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cu e na terra. Est escrito ainda: Em nenhum outro h salvao;
porque debaixo do cu nenhum outro nome h, dado entre os
homens, em que devamos ser salvos. Este  Jesus, Tain.
Chegamos  presena de Deus somente por intermdio de
Jesus. Porque h um s Deus, e um s Mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, diz a Bblia. Ele tambm  o nico Santo
que conheo que pode nos ajudar; que pode nos salvar, como
diz as Escrituras. Tambm est escrito: que, como ns, em tudo
foi tentado, mas sem pecado. Jesus nunca pecou, por isso s ele 
Santo de fato e verdade. Por isso tambm s a Ele devemos
pedir alguma coisa, porque s Ele pode nos entregar as nossas
bnos, entende?
      -- Acho que agora estou compreendendo. Jesus  a pessoa
que devo pedir para salvar minha me.
      -- Exatamente. Jesus disse: Eu Sou o Caminho, a Verdade
e a Vida. Ningum vem ao Pai se no for por mim. Entende?
Ningum pode obter algo de Deus se buscar atravs de outra
pessoa.
      -- Entendi -- disse Tain, atenta.
      -- Muito bem. Mas para receber o que voc pede  preciso
apenas uma coisa bsica.
      -- O qu? O que preciso fazer?
      As panquecas chegaram. A atendente, com uma bandeja,
ps um prato largo com as quatro panquecas quentes e dois
copos de suco sobre a mesa, sorriu e se afastou da mesa
retornando ao balco.
      Felipe inalou o aroma das panquecas, sorriu e disse:
      -- Ok, ahmm... O que voc precisa fazer  crer. Se no
crer... acreditar, como poder receber algo?
      -- Isso parece bvio -- ela acenou com a cabea.
      -- E . Se voc crer no seu corao que Jesus Cristo  o
nico que pode te ajudar, o que na realidade  isso mesmo, voc
receber dele o que pedir. Est escrito que tudo o que pedirdes
crendo recebereis -- Felipe Nascimento sorria enquanto falava.
Podia ver o interesse transparecendo no rosto de Tain. Aquilo
o deixava radiante. -- Creia em Cristo; creia em Deus. Fale
com ele. -- Disse por fim.
      -- O qu... Falar?
      -- Isso mesmo, f-a-l-a-r! Como voc est falando comigo
agora. Muitas pessoas precisam de uma imagem para falar com
Deus  o que  errado. Deus no se limita a uma imagem. Ele
est em todo lugar. Creio que est aqui agora.

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      -- Aqui? Agora?
      -- Claro! -- Felipe confirmou. -- Basta voc fechar os
olhos e falar com Deus agora, mesmo que no saiba como  seu
rosto. Talvez voc no possa v-lo, no possa senti-lo, mas Ele
est aqui e pode te escutar. Fale com Ele. No deixe que as
poucas pessoas que estiverem aqui possam intimidar voc.
      -- Acho que no consigo -- disse ela num sussurro, quase
uma confidncia. -- nunca fui adepta a religio alguma. Sempre
achei tudo uma perda de tempo. Sempre fui uma ctica. No 
fcil para mim de repente algum vir e dizer-me que existe um
Deus que est pronto a me ajudar se eu apenas pedir alguma
coisa e crer. Sinceramente acho isso pouco provvel.
      -- O meu Deus  o Deus do improvvel e do impossvel,
Tain. Fale com ele crendo que ele te escuta.
      -- Eu...
      -- Escute -- disse ele se levantando da cadeira --, vou ao
banheiro. Enquanto isso voc ter tempo de falar com Deus.
No estarei aqui para lhe trazer qualquer tipo de
constrangimento. -- Felipe caminhou at o balco, pediu
informao de onde era o banheiro e se dirigiu para l, sem
olhar para sua mesa, onde Tain apenas o observava.



     Saldanha tentava manter-se calmo e confiante, mas as
horas se passavam e tudo parecia ainda um mistrio sem
desfecho. No momento ocupava-se nos arquivos da sala de
registros e vez em quando passava ao computador, onde
estavam guardadas todas as referncias dos alunos e
professores.
     Ele tinha investigado a todos e, at ali, no havia
encontrado nada diferente.
     O primeiro da lista, Teodoro Gusmo, mais conhecido
como To, era totalmente limpo. Nunca se metera em confuso
alguma. Seus pais moravam em Caxias do Sul e eram donos de
uma pequena rede de lojas de convenincias por l.
     Camila Gaspar era filha primognita de um casal
divorciado da capital. Cresceu usufruindo do bom e do melhor
graas ao seu pai que era alto executivo de uma rede de
refrigerantes na cidade. Costumava ser tachada s vezes de
tmida graas  sua beleza no muito atraente. Pelo que soubera,


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quando bebia era que tentava externar tudo o que a reprimia.
Mas isso no fazia dela uma criminosa.
     Felipe Nascimento era um desses crentes que faziam de
tudo para pregar Jesus aos outros. Saldanha sabia que ele
mantinha, junto com a igreja onde se congregava, um espao na
rdio Belinne para o segmento evanglico. Era conhecido pelos
alunos da universidade -- aos que Saldanha perguntara se Felipe
poderia fazer algum "sumir" de alguma forma violenta,
responderam simplesmente "voc s pode estar brincando,
investigador!" Aquilo j dizia tudo.
     O rapaz Tyson Cesrio era rico e gabola por ele s. Muitos
o odiavam; muitos o amavam. Era herdeiro direto do pai
Augusto Cesrio, o dono da empresa Cesrio Company S.A.
Um pequeno imprio. Com isso Saldanha se indagava: Qual
motivo ele teria para fazer parte de uma seita satnica? Enfim,
no havia nada que o ligasse aos acontecimentos.
     O diretor Augusto Pires, antes de ser diretor, foi professor
da UFRGS. Lecionava histria. Nunca se ouviu notcia que ele
ocupara sua vida em outra atividade que no a educacional.
Tambm no havia motivos para ele estar envolvido nos
desaparecimentos.
     Jorge Silva era um caso  parte. Era de famlia de mdio
poder aquisitivo, mas batalhadora. Seus pais eram funcionrios
pblicos, ligados  educao. Saldanha se perguntou se eles no
se sentiam frustrados pelo filho ter se desviado do "caminho da
retido" e seguido pelo oposto. Havia se metido com gangues,
furtado algumas vezes, envolveu-se em brigas. Foi preso e
condenado apenas a cumprir penas alternativas.
     Talvez estivesse na Belinne pelo esforo dos pais e no dele
prprio, pensou Robson. Em todo caso Jorge Silva estava se
comportando na universidade, pelo menos estava at Tain
ganhar a chance na rdio. Todos os que conheciam Jorge Silva
disseram que aquilo mexeu com seu brio.
     Quem sabe aquilo no foi um estopim para que Jorge Silva
voltasse aos hbitos do passado? Indagou-se o investigador
Saldanha. Talvez fosse melhor fazer outra visita aquele rapaz.
Talvez segui-lo para ver aonde iria.
     Saldanha fez algumas anotaes mentais e deixou a sala dos
arquivos. Jorge Silva voltara a ser seu alvo principal naquele
momento.



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     Felipe retornou do banheiro. Na realidade ele decidira ir
para l apenas para deixar Tain s. Aquele era o plano que
tinha sido traado por Deus. Ele a queria, Felipe tinha se
disponibilizado para que o Senhor fizesse a obra na vida dela, o
Esprito Santo se encarregaria do resto. Dependeria muito de
Tain. Se ela abrisse seu corao Deus agiria.
     Ele se sentou novamente  mesa observando-a
atentamente.
     -- E ento? -- Felipe perguntou. -- Conseguiu falar com
Deus?
     -- Sim... -- ela deu de ombros um tanto tmida. -- Bem,
no sei... Acho que sim.
     Felipe sorriu.
     -- No posso interferir nisso. Isso  entre voc e Deus.
Posso orar a seu favor, com voc, mas no posso tomar seu
lugar na presena do Senhor Deus, entende? Isso  com voc.
     Tain sorriu demonstrando um pouco de desconforto.
     -- Podemos parar um pouco de falar sobre isso e comer
essas panquecas? Apesar de estar sem apetite sei que irei
precisar estar alimentada, como voc disse -- lembrou ela.
     Felipe sabia que no seria fcil para ela mudar de
concepo de uma hora para outra. Confiaria apenas em Deus.
Ele acenou com a cabea concordando.
     Ele pegou as panquecas com os talheres e ps nos pratos
de cada um. Sem dvida os dois estavam famintos.




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                    Escrevendo...
     Mesmo com todo aquele sofrimento eu continuava firme com
meu pacto. Continuava com minhas magias e feitos nada comuns.
Ainda aliciava jovens na universidade para entrarem para o
satanismo, essa era uma das minhas misses dadas pelo meu guia.
     Um dia estava andando pelo campus quando ouvi um rapaz
tocando violo e cantando uma cano que falava de um amor
especial, que somente Deus poderia dar a algum. Na letra se dizia
"Deus  amor e pode tirar sua dor". Aquilo chamou minha
ateno, mas eu havia aprendido que Deus era meu inimigo e
todos os que o adoravam tambm. Resolvi ento fazer com que
aquele rapaz parasse com a msica, definitivamente. Segui-o at
seu alojamento e esperei que anoitecesse. Entrei em transe e falei as
palavras malignas que faziam com que eu me tornasse invisvel.
Em instantes ningum mais conseguia me ver. Eu sorri e sa do
complexo onde eu morava e rumei para o alojamento do rapaz.
Naquela noite ele iria sofrer um acidente fatal.
     Caminhei pela grama do campus e percebi que a lua no
brilhava naquela noite. Cheguei ao outro complexo e abri as
portas de entrada ruidosamente chamando atenes, mas como de
costume no fui vista. Notei que lit Senn estava do meu lado e
passou a me orientar quanto ao que eu deveria fazer para que o
rapaz perdesse os movimentos das mos e que sua boca fosse
seriamente ferida. "Faa algo pesado cair sobre ele, e quando
desmaiar voc pode completar o servio", repetiu meu guia vrias
vezes ao meu ouvido.
     Dei mais alguns passos pelo corredor quando subitamente
ouvi um berro medonho de lit. Procurei-o, mas ele j havia
sumido. Sem ligar para aquilo continuei at chegar perto  porta
do quarto do rapaz. Foi quando fiquei petrificada. Tinha um
homem forte, com mais de trs metros de altura e com uma espada
reluzentes nas mos, como se guardasse a entrada. O nervosismo
tomou conta de mim, pois no conseguia me mexer e notei que de
alguma forma ele me enxergava e parecia estar pronto para
investir contra mim para me matar.
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           CAPTULO DEZOITO
     ELE BATIA COM FRIA NO SACO DE AREIA dentro do
ginsio da universidade. Jorge Silva canalizava sua indignao e
desferia golpes de direita e esquerda fazendo o objeto oscilar de
um lado para o outro. Como podem estar desconfiando de
mim? Questionava-se ele. No fiz nada contra aquela
vagabunda! Mas bem que gostaria. Continuou a esmurrar e
chutar at suas foras se esgotarem.
     Continuava aborrecido pelo fato de ter perdido a
oportunidade de estar  frente de um programa na rdio
Belinne. Aquela poderia ser a chance de ser algum na vida.
Agora ele estava certo de que no conseguiria passar naquele
curso. Seus pais arranjaram a vaga na Belinne, j que conheciam
uma multido de pessoas ligadas aos sistemas educacionais.
Certamente iriam ficar decepcionados. Que tudo se dane!
      Todas aquelas questes e pensamentos inquietantes no o
deixaram dormir. Por isso estava no ginsio. J era tarde, ele
sabia, mas o guarda responsvel por aquela rea era seu amigo e
adorava um baseado -- coisa que Jorge Silva tinha com alguma
reserva.
     Ele respirou fundo e bateu mais algumas vezes no saco de
areia. Ficou fraco novamente. Andou at a beira do ringue onde
seus objetos estavam. Pegou seu relgio e observou que j
passava da meia-noite. Sentiu-se melhor, as tenses amenizadas.
Decidiu tomar uma ducha antes de retornar ao quarto. Agora,
depois de ter gastado alguma energia, talvez conseguisse dormir
um pouco.



     Robson Saldanha tentou ficar atento a cada movimento ao
seu redor enquanto caminhava pelo campus em direo ao
prdio onde dormia Jorge Silva.
     Ao chegar l s encontrou Mauro Duarte, o colega de
quarto de Jorge Silva. Os olhos do garoto pareciam duas brasas
de to vermelhos.
     -- Onde est Jorge Silva? -- indagou Saldanha.


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     -- Saiu -- Mauro falou mais lento do que da ltima vez. --
disse que ia ao ginsio bater no saco de areia. Ele vai l de vez
em quando, sabe? A maioria das vezes  quando ele fica fulo da
vida.  como uma terapia pra ele.
     -- Terapia a essa hora?
     Mauro Duarte esboou um sorriso amarelo e balbuciou:
     -- Pra voc ver s. O cara vive tentando demonstrar que 
duro, mas no fim acaba descontando num saco sem vida!



     Jorge Silva girou o registro do chuveiro e sentiu a gua cair
sobre seu rosto suado e se espalhar pelo corpo. Ele suspirou
esperando que seu estado melanclico esvasse pelo ralo junto
com a gua que escorria pelo cho. Aquela ira tinha que passar e
dar lugar a outro sentimento. Esperana talvez. Perseverana
quem sabe. Ele cerrou os olhos. O fato era que ele estava
cansado de sempre estar nadando contra a mar. Quando queria
algo sempre uma barreira se erguia para impedi-lo. Primeiro
queria ser boxeador. Seu pai proibiu. Depois quis ser rapper e
ento logo surgiram inmeras crticas de que ele no tinha
dico nem presena de palco. Por ltimo, a vaga na rdio
Belinne tinha sido conquistada por uma mulher, a amante do
professor. Como a droga da vida era estupidamente injusta,
xingou Jorge.
     Um rudo emitido do ginsio de repente chamou sua
ateno. Jorge Silva abriu os olhos rapidamente e enxugou o
rosto com a mo.
     -- J t saindo,  guardinha chapado!
     Fechou os olhos e ps a cabea debaixo do chuveiro
novamente.
     O som a seguir foi o de socos sendo desferidos no saco de
areia.
     O que esse guarda ta querendo? Injuriou-se Jorge Silva.
Acabar com meu relax ou ganhar mais baseado? Alcanou uma
toalha e colocou em volta da cintura. O barulho de socos
cessou. Com passos firmes Jorge deixou o banheiro e caminhou
at o saco de areia. Misteriosamente ningum estava ali. O saco
apenas oscilava de um lado para o outro.
     -- Quem est a?  voc, guardinha? -- No houve
resposta. -- No tenho mais baseado por aqui. Vai ter que se
contentar com o que eu j te dei.

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                     NAASOM A. SOUSA

     Silncio.
     -- Droga! -- praguejou. Deu um ltimo soco no saco de
areia e voltou-se para o banheiro novamente. Ao passar pela
porta, notou rapidamente pelo canto dos olhos que algum
encapuzado estava  sua espera, ao lado da parede, preparado
com um cano de metal para atacar-lhe. Mas o movimento do
assassino foi rpido demais para qualquer defesa. O golpe forte
na cabea foi rpido e Jorge Silva foi arremessando para frente
praticamente sem conscincia.
     A pessoa de capuz rapidamente largou o cano e se
debruou sobre Jorge Silva. Com as duas mos segurou-lhe a
cabea e com toda as foras do seu brao puxou-a para trs e
empurrou-a de volta contra o cho. Uma vez. Duas vezes. Trs
vezes. O cho ficou vermelho e o corpo de Jorge Silva ficou
sem vida.
     A vida  injusta. Foi o ltimo pensamento de Jorge Silva
antes do seu ltimo suspiro.



      Robson Saldanha caminhou ao ginsio o mais depressa que
pode. quela hora, aliada ao pressentimento nada agradvel que
corroia seu corao lhe dizia que Jorge Silva estava tramando
algo de errado ou simplesmente estava procurando sarna para se
coar.
      Ao se aproximar do ginsio ele avistou o guarda do lado de
fora.
      -- Viu o aluno Jorge Silva por aqui? -- perguntou
Saldanha rapidamente.
      -- No, senhor... -- o guarda titubeou. -- No vi
ningum por aqui...
      -- Vamos, ns dois sabemos que ele est dentro do
ginsio... E pelo vermelho em seus olhos posso imaginar como
lhe pagou para poder entrar a essa hora num local que deveria
estar fechado.
      O guarda pareceu empalidecer de repente. Saldanha
aproveitou o silncio do homem.
      -- Vou perguntar mais uma vez: viu o aluno Jorge Silva
por aqui?
      O guarda baixou o olhar.



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     -- Sim. Ele est a dentro do ginsio. Disse que no
conseguia dormir e me pediu para treinar um pouco. Mas eu
juro que ele no me deu nada em troca.
     -- Claro que no -- Saldanha fingiu acreditar.



     O guarda e o investigador entraram no ginsio. Somente
algumas lmpadas estavam acesas e Jorge Silva parecia no se
encontrar no alcance da claridade de nenhuma delas.
     O saco de treino estava oscilando sozinho, mas ningum
estava perto dele.
     -- Ele deveria estar por aqui.
     No! No poderia ser mais um desaparecimento misterioso,
torceu Saldanha. No queria que fosse.
     Seus olhos o levaram a notar uma porta entreaberta. Seus
ouvidos pareciam captar um som de gua batendo contra o
cho.
     -- Que lugar  aquele? -- Saldanha perguntou ao guarda.
     -- So os chuveiros.
     -- Quem sabe ele no esteja tomando uma boa ducha?
     Tomara que sim, meu Deus.
     Dirigiram-se at l. De fato se tratava de um chuveiro
aberto e a gua caa livremente e se escoava para o ralo no canto
do banheiro. Vasculharam todos os cubculos. Jorge Silva no
estava mais ali.
     O guarda deixou o banheiro e voltou para perto do saco de
areia.
     -- Jorge Silva?! -- chamou ele em voz alta. Um eco surgiu
reproduzindo sua prpria voz, mas a de Jorge no foi ouvida.
     Robson Saldanha ouviu seu corao bater violentamente e
sentiu os pulmes  procura de ar. Sabia cegamente que Jorge
Silva tinha entrado para o rol de desaparecidos da universidade
Belinne, e ele, mais uma vez, no tinha a mnima idia de como
aquilo tinha acontecido nem o porqu.




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        CAPTULO DEZENOVE
     ENTRARAM NA SALA DE ESPERA do hospital e procuraram
alguma informao sobre Ana Braga. Tain pediu para ver a
me. Era quase uma splica.
     A informao que tiveram foi que j a haviam transferido
para um quarto separado e que ela continuava sendo hidratada
com soro. Tain foi atendida em seu desesperado pedido.
     Ao adentrar o quarto, Tain pode ver a me com as partes
do corpo que haviam sido afetadas pelo fogo cobertas por uma
pomada. No era algo fcil de se ver.
     A enfermeira que a acompanhava tocou o brao da filha e
comentou com voz singela:
     -- Sua me  forte e acho que seu santo, mocinha, tambm.
Enquanto voc estava fora ela teve uma parada cardaca.
Felizmente conseguimos reanim-la. De outra forma voc no a
estaria vendo com vida.
     Tain sentiu uma pontada no seu corao e se aproximou
ainda mais do leito onde sua me dormia sedada. Lgrimas
saram quentes de seus olhos. No sabia ao certo se elas eram
de preocupao e tristeza ou de confiana e alegria. Sua me
estava viva, ainda que debilitada e com o corpo na forma em
que estava. Mas ela estava viva, continuava respirando, e logo
estaria de novo pronta a dar-lhe o amor que sempre dera.
     -- Eu te amo, me -- sussurrou Tain. -- Te amo muito.



     Ela encostou a porta atrs de si e teve que correr at Felipe
Nascimento. De forma surpreendente ela se lanou em seus
braos e o apertou contra seu corpo. As lgrimas ainda
escorriam pelo seu rosto.
     Felipe trocou um olhar com Vnia Alencar e esta
demonstrou sua preocupao pela expresso de seu rosto.
     -- O que houve, Tain? -- Felipe tambm estava
preocupado. Sentia o corpo de Tain tremer contra o seu. --
Est tudo bem?
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      -- Voc tinha razo, Felipe. Ele me ouviu. Deus me ouviu
-- disse ela j aos soluos.
      -- Voc falou com Deus? Pediu algo para Ele? O que
aconteceu? -- Felipe a apertava ainda mais contra si, sabendo
que aquele momento era precioso.
      -- Sim -- choramingou ela --, quando voc saiu da mesa
eu fechei os meus olhos e no liguei para mais ningum. Apenas
falei aquilo que eu estava sentindo...



      Vira quando Felipe entrara no banheiro e batera a porta
atrs de si. Respirara profundamente e olhara ao redor. Havia
mais algumas pessoas por perto, mas ela no deveria se
importar. O que mais ela poderia fazer se no falar com Deus e
pedir para proteger sua me e salv-la da morte?
      Suspirara mais uma vez, baixara a cabea e fechara os
olhos. Mordera os lbios e amassara o guardanapo nervosa e
inconscientemente. Ento tentara algumas palavras:
      -- Deus... Nunca antes tentei falar com voc. Acho que
nunca tive uma real necessidade ou algo que me pudesse me
ligar a voc. Agora conheci esse rapaz, o Felipe... Acho que ele
apareceu para fazer essa ligao. Acho que ele veio em boa hora.
-- ela ouvira vozes passando por sua mesa. No ligara.
Continuara. -- creio que ele apareceu porque... porque talvez
voc quis assim. Acho que agora chegou a hora de nos
conhecermos melhor. Talvez... talvez essa seja uma tima
oportunidade para eu ver do que voc  capaz, sabe... Minha
me est muito mal. Alis, nem sei como ela realmente est
agora. Talvez ela esteja morrendo... -- Sua voz de repente havia
sumido e seus olhos se encheram de lgrimas. Uma dor sbita
invadira seu corao. Ela tentara continuar. -- Por favor, no
deixe... No deixe minha me morrer. Felipe me falou que voc
est aqui me olhando e ouvindo, e disse que eu preciso crer.
No... no posso prometer que acredito nisso agora, mas
peo... Mostre-me que posso vir a acreditar. Salve minha me
da morte. Por favor, Deus... Por favor.
      Respirara fundo tentando acalmar sua alma. Abrira os
olhos e as lgrimas desceram quentes por sua face. Olhara para
o guardanapo e com ele enxugara os olhos e o rosto. Por fim se
sentira profundamente aliviada e calma.
      Ento Felipe retornara  mesa.

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                     NAASOM A. SOUSA




     Os olhos dos dois estavam fitos um no outro agora.
Ambos sabiam o que tinha acontecido. Deus agira e livrara a
me de Tain da morte como ela pedira. Do contrrio a parada
cardaca teria sido irreversvel e fatal.
     -- Deus te ama, Tain, e ele tem um plano para a tua vida.
     Ainda estavam abraados diante dos olhares curiosos
daqueles que estavam na sala de espera do hospital.
     -- Falei com Deus e Ele me ouviu, Felipe -- Tain dizia
com a voz entrecortada. -- Ceio nisso agora.
     -- Preciso falar com voc sobre uma coisa muito mais
especial. Gostaria que fssemos para um lugar mais reservado.



     quela hora a rua fora do hospital mostrava-se mais
deserta do que em qualquer outro momento. O vento frio e
costumeiro de Gramado soprava e assobiava nos ouvidos de
quem estava ali. Felipe e Tain sentaram-se na calada e
puderam ver alguns taxistas a alguns metros jogando conversa
fora ou dentro de seus carros tentando se aquecer. Estar ali era
meio que estar querendo se castigar com a brisa fria, mas para
Felipe aquele momento estava acima de qualquer sofrimento.
Ele precisava falar com ela sobre a coisa mais importante que
poderia existir no mundo.
     -- Est frio aqui -- comentou Tain abraando o prprio
corpo. Felipe se despiu do seu casaco de couro e entregou para
ela. A moa sorriu e se protegeu cobrindo o corpo trmulo.
     -- Espero que esteja se sentindo melhor sabendo que sua
me vai ficar bem -- disse ele olhando para ela.
     -- , devo admitir que meu corao no di mais como h
duas horas atrs. Graas a Deus -- ela fez questo de enfatizar.
     --  sobre isso que pedi para falar com voc -- Felipe
olhou para o cu anuviado. -- Deus quer que eu lhe d um
recado.
     Tain se mostrou espantada.
     -- Recado? Que tipo de recado?
     -- Que voc no est s. Ele te ama. Sempre te amou. Que
viu voc chorando nos momentos de solido, insegurana,
angstia e tristeza.

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     Com os olhos marejados ela olhou para baixo.
     -- , eu tenho mesmo sentido essas coisas, principalmente
nesses ltimos dias.
     -- Deus esteve observando tudo isso, Tain. Ele estava
prximo a voc e Ele estendia a mo para que voc pudesse
pegar, mas voc no viu e no sentiu isso. Mas hoje voc
contemplou o que Ele pode fazer. Por um momento voc lhe
deu crdito e, da sua forma, pegou na mo dele e Ele veio a agir.
Salvou sua me.
     Felipe notou quando uma lgrima se desprendeu do rosto
de Tain e caiu no cho. Logo depois outra lgrima caiu. Deus
estava trabalhando.
     Ele continuou:
     -- Voc pegou na mo de Deus uma vez e isso lhe fez
bem, mas... mas Deus no quer que voc pegue na mo dele
apenas uma vez. Na realidade Ele quer andar de mos dadas
com voc! E isso nos trs uma alegria indescritvel -- ele levou
a mo at o queixo dela e num movimento lento e singelo fez
com que ela erguesse a cabea e seus olhares se encontrassem
novamente. -- Deus est te convidando agora para que voc d
a mo para Ele. Para fazer isso voc ter apenas que fazer uma
coisa: dizer numa orao "Eu recebo a Tua mo e te recebo
como meu nico Senhor e Salvador". -- Ele fez mais uma pausa
para que ela pudesse assimilar suas palavras. Fitando fixamente
os olhos lacrimejantes dela, perguntou: -- Tain, voc quer
fazer agora essa orao e pedir para que Deus faa parte da sua
vida daqui por diante?
     Ela respirou profundamente e no demorou muito para
declarar com voz firme e emocionada:
     -- Sim, eu quero.




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                   Escrevendo...
      Ainda em estado de petrificao gritei por lit Senn e pedi
sua ajuda. Nesse momento ouvi a voz do gigante homem  minha
frente que me disse que lit, o demnio, no poderia me ajudar,
pois j havia sido abatido no corredor. Imediatamente me lembrei
do grito do meu guia antes dele desaparecer.
      "Quem  voc? O que quer comigo?" perguntei ao forte
homem ainda com medo de sua espada partir-me ao meio.
      Ele me falou que era um anjo do Deus altssimo e estava ali
para proteger um dos Seus filhos. Revelou-me que nem eu, meu
guia ou nem mesmo o Rebelde poderia toc-lo. Bradei-lhe que
com meus poderes acabaria com ele e com Deus, mas o anjo me
lembrou de minha imobilidade e ainda que eu estava  merc de
sua espada. Meus poderes ou daquele a quem eu seguia no eram
nada comparado ao do criador e seus filhos.
      "Levante seus ps e v embora!" Ele ordenou.
      Pude enfim me movimentar. Olhei para o anjo ainda uma
ltima vez e ento retornei ao meu quarto.
      Naquela noite no consegui dormir mais uma vez, mas no
por causa da insnia e sim porque havia descoberto que meus
poderes eram insignificantes diante do poder de Deus.
      Dali em diante resolvi ficar de olho naquele rapaz. Descobri
seu nome e que estava em seu ltimo do curso de fisioterapia.
Uma vez o segui at a sala onde funcionava a rdio Belinne,
prpria da universidade, soube ali que fazia um programa voltado
 comunidade evanglica do campus.
      "Como algum aparentemente normal podia ter o poder de
Deus em sua vida e a proteo de um anjo?" Perguntei-me.
      Passei um ano inteiro com aquela indagao em minha
mente e sozinha no obtive resposta.




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 NAASOM A. SOUSA




LIVRO
  2


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              CAPTULO VINTE
     TAIN VOLTOU  SALA DE ESPERA e observou Vnia
cochilando sentada. Era uma amiga e tanto. Quando Tain
partira para a universidade, Vnia ficara chorando, pensando
que no iriam ser mais amigas como antes. Ali estava a prova
que nunca deixariam de ser amigas de verdade.
     Pediu  enfermeira para mais uma vez entrar no quarto de
Ana e ficar um momento ao seu lado.
     Depois de um relutante "sim" da parte da enfermeira,
Tain entrou no quarto silencioso e sentou ao lado do leito
onde Ana repousava.
     Os minutos se passaram devagar e de forma opressiva
dentro do recinto lgubre. Algumas vezes sentia uma imensa
vontade de se debruar sobre sua me e abra-la, ou
simplesmente segurar-lhe a mo, mas como? Parecia que no
havia muitos lugares onde pudesse tocar. Tain estremeceu e
abraou o prprio corpo.
     Estou aqui, me. Espero que possa me sentir. Espero que
possa sentir o quanto voc  importante para mim e o quanto a
amo.
     Subitamente sua mente trouxe  lembrana a voz mecnica
de Michel pelo telefone. Uma ira imensurvel pousou sobre ela
e a impeliu a gritar. Porm, com todas as suas foras, reprimiu
aquele impulso quase indmito.
     Ela respirou profundamente e acabou por sentir que
precisava sair novamente para respirar ar puro.
     Deixou o quarto e passou por Vnia que ainda dormia. Ao
chegar fora do hospital viu que Felipe estava de p, solitrio,
um pouco afastado da entrada principal.
     Ela se aproximou vagarosa e silenciosamente dele e o ouviu
dizer em voz baixa:
     -- Senhor, obrigado pela vida da Tain. Sei que ela  muito
importante para Ti. Sei que tens um plano maravilhoso para ela.
Quero te agradecer por me colocar na vida dela e vice-versa.
Obrigado por me usar para falar da tua Palavra para ela. Sei que
tudo isso foi um projeto que estava em teu corao. Quero te
agradecer e te louvar pela vida da dona Ana... Por ter guardado
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a vida dela. Sei tambm que ela  muito importante para o
Senhor e para Tain.
     Ele respirou fundo e hesitou por um momento, pensando
nas palavras que ia dizer a seguir. Tain ia interromp-lo, mas
ele comeou a falar novamente.
     -- Deus... acredito piamente que o Senhor tem o melhor
para cada um dos teus filhos... e isso inclui a mim tambm.
Muito mais at do que aquilo que penso. Fico imaginando,
Senhor, se Tain apareceu na minha vida para... para ser alguma
coisa mais do que somente uma amiga. O Senhor sabe que ela
mexe comigo de uma maneira que nenhuma outra j conseguiu.
E agora, com ela te aceitando como seu Deus pessoal, fico
imaginando se seria coerente pensar que ns poderamos... --
hesitou mais uma vez -- ou se isso ainda  muito recente para
eu tomar tal deciso...
     -- O que voc ainda est fazendo aqui fora, nesse frio
congelante? -- ela perguntou subitamente, tentando no rir.
     Ele se voltou assustando.
     -- O qu... Hein? Ohh... -- Ele engoliu um n que
pareceu surgiu-lhe na garganta e tentou se recompor. -- H
quanto tempo voc est a?
     -- Cheguei agora -- ela mentiu. -- Por qu?
     -- Por nada. Como est sua me? -- ele sorriu, mudando
de assunto.
     -- Est bem agora, graas a Deus.
     Ela podia notar o visvel desconforto da parte dele e aquilo
a fez sorrir.
     -- O que foi? -- ele perguntou desconfiado.
     -- Nada -- disse ela olhando bem dentro dos olhos dele.
-- Nada mesmo.



     -- Meu senhor, eis aqui o sangue dos escolhidos.
     A pessoa de capuz estava no meio de uma sala lgubre,
onde apenas algumas velas a iluminavam. Em uma de suas mos
segurava uma taa e seus ps estavam firmes sobre um
pentagrama desenhado cuidadosamente no cho. Em cada uma
das quatro pontas do desenho estava uma taa de ouro
contendo sangue dos que j haviam sido sacrificados. A pessoa
se agachou sobre a ponta que aguardava sua taa
correspondente e em seguida repousou a que segurava na mo.

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     Nesse instante algumas vozes comearam a proclamar em
voz abafada:
     -- ETERNIDADE! ETERNIDADE! ETERNIDADE!
     Era o som emitido por algumas dezenas de seguidores no
recinto, rostos na escurido, esperando igualmente sua
recompensa. Almas sedentas pelo poder, sabedoria, sucesso,
prazer. Alguns deles pareciam estar em transe, num enlevo
momentneo. Esperanosos de que seu lder os guiaria para
algo indescritvel o qual nenhum homem ou mulher possura no
mundo. Eternidade.
     -- Sim! -- disse excitada a pessoa encapuzada. -- estou
com todos eles, meu senhor, mas ainda falta a chave.
     O som passou a se elevar.
     -- ETERNIDADE! ETERNIDADE! ETERNIDADE!
     -- A chave... ela logo estar no lugar onde deve estar: no
centro.
     -- NO CENTRO! NO CENTRO! NO CENTRO!
     -- E ento a obra estar completa!
     -- ETERNIDADE! ETERNIDADE! ETERNIDADE!
     -- Somos seus servos e Tain Braga ser a oferenda a ti
para que nos d aquilo que almejamos.



     Tinha sido mais uma noite sem dormir. J eram trs com
aquela. Com certeza j considerava um recorde para si. Podia
sentir seus olhos inchados e uma fina dor que resvalava na
cabea, entretanto se sentia bem no momento e seguramente
aquilo lhe era estranho. Poderia dizer que j era Deus operando
em sua vida? Por tudo o que escutara de Felipe Nascimento,
sim.
     Tain sorriu, pois ele estava  sua frente dormindo sentado
na recepo, assim como Vnia estava h momentos atrs.
     Como ele era belo dormindo, pensou ela.
     Vnia se aproximou com dois copos de caf e se deteve
fitando os olhos brilhantes de Tain.
     -- Quem  ele? -- Vnia teve que perguntar.
     Tain piscou vrias vezes, dando a entender que o encanto
tinha sido quebrado. Um tanto desconsertada se empertigou na
cadeira onde estava e pigarreou.



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     -- Ele? Bem... Ahmm... O nome dele  Felipe
Nascimento. Conheci na rdio da universidade onde
atualmente estou fazendo um programa.
     Vnia estendeu o copo de caf para Tain.
     -- E vocs dois so...
     -- Amigos. Somos amigos. -- Tain tratou de esclarecer.
Pegou o copo e sorveu rapidamente um gole de caf.
     Vnia sentou ao lado da amiga e tambm observou Felipe
atentamente.
     -- Ele  bonito.
     -- Voc acha?
     Vnia voltou-se para Tain.
     -- Acho... Quero dizer... Voc no acha tambm?
     -- Bem... Sim. Acho.
     Vnia bebeu um pouco de caf do seu copo e comentou
sem demonstrar nenhuma pretenso:
     -- Vocs devem ser grandes amigos para ele se dispor a vir
de Porto Alegre para c e passar a noite do seu lado, dando essa
fora.
     Tain hesitou por um momento.
     -- Sinceramente nos conhecemos h pouco tempo. Mas
posso afirmar que ele tem sido um anjo para mim.
     Vnia ergueu as sobrancelhas finas, impressionada.
     -- J ouvi dizer que s vezes anjos descem do cu para nos
ajudar. Acredita nisso?
     Tain voltou os olhos para Felipe antes de afirmar:
     -- No. Ensinaram-me que somente uma pessoa pode me
ajudar de verdade: Jesus Cristo.  nele que creio agora.




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                   Escrevendo...

      Quase dois anos j haviam se passado desde o dia que eu
tinha me encontrado com o anjo. Ainda freqentava s reunies
do Grupo e at ento conservava minha amizade com todos, mas
j no chamava mais pelo meu guia, pois desde que havia sumido,
h quase dois anos, no retornara mesmo com a minha insistncia
em cham-lo quase todas as noites.
      Ainda com sede por mais poder tambm percebi que com lit
Senn nunca conseguiria a fora que vira na noite em que ele
desaparecera berrando. Decidi ento realizar uma investigao
sobre o rapaz a quem o anjo protegera. Descobri que ele tinha
acabado seu curso e se formara, mas continuava com o programa
na rdio. Passei a escutar o programa todos os dias escondido dos
demais membros do grupo. Certa vez o rapaz disse na rdio que
Deus me amava e que eu era especial. Que eu no precisava fazer
nenhum sacrifcio para que ele me amasse, pois seu filho j tinha se
sacrificado por mim. Aquilo tocou meu corao de forma intensa.
Senti um forte desejo de conhecer aquele Deus de tanto poder e
tanto amor. Decidi que deveria me encontrar com o rapaz da
rdio o mais rpido possvel. Liguei para ele, contei rapidamente
minha histria e marquei um encontro num lugar secreto. Ele
aceitou de imediato.
      Ao nos encontrar contei tudo sobre mim e ele me ouviu
atentamente. Posteriormente me contou sobre Jesus e como seu
poder era maior do que qualquer outro -- Eu j tinha
conhecimento sobre aquilo por experincia prpria. Falou-me que
se eu entregasse minha vida a Jesus eu seria uma nova criatura e
que o poder e a presena de Deus habitariam em mim. Ali mesmo
aceitei a Cristo.




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        CAPTULO VINTE E UM
      SINCERAMENTE ACHARA QUE perdera a conta exata de
quantas vezes estivera ali em to pouco tempo, e se espantava
em se sentir to incomodado e insatisfeito por estar naquela
sala novamente. Saldanha ajeitou-se dentro do seu terno e fitou
o diretor Augusto Pires, que mais uma vez insistia em
demonstrar-se uma figura aristocrtica.
       -- Deve estar ciente do motivo pelo qual mandei cham-
lo para vir at aqui, no? -- indagou o diretor gesticulando com
as mos mais do que o normal.
      Saldanha acenou com a cabea.
      -- Sim. Meu prazo se esgotou.
      -- E ainda por cima outro aluno desapareceu --
acrescentou Augusto Pires.
      -- Sim -- suspirou o investigador com ar de impotncia.
      -- No vejo outra alternativa seno contatar a fora
policial para o caso.
      Saldanha tentou se aproximar o mximo possvel sem dar a
entender que era um movimento ameaador.
      -- Sei que no descobri nada de concreto, diretor Pires,
mas sei que se me der...
      -- Mais tempo? -- atalhou o diretor em tom irnico. -- 
isso que quer? Paguei-lhe muito bem pelo seu precioso tempo,
investigador, mas temo em dizer que foi em vo. No me
trouxe fatos, no me trouxe solues ou culpados pelos
desaparecimentos. O que me trouxe foram apenas conjecturas
sobre grupos satanistas nesta universidade que pode estar
envolvida com sacrifcio de pessoas... Ora vamos! Estamos no
sculo vinte e um!
      -- J resolvi casos que deixaria sacrifcios humanos no
chinelo, diretor -- replicou Saldanha.
      -- Mas no foi capaz de resolver este at o presente
momento. Admita.
      Saldanha ficou em silncio. Augusto Pires se prevaleceu da
falta de afirmao do investigador e adiantou-se:
      -- Lembra da mulher do professor Gilberto? Ela j est
entrando com um processo de indenizao contra a Belinne. Eu
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                     NAASOM A. SOUSA

ainda no sei o que de fato aconteceu com o bendito marido
dela. Fugiu com outra pessoa? Cansou-se dela e foi procurar a
felicidade em outro lugar? Abduziram-no? Foi morto aqui? Eu
no sei... At agora. Por isso o caso no  mais seu de agora em
diante. No tenho como encobrir mais tudo isso.



     Estava grato ou terrivelmente contrariado por sair da sala
de Augusto Pires sem dizer mais nenhuma palavra para se
defender? Saldanha no sabia responder. O fato era que ele no
estava mais no caso e ainda por cima desconhecia o paradeiro de
Manoel Cristovan. Na verdade sentia que poderia fritar um ovo
sobre sua cabea.
     Caminhava de volta ao seu quarto no campus pensado qual
seria seu prximo passo. O que fazer? Talvez ligasse para os pais
de Manoel novamente para saber se tinham alguma notcia dele.
E se no tivessem? Pensava que pudesse contar sobre o
desaparecimento de Manoel e que o pudessem contratar. S
assim ele continuaria no caso. Esse era o melhor plano que
passava por sua mente no momento.
     Caminhou mais alguns metros at que se deteve
subitamente ao enxergar um papel vermelho no cho.
Apanhou-o e observou atentamente. Estava em branco. Era o
mesmo formato, o mesmo tipo de papel e agora a mesma
sensao esquisita que Saldanha sentira ao ter nas mos o
convite  festa satnica que estava dentro do livro de Digenes
Coelho. Ele amassou furiosamente o panfleto e devolveu-o ao
cho.
     -- No posso me dar por vencido -- proferiu Saldanha a si
mesmo. -- Algo estranho est acontecendo nesse lugar e tenho
que descobrir o que .



      To olhava atentamente para o panfleto cor de sangue em
suas mos e no sabia ao certo o que pensar. Era algo que nunca
lhe tinham apresentado antes.
      -- Parece algo escuso, mas no  nada disso. Apenas
somos reservados -- uma moa loira, bonita e com atraentes
olhos claros tentou explicar por trs de um sorriso encantador.


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     -- Mas isto  satanismo no ? -- To perguntou
hesitante. -- Isso no parece ser coisa boa.
     Uma outra moa, uma ruiva estonteantemente graciosa,
indagou:
     --  isso o que voc acha?
     -- Apenas nos opomos a uma falsa regra de que temos que
nos penitenciar ao fazer algo que os outros acham errado --
disse a loira de forma incisiva. -- Mas o que  errado? Fazer o
que queremos? Somos donos de ns mesmos. Isso  o que
pensamos e por isso lutamos.
     A ruiva sorriu e disse:
     -- Voc acha que se fosse algo to ruim, como dizem,
estaramos nisso?
     -- Bem... -- ele sorriu desconcertado -- acho que no.
     -- Ento vamos? -- a loira deslizou delicadamente a mo
pelo rosto de To e piscou o olho de forma excitante.
     To engoliu seco. Estava sem argumentos para se negar a
participar. Ele suspirou e balbuciou:
     -- No sei se devo... Eu...
     -- Voc tem namorada? -- interveio a ruiva.
     -- Sim, mas faz algum tempo que no a vejo.
     -- Ento o que te impede? -- a ruiva insistiu.
     -- O fato de no estarmos juntos no significa que estou
aberto para conhecer novas pessoas.
     -- Novas garotas, voc quer dizer -- a loira corrigiu.
     -- Sim, isso mesmo.
     A ruiva sorriu para ele e pegou em sua mo.
     -- Pois tenho uma coisa para lhe dizer: nossas festas so
to intensamente interessantes que no ficaria espantada se
voc encontrasse sua namorada l.
     To franziu o cenho.
     -- Voc est brincando.
     -- No quer pagar para ver? -- jogou a loira.
     Ele mordeu o lbio, irresoluto. Por fim disse:
     -- Tudo bem. Vamos ver como  essa festa.



    -- Tain, h um telefonema para voc na recepo -- foi o
que lhe disseram quando estava ao lado de Ana Braga. Logo
pareceu ficar glida e plida ao mesmo tempo, as foras
querendo deix-la.

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                     NAASOM A. SOUSA

     Ela olhou para Ana como que dizendo: fique bem. Deixou
o quarto e caminhou mais uma vez pelo corredor. Sabia que no
iria encontrar Felipe ali por perto, pois ele tinha sado para
comprar alguns objetos pessoais para ambos, alguma coisa para
comerem e logo estaria de volta. Mas logo no significava agora
e o telefonema no podia esperar.
     Quem poderia ser? Torceu para que fosse Camila ou To
ou qualquer um da universidade Belinne. Por favor, Deus...
Michel no! Suplicou.
     Chegou  recepo e fitou o fone fora do gancho  sua
espera. Pegou o fone e, insegura, tentou firm-lo contra o
ouvido.
     -- Al... -- sentiu que sua voz saiu fraca demais.
     -- Tain, voc no me escutou quando eu disse para voc se
afastar.
     Tain reconheceu a voz feminina que tinha lhe alertado
sobre o grupo satanista.
     -- O que voc quer? Por que fica me ligando... me
alertando de coisas que no entendo?
     -- Voc  esperta, mas espero que no descubra tudo tarde
demais.
     -- Descobrir o qu? -- agora Tain percebia que sua voz
saa muito alta.
     -- Continue sendo esperta. Firme-se em Deus e procure
respostas na pessoa que sempre esteve ao seu lado.
     -- O qu?...
     -- E o mais importante: No volte para a Belinne,
entendeu?
     O telefone emudeceu subitamente. Aquilo estava se
tornando rotina, afinal.
     Tain reps o fone sobre o aparelho e levou as mos ao
rosto.
     -- Meu Deus! Meu Deus! O que est acontecendo? Por
que esto fazendo isso comigo?



     -- Voc est ficando maluco, To?
     Camila parecia estar perplexa. No acreditava no que
acabara de escutar. To estava  sua frente mostrando-lhe o
panfleto. Estavam no quarto dela.


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                    NAASOM A. SOUSA

     -- No estou maluco -- ele assegurou guardando o
panfleto. -- Quero ir nessa festa para sondar o lugar e as
pessoas. Disseram-me que poderei de repente encontrar
Virgnia l.
     -- Sinceramente... Acredita nisso?
     Relutantemente abanou a cabea de forma negativa.
     -- No. No acredito, mas sei que l poderei obter pistas
para saber o paradeiro dela. Sei que Tain e Robson Saldanha
desconfiam que um grupo satanista esteja por trs dos
desaparecimentos e quero me certificar disso.
     No semblante de Camila podia-se ver claramente uma
expresso de preocupao.
     -- Isso pode ser perigoso. Voc no tem nenhuma idia do
que ir encontrar l.
     -- Sou sabedor disso, mas tenho que fazer alguma coisa.
     Camila pensou por um momento e disse:
     -- D-me um minuto para vestir algo melhor e irei com
voc.
     -- Voc no pode. No tenho outro convite e apenas com
ele se pode entrar l.
     Ela ficou esttica como quem no tinha mais nada a dizer.
     To suspirou de modo lnguido.
     -- No se preocupe. Terei o mximo de cuidado.
     -- Enquanto isso o que poderei fazer daqui?
     -- Faa uma prece ou alguma coisa assim por mim, porque
eu no posso mais ficar parado sem ter uma resposta sobre o
paradeiro de Virgnia ou sobre o que aconteceu com ela. Tenho
que me arriscar.



     To observou o cu pela janela do seu quarto. Era uma
noite de luar, estrelada. Caminhou at o espelho na parede e
deu uma ltima olhada em si mesmo e considerou que no
estava to mal. Uma roupa esportiva cobria-lhe o corpo e um
gel esculpia-lhe o cabelo. Suspirou e fechou os olhos.
     -- Vamos ver o que a noite me reserva -- disse consigo.



    O endereo que as duas beldades lhe deram ficava em um
dos quartos da fraternidade Omega-beta. Ele percorreu todo o

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                      NAASOM A. SOUSA

caminho at l com cuidado, pensando sempre em como iria se
portar, no que iria dizer e o que iria fazer, mas em instantes era
como se tudo fugisse da mente e logo l estava ele repensando
tudo outra vez.
      Enfim estava em frente  porta do quarto, mas
estranhamente tudo parecia silencioso demais. Levou os ns da
mo para bater na porta, mas duas mos seguraram por trs
seus ombros de sbito, pegando-o de surpresa. Ele voltou-se
rapidamente.
      -- No se preocupe -- falou a loira com o mesmo sorriso
encantador. -- Somos ns.
      -- Houve mudana de planos -- disse a ruiva. -- A festa
foi transferida para outro lugar, mas infelizmente s poderemos
lev-lo at l se colocar isso.
      To viu uma venda na mo da ruiva.
      O que voc est fazendo, Timteo? Est brincando em casa
de maribondo!
      -- Tudo bem. Vou colocar.



      A msica no era alta, mas enchia o lugar de forma
encantadora. To achou que daria at para relaxar, mas seus
msculos estavam tensos demais para que aquilo acontecesse de
verdade.
      -- Pode tirar agora -- disse a loira.
      Ele retirou a venda e viu dezenas de pessoas naquele lugar.
Sabia que ainda estava na Belinne, mas no sabia exatamente
onde. As luzes eram florescentes, de vrias cores, s vezes
psicodlicas para ele. No podia medir a extenso do lugar, pois
estava tomado de pessoas em p, sentadas, danando, apenas
conversando, mas nunca solitrias. Sempre estavam em grupos.
      -- Venha por aqui -- a ruiva o conduziu por entre algumas
pessoas at um grupo em particular.
      -- Esse  o nosso cl -- apresentou a loira. -- Pessoal esse
 o To.
      -- Cl? O que  isso? -- To quis saber.
      -- O nosso grupo. Nossa Ordem  organizada por
diversos grupos ou, como chamamos, cls. O nome do nosso
cl  Helnius, como referncia aos Helenitas.
      To estudou os outros integrantes do cl e reconheceu
alguns. Srgio Cunha, o melhor aluno da classe de filosofia;

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                     NAASOM A. SOUSA

Alisson Fontana, o zagueiro do time de futebol; Dilma Colares,
editora do peridico da universidade, alm de outros que ele
no conhecia.
     Srgio Cunha ofereceu a mo para que To apertasse.
     -- Aqui conosco voc nunca estar sozinho, meu amigo, e
ter um conhecimento de si mesmo e do mundo como nunca
teve antes -- disse ele.
     To o cumprimentou.
     -- Posso sentir que a hospitalidade de todos aqui  intensa.
     -- E voc no sabe o quanto -- disse a ruiva aproximando-
se ainda mais dele, de modo insinuante.
     To sentiu que sua face corou. Alisson Fontana se
manifestou com uma gargalhada.
     -- Se continuar por aqui, meu irmo, com certeza ir
encontrar a futura me dos seus filhos, entendeu?
     Todos do cl riram; To apenas esboou um leve sorriso.
     -- No se sinta embaraado -- foi a vez de Dilma Colares
se declarar. -- Aqui voc no tem que se sentir preso a
costumes ou a leis. Aqui voc  livre para fazer aquilo que o
agradar.
     -- Esse  o esprito da nossa Ordem: faa aquilo que o
satisfaz sem que tenha que prestar contas a ningum. Voc  o
seu salvador -- explicou a loira.
     -- Parece interessante -- balbuciou To.
     -- E . Pode acreditar -- afirmou o zagueiro.
     A editora observou atentamente To e deduziu:
     -- Voc parece um tanto cabisbaixo. No me diga que sua
namorada o deixou.
     -- ... mais ou menos isso.
     -- Como ela se chama? -- Srgio Cunha perguntou com
curiosidade.
     -- Virgnia Sales.
     Todos pareceram ter recebido um raio petrificante que os
deixaram paralisados por trs segundos e em seguida trocaram
olhares rapidamente. To tentou ser cauteloso, mas sua avidez
por respostas pereceu lhe consumir o bom senso. Ele insistiu:
     -- O nome dela  Virgnia. J ouviram esse nome?
     O zagueiro pigarreou e ento sorriu.
     -- Cara, eu acho que conheo essa garota.
     -- Mesmo? -- To estava ansioso por respostas.
     -- Claro! E posso jurar que a vi em outro cl logo ali --
Alisson apontou para um canto da sala.

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     -- Ora vamos, Alisson, mostre ento a moa para o To --
pediu Srgio entusistico.
     To no sabia o que pensar. Todos pareciam to
encantadores e ao mesmo tempo to insidiosos, mas ele tinha
que ter esperana. Tinha que ver Virgnia novamente.
     Alisson e Srgio conduziram To por entre outras pessoas
com bebidas e cigarros na boca at entrarem num corredor
iluminado por florescentes vermelhas. Num instante To se viu
caminhando entre os dois rapazes, um  sua frente e outro  sua
retaguarda.
     -- Essa sua namorada... -- Alisson, que estava na frente,
comeou a dizer e cessou de andar.
     -- O que foi? O que tem ela? -- To tambm estancou
fitando-o. Estava uma pilha de nervos. O que est acontecendo?
Aonde voc veio se meter! Saia j da! Seus instintos gritavam-
lhe furiosamente.
     -- Virgnia?
     -- Sim, o que tem ela? Est ou no est aqui?
     Por favor, diga que sim! To suplicava aos cus.
     -- Creio que me enganei -- Alisson murmurou. --
Conheo uma Violeta. Por um momento pensei que fosse
Virgnia.
     Que droga! Exclamou To em pensamento. Voltou-se para
trs para sair seja l de onde estivesse, mas notou que Srgio
estava com um cano de ferro na mo.
     No deu nem ao menos tempo para gritar. O cano foi de
encontro  cabea de To e tudo se tornou escuro e sem
sentido para ele.




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      CAPTULO VINTE E DOIS
      NOS PRIMEIROS RAIOS DO SOL Saldanha decidiu fazer uma
visita  Camila. Quando foi recepcionado e entrou no quarto
logo pode sentir um aroma agradvel de flores. O aposento,
como de costume, estava limpo e organizado. Tpico de quase
todas as mulheres, pensou Saldanha.
      -- Desculpe incomod-la, mas gostaria de saber notcias de
Tain.
      -- Ela est em Gramado com a me -- disse Camila.
      -- J fui informado disso. Gostaria de saber como a me
dela est e quando ela ir retornar.
      Camila sentou em uma das camas e ofereceu uma cadeira
perto da penteadeira para Saldanha.
      -- Liguei para ela e soube que a dona Ana est melhor. As
queimaduras foram bem acentuadas, mas j esto estabilizadas e
medicadas, ou seja, ela est bem.
      -- Fico feliz em saber -- falou o investigador em tom de
alvio.
      -- Tain no sabe ao certo quando voltar. Sabe como ...
Deixar a me num estado daquele, sozinha, num leito de
hospital no  coisa que uma boa filha faria.
      -- Tem razo -- concordou Saldanha. -- Em todo caso
quero que transmita a ela minhas condolncias.
      -- Pode deixar -- Camila acenou com a cabea e sorriu
para ele.
      -- E diga tambm que fui tirado do caso dos
desaparecimentos.
      Camila precipitou os ombros para frente e estreitou os
olhos.
      -- O qu? Como... Por que fizeram isso?
      -- Creio que voc sabe por qu. Eu no atendi s
expectativas do diretor Pires.
      -- Sinto muito.
      -- No sinta -- resmungou ele. -- Apenas diga isso para
Tain.
      -- Pode deixar. Eu direi.


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      -- Por que voc no descansa um pouco? Voc parece
exausta.
      Estavam em p no canto do corredor. Felipe Nascimento
fitava Tain, preocupado. Ela no comia direito desde que tinha
chegado ao hospital e s Deus sabia se j no vinha comendo
mal daquele jeito h dias. Ela pareceu pender para frente para
conseguir dizer:
      -- No consigo comer, nem dormir, Felipe. Algo est
acontecendo ao meu redor e tenho que descobrir o que se trata.
      -- Ainda pensando no telefonema da noite anterior?
      -- Como posso esquecer?
      -- Quem  ela?
      Tain fechou os olhos e balanou a fronte de um lado para
o outro.
      -- No sei, mas desde a primeira vez que ela falou comigo
vem tentando me dizer para tomar cuidado... Parece estar
interessada em me ajudar.
      -- Como assim? O que exatamente ela lhe disse?
      -- Ela disse: continue sendo esperta. Firme-se em Deus e
procure respostas na pessoa que sempre esteve ao seu lado.
      Felipe ergueu as sobrancelhas.
      -- O que  isso? Uma pista, uma charada?
      Tain passou a mo pela testa.
      -- No sei... Tudo isso parece um quebra-cabea. -- Ela
suspirou e ento, como num estalo, seus pensamentos
comearam a se ajustar. Ela fixou os olhos em Felipe e
interpretou: -- Espere... Quem sempre esteve perto de mim
foi... minha me!



     O diretor pegou em sua mo o cheque com a quantia
acertada pelos servios de investigao e estendeu na direo de
Robson Saldanha.
     -- Aqui est o combinado -- disse o diretor. -- Quando
quiser pode deixar o campus e, esteja certo, de que quando seus
filhos quiserem se formar, a universidade Belinne continuar
sendo a melhor escolha.
     Saldanha pegou o cheque e o guardou no bolso.
     Nem nos seus melhores sonhos!

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     -- Com certeza, diretor Pires, terei o maior prazer em
ingress-los nesta instituio.
     -- Certamente -- o diretor mostrou um meio sorriso.
     Saldanha deu as costas e abriu a porta do escritrio, mas
ainda tinha que dar um ltimo recado. Voltou-se novamente
para Augusto Pires.
     -- Ah... Ainda quero informar que o meu assistente,
Manoel Cristovan, est desaparecido e isso ocorreu quando
estava aqui no campus da universidade -- o diretor estava
prestando ateno. Saldanha continuou. -- Irei falar com os
pais dele e certamente querero que eu participe das
investigaes juntamente com a equipe policial. Por isso quero
lhe adiantar que talvez ir me ver por aqui novamente.
     Ainda sob o silncio de Augusto Pires, Saldanha deixou o
cubculo com um sorriso nos lbios.



     O toque suave na mo direita de Ana Braga -- uma das
poucas partes do corpo no afetadas pelo fogo -- significava
muito mais do que simplesmente um toque. Tain fixava os
olhos em sua me e tentava transmitir todo seu amor naquele
gesto, ainda que Ana no pudesse abrir os olhos para v-la.
     Como queria estar ao lado da me quando tudo aconteceu,
lamentava Tain. Sem dvida foram momentos horrveis. Ela
agradeceu a Deus mais uma vez por ter guardado Ana da morte,
mesmo que ela tivesse que carregar as marcas daquela tragdia
em boa parte do corpo.
     Tain respirou fundo e mais uma vez era como se ouvisse
nitidamente aquela voz em seu ouvido lhe falando: Continue
sendo esperta. Firme-se em Deus e procure respostas na pessoa que
sempre esteve ao seu lado.
     Como queria que Ana voltasse  conscincia naquele
instante e lhe esclarecesse todas as inquietantes interrogaes
que lhe assolavam o corao e a alma.
     Afinal, que mistrios Ana Braga tinha para revelar? O que
de fato escondia? Por que Michel tinha feito aquilo com ela?
Era culpada de algo do passado?
     -- Me... -- a voz de Tain saiu rouca -- o que est
acontecendo conosco?
     Bateram na porta no quarto antes de abri-la. Uma senhora
na faixa dos trinta anos entrou e falou quase sussurrando:

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     -- Sou da recepo. Disseram-me que voc  Tain.
     -- Sim, sou eu mesma.
     -- Tem algum no telefone querendo falar com voc.
     Foi automtico. Tain sentiu um sbito aperto no corao.
Ela sentia. Era ele. Era Michel.



     Enquanto pegava o fone e encostava junto ao ouvido
sentiu o pulsar do corao disparar descontroladamente. Olhou
ao redor e viu Felipe conversando com Vnia ao longe. Tentou
controlar sua tenso e prendeu a respirao alguns segundos
antes de falar:
     -- Al.
     -- Como est sua me?
     Aquela voz soou como uma facada no peito de Tain e ela
sentiu os plos do corpo se eriarem. Sua intuio no a
enganara. Era Michel. A pergunta dele pareceu despretensiosa,
sem demonstrar qualquer culpa ou preocupao.
     Aquilo fez Tain cerrar os dentes.
     -- O Cisne era minha me, no era? Voc quis mat-la.
Por qu?
     -- Por que sua me  uma prostituta!
     Ele pareceu ameaador. Sua voz mudou radicalmente.
     -- Do que voc est falando? Voc  louco! -- Tain sabia
que comeava a transparecer seu nervosismo.
     -- Louco? Voc no sabe nada sobre mim. No sabe nada
sobre sua me, nem sobre voc mesma. Est longe de conhecer a si
prpria. -- Ele esperou que ela falasse algo, mas Tain estava
intrigada demais para dizer qualquer coisa. Ele continuou: --
No me chame de louco, pois voc no sabe a dimenso do
propsito da sua vida. Seus amigos tambm no souberam antes
de morrer... -- Tain deixou escapar um gemido. Agora estava
claro que seus amigos tinham sido executados por Michel. --
Mas eles tambm tinham um propsito. Eternidade, Tain. Esse 
propsito das suas vidas.
     -- Como pde matar todas aquelas pessoas... No fizeram
nada contra voc!
     -- No foi culpa minha. Foi culpa sua!
     -- O qu? -- ela estava perplexa.
     -- Sempre liguei para voc e dei a pista de quem morreria.
Voc no foi capaz de salv-los.

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                    NAASOM A. SOUSA

     -- Eu no sabia! No tinha como saber! -- Ela
choramingou.
     Michel suspirou ruidosamente do outro lado da linha e
disse:
     -- No chore, pois voc ter mais uma oportunidade.
Retorne para a Belinne hoje mesmo ou o seu amigo To tambm
ir morrer.
     Tain sentiu as lgrimas no rosto, mas as enxugou
rapidamente; queria gritar, mas se conteve. Aquilo no podia
estar acontecendo. Olhou na direo de Felipe e Vnia. Os dois
ainda continuavam conversando. Seria melhor se estivessem
mais perto dela, mas no estavam no momento.
     -- Por favor, no faa nada a ele -- ela suplicou.
     -- Venha hoje mesmo. A vida dele est em suas mos.




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                     NAASOM A. SOUSA




      CAPTULO VINTE E TRS
     ELA TECLOU OS NMEROS DO TELEFONE do seu quarto na
universidade Belinne com os dedos trmulos. Tinha que ser
mentira, desejou impetrantemente. Michel tinha que estar
brincando com ela, uma brincadeira macabra. Segurou o fone
com fora na tentativa de conter a tremura das mos. Vamos,
Camila, atenda!
     -- Al -- a voz de Camila ressoou para o alvio de Tain.
     -- Camila, por favor, diga-me que voc sabe onde To est
-- sua voz saa sufocada, sua respirao entrecortada como se
algum estivesse apertando sua garganta sem piedade alguma.
     -- Tain, est tudo bem?
     -- No! -- Tain baixou a voz. -- Voc viu o To
recentemente?
     -- Eu o vi ontem -- Camila agora parecia preocupada --,
mas o que h? Voc parece aflita.
     -- Michel me ligou h pouco. Disse que matou Valdir,
Virgnia e todos os outros, e... -- definitivamente era difcil
revelar aquilo sem que lgrimas enchessem seus olhos e um n
se formasse na garganta. -- agora ele diz que To est em poder
dele e que se eu no voltar  Belinne tambm vai mat-lo.
     -- Meu Deus, isso  horrvel! Ele foi a uma festa muito
suspeita ontem  procura de informaes do paradeiro de
Virgnia. Disse-me que se tratava de um encontro de satanistas no
campus.
     -- Essa no! Faa-me um favor. Procure o investigador
Saldanha e conte isso a ele. Creio que ele poder nos ajudar.
     -- Caramba! Ele veio aqui e acabei esquecendo de lhe falar a
respeito. Mas deixe comigo. Farei isso agora mesmo -- Camila
prometeu.
     -- Diga que j estou voltando. To est em perigo e tenho
que fazer o que Michel me pediu.
     -- E quanto a sua me? Vai deix-la sozinha no hospital?
     -- Tenho amigos que ficaro com ela aqui. Enquanto a
mim, no h outra opo a no ser tentar salvar a vida de To.
     Houve um instante de silncio por parte de Camila, at
que ela disse em tom sombrio:
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                      NAASOM A. SOUSA

      -- J pensou que To pode fazer parte disso e que voc pode
estar indo de encontro a uma armadilha?
      Tain hesitou por alguns instantes. Aquilo poderia ser
verdade e ela estaria caindo numa cilada arquitetada de forma
fria e calculista.
      -- No, isso no havia passado pela minha cabea -- ela
admitiu. -- Mas e se ele no fizer? No tenho escolha, amiga.
Logo estarei a. Seja o que for terei de estar preparada, mesmo
sem saber exatamente o que tudo isso significa.



     Ao abrir os olhos teve a ntida impresso de estar
enveredando num terrvel pesadelo. To sentia-se ainda meio
zonzo decorrente da pancada dada em sua cabea. Ele tinha
apostado e tinha perdido, essa era a triste concluso que
chegava agora. Queria desesperadamente saber algo sobre o
paradeiro de Virgnia, mas agora percebia que desde o incio
queriam-no exatamente onde estava agora. Levou a mo at o
galo que estava do lado direito de sua cabea, estava dolorido l.
Malditos! Praguejou. Mas alguma coisa lhe alertava que o pior
ainda estava reservado para ele.
     Tenho que sair daqui, pensou, ou s Deus sabe o que vai
acontecer comigo.
     Olhou ao redor. Estava numa sala escura. Parecia um
calabouo. Estava quente e cheirava a incenso e vela. Onde
estou? Subitamente sentiu como se olhos estivessem postos
sobre ele e que uma presena maligna pairava naquele lugar
lgubre e mido.
     -- Algum est a? -- ele berrou.
     Nenhuma resposta.
     -- Tirem-me daqui!
     Nada.
     --  melhor me soltarem. Algum vir atrs de mim!
     Nenhum som.
     O que ser de mim? O que ser de mim? To percebia que
seu tempo se esgotava a cada segundo que passava. Aquilo o
estava consumindo ao ponto de fazer seu estmago embrulhar.
     Subitamente uma voz arranhada e amedrontadora
sussurrou bem prximo ao ouvido de To:
     -- Hoje voc morrer aqui!


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                     NAASOM A. SOUSA

     To deu um salto de pavor para trs e tentou visualizar
algum ou alguma coisa, mas nada parecia estar ali dentro a no
ser ele.
     Em extremo pavor ele berrou mais uma vez:
     -- Deus, me tire daqui!!!
     Enquanto To berrava agonizante, Michel dava uma risada.
Estava num canto do recinto, invisvel, fora do alcance dos
olhos fsicos de To. Usava a projeo astral ensinada pelo seu
guia e ansiava em cumprir seu sacrifcio o mais breve possvel.
     Agora falta muito pouco, pensou contente, ainda sondando
o sofrimento de To.



     Tain fitou os olhos de Vnia com extrema gratido e
pegou as mos dela de modo afvel.
     -- No tive oportunidade de agradec-la ainda pelo que
voc fez, mas quero que saiba que ter voc aqui do meu lado
todo esse tempo foi maravilhoso -- disse Tain.
     Vnia sorriu.
     -- Voc sabe que no precisa agradecer. Sou sua amiga e
amiga  pra essas coisas.
     Tain acenou com a cabea e tambm sorriu. Respirou
fundo e ento desfez o sorriso.
     -- No sei como pedir mais isso a voc, que j fez muito
por mim e por minha me... -- ela estava visivelmente
desconfortvel e Vnia percebeu isso. Tain concluiu: -- Mas
preciso que faa mais uma coisa por mim.
     -- No se preocupe, amiga. O que voc pedir eu farei.
     -- Terei que retornar  Belinne agora mesmo...
     Vnia levantou as sobrancelhas.
     -- Voltar?
     --  uma emergncia. No posso contar detalhes. S peo
que fique com minha me e cuide dela, no importa o que
acontea comigo.
     Vnia puxou as mos rapidamente e olhou para Tain,
sria.
     -- Agora voc est me assustando. H algo errado?
     Tain mordeu os lbios e hesitou. Depois de um momento
ela disse:
     -- O que aconteceu com minha me no foi acidente.
Algum fez isso com ela. -- Vnia levou as mos  boca como

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que querendo sufocar um gemido. Tain continuou: -- Tenho
que voltar  universidade para resolver isso.
     -- Resolver de que forma? Quem fez isso com sua me?
-- sussurrou Vnia.
     -- No sei. S tenho certeza que algum mais pode se
machucar se eu no for.
     Agora foi Vnia quem tomou as mos de Tain nas suas.
     -- V tranqila, se  que isso  possvel. Eu ficarei com
Ana o tempo que for necessrio.
     -- Obrigada -- Tain agradeceu entre um meio sorriso.
     Vnia puxou-a para perto de si e a abraou.



     J estavam no carro, que percorria velozmente o trajeto de
volta  Belinne. Felipe tentava manter os olhos na estrada, mas
era inevitvel dar uma olhadela de vez enquanto para o lado,
onde Tain estava sentada, distante e taciturna, parecendo
observar o sol que terminava de se pr.
     Ele recebera com estranheza o pedido dela:
     -- Preciso que me leve de volta  Belinne -- ela pedira
ainda no hospital. Felipe requerera uma explicao, mas ela no
quisera entrar em detalhes. Apenas olhara para ele com olhos
marejados e declarou: -- Um amigo est em apuros e s eu
posso ajud-lo.
     No demorara muito para logo entrarem no carro. Ela nem
ao menos se despedira da me, pensou Felipe, preocupado. Ele
olhou novamente para ela.
     -- Tain... o que est havendo? Voc est diferente,
distante...
     Ela permaneceu um instante em silncio e ento se voltou
para Felipe.
     -- Se Deus est comigo isso quer dizer que estou
protegida, no ?
     -- O qu...? -- Felipe recebeu com surpresa aquela
pergunta. -- Sim. -- Disse por fim. -- Se voc confiar
plenamente nele certamente estar segura.
     -- At da morte? -- perguntou ela ainda sria.
     -- Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte no
temerei nenhum mal, diz a Bblia. Tambm est escrito que
quem crer em Jesus ainda que morra, viver.
     --  bom saber disso -- ela disse.

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    Ela voltou o rosto para a janela. O sol j tinha se posto.



     O investigador Saldanha estava afundado na poltrona do
seu quarto na Belinne, ciente de que eram seus ltimos
momentos ali. Entretanto seus pensamentos estavam voltados
para Manoel Cristovan. Ele no sumiria assim sem me avisar,
pensava. Ainda mais esquecendo aquele celular que agora estava
nas mos do investigador, que o estudava atentamente.
     Onde voc se meteu, garoto?
     Saldanha abriu mais uma vez o celular e apertou na tecla
que abria o menu. O celular era bem moderno, no era  toa que
era "a menina dos olhos" de Manoel. Saldanha navegou pelos
itens do menu do aparelho, estampados na pequena tela de
cristal lquido, at que apareceu o item "AGENDA". Talvez ali
tivesse algum nmero interessante. Ele selecionou o item
apertando uma tecla e uma nova tela foi aberta
automaticamente. Porm, observou que aquele item no era
uma agenda telefnica, mas sim de recados e anotaes. Era a
ltima moda entre os jovens, pensou. Pressionou a tecla para
visualizar as anotaes. Talvez alguma em particular pudesse
explicar o sumio de Manoel, Saldanha torceu. No visor
apareceram os tpicos:
         CONTAS A PAGAR.
         ROUPAS NA LAVANDERIA.
         COBRAR DINHEIRO AO ROBSON.
     Robson Saldanha ergueu as sobrancelhas, consternado.
No lembrava de dever dinheiro ao assistente, porm se
inteirava que Manoel era mais prestado s lembranas que ele.
Passou mais alguns tpicos de anotaes at que uma prendeu
intensamente sua ateno:
         ME DE TAIN... SUELI FRAGA.




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                   Escrevendo...
      Depois de aceitar a Jesus como meu Salvador encontrei uma
nova vida, aos poucos. Fui descobrindo o que realmente me trazia
alegria e o que realmente me dava poder: O PODER DA F.
      Descobri tambm o quanto os seguidores do Rebelde
odiavam aqueles que seguiam a Cristo e o quanto se importavam
apenas consigo mesmos, assim como eu era. Porm, aquilo no foi
nem um pouco fcil para eu enxergar em minha prpria vida.
Dali em diante resolvi que deveria compartilhar a minha nova
vida com as pessoas do Grupo, mas de repente notei que aquilo
seria demasiadamente perigoso. Finquei ento na minha mente a
idia de que eu deveria permanecer no meio do Grupo e bolar um
jeito de buscar aqueles cegos pelo poder demonaco. Passei a no
freqentar tanto as reunies e muitas vezes chegava a me atrasar,
mas sempre arranjava uma desculpa. Tentava me aproximar mais
dos novatos e sem que o Grupo percebesse comeava a
desencoraj-los. Aquilo comeava a me alegrar, mesmo tendo
cincia de que eu estava perto da boca de um vulco, e a qualquer
momento eu poderia despencar para o meio da lava. Mas enfim
no dava muita importncia, entretanto nem imaginava que a
cena que eu veria mais tarde iria me deixar esttica: vi o primeiro
corpo, sem vida, com um corte na garganta. Reconheci o jovem
imediatamente. Era Valdir Teixeira. Disseram-me que ele era o
primeiro. Logo outros iriam se juntar a ele, e no final chegaria a
hora de... Tain Braga.
      Imediatamente passei a investigar quem era Tain Braga.
      No dia seguinte eu decidi ligar para ela enquanto fazia seu
novo programa na rdio. Torci para ela entender o recado, mas
infelizmente ela pareceu no entender meu alerta.




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   CAPTULO VINTE E QUATRO
     AUGUSTO PIRES ESTAVA terminando de pr sua mesa em
ordem para dar por encerrado o dia de trabalho, quando
Saldanha rompeu pela porta da sala com mpeto. O diretor
levantou o rosto, assustado.
     -- O que significa isto, investigador? J no damos o caso
por encerrado para o senhor?
     Saldanha pareceu ignorar a pergunta.
     -- Por que no me disse que houve um massacre aqui
antes, por um grupo ocultista denominado Eternity?
     Augusto Pires se inclinou levemente para frente e fez
expresso de que no estava entendendo.
     -- Do que voc est falando?
     -- Eternidade! Isso  o que significa esse nome!
     -- Eu sei o que significa, senhor. Conheo fluentemente o
idioma ingls!
     -- Mas no sabe que os componentes desse grupo so
sacerdotes que buscam um tipo de poder atravs de sacrifcios
humanos...
     -- No! No sei nada a esse respeito...
     Saldanha colocou bruscamente sobre a mesa do diretor
uma folha sulfite onde estava impressa uma pgina de jornal e
uma folha de fax onde se podia ver nitidamente a foto de Sueli
Fraga.
     -- Retirei essa matria da internet e consegui essa foto
com um contato meu do jornal local. Essa mulher  me de
Tain Braga. Seu nome  Ana Braga, ou melhor dizendo, Sueli
Fraga. H vinte e dois anos atrs ela foi escolhida para ser
sacrificada aqui em um dos pavilhes da universidade e quase
foi morta por isso. Tudo acabou sendo encoberto e esquecido
atravs de muito dinheiro desembolsado pela famlia Belinne.
Agora tudo est se repetindo e voc no est movendo um
dedo sequer!
     -- Espere... -- O diretor pareceu surpreso. -- Como
descobriu tudo isso?



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                     NAASOM A. SOUSA

      -- Meu assistente Manoel descobriu e deixou as
informaes necessrias no celular dele. -- Saldanha suspirou e
disse com voz triste: -- Creio que foi por isso ele desapareceu.
      O diretor por fim deu um longo suspiro e deixou-se
afundar na poltrona.
      -- Quando assumi a diretoria da Belinne me informaram
que havia algumas lendas que a rodeavam, mas que tudo no
passava de estrias de universitrios. Sinceramente no sabia
que isso era realidade.
      -- Agora voc percebe que tudo  real.
      -- Sim.
      -- Mas agora pode ser tarde. Pessoas podem ter morrido
ou podem estar morrendo por causa do seu ceticismo.
      Augusto ficou em silncio, pensativo. Saldanha pareceu
receber uma descarga eltrica de repente e ento exclamou:
      -- Deus do cu! A me de Tain sofreu um acidente.
Agora percebo que certamente foi algo criminoso. Tain foi
visit-la e creio que ela pode estar em grande perigo.



     Felipe conduziu o carro lentamente pela rua at  entrada
do estacionamento da universidade. Notou que estranhamente
a cancela que bloqueava a passagem de veculos estava erguida.
Parecia um aviso que aguardavam sua chegada. Felipe olhou
para Tain e ambos sondaram ao redor  procura do guarda
responsvel pelo estacionamento. No havia nem sinal dele no
momento.
     Felipe engatou a primeira marcha e fez o veculo andar,
passando pela entrada. Tain mantinha-se atenta, cautelosa e
apavorada. Pararam numa das vagas e deixaram o carro. Tain
rapidamente deu a volta e ladeou Felipe, olhou mais uma vez
para ele e segurou sua mo fortemente.
     -- Aonde vamos? -- ele perguntou.
     Tain sentiu gotas de suor se formarem em sua testa.
     -- Vamos achar To -- ela disse.



    Camila correu  porta do quarto quando bateram.
Percebeu que eram batidas fortes e nervosas. Ela abriu e


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                     NAASOM A. SOUSA

imediatamente foi enlaada por Tain num forte e apertado
abrao.
     -- Como voc est? -- Camila perguntou.
     -- Tensa. Muito tensa. -- Tain mostrou os dedos
trmulos de suas mos para a amiga.
     Camila notou a presena de Felipe e sorriu para ele,
enquanto este retribuiu o gesto e tambm acenou com a cabea.
     As duas entraram e Felipe acompanhou-as.
     -- Alguma notcia do To? -- indagou Tain,
transparecendo sua angstia e preocupao.
     -- No, nenhuma -- as duas se sentaram numa das camas.
     Tain levou as mos ao rosto demonstrando toda angstia
concentrada em seu ntimo.
     -- Isso me leva a crer que realmente ele est em perigo --
ela murmurou.
     Felipe se aproximou e se abaixou at seus olhos ficarem ao
mesmo nvel dos de Tain. Disse em tom afvel:
     -- Voc no pode se atormentar por algo que no tem
certeza. Vamos esperar um momento, dar alguns telefonemas e
sondar aonde ele pode ter ido...
     -- Ele pode estar certo, Tain -- Camila anuiu. --
Enquanto isso prepararei um ch para vocs dois. Talvez isso os
faa relaxar um pouco.
     -- Obrigado -- ele disse.
     Tain permaneceu em silncio, pensativa, com o rosto
entre as mos.
     Felipe sorriu para Camila enquanto esta se dirigiu at uma
pequena mesa no canto do cubculo onde sempre mantinha
uma garrafa trmica com gua quente, xcaras e alguns
envelopes com ervas para repousar dentro da gua e criar o ch
instantneo.
     -- O que eu posso fazer? -- Sussurrou Tain para Felipe.
-- Michel ordenou que eu voltasse e aqui estou. O que vem
agora? O que ele quer de fato e o que sou para ele? Um
fetiche... uma obsesso... diverso... O qu?
     -- No se preocupe, Deus est no controle da sua vida
agora -- Felipe falou baixinho. -- Nada acontecer se Deus no
permitir. Apenas creia nisso.
     Tain baixou as mos e fitou Felipe nos olhos.
     -- Decidi tornar-me crist ontem... Acho que no tenho
tanta f assim.
     -- Pea a Deus -- disse ele depois de segurar a mo dela.

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      -- Aqui est -- Camila se aproximou com uma pequena
bandeja nas mos com trs xcaras sobre ela. -- Aproveitei e fiz
um para mim tambm.
      Tain e Felipe pegaram uma xcara cada e sorveram uma
pequena quantidade.
      -- Voc falou com o investigador Saldanha? -- Tain
perguntou olhando para Camila.
      -- Sim -- Camila bebeu um gole do seu ch. -- Inclusive
veio aqui dizendo que assim que voc chegasse era para ligar
para ele, pois tinha uma informao importante que s poderia
falar para voc pessoalmente.
      Tain franziu o cenho e bebeu mais um gole do ch.
      -- Acho melhor eu ligar para o quarto dele, deve ser uma
informao importante. -- Ela se ergueu e deu a volta na cama
para alcanar o telefone sobre o criado-mudo. Colocou o fone
no ouvido e discou o nmero do quarto onde Saldanha estava
hospedado. Esperou. Apenas chamava. -- Vamos... Atenda!
      De repente um som de vidro se quebrando chamou a
ateno de Tain para Felipe. Ele havia soltado a xcara e estava
piscando os olhos como que lutando para no perder a
conscincia.
      -- Felipe, o que est acontecendo... -- Tain sentiu
subitamente uma vertigem e observou que o quarto estava
comeando a balanar de um lado para o outro e depois a girar
como se tivesse embarcado num carrossel. No pode mais
segurar o fone na mo, pois ele parecia agora demasiadamente
pesado. Notou Felipe cair no cho j desacordado, enquanto
Camila parecia ser a mais lcida no recinto. -- Camila... O que
h de errado...
      Camila caminhou at  ponta da cama e sentou, apenas
observando Tain perder aos poucos os sentidos e sentar-se no
cho.
      -- No h nada de errado, Tain. Est acontecendo apenas
o que tinha que acontecer.
      -- No... -- a voz te Tain era fraca. -- Voc no pode
estar metida nisso...
      -- A chave tem que ser posta na fechadura.  o destino.
Eternity.
      Foi a ltima coisa que Tain ouviu antes dos seus olhos se
fecharem.



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     A curiosidade a levara a conhecer o Grupo.
     No tinha sido apenas uma vez que ouvira falar sobre ele.
Eram pessoas extrovertidas, jovens, cultas, avanadas, dadas ao
prazer. Camila olhara para si mesma. No muito atraente, era
contida, retrgrada at. No tinha ningum com quem se
relacionar afetivamente, no sabia o que era o prazer de fato.
Decidira afinal que aquilo tinha que mudar.
     O Grupo a levara a conhecer tudo isso, regado a culturas
milenares e ocultas. Foi assim que descobrira que O Rebelde era
um "ser de luz" poderoso e que poderia mudar sua vida,
principalmente quando o lder do Grupo lhe aparecera e dissera
que ela poderia encontrar ali os seus mais ardentes sonhos. Sim,
tudo o que ela desejava era ser uma bela mulher e que sua beleza
durasse eternamente.
     Eternity.



     A primeira coisa que sentiu foi as rbitas dos seus olhos
doloridos. A cabea tambm doa um pouco. Os pensamentos
ainda estavam desordenados.
     O que tinha acontecido?
     Comeou a abrir os olhos lentamente e notou sua vista
turva e embaada.  medida que os sentidos voltavam, ela
sentia como que estivesse caindo dentro de um poo profundo
e escuro. Seria algo imaginrio? Por que ento aquela voz
dentro de si gritava-lhe PERIGO! E aquele cheiro! Que odor
era aquele?
     Pouco a pouco conseguia voltar  sua total conscincia.
Agora piscou algumas vezes e respirou profundamente olhando
para o teto.
     TETO!?
     Imediatamente percebeu que estava deitada de costas no
cho mido. Tentou se mover e sentiu algemas prenderem seus
pulsos e tornozelos. O desespero comeava a voltar. As
lembranas comeavam a voltar.
     Camila! -- Ela a tinha drogado.
     Felipe! -- Onde ele poderia estar?
     Agora com a vista perfeita ela olhou para os lados e um
grito saiu agonizante de sua boca. O terror estava diante de
seus olhos.

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     Discerniu que estava deitada exatamente no centro de um
pentagrama pintado no cho com sangue -- o de seus amigos.
Todos mortos. Alguns com olhos fechados; outros olhando
diretamente para ela. Cada um deles jogado estrategicamente
em cada ponta do pentagrama.
     Deus, ajude-me! Tain orou em total aflio.




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                      NAASOM A. SOUSA




                   Escrevendo...
     Orei ao Senhor sobre o que eu deveria fazer. Enquanto isso,
em questo de dias, mais corpos apareceram. Entrei em desespero,
mas me conscientizei de que eu no poderia fazer nada
precipitadamente ou o Grupo no seria totalmente extinto.
     H pouco soube que Tain estava em Gramado cuidando de
sua me. Eu j sabia que o Grupo tinha feito aquilo, mas no tive
como ajudar Ana a tempo. Mais uma vez liguei para Tain e dei-
lhe alguns conselhos. O melhor deles: que no voltasse para
Belinne novamente.
     Agora fiquei sabendo de uma "Reunio das reunies" do
Grupo que se daria hoje. Isso significa que o circo est armado.
Provavelmente Tain j tinha sido atrada para a isca ou
simplesmente j teria sido fisgada. Era o momento que eu
esperava. A hora de agir chegou e espero pegar a todos com "a mo
na botija". Estou saindo das sombras e irei por minha f em prova.
Espero encontrar o investigador Saldanha a tempo.
     Que Deus me ajude.




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    CAPTULO VINTE E CINCO

     -- MEU DEUS! MEU DEUS! Meus amigos... Valdir...
Virgnia... Oh!... -- sua voz sumiu aos poucos, porm ela
notou ainda Jorge Silva, Manoel Cristovan e o professor
Gilberto. Todos mortos. Sacrificados. Havia um cheiro ruim no
ar. Um odor podre. Mesmo em meio ao pavor, Tain pde
concluir que aquele odor vinha dos corpos, alguns deles j em
processo de decomposio.
     Vultos vagarosamente comearam a entrar na sala escura.
Pessoas sem rostos, encapuzadas e ocultas pela penumbra do
lugar. Num momento Tain pde contar cinco pessoas, depois
dez, ento vinte, mas entraram mais vultos e ela chegou a
perder a conta. Eram muitos.
     -- Quem so vocs? O que querem?! -- gritou ela.
     Mesmo sob a pouca luminosidade do lugar ela observou
que todas as pessoas que entravam estavam vestidos com
roupes como de monge, cor escura, um tom sombrio que fez
um calafrio percorrer-lhe a espinha.
     Oh, Cristo! O que  isso? Quem so essas pessoas?
     Ela os seguia com os olhos atentos ao redor at que num
instante ela estremeceu. Seus olhos cruzaram com os de Felipe
Nascimento. Estava num canto mal iluminado daquele lugar,
amarrado em uma cadeira, imobilizado, dominado. Ele
sussurrava para ela: "Tenha calma. Confie em Deus. Confie em
Deus." Era tudo num ar muito bizarro, pensou ela atnita.
Tambm notou To desacordado, estirado no cho, ao lado de
Felipe, um corte profundo estava estampado em sua cabea.
     Enfim pereceu que todas as pessoas j haviam entrado, mas
ento surgiram as ltimas duas. Caminharam at Tain e
pararam. Ainda encapuzadas, pareciam fit-la. Pareceu uma
eternidade, at que Camila baixou seu capuz e exps seu rosto.
     -- Camila... por qu? -- o olhar de Tain era de completo
assombro. -- O que est havendo...?
     -- Um novo comeo, Tain.


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                     NAASOM A. SOUSA

     -- Comeo? Do que voc est falando? Nossos amigos
esto mortos e voc parece no se importar! O que significa
tudo isso para voc vir a tomar partido?
     --  algo que voc no faz idia. No sou mais a mesma,
Tain. Quero alar vos maiores. Voc no entenderia...
     -- No mesmo. A que nuvem voc quer chegar a custo da
vida dos nossos... -- Tain parou e corrigiu: -- dos meus
amigos... Olhe para eles. Voc agora  uma assassina.
     O olhar de Camila estava inexpressivo como pedra,
parecendo no se importar com quem quer que fosse. Agora s
importava a sua prpria vida, o seu prprio ego, o seu prprio
poder.
     A voz masculina da outra pessoa com capuz ao lado de
Camila surgiu como uma faca afiada:
     -- O sacrifcio deles serviu para um propsito maior que
suas prprias existncias, minha querida.
     Os olhos de Tain se arregalaram. No poderia ser
verdade.
     -- Tyson? -- ela reconheceu.
     Tyson descobriu seu rosto.
     -- Sim.
     Tain estava sem palavras.
     Tyson apenas sorriu e puxou uma adaga de dentro do seu
roupo.



     Saldanha bateu pela quinta vez na porta do quarto de Tain
e Camila e acabou constatando que no havia ningum l
dentro.
     -- Ela no est a.
     A voz fez Saldanha girar sobre os calcanhares, pronto para
alcanar a arma s suas costas, presa ao cinto. Ele viu Rita
parada atrs dele.
     -- O que quer? -- indagou Saldanha.
     -- Veio atrs de Tain? Ela no est a.
     -- Sabe alguma coisa sobre ela?
     -- Tentei avis-la para tomar cuidado, mas ela no me deu
ouvidos. Agora ela est nas mos dele.
     -- Dele quem?
     -- Tyson Cesrio.


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                     NAASOM A. SOUSA




     Tain no conseguia parar de olhar para o punhal na mo
de Tyson. Sentia que a qualquer momento aquela arma poderia
ser cravada no seu corpo. Tyson estava falando alguma coisa:
     -- O poder da eternidade, Tain. Esse  propsito -- ele
disse. -- O que voc faria para conseguir viver para sempre e
nunca envelhecer, ter tempo para conquistar o que voc
quisesse, alcanar os seus sonhos?
     -- Eternidade? Viver para sempre? Ento as mortes so
para isso?
     -- Apenas responda a pergunta! -- Tyson apontou o
punhal para ela.
     -- Talvez... faria muitas coisas, menos matar pessoas,
Tyson. Isso  loucura!
     -- A vida deles  o de menos! A sua, sim,  importante.
     Felipe bradou:
     -- No faa nada a ela, Tyson. Pelo amor de Deus!
     -- Qual Deus? O seu?  Felipe esperou em silncio.
Tyson caminhou na direo dele.  O seu Deus no significa
nada para mim. O meu senhor  forte e astuto o suficiente para
destronar Deus no tempo certo, na grande batalha. Estamos
reunindo muitos adeptos para garantir nossa vitria, e ela j 
certa.
      Engano seu, Tyson. -- disse Felipe, com convico e
coragem. -- O meu Deus  todo-poderoso, e nada do que voc
ou o diabo fizerem vai interferir na vontade dele. O seu deus j
 um derrotado, acredite voc ou no.
     Tyson se aproximou de Felipe apenas o suficiente. Cerrou
o punho e com fora desferiu-lhe um soco na boca. A cadeira
balanou para um lado e para o outro at que parou. Felipe
arquejou e pendeu a cabea, o sangue caiu no cho quando ele
cuspiu. Tyson se aproximou ainda mais e puxou-lhe os cabelos,
fazendo ele olhar para Tain. Disse:
      Voc vai permanecer sentado onde est e ir observar
tudo o que iremos fazer com sua namoradinha. Ver que Deus
no mover um dedo para salvar a ela ou a voc.
     Felipe tentou se soltar das amarras, em vo. Tyson sorriu
venenosamente. Voltou-se para Tain e mostrou-lhe o punhal.
      Sabe o que  isso? -- Tain ficou muda; Tyson
continuou:  O instrumento para a redeno, do qual sua me
conseguiu escapar.
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                     NAASOM A. SOUSA

     Tain no conseguia parar de olhar para o punhal na mo
de Tyson. Sentia que a qualquer momento aquela arma poderia
ser cravada no seu corpo. Tyson estava falando alguma coisa:
     -- O poder da eternidade, Tain. Esse  propsito -- ele
disse. -- O que voc faria para conseguir viver para sempre e
nunca envelhecer, ter tempo para conquistar o que voc
quisesse, alcanar os seus sonhos?
     -- Eternidade? Viver para sempre? Ento as mortes so
para isso?
     -- Apenas responda a pergunta! -- Tyson apontou o
punhal para ela.
     -- Talvez... faria muitas coisas, menos matar pessoas,
Tyson. Isso  loucura!
     -- A vida deles  o de menos! A sua, sim,  importante.
     Felipe bradou:
     -- No faa nada a ela, Tyson. Pelo amor de Deus!
     -- Qual Deus? O seu?  Felipe esperou em silncio.
Tyson caminhou na direo dele.  O seu Deus no significa
nada para mim. O meu senhor  forte e astuto o suficiente para
destronar Deus no tempo certo, na grande batalha. Estamos
reunindo muitos adeptos para garantir nossa vitria, e ela j 
certa.
      Engano seu, Tyson. -- disse Felipe, com convico e
coragem. -- O meu Deus  todo-poderoso, e nada do que voc
ou o diabo fizerem vai interferir na vontade dele. O seu deus j
 um derrotado, acredite voc ou no.
     Tyson se aproximou de Felipe apenas o suficiente. Cerrou
o punho e com fora desferiu-lhe um soco na boca. A cadeira
balanou para um lado e para o outro at que parou. Felipe
arquejou e pendeu a cabea, o sangue caiu no cho quando ele
cuspiu. Tyson se aproximou ainda mais e puxou-lhe os cabelos,
fazendo ele olhar para Tain. Disse:
      Voc vai permanecer sentado onde est e ir observar
tudo o que iremos fazer com sua namoradinha. Ver que Deus
no mover um dedo para salvar a ela ou a voc.
     Felipe tentou se soltar das amarras, em vo. Tyson sorriu
venenosamente. Voltou-se para Tain e mostrou-lhe o punhal.
      Sabe o que  isso? -- Tain ficou muda; Tyson
continuou:  O instrumento para a redeno, do qual sua me
conseguiu escapar.



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       CAPTULO VINTE E SEIS

     A EXPRESSO DO ROSTO DE TAIN estava transformada.
S agora estava descobrindo que sua me tinha escondido algo
dela. Seria verdade ou mentira?
      Minha me? Do que voc est falando?
      H vinte e dois anos atrs sua me estava onde voc est
agora. Ela era a escolhida para ser a chave. Mas tudo deu errado.
Um tira miservel descobriu nosso cl e nossos planos. Ele
matou nosso lder na poca: meu tio Digenes.
      Digenes... Digenes Coelho...
      Sim, Digenes Coelho Cesrio, irmo de meu pai
Augusto. Entretanto, pra mim, meu tio era como o pai que eu
no tinha e at hoje no tenho. Ele me deu uma ateno fora de
srie, me tratava como o filho que nunca teve. Instruiu-me no
ocultismo, onde fui aprender que o mal  muito bom.
      Voc est enganado, Tyson -- a voz de Felipe saiu
engrolada em meio ao sangue, mas todos puderam entender o
que estava falando. -- O diabo sempre requerer algo muito
caro de voc no final das contas: a sua alma. Ele te levar para o
inferno, onde a dor no tem limites.
      Isso  o que voc pensa. O inferno  aqui mesmo, pode
crer, mas no fundo seu Deus quis que voc e todos os demais
crentes medocres como voc acreditassem nisso.
      O diabo  o pai da mentira  disse Felipe,  e o meu
Deus  vida e verdade...
      Ora, cale-se! Se seu Deus realmente se importasse com
voc, no deixaria que estivesse onde est agora.
      Em tudo h o propsito de Deus, Tyson.
      Besteira!  riu Tyson.  Voc no sabe de nada. Seu
Deus tem promessa pra voc de vida eterna no cu.  Ele riu
novamente.  Que cu  esse? Simplesmente ele no existe.
Mas o meu deus, O Rebelde, Lcifer, tem vida eterna para
aqueles que o servem aqui na terra, e  para agora. -- ele olhou
de volta para Tain. -- E quem diria... Agora voc  a chave,
priminha.
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                     NAASOM A. SOUSA



    Os olhos de Tain estavam marejados e ela os espremeu
fazendo um gesto de desentendimento. Ela gritou:
    -- Seu demente! O que quer insinuar agora?!
    -- Apenas a verdade: a de que voc  minha prima. Filha de
Digenes Coelho.



     Saldanha seguia Rita pelo campus, no momento apenas
estudando-a. Quem seria ela na realidade? Como sabia do
paradeiro de Tain e que a mesma estava correndo perigo? Ele
estava a ponto de perguntar quando Rita balbuciou:
     -- Talvez o que voc vai ver seja algo que nunca vira antes
na sua vida, ento  melhor que esteja preparado.
     -- Como voc sabe de Tyson Cesrio?
     -- Eu fazia parte do Grupo dele... bem, tecnicamente
ainda sou, mas apenas para saber o que se passa l dentro.
     -- E o que se passa dentro desse Grupo?
     -- Maldade, investigador. Interesses alm da imaginao,
busca por poder e satisfao pessoal sem se importar com
conseqncias.
     -- Voc  assim? -- atreveu-se Saldanha.
     -- No mais, mas ainda h muitas pessoas que sim e
algumas delas esto no lugar aonde iremos.
     Nesse momento Saldanha sentiu um arrepio eriar todos
os plos do seu corpo.



     Tyson agachou-se ao lado de Tain e beijou a adaga. Olhou
para ela e sorriu.
     --  isso mesmo, priminha. Voc  filha do meu tio
Digenes. Na verdade meu tio tinha uma queda pela sua me,
mas ele teve que escolher entre ela e a eternidade. Isso foi uma
prova. Adivinhe o que ele escolheu?
     -- Seu miservel... -- gemeu Tain entre as lgrimas.
     -- Como ele no poderia ficar com sua mame, resolveu
apenas fazer uma festinha particular com ela...  claro, contra a
vontade dela.
     -- Ele a estuprou? -- Tain sentiu que no agentaria
ouvir mais nada e se arrependeu da pergunta.

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                     NAASOM A. SOUSA

     Tyson apenas riu irnica e cinicamente.
     -- Se prefere olhar por essa tica... -- aproximou-se ainda
mais do rosto dela -- Mas posso quase garantir que ela chegou
a gostar. -- ele esperou que ela processasse o que ele acabara de
falar. -- Sim, eu estava l, ao lado dele quando isso aconteceu.
Somente ns trs. -- Apontou de novo o punhal para ela. --
Mas no se preocupe. No vou fazer o mesmo com voc. Eu
no gostei do que vi naquele dia e foi exatamente ali que
descobri que no gostava do que as mulheres poderiam me
proporcionar. -- Olhou para Camila e disse:  No  nada
pessoal. -- Com um rpido olhar insinuante Tyson fitou
Henrique Paiva -- o que abordara Gisele -- entre as demais
pessoas encapuzadas. Henrique apenas sorriu para ele.
     -- Ento todo aquele seu romantismo comigo foi uma
farsa? -- Tain quis saber.
     --  claro. Eu tinha que parecer confivel.
     Por um momento Felipe sentiu que a corda envolta dos
seus pulsos comearam a ceder devido ao seu esforo contnuo
para que isso acontecesse. Mas ainda no era o suficiente para se
soltar.
     Senhor, ajude-me, por favor! Ele pediu.
     -- Isso  loucura, Tyson! Ningum nunca chegar a viver
para sempre neste mundo -- Tain disse.
     Tyson sorriu e olhou ainda mais de perto para Tain.
     -- Voc fala assim porque desconhece os fatos. Olhe para
mim e diga: quantos anos tenho? -- Tain ficou em silncio. --
Sei que pareo um jovem de 26 anos, mas na verdade estou
chegando aos 45.
     Tain no podia acreditar. Aquilo tinha que ser irreal.
     Tyson continuou:
     -- Eu disse que estava com o meu tio na noite em que sua
me estava aqui h 23 anos atrs. Eu consegui escapar naquela
noite. Uma semana depois O Rebelde me visitou e disse para eu
continuar o que meu tio havia comeado e como recompensa
eu receberia o que ele iria receber: uma vida eterna. Como
prova disso ainda estou aqui belo e jovem -- apontou a faca
para o rosto dela -- e voc, filha de Sueli e Digenes, agora  a
chave para que isso permanea para sempre.
     -- NO! ! ! -- Tain gritou. Era como se ela sentisse o
odor de morte no recinto ficar mais forte de repente.
     Tyson comeou a falar uma lngua babilnica pag antiga e
seus olhos pareceram revirar, em transe. O lugar pareceu

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                     NAASOM A. SOUSA

escurecer ainda mais. Um vento soprou de um lugar
desconhecido e apagou algumas velas. Um odor de enxofre
comeou preencher o recinto. Uma lgrima rolou dos olhos de
Tain.
     Os seguidores comearam a murmurar palavras
incompreensveis.
     Camila podia sentir algo malvolo no ar. Os plos do seu
pescoo se eriaram.
     Felipe, de olhos abertos, comeou a orar em silncio,
suplicando a Deus que agisse naquele momento. Estava quase
conseguindo desprender uma das mos que ardiam, quase em
carne viva.



     -- Para onde estamos indo? -- Saldanha indagou para Rita
enquanto ela caminhava  sua frente contornando os trs
complexos educacionais da Belinne.
     -- Para um lugar escondido, escuro. O lugar onde se
reuniam os sacerdotes negros na poca em que o grupo era
liderado por Digenes Coelho. Era um lugar subterrneo
debaixo da biblioteca.
     -- Subterrneo?
     -- H uma passagem por baixo da biblioteca que vai at a
sala de reunies. Fora construda quando a Belinne estava sendo
erguida. Digenes e alguns poderosos, inclusive o arquiteto da
construo, planejaram secretamente alguns tneis e salas para
se reunirem. Tudo isso fora desmontado pela polcia h vinte e
dois anos, mas Tyson, com os recursos deixados por seu tio
como herana e ainda com a riqueza do pai, deu um jeito para
que tudo fosse recuperado.
     Saldanha apenas acenava com o cenho como que
informando que estava compreendendo a histria toda.
     Eles se aproximam da biblioteca. Rita fez um gesto para
Saldanha esperar e num instante ele percebeu o porqu.
     Havia dois rapazes de porte atltico de guarda  porta da
biblioteca.
     -- Esconda-se... -- disse Rita. Quando ela voltou-se para
o investigador este j tinha sumido. Ela deu de ombros e
caminhou em direo aos rapazes.
     -- Al, meninos.
     -- Rita... Como sempre se atrasando -- disse um deles.

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                     NAASOM A. SOUSA

     -- A gente podia no te deixar entrar, sabe? -- murmurou
o outro. -- Pra voc aprender. Hoje  o momento "X" e voc
parece no merecer estar l.
     Rita suspirou e meneou a cabea.
     -- Sabe que vocs tm razo? -- ela disse. -- Hoje 
momento "X", mas eu no estou atrasada.
     -- Como ?
     -- O que voc t querendo dizer... -- o rapaz cessou de
falar de repente no mesmo instante em que um pequeno estralo
pode ser ouvido vindo de trs dele.
     O outro jovem virou-se rapidamente e s deu tempo de
enxergar o punho de Saldanha indo de encontro ao seu pomo-
de-ado. O impacto foi suficiente para deixar o rapaz sem
flego e posteriormente sem conscincia.
     -- Voc  bom com as mos -- admirou-se Rita.
     -- Apenas o suficiente.
     Os dois entraram na biblioteca sem antes dar mais uma
olhada em volta. O lugar estava pouco iluminado. Saldanha
notou que Rita sabia exatamente para onde ir. Foram at os
fundos do ambiente e ela acionou um dispositivo atrs de um
livro na ltima estante. Uma parte do cho prximo deles se
abriu.
      Que cheiro  esse? Parece enxofre  comenta
Saldanha.
      Temos que nos apressar. J est acontecendo  Rita
alertou.



     Uma fumaa espessa parecia preencher pouco a pouco o
lugar. O odor era mais intenso ainda.
     Tyson ergueu ainda mais alto suas mos unidas segurando
o punhal. Bradou:
      Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que almejamos!
Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que almejamos!
     Felipe sentiu a pele do seu pulso rasgar quando desprendeu
uma das mos. Esforou-se para no externar qualquer
expresso de dor. Concentrou-se na outra mo.
     O zunido aumentou. Camila tambm aderiu ao coro
ensandecido. Todos na sala comearam a se ajoelhar e levar o
rosto ao cho. No demorou muito para uma sombra surgir do
canto da sala e parecer comear a tomar forma.

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                     NAASOM A. SOUSA

      Sim, meu senhor! Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que
almejamos!
     Subitamente ouviu-se um barulho vindo da porta de ferro
que dava acesso  sala, como se algum tivesse dado de
encontro com ela.
     Tyson e os demais ficaram paralisados.
     -- O qu...
     Saldanha rompeu pela porta segurando um rapaz pelo
colarinho. Seus olhos quase saram das rbitas ao ver a sombra,
agora flutuando para o centro do recinto, tomando a forma de
uma criatura infernal.




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      CAPTULO VINTE E SETE

      MEU DEUS! O QUE  ISSO? -- num movimento rpido
retirou a arma presa detrs de si e apontou para o que quer que
fosse aquilo.
     A criatura, impulsionada pelos zunidos e balbucios dos
sacerdotes negros no salo, pareceu crescer ainda mais e se
elevar na direo de Saldanha.
     Um tiro, dois tiros, trs tiros. As balas atravessaram a
criatura e fizeram buracos no teto de concreto. Saldanha
estremeceu quando constatou que a sombra horrenda nada
havia sofrido. Agora estava encurralado e tinha conscincia de
que nada impediria que sua vida fosse tirada por aquilo  sua
frente.
     Ao ver que a criatura se movia ilesa na direo do detetive,
o semblante de Tyson se modificou, de preocupao para
tranqilidade. Aquele era a quem ele servia. Um deus forte,
imbatvel e implacvel em sua fria. Ele sorriu e olhou de volta
para Tain.
     -- Chegou a sua hora, querida  seus olhos estavam
brilhantes.  Terei juventude eterna graas ao seu sangue.
     O sibilar dos sacerdotes se tornou mais intenso.
     Uma voz autoritria surgiu repentina por detrs de
Saldanha e bradou para a criatura:
     -- Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir
as obras do diabo!
     Subitamente, diante daquelas palavras, o ambiente pareceu
congelar e todos se voltaram novamente para o porto de
entrada. Puderam ver Rita fitando a criatura e continuando a
bradar em alta voz:
     -- Em nome de Jesus Cristo, o Filho do Deus altssimo, eu
o ordeno: RETROCEDA! -- ela estendeu a mo para a criatura
e foi como se um soco invisvel atingisse a medonha sombra.
Um urro tenebroso encheu o lugar. Todas as pessoas
encapuzadas pareciam no acreditar no que viam. Estavam de
uma hora para outra sem reao.
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                    NAASOM A. SOUSA

     -- NO!!! -- gritou Tyson.  Algum se mova e mate
aquela traidora! Faam-na calar a boca, essa ordinria!
     Alguns sacerdotes se moveram, mas logo ficaram imveis
novamente. Saldanha estava apontando a arma para eles.
      Ningum se aproxime. Fiquem quietinhos a mesmo.
     -- Eu o repreendo em nome de Jesus! -- dizia Rita em alta
voz.
     A criatura recebia mais golpes e eram como relmpagos
que o cortavam e iluminavam o salo como flashes.
      Que o Senhor d ordem aos seus anjos para que desam
nesse lugar  continuava Rita,  e combatam a nosso favor!
     Mais um golpe fez a criatura sombria diminuir de tamanho.
A fumaa parecia voar de um lado para o outro, j quase no se
podia ver nada.
     Um som de sirenes de viaturas policiais comeou a surgir
aos poucos vindo pelo corredor. A fora policial estava
chegando  universidade.
      Vamos acabar com isso. Mate-a!  berrou Camila para
Tyson, quase no conseguindo v-lo.
     Ele acenou com a cabea para ela e segurou firme o punhal
acima da cabea.
      Aceite nosso sacrifcio e d-nos o que almejamos!
      Voc est almejando  por isso  surgiu a voz se
aproximando por entre a fumaa, e antes que Tyson pudesse
fazer qualquer movimento o punho ferido e fechado de Felipe
socou seu queixo em cheio. Tyson foi jogado para trs e o
impacto contra o cho o fez largar o punhal.
      Maldito seja!  Tyson ergueu-se e limpou o sangue no
canto da boca.
      Tyson, o que est acontecendo?  indagou Camila
acima dos urros da criatura que ainda agonizava diante dos
relmpagos que o fulminavam.  Tyson?  Ela viu algum se
aproximar.
      Voc no vale nada, garota  murmurou To, j
acordado e em p, antes que ela pudesse fazer qualquer meno
de fugir, ele a fez rodopiar com uma forte tapa no rosto.
     Tap!
      Eu o ordeno, demnio, pegue tudo o que  seu e volte
para as profundezas do inferno agora.  bradou Rita.  Em
nome de Jesus!
     Um grande raio cortou todo o salo e um ltimo berro da
criatura pode ser ouvida.
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                    NAASOM A. SOUSA

     Tyson partiu para contra-atacar Felipe, mas foi pego de
surpresa quando subitamente a criatura sombria tomou forma 
sua frente, ficando entre ele e Felipe.
      O qu...
      Voc falhou  disse o demnio com sua voz grave,
rouca e ameaadora.
     Tyson sentiu de repente um arrepio percorrer-lhe o corpo.
      No... Eu posso concluir o que voc me pediu!
      Seu tempo expirou!  sentenciou a criatura e em seguida
desapareceu como por encanto.
     -- No! Volte, meu senhor! -- Tyson suplicou.
     Como se houvessem ligado um potente exaustor de ar, a
fumaa negra que impregnava todo o recinto se esvaiu em
questo de segundos e logo todos puderam ver uns aos outros.
Estavam estupefatos, com tudo o que tinham acabado de
presenciar.
     Rita se aproximou de Tyson e Camila, que se mantinham
prximos.
      Acabou Tyson. Seu deus no pode com o verdadeiro
Deus, o Senhor dos Exrcitos. Felizmente pude descobrir isso a
tempo.
      Sua traidora. Voc mudou de lado e nos espionou todo
esse tempo...
      Sim. Pude ver o quanto me enganei, o quanto me deixei
enganar por tudo o que voc me disse. Mas agora tudo 
diferente, tudo est acabado.
      Nunca ir acabar  disse Tyson relutante.  Eu juro
que terei juventude e vida eterna e...  ele parou de falar
abruptamente como se algo ou algum o estivesse sufocando.
      Tyson, o que est havendo?  Camila, se levantando,
mostrava-se visivelmente assustada.
     Sem ar, Tyson se jogou de joelhos no cho e ento caiu de
lado debatendo-se. Uma metamorfose macabra se iniciou.
Primeiro a pele de seu rosto e mos comearam a enrugar,
depois, como um cncer de atuao instantnea em sua pele,
manchas se espalharam inteiramente por seu corpo, e em um
minuto, ele estava completamente irreconhecvel, como um ser
mumificado.
      Que  que  isso!  Saldanha parecia no acreditar no
que via.
      Satans no barganha  explicou Felipe.  Ningum
que o serve ganha no final das contas.
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       No... No pode ser...  murmurou Camila em
lgrimas. Comeava a enxergar a realidade. Havia entrado num
abismo profundo e sem volta, e o que lhe restara agora era uma
cela em um dos presdios da cidade.
      De repente ouviram-se passos vindos pelo corredor, e logo
o salo estava apinhado de policiais armados. Enquanto Felipe e
Rita ajudavam Tain a se libertar das correntes, Saldanha
passava um relatrio verbal para o oficial encarregado de tudo o
que havia acontecido no local. Um para-mdico e um policial
levaram To  enfermaria do campus para a realizao de uma
sutura na cabea.
      Tain, j livre, abraou Felipe e chorou de alvio e
felicidade. Tremia em estado de choque e lutava para manter os
sentidos. Esperava que dentro de minutos seus nervos
voltassem  normalidade. Voltou-se para Rita e abraou-a
tambm. Sabia que tinha sido ela que alertara a polcia. Enfim
era uma herona, uma amiga que Tain nunca suspeitara que
tivesse.
       Obrigada  agradeceu Tain.
       S sinto no ter falado abertamente com voc. Se Tyson
ou algum do grupo suspeitasse talvez eu no estivesse aqui.
       No se preocupe. O importante  que estamos todos
bem. Mas...  Tain olhou para os corpos dos seus amigos
sendo recolhidos pelos policiais.  Deus, como puderam fazer
isso?
       Deus  amor; o diabo  destruio. No tnhamos o que
fazer para salv-los.
      Camila ainda estava no cho quando dois policias a
algemaram. Esse era o preo que ela iria pagar, mas ao contrrio
de Tyson ela ainda poderia ter uma segunda chance, pensou
Tain.
      Tudo agora era como um redemoinho que comeava a se
acalmar. Todas as revelaes que Tyson havia lhe dito eram
surreais para ela. Uma seita satnica que almejava a juventude
eterna prometida pelo demnio e para alcan-la precisava
sacrificar vidas inocentes... Ela era a chave para que tudo
acontecesse, assim como... Sua me. Tain pensou em Ana e
desejou abra-la, estar ao seu lado. Ela era mais uma vtima de
Tyson e seu grupo ensandecido.
      Os sacerdotes eram conduzidos, j descobertos de seus
capuzes, um a um para cima, onde mais viaturas estavam 
espera. Tain reconheceu muitos deles, quase todos alunos da
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                     NAASOM A. SOUSA

universidade persuadidos a entrarem para o satanismo e terem
uma vida repleta de "vivacidade" atravs da realizao de seus
desejos carnais. Um mundo de fantasia, pensou Tain. Iluso.
     Ela se achegou mais uma vez a Felipe.
      Obrigada por voc estar do meu lado e ter me
apresentado Deus. Acredito que por causa dele no morri hoje.
      No tem que agradecer a mim. Agradea a Deus. Ele 
digno de todo louvor e gratido, e voc est certa, ele esteve ao
seu lado todo tempo, e era plano dele termos nos encontrado,
Rita ter aparecido e ficado de olho em voc, Saldanha estar por
aqui... Nada foi por acaso. Deus te ama.
     Ela sorriu para ele e para Rita, tranqilizada. Saldanha se
aproximou e ela o abraou tambm.
      Voc est bem?  indagou o detetive.
      Sim... Porque Deus  maravilhoso.




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                   Escrevendo...
      S Deus para nos dar poder para derrotar os demnios do
inferno. Foi o que aconteceu quando repreendi aquela besta que
veio para aceitar o sacrifcio do Grupo. Mas enfim Deus nos deu a
vitria.
      No momento estou escrevendo com a alma em plena
satisfao. Dou graas a Deus porque tudo foi enfim revelado.
Tain, Felipe e To foram salvos; Tyson e seu Grupo foram
desbaratados. Posso dizer agora o quanto foi difcil passar por todo
esse processo de transformao em minha vida, mas Deus me deu
foras que necessitei para vencer, afinal sou mais que vencedora
nele.
      De vez em quando, olhando minha imagem no espelho, me
pego sorrindo sem ao menos perceber. Quem diria.
      Ontem fomos todos  igreja, Tain, Felipe, To e eu. Foi
maravilhoso, ainda mais quando, no final da reunio, To
entregou sua vida a Jesus. Hoje posso dizer que somos felizes, mas
ainda falta Robson Saldanha. Estamos trabalhando nele. Creio
que no demorar muito para ele se render a Cristo tambm, j
que ele foi cristo antes. Deus ir trabalhar, no tenho dvidas
disso.
      Tenho que admitir que Deus ama muito o homem e quer
salv-lo de verdade, mas  uma pena que a criatura, que foi feita
pelas mos de um criador to amoroso, no o valoriza como
deveria e acaba se perdendo em meio a iluses que Satans cria
em seu caminho.
      Tain e eu temos conversado a respeito disso. Conversado
muito mesmo, e  interessante que pensamos parecido. Tomamos
uma deciso juntas: iremos bolar uma estratgia para alertar e
resgatar vidas das mos do inimigo de nossas almas. O nome
LIBERDADE me vem sempre a mente.




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                     EPLOGO
                    (3 ANOS DEPOIS)

     ELA COLOCOU MAIS UMA CANO para tocar e se deixou
afundar ainda mais em sua poltrona em frente aos controles da
nova emissora de rdio. Soltou um longo suspiro de alvio e
louvou a Deus por ter conseguido realizar seu terceiro sonho.
Uma emissora de rdio de sua propriedade, para o
engrandecimento do Senhor, pois servia unicamente para levar
a mensagem de Deus aos ouvidos daqueles que estavam
sintonizados. Logo sentiu um sorriso se formar em seus lbios.
Seu terceiro sonho realizado, Tain lembrou mais uma vez.
     Em sua memria rapidamente surgiram as imagens do
primeiro sonho tornando-se realidade. Ela entrara na igreja de
vu e grinalda e encontrara-se com Felipe Nascimento no altar.
Casaram-se um ano e meio depois dos terrveis acontecimentos
na Belinne, numa cerimnia simples, mas inesquecvel. Felipe a
cada dia se mostrava um marido maravilhoso e um
companheiro inigualvel.
     Eram muito felizes, at que...
     Os pensamentos dela estancaram. Um barulho na porta
chamou a ateno de Tain. A maaneta girou lentamente at
que um rosto pequeno, rosado e redondo apareceu para fit-la.
Um sorriso instantneo surgiu nos lbios dela. Aquele era seu
segundo sonho, Tiago. O pequeno menino de um ano andou
meio cambaleante at encontrar os braos abertos de Tain, que
o acochou num carinhoso abrao. Felipe apareceu em seguida e
ficou a observ-los sorrindo.
     Ela continuou com o pensamento:
     Os dois eram felizes at que... Tiago chegara.
     Agora eram mais que felizes, era uma famlia completa,
inundada de amor.
      Meu filho lindo!  paparicou ela a criana que trazia as
feies do pai.
      Como vai nossa rdio?  Felipe apareceu no estdio e
caminhou at ela, inclinando-se a seguir para beij-la.



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       Uma maravilha. J somos a nmero um em fidelidade
de audincia. Isso quer dizer que nossos ouvintes no mudam
de rdio quando a sintonizam.
       Isso  timo. J mandou um recado para a sua me? Ela
fica triste quando no faz isso.
       J mandei sim, como todo santo dia.
      -- No  incrvel como depois de trs anos as cicatrizes
paream nela to superficiais?
      -- A obra que Deus faz no pode ser incompleta, no 
mesmo? -- Tain sorriu.
      -- Voc est certa.
      Felipe recostou-se na mesa onde estava um computador e
uma jovem de cabelos dourados e aparncia amvel entrou no
estdio e comunicou:
       O Sr. Saldanha ligou novamente h cinco minutos
perguntando pelo senhor, seu Felipe. Disse que em meia hora
vir para a reunio.
       Obrigado, Carol.
      A secretria deixou o estdio e Tain piscou para Felipe.
       O scio est agitado  ela comentou.
      Saldanha tornara-se um detetive conhecido e ganhara
muito dinheiro com a repercusso dos crimes cometidos pelo
grupo Eternity no campus da Belinne. Entre uma entrevista e
outra para as emissoras de TV locais e estrangeiras decidira
expandir seu escritrio para solucionar crimes ainda mais
complexos, mas isso no durara muito. Um belo dia o
evangelho o alcanara e ele tambm se tornara um cristo
convicto. Foi ento que decidira propor a Felipe e Tain uma
sociedade para comprar uma rdio que estava  beira da falncia
na cidade. O casal no hesitara em dizer sim. Logo a rdio
"BNO FM" estava no ar.
      Tain ps as propagandas para tocarem. Eram muitas
vinhetas, e sempre eram rodadas de vinte em vinte minutos
numa seqncia de dez propagandas. A rdio j era sucesso e
passara a ser procurada por vrios lojistas, empresrios e
cantores de vrias partes do Brasil, sempre almejando incluir
seus slogans na programao. Os lucros eram generosos, com
isso poderiam sempre financiar o "Projeto Liberdade".
      Tain suspirou.
       O dia est corrido.
       Est mesmo -- Felipe concordou.

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                     NAASOM A. SOUSA

      Mas a oportunidade de falar de Jesus  recompensador.
Recebi trs telefonemas hoje de pessoas testemunhando que
foram abenoadas pelas msicas e mensagens que ouviram
atravs da rdio.
      Isso  timo!  os olhos de Felipe brilhavam.
      Sim...  a expresso de Tain tomou ar de
preocupao.  Mas fico imaginando quantas pessoas ainda
faltam serem alcanadas pelo poder de Deus  ela olhou para
seu filho que sorria em sua direo e apontava para os controles
na mesa de som , para que possam ser felizes tanto quanto
ns.
      Temos que trabalhar, meu bem, dar o melhor de ns
para Deus. Quem sabe, com esforo, perseverana e pacincia
venhamos a conseguir esse objetivo.
      Amm.
     Felipe tomou Tiago no colo e o beijou.
      Sabe notcias de To e Rita?
      Sei, sim. Eles esto no Sudeste.
      No estavam na Bahia?
      Estavam, mas j acabaram os trabalhos l. O Projeto
Liberdade agora est em So Paulo, capital.
     Felipe acenou com a cabea.
      Teremos que voar para l ento?
     Ela sorriu e falou entusiasmada:
      Claro que sim.



     Era noite. O nome do clube era "DAY IN NIGHT".
Situava-se num privilegiado bairro paulista.
     Rita entrou no lugar primeiro. Sentiu imediatamente uma
atmosfera pesada, demonaca no ar. Estava no meio de dezenas
de pessoas, jovens em sua maioria, todas agitando seus corpos,
conduzidos pela msica eletrnica. Andou por entre a pista de
dana at chegar ao bar. Sentou numa alta cadeira e o bartender
perguntou o que ela queria para beber.
      Nada, por enquanto.
     Ele acenou com a cabea e se direcionou a outro cliente
para atend-lo.
     Ela esperou, sempre estudando bem todo o recinto --
como j tinha feito algumas noites anteriores -- at que To
entrou e se juntou a ela, em silncio.
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                    NAASOM A. SOUSA

     Passaram-se trs minutos at que Rita se dirigiu a ele:
      Como estamos?  ela indagou.
      Bem. O lugar est cercado e tudo poder acontecer a
qualquer momento.
     No demorou muito. Algum na multido deu um berro e
caiu no cho se contorcendo. Outra pessoa mais adiante sofreu
o mesmo ataque. Em um minuto uma dezena de pessoas estava
no cho e o pnico foi inevitvel. Algumas pessoas queriam
entender o que acontecia, outras queriam socorrer os que
estavam no cho, outras simplesmente queriam dar o fora dali.
     A msica parou e um casal aproveitou o momento para se
aproximar do DJ.
      Esse microfone est funcionando? Eu preciso falar algo
 disse Tain acima do alarido dos que estavam na pista de
dana.
      Sem chance!  cortou o DJ.
      Sabemos o que est acontecendo -- Felipe disse com ar
confiante. -- Deixe-a falar e tudo se resolver.
     O DJ hesitou por um momento fitando os dois dos ps 
cabea, com ar desconfiado. Por fim ligou o microfone e
entregou a Tain. Um som agudo saiu das potentes caixas
espalhadas pelo clube e chamou a ateno de todos para o lugar
onde Tain estava. Ela limpou a garganta.
      Boa noite. Queria dizer para no tocarem nas pessoas
que esto se debatendo no cho. Vocs no podem socorr-las
no momento.
     Todos na pista trocaram olhares confusos, perguntando do
que aquela mulher estava falando.



     Robson Saldanha sentia a brisa da noite soprar-lhe
suavemente contra a face enquanto se mantinha em p de frente
para a entrada do "Day in Night". Ele orava ardentemente em
silncio, observando os seguranas do clube, que tambm j se
mostravam intensamente intrigados com o que ele estaria
fazendo ali parado h vrios minutos, como uma esttua.
Batalha espiritual, pensava Saldanha enquanto intercedia por
seus quatro amigos que estavam dentro do clube, e Saldanha
no empenhava sozinho aquela tarefa naquele exato momento.
Sabia que mais dez pessoas, membros do Projeto Liberdade,


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estavam ao redor do lugar igualmente dando cobertura
espiritual para Tain e aos demais.
     Saldanha clamava:
     Esteja no controle, Senhor. Projeta os teus servos e faa o
impossvel acontecer. Acorrente os demnios, toque as vidas, corte
as amarras que os aprisionam e retire as escamas dos seus olhos...



     Tain continuava com a ateno de todos quando disse:
      Essas pessoas esto acorrentadas por um poder que
vocs jamais puderam ver  continuou Tain.  Elas fazem
parte de uma organizao que est disposta a recrutar muitos de
vocs para um abismo chamado satanismo.
     Um murmrio geral surgiu no clube. Os seguranas
comearam a andar na direo dela, mas o gerente do lugar fez
um gesto para que esperassem. Ele queria ver o que era aquilo.
     Rita e To continuavam no bar. Em silncio oravam a
Deus, como as pessoas que faziam parte do Projeto e que
estavam fora do clube, cercando o estabelecimento, orando
como eles. Tain falou mais alto:
      O nome  satanismo, e isso  real. O Rebelde, que 
Satans,  real e ele est por a recrutando pessoas para engan-
las e conduzi-las por um caminho onde quase sempre no h
volta e o final sempre  dor. Algum poder lhes dizer que ele
tem poder e que ele poder dar a vocs o que quiserem, mas ele
 mentiroso e seu poder no  nada comparado ao de Deus.
Dou-lhes a prova disto. Vejam.
     Ela estalou os dedos e disse quase sussurrando:
      JESUS. JESUS. JESUS.
     Ao pronunciar o nome do Senhor, aqueles que estavam no
cho berravam e se contorciam ainda mais.
      Vocs podem escolher de que lado quer ficar. Escolher
se querem se enganar ou no. Escolher se querem ficar do lado
daqueles que se contorcem ao ouvir esse nome... ou do lado de
JESUS, o dono de todo poder.  Mais berros. As pessoas se
entreolharam e, alguns, s vistas de muitos, se aproximaram
dela e de Felipe.
      Eu quero estar do lado de Jesus  declarou um.
      Eu estou afastado do Senhor, mas quero voltar agora
mesmo  disse outro.
      Nunca vi isso antes. Quero esse poder pra mim.
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      Ei, orem por mim!
      O que fao para estar do lado de Jesus?
     O sorriso j estava estampado nos lbios de Tain, Felipe e
dos demais que ali estavam para aquela misso.
     -- Basta confessar Jesus Cristo como seu Senhor e
Salvador e aceit-lo no seu corao -- Tain disse ao microfone.
     -- Eu quero!
     -- Eu quero!
     -- Eu quero!
     -- Ajoelhem-se -- ela pediu.
     Em alguns instantes mais da metade das pessoas ali
presentes estava de joelhos orando e pedindo para que Deus
perdoasse seus pecados e declarando que queriam fazer parte do
povo de Deus.
     Ao final da orao Felipe puxou um caloroso aplauso.
Tain sorriu e olhou para To o Rita. Os dois acenaram para ela
e fizeram um sinal positivo.
      Mais pontos para Jesus e para o Projeto Liberdade 
alegrou-se Rita. To estava emocionado, mas ainda conseguiu
dizer:
     -- A vitria  do Senhor, sempre.
     Felipe se aproximou de Tain e a abraou. Cochichou em
seu ouvido:
      Conseguimos mais alguns que precisavam ser
alcanados, querida.
      Sim, mas ainda faltam muitos.
      Vamos ter f. Vamos alcan-los.
      Essa  a miha esperana, meu amor.
     -- Deus  a nossa esperana -- Felipe corrigiu.
     Tain sorriu confiante.
     -- Sim. Nele podemos todas as coisas.




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                     NAASOM A. SOUSA




                  Escrevendo...
     Chegou o momento de me despedir destas folhas em que
tenho escrito vez ou outra. S espero que aqueles que as lerem
possam ser tocadas pelas mos de Deus, pai de Jesus Cristo  meu
Salvador, Senhor e Mestre.
     Tenho a dizer que tudo o que passei, antes de encontrara
Cristo, foi como um terrvel pesadelo e espero que ningum
enverede pelo caminho dos guias ou mestres, que so espritos
demonacos. Oro para que ningum entre para grupos satanistas e
se deslumbrem com algum poder que os demnios possam lhes
entregar. O final disso  sofrimento e morte.
     Felizmente fui resgatada por Deus e agora me sinto como
ouro retirado do fogo pelo ourives e moldado pelas suas mos
gentis. Assim tornei-me valiosa nas mos do Senhor dos senhores.
     Agora somos todos de Jesus: Saldanha, Tain, Felipe, To e
eu.  interessante como nossa histria nas mos de Deus acaba de
maneira to agradvel. S para se ter uma idia, agora trabalho
na Belinne, ao lado do diretor Pires. Venho conversado
incessantemente com ele a respeito de Deus. Sei que logo ele
poder tambm se entregar a Cristo, assim eu creio.
     Se voc leu todas estas linhas, eu lhe digo: no se demore a
entregar-se totalmente a Deus e o que voc receber ser o
verdadeiro amor de um verdadeiro Deus.
     Um enorme abrao. Que Deus te abenoe.



                                                            Rita.




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                            208
NAASOM A. SOUSA




    FIM

  * * * * * * *




   ILUSO
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                  NAASOM A. SOUSA




   Ao concluir esta obra agradeo a um grande amigo
        que encontrei na WEB, Rogrio Cericatto,
  que simplesmente no tem medido esforos para me
 auxiliar no que preciso e tem se tornado parte da minha
famlia mesmo sem nunca termos nos visto pessoalmente.
                     Obrigado, chefe.




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             SOBRE O AUTOR

                         NAASOM A. SOUSA nasceu no
                         dia 7 de janeiro de 1978 na capital
                         cearense, Fortaleza. Aos 13 anos
                         mudou-se para Belm, capital do
                         estado do Par, e logo aps para
                         Ananindeua, no mesmo estado. Foi
                         ali que se encontrou verdadeiramente
                         com o Cristo Salvador e se
                         interessou pela leitura depois de ler
                         "Este Mundo Tenebroso II" de Frank
                         E. Peretti. Da ento passou a
                         escrever fices evanglicas. Tambm
                         se tornou compositor e cantor
                         gospel. Gravou um CD intitulado
"PODER DE VERDADE" onde expressa seu amor a Deus e
sua confiana no poder do Criador.

    ATUALMENTE, Naasom A. Sousa vive com sua esposa
Ivone Sousa e com sua filha Adayla em Paragominas, municpio
 300km da capital paraense. Seu e-mail para contato 
letrassantas@hotmail.com / letrassantas@bol.com.br e seu site
de literatura na internet : http://letrassantas.blogspot.com/




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                     NAASOM A. SOUSA



        OUTRAS OBRAS DESTE AUTOR:
"O Amor da Minha Vida" -- Nova roupagem de sua novela
romntica escrita em meados de 1996, e este tambm  seu
primeiro trabalho integral distribudo pela Internet.

"Do Deserto ao Osis" -- Novela que foi inspirada nas tantas
dificuldades e tribulaes que enfrentamos no dia-a-dia e que
muitas vezes pensamos que vamos perecer. Porm, por mais
que pensemos que estamos desamparados pelo Criador, Ele
sempre tem um jeito de provar-nos o contrrio.

"Transformao"  Parte 1 (A Misso) -- Fico que retrata a
obedincia de um simples servo para com o seu Deus. Alan
Xavier recebe um chamado de Deus para pregar a Palavra para
Carlos Lacerda. Porm, Carlos  traficante de drogas. Os dois
se envolvem num assassinato e so procurados pelo crime que
no cometeram.

"Transformao"  Parte 2 (Reencontos) -- Segunda parte da
fico. Alan, Carlos e Nick Gradino (amigo de Carlos) tentam
resgatar Nicole (noiva de Carlos), mas tudo sai errado. Alan
reencontra antigos amigos, que faziam parte de uma terrvel
gangue e que agora so remidos e lavados pelo Sangue do
Cordeiro.

"Transformao"  Parte 3 (Descobrindo a Verdade) --
Terceira e ltima parte da fico. Alan e Carlos enfrentaro o
maior desafio de suas vidas. Um perigo eminente estar  espera
de cada um deles, que, tero que correr contra o tempo e fazer
com que a verdade venha  tona. As emoes finais vo fazer
voc ler esse livro captulo a captulo sem parar.




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                                NAASOM A. SOUSA



    COMENTRIOS SOBRE OUTRAS OBRAS DESTE AUTOR:
-- Irmo Naasom, gostei muito do livro DO DESERTO AO OSIS, que o Senhor
Jesus possa capacit-lo cada vez mais. Eu estava precisando de algo assim que me
despertasse..."
   Vanessa Patrcia  vanessa@romagnole.com.br

-- "Sofri com Michelle, no livro DO DESERTO AO OSIS, a cada pgina e a cada
momento, por mais fictcia que tenha parecido a estria, sabemos que histrias como
estas ocorrem no nosso dia-a-dia. O mundo oferece muitas coisas e tambm cobra
muitas outras. Encaro este livro como sendo um grande alerta para os jovens...
   Rogrio Cericatto  rogerio.cericatto@jci.com

-- "O livro DO DESERTO AO OSIS nos prova que: ao estarmos em meio s
adversidades da vida; entre o desamor -- pois a humanidade vive o momento em que o
amor j esfriou --, uma vez que, a iniqidade impera na terra,  imprescindvel que
estejamos firmados na Rocha que  Jesus Cristo!"
    Gecilene P. Silva - gessica30@hotmail.com

-- Achei DO DESERTO AO OSIS um timo livro, principalmente porque 
evangelstico e porque retrata a realidade em que vivemos. Acredito que histrias como
essa devem ser mais divulgadas.
   Danyelle Sousa Morais - Joo Pessoa/PB

-- "Tive a oportunidade de ler suas obras... Gostei demais de seu livro
TRANSFORMAO. Na verdade, voc tem muita facilidade para escrever. Que
Deus continue a abenoar-te".
  Rivaldo - araujoneri@ig.com.br

-- "O livro TRANSFORMAO me edificou muito, creio que nunca li um livro que
estivesse to afim de l-lo pra saber o final, e quando chegou o final querer ler de novo,
ou querer que tenha mais volumes pra serem lidos. Ele me prendeu de uma forma
surpreendente. Li os 3 volumes em uns 05 dias, s vezes parava o que estava fazendo no
trabalho e o lia, em casa ia dormir tarde, no trajeto de casa, a mesma coisa."
    Elisangela Ferreira - querida_com@hotmail.com

-- "Confesso que me surpreendi em ler um material to bom, porque esse  justamente o
meu estilo literrio predileto. Realmente no sabia que TRANSFORMAO era do
estilo das obras de Frank Peretti. Baixei o primeiro livro e li em dois ou trs dias.
Fiquei brava, porque imaginei que terminasse a trama. Da ento baixei o segundo e o
terceiro e li os dois num nico dia. Ele est bem elaborado; bem fechado. A trama foi
colocada de forma certa e precisa, com um desfecho muito bom."
    Aurelina Ramos  Poetiza.




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                NAASOM A. SOUSA




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        Grtis!

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