Este Mundo Tenebroso
Frank E. Peretti
Ttulo original: This Present Darkness Editora Vida 2 Impresso: Julho/1990 Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

A Brbara Jean, esposa e amiga, que me amou, e esperou.

***
Porque a nossa luta no  contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as foras espirituais
do mal, nas regies celestes. Efsios 6:12

***

1
Quando os dois vultos trajando roupas de trabalho surgiram na Rodovia 27, na periferia de Ashton, uma cidadezinha cuja vida revolvia em torno da sua faculdade, a
noite enluarada de domingo ia chegando ao fim. Eram altos, no mnimo acima de dois metros, de compleio robusta, perfeitamente proporcionados. Um tinha cabelos
escuros e possua traos marcantes, o outro era loiro e poderoso. A pouco menos de um quilmetro de distncia, olharam rumo  cidade, considerando a cacofonia de
sons festivos vindos das lojas, das ruas e dos becos que ela abrigava. Puseram-se a caminhar.

Era a poca do Festival de Vero de Ashton, o exerccio anual em frivolidade e caos da cidade, a sua forma de dizer obrigada, volte outra vez, boa sorte, foi bom
t-los aqui, aos cerca de oitocentos alunos da Faculdade Whitmore que estariam entrando nas to esperadas frias de vero. A maioria faria as malas e iria para casa,
mas todos definitivamente ficariam pelo menos o tempo necessrio para aproveitar as festividades, a discoteca, o parque de diverses, os filmes baratos, e tudo o
mais que desse para desfrutar, s claras ou s escuras, s por farra. Eram horas de loucuras, uma oportunidade de se embebedar, engravidar, apanhar, cair no conto
do vigrio e passar mal do estmago, tudo na mesma noite. No centro da cidade, um proprietrio com senso comunitrio havia aberto um lote vazio e permitido que um
grupo ambulante de migrantes empreendedores montassem seu parque com atraes, barracas e toaletes portteis. A aparelhagem parecia melhor no escuro, uma escapadela
em ferrugem fericamente iluminada, movida a motores de trator de escapamento aberto que competiam com a oscilante msica do parque guinchando ruidosamente de algum
lugar no meio daquela barafunda. Mas nessa clida noite de vero, a multido que por ali perambulava comendo algodo doce estava a fim de se divertir, divertir,
divertir. Uma roda-gigante girava lentamente, hesitava a fim de receber passageiros, girava um pouco mais para o desembarque, depois dava algumas voltas completas
a fim de fazer valer o preo do bilhete; um carrossel revolvia em um crculo espalhafatoso de luzes brilhantes, os cavalinhos descascados e caindo aos pedaos ainda
saracoteavam ao som pr-gravado de rgo a vapor; os freqentadores do parque atiravam bolas a cestas, moedas a cinzeiros, dardos a boles de gs, e dinheiro fora
ao longo da instvel passagem montada s pressas, onde os vendilhes repetiam a

mesma arenga, tentando convencer os transeuntes a tentarem a sorte. Os dois visitantes, altos e silenciosos em meio a tudo aquilo, perguntavam-se como uma cidade
de doze mil pessoas -- incluindo os alunos da faculdade -- podia produzir to grande e pululante multido. A populao, geralmente calma, havia comparecido em massa,
incrementada por gente de outras paragens  procura de diverso, at que as ruas, bares, lojas, becos e estacionamentos ficassem lotados nessa ocasio em que tudo
era permitido e o ilegal era ignorado. A polcia tinha as mos cheias, mas cada prostituta, baderneiro, vndalo, bbado algemados significava apenas que mais de
uma dzia ainda estava solta e perambulando pelas ruas. O festival, chegando ao auge na noite final, era como uma furiosa tempestade que no podia ser detida; podia-se
apenas esperar que ela amainasse, e haveria muito o que limpar depois. Os dois visitantes foram passando lentamente pelo parque apinhado, ouvindo as conversas, observando
a atividade. Queriam saber coisas a respeito da cidade, por isso demoraram-se observando aqui e ali,  direita e  esquerda, adiante e atrs. A aglomerao de transeuntes
passava por eles como peas de vesturio a revolver-se na mquina de lavar, serpenteando de um lado a outro da rua, em ciclo imprevisvel, sem fim. Os dois homens
altos no tiravam os olhos da multido. Estavam  procura de algum. -- Olhe l -- disse o de cabelo escuro. Ambos a viram. Era jovem, muito bonita, mas tambm muito
inquieta, olhando de um lado para outro, uma mquina fotogrfica nas mos e uma expresso orgulhosa no rosto. Os dois atravessaram apressados a multido e colocaram-se
ao lado da moa, que no percebeu a sua presena.

-- Sabe -- disse o de cabelo escuro -- voc poderia tentar olhar l adiante. Com esse simples comentrio, ele passou a mo nos ombros dela e a conduziu rumo a certa
barraca na passagem. Ela atravessou a grama e os papis de bala, caminhando na direo da barraca onde alguns adolescentes desafiavam-se mutuamente a estourar bales
de gs com dardos. Nada daquilo a interessava, mas ento... umas sombras movendo-se sorrateiras atrs da barraca prenderam a sua ateno. Ela segurou a mquina em
posio, deu mais alguns passos leves e cuidadosos, e a seguir levou a mquina rapidamente ao olho. O claro do flash iluminou as rvores atrs da barraca enquanto
os dois homens se afastavam apressados para o seu prximo encontro. Moveram-se suavemente, sem hesitao, passando pela parte principal da cidade a passos rpidos.
Seu destino estava a cerca de um quilmetro e meio do centro da cidade, na rua Poplar, e subindo uns oitocentos metros at o topo da rua Morgan Hill. No demorou
quase nada para que se detivessem em frente  igrejinha branca no meio do minsculo estacionamento, com seu gramado bem cuidado e o bonito quadro onde estavam anunciados
o horrio da escola dominical e do culto. Encimando o pequeno quadro de avisos encontrava-se o nome "Igreja da Comunidade de Ashton", e, em letras pretas pintadas
s pressas sobre qualquer que fosse o nome anteriormente ali colocado, dizia: "Henry L. Busche, Pastor". Eles olharam para trs. Desta alta colina podia-se divisar
toda a cidade e v-la estender-se at cada um dos seus limites. A oeste, brilhava o parque cor-decaramelo; a leste, erguia-se o imponente e conservador campus da
Faculdade Whitmore; ao longo da Rodovia

27, a principal rua da cidade, estavam os prdios comerciais, as pequenas representantes locais de famosas cadeias de lojas, alguns postos de gasolina batalhando
por conquistar fregueses com ofertas especiais, uma loja de ferragens, o jornal da cidade, diversas lojas pequenas de comerciantes locais. Dessa posio, a cidadezinha
parecia to tipicamente americana -- pequena, inocente e inofensiva, uma gravura. Mas os dois visitantes no se valiam apenas dos olhos para perceber as coisas.
Mesmo daquela posio vantajosa, o verdadeiro substrato de Ashton pesava muito em seus espritos e mentes. Podiam senti-lo; inquieto, forte, crescente, bem planejado
e cheio de propsito... um tipo de maldade muito singular. Eles no eram avessos a questionar, estudar, investigar. Na maioria das vezes, essas atividades faziam
parte do seu trabalho. Assim sendo, era natural que hesitassem nessa tarefa, pausando com o intuito de indagar: Por que aqui? Mas apenas por um instante. Podia ser
uma sensibilidade aguada, um instinto, uma impresso muito leve s a eles discernvel, mas era o suficiente para fazer com que sumissem prontamente no canto da
igreja, fundindo-se contra a parede chanfrada, quase invisveis ali no escuro. Nada diziam, no se moviam, mas observavam com olhar penetrante algo que se aproximava.
A cena noturna da rua quieta era um mosaico em ntidos traos azuis do luar e sombras imprecisas. Mas uma das sombras no balouava ao vento como as das rvores,
nem tampouco era esttica, como as dos prdios. Rastejava, tremia, movia-se em direo  igreja, enquanto qualquer luz que atravessava parecia afundarse em seu negror,
como se ela fosse uma brecha aberta no espao. Mas essa sombra tinha uma forma, uma

forma animada que fazia lembrar alguma criatura, e quando se aproximou da igreja, ouviram-se sons: o arranhar de garras no cho, o leve farfalhar de asas membranosas
rufladas pela brisa, adejando logo acima dos ombros da criatura. Ela tinha braos e pernas, mas ao cruzar a rua e subir os degraus da escadaria da frente da igreja,
parecia mover-se sem a ajuda deles. Seus olhos malvolos e esbugalhados com seu prprio brilho amarelado refletiam a pura luz azul da lua cheia. A cabea retorcida
saa de ombros encurvados, e tufos de hlito rubro e ranoso borbulhavam em penosos chiados atravs de fileiras de dentes afiados e pontiagudos. Ou ela ria ou tossia
-- os chiados que lhe escapuliam do fundo da garganta podiam ser qualquer das duas coisas. Da posio rastejante em que se encontrava, ergueu-se sobre as pernas
e correu os olhos pela quieta vizinhana, as bochechas pretas e rgidas repuxando-se em horrendo riso, a prpria mscara da morte. Moveu-se em direo  porta da
frente. A mo escura passou atravs da porta como um espeto passa por um lquido; o corpo inclinou-se para diante e penetrou na porta, mas s at a metade. De sbito,
como se colidisse com uma parede em alta velocidade, a criatura foi atirada para trs, caindo em furiosa queda escada abaixo, o rubro e brilhante hlito desenhando
uma trilha encaracolada no ar. Com um sinistro berro de fria e indignao, ela se ergueu da calada onde se esparramara e fixou os olhos na estranha porta que lhe
barrara a passagem. Ento, as membranas das suas costas comearam a inflar, apossando-se de grandes quantidades de ar e, com grande alarido, ela voou de cabea rumo
 porta, rumo ao saguo -- e para dentro de uma nuvem de ardente luz branca.

A criatura gritou e cobriu os olhos, sentindo-se, a seguir, apanhada no enorme e poderoso aperto de uma mo. Num instante, foi arremessada no espao como um boneco
de pano, novamente do lado de fora, expulsa  fora. As asas zumbiram num borro enquanto ela se inclinava numa fechada curva area e se lanava outra vez contra
a porta, fumaa vermelha escapando em tufos e riscos de suas narinas, as garras  mostra e prontas para atacar, o espectral retinir de um berro a lhe sair da garganta.
Como uma flecha atravessa o alvo, como uma bala passa por uma tbua, ela se arremeteu porta adentro -- E no mesmo instante sentiu suas entranhas se arrebentarem.
Houve uma exploso de sufocante vapor, um ltimo berro, e o agitar de braos e pernas que murchavam. Ento nada mais houve a no ser o mau cheiro de enxofre que
se dissipava e os dois estranhos, subitamente dentro da igreja. O homem loiro embainhou uma espada brilhante  medida que a luz branca que o circundava ia desaparecendo.
-- Um esprito de perturbao? -- perguntou ele. -- Ou dvida... ou temor. Quem vai saber? -- E esse era um dos menores? -- Ainda no vi nenhum menor. -- Realmente,
no. E quantos voc diria que existem? -- Muitos, muitos mais do que ns, e por toda a parte. Nunca ociosos. -- , j deu para ver. -- Mas o que esto fazendo por
aqui? Jamais

vimos tamanha concentrao antes, no aqui. -- Oh, a razo no ficar oculta por muito tempo--. Seu olhar passou pelas portas do saguo em direo  nave do templo.
-- Vamos ver esse homem de Deus. Eles se afastaram da porta e caminharam atravs do pequeno vestbulo. O quadro de avisos na parede trazia pedidos de alimentos para
uma famlia que passava necessidade, ofertas de pequenos servios para adolescentes, e pedido de oraes em favor de um missionrio enfermo. Um grande cartaz anunciava
uma assemblia da congregao para a sexta-feira seguinte. Na outra parede, o relatrio da oferta semanal indicava que, com relao  semana anterior tinha havido
uma queda nas contribuies; o mesmo sucedera ao comparecimento, de sessenta e uma pessoas para quarenta e duas. Pela curta e estreita passagem foram eles, caminhando
entre as fileiras alinhadas de pranchas escurecidas e de bancos de ripas, em direo  frente da nave onde um pequeno facho de luz incidia sobre a rstica cruz no
topo do batistrio. No centro da plataforma recoberta por gasto tapete encontrava-se a pequena mesa sagrada, o plpito, sobre o qual repousava uma Bblia aberta.
Era um mobilirio humilde, funcional mas nada elaborado, revelando humildade da parte da congregao, ou pouco caso. Foi nesse momento que o quadro adquiriu o primeiro
som: um soluar mansinho, abafado, vindo da ponta do banco direito. Ali, ajoelhado em ardente prece, a cabea descansando sobre o duro encosto do banco de madeira,
as mos cerradas com fervor, encontrava-se um jovem, muito jovem, pensou a princpio o loiro, jovem e vulnervel. Seu semblante, agora o retrato vivo da dor, sofrimento
e amor, deixava transparecer tudo. Seus lbios moviam-se em silncio,  medida que

nomes, peties e louvor jorravam com paixo e lgrimas. Os dois no puderam evitar ficar ali por um instante em p, observando, estudando, ponderando. -- O pequeno
guerreiro -- disse o de cabelo escuro. O loiro formou as mesmas palavras em silncio, olhando para o homem contrito que orava. -- Sim -- observou --  este. Mesmo
agora, ele est a interceder, colocando-se diante do Senhor em favor do povo, da cidade... -- Ele vem aqui quase todas as noites. Ante esse comentrio, o grandalho
sorriu. -- Ele no  to insignificante assim. -- Mas  apenas um. E est sozinho. -- No. O homenzarro sacudiu a cabea: -- Existem outros. Sempre existem outros.
Apenas tm de ser encontrados. Por enquanto, essa orao nica e vigilante  o comeo. -- Ele vai ser ferido, voc sabe disso. -- E tambm o jornalista. E ns tambm.
-- Mas venceremos? Os olhos do grandalho pareceram chamejar com um fogo reativado. -- Lutaremos. -- Lutaremos -- concordou o amigo. Eles se postaram por sobre o
guerreiro ajoelhado, dos dois lados; e naquele momento, pouco a pouco, como o desabrochar de uma flor, alva luz comeou a inundar o recinto. Ela iluminou a cruz
na parede

traseira, lentamente fez sobressair as cores e os veios em cada prancha de cada banco, e elevou-se em intensidade at que o templo anteriormente sem graa e humilde
brilhou com uma beleza sobrenatural. As paredes chispavam, os tapetes gastos cintilavam, e o pequenino plpito ergueu-se alto e rijo como uma sentinela de costas
para o sol. Agora os dois homens estavam radiantemente alvos, a roupa que trajavam antes transfiguradas em vestes que pareciam arder de intensidade. Seus rostos
estavam bronzeados e brilhantes, os olhos coruscavam como o fogo, e cada um deles trazia um faiscante cinto dourado do qual pendia uma espada reluzente. Colocaram
as mos sobre os ombros do rapaz e ento, como o abrir de um gracioso dossel, sedosas, tremeluzentes, difanas membranas comearam a se desenrolar de suas costas
e ombros e a erguer-se para se encontrar e sobrepor acima de suas cabeas, ondulando suavemente num vento espiritual. Juntos, ministraram paz ao seu jovem tutelado,
e as muitas lgrimas deste principiaram a arrefecer. O Clarim de Ashton era um jornal popular, tpico de cidade do interior; pequeno e original, talvez s vezes
um tantinho desorganizado, despretensioso. Era, em outras palavras, a expresso impressa de Ashton. Seus escritrios ocupavam pouco espao num prdio comercial da
rua principal no centro da cidade, uma construo simples de um s andar com grande vitrine e uma porta pesada, que trazia marcas de ps e uma fenda para a correspondncia.
O jornal saa duas vezes por semana, s teras e s sextas, e no dava muito lucro. Pela aparncia do escritrio e das instalaes, podia-se ver que era uma operao
de minguado oramento. Na parte de frente do prdio, achavam-se o

escritrio e a rea de notcias. Consistiam de trs escrivaninhas, duas mquinas de escrever, dois cestos de lixo, dois telefones, uma cafeteira eltrica sem o fio,
e o que parecia ser tudo o que podia existir no mundo em matria de notas, papis, papel timbrado e bugigangas de escritrio. Um velho e gasto balco, trazido de
uma estao de estrada de ferro desmantelada, formava a divisria entre o escritrio em si e a rea de recepo. E, como era de esperar, havia um sininho acima da
porta que tinia todas as vezes que algum entrava. Nos fundos desse labirinto de atividade em pequena escala achava-se um trao de luxo um tanto grandioso demais
para o lugar: uma divisria de vidro que fechava o escritrio do redator. Na realidade, era uma nova adio. O novo redator-proprietrio era um ex-reprter de cidade
grande e ter um escritrio de redator fechado com vidro havia sido um dos sonhos de sua vida. Esse novo sujeito era Marshall Hogan, um tipo robusto e enrgico, de
grande porte, a quem a sua equipe -- o compositor, a secretria-reprter-moa-dosanncios, o colador de artigos, e a reprter colunista -- carinhosamente se referia
como "tila, o Hogan". Ele havia comprado o jornal alguns meses antes, e o choque entre a sofisticao de cidade grande dele e a calma interiorana da equipe ainda
provocava confrontaes de tempos em tempos. Marshall queria um jornal de qualidade, que sasse com eficincia e suavidade e dentro dos prazos, com um lugar para
cada coisa e cada coisa em seu lugar. Mas a transio do New York Times para o Clarim de Ashton era como pular de um trem em disparada ao encontro de uma parede
de gelatina. As coisas simplesmente no se cristalizavam com tanta rapidez naquele pequenino escritrio, e o alto nvel de eficincia a que Marshall estava acostumado
tinha de dar lugar a peculiaridades do Clarim de Ashton, como guardar o p de caf usado para o depsito de adubo da

secretria, e algum finalmente entregar a to esperada histria de interesse humano, mas toda coberta de titica de papagaio. Os padres de trfego da manh de segunda-feira
eram febris, no dava tempo de ningum curtir uma ressaca do fim-de-semana. A edio de tera-feira estava sendo tirada s pressas, e toda a equipe estava sentindo
as dores de parto, correndo de c para l, das escrivaninhas na parte da frente  sala de colagem na parte de trs, apertando-se para passar quando se encontravam
no estreito corredor, carregando rascunhos de artigos e anncios a serem tipografados, provas j prontas, e diversos formatos e tamanhos de meios-tons das fotografias
que iriam ornar as novas pginas. Nos fundos, entre luzes brilhantes, mesas atravancadas com trabalhos, e corpos em rpido movimento, Marshall e Tom, o colador,
achavam-se inclinados sobre um grande cavalete em forma de banco, montando o Clarim a partir de recortes e pedaos esparramados por todos os lados. Este vai aqui,
este no cabe -- ento temos de encaixar em outro lugar, este  muito grande, o que usaremos para preencher este? Marshall estava ficando irritado. Toda segunda
e quinta ele ficava irritado. -- Edie! -- berrou ele, e a secretria respondeu: -- Vou indo -- e ele lhe disse pela milsima vez: -- As gals vo nas bandejas em
cima da mesa, no fora delas na mesa, no no cho, no no... -- Eu no pus nenhuma gal no cho! -- protestou Edie enquanto saa s pressas da sala de colagem com
outras gals nas mos. Era uma mulherzinha rija de quarenta anos com a personalidade perfeita para opor-se  brusquido de Marshall. Era ainda ela quem sabia encontrar
as coisas no escritrio melhor do que qualquer outra pessoa, especialmente o novo chefe.

-- Eu as coloquei nas suas lindas bandejinhas, onde voc quer que fiquem. -- Ento, como essas vieram parar aqui no cho? -- Vento, Marshall, e no me faa dizer-lhe
de onde ele vem! -- Muito bem, Marshall -- disse Tom -- isso conclui as pginas trs, quatro, seis e sete... que me diz das pginas um e dois? O que vamos fazer
com todos esses espaos vazios? -- Vamos colocar a cobertura que Bernie fez do Festival, com histrias bem redigidas, fotos dramticas de interesse humano, o negcio
todo, assim que ela botar o traseiro aqui dentro e nos der o que arrumou! Edie! -- O que ? -- Bernie est mais de uma hora atrasada, barbaridade! D para cham-la
de novo? -- Acabei de ligar. Ningum atende. -- Droga. George, o pequeno tipgrafo aposentado que ainda trabalhava por gostar do que fazia, fez a cadeira girar de
costas para a tipografia e ofereceu: -- Que tal o Churrasco da Liga das Senhoras? Estou acabando de montar esse artigo, e a foto da Sra. Marmaselle  suficientemente
picante para provocar uma ao legal. --  -- gemeu Marshall -- bem na primeira pgina.  disso que mais preciso, uma boa impresso. -- E ento, o que vamos fazer?
-- perguntou Edie. -- Algum daqui foi ao Festival? -- Eu fui pescar -- disse George. -- Esse festival  quente demais para mim.

-- Minha mulher no me deixou ir -- disse Tom, -- Eu vi um pouquinho dele -- disse Edie. -- Comece a escrever -- disse Marshall. -- O maior acontecimento do ano,
e temos de publicar alguma coisa a respeito. O telefone tocou. -- Salva no ltimo instante? -- chilreou Edie enquanto apanhava a extenso que ficava na sala dos
fundos. -- Bom dia, aqui  o Clarim --. De sbito, ela se animou. -- Ei, Berenice! Onde est voc? -- Onde est ela? -- quis saber Marshall ao mesmo tempo. Edie
foi ouvindo e seu rosto foi ficando horrorizado. -- Sim... bem, calma... claro... no se preocupe, ns a tiraremos da. Marshall acudiu impaciente: -- Bem, onde
est ela afinal de contas? Edie lanou-lhe uma olhada cheia de censura e respondeu: -- Na cadeia!

2
Marshall entrou depressa no poro da Delegacia de Ashton e imediatamente desejou poder desligar o nariz e os ouvidos. Alm da porta cheia de grades que levava 
ala das celas, os rudos e odores que emanavam das celas no diferiam muito dos do parque de diverses na noite anterior. Ao vir para c, ele havia notado como as
ruas estavam quietas esta manh. No era de admirar -- todo o barulho tinha vindo parar dentro dessa meia-dzia de celas de pintura descascando, embutidas em concreto
frio e ressonante. Aqui estavam

todos os drogados, vndalos, desordeiros, bbados e vagabundos que a polcia tinha podido arrebanhar da face da cidade, recolhidos no que mais parecia um zoolgico
superlotado. Alguns estavam transformando aquilo numa festa, jogando pquer por cigarros, usando cartas todas marcadas de dedos e tentando sobrepujar os outros nas
narrativas de aventuras ilcitas. Perto do fim das celas, um bando de jovens machos dirigia comentrios obscenos a uma gaiolada de prostitutas que no tinham um
lugar melhor para serem trancafiadas. Outros simplesmente se amontoavam pelos cantos em estado de embriaguez ou afundados em depresso, ou as duas coisas. Os remanescentes
olhavam-nos fixamente por detrs das grades, fazendo comentrios maliciosos, pedindo ninharias. Ele ficou contente por ter deixado Kate na entrada. Jimmy Dunlop,
o novo assistente do Delegado, estava estacionado fielmente  mesa da guarda, preenchendo formulrios e bebendo caf forte. -- Ei, Sr. Hogan -- disse ele -- o senhor
veio logo. -- Eu no podia esperar... e no vou esperar! -- disse, brusca mente. No se estava sentindo bem. Este havia sido o seu primeiro Festival, e s isso j
era um mal em si, mas ele jamais esperou, jamais sonhou com um tal prolongamento da agonia. Qual uma torre, ele se elevou  frente da mesa, sua robusta figura inclinando-se
para a frente a fim de acentuar a sua impacincia. -- E ento? -- insistiu. -- Hummm? -- Estou aqui para tirar a minha reprter da cadeia. -- Claro, sei disso. Trouxe
a permisso? -- Olhe aqui. Acabei de pagar aqueles engraadinhos l em cima. Eles disseram que ligariam

aqui para baixo. -- Bem. .. no fiquei sabendo de nada, e preciso da autorizao. -- Jimmy.. . -- O que ? -- Seu telefone est fora do gancho. -- Oh. .. Marshal
colocou o telefone  frente do guarda com tanta fora que fez o telefone tilintar de dor. -- Ligue para eles. Marshall endireitou-se, viu Jimmy discar o nmero errado,
discar novamente, tentar completar a ligao. Ele combina bem com o resto da cidade, pensou Marshall, passando nervosamente os dedos pelos cabelos vermelhos que
comeavam a ficar grisalhos. Ora, claro que era uma cidade simptica. Engraadinha, talvez um tanto estpida, meio como um garoto desajeitado que est sempre se
metendo em encrencas. As coisas no eram to melhores assim na cidade grande, tentou lembrar a si mesmo. -- Ah, Sr. Hogan -- disse Jimmy, com a mo sobre o bocal
-- com quem foi que o senhor falou? -- Kinney. -- Sargento Kinney, por favor. Marshall estava impaciente. -- Passe-me a chave da porta. Quero que ela saiba que estou
aqui. Jimmy deu-lhe a chave. J havia discutido com Marshall Hogan antes. Uma onda de fingidas boas-vindas jorrou das celas, acompanhada de tocos de cigarros e o
som de marchas assobiadas enquanto ele passava. Ele no perdeu tempo em achar a cela que procurava.

-- Muito bem, Krueger, sei que voc est a dentro! -- Venha pegar-me, Hogan -- veio a resposta, dada por uma voz feminina desesperada e algo ultrajada l dos fundos.
-- Bem, estenda o brao, acene para mim, faa alguma coisa! Uma mo apareceu entre os corpos e grades e acenou-lhe com desespero. Ele foi at l, deulhe uma pancadinha
na palma, e achou-se face a face com Berenice Krueger, detenta, sua melhor colunista e reprter. Ela era uma jovem e atraente mulher de seus vinte e cinco ou vinte
e seis anos, com cabelos castanhos em desordem e culos grandes, de aro de metal, agora manchados. Ela tinha obviamente passado uma noite difcil e no momento estava
na companhia de pelo menos uma dzia de mulheres, algumas mais velhas, algumas chocantemente jovens, a maioria prostitutas apanhadas pelo camburo da polcia. Marshall
no sabia se ria ou cuspia. -- No vou poupar palavras... voc est com uma cara horrorosa -- disse ele. -- Est apenas de acordo com a minha profisso. Sou uma
prostituta agora. --  sim,  sim, uma de ns -- entoou uma moa rechonchuda. Marshall fez uma careta e abanou a cabea. l? -- Que tipo de perguntas voc andou
fazendo por

-- No momento, nenhuma piada tem graa. Nenhuma histria do que aconteceu na noite passada  engraada. No estou rindo, estou fervendo. Aquele servio era um insulto
em primeiro lugar. -- Olhe, algum tinha de escrever sobre a folia. -- Mas ns acertamos em cheio no nosso

prognstico; certamente no havia nada de novo debaixo do sol, nem da lua, por assim dizer. -- Voc foi presa -- ofereceu ele. -- Por querer agarrar o leitor com
uma isca escandalosa. O que mais havia para se escrever? -- Vamos, leia para mim o que escreveu. Uma espanhola no fundo da cela ofereceu: -- Ela tentou fazer negcio
usando o truque errado -- e todas as celas arrebentaram em gargalhadas e vaias. -- Exijo ser posta em liberdade! -- disse Berenice, furiosa. -- E voc pisou em cola?
Faa algo. -- Jimmy est telefonando a Kinney. Paguei sua fiana. Vamos tir-la daqui. Berenice esperou um pouco at conseguir esfriar e ento relatou: -- Respondendo
s suas perguntas, eu estava fazendo entrevistas locais, tentando obter algumas boas fotos, boas declaraes, boa qualquer coisa. Assumo que Nancy e Rosie aqui --
ela olhou em direo a duas jovens que poderiam ter sido gmeas, e elas sorriram para Marshall -- ficaram querendo saber o que eu estava fazendo, circunavegando
constantemente pela rea do carnaval com cara de perdida. Elas puxaram uma conversa que realmente no levou a nada do ponto de vista de notcias, mas que nos meteu
as trs em apuros quando Nancy quis passar a cantada num tira disfarado e acabamos indo parar em cana todas juntas. -- Acho que ela se sairia bem na profisso --
brincou Nancy, enquanto Rosie fingia que lhe dava um tabefe. Marshall perguntou: -- E voc no lhe mostrou sua identidade, sua carteira de jornalista?

-- Ele nem me deu chance! Eu lhe disse quem era. -- Bem, ele a ouviu? -- perguntou Marshall s moas: -- Ele ouviu o que ela disse? Elas simplesmente deram de Berenice
engrenou a voz a toda e gritou: ombros, mas

-- Este tom  alto o bastante para voc? Foi o que usei ontem  noite enquanto ele me botava as algemas! -- Bem-vinda a Ashton. -- Vou tomar a insgnia dele! --
Apenas far seu peito ficar verde. Hogan ergueu a mo a fim de impedir outra exploso. -- Ei, olhe, no vale a chateao... -- Existem outras escolas de pensamento!
-- Berenice... -- Tenho umas coisas que adoraria ver impressas, com quatro colunas de largura, tudo acerca do Supertira e daquele cretino parado que  o chefe!
E por falar nisso, onde est ele? -- Quem, voc est falando do Brummel? -- Ele tem um jeitinho muito conveniente de desaparecer, sabia? Ele sabe quem sou. Onde
est ele? -- No sei. No consegui entrar em contato com ele hoje de manh. -- E ele me deu as costas ontem  noite! -- Do que voc est falando? Subitamente, ela
fechou a boca, mas Marshall leu seu rosto to claramente quanto se ali estivesse escrito: No se esquea de me perguntar mais tarde. Naquele exato momento, a grande
porta se abriu e

Jimmy Dunlop entrou. -- Falaremos a respeito depois -- disse Marshall. -- Tudo certo, Jimmy? Jimmy estava intimidado demais pelos berros, exigncias, vaias e apupos
vindos das gaiolas para responder de pronto. Mas uma coisa era certa: ele tinha a chave da cela na mo, e isso era suficiente. -- Afastem-se da porta, por favor
-- ordenou ele. -- Ei, quando  que a sua voz vai mudar? -- foi caracterstica das respostas que obteve. Mas elas se afastaram da porta. Jimmy a abriu, Berenice
saiu rapidamente, e ele bateu a porta e a trancou atrs dela. -- Muito bem -- disse ele -- voc est livre para sair sob fiana. Ser notificada sobre a data em
que ter de comparecer perante o juiz. -- Quero apenas que me devolva minha bolsa, minha carteira de jornalista, meu bloco de anotaes e minha mquina fotogrfica!
-- sibilou a moa, dirigindose  porta. Kate Hogan, uma ruiva sria e esbelta, havia tentado aproveitar bem o tempo enquanto esperava l em cima, no vestbulo do
tribunal. Havia muito o que observar aqui depois do Festival, embora certamente nada que fosse agradvel: alguns miserveis sendo escoltados ou arrastados para dentro,
lutando contra as algemas o tempo todo e despejando obscenidades; muitos outros estavam sendo soltos nessa hora aps uma noite passada atrs das grades. Parecia
quase a mudana de turnos em alguma fbrica bizarra, o primeiro turno saindo, algo desapontado, seus minguados pertences ainda em saquinhos de papel, e o segundo
turno entrando, todo manietado e indignado. A maioria dos policiais era estranha vinda de outras par-

tes, trabalhando horas extras para reforar a minscula equipe de Ashton, e no estavam sendo pagos para ser bondosos ou educados. A mulher de bochechas cadas sentada
 escrivaninha principal tinha dois cigarros esfumaando no cinzeiro, mas pouco tempo para tirar uma tragada entre o processar de papis de cada caso que entrava
ou saa. Pelo que Kate podia ver, a operao toda parecia muito apressada e desleixada. Havia alguns advogados baratos passando os cartes, mas uma noite na cadeia
parecia ser o castigo mximo que qualquer uma daquelas pessoas teria de enfrentar, e a nica coisa que desejavam agora era sair da cidade em paz. Kate meneou inconscientemente
a cabea. Pensar na pobre Berenice sendo arrebanhada por esse lugar adentro como se fosse ral. A moa devia estar furiosa. Ela sentiu um brao forte mas meigo enla-la,
e deixou-se afundar em seu abrao. -- Humm -- disse -- isso  o que chamo de mudana agradvel. -- Depois do que tive de ver l embaixo, preciso de um blsamo --
disse-lhe Marshall. Ela colocou o brao em volta dele e o puxou para perto de si. --  isto o que acontece todos os anos? -- perguntou ela. -- No, ouvi dizer que
piora cada vez mais --. Kate meneou a cabea outra vez, e Marshall acrescentou: -- Mas o Clarim ter algo a dizer sobre isso. Ashton bem que poderia usar uma mudana
de direo; a esta altura, eles j deviam estar enxergando isso. -- Como est Berenice? -- Ela ser um colosso de redatora por uns

tempos. Est bem. Sobreviver. -- Voc vai conversar com algum a respeito de tudo isso? -- Alf Brummel no est por a. Ele  sabido. Mas eu o pegarei mais tarde
hoje e verei o que posso fazer. E no me importaria de receber meus vinte dlares de volta. -- Bem, ele deve estar ocupado. Eu detestaria ser o delegado num dia
como hoje. -- Oh, ele detestar o cargo muito mais se isso estiver em meu poder. A volta de Berenice de uma noite de encarceramento foi marcada por um semblante
carregado e passos secos, batendo com fora no linleo. Ela tambm carregava um saco de papel, furiosamente rebuscando dentro dele para assegurar-se de que continha
todas as suas coisas. Kate estendeu os braos a fim de dar um abrao reconfortante em Berenice. -- Berenice, como est? -- Brummel  um nome que logo ser lama,
o nome do prefeito ser estreo, e no poderei imprimir o que o nome daquele tira ser. Estou indignada, posso estar constipada e preciso desesperadamente de um
banho. -- Olhe -- disse Marshall -- desconte a raiva na mquina de escrever, d uns tapas nas moscas. Preciso dessa histria do Festival para a edio de tera-feira.
Berenice imediatamente rebuscou os bolsos e puxou para fora um punhado de papel higinico amassado, colocando-o com fora na mo de Marshall. -- Sua fiel reprter,
sempre a postos -- disse ela. -- O que mais havia para fazer l alm de olhar a parede

descascar e esperar em fila a minha vez de usar o vaso sanitrio? Desconfio que vai achar toda a reportagem bem descritiva, e dei um jeito de inserir algumas entrevistas
in loco com umas prostitutas presas para dar mais sabor. Quem sabe? Talvez uma reportagem dessas faa esta cidade perguntar-se onde chegou. -- Alguma foto? -- perguntou
Marshall. A moa entregou-lhe um rolo de filme. -- Voc deve encontrar algo a que possa usar. Ainda estou com filme na mquina mas esse  de interesse pessoal para
mim. Marshall sorriu. Estava bem impressionado. -- Tire folga hoje, por minha conta. As coisas parecero melhores amanh. -- Talvez at l eu j tenha recobrado
minha objetividade profissional. -- Vai cheirar melhor. -- Marshall! -- disse Kate. -- Tudo bem -- disse Berenice. -- Ele me joga esse tipo de coisa o tempo todo.
A essa altura, ela havia apanhado a bolsa, a carteira de jornalista e a mquina e jogou vingativamente o saco da papel amassado numa lata de lixo, perguntando: --
E como est a situao de transporte? -- Kate trouxe o seu carro -- explicou Marshall. -- Se voc lhe desse uma carona at a casa, seria melhor para mim. Tenho de
ver se consigo resolver as coisas l no jornal e depois vou tentar encontrar Brummel. Os pensamentos de prontamente nessa marcha. Berenice engataram

-- Brummel, certo! Tenho de falar com voc.

Ela comeou a arrastar Marshall para o que este pudesse dizer sim ou no, e ele apenas dar uma olhada em Kate pedindo antes que Berenice e ele dobrassem um canto
fora de vista, perto dos banheiros. Berenice abaixou a voz.

lado antes conseguiu desculpas e ficassem

-- Se voc vai falar com o Delegado Brummel hoje, quero que fique sabendo o que eu sei. -- Alm do bvio? -- Que ele  um ordinrio, um covarde e um cretino? Sim,
alm disso tudo. So pedaos, observaes desconexas, mas talvez venham a ter sentido algum dia. Voc disse que eu sou boa para enxergar detalhes. Acho que vi o
seu pastor e ele juntos na folia ontem  noite. -- O pastor Young? -- A Igreja Crist Unida de Ashton, certo? Presidente do corpo local de pastores, endossa tolerncia
religiosa e condena a crueldade para com animais. -- Sim, isso mesmo. -- Mas Brummel nem vai  sua igreja, vai? -- No, ele vai quela igreja pequenina. -- Eles
estavam l atrs da barraca dos dardos, em quase total escurido, com trs outras pessoas, uma loira, um velhote baixote e atarracado, e uma vbora que mais parecia
um fantasma, de cabelos pretos e culos escuros. culos escuros de noite! Marshall ainda no estava impressionado. Ela continuou como se estivesse tentando venderlhe
algo. -- Acho que cometi um pecado capital contra eles: tirei uma foto, e, pelo que pude perceber, no gostaram

nada. Brummel ficou bem nervoso e, ao falar comigo, gaguejava. Young pediu-me em tom firme que sasse, dizendo: "Esta  uma reunio particular." O gorducho deu-me
as costas e a mulher fantasmagrica ficou simplesmente a olhar para mim com a boca aberta. -- Voc j pensou em como encarar tudo isso depois de um bom banho e
uma noite decente de sono? -- Espere eu terminar e ento saberemos, est bem? Ora, foi logo depois daquele pequeno incidente que Nancy e Rosie se agarraram a mim.
O que quero dizer  que no fui eu que as procurei, elas me procuraram, e logo a seguir fui presa e minha mquina confiscada. Ela percebeu que no estava conseguindo
fazer que ele compreendesse. Ele olhava impaciente ao redor, o corpo j inclinado de volta na direo do vestbulo. -- Est bem, est bem, s mais uma coisa -- disse
ela, tentando segur-lo ali. -- Brummel estava l, Marshall. Ele viu tudo. -- Tudo o qu? -- Eu ser presa! Eu estava tentando explicar quem era ao tira, estava tentando
mostrar-lhe minha carteira de jornalista, mas ele apenas me tomou a bolsa e a mquina e me algemou. Olhei para o lado da barraca de dardos de novo e vi Brummel observando
tudo. Ele sumiu imediatamente, mas juro que o vi olhando tudo o que estava acontecendo! Marshall, repassei tudo o que aconteceu ontem  noite, e examinei tudo, e
examinei novamente e acho... bem, no sei o que pensar, mas tem de significar alguma coisa. -- Para completar o cenrio -- aventurou Marshall -- o filme da sua mquina
sumiu. Berenice examinou a mquina. -- Oh, ainda est aqui, mas isso no quer dizer nada.

Hogan deu um suspiro enquanto considerava o que ela havia dito. -- Est bem, tire o restante das fotos, e veja se arranja algo que possamos usar, certo? Depois revele
o filme e ento veremos. Podemos ir? -- Ser que eu j cometi erros impulsivos, imprudentes, por excesso de confiana como este antes? -- Claro que sim. -- Ora,
faa-me o favor! No d para confiar um pouquinho, pelo menos desta vez? -- Tentarei fechar os olhos. -- Sua esposa est esperando. -- Eu sei, eu sei. Marshall no
sabia bem o que dizer a Kate quando se reuniram a ela. -- Desculpe o que aconteceu... -- murmurou ele. -- Ento -- disse Kate, tentando apanhar o assunto no ponto
em que haviam interrompido -- estvamos falando de conduo. Berenice, tive de trazer seu carro aqui para voc t-lo a fim de ir para casa. Se voc me deixar em
casa... -- Sim, certo, certo -- disse Berenice. -- E, Marshall, tenho uma poro de coisas que fazer hoje  tarde. Voc pode apanhar a Sandy depois da aula de psicologia
dela? Marshall no disse nada, mas seu rosto mostrava um sonoro no. Kate pegou um molho de chaves na bolsa e o entregou a Berenice. -- Seu carro est logo ali na
esquina, prximo do nosso, no espao reservado  imprensa. Por que voc no vai busc-lo?

Berenice entendeu a deixa e saiu. Kate segurou Marshall com um brao amoroso e examinou seu rosto por um momento. -- Ei, vamos. Tente. Pelo menos uma vez. -- Mas
brigas de galo so ilegais neste estado. -- Se quiser saber o que penso, ela puxou o pai. -- No sei por onde comear -- disse ele. -- Estar l para apanh-la significar
algo. Aproveite a chance. Enquanto se encaminhavam na direo da porta, Marshall, correndo os olhos ao redor, deixou seus instintos examinarem a situao. -- Voc
entende esta cidade, Kate? -- disse, afinal. --  como um tipo de doena. Todo o mundo por aqui est com a mesma molstia esquisita. Uma manh ensolarada sempre
ajuda a fazer com que os problemas da noite anterior paream menos graves. Era nisso que Hank Busche estava pensando ao abrir a porta de tela da frente da casa e
pisar no pequeno degrau de concreto. Ele morava numa casa de um quarto, de baixo aluguel, no longe da igreja, uma caixinha branca plantada numa esquina, paredes
chanfradas por fora, com pequeno quintal limitado por uma cerca viva, e um teto sujo. No era muita coisa, e s vezes parecia menos ainda, mas era o mximo que o
seu salrio de pastor lhe permitia. Ora, ele no estava reclamando. Ele e Mary se encontravam confortveis e abrigados, e a manh estava linda. Esse era o dia em
que podiam dormir at mais tarde, e dois litros de leite esperavam na base dos degraus. Ele os apanhou, antecipando o prazer de uma tigela de cereal encharcado em
leite, pequena distrao de suas provaes e tribulaes.

Ele j tinha passado por dificuldades antes. Seu pai havia sido pastor enquanto Hank era menino, e os dois haviam atravessado juntos muita glria e muitos apertos,
do tipo ligado a plantar igrejas, pastorear, ser pregador itinerante. Hank soubera desde criana que essa era a vida que queria, a forma pela qual desejava servir
ao Senhor. Para ele, a igreja sempre fora um lugar muito emocionante onde se trabalhar. Fora emocionante ajudar o pai nos primeiros anos, emocionante passar pela
faculdade bblica e depois pelo seminrio, e ento dois anos como pastor estagirio. Era emocionante tambm agora, mas lembrava a esfuziante sensao que os texanos
devem ter sentido no lamo. Hank tinha apenas vinte e seis anos, e geralmente era cheio de ardente entusiasmo; mas este pastorado, o primeiro, parecia um lugar difcil
de pegar fogo. Algum havia apagado o ltimo resqucio de chama, e ele no sabia o que pensar a respeito. Por algum motivo, havia sido eleito pastor, o que significava
que algum nessa igreja desejava o seu tipo de ministrio, mas ento havia os outros, aqueles que... tornavam a coisa emocionante. Tornavam-na emocionante todas
as vezes que ele pregava acerca do arrependimento; tornavam-na emocionante todas as vezes que ele confrontava o pecado na comunidade; tornavam-na emocionante todas
as vezes que ele falava da cruz de Cristo e da mensagem da salvao. Nesse ponto, era mais a f e a segurana que Hank tinha no fato de estar onde Deus queria que
estivesse do que outro fator qualquer que o mantinha firme nos seus propsitos, inabalavelmente em p, apesar de atacado. Ora, bem, pensou Hank consigo mesmo, pelo
menos desfrute a manh. O Senhor a colocou aqui para voc. Tivesse ele entrado de costas na casa sem se voltar, ter-se-ia poupado um insulto, e mantido seu esprito
leve. Mas ele se voltou para entrar, e imediatamente viu as imensas letras, negras, escorridas, pichadas na frente da casa: "VOC  UM HOMEM MORTO, ..................."
A ltima palavra era

obscena. Os seus olhos viram aquilo, e ento correram lentamente de um lado a outro da casa, absorvendo tudo o que viam. Era uma dessas coisas que demora para registrar.
Tudo o que ele pde fazer foi ficar parado um instante, primeiro tentado imaginar quem teria feito aquilo, depois querendo saber por que, e ento querendo saber
se daria para limpar. Ele olhou mais de perto, tocou as letras com o dedo. Tinha de ter sido feito durante a noite; j estava bem seco. -- Benzinho -- veio de dentro
a voz de Mary -- voc est com a porta aberta. -- Hummmmm... -- foi tudo o que ele disse, no tendo palavra melhor. Realmente no queria que ela soubesse. Entrou
em casa, fechou com firmeza a porta e reuniu-se a Mary, linda jovem de cabelos longos, para o desjejum: uma tigela de cereal e torradas quentes com manteiga. Aqui,
apesar de um cu nublado, Hank tinha um cantinho ensolarado que era a mimosa e brincalhona esposa, com sua risadinha melodiosa. Ela era uma boneca e possua fibra
tambm. Hank muitas vezes sentia remorsos pelo fato de ela ter de enfrentar as lutas que estavam enfrentando. Afinal, ela podia ter-se casado com um contador ou
com um vendedor de seguros, estvel e maante, mas ela lhe fornecia tremendo apoio, sempre presente, sempre acreditando que Deus daria um jeito e sempre acreditando
em Hank tambm. -- O que h de errado? -- perguntou ela de imediato. Bolas! Fao o que posso para esconder, tento agir normalmente, mas mesmo assim ela percebe,
pensou Hank. -- Hummmmm... -- comeou ele a dizer.

-- Ainda chateado com a reunio do conselho?  est a sua sada, Busche. -- Claro, um pouco. -- Nem ouvi voc chegar ontem  noite. A reunio durou at muito tarde?
-- No. Alf Brummel teve de sair para uma reunio importante da qual ele no quis falar, e os outros, voc sabe como , apenas disseram o que queriam e se foram,
deixando-me ali para me recuperar por conta prpria. Fiquei por l e orei durante algum tempo. Acho que funcionou. Senti-me bem depois. Ele se animou um pouquinho.
-- Para falar a verdade, realmente senti que o Senhor me confortava ontem  noite. -- Acho que eles escolheram uma hora bem esquisita para convocar uma reunio do
conselho, logo durante o Festival -- disse ela. -- E na noite de domingo! -- disse ele atravs dos flocos de milho. -- Eu mal tinha acabado de dar incio ao culto
e l estavam eles convocando uma reunio. -- A respeito da mesma coisa? -- , acho que esto apenas usando Lou como desculpa para causarem encrenca. -- Bem, o que
voc lhes disse? -- A mesma coisa, vez aps vez. Apenas fizemos que a Bblia manda: eu procurei o Lou, depois eu e John procuramos o Lou, e depois apresentamos problema
ao restante da igreja, e ento ns, bem, ns eliminamos da comunho. o o o o

-- Bem, parecia mesmo ser o que a congregao decidiu. Mas por que o conselho no consegue acatar a deciso?

-- Eles no sabem ler. Os Dez Mandamentos no fazem referncia ao adultrio? -- Eu sei, eu sei. Hank ps a colher na mesa a fim de poder gesticular melhor. -- E
eles estavam bravos comigo ontem  noite! Comearam a jogar todo aquele negcio de no julgar para no ser julgado para cima de mim... -- Quem? -- Ora, a mesma panelinha
do Brummel: Alf, Sam Turner, Gordon Mayer... voc sabe, a Velha Guarda. -- Bem, no deixe que eles o intimidem! -- Pelo menos no me faro mudar de idia. Mas no
sei que tipo de segurana no emprego essa atitude me garante. Agora Mary estava ficando indignada. -- Bem, no d para entender o que h de errado com Alf Brummel.
Ser que ele tem algo contra a Bblia ou a verdade ou o qu? Se no fosse essa questo, certamente seria alguma outra coisa! -- Jesus o ama, Mary -- acautelou Hank.
-- Acontece que ele se acha sob pesada condenao,  culpado,  pecador, e sabe disso, e gente como ns sempre h de incomodar gente como ele. O pastor anterior
pregou a Palavra e Alf no gostou. Agora eu estou pregando a Palavra e ele continua a no gostar. Ele tem muita influncia na igreja, por isso acho que pensa que
pode ditar o que sai do plpito. -- Mas no pode, ora essa! -- No no meu caso, pelo menos. -- Ento por que ele no procura outra igreja?

Hank estendeu o dedo, de modo dramtico. -- Essa, cara esposa,  uma boa pergunta! Parece haver um mtodo na loucura dele, como se fosse sua misso na vida destruir
pastores. --  apenas o quadro que eles pintam de voc. Voc no  assim! -- Hummmm... sim, pintar. Voc est pronta? -- Pronta para qu? Hank inspirou fundo, expeliu
o ar, e ento olhou para ela. -- Tivemos uns visitantes durante a noite. Eles... eles picharam a frente da casa. -- O qu? Nossa casa? -- Bem... a casa do nosso
senhorio. Ela se ergueu. -- Onde? -- perguntou, dirigindo-se  porta da frente, os chinelos felpudos raspando na calada. -- Oh, no! Hank juntou-se a ela e, juntos,
absorveram o quadro. Ainda estava l, mais real do que nunca. -- Ora, isso me deixa fula da vida! -- declarou ela, mas agora estava chorando. -- O que fizemos para
merecer isso? -- Acho que estvamos falando sobre esse assunto agora mesmo -- sugeriu Hank. Mary no entendeu o que ele disse, mas tinha uma teoria prpria, a mais
bvia de todas. -- Talvez o Festival... ele sempre traz  tona o que h de pior nas pessoas. Hank tinha sua prpria teoria, mas nada disse. Tinha de ser algum da
igreja, pensou. Ele havia sido chamado de uma poro de coisas: hipcrita, molide,

encrenqueiro ultramoralista. Havia at sido acusado de ser homossexual e de bater na esposa. Algum membro da igreja, enraivecido, podia ter pichado a parede, talvez
um amigo de Lou Stanley, o adltero, talvez o prprio Lou. Ele provavelmente jamais viria a saber, mas tudo bem. Deus sabia.

3
A poucos quilmetros da cidade, na Rodovia 27, uma grande limusine preta deslizava rapidamente pela paisagem campestre. No luxuoso banco traseiro, um rechonchudo
homem de meia-idade falava de negcios com a secretria, uma mulher alta e esguia de longos cabelos negros e tez plida. Falando ntida e sucintamente enquanto ela
tomava notas em fluida estenografia, ele planejava uma transao comercial de grande porte. Ento algo aconteceu ao homem. -- Isso me faz lembrar -- disse ele, e
a secretria ergueu os olhos do bloco de anotaes. -- A professora alega ter-me mandado um pacote h algum tempo, mas no me recordo de t-lo recebido. -- Que tipo
de pacote? -- Um livrinho. Um item pessoal. Tente lembrar-se de procur-lo quando estiver de volta  fazenda? A secretria abriu a pasta e deu a impresso de ter
anotado alguma coisa. Na realidade, no escreveu nada. Era a segunda visita que Marshall fazia  Praa do Tribunal no mesmo dia. A primeira vez havia sido para tirar
Berenice da cadeia, e agora fazia uma visita a exatamente ao mesmo homem que Berenice queria

enforcar: Alf Brummel, o Delegado. Depois que o Clarim finalmente foi para a tipografia, Marshall estava prestes a chamar Brummel, mas Sara, a secretria de Brummel,
chamara Marshall primeiro e marcara um encontro entre os dois para as duas horas da tarde naquele mesmo dia. Havia sido uma boa jogada, pensou Marshall. Brummel
estava pedindo trguas antes que os tanques comeassem a rolar. Estacionou no lugar que lhe era reservado na frente do novo edifcio do tribunal e fez uma pausa
ao lado do carro a fim de olhar para cima e para baixo na rua, avaliando o que restara da agonia da noite de domingo, a ltima do Festival. A rua principal procurava
ser a mesma de sempre, mas aos olhos perspicazes de Marshall a cidade toda parecia estar mancando, meio cansada, dolorida, morosa. Os mesmos grupinhos de pedestres
geralmente meio apressados paravam, olhavam, meneavam a cabea e lamentavam. Por geraes, Ashton se havia orgulhado do calor e dignidade do seu povo e se havia
esforado em ser um bom lugar onde seus filhos crescessem. Mas agora havia tumultos ntimos, ansiedades, receios, como se algum tipo de cncer a estivesse corroendo
e destruindo-a invisivelmente. Por fora havia as vitrinas, agora substitudas por feios tapumes. Os medidores de estacionamento estavam quebrados, o lixo e cacos
de vidro se espalhavam por toda a rua. Mas mesmo enquanto os lojistas e os comerciantes varriam o entulho, parecia haver uma silenciosa certeza de que os problemas
internos permaneceriam, as dificuldades continuariam. Os crimes estavam aumentando, especialmente entre os jovens; a confiana comum e simples no prximo estava
diminuindo; nunca a cidade estivera to cheia de boatos, escndalos e fofocas maliciosas.  sombra do medo e da suspeita, a vida estava aos poucos perdendo a sua
alegria e simplicidade, e ningum parecia saber por que nem como.

Marshall dirigiu-se  Praa do Tribunal. A praa consistia de dois prdios, agradavelmente guarnecidos de chores e arbustos, de frente para um estacionamento comum
aos dois. Em um lado estava o elegante prdio do Tribunal, dois andares de tijolo  vista, que tambm abrigava o Departamento de Polcia e um poro um tanto decadente
com seu bloco de celas. Um dos trs carros policiais estava estacionado do lado de fora. No outro lado encontrava-se o prdio da Prefeitura, de dois andares e frente
de vidro, que abrigava o gabinete do Prefeito, a cmara dos vereadores, e outras autoridades. Marshall dirigiu-se ao Tribunal. Passando por uma entrada simples e
modesta marcada "Polcia", ele encontrou vazia a pequena rea de recepo. Ele podia ouvir vozes vindas do corredor detrs de algumas das portas fechadas, mas Sara,
a secretria, parecia ter deixado temporariamente a sala. No -- atrs do balco recoberto de frmica da recepcionista um enorme arquivo balanava lentamente para
a frente e para trs, e grunhidos e gemidos vinham l de baixo. Marshall inclinou-se sobre o balco e deparou com uma cena cmica. Sara, de joelhos, no obstante
a saia que usava, tramava furiosa luta com uma gaveta do arquivo que se enroscara na sua mesa. Aparentemente, a contagem era Gavetas do Arquivo 3 X Canelas de Sara
O, e Sara era m perdedora, assim como o era a sua meia-cala. Em m hora ela soltou uma imprecao, e ento percebeu que ele estava em p ali, mas j era tarde
demais para recobrar a costumeira pose. -- Oh, al, Marshall... -- Da prxima vez use botas de combate. Elas so mais apropriadas para colocar as coisas no lugar
a pontaps.

Pelos menos eles se conheciam, e Sara estava grata por isso. Marshall j havia aparecido neste lugar vezes suficientes para ficar conhecendo bem a maioria do pessoal
que trabalhava aqui. -- Estes -- disse ela no eloqente tom de guia turstica -- so os infames arquivos do Sr. Alf Brummel, Delegado de Polcia. Ele acabou de conseguir
uns belos arquivos novos, e eu herdei estes aqui! Por que preciso deles em meu escritrio  algo que no consigo entender, mas tenho ordens expressas do chefe, e
aqui eles tm de ficar! -- So feios demais para o escritrio dele. -- Mas a cor cqui...  ele, sabe? Ora, talvez uma pintura e uns decalques os deixem um pouco
mais alegres. Se vo se mudar para c, o mnimo que podem fazer  sorrir. Naquele instante, o telefone interno tocou. Ela apertou o boto e atendeu. -- Sim, senhor?
A voz rspida de Brummel gritou da caixinha: -- Ei, o meu alarme de segurana est piscando... -- Desculpe, fui eu que o acionei. Estava tentando fechar uma das
gavetas do seu arquivo. -- Est bem, certo. Olhe, veja se d um novo arranjo s coisas, sim? -- Marshall Hogan est aqui e deseja v-lo. -- Oh, muito bem. Mande-o
entrar. Ela olhou para Marshall e apenas meneou a cabea pateticamente. -- Voc no est precisando de uma secretria? -- murmurou. Marshall sorriu. Ela explicou:
-- Ele botou esse arquivo junto do boto de

alarme silencioso. Toda vez que abro uma gaveta, cercam o prdio inteiro. Com um aceno de despedida, Marshall dirigiu-se  porta do primeiro escritrio e entrou
no gabinete de Brummel. Alf Brummel se ps em p e estendeu a mo, o rosto explodindo em um largo sorriso que punha  mostra os dentes brancos como marfim. -- Ei,
a est o homem! -- Ol, Alf. Apertaram-se as mos enquanto Brummel fazia Marshall entrar e fechava a porta. O Delegado era um homem dos seus trinta e poucos anos,
solteiro, ex-tira de cidade grande levando um tipo de vida extravagante que desmentia o seu salrio de policial. Ele sempre dava a impresso de ser um cara amigo,
mas Marshall nunca havia conseguido confiar realmente nele. Pensando bem, nem mesmo gostava muito do homem. Muito dente  mostra por qualquer coisa. -- Bem -- sorriu
Brummel -- sente-se, sente-se. E mesmo antes de se afundarem nas poltronas, ele estava falando novamente. -- Parece que cometemos um engano cmico este fim-de-semana.
Marshall lembrou-se da cena de sua reprter na cela das prostitutas. -- Berenice no riu a noite toda, e acabei ficando vinte e cinco dlares mais pobre. -- Bem
-- disse Brummel, abrindo a gaveta superior da escrivaninha --  por isso que estamos fazendo esta reunio, para esclarecer o embrulhada toda. Tome. Ele apanhou
um cheque e o estendeu a Marshall. --  a restituio do dinheiro que voc pagou pela fiana, e quero que saiba que Berenice vai receber uma

retratao oficial assinada por mim e por este gabinete. Mas, Marshall, por favor, diga-me o que aconteceu. Se ao menos eu estivesse por l, teria podido evitar
a coisa. -- Berenice diz que voc estava l. -- Eu? Onde? Sei que entrei na delegacia e sa dela a noite toda, mas... -- No, ela viu voc no Festival. Brummel forou
um sorriso mais amplo. -- Bem, no sei quem ela viu na realidade, mas eu no fui ao Festival ontem  noite. Estive ocupado por aqui. Marshall estava agora embalado
demais para voltar atrs. -- Ela viu voc bem na hora em que estava sendo presa. Brummel pareceu no ouvir essa ltima declarao. -- Mas continue, conte-me o que
aconteceu. Preciso chegar  raiz dessa confuso. Marshall sustou bruscamente o ataque. No sabia por qu. Talvez fosse por cortesia. Talvez por intimidao. Qualquer
que fosse o motivo, ele comeou a desfiar a histria direitinho, quase como um noticirio, exatamente da maneira que Berenice lhe havia contado, mas cautelosamente
deixou de fora os detalhes incriminadores acrescentados por ela. Enquanto falava, seus olhos estudavam Brummel, o escritrio, e todo e qualquer detalhe especfico
da decorao, a organizao das peas do mobilirio, a agenda. Era quase um reflexo. Com o passar dos anos, ele tinha adquirido a habilidade de observar e acumular
informao sem dar a impresso de estar agindo assim. Talvez fosse por no confiar no homem, mas mesmo que confiasse, uma vez reprter, sempre reprter. Dava para
ver que o escritrio de Brummel pertencia a pessoa exigente, desde a

escrivaninha muito polida, muito em ordem at os lpis, perfeitamente apontados. Ao longo da parede, onde os feios arquivos costumavam estar, via-se um lindo conjunto
de estantes e armrios de carvalho, com portas de vidro e ferragens de bronze. -- Puxa, voc est melhorando de vida, hein, Alf? -- gracejou Marshall, olhando na
direo das estantes. -- Gosta delas? -- Muito. O que so? -- Um belo substituto daqueles velhos arquivos. Servem para mostrar o que a gente consegue, se economizar
os tostes. Eu detestava ter aqueles arquivos aqui dentro. Acho que um escritrio deve ter um pouco de classe, certo? -- Sim,  isso mesmo, claro. Nossa, voc tem
a sua prpria copiadora. .. -- Sim, e estantes, mais lugar para guardar as coisas. -- E outro telefone? -- Telefone? -- O que  aquele fio saindo da parede? -- Oh,
aquilo  para a cafeteira eltrica. Mas de que mesmo estvamos falando? -- Sim, sim, o que aconteceu a Berenice... -- e Marshall continuou a narrativa. Ele tinha
bastante prtica em ler de cabea para baixo, e enquanto continuava a falar, correu os olhos pela agenda na escrivaninha de Brummel. As tardes das teras-feiras
se destacavam por estarem sempre em branco, embora no fosse esse o dia de folga do Delegado. Uma tera-feira, contudo, tinha uma hora marcada: o Rev. Oliver Young,
s 2 da tarde.

-- Oh -- disse com naturalidade -- vai fazer uma visita ao meu pastor amanh? Percebeu imediatamente que havia ultrapassado os limites; Brummel demonstrou surpresa
e irritao ao mesmo tempo. O Delegado mostrou os dentes num sorriso forado, e disse: -- Oh, sim, Oliver Young  o seu pastor, no ? -- Vocs se conhecem? -- No
muito bem. J nos encontramos algumas vezes, profissionalmente, acho eu... -- Mas voc no freqenta a outra igreja, aquela pequenina? -- Sim, a da Comunidade de
Ashton. Mas, continue, vamos ouvir o resto do que aconteceu. Marshall estava impressionado com a facilidade com que esse sujeito se perturbava, mas tentou no contest-lo
mais. Pelo menos, no por enquanto. Em vez disso, ele continuou a narrativa do ponto onde havia interrompido e arrematou-a com capricho, incluindo a ira da moa.
Percebeu que Brummel havia descoberto alguns importantes papis que precisava examinar, papis que cobriram o calendrio sobre a escrivaninha. Marshall perguntou:
-- Diga, quem foi esse tira cheio de si que no deixou Berenice se identificar? -- Um cara de fora, nem mesmo era do nosso peloto local. Se Berenice nos puder dar
o nome ou o nmero da insgnia, farei com que ele seja repreendido pelo seu comportamento. Veja, tivemos de trazer alguns auxiliares de Windsor a fim de reforar
as coisas durante o Festival. Quanto ao pessoal daqui, nossos homens sabem muito bem quem  Berenice Krueger. Brummel proferiu a ltima sentena com um toque de

ferocidade. -- Ento, por que no  ela quem est sentada aqui ouvindo todas essas desculpas em vez de mim? Brummel inclinou-se para a frente com um ar bem srio.
-- Achei que seria melhor falar com voc, Marshall, em vez de faz-la desfilar por este escritrio, j um tanto estigmatizada. Suponho que voc saiba por quantas
aquela garota tem passado. Est bem, pensou Marshall, perguntarei. -- Estou h pouco tempo na cidade, Alf. -- Ela no lhe contou? -- E voc adoraria faz-lo? Saiu
sem querer, e doeu. Brummel afundou-se de volta na cadeira e estudou o rosto de Marshall. Nesse exato momento, Marshall estava pensando que no se arrependia do
que tinha dito. -- Estou aborrecido, caso voc no percebido. Brummel iniciou um novo pargrafo. tenha

-- Marshall... eu quis v-lo hoje pessoalmente porque queria... consertar esse negcio. -- Ento, vamos ouvir o que voc tem a dizer sobre Berenice. Brummel,  melhor
voc escolher com cuidado as palavras, pensou Marshall. -- Bem... -- gaguejou Brummel, subitamente colocado em cheque. -- Achei que voc poderia querer saber o que
aconteceu caso voc viesse a achar a informao til ao lidar com ela. Sabe, foi diversos meses antes de voc assumir o jornal que ela veio a Ashton. Apenas poucas
semanas antes da sua chegada, a irm dela, que fazia faculdade, suicidou-se. Berenice

veio a Ashton cheia de fria vingativa, tentando solucionar o mistrio em torno da morte da irm, mas... todos ns sabamos que era apenas uma dessas coisas que
acontecem, para as quais nunca haver explicao. Marshall nada disse por espao significativo de tempo. -- Eu no sabia disso. A voz de Brummel era baixa e pesarosa,
ao dizer: -- Ela tinha certeza de que havia algum tipo de sujeira envolvida. Foi uma investigao bem agressiva a que ela conduziu. -- Bem, ela tem mesmo o faro
de reprter. -- Ter, isso ela tem. Mas veja, Marshall... a priso, foi um engano, um engano humilhante, para falar a verdade. Realmente no achei que ela desejasse
ver o interior deste prdio to cedo. Compreende agora? Mas Marshall no estava certo de compreender. Nem mesmo estava certo de ter ouvido tudo o que fora dito.
De repente, ele se sentiu muito fraco, e no conseguia descobrir aonde sua raiva fora parar to depressa. E que dizer das suas suspeitas? Ele sabia que no acreditava
em tudo que aquele sujeito estava dizendo... ou acreditava? Sabia que Brummel havia mentido a respeito de no estar no Festival... mas havia mesmo? Ou ser que no
ouvi direito o que ele disse? Ou... onde  mesmo que estvamos? Vamos l, Hogan, voc no dormiu direito a noite passada? -- Marshall? Marshall olhou bem nos olhos
cinzentos e atentos de Brummel, e sentiu-se meio amortecido, como se estivesse sonhando. -- Marshall -- disse Brummel -- espero que

compreenda. Agora voc compreende, no ? Marshall precisou obrigar-se a pensar, e percebeu que era mais fcil se no olhasse diretamente nos olhos de Brummel por
um momento. -- Uhm... -- Era um comeo idiota, mas era o mximo que conseguiu pr para fora. -- , sim, Alf, acho que percebo o que quer dizer. Suponho que agiu
corretamente. -- Mas realmente quero acertar todo esse negcio, especialmente entre ns dois. -- Ora, no se preocupe. No  assim to importante. Mesmo enquanto
estava dizendo isso, Marshall se perguntava se realmente havia dito essas palavras. Os grandes dentes de Brummel tornaram a surgir. -- Fico muito contente em ouvir
isso, Marshall. -- Mas, olhe, voc poderia pelo menos ligar para ela. Ela foi atingida de uma forma bem pessoal, no acha? --  o que farei, Marshall. Depois disso,
Brummel inclinou-se para a frente com um sorriso estranho no rosto, as mos fortemente entrelaadas sobre a escrivaninha e os olhos cinzentos prendendo Marshall
naquele mesmo olhar entorpecente, penetrante, estranhamente calmante. -- Marshall, falemos agora de voc e do resto desta cidade. Sabe, estamos realmente contentes
em tlo aqui para assumir o Clarim. Sabamos que seu estilo refrescante de jornalismo seria bom para a comunidade. Vou ser franco em dizer que o ltimo redator foi...
um tanto prejudicial ao nimo da cidade, principalmente no fim. Marshall sentiu-se levado na onda dessa

conversa, mas podia perceber que a vinha algo. Brummel continuou: -- Precisamos do seu tipo de classe, Marshall. Voc dispe de grande poder que pode exercer atravs
da imprensa, e todos sabemos disso, mas  necessrio o homem certo para manter esse poder direcionado no rumo certo, para o bem comum. Todos ns nos cargos pblicos
estamos aqui para servir aos melhores interesses da comunidade, da raa humana se pensarmos bem no assunto. Mas voc tambm, Marshall. Voc est aqui para o bem
do povo, da mesma forma que o restante de ns. Brummel passou os dedos pelo cabelos, um gesto nervoso, e ento perguntou: -- Bem, entende o que estou dizendo? --
No. -- Bem... -- Brummel tentou encontrar um novo ponto de partida. -- Acho que  como voc disse, faz pouco tempo que chegou aqui. Ser que  melhor eu ir diretamente
ao assunto? Marshall deu de ombros como a dizer "por que no?" e deixou Brummel continuar. -- Esta  uma cidade pequena, antes de tudo, o que significa que um problemazinho
qualquer, mesmo entre um punhado de pessoas, vai atingir e preocupar quase todas as outras pessoas. E a gente no pode-se esconder por trs do anonimato simplesmente
por que ele no existe. Ora, o antigo redator no entendia isso e realmente causou alguns problemas que prejudicaram toda a populao. Ele era um demagogo patolgico.
Destruiu a f que as pessoas tinham no governo local, nos funcionrios pblicos, umas nas outras, e, por fim, nele prprio. Foi algo que doeu. Foi uma ferida no
nosso lado, e est demorando para todos ns nos recuperarmos. Completando, deixe-me dizer-lhe que,

para sua informao, aquele homem finalmente teve de sair da cidade coberto de vergonha. Ele molestou uma menina de doze anos. Tentei evitar a repercusso do caso
tanto quanto possvel. Mas nesta cidade foi realmente desajeitado, difcil. Fiz o que achei que causaria a menor aflio e dor  famlia e s pessoas em geral. No
levei a queixa judicial contra esse homem adiante, contanto que ele deixasse Ashton e nunca mais pusesse os ps aqui. Ele concordou com essa condio. Mas jamais
me esquecerei do choque que causou, e duvido que a cidade tenha esquecido. -- E isso nos traz de volta a voc, e ns, os servidores do pblico, e tambm aos membros
desta comunidade. Uma das maiores razes pelas quais essa confuso com Berenice me deixa chateado  por realmente desejar um bom relacionamento entre este gabinete
e o Clarim, entre mim e voc, pessoalmente. Detestaria ver qualquer coisa estragar as coisas. Precisamos de unio por aqui, camaradagem, um bom esprito de comunidade.
Ele fez uma pausa de efeito. -- Marshall, gostaramos de saber que voc est do nosso lado e trabalhando em prol desse objetivo. Ento veio a pausa e o olhar longo
e cheio de expectativa. Era a vez de Marshall. Ele se remexeu um pouco na cadeira, organizando os pensamentos, sondando os sentimentos, quase evitando aqueles fixos
olhos cinzentos. Talvez esse sujeito estivesse usando de franqueza, ou talvez esse pequeno discurso no passasse de uma astuta manobra diplomtica visando a afast-lo
de alguma coisa que Berenice, inadvertidamente, houvesse descoberto. Mas Marshall no conseguia pensar com coerncia, nem mesmo sentir com coerncia. Sua reprter
tinha sido presa falsamente e jogada numa porcaria de cadeia para passar a noite, e ele j nem

parecia se importar; esse Delegado de sorriso dentuo a estava fazendo passar por mentirosa, e Marshall estava consentindo. Vamos, Hogan, lembra-se do motivo que
o trouxe aqui? Mas ele se sentia to cansado! Ficava a relembrar o motivo de ter-se mudado para Ashton. Deveria ter sido uma mudana no estilo de vida dele e da
famlia, um tempo para deixar de brigar e arranhar as intrigas da cidade grande e simplesmente procurar as histrias mais simples, coisas como campanha de ajuntar
jornal da turma da escola e gatos que subiam nas rvores e no conseguiam descer. Talvez fosse apenas a fora do hbito depois de todos os anos passados no Times
que o levasse a pensar que tinha de submeter Brummel a um interrogatrio. A troco de qu? Mais briga? Puxa vida, que tal um pouco de tranqilidade e silncio para
variar? De sbito, e contrrio aos seus melhores instintos, ele soube que no havia nada com que se preocupar; o filme de Berenice estaria em ordem, e as fotos provariam
que Brummel estava certo e ela errada. E Marshall realmente desejava que fosse assim. Mas Brummel ainda estava esperando uma resposta, ainda o estava mirando com
aquele olhar entorpecedor. -- Eu... -- comeou Marshall, e nessa hora sentiuse tolo e desajeitado. -- Olhe, estou realmente cansado de brigar, Alf. Talvez eu tenha
sido criado assim, talvez tenha sido isso o que me fez sair bem no meu trabalho com o Times, mas resolvi mudar-me para c, e isso tem de significar alguma coisa.
Estou cansado, Alf, e no estou ficando mais jovem. Preciso de cura. Preciso aprender como realmente  ser humano e viver em uma cidade com outros seres humanos.
-- Sim -- disse Brummel --  isso a.  exatamente isso.

-- Ento... no se preocupe. Como todos, vim aqui procurar paz e tranqilidade. No quero brigas, no quero encrencas. Nada tem a temer de minha parte. Brummel ficou
radiante e esticou a mo para selarem o acordo. Ao apertar a mo dele, Marshall sentiu-se quase como se tivesse vendido parte da alma. Ser que Marshall Hogan realmente
havia dito tudo aquilo? Eu devo estar cansado, pensou. Sem o perceber, ele se encontrava em p do lado de fora da porta de Brummel. Aparentemente, seu encontro havia
terminado. Depois que Marshall saiu e a porta foi bem fechada, Alf Brummel afundou-se em sua cadeira com um suspiro de alvio, e deixou-se apenas ficar sentado por
algum tempo, fitando o espao, recuperando-se, criando coragem para enfrentar a prxima penosa tarefa. Marshall Hogan era apenas o aquecimento, no que lhe dizia
respeito. O verdadeiro teste estava por comear. Estendeu a mo ao telefone, puxou-o um pouco mais para perto, ficou a fit-lo por uns instantes, e ento discou
um nmero. Hank dava os ltimos retoques na pintura que fazia na frente da casa quando o telefone tocou e Mary chamou, dizendo que era Alf Brummel. Puxa, pensou
Hank. E aqui estou eu, com um pincel encharcado na mo. Gostaria que ele estivesse aqui. Ele confessou seu pecado ao Senhor enquanto se dirigia ao telefone. -- Ol
-- disse. Em seu escritrio, embora estivesse a ss, Brummel deu as costas  porta para tornar mais particular a conversa, e abaixou a voz ao falar. -- Oi, Hank.
Aqui  o Alf. Achei que devia ligar

para voc esta manh e ver como est... depois de ontem  noite. -- Oh... -- disse Hank, sentindo-se como um ratinho na boca do gato. -- Acho que estou bem. Melhor,
talvez. -- Ento voc pensou no assunto? -- Sim, claro. Pensei muito. Orei a respeito, verifiquei novamente a Palavra com relao a certas questes... -- Hummm.
Parece que voc no mudou de idia. -- Bem, se a Palavra de Deus mudasse, ento eu mudaria, mas acho que o Senhor no retira aquilo que disse, e voc sabe em que
posio isso me coloca. -- Hank, voc sabe que a extraordinria ser realizada sexta-feira. -- Sei. -- Hank, realmente gostaria de ajud-lo. No quero v-lo destruir-se.
Acho que voc tem sido bom para a igreja, mas... o que posso dizer? A diviso, a murmurao... esto a ponto de acabar com a igreja. -- Quem est murmurando? --
Ora, vamos... -- E por falar nisso, quem convocou a assemblia em primeiro lugar? Voc. Sam. Gordon. No tenho dvida de que Lou ainda esteja por trs disso tudo,
bem como de quem quer que tenha pichado a frente da minha casa. -- Estamos todos preocupados, apenas isso. Voc, bem, voc est lutando contra o que  melhor para
a igreja. -- Que engraado! Achei que estava lutando contra voc. Mas ouviu o que eu disse? Algum pichou a assemblia

frente da minha casa. -- O qu? Pintou o qu? Hank despejou tudo em cima dele. Brummel deixou escapar um gemido. -- Ah, Hank, isso  doentio! -- E Mary est-se sentindo
mal, e eu tambm. Ponha-se em nosso lugar. -- Hank, se eu estivesse em seu lugar, reconsideraria. No v o que est acontecendo? Os rumores esto-se espalhando e
a cidade toda est-se colocando contra voc. Isso tambm significa que, no demora muito, e a cidade toda se por contra a nossa igreja, e temos de sobreviver nesta
cidade, Hank! Estamos aqui para ajudar as pessoas, estender as mos para elas, no para colocar um percalo entre ns e a comunidade. -- Eu prego o evangelho de
Jesus Gristo, e h um bom nmero de pessoas que apreciam esse fato. Onde, exatamente, est esse percalo de que voc est falando? Brummel estava ficando impaciente.
-- Hank, aprenda a lio com o ltimo pastor. Ele cometeu o mesmo erro. Veja o que lhe aconteceu. -- Foi o que fiz, aprendi com ele. Aprendi que tudo o que preciso
fazer  desistir, guardar tudo, esconder a verdade em alguma gaveta para que ela no ofenda a ningum. Ento estarei bem, todo mundo gostar de mim, e seremos uma
famlia feliz novamente. Aparentemente, Jesus estava enganado. Ele podia ter conservado uma poro de amigos se se tivesse omitido e feito o jogo poltico. -- Mas
voc quer ser crucificado! -- Eu quero salvar almas, quero convencer pecadores, quero ajudar aos crentes recm-convertidos a

crescer na f. Se eu no fizer isso, terei muito mais a recear do que voc e o resto do conselho. -- Eu no chamo isso de amor, Hank. -- Eu amo a todos vocs, Alf.
 por isso que lhes dou o remdio de que precisam, e especialmente no que diz respeito ao Lou. Brummel sacou uma arma poderosa. -- Hank, voc j parou para pensar
que ele pode process-lo? Houve uma pausa no outro lado. Finalmente, Hank respondeu: -- No. -- Ele pode process-lo por prejuzos, calnia, difamao de carter,
angstia mental, e quem sabe l o que mais? Hank respirou fundo e apelou ao Senhor, pedindo pacincia e sabedoria. -- Voc est vendo qual  o problema? -- disse
finalmente. --  grande demais o nmero de pessoas que j no sabem, ou no querem saber, qual  a verdade. No acreditamos em algo, de modo que camos por qualquer
coisa, e agora sujeitos como o Lou se metem numa confuso onde podem magoar a famlia, iniciar as prprias fofocas, arruinar as suas reputaes, tornarem-se miserveis
em seu pecado... e depois procurar algum em quem jogar a culpa! Quem est fazendo o que a quem? Brummel apenas suspirou. -- Falaremos a respeito de tudo isso sexta
 noite. Voc estar l? -- Sim, estarei. Estarei aconselhando algum e depois irei  reunio. J aconselhou algum em sua vida?

-- No. -- Adquirimos um genuno respeito pela verdade quando temos de ajudar a limpar vidas construdas sobre a mentira. Pense nisso. -- Hank, tenho de pensar nos
desejos dos outros. Brummel desligou ruidosamente e enxugou o suor das palmas das mos.

4
Se algum pudesse t-lo visto, a impresso inicial no teria sido tanto a sua aparncia de rptil verrugoso mas a maneira pela qual seu vulto parecia absorver a
luz e no refleti-la, como se ele fosse mais uma sombra do que um objeto, um estranho buraco animado no espao. Mas esse pequeno esprito era invisvel aos olhos
humanos, invisvel e imaterial, vagueando sobre a cidade, virando deste lado e daquele, guiado pela vontade e no pelo vento, as asas rodopiantes propelindo-lhe
o corpo, vibrando num borro acinzentado. Ele parecia um pequeno e nervoso grgula, o couro de um negror viscoso e profundo, o corpo magro e aracndeo: meio humano
ide, meio animal, totalmente demnio. Dois enormes olhos amarelos como os de um gato saltavam-lhe da cara, disparando de um lado para o outro, espreitando, procurando.
O flego saa-lhe em arquejos curtos e sulfurosos, visvel como brilhante vapor amarelo. Ele vigiava e acompanhava cuidadosamente a sua incumbncia, o motorista
de um carro marrom nas ruas de Ashton, l embaixo. Marshall deixou o escritrio do Clarim um pouco

mais cedo naquele dia. Depois da confuso da manh, foi uma surpresa encontrar o Clarim de tera-feira j na tipografia e o pessoal ajeitando as coisas para a sextafeira.
Um jornal de interior era exatamente o ritmo certo... talvez ele pudesse voltar a conhecer a sua filha. Sandy. Sim, senhor, uma linda moa de cabelos cor de fogo,
filha nica do casal. Era um mundo de potencial, mas havia passado a maior parte da infncia com uma me excessivamente presente e um pai excessivamente ausente.
Marshall era um sucesso em Nova York, isso ele era, em quase tudo exceto em ser o pai de que Sandy precisava. Ela sempre fizera com que ele soubesse disso, mas como
dizia Kate, os dois eram muito parecidos; os clamores por amor e ateno que ela emitia sempre saam como pequenas punhaladas, e Marshall lhe dava ateno, isso
dava, como ces do a gatos. No vamos brigar mais, repetia ele consigo mesmo, no vamos mais implicar e arranhar e magoar. Deixe-a falar, deixe-a pr para fora
o que sente, e no seja duro com ela. Ame-a pelo que ela , deixe que ela seja ela mesma, no tente encurralar a menina. Era uma loucura o modo pelo qual o seu amor
pela filha estava sempre a manifestar-se em forma de despeito, atravs de irritao e sarcasmo. Ele sabia que estava apenas tentando alcan-la, tentando traz-la
de volta. Mas nunca funcionava. Ah, vamos, Hogan, tente, tente de novo, e no ponha tudo a perder esta vez. Ao virar a esquerda, ele pde ver a faculdade  frente.
O campus da faculdade Whitmore no era diferente da maioria dos campus norte americanos -- lindo, com prdios imponentes e antigos que levavam as pessoas a se sentir
cultas s de olh-los; amplas reas bem gramadas, recortadas por caladas de tijolo e pedras cuidadosamente padronizadas, margeadas por rochas, plantas e esttuas.
Era tudo quanto uma boa

faculdade devia ser, inclusive as vagas limitadas a quinze minutos de estacionamento. Marshall estacionou o carro e partiu  procura do Stewart Hall, que abrigava
o Departamento de Psicologia e a ltima aula de Sandy naquele dia. Whitmore era uma faculdade particular, fundada na dcada dos vintes por um proprietrio de terras
como memorial a si mesmo. Olhando antigas fotos do lugar, descobria-se que alguns dos prdios de aula, de tijolo vermelho  vista e colunas brancas, eram to antigos
quanto a prpria faculdade; monumentos do passado e supostos guardies do futuro. Era vero e o campus estava relativamente quieto. Marshall pediu informaes a
um aluno que lanava discos de plstico ao ar e virou  esquerda numa rua ladeada de elmos. No fim da rua, ele encontrou o prdio que procurava, uma imponente estrutura
com torres e arcadas, copiada de alguma catedral europia. Abriu as grandes portas duplas e se encontrou num saguo espaoso e ressonante. O fechar da grande porta
criou to fragorosa reverberao contra o teto abobadado e as paredes lisas que Marshall pensou ter perturbado todas as aulas naquele andar. Mas agora no sabia
aonde ir. O lugar se compunha de trs andares e cerca de trinta salas de aula, e ele no tinha a mnima idia de qual delas era a de Sandy. Ele comeou a caminhar
pelo corredor, tentando abafar o rudo dos saltos dos sapatos. Nesse lugar, no se podia manter em segredo nem mesmo um arroto. Sandy era uma caloura. A mudana
da famlia para Ashton tinha sido um tanto tarde, e, a fim de alcanar os outros, ela se havia matriculado em cursos oferecidos durante o vero. Mas, apesar de tudo,
havia sido a hora certa de transio para ela. Por enquanto ela no havia decidido em que se formar; ainda estava

tentando descobrir o que queria e fazia as matrias preliminares. Em que lugar um curso de "Psicologia do Eu" se encaixava em tudo isso era algo que Marshall no
conseguia entender, mas ele e Kate no desejavam apressar a filha. De alguma parte, vindo do fundo do cavernoso saguo ecoavam as palavras indistintas mas bem ordenadas
de uma palestra, uma voz de mulher. Ele resolveu verificar. Passou pela portas de diversas salas de aula, os pequenos nmeros pretos em ordem decrescente, depois
um bebedouro, os banheiros, e uma macia escadaria de pedra e ferro. Finalmente, ao aproximar-se da Sala 101, ele comeou a distinguir as palavras da palestra. "...
assim, se nos contentarmos com uma simples frmula ontolgica, Tenso, logo existo', isso deveria pr fim  questo. Mas ser no pressupe significar. Sim, c estava
mais daquela histria de faculdade, aquele ajuntamento esquisito de palavrrio complicado que impressiona as pessoas com suas conquistas acadmicas mas no consegue
arranjar-lhe um emprego que lhe pague coisa que preste. Marshall riu consigo mesmo, uma risadinha convencida. Psicologia. Se todos aqueles psiclogos conseguissem
pelo menos chegar a um acordo para variar, seria bom. Primeiro Sandy deu como causa de sua atitude mal-humorada a violenta experincia do nascimento, e depois, o
que tinha sido mesmo? Problemas em aprender a usar o peniquinho. A sua nova mania era auto-conhecimento, auto-estima, identidade; ela j sabia viver toda envolvida
em si mesma -- agora lhe ensinavam a mesma coisa na faculdade. Ele espiou pela porta e viu um anfiteatro, com filas de assentos montados sobre nveis cada vez mais
altos at chegarem ao fundo da sala, e a pequena plataforma na frente onde a professora discursava

contra um enorme quadro-negro. "... e o significar no vem necessariamente do pensar, pois j se disse que o Ego nada tem a ver com a Mente, e que a Mente, na realidade,
nega o Ego e inibe o Auto-conhecimento..." Caramba! Ele no sabia por que, mas havia esperado encontrar uma mulher mais velha, magra, o cabelo preso num birote,
usando culos de aro de tartaruga presos a uma corrente de continhas  volta do pescoo. Mas a que ali estava era uma chocante surpresa, tirada de alguma propaganda
de batom ou de roupas: longos cabelos loiros, corpo esbelto, olhos profundos, escuros, que tremiam um pouco mas certamente no necessitavam de culos, aro de tartaruga
ou no. Ento Marshall vislumbrou o chamejar de cabelos cor de fogo, e viu Sandy sentada perto da frente, ouvindo atenta, e febrilmente rabiscando anotaes. Bingo!
Essa tinha sido fcil. Ele resolveu entrar de mansinho e ficar ouvindo at o fim da palestra. Talvez assim descobrisse o que Sandy estava aprendendo e ento teriam
sobre o que conversar. Ele passou silenciosamente pela porta, e tomou um dos lugares vazios no fundo. Foi ento que aconteceu. Algum tipo de radar na cabea da professora
deve ter dado o sinal. Seus olhos convergiram sobre Marshall, sentado ali, e simplesmente no o largaram mais. Ele no tinha o mnimo desejo de chamar ateno para
si -- j estava recebendo demasiada ateno da classe -- por isso no disse nada. Mas a professora parecia examin-lo, perscrutando-lhe o rosto como se o conhecesse,
como se estivesse tentando lembrar-se de algum a quem conhecera antes. A expresso que repentinamente lhe assomou ao rosto provocou um calafrio em Marshall: ela
dirigiu-lhe um olhar cortante, como se partisse dos olhos de um puma

acossado. Ele comeou a sentir um correspondente instinto de defesa dar-lhe n no estmago. -- O senhor deseja alguma coisa? -- exigiu a professora, e tudo o que
Marshall podia ver eram os dois olhos penetrantes. -- Estou apenas esperando a minha filha -- respondeu ele em tom amvel. -- No quer fazer o favor de esperar l
fora? -- disse ela, e no era uma pergunta. E ele se encontrou no corredor. Encostou na parede, os olhos fixos no linleo, os pensamentos em torvelinho, os sentidos
embaralhados, o corao batendo com fora. No conseguia atinar com o motivo de estar ali, mas estava no corredor, fora da sala. Sem mais essa nem aquela. Como?
O que havia acontecido? Vamos, Hogan, pare de tremer e pense! Ele tentou repassar mentalmente o que havia acontecido, mas as coisas voltavam devagar, teimosamente,
como o relembrar de um pesadelo. Os olhos daquela mulher! O modo como eles o olharam lhe disseram que, de alguma forma, ela sabia quem ele era, embora jamais se
tivessem encontrado -- e jamais ele vira ou sentira tanto dio. Mas no era apenas o olhar; era tambm o medo; medo que foi crescendo, drenandolhe o rosto e acelerando
o corao, que o invadiu sem motivo, sem uma causa aparente. Ele tinha ficado quase morto de medo... a troco de nada! No fazia o mnimo sentido. A vida inteira,
ele jamais se havia recusado a enfrentar qualquer coisa nem tinha fugido de nada. Mas agora, pela primeira vez... Pela primeira vez? A lembrana do olhar cinzento
e fixo de Alf Brummel relampejou-lhe na mente, e a fraqueza retornou. Ele piscou tentando expulsar a imagem e respirou fundo. Onde estava a sua antiga coragem? Ser
que a havia deixado no escritrio de

Brummel? Mas ele no tinha concluses, teorias, explicaes, apenas escrnio para consigo. Murmurou: "Pois , cedi novamente, como uma rvore podre" e, como uma
rvore podre, encostou-se  parede e esperou. Em poucos minutos a porta que dava para o anfiteatro abriu-se e os alunos comearam a espalhar-se em todas as direes,
como abelhas saindo da colmia. Eles o ignoraram de modo to completo que Marshall se sentiu invisvel, mas isso era timo para ele no momento. Ento Sandy apareceu.
Ele se endireitou, encaminhou-se na direo dela, comeou a dizer al... e ela passou direto por ele! No parou, no sorriu, nem lhe devolveu o cumprimento, nada!
Ele ficou parado como bobo uns instantes, vendo-a caminhar pelo corredor em direo  sada. Ento ele a seguiu. No estava mancando, mas, por algum motivo, tinha
a impresso de estar. No estava realmente arrastando os ps, mas eles pareciam de chumbo. Viu a filha sair pela porta sem olhar para trs. A batida que a enorme
porta deu ao fechar ecoou por todo o saguo com uma finalidade grave, condenadora, como o estrondo de um enorme porto que o separasse para sempre daquela a quem
ele amava. Ele se deteve no amplo saguo, entorpecido, impotente, meio cambaleante, sua corpulenta figura parecendo muito pequena. Invisvel a Marshall, pequenos
jatos de flego sulfuroso avanavam pelo cho como gua lenta, acompanhados de inaudvel esfregar e arranhar o piso. Como uma negra e viscosa sanguessuga, o pequeno
demnio se apegou a Marshall, as garras de seus dedos entrelaando as pernas dele como os tendes de uma parasita, segurando-o, envenenando-lhe o

esprito. Os olhos amarelados saltavam retorcida, vigiando-o, penetrando-o.

da

face

Marshall sentia uma dor profunda e crescente, e o pequeno esprito o sabia. Estava ficando difcil de segurar este homem. Enquanto Marshall permanecia no grande
saguo vazio, a mgoa, o amor, o desespero comearam a crescer dentro de si; ele podia sentir que uma quase extinta centelha de luta ainda ardia. Ps-se a caminhar
rumo  porta. Mexa-se, Hogan, mexa-se!  a sua filha! A cada passo decidido, o demnio era arrastado pelo cho atrs dele, as mos ainda a agarr-lo, raiva e fria
cada vez mais profundas subindo-lhe aos olhos e vapores sulfurosos explodindo de suas narinas. As asas se abriram  procura de uma ncora, qualquer jeito de deter
Marshall, mas no encontraram nada. Sandy, pensou Marshall, d uma chance ao seu velho. Ao chegar ao fim do corredor, ele estava quase correndo. Suas mos atingiram
a barra antichoque da porta e esta se abriu violentamente, batendo com fora no retentor preso aos degraus externos. Disparando escada abaixo, ele chegou  calada
ensombreada pelos elmos. Correu os olhos pela rua, pelo gramado na frente do Stewart Hall, do outro lado, mas a filha havia desaparecido. O demnio agarrou-o com
mais fora e ps-se a escal-lo, coleando corpo acima. Marshall ali, sozinho, sentiu as primeiras pontadas de desespero. -- Estou aqui, Papai. Imediatamente o demnio
perdeu o controle e caiu, bufando de indignao. Marshall girou nos calcanhares e viu Sandy, de p bem ao lado da porta pela qual ele havia acabado de sair qual
furaco,

aparentemente tentando esconder-se das colegas entre os ps de camlia, e pelo que tudo indicava, pronta a lhe passar uma carraspana. Ora, qualquer coisa era prefervel
a perd-la, pensou Marshall. -- Bem -- disse ele antes de pensar -- desculpeme, mas tenho a distinta impresso de que voc fingiu no me conhecer l dentro. Sandy
tentou manter-se ereta, enfrent-lo em sua mgoa e raiva, mas mesmo assim no conseguia olhar diretamente nos olhos do pai. -- Foi... foi apenas doloroso demais.
-- O que foi? -- Voc sabe... a coisa toda l dentro. -- Bem, gosto de fazer bastante estardalhao, sabe? Algo de que as pessoas se lembraro... -- Papai! -- Ento
quem foi que roubou todos os avisos de "Entrada Proibida aos Pais"? Como  que eu ia saber que ela no me queria l dentro? E o que, afinal,  to precioso e secreto
assim que ela no quer que ningum de fora escute? Naquele momento a raiva de Sandy falou mais alto que a mgoa e ela conseguiu olh-lo direto nos olhos. -- Nada!
Absolutamente nada. Era s uma palestra. -- Ento qual  o problema da professora? Sandy tateou  procura de uma explicao. -- No sei. Acho que ela deve saber
quem voc . -- De jeito nenhum. Jamais a vi. Ento uma pergunta surgiu automaticamente na cabea de Marshall:

-- Voc quer dizer que ela deve saber quem sou? Sandy pareceu encurralada. -- Quero dizer... oh, que coisa. Talvez ela saiba que voc  o redator do jornal. Talvez
no queira reprteres bisbilhotando por aqui. -- Bem, espero poder dizer-lhe que no estava bisbilhotando. Estava apenas procurando voc. Sandy queria encerrar a
discusso. -- Est bem, Papai, est bem. Ela apenas o entendeu mal, certo? No sei qual era o problema dela. Acho que tem o direito de escolher sua audincia. --
E eu no tenho o direito de saber o que a minha filha est aprendendo? Sandy deteve o que j estava para dizer e deduziu algumas coisas primeiro. -- Voc estava
bisbilhotando! Mesmo enquanto acontecia, Marshall percebeu sem o menor resqucio de dvida que eles haviam embarcado de novo na antiga rotina, como ces e gatos,
como galos de briga. Era uma loucura. Parte dele no desejava que tal acontecesse, mas o resto dele estava frustrado e indignado demais para parar. Quanto ao demnio,
estava encolhido ali por perto, desviando-se de Marshall como se o homem estivesse em brasa. O demnio observava, esperava, irritava-se. -- Que bisbilhotando, que
nada! -- trovejou Marshall. -- Estou aqui por ser seu amoroso papai e querer apanh-la depois das aulas. Stewart Hall, era tudo o que eu sabia. Encontrei-a por acaso,
e... -- Tentou frear-se. Perdeu um pouco do ardor, cobriu os olhos com a mo, e suspirou. -- E aproveitou para me vigiar! -- sugeriu Sandy

com rancor. -- H alguma lei contra isso? -- Est bem, vou-lhe explicar como so as coisas. Sou um ser humano, Papai, e toda entidade humana, no importa quem seja,
est sujeita, em ltima instncia, a um desgnio universal e no  vontade de um indivduo especfico. Quanto  professora Langstrat, se no desejar voc na palestra,
 prerrogativa dela exigir que saia! -- Mas quem  que paga o salrio dela? Sandy ignorou a pergunta. -- Quanto a mim, e o que estou aprendendo, e em que me estou
tornando, e aonde estou indo, e o que desejo, digo que voc no tem o direito de infringir o meu universo a menos que eu pessoalmente lhe ceda esse direito! A vista
de Marshall estava sendo turbada por imagens de Sandy na posio de levar umas boas palmadas. Enraivecido, ele precisava descontar em algum, mas nesse momento tentava
desviar de Sandy as suas investidas. Ele apontou o prdio de onde haviam sado e exigiu: -- Foi... foi ela quem lhe ensinou isso? -- Voc no precisa saber. -- Tenho
o direito de saber! -- Voc abriu mo desse direito, Papai, h muito tempo. Esse soco jogou-o  lona, e ele no tinha conseguido ainda recuperar-se totalmente quando
ela se foi em direo  rua, escapando dele, escapando  miservel, teimosa refrega em que estavam envolvidos. Ele lhe gritou algo, alguma pergunta meio idiota sobre
como chegaria a casa, mas ela nem mesmo diminuiu os

passos. O demnio agarrou a oportunidade e Marshall, que sentiu a raiva e auto-justificao darem lugar a um profundo desespero. Ele falhara. Justamente a coisa
que ele nunca mais queria fazer, havia feito. Por que cargas d'gua era esse o seu feitio? Por que no podia simplesmente aproximar-se dela, am-la, reconquist-la?
Ela j estava desaparecendo de vista, tornando-se cada vez menor ao atravessar apressada o campus, e parecia to distante, alm do alcance de um brao amoroso. Atravs
da vida e das lutas ele havia sempre tentado ser forte, ser duro, mas no momento estava to ferido que no conseguia evitar que essa fora se esboroasse ao seu
redor em nfimos pedaos. Enquanto ele olhava, Sandy desapareceu numa esquina distante sem sequer olhar para trs, e algo partiu-se dentro dele. Sua alma parecia
estar a ponto de se derreter, e naquele momento no havia ningum no mundo a quem ele odiasse mais do que a si mesmo. As foras de suas pernas pareceram ceder ao
do peso da sua dor, e ele afundou at os degraus na frente do velho prdio, desanimado. As garras do demnio circundaram-lhe o corao e ele murmurou em voz trmula:
-- De que adianta? "Iahaaaa!" veio um clamor trovejante de uns arbustos prximos. Uma luz branco-azulada cintilou. O demnio largou a presa e sumiu como uma mosca
apavorada, aterrizando a uma boa distncia em postura trmula e defensiva, os enormes olhos amarelados praticamente a saltar da cabea e uma cimitarra farpada, cor
de carvo pronta na mo que tremia. Mas ento houve um inexplicvel tumulto atrs daqueles mesmos arbustos, algum tipo de luta, e a fonte da luz desapareceu no canto
do Stewart Hall.

O demnio no se mexeu, mas esperou, escutando, observando. No se ouvia som algum a no ser o da leve brisa. Com toda a cautela, ele retornou sorrateiramente ao
lugar onde Marshall ainda estava sentado, passou por ele, e espiou por entre os arbustos e no canto do prdio. Nada. Como se detido durante todo esse tempo, um longo,
lento bafo de vapor amarelo saiu em leves fiapos encaracolados das narinas do demnio. Sim, ele sabia o que tinha visto; disso no tinha dvida. Mas por que  que
eles haviam fugido?

5
Pouco alm do outro lado do campus, mas a distncia suficiente para estarem seguros, dois homens gigantescos desceram  terra como refulgentes cometas branco-azulados,
mantidos no ar pelo mpeto de asas que rodopiavam formando uma sombra indistinta e queimando como relmpago. Um deles, um homem enorme, corpulento, de barba preta,
estava muito bravo e indignado, berrava, e gesticulava furioso com uma espada longa e cintilante. O outro era um pouco menor e olhava ao redor com muita cautela,
tentando acalmar o seu parceiro. Em espiral graciosa e fulgurante, eles deslizaram para trs de um dos dormitrios da faculdade e foram pousar nas copas pendentes
de uns chores. No momento em que seus ps tocaram as rvores, a luz de suas roupas e corpos comeou a desaparecer e as asas tremeluzentes se aquietaram de mansinho.
A no ser por sua estatura descomunal, eles pareciam homens comuns, um esbelto e loiro, o outro entremeado como

um tanque, ambos trajando o que parecia uniforme de faxina do exrcito, um conjunto cqui. Os cintos dourados haviam-se tornado semelhantes a couro escuro, as bainhas
eram de cobre fosco, e os brilhantes suportes de bronze dos ps tinham-se transformado em sandlias simples de couro. O grandalho estava pronto para uma discusso.
-- Triskal! -- rosnou ele, mas ante os gestos desesperados do amigo, abaixou um pouco a voz. -- O que voc est fazendo aqui? Triskal manteve a mo erguida para
que o amigo ficasse quieto. -- Psiu, Guilo! O Esprito me trouxe aqui, assim como a voc. Cheguei ontem. -- Voc sabe o que era aquilo? Um demnio de complacncia
e desespero, disso no tenho dvida! Se seu brao no me tivesse detido, eu o teria derrubado, e de uma nica vez! -- Oh, sim, Guilo, de uma nica vez -- concordou
o amigo -- mas foi bom eu t-lo visto e detido a tempo. Voc acabou de chegar e no compreende... -- O que  que no compreendo? Triskal tentou dizer de maneira
convincente. -- Ns... no devemos lutar, Guilo. Pelo menos por enquanto. No devemos resistir. Guilo tinha certeza de que seu amigo estava enganado. Segurou com
firmeza o ombro de Triskal e o olhou bem nos olhos. -- Por que eu iria a algum lugar se no para lutar? -- declarou ele. -- Aqui fui chamado. Aqui lutarei. -- Sim
-- disse Triskal, assentindo furiosamente com a cabea. -- S que ainda no chegou a hora, apenas isso.

-- Ento voc deve ter recebido ordens! Voc tem ordens? Triskal fez uma pausa de efeito e ento disse: -- Ordens de Tal. A expresso imediatamente em perplexidade.
zangada de Guilo desfez-se uma mistura de choque e

Caa a noite sobre Ashton, e a igrejinha branca da rua Morgan Hill achava-se banhada no clido brilho cor de ferrugem do sol poente. Fora, no pequeno jardim, o jovem
pastor apressava-se a cortar a grama, na esperana de terminar antes do jantar. Cachorros ladravam na vizinhana, gente voltava do trabalho, crianas recebiam ordens
de entrarem para jantar. Invisveis a esses mortais, Guilo e Triskal caminharam apressadamente colina acima, furtivos e apagados, mas mesmo assim movendo-se como
o vento. Ao chegarem  frente da igreja, Hank Busche deu a volta no canto atrs do cortador de grama ensurdecedor e Guilo teve de se deter para examin-lo. -- 
ele? -- perguntou a Triskal. -- O chamado comeou com ele? -- Sim -- respondeu Triskal -- meses atrs. Ele est orando agora mesmo, e muitas vezes anda pelas ruas
de Ashton intercedendo pela cidade. -- Mas... este lugar  to pequeno. Por que fui chamado? No, no, por que Tal foi chamado? Triskal apenas puxou-lhe o brao.
-- Depressa, vamos entrar. Eles passaram rapidamente pelas paredes da igreja, adentrando o pequeno e humilde templo. L encontraram um contingente de guerreiros
j reunidos, alguns assentados nos bancos, outros em p pela

plataforma, outros ainda fazendo o papel de sentinelas, espiando cautelosamente pelos vitrais coloridos das janelas. Estavam todos trajando roupas quase idnticas
s de Triskal e Guilo, as mesmas camisas e calas, mas Guilo ficou imediatamente impressionado com a estatura imponente de todos eles; eram esses os poderosos guerreiros,
os potentes guerreiros, e em nmero maior do que ele jamais vira reunido em um s lugar. Impressionou-o tambm o nimo da reunio. Esse momento poderia ter sido
uma jubilosa reunio de velhos amigos, exceto pelo fato de estarem todos estranhamente sombrios. Ao correr os olhos em volta do aposento, ele reconheceu muitos ao
lado dos quais havia lutado em tempos remotos: Nat, o rabe alto e feroz, de muita luta e pouca fala. Foi ele que havia agarrado demnios pelos tornozelos e os
tinha usado como clavas contra os prprios companheiros deles. Armote, o enorme africano cujo brado de guerra e feroz semblante geralmente bastavam para pr o inimigo
a correr antes mesmo de ele atac-los. Guilo e Armote certa feita haviam batalhado contra os demnios senhores de cidadezinhas no Brasil e pessoalmente guardado
uma famlia de missionrios em suas muitas e longas andanas pelas matas. Chimon, o manso europeu de cabelos dourados, que trazia nos antebraos as marcas dos ltimos
golpes de um demnio evanescente antes que Chimon o banisse para sempre no abismo. Guilo jamais havia travado conhecimento com ele, mas ouvira contar as suas proezas
e sua disposio em se deixar golpear com a nica finalidade de proteger outros e depois recobrarse para derrotar sozinho incontveis inimigos. Ento veio o cumprimento
do amigo mais antigo e mais querido.

-- Bem-vindo, Guilo, a Fora de Muitos! Sim, era deveras Tal, o Capito do Exrcito. Era to estranho ver esse poderoso guerreiro em p nesse lugarzinho humilde
e pacato. Guilo o havia visto perto da prpria sala do trono do Cu, conferenciando com nada mais, nada menos do que Miguel. Mas ali estava o mesmo vulto impressionante
de cabelos dourados e tez rosada, intensos olhos dourados como fogo e um indiscutvel ar de autoridade. Guilo aproximou-se de seu capito e os dois apertaram-se
as mos. -- E estamos juntos novamente -- disse Guilo enquanto milhares de lembranas lhe inundavam a mente. Guilo jamais vira guerreiro algum que lutasse como Tal
lutava; no havia demnio que conseguisse venc-lo em manobras e velocidade, espada alguma que pudesse desviar o golpe da espada de Tal. Lado a lado, Guilo e seu
capito haviam derrotado os poderes demonacos desde que esses rebeldes existiam, e haviam sido companheiros a servio do Senhor antes que tivesse existido alguma
rebelio. -- Saudaes, meu caro capito! Tal disse  guisa de explicao: -- E srio o negcio que nos rene novamente. Guilo perscrutou o rosto de Tal. Sim, havia
bastante confiana ali, e nem um trao de timidez. Mas trazia definitivamente uma estranha severidade nos olhos e na boca, e Guilo correu os olhos em volta do aposento
outra vez. Agora ele podia senti-lo, aquele preldio tipicamente silencioso e agourento  comunicao de penosas notcias. Sim, todos eles sabiam algo que ele ignorava
mas aguardavam que a pessoa designada, muito provavelmente Tal, falasse. Guilo no podia agentar o silncio, e muito menos o suspense.

-- Vinte e trs -- contou ele -- dos melhores, mais galantes, mais invencveis... reunidos agora como que sob ataque, a esconder-se de um inimigo temvel em to
frgil fortaleza? -- Com um gesto dramtico, ele puxou da enorme espada e segurou a lmina na mo livre. -- Capito Tal, quem respondeu lenta e claramente:  esse
inimigo? Tal

-- Rafar, o Prncipe da Babilnia. Todos os olhos estavam presos ao rosto de Guilo, cuja reao foi semelhante  de cada um dos outros guerreiros ao ouvir a notcia:
choque, descrena, uma pausa desajeitada para ver se algum ria e afirmava que era apenas um engano. No houve tal comutao da verdade. Todo o mundo no aposento
continuou a olhar para Guilo com a mesma expresso mortalmente sria, tornando impiedosa-mente inescapvel a gravidade da situao. Guilo baixou os olhos  espada.
Estava ela agora tremendo em suas mos? Ele fez questo de segur-la com firmeza, mas no pde deixar de fitar a lmina, ainda arranhada e descolorida pela ltima
vez que Guilo e Tal haviam confrontado esse prncipe de Baal dos tempos antigos. Guilo e Tal haviam batalhado contra ele durante vinte e trs dias antes de finalmente
derrot-lo na vspera da queda de Babilnia. Guilo ainda se recordava da escurido, da gritaria e do horror, da feroz e terrvel luta corpo a corpo enquanto a dor
crestava cada centmetro do seu ser. O mal daquele pretenso deus pago parecia envolv-lo e a tudo o que o cercava como densa fumaa, e a metade do tempo os dois
guerreiros tinham de manobrar e golpear s cegas, cada um sequer sabendo se o outro ainda estava na luta. At hoje, nenhum deles sabia qual dos dois finalmente dera
o golpe que precipitou Rafar para dentro do abismo. A nica coisa de que se lembravam era do berro tonitruante que ele dera ao cair atravs de uma brecha

dentada no espao, e depois de se verem de novo quando a grande escurido  sua volta clareou como o dissipar de densa neblina. -- Sei que o senhor fala a verdade
-- disse Guilo afinal -- mas... viria algum como Rafar a este lugar? Ele  o prncipe das naes, no de simples vilarejos. O que  este lugar? Que interesse poderia
ele ter aqui? Tal meneou a cabea. -- No sabemos. Mas  Rafar, sem dvida, e a movimentao no reino do inimigo indica que algo est em andamento. O Esprito nos
quer aqui. Precisamos confrontar o que quer que seja. -- E no devemos lutar, no devemos resistir! -- exclamou Guilo. -- Ficarei muito fascinado em ouvir sua prxima
ordem, Tal. No podemos lutar? -- Por enquanto, no. Somos poucos, e a cobertura de orao ainda  pequena. No dever haver nenhuma escaramua, nenhuma confrontao.
No deveremos nos mostrar como agressores de forma alguma. Enquanto nos mantivermos afastados deles, perto deste lugar, e no os ameaarmos, nossa presena aqui
parecer o cuidado normal que exercemos sobre um grupinho de santos em dificuldades -- e ento ele acrescentou em tom bem direto: -- E ser melhor se a notcia de
minha presena aqui no se espalhar. Nesse momento, Guilo sentiu-se algo deslocado ainda segurando a espada, e embainhou-a com ar de desagrado. -- E -- encorajou
ele -- o senhor tem um plano, no tem? No fomos chamados aqui para ver a cidade cair? O cortador de grama roncou ao passar pelas janelas, e Tal dirigiu a ateno
dos presentes ao

operador da mquina. -- Foi Chimon quem teve a incumbncia de trazlo aqui -- disse ele -- de cegar os olhos de seus inimigos e faz-lo passar  frente do pastor
que o inimigo ia escolher para este rebanho. Chimon foi bem-sucedido, Hank foi escolhido, o que surpreendeu a muita gente, e agora est aqui em Ashton, orando a
cada hora de cada dia. Fomos chamados em favor dele, dos santos de Deus e do Cordeiro. -- Em favor dos santos de Deus e do Cordeiro! -- ecoaram todos eles. Tal olhou
para um guerreiro alto, de cabelos escuros, aquele que o havia conduzido pela cidade na noite do Festival, sorriu e disse: -- E voc o fez ganhar por apenas um voto?
O alto guerreiro deu de ombros. -- O Senhor o desejava aqui. Chimon e eu tnhamos de garantir a sua vitria sobre o outro homem que no tem temor de Deus. Tal apresentou
Guilo a esse guerreiro. -- Guilo, este  Krioni, o vigia responsvel pelo nosso guerreiro da orao aqui e da cidade de Ashton. Nosso chamado comeou com Hank, mas
a presena de Hank teve incio com Krioni. Guilo e Krioni acenaram silenciosamente com a cabea, saudando-se mutuamente. Tal observou Hank terminar de cortar a grama,
orando alto ao mesmo tempo. -- De modo que agora, enquanto seus inimigos na congregao se reagrupam e tentam encontrar outra forma de expuls-lo, ele continua orando
por Ashton.  um dos ltimos. -- Se no for o ltimo! -- lamentou Krioni.

-- No -- advertiu Tal -- ele no  o nico. Existe ainda um Remanescente de santos em algum lugar nesta cidade. Sempre existe um Remanescente. -- Sempre existe
um Remanescente -- ecoaram todos. -- Nosso conflito comea neste lugar. Faremos dele o nosso quartel por enquanto, cerc-lo-emos e operaremos daqui. Ele falou com
um alto oriental que estava no fundo do aposento. -- Signa, tome conta deste prdio, e escolha agora dois que fiquem ao seu lado. Este ser o nosso ponto de descanso.
Torne-o seguro. Nenhum demnio deve aproximar-se dele. Signa prontamente encontrou dois voluntrios para trabalharem consigo. Eles sumiram rumo aos seus postos.
-- Agora, Triskal, ouvirei as notcias de Marshall Hogan. -- Segui-o at o meu encontro com Guilo. Embora Krioni tivesse relatado uma situao algo montona at
a poca do Festival, desde ento Hogan tem sido perseguido por um demnio de complacncia e desespero. Tal recebeu a notcia com grande interesse. -- Hum. Pode ser
que ele esteja comeando a despertar. Eles o esto cobrindo, tentando mant-lo sob controle. Krioni acrescentou: -- Nunca pensei que veria o que est acontecendo.
O Senhor o queria na direo do Clarim, e demos um jeito nisso tambm, mas jamais vimos um indivduo to cansado. -- Cansado, sim, mas isso apenas o tornar mais

til nas mos do Senhor. E percebo que ele est realmente despertando, exatamente como o Senhor antevia. -- Embora ele possa despertar apenas para ser destrudo
-- disse Triskal. -- Eles o devem estar vigiando. Receiam o que ele possa vir a fazer na posio influente que ocupa. --  verdade -- respondeu Tal. -- Portanto,
enquanto eles exasperam o nosso urso, temos de nos certificar de que eles o despertem, e nada mais do que isso. Vai ser uma questo muito crtica. Agora Tal estava
pronto a mover-se. Dirigiu-se ao grupo todo. -- Estou esperando que Rafar tome o poder aqui at o cair da noite; no duvido de que todos sentiremos quando isso acontecer.
Estejam certos de uma coisa: ele buscar de imediato a maior ameaa contra si mesmo e tentar remov-la. -- Ah, Henry Busche -- disse Guilo. -- Krioni e Triskal,
podem ter certeza de que algum tipo de peloto ser enviado com o propsito de testar o esprito de Hank. Escolham quatro guerreiros e cuidem dele. Tal tocou o ombro
de Krioni e acrescentou: -- Krioni, at agora voc se saiu muito bem ao proteger Hank de quaisquer investidas diretas. Meus parabns. -- Obrigado, Capito. -- Estou-lhe
pedindo agora que faa Esta noite, voc precisa ficar por perto e permita que toquem a vida de Hank, mas, no impea nada. Ser um teste pelo qual passar. algo difcil.
vigiar. No fora disso, ele precisa

Houve um leve movimento de surpresa e admirao, mas cada guerreiro estava disposto a confiar no julgamento de Tal. Tal continuou: -- Quanto a Marshall Hogan...
ele  o nico de quem ainda no estou certo. Rafar dar incrvel liberdade aos seus lacaios no que lhe diz respeito, e ele pode ceder e retroceder, ou, como todos
esperamos, despertar e reagir. Rafar estar especialmente interessado nele, e eu tambm, esta noite. Guilo, escolha dois guerreiros para voc e dois para mim. Tomaremos
conta de Marshall esta noite e veremos como ele reage. O resto de vocs sair  procura do Remanescente. Tal desembainhou a espada e a ergueu. Os outros fizeram
o mesmo e uma floresta de lminas refulgentes apareceu, erguida por braos fortes. -- Rafar -- disse Tal em voz baixa, pensativa -- encontramo-nos novamente --.
Ento, na voz do Capito do Exrcito, disse: -- Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro! -- Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro! -- ecoaram eles. Complacncia desenrolou
as asas e deslizou para dentro do Stewart Hall, afundou no cho do andar principal, indo at as catacumbas ao nvel do poro, a rea separada para a administrao
e os escritrios particulares do Departamento de Psicologia. Nesse lgubre mundo inferior o teto era baixo e opressivo, e juncado de canos de gua e tubos de aquecimento
que pareciam um bando de serpentes esperando para cair. Tudo -- paredes, teto, canos, painis de madeira -- era pintado no mesmo tom bege sujo, e a luz era escassa,
o que, para Complacncia e seus associados, era timo. Eles preferiam a escurido, e Complacncia notou que parecia estar um pouco mais escuro do que o normal.

Os outros deviam ter chegado. Ele flutuou pelo longo sulco de um corredor em direo a uma grande porta no fundo que dizia "Sala de Conferncias" e, atravessando-a,
entrou numa caldeira de maldade viva. O aposento estava escuro, mas a escurido parecia mais uma presena do que uma condio fsica; era uma fora, uma atmosfera
que deslizava e se arrastava pelo ambiente. Daquele negror, espiavam muitos pares de olhos amarelados sem brilho, pertencentes a uma horrvel galeria de faces grotescas.
Um brilho rubro, cuja fonte no se podia perceber, delineava as vrias formas dos colegas de Complacncia. Vapor amarelo serpeava em rendados tufos pelo aposento
e enchia o ar com seu fedor enquanto as muitas aparies conduziam suas conversas em voz baixa e gorgolejante no escuro. Complacncia podia perceber o desdm comum
que sentiam por ele, mas o sentimento era suficientemente recproco. Aqueles egostas belicosos pisariam em qualquer um para se exaltarem, e acontece que Complacncia
era o menor e, portanto, o mais fcil de perseguir. Ele se aproximou de dois vultos volumosos que estavam no meio de um debate. Os braos deles, macios e cobertos
de espinhos, e as palavras venenosas que proferiam, diziam a Complacncia que eram demnios especializados em dio, que semeavam, agravavam e espalhavam o dio,
usando os braos esmagadores e os espinhos peonhentos a fim de com eles espremer as pessoas at eliminar-lhes o amor ou envenen-lo. Perguntou-lhes Complacncia:
-- Onde est o prncipe Lucius? -- Encontre-o voc mesmo, lagartixa! -- rosnou um deles.

Um demnio de lascvia, criatura coleante de olhos inquietos e esquivos, e couro escorregadio, ouviu o que diziam e, aproximando-se, agarrou Complacncia nas suas
garras longas e afiadas. -- E onde voc dormiu hoje? -- perguntou com desdm. -- Eu no durmo! -- retorquiu Complacncia. -- Fao as pessoas dormirem. -- Despertar
o desejo e roubar a inocncia  muito melhor. -- Mas algum precisa desviar os olhos dos outros. Lascvia pensou um pouco e deu um sorrisinho de aprovao. Largou
bruscamente Complacncia enquanto os que observavam caram na risada. Complacncia passou por Engano, mas nem se incomodou em perguntar-lhe coisa alguma. Engano
era o demnio mais orgulhoso, mais altivo de todos, muito arrogante por seu conhecimento supostamente superior de como controlar as mentes dos homens. Sua aparncia
nem mesmo era to pavorosa quanto a dos outros; ele parecia quase humano. Sua arma, gabava-se ele, era sempre um argumento constrangedor, persuasivo, sutilmente
entremeado de mentiras. Muitos outros encontravam-se l: Homicdio, as garras ainda pingando sangue; Anarquia, as articulaes afiadas em protuberncias pontiagudas
e o couro grosso e ressecado; Cime, o mais desconfiado e difcil demnio com quem trabalhar. Mas, finalmente, Complacncia encontrou Lucius, Prncipe de Ashton,
o demnio que ocupava a posio mais alta entre todos. Lucius estava em conferncia com um grupinho fechado de outros detentores de poder, repassando as prximas
estratgias para controlarem a

cidade. Era, sem dvida alguma, o demnio-chefe. Enorme, antes de mais nada, mantinha sempre uma postura imponente, com as asas enroladas frouxamente ao seu redor
a fim de ampliar-lhe o contorno, os braos flexionados, os punhos fechados e prontos a golpearem. Muitos demnios cobiavam a sua posio, e ele sabia disso; havia
lutado e banido muitos deles para chegar onde estava, e tinha toda a inteno de permanecer a. Ele no confiava em ningum, suspeitava de todo o mundo, e sua cara
negra, retorcida, e os olhos de guia estavam sempre a espalhar a mensagem de que mesmo seus associados eram inimigos. Complacncia estava desesperado e furioso
o suficiente para violar as noes de Lucius quanto ao respeito e decoro. Abriu caminho  fora por entre o grupo e chegou bem diante de Lucius, que fitou nele os
olhos, surpreso com a rude interrupo. -- Meu Prncipe -- rogou Complacncia -- preciso dirigir-lhe uma palavrinha. Os olhos de Lucius se entrefecharam. Quem era
essa lagartixazinha para interromp-lo no meio de uma conferncia, para violar o decoro na frente dos outros? -- Por que no est com Hogan? -- rosnou ele. -- Preciso
falar com o senhor! -- Atreve-se a falar comigo sem que eu tenha antes lhe dirigido a palavra? --  de vital importncia. O senhor... o senhor est cometendo um
erro. Est perturbando a filha de Hogan, e... Lucius imediatamente transformou-se num pequeno vulco, vomitando horrveis imprecaes e ira. -- Voc acusa o seu
prncipe de erro? Atreve-se a

questionar as minhas aes? Complacncia encolheu-se, na expectativa de uma bofetada dolorosa a qualquer momento, mas mesmo assim disse: -- Hogan no nos causar
nenhum dano se no mexermos com ele. Mas o senhor acendeu um fogo dentro dele, e ele me atira longe! A bofetada veio, uma pancada poderosa das costas da mo de Lucius,
e, enquanto revirava pelo aposento, Complacncia debatia se diria ou no mais alguma coisa. Quando parou e se recobrou, ergueu os olhos e viu que todos os olhares
estavam sobre ele, e podia sentir o seu zombeteiro desdm. Lucius dirigiu-se lentamente em sua direo, e postou-se em toda a sua alta estatura acima dele, como
uma rvore gigante. -- Hogan o atira longe? No  voc quem o solta? -- No me bata! Apenas oua o meu pedido! Os punhos de Lucius fecharam-se dolorosamente em torno
de chumaos da carne de Complacncia e ergueram-no at que os olhos dos dois ficaram no mesmo plano. -- Ele pode colocar-se em nosso caminho, e no quero saber disso!
Voc conhece o seu dever. Cumpra-o! -- Era o que estava fazendo, e muito bem! -- gritou Complacncia. -- Ele no era nada que precisssemos temer, uma lesma, um
monte de barro. Eu poderia t-lo segurado ali para sempre. -- Ento, faa isso! -- Prncipe Lucius, por favor, oua-me! No lhe d nenhum inimigo. Deixe-o sem necessidade
de brigar.

Lucius deixou-o cair ao cho, uma pilha de humilhao. O prncipe dirigiu-se aos outros presentes no aposento. -- Demos um inimigo a Hogan? Todos eles sabiam como
responder. -- No, senhor! -- Engano -- chamou Lucius, e Engano adiantouse, inclinando-se formalmente diante de Lucius. -- Complacncia acusa seu prncipe de perturbar
a filha de Hogan. Voc deve saber a esse respeito. -- O senhor no ordenou ataque algum a Sandy Hogan, Prncipe -- respondeu Engano. Complacncia apontou o dedo
em forma de garra e berrou: -- Voc a tem seguido! Voc e seus lacaios! Vocs tm falado  sua mente, confundindo-a! Engano apenas ergueu os sobrolhos em leve indignao
e respondeu calmamente: -- Por convite dela prpria. S lhe dissemos o que ela prefere saber. Mal se pode chamar a isso de ataque. Lucius pareceu assumir arrogncia
de Engano ao dizer: algo da irritante

-- Sandy Hogan  um caso, mas certamente o pai  outro bem diferente. Ela no constitui a mnima ameaa para ns. Ele, sim. Devemos mandar outro para mant-lo sob
controle? Complacncia no tinha resposta, acrescentou outra nota de preocupao: -- Vi... vi mensageiros do Deus vivo hoje! Essa observao somente provocou o riso
do grupo. Lucius caoou: mas

-- Voc est ficando to medroso assim, Complacncia? Vemos mensageiros do Deus vivo todos os dias. -- Mas esses estavam perto! Prestes a atacar! Conheciam as minhas
aes, disso estou certo. -- Voc me parece estar bem. Mas se eu fosse um deles certamente o escolheria como presa fcil. Mais risadas do grupo estimularam Lucius
a continuar. -- Um alvo fcil e frouxo pelo simples esporte... um demnio manco com o qual um anjo fraco pode provar sua fora! Complacncia encolheu-se de vergonha.
Lucius deu uns passos pelo aposento, e dirigiu-se ao grupo. -- Tememos o exrcito dos cus? -- perguntou. -- Como o senhor no teme, ns tambm no tememos! -- responderam
todos com grande cortesia. Enquanto os demnios permaneciam em sua toca no poro, reciprocando tapinhas nas costas e apunhalando as de Complacncia, no perceberam
a estranha, anormal frente fria do lado de fora. Ela se moveu lentamente sobre a cidade, trazendo vento inclemente e chuva enregelante. Conquanto a noite tivesse
prometido ser brilhante e sem nuvens, foi escurecendo agora debaixo de um manto opressivo, meio natural, meio espiritual. No topo da igrejinha branca, Signa e seus
dois companheiros continuaram a montar guarda enquanto a escurido descia sobre Ashton, mais profunda e mais fria a cada momento. Por toda a vizinhana prxima,
ces puseram-se a ladrar e a uivar. Aqui e ali uma discusso explodia entre os humanos. -- Ele chegou -- disse Signa.

Entrementes, a preocupao de Lucius com a prpria glria impediu-o de notar quo pequena era a ateno que estava recebendo agora por parte de suas tropas. Todos
os demnios no aposento, grandes e pequenos, estavam sob o domnio de crescente medo e agitao. Todos podiam sentir algo horrvel a se aproximar cada vez mais.
Comearam a remexer-se, correndo os olhos de c para l, as caras retorcendo de apreenso. Lucius, ao passar por Complacncia, deu-lhe um ponta-p no lado, e continuou
sua gabolice. -- Complacncia, pode ter certeza de que temos as coisas sob controle aqui. Nenhum dos nossos trabalhadores jamais teve de andar s escondidas com
medo de ataque. Andamos livremente pela cidade, fazendo o nosso servio sem nenhum empecilho, e nos sairemos bem em todo o lugar at que esta cidade seja totalmente
nossa. Seu frouxo desajeitado! Temer  fracassar! Foi nesse momento que aconteceu, e to repentinamente que nenhum deles pde reagir de outra forma a no ser com
cortantes guinchos de terror. A palavra "fracassar" mal havia deixado os lbios de Lucius quando uma nuvem violenta, fervilhante, desabou e trovejou para dentro
do aposento como um vagalho, uma avalancha sbita de fora que esmagava como ferro. Os demnios foram lanados do outro lado do aposento como se fossem detritos
em uma violenta mar, revirando, berrando, enrolando fortemente as asas em redor do corpo por puro terror -- todos, exceto Lucius.  medida que os demnios se recuperavam
da onda de choque inicial dessa nova presena, ergueram os olhos e viram o corpo de Lucius, contorcido como um brinquedo quebrado, nas garras de uma enorme mo

preta. Ele se debatia, sufocava, afogava, pedia misericrdia, mas a mo apenas aumentava a esmagadora presso, infligindo castigo sem d, descendo da escurido como
um ciclone de uma nuvem tempestuosa. Ento, a figura toda de uma esprito surgiu, erguendo Lucius pela garganta e sacudindo-o como uma boneca de pano. A coisa era
maior do que qualquer outra que eles j tinham visto, um demnio gigantesco com cara de leo, olhos de fogo, corpo incrivelmente musculoso, e asas como que de couro
a encher o aposento. A voz gorgolejante subia do fundo do torso do demnio e explodia em nuvens de ardente vapor vermelho. -- Voc que nada teme... est com medo
agora? O esprito irado arremessou Lucius atravs do aposento para junto dos outros, e ento postou-se como uma montanha no centro da sala, manejando uma espada
mortal, em forma de S, do tamanho de uma porta. Suas garras  mostra faiscavam como as correntes douradas que lhe pendiam do pescoo e de um lado a outro do peito.
Obviamente, esse prncipe dos prncipes havia recebido muitas homenagens por vitrias passadas. Seus cabelos cor de carvo caam-lhe como juba sobre os ombros, e
em cada pulso ele usava uma pulseira de ouro crivada de brilhantes; os dedos exibiam diversos anis, e um cinto e uma bainha vermelho-rubi adornavam-lhe a cintura.
As extensas asas negras estavam agora drapeadas s suas costas, como o manto de um monarca. Durante uma eternidade ele ficou ali, fitando-os com olhos sinistros,
ardentes; estudando-os, e tudo o que podiam fazer era permanecer imveis em seu terror, como um quadro macabro de apavorados duendes. Afinal, a grande voz ecoou
das paredes: -- Lucius, sinto que no era esperado. Voc me

anunciar. Levante-se! A espada cruzou o aposento e a ponta rasgou o couro de Lucius no pescoo, fazendo-o erguer-se de um salto. Lucius sabia que estava sendo rebaixado
aos olhos de seus subalternos, mas fez o que pde a fim de evitar a amargura e a raiva crescentes. Seu medo transparecia o suficiente para encobrir adequadamente
os outros sentimentos. -- Companheiros de trabalho... -- disse ele, a voz trmula a despeito de todos os seus esforos. -- Baal Rafar, o Prncipe da Babilnia! Automaticamente,
todos se puseram de p, em parte por causa de receoso respeito, porm mais por temerem a ponta da espada de Rafar, ainda vagueando devagar de um lado ao outro, pronta
a mover-se contra qualquer que lerdeasse. Rafar examinou-os rapidamente. Ento infligiu outra afronta  pessoa de Lucius. -- Lucius, ponha-se ao lado dos outros.
Cheguei, e somente um prncipe  necessrio. Atrito. Todos o sentiram imediatamente. Lucius recusou-se a mover. Seu corpo estava rgido, os punhos fechados tanto
quanto sempre estavam e, embora tremesse visivelmente, devolveu de propsito o olhar fixo de Rafar e permaneceu firme. -- O senhor... no pediu que cedesse o meu
lugar! -- desafiou ele. Os outros no estavam a fim de intervir ou mesmo chegar perto. Afastaram-se, lembrados de que a espada de Rafar podia provavelmente varrer
num raio bem amplo. A espada realmente moveu-se, mas com tanta

rapidez que a primeira coisa que se percebeu foi um grito de dor dado por Lucius enquanto rodopiava formando um n retorcido no cho. A espada e a bainha de Lucius
estavam no cho, habilmente cortadas por um rpido golpe de Rafar. Outra vez a espada se moveu, e desta vez a parte chata da lmina prendeu Lucius ao cho pelo cabelo.
Rafar inclinou-se sobre ele, o hlito vermelhosangue jorrando-lhe da boca e das narinas, ao falar. -- Vejo que voc deseja contestar a minha posio. Lucius no
disse nada. -- RESPONDA! -- No! -- gritou Lucius. -- Eu cedo. -- Em p! Levante-se! Lucius esforou-se para erguer-se, e o brao forte de Rafar segurou-o junto
aos outros. A essa altura, Lucius estava em estado lamentvel, totalmente humilhado. Rafar estendeu a espada para baixo, e com a ponta farpada apanhou a espada e
a bainha de Lucius. A espada girou como um enorme guincho e depositou as armas de Lucius nas mos do demnio deposto. -- Ouam bem, todos vocs -- disse Rafar, dirigindo-se
a eles. -- Lucius, que no teme os exrcitos celestiais, mostrou ter medo. Ele  um mentiroso e um verme, e no deve merecer a sua ateno. Digo-lhes que temam os
exrcitos celestiais. Eles so o seu inimigo, e o intento deles  derrot-los. Enquanto forem ignorados, ganharo terreno, e assim os vencero. Rafar andou com passos
pesados, laboriosos, passando e repassando pelos demnios enfileirados, inspecionando-os mais de perto. Quando chegou diante de Complacncia, aproximou-se mais e
Complacncia caiu de costas. Rafar apanhou-o pelo cangote com um dedo e colocou-o em p.

-- Diga-me, lagartixinha, o que viu hoje? Complacncia sofreu um sbito lapso de memria. Rafar encorajou-o: -- Mensageiros do Deus vivo, Complacncia assentiu com
a cabea. -- Onde? -- Logo do lado de fora deste prdio. -- O que estavam fazendo? -- Eu... eu... -- Eles o atacaram? -- No. -- Houve um brilho de luz? Essa pergunta
pareceu evocar uma lembrana em Complacncia. Assentiu com a cabea. -- Quando um mensageiro de Deus ataca, sempre h luz --. Enraivecido, Rafar dirigiu-se a todos
eles: -- E vocs nem perceberam! Riram! Caoaram! Quase sofreram um ataque do inimigo e o ignoraram! Nesse momento Rafar voltou-se para questionar Lucius um pouco
mais. -- Diga-me, prncipe deposto, como est a cidade de Ashton? Est pronta? Lucius respondeu com presteza. -- Sim, Baal Rafar. -- Oh, quer dizer que voc j deu
um jeito nesse Busche que vive a orar e nesse encrenqueiro adormecido do Hogan. Lucius ficou quieto. -- Ainda no! Primeiro voc lhes permite ocuparem lugares que
reservamos para os nossos voc disse?

prprios protegidos especiais... -- Foi um erro, Baal Rafar! -- balbuciou Lucius. O redator do Clarim foi eliminado de acordo com as suas ordens, mas... ningum
sabe de onde surgiu esse tal Hogan. Ele comprou o jornal antes que se pudesse fazer alguma coisa. -- E Busche? Segundo entendo, ele fugiu aos seus ataques. -- Esse...
esse era outro homem de Deus. O primeiro. Ele realmente fugiu. -- E? -- Esse homem mais jovem surgiu em seu lugar. Ningum sabe de onde. Um longo, ftido suspiro
escapou zumbindo pelas presas de Rafar. -- O exrcito celestial -- disse. -- Enquanto vocs achavam que ele estava parado, seus membros moveram os escolhidos do
Senhor bem debaixo dos seus narizes! No  segredo que Henry Busche  um homem de orao. Vocs temem isso? Lucius assentiu com a cabea. -- Sim, claro, mais do
que qualquer outra coisa. Ns o temos atacado, tentando faz-lo ir embora. -- E como ele tem reagido? -- Ele... ele... -- Fale! -- Ele ora. Rafar meneou a cabea.
-- Sim, sim, ele  um homem de Deus. E que me diz de Hogan? Que fizeram a respeito dele? -- Ns... atacamos a filha dele.

Os ouvidos de Complacncia se aguaram. -- A filha? Mas Complacncia no se pde conter. -- Eu lhes disse que no funcionaria! Apenas tornaria Hogan mais agressivo
e o despertaria de sua letargia! Lucius tentou captar a ateno de Rafar. -- Se meu senhor me permitisse explicar... -- Explique -- instruiu Rafar a Lucius enquanto
mantinha um olho cauteloso em Complacncia. Lucius rapidamente formulou um plano. -- s vezes um ataque direto no  o melhor, por isso... descobrimos uma fraqueza
na filha dele e achamos que poderamos desviar as energias dele em direo  mocinha, talvez destru-lo em casa e desintegrar a famlia. Pareceu funcionar com o
antigo redator. Pelo menos, foi um comeo. -- No dar certo -- bradou Complacncia. -- At mexerem com seu senso de bem-estar e conforto ele era inofensivo. Agora
receio no conseguir det-lo. Ele est... Um gesto rpido e ameaador por parte da mo estirada de Rafar conteve as lamrias de Complacncia. -- No quero que Hogan
seja detido -- disse Rafar. -- Quero-o destrudo. Sim, peguem a filha. Peguem qualquer outra coisa que possa ser corrompida. Um risco  melhor removido, no tolerado.
-- Mas... -- gritou Complacncia, mas Rafar apanhou-o rapidamente e disse soltando-lhe baforadas venenosas bem na cara. -- Desanime-o. Certamente isso voc pode
fazer. -- Bem... Mas Rafar no estava com a mnima disposio de

esperar resposta. Com um vigoroso voltear do pulso, arremessou Complacncia fora do aposento, de volta ao trabalho. -- Ns o destruiremos, atacando-o por todos os
lados at no lhe sobrar nem um pedao firme de cho do qual possa lutar. Quanto a esse novo homem de Deus que surgiu, estou certo de que uma armadilha adequada
pode ser armada. Mas com relao aos nossos inimigos: qual a sua fora? -- No so nada fortes -- respondeu Lucius, tentando recuperar a posio de competncia.
-- Mas espertos o bastante para faz-lo pensar que so fracos. Um erro fatal, Lucius --. Ele se dirigiu a todos: -- Vocs no devem mais subestimar o inimigo. Vigiem-no.
Contem quantos so. Saibam por onde andam, suas habilidades, seus nomes. Jamais misso alguma foi empreendida que no fosse desafiada pelos exrcitos celestiais,
e esta misso no  nada pequena. Nosso senhor tem planos muito importantes para esta cidade, mandou-me a p-los em prtica, e isso  suficiente para trazer nada
menos que as hordas inimigas sobre as nossas cabeas. Acautelem-se, e no cedam terreno em parte alguma! E quanto a esses dois espinhos em nossa pata, essas duas
barreiras implantadas... esta noite veremos de que so feitas.

6
Era uma noite escura e chuvosa; as gotas, tamborilando contra o vidro das velhas janelas, dificultavam a chegada do sono para Hank e Mary. Ela acabou adormecendo;
mas Hank, com o esprito j perturbado, teve muito mais dificuldade em se descontrair. De qualquer forma, o dia fora pssimo; ele

havia trabalhado a fim de cobrir de tinta os dizeres pichados na frente da casa e tentado descobrir quem neste mundo escreveria uma coisa daquelas. Ainda retinia
em seus ouvidos a conversa que tivera com Alf Brummel, e a mente continuava a repassar vez aps vez os comentrios custicos feitos durante a reunio do conselho.
Agora podia acrescentar a assemblia extraordinria da noite de sexta-feira s suas preocupaes, e orava ao Senhor em sussurros inaudveis, desesperados, deitado
ali no escuro. Engraado como cada dobrinha do colcho parece muito mais incmoda quando se est aborrecido. Hank comeou a achar que acordaria Mary com todo aquele
remexer e virar. Ficou de costas, de lado, do outro lado, colocou os braos debaixo do travesseiro, em cima do travesseiro; apanhou um leno de papel e assoou o
nariz. Olhou o relgio: 12:20hs. Eles tinham-se deitado s 10:00hs. Mas o sono acaba chegando, geralmente de maneira to imperceptvel que a pessoa no percebe que
sucumbiu, at acordar. Em dado momento no decorrer daquela noite, Hank cochilou. Mas aps poucas horas, seus sonhos comearam a azedar. A princpio, eram as bobagens
de sempre, como dirigir um carro atravs da sala de estar e depois voar no carro ao se transformar este em avio. Mas a as imagens comearam a se acelerar e amotinar
em sua cabea, cada vez mais frenticas e caticas. Ele comeou a fugir de perigos. Podia ouvir berros; teve a sensao de estar caindo e a viso e o gosto de sangue.
As imagens passaram de brilhantes e coloridas a monocromticas e lgubres. Ele lutava constantemente, batalhando para salvar a vida; inmeros perigos e inimigos
o cercavam, cada vez mais perto. Nada daquilo fazia sentido algum, mas uma coisa era bem definida: puro terror. Ele queria desesperadamente gritar mas no tinha
tempo na luta

com os inimigos, monstros, foras invisveis. O corao comeou a martelar nos ouvidos. O mundo todo rodopiava e latejava. O horrvel conflito que se agitava em
sua cabea comeou a aflorar  superfcie do seu consciente de todos os dias. Ele se mexeu na cama, virou-se de costas, inspirou profundamente, tentando acordar.
Os olhos semi-abriram-se, sem focalizar coisa alguma. Ele estava naquele estranho estado de estupor, nem bem adormecido, nem bem consciente. Ser que realmente a
tinha visto? Era uma lgubre projeo em pleno ar, um quadro luminescente em veludo preto. Logo acima da cama, to prxima que ele podia sentir o cheiro do hlito
sulfuroso, e a mscara medonha de uma cara pairava, contorcendo-se em movimentos grotescos ao cuspir palavras malvolas que ele no compreendia. Os olhos de Hank
abriram-se de chofre. Ele achou que ainda podia ver a cara, acabando de desaparecer, mas no mesmo instante sentiu-se como se seu peito tivesse recebido violenta
pancada; o corao disparou e comeou a martelar, como se fosse explodir atravs das costelas. Podia sentir o pijama e os lenis grudados nele, encharcados de suor.
Ficou deitado, arquejante, esperando que o corao se acalmasse, que todo aquele puro terror desaparecesse, mas nada mudou e ele no conseguia fazer que mudasse.
Voc est apenas tendo um pesadelo, ficou a se dizer, mas parecia que no conseguia acordar. De propsito, abriu bem os olhos e olhou em torno do quarto escuro,
embora parte dele desejasse retornar  infncia e simplesmente esconder-se debaixo das cobertas at os fantasmas e monstros e ladres irem embora. Nada viu de extraordinrio.
O duende l no canto nada mais era do que a sua camisa dependurada numa

cadeira, e o estranho halo de luz na parede era apenas a luz do poste refletida pelo vidro do seu relgio de pulso. Mas ele tinha ficado seriamente assustado, e
ainda estava amedrontado. Podia sentir-se tremer enquanto tentava desesperadamente separar a alucinao da realidade. Ele olhou, escutou. At o silncio parecia
sinistro. No encontrou conforto nele, apenas o terror de que algo malvolo se estivesse escondendo nele, um intruso ou um demnio, esperando, aguardando o momento
certo. O que foi aquilo? Um rangido na casa? Passos? No, ele disse consigo mesmo, apenas o vento soprando contra as janelas. A chuva havia parado. Outro barulho,
desta vez um farfalhar na sala de estar. Ele nunca havia ouvido aquele som de noite. Tenho de acordar, tenho de acordar. Vamos, corao, acalme-se para eu poder
escutar. Ele se forou a sentar-se na cama, embora isso o fizesse sentir-se ainda mais vulnervel, e ali ele permaneceu diversos minutos, tentando acalmar o metralhar
do corao com uma mo sobre o peito. As batidas finalmente se acalmaram um pouco, mas o corao continuou disparado. Hank sentiu o suor se esfriando contra a pele.
Levantar-se ou voltar a dormir? Dormir estava definitivamente fora de cogitao. Ele resolveu levantar-se, dar uma olhada pela casa, andar at se acalmar. Um alarido,
desta vez na cozinha. Foi nessa hora que Hank ps-se a orar. Marshall tinha tido o mesmo tipo de sonho e o mesmo temor havia feito seu corao bater com fora. Vozes.
Tinha a certeza de ouvir algo como vozes em algum lugar. Sandy? Talvez um rdio.

Mas quem sabe? pensou ele consigo mesmo. De qualquer forma, esta cidade est ficando louca, e agora os doidos esto na minha casa. Ele escorregou da cama, calou
os chinelos, e foi ao guarda-roupa em busca de um taco de beisebol. Exatamente como antes, pensou. Agora os miolos de algum vo virar mingau. Ele espiou pela porta
do quarto os dois lados do corredor. No havia luz em parte alguma, nenhum facho de lanterna. Mas suas entranhas estavam a sapatear debaixo das costelas, e devia
haver um motivo. Ele levou a mo ao interruptor, tentando acender a luz do corredor. Droga! A lmpada estava queimada. Desde quando, ele no sabia, mas ficou em
p ali no escuro, e sentiu sua coragem evaporar-se um pouco mais. Agarrou o taco com mais fora e saiu para o corredor, mantendo-se prximo  parede, olhando para
diante, para trs, escutando. Achou ter detectado um manso farfalhar em algum canto, algo que se movia. Ao passar pelo arco que dava para a sala de estar, seus olhos
captaram alguma coisa, e ele se imprensou contra a parede, tentando esconder-se. A porta da frente estava aberta. Agora seu corao realmente comeou a martelar,
golpeando-lhe rudemente os ouvidos. De certa forma estranha e selvagem ele se sentiu melhor; pelo menos havia indicao de um inimigo real. Era essa droga de medo
sem motivo que o assombrava. J passara por esse mesmo tipo de coisa uma vez hoje. Com esse pensamento veio uma idia estranha: Aquela professora deve estar aqui
dentro de casa. Ele foi at o fim do corredor para examinar o quarto de Sandy e certificar-se de que ela estava bem. Queria pr-se entre Kate e Sandy e o que quer
que estivesse no resto da casa. A porta do quarto da filha estava aberta, e isso no era comum; ele tomou mais cuidado ainda. P ante p, colado  parede, dirigiu-se
 porta e ento, o taco pronto nas mos, espiou no quarto.

Algo estava em p. Pelo menos Sandy estava -- a cama estava vazia e ela no se encontrava por ali. Ele acendeu a luz do quarto. A cama mostrava que algum havia-se
deitado ali, mas agora as cobertas tinham sido atiradas para trs apressadamente e o quarto estava em desordem. Enquanto Marshall se movia cautelosamente pelo corredor
escuro, ocorreu-lhe o pensamento de que Sandy poderia estar simplesmente tomando alguma coisa, usando o banheiro, lendo. Mas essa lgica simples arrefeceu contra
a sensao horrvel de que algo pavoroso estava errado. Ele respirou fundo diversas vezes, tentando com todas as foras manter-se firme conquanto sentisse o tempo
todo um terror insidioso, sobrenatural, como se estivesse a poucos centmetros dos dentes trituradores de algum monstro que no conseguia ver. O banheiro estava
frio e escuro. Ele acendeu a luz, apavorado com a idia de que poderia encontrar alguma coisa. No viu nada fora do comum. Deixou a luz acesa e se dirigiu  sala
de estar. Como se fosse um tipo de fugitivo sorrateiro, espiou atravs do arco da passagem. L estava aquele farfalhar novamente. Ele acendeu as luzes. Ah. O frio
ar noturno entrava pela porta da frente, e balanava as cortinas. No, no havia sinal de Sandy, no na sala de estar, nem em parte alguma dentro ou perto da cozinha.
Talvez ela estivesse logo do lado de fora. Mas sentiu inegvel apreenso ao pensar em atravessar a sala de estar e ir at a porta da frente, passando por todas aquelas
peas do mobilirio que podiam esconder um assaltante. Agarrou com fora o taco, mantendo-o erguido e pronto. De costas coladas  parede, ele se moveu ao longo do
aposento, dando volta ao sof, depois de ter espiado atrs dessa pea, manobrando apressado ao redor do aparelho de som, e

finalmente chegou  porta. Saiu  varanda, no frescor da noite, e por algum motivo, de repente sentiu-se mais seguro. A cidade ainda estava quieta a essa hora da
noite. Todas as outras pessoas certamente dormiam nesse momento, e no estavam a andar sorrateiras dentro de casa com tacos de beisebol na mo. Ele esperou um momento
a fim de se recuperar, e voltou para dentro. Trancar a porta atrs de si foi o mesmo que fechar-se em um armrio escuro com algumas centenas de vboras. O medo retornou
e ele agarrou com mais fora o taco. De costas para a porta, ele correu os olhos pela sala novamente. Por que estava to escura? As luzes estavam acesas, mas cada
lmpada parecia to apagada, como se envolta por uma nvoa marrom. Hogan, pensou, ou voc perdeu mesmo um parafuso, ou est em grande, grande apuro. Ele permaneceu
congelado ali perto da porta, olhando e escutando. Tinha de haver algum ou alguma coisa dentro da casa. Ele no podia ouvir nem ver quem quer que fosse, mas seguramente
sentia a sua presena. Do lado de fora da casa, abaixados entre as plantas e os arbustos, Tal e seu peloto observavam enquanto os demnios -- pelo menos quarenta,
segundo a conta de Tal -- faziam estragos na mente e no esprito de Marshall. Eles se precipitavam como negras e mortferas andorinhas, entrando na casa e saindo
dela, percorrendo os aposentos, rodopiando  volta dele, berrando insultos e blasfmias, brincando com o seu temor, e aumentando-o cada vez mais. Tal procurou ver
se enxergava o temido Rafar, mas o Baal no se encontrava entre esse grupo selvagem. No podia haver dvida, entretanto, que Rafar os enviara. Tal e os outros sofriam,
sentindo a dor de Marshall. Um demnio, um feio diabrete com o corpo coberto de espinhos eriados, pontudos, saltou aos

ombros de Marshall e ps-se a bater-lhe na cabea, berrando: "Vai morrer, Hogan! Vai morrer! Sua filha est morta e voc vai morrer!" Guilo mal podia controlar-se.
Sua enorme espada deslizou com um som metlico da bainha, mas o forte brao de Tal o deteve. -- Por favor, capito! -- implorou Guilo. -- Nunca fiquei apenas observando
uma coisa dessas! -- Contenha-se, caro guerreiro -- advertiu Tal. -- Ser um nico golpe! Guilo podia ver que tambm Tal estava sofrendo bastante com a prpria ordem.
-- Pacincia. Pacincia. Ele precisa passar por isso. Hank havia acendido as luzes da casa, mas achou que seus olhos deviam estar-lhe pregando uma pea pois os cmodos
pareciam muito escuros, as sombras ainda profundas. s vezes ele no conseguia distinguir o que se movia: se era ele mesmo ou se eram as sombras no aposento; um
movimento estranho, ondulante, de luz e sombras, fazia as profundezas da casa alternarem-se de um lado a outro como o movimento lento e constante da respirao.
Hank, parado no umbral da porta entre a cozinha e a sala de estar, observava e escutava. Achou que podia sentir um vento movendo-se atravs da casa, mas no um vento
frio vindo de fora. Era como se fosse um bafo quente, doentio, carregado de odores repulsivos, prximo e opressivo. Ele havia descoberto que o barulho na cozinha
decorrera de uma esptula que deslizara do escorredor, e cara ao cho. Isso deveria ter acalmado

imediatamente os seus nervos, mas ele ainda se sentia aterrorizado. Sabia que mais cedo ou mais tarde teria de aventurar-se at a sala de estar a fim de dar uma
olhada. Deu o primeiro passo do vo da porta para dentro do cmodo. Foi como cair em um poo sem fundo de escurido e terror. Os plos da nuca se eriaram como que
por eletricidade esttica. Seus lbios principiaram a despejar uma prece frentica. Ele foi ao cho. Antes que soubesse o que estava ocorrendo, seu corpo inclinou-se
pesadamente para a frente e bateu com fora no assoalho. Ele se tornou um animal preso numa armadilha, debatendo-se instintivamente, tentando escapar ao peso invisvel
e esmagador que o prendia. Seus braos e pernas batiam contra a moblia e derrubavam coisas, mas em seu terror e choque ele no sentia dor alguma. Ele se debatia,
revirava, arquejava tentando respirar, e estirava os membros contra o que quer que fosse, sentindo resistncia ao movimento dos braos como se estivessem cortando
a gua. A sala parecia cheia de fumaa. Negror semelhante  cegueira, perda de audio, perda de contato com o mundo real, o tempo parado. Ele sentia-se morrer.
Uma imagem, uma alucinao, uma viso ou algo realmente visto transpareceu por um instante: dois medonhos olhos amarelados cheios de dio. Sua garganta comeou a
comprimir-se, fechando. -- Jesus! -- ele ouviu sua mente bradar -- ajudame! Seu prximo pensamento, um breve, instantneo relmpago, deve ter vindo do Senhor: "Repreenda-o.
Voc tem a autoridade." Hank proferiu as palavras, embora no pudesse ouvir o som delas: "Eu o repreendo em nome de Jesus!"

O peso esmagador levantou-se to rapidamente que Hank sentiu que deixaria o cho como um foguete. Encheu os pulmes de ar e notou que estava agora debatendo-se contra
nada. Mas o terror ainda se encontrava ali, uma presena negra, sinistra. Ele se ergueu um pouco, respirou de novo, e disse claramente e bem alto: "No nome de Jesus
eu lhe ordeno que saia desta casa!" Mary acordou sobressaltada, assustada, e ento ficou aterrorizada pelo rudo de uma multido berrando em angstia e dor. Os gritos,
ensurdecedores a princpio, foram diminuindo, como que afastando-se a uma distncia invisvel. -- Hank! -- berrou ela. Marshall urrou como um selvagem e ergueu o
taco bem alto para abater seu atacante. O atacante tambm gritou, de puro terror. Era Kate. Sem saber, eles haviam batido de costas um para o outro no escuro corredor.
-- Marshall! -- exclamou ela, e sua voz tremia. Estava quase a chorar e zangada ao mesmo tempo. -- Mas o que voc est fazendo aqui? -- Kate... -- Marshall suspirou,
sentindo-se murchar como uma cmara de pneu furada. -- O que est tentando fazer, est querendo morrer? -- O que h de errado? -- Ela estava olhando para o taco
de beisebol e sabia que algo estava acontecendo. Agarrou-se a ele, receosa. -- H algum aqui dentro? -- No... -- murmurou ele em uma combinao de alvio e desagrado.
-- Ningum. Eu olhei. -- O que aconteceu? Quem era? -- Ningum, j disse.

-- Mas achei que voc estava conversando com algum. Ele a olhou com a mxima impacincia e disse em volume cada vez mais alto: -- Estou com cara de quem esteve
batendo um papinho amistoso com algum? Kate abanou a cabea. -- Devo ter sonhado. Mas foram as vozes que me acordaram. -- Que vozes? -- Marshall, parecia uma festa
de reveillon l dentro. Diga, quem era? -- Ningum. No havia ningum l. Eu olhei. Kate estava muito confusa. -- Sei que estava acordada. -- Voc ouviu fantasmas.
Ele sentiu a mo dela apertar o brao a ponto de paralisar a circulao. -- No diga isso! -- Sandy se foi. -- O que quer dizer, se foi? Foi aonde? -- Ela se foi.
O quarto dela est vazio, ela no est dentro de casa. Ela sumiu! Foi-se! Kate correu pelo corredor e olhou no quarto de Sandy. Marshall seguiu-a e observou da porta
enquanto Kate examinava o quarto, olhando no guarda-roupas e algumas gavetas. Relatou ela com alarme: -- Algumas das roupas se foram. Os livros escolares sumiram
--. Ela o fitou desamparadamente: --

Marshall, ela saiu de casa! Ele a olhou por longo momento, e depois em volta do quarto, e ento encostou a cabea contra o batente da porta com um baque surdo. --
Droga -- disse. -- Eu sabia que ela agia de modo estranho esta noite. Devia ter tentado descobrir o que estava errado. -- No nos samos muito bem hoje... ela. --
Bem, isso era bvio. Voc veio para casa sem -- E por falar nisso, como foi que ela chegou aqui? -- Sua amiga Terry a trouxe. -- Talvez ela tenha ido passar a noite
com Terry. -- Ser melhor ligarmos para saber? -- No sei... -- No sabe! Marshall cerrou os olhos e tentou pensar. -- No.  tarde. Ou ela est l, ou no est.
Se no estiver, vamos tirar gente da cama a troco de nada, e se estiver, bem, est segura. Kate parecia meio apavorada. -- Vou telefonar. Marshall ergueu a mo e
recostou a cabea no batente da porta novamente e disse: -- Ei, no fique toda assustada, est bem? D-me um minuto. -- S quero saber se ela est l... -- Est
bem, est bem... Mas Kate podia ver que havia algo muito errado

com Marshall. Ele estava plido, fraco, abalado. -- O que h, Marshall? -- D-me um minuto... Ela colocou o brao em torno dele, preocupada: -- O que ? Ele teve
de lutar para conseguir dizer: -- Estou com medo --. Tremendo um pouco, os olhos fechados, a cabea no batente da porta, ele disse de novo: -- Estou realmente com
medo, e no sei por qu. Isso assustou Kate. -- Marshall... -- No se preocupe, est bem? Fique calma. -- H algo que eu possa fazer? -- Apenas fique firme, s isso.
Kate pensou um instante. -- Bem, por que no veste o seu roupo? Aquecerei um pouco de leite, est bem? -- Sim, timo. Era a primeira vez que Hank Busche repreendia
e confrontava qualquer demnio. O certo  que haviam chegado com arrogante impudncia a princpio, caindo sobre a casa no meio da noite a fim de atacar e devastar,
berrando e lanando-se atravs dos aposentos e pulando sobre Hank, tentando aterroriz-lo. Mas enquanto Krioni, Triskal e os outros olhavam do seu esconderijo, confusos
e espalhados demnios aos bandos saram de chofre da casa, trovejando e adejando qual morcegos, berrando, indignados, tapando os ouvidos. Devia haver perto de cem,
todos os demnios desordeiros e encren-

queiros de sempre que Krioni tinha visto operando por toda a cidade. Sem dvida, o grande Baal os enviara, e agora que eles haviam sido expulsos era impossvel saber
qual seria a reao de Rafar ou seu prximo plano. Mas Hank tinha-se sado muito bem. O perigo passou num instante, cessou o apuro, e os guerreiros saram do esconderijo,
respirando melhor. Krioni e Triskal estavam bem impressionados. Comentou Krioni: -- Tal tinha razo. Ele no  to insignificante assim. -- Tem firmeza de carter,
esse Henry Busche -- concordou Triskal. Mas enquanto Hank e Mary sentavam-se tremendo  mesa da cozinha, ela preparando uma compressa gelada e ele ostentando um
vergo na testa e um sem nmero de machucados e arranhes nos braos e nas canelas, nenhum dos dois se sentia inteiramente firme, poderoso ou vitorioso. Hank dava
graas por ter escapado com vida, e Mary ainda se encontrava em leve estado de choque e descrena. Era uma situao incmoda, mas nenhum deles queria relatar sua
experincia primeiro por temer que a coisa toda nada mais fosse que um excesso de picles e salame antes de deitar. Mas o vergo de Hank continuou a inchar, e ele
s podia contar o que sabia. Mary acreditou em cada palavra, assustada como estava pelos berros que a haviam despertado. Enquanto compartilhavam sua no to agradvel
experincia, puderam aceitar que toda aquela loucura havia sido apavorantemente real, e no alguma espcie de pesadelo. -- Demnios -- concluiu Hank. Mary s conseguiu
assentir com a cabea.

-- Mas, por qu? -- desejou saber Hank. -- Qual o propsito disso? Mary no estava preparada para oferecer nenhuma resposta. Ficou esperando que Hank o fizesse.
Ele resmungou: -- Como se fosse a Lio Nmero Um em Combate na Linha de Frente. Eu no estava nem um pouquinho pronto para ela. Acho que no passei. Mary entregou-lhe
a compressa de gelo e ele a colocou contra o vergo, fazendo uma careta ao sentir a presso. -- O que o faz pensar que no passou? -- perguntou ela. -- No sei.
Acho que simplesmente ca na armadilha. Deixei-os surrar-me --. Ento ele orou: "Senhor Deus, ajuda-me a estar preparado da prxima vez. D-me a viso, a sensibilidade
para saber o que eles esto aprontando." Mary apertou-lhe a mo, disse amm, e ento comentou: -- Sabe, posso estar enganada, mas o Senhor j no fez isso? Isto
, como  que voc vai saber como lutar contra os ataques diretos de Satans a menos que simplesmente... o faa? Era o que Hank precisava ouvir. -- Puxa -- disse
ele pensativo. -- Sou um veterano. -- E no fique pensando tambm que no passou no teste. Eles se foram, no foram? E voc ainda est aqui, e precisava ter ouvido
aqueles berros. -- Tem certeza de que no era eu? -- Absoluta.

Ento veio um longo, inquieto silncio. -- E agora? -- perguntou Mary finalmente. -- Ah... vamos orar -- disse Hank. Para ele, essa era uma opo a que era fcil
recorrer. E orar eles fizeram, dando-se as mos em volta da pequena mesa da cozinha, conferenciando com o Senhor. Agradeceram-lhe a experincia daquela noite, o
t-los protegido do perigo, o ter-lhes permitido vislumbrar bem de perto o inimigo. Mais de uma hora se passou, e durante aquele tempo o campo de cuidado foise ampliando;
seus problemas particulares comearam a ocupar lugar muito pequeno em uma perspectiva muito mais ampla enquanto Hank e Mary oravam pela igreja, pelas pessoas que
nela se congregavam, pela cidade, por seus dirigentes, pelo estado, pelo pas, pelo mundo. Atravs de tudo aquilo veio a linda tranqilidade de que haviam de fato
estado ligados ao trono de Deus e conduzido srio negcio com o Senhor. Cresceu a determinao de Hank de ficar na briga e atrapalhar Satans ao mximo. Estava certo
de que isso era o que Deus desejava. O leite morno e a companhia de Kate agiram como calmante nos nervos de Marshall. A cada gole e a cada minuto adicional de normalidade,
ele adquiria mais e mais segurana de que o mundo continuaria a existir, ele viveria, o sol se levantaria pela manh. Admirava-se de como as coisas, to pouco tempo
atrs, pareceram desoladas. -- Sente-se melhor? -- perguntou Kate, passando manteiga numa fatia de po que acabara de torrar. -- Sim -- respondeu ele, notando que
seu corao retraa-se de novo ao peito e voltava ao ritmo normal, rotineiro. -- Credo, no sei que bicho me mordeu. Kate ps as duas fatias torradas num prato e
as colocou sobre a mesa. Marshall mordeu ruidosamente a

torrada e perguntou: -- Ento ela no est na casa de Terry? Kate sacudiu a cabea. -- Voc quer falar acerca de Sandy? Marshall estava pronto. --  bem provvel
que precisemos falar a respeito de uma poro de coisas. -- No sei como comear... -- Voc acha que a culpa  minha? -- Oh, Marshall... -- Vamos, seja honesta.
Estive levando uma surra no traseiro o dia todo. Escutarei. Os olhos dela encontraram os dele e no se desviaram, denotando sinceridade e firme amor. -- Categoricamente,
no -- disse ela. -- Estraguei tudo hoje. -- Acho que todos estragamos, e isso inclui Sandy. Ela tambm fez algumas escolhas, lembra-se? -- E, mas talvez fosse por
no lhe termos dado nada melhor. -- O que voc acha de conversar com o Pastor Young? --  esse o problema. -- Hum? Hogan sacudiu a cabea desanimado. -- Talvez...
talvez Young seja um pouco acomodado demais, sabe? Ele est metido nesse negcio da famlia humana, de descobrir-se a si mesmo, de salvar as baleias... Kate ficou
meio surpresa.

-- Achei que voc gostava do Pastor Young. -- Bem... acho que gosto. Mas, s vezes, no, quase sempre, nem mesmo sinto que estou indo  igreja. Poderia muito bem
estar sentado numa reunio de clube ou em alguma das aulas esquisitas da Sandy. Ele examinou os olhos da esposa. Ainda estavam firmes. Ela estava ouvindo. -- Kate,
voc nunca tem a sensao de que Deus tem de ser, sabe, um pouco... maior? Mais duro? O Deus que nos passam naquela igreja, sinto que ele nem mesmo  uma pessoa
real, e se for,  mais tonto do que ns. No posso esperar que Sandy aceite aquela baboseira. Nem em mesmo aceito. -- Nunca pensei que era isso o que voc sentia,
Marshall. -- Bem, talvez nem eu mesmo soubesse.  apenas que essa coisa hoje  noite... Tenho de realmente pensar sobre ela; tem acontecido tanta coisa ultimamente.
-- De que est falando? O que tem acontecido? No lhe posso dizer, pensou Marshall. Como poderia explicar a estranha e hipntica persuaso a que estava certo de
ter sido submetido por Brummel, a sensao arrepiante que lhe dera a professora de Sandy, o puro terror que sentira essa noite? Nada disso fazia sentido, e agora,
para completar, Sandy se fora. Em todas essas situaes, ele estivera horrorizado com sua prpria incapacidade de enfrentar e lutar. Tinha-se sentido controlado.
Mas no podia contar a Kate nada disso. -- Olhe...  uma longa histria -- disse por fim. -- Tudo o que sei  que todo este negcio, o nosso modo de vida, nossa
programao, nossa famlia, nossa religio, o que quer que seja, simplesmente no est funcionando. Algo tem de mudar.

-- Mas no acha que deve falar com o Pastor Young? -- Ele  um convencido... Naquele exato momento,  1:00 da manh, o telefone tocou. -- Sandy! -- exclamou Kate.
Marshall arrebatou o telefone do gancho. -- Al? -- Al? -- disse uma voz feminina. -- Voc est em p! Marshall, desapontado, reconheceu a voz. Era Berenice. --
Oh, oi, Bernie -- disse ele, olhando para Kate, cujo rosto afundou em frustrao. -- No desligue! Desculpe telefonar to tarde assim, mas sa com algum e no cheguei
a casa at tarde, mas queria revelar aquele filme... voc est bravo? -- Ficarei bravo amanh. No momento estou cansado demais. O que descobriu? -- Veja s. Sei
que o filme na mquina tinha doze fotos do parque, incluindo as de Brummel, Young e aqueles trs desconhecidos. Hoje fui para casa e acabei o rolo, mais doze chapas:
meu gato, a vizinha que tem uma grande pinta, o noticirio da noite, etectera. As fotos de hoje saram. Houve uma pausa, e Marshall sabia que teria de perguntar:
-- E as outras? -- A emulso estava escurecida, totalmente exposta, o filme arranhado e com marcas de dedos. No h nada errado com a mquina. Marshall nada disse
durante longo instante. -- Marshall... al?

-- Que interessante -- disse ele. -- Eles esto aprontando alguma! Estou toda excitada. Estou pensando em ver se consigo descobrir onde foram parar essas chapas.
Houve outra longa pausa. -- Al? -- Que cara tinha a outra mulher, a loira? -- No muito velha, cabelos loiros, longos... com cara um tanto malvada. -- Gorda? Magra?
Mais ou menos? -- Era bem elegante. A testa de Marshall franziu um pouco, e os olhos vaguearam enquanto ele seguia o que estava pensando. -- At amanh. -- At logo,
e obrigada por atender. Marshall desligou o telefone. Fitou o olhar na mesa, os dedos a tamborilar. -- De que se tratava? -- perguntou Kate. -- Hum -- disse ele,
ainda pensando. Ento, respondeu: -- Ah, negcio do jornal. Nada demais. De que mesmo estvamos falando? -- Bem, se ainda tem importncia, estvamos apenas falando
sobre se voc devia ou no ir conversar com o Pastor Young a respeito do nosso problema... -- Young -- disse ele, e a voz soou quase zangada. -- Mas se no quer...
Marshall permaneceu fitando a mesa enquanto o seu leite esfriava. Kate esperou, depois despertou-o, dizendo:

-- Talvez prefira falar disto de manh? -- Falarei com ele -- disse Marshall terminantemente. -- Eu... Eu quero falar com ele. Pode apostar que quero falar com ele!
-- No prejudicaria. -- No, nem um pouco. -- No sei quando ele poderia marcar uma hora para voc, mas -- -- Uma da tarde seria bom. Ele franziu de leve as sobrancelhas.
-- Uma da tarde seria perfeito. -- Marshall... -- comeou Kate, mas se deteve. Algo estava acontecendo ao marido, e ela captou-o na voz, na expresso dele. Ela jamais
percebera a ausncia daquele fogo em seus olhos; talvez nunca tivesse notado que se fora at este momento, quando, pela primeira vez desde que haviam deixado Nova
York, ela o viu novamente. Umas sensaes antigas, desagradveis, surgiram em seu ntimo, sensaes que no tinha desejo de enfrentar tarde da noite com a filha
misteriosamente desaparecida. -- Marshall -- disse ela, afastando a cadeira e apanhando o prato de torradas meio comidas -- vamos dormir um pouco. -- Talvez eu no
consiga dormir. -- Eu sei -- disse ela baixinho. Todo esse tempo, Tal, Guilo, Nat e Armote haviam permanecido no aposento, observando cuidadosamente, e nesse momento
Guilo ps-se a rir com aquele grasnar rouco que lhe era peculiar.

Tal disse sorrindo: -- No, Marshall Hogan. Voc nunca foi de dormir muito... e agora Rafar ajudou a despert-lo novamente!

7
Na manh de tera-feira o sol brilhava atravs das janelas e Mary estava ocupada em sovar, com fria, uma massa de po. Hank encontrou o nome e o nmero no arquivo
da igreja: o Reverendo James Farrel. Ele no conhecia a Farrel, e tudo o que sabia era o mexerico malicioso e de mau gosto que corria acerca do homem que o precedera
e que se havia mudado para longe de Ashton desde que deixara a igreja. Era um impulso, uma mera tentativa, disso Hank sabia. Mas sentou-se no sof, apanhou o telefone
e discou o nmero. -- Al? -- atendeu a voz cansada de um homem mais velho. -- Al -- disse Hank, tentando soar agradvel a despeito dos nervos retesados. -- James
Farrel? -- Sim. Quem fala? -- Aqui  Hank Busche, pastor da -- ele ouviu Farrel dar um longo, conhecedor suspiro -- Igreja da Comunidade de Ashton. Acho que deve
saber quem sou. -- Sim, Pastor Busche. Ento, como vai? Como responder a essa pergunta, pensou Hank. -- Ah... bem, em alguns aspectos. -- E no to bem em outros
-- interveio Farrel, completando o pensamento de Hank. -- Puxa, voc realmente tem-se mantido a par das

coisas. -- Bem, no ativamente. Mas recebo notcias atravs de alguns membros de tempos em tempos --. Ento acrescentou depressa: -- voc? Alegro-me que tenha ligado.
O que posso fazer por -- Ah... conversar comigo, acho. Farrel respondeu: -- Tenho certeza de que h muita coisa que eu poderia lhe dizer. Estou sabendo que vai haver
uma assemblia extraordinria nesta sexta.  verdade? -- , sim. -- Um voto de confiana, pelo que sei. --  isso mesmo. -- Sim, passei pela mesma coisa, como sabe.
Brummel, Turner, Mayer e Stanley dirigiram aquela reunio tambm. -- Deve estar brincando. -- Oh,  estritamente a histria que se repete, Hank. Acredite no que
digo. -- Eles tiraram voc? -- Eles decidiram que no gostavam do que eu estava pregando e do rumo que meu ministrio estava tomando, e assim alvoroaram a congregao
contra mim e depois deram um jeito de fazer uma votao. No perdi por muito, mas perdi. -- Os mesmos quatro sujeitos! -- Os mesmos quatro... mas agora,  certo
o que ouvi dizer? Voc realmente eliminou Lou Stanley da comunho? -- Bem, sim. -- Olhe, isso no  pouco. No posso imaginar Lou

permitir que algum fizesse isso com ele. -- Bem, os outros trs fizeram dessa uma questo primordial; no me deixaram mais em paz com relao ao assunto. -- E para
que lado a congregao est pendendo? -- No sei. Ela pode estar bem equilibrada. -- Ento como est agentando tudo isso? Hank no podia pensar em uma forma melhor
de enunciar a questo. Disse: -- Acho que estou sob ataque, ataque direto, espiritual --. Silncio do outro lado da linha. -- Al? -- Oh, estou aqui -- Disse Farrel
devagar, hesitante, como se estivesse pensando muito enquanto tentava conversar. -- Que tipo de ataque espiritual? Hank gaguejou um pouco. Ele podia imaginar como
a experincia da noite anterior pareceria a um estranho. -- Bem... acho que Satans est realmente envolvido aqui... Farrel estava quase exigindo: -- Hank, que tipo
de ataque espiritual? Hank comeou cuidadosamente a sua narrativa, tentando com todas as foras parecer um indivduo racional e responsvel enquanto relatava os
pontos principais: a obsesso que Brummel parecia ter em livrar-se dele, a diviso na igreja, o mexerico, a zanga do conselho, as palavras pichadas na frente da
sua casa, e depois a luta livre espiritual por que tinha passado na noite anterior. Farrel interrompia apenas para pedir esclarecimentos. -- Sei que tudo isso soa
como loucura... -- concluiu Hank. Tudo o que Farrel pde fazer foi soltar um profundo suspiro e murmurar:

-- Que coisa horrvel! -- Bem, como voc diz,  a histria que se repete. Sem dvida, voc encontrou coisas desse tipo, certo? Ou sou eu quem realmente tem um problema
aqui? Farrel debateu-se  procura de palavras. -- Fico contente por ter chamado. Sempre tive dvidas se devia ou no ligar para voc. No sei se vai gostar de ouvir
isto, mas... -- Farrel pausou a fim de ganhar nova fora, ento disse: -- Hank, voc tem certeza de que seu lugar  a? Hank sentiu suas defesas se erguerem. --
Sim, creio firmemente de corao que Deus me chamou para aqui. -- Voc sabe que foi por acidente que foi escolhido como pastor? -- Bem, h gente dizendo isso, mas...
--  verdade, Hank. Voc realmente deveria levar isso em considerao. Sabe, a igreja me tirou do cargo; eles tinham outro ministro escolhido e pronto para assumir,
um sujeito com filosofia religiosa ampla e liberal o bastante para satisfazer-lhes. Hank, realmente no sei como voc acabou sendo eleito, mas foi definitivamente
algum tipo de acaso organizacional. A nica coisa que eles no queriam a era outro ministro fundamentalista, no depois de todo o trabalho que tiveram para se livrar
do anterior. -- Mas eles me elegeram. -- Foi um acidente. Brummel e os outros definitivamente no contavam com a sua vitria. -- Bem, agora sei disso. -- Est bem,
timo, voc enxerga a situao. Ento, deixe-me passar a um conselho direto. Agora, depois de sexta-feira tudo isto pode muito bem ser

irrelevante, de qualquer forma, mas se eu fosse voc, trataria de fazer as malas e comearia a procurar uma posio em outro lugar, no importa o resultado da votao.
Hank murchou um pouco. A conversa estava azedando; ele simplesmente no conseguia aceitar o conselho. Tudo o que podia fazer era suspirar ao telefone. Farrel insistiu.
-- Hank, eu j estive nessa posio, j passei por tudo isso, e sei pelo que ainda ter de passar. Acrediteme, no vale a pena. Deixe que fiquem com a igreja, deixe
que fiquem com a cidade toda; apenas no se sacrifique. -- Mas no posso ir embora... -- Sim, certo, voc recebeu um chamado de Deus. Hank, eu tambm. Eu estava
pronto para entrar na briga, a assumir um posio por Deus nessa cidade. Voc sabe, custou-me meu lar, minha reputao, minha sade, e quase me custou meu casamento.
Deixei Ashton literalmente pensando em mudar de nome. Voc no tem a mnima idia de quem est realmente enfrentando. H foras operando nessa cidade... -- Que tipo
de foras? -- Bem, polticas, sociais... espirituais tambm, claro. -- Ah, , voc no chegou a responder  minha pergunta: o que me diz do que aconteceu aqui ontem
 noite? O que acha disso? Farrel hesitou, ento disse: -- Hank... no sei por qu, mas acho muito difcil falar sobre esse tipo de coisas. Tudo o que posso dizer
: saia desse lugar enquanto pode. Largue tudo. A igreja no o quer, a cidade no o quer.

-- No posso ir embora. J lhe disse. Farrel fez uma longa pausa. Hank quase temeu que tivesse desligado. Mas ento ele disse: -- Est bem, Hank. Vou lhe dizer,
e voc escute. Aquilo por que passou ontem  noite... bem, acho que posso ter tido experincias parecidas, mas posso lhe assegurar, o que quer que tenha sido, foi
apenas o comeo. -- Pastor Farrel... -- No sou pastor. Pode me chamar de Jim. -- Essa  a essncia do evangelho, lutar contra Satans, fazer a luz do evangelho
brilhar na escurido... -- Hank, todos os belos chaves que desencavar no vo ajud-lo nessas horas. Agora, no sei se voc est equipado ou pronto, mas para ser
perfeitamente honesto, se conseguir sair vivo dessa, ficarei surpreso. Estou falando srio! Hank no tinha resposta. -- Jim... ligarei para contar o que aconteceu.
Talvez eu vena, e talvez no saia vivo. Mas Deus no me disse que eu sairia vivo; apenas me disse que ficasse e lutasse. Uma coisa voc deixou clara para mim: Satans
quer mesmo esta cidade. No posso permitir que a tome. Hank colocou o telefone no gancho e sentiu vontade de chorar. "Senhor Deus", orou, "Senhor Deus, o que devo
fazer?" O Senhor no deu resposta imediata, e Hank permaneceu sentado no sof diversos minutos, tentando recuperar a fora e a confiana. Mary ainda estava ocupada
na cozinha. Que bom! Ele no poderia conversar com ela nesse momento;

muitos eram os pensamentos e as sensaes que precisavam ser ordenados. Ento, um versculo lhe veio  mente: "Levanta, anda pela terra no seu comprimento e na sua
largura; pois eu ta darei." Bem, era muito melhor do que ficar sentado em casa irrequieto e zangado sem realmente fazer nada. Assim, em frente seguiram os seus tnis
e porta afora ele se foi. Krioni e Triskal estavam do lado de fora, esperando seu protegido. Invisveis, juntaram-se a Hank, um de cada lado, e desceram com ele
a rua Morgan Hill em direo ao centro da cidade. Hank j no era mesmo muito alto, mas entre esses dois gigantes, parecia menor ainda. Contudo, parecia muito, muito
bem guardado. Triskal, mantendo-se de olhos abertos, disse: -- Mas, afinal, o que ele vai fazer? A essa altura, Krioni j conhecia Hank muito bem. -- Acho que nem
ele mesmo sabe. O Esprito o est levando. Ele est colocando em ao um peso que traz dentro de si. -- Oh, haver ao, no tenha dvida! --  s no constituir
uma ameaa. At agora, tem sido a melhor maneira de sobreviver nesta cidade. -- Ento diga isso ao pastorzinho aqui. Ao se aproximar do principal distrito comercial,
Hank deteve-se numa esquina para olhar rua acima e rua abaixo, observando carros antigos, carros novos, furges e possantes caminhonetes, gente fazendo compras,
andando, praticando cooper, bicicletas, fluindo em quatro ou mais direes, considerando as ordens do semforo como meras sugestes.

E ento, onde estava o mal? Como podia ter sido to vivo na noite anterior e uma lembrana remota, incerta hoje? No havia nenhum demnio ou diabo espreitando das
janelas dos escritrios ou saindo dos bueiros; o povo era a mesma gente simples e comum que ele sempre tinha visto, ainda ignorando-o e passando por ele. Sim, esta
era a cidade pela qual ele orava dia e noite com profundos gemidos sados do corao por causa de um peso que no conseguia explicar, e agora estava esgotando a
sua pacincia, desassossegando-o. "Bem, voc est em apuros ou no est, ou nem mesmo se importa?", perguntou ele em voz alta. Ningum escutou. Nenhuma sinistra
respondeu com uma ameaa. voz profunda,

Mas o Esprito do Senhor em seu ntimo no o deixava em paz. Ore, Hank. Ore por essas pessoas. No as deixe escapar de seu corao. A dor est a, o medo est a,
o perigo est a. Ento, quando vencemos? respondeu Hank ao Senhor. O Senhor sabe h quanto tempo me tenho preocupado e orado por este lugar? S uma vez gostaria
de ver meu pedregulho fazer onda; gostaria de ver esse cachorro morto estremecer quando o cutuco. Era incrvel que os demnios pudessem esconderse to bem, at mesmo
por trs das dvidas que ele s vezes sentia quanto  prpria existncia deles. "Sei que vocs esto por a", disse ele baixinho, correndo cuidadosamente os olhos
pelas faces inexpressivas dos prdios, o concreto, o tijolo, o vidro, o lixo. Os espritos estavam zombando dele. Podiam desabar sobre ele num momento, aterroriz-lo,
sufoclo, e depois sumir, recolhendo-se aos esconderijos detrs da fachada da cidade, caoando, brincando de escondeesconde, vendo-o tatear s cegas como um tolo.

Irritado, ele se sentou num banco da calada. "Estou aqui, Satans", disse ele. "No posso v-lo, e talvez voc consiga mover-se mais depressa do que eu, mas ainda
assim estou aqui, e pela graa de Deus e pelo poder do Esprito Santo tenho a inteno de ser um espinho em seu lado at que um de ns pea gua!" Hank olhou do
outro lado da rua para a magnfica estrutura da Igreja Crist Unida de Ashton. Ele havia conhecido alguns cristos espetaculares que pertenciam quela denominao,
mas esse bando de Ashton em particular era diferente, liberal, quase bizarro. Ele encontrara o Pastor Oliver Young algumas vezes e nunca conseguira aproximar-se
muito dele. Young parecia meio frio e distante, e Hank nunca conseguira descobrir por qu. Enquanto Hank esteve ali sentado, olhando um carro marrom entrar no estacionamento
da igreja, Triskal e Krioni ficaram em p, ao lado do banco, tambm olhando o carro parar. Somente eles dois conseguiam ver os passageiros especiais do carro. Em
cima do veculo estavam dois grandes guerreiros, o rabe e o africano, Nat e Armote. No havia espadas  vista. Eles estavam assumindo uma postura passiva, no
combatente, de acordo com as ordens de Tal, exatamente como todos os outros. Marshall tinha visto o filme de Berenice. Vira os pequeninos arranhes resultantes de
algum tipo de manuseio imprprio: vira as toscas impresses digitais a intervalos regulares que poderiam muito bem ter sido deixadas por uma mo ao tirar o filme
da mquina, expondo-o  luz. Marshall conseguira marcar uma entrevista com Young para  1:00 da tarde. Ele entrou com o carro no vasto estacionamento asfaltado s
12:45, ainda acabando de engolir um hambrguer de queijo e um

caf grande. A Igreja Crist Unida de Ashton era um dos grandes e imponentes edifcios da cidade, construda, em estilo tradicional, com grandes pedras, vitrais,
linhas altaneiras, torre majestosa. A porta da frente no fugia ao padro: grande, slida, at algo assustadora, especialmente quando algum tentava abri-la sozinho.
A igreja estava localizada prximo ao centro da cidade, e o carrilho da torre tocava a cada hora e dava um breve concerto de hinos ao meio-dia. Era um estabelecimento
respeitado. Young era um ministro respeitado. As pessoas que freqentavam a igreja eram membros respeitados da comunidade. Marshall muitas vezes pensara que respeito
e posio deviam ser pr-requisitos para ser aceito como membro. Ele engajou a grande porta da frente em breve embate de brao de ferro e finalmente conseguiu entrar.
No, esta congregao jamais havia economizado, disso estava certo. O piso da entrada, das escadas, do templo estava coberto com espesso carpete vermelho, o madeirame
era todo de carvalho e nogueira, escurecido e envernizado. Alm disso, havia todo aquele lato: maanetas, cabides para casacos, corrimo das escadas, arremates
das janelas, tudo em lato. As janelas, naturalmente, eram vitrais; todos os tetos eram elevados, com grandes candelabros pendentes, e delicado arabesco. Marshall
entrou no templo atravs de outra pesada porta e caminhou pelo longo corredor central at a frente. Esse aposento era um misto de teatro lrico e caverna: a plataforma
era grande, o plpito era grande, a galeria do coro era grande. Naturalmente, o coro tambm era grande. O grande gabinete do Pastor Young, logo ao lado do templo,
permitia acesso bem visvel  plataforma e ao plpito, e a entrada do Pastor Young atravs da grande

porta de carvalho todas as manhs de domingo era parte tradicional das cerimnias. Marshall abriu aquela grande porta e entrou no escritrio de recepo. A bonita
secretria cumprimentou-o, mas no sabia quem ele era. Ele lhe disse, ela examinou o livro-horrio e confirmou a entrevista. Marshall tambm examinou o horrio,
lendo de cabea para baixo novamente. O horrio das 2:00hs estava marcado A. Brummel. -- Bem, Marshall -- disse Young com um sorriso e um aperto de mo cordiais
e sistemticos -- entre, entre. Marshall seguiu Young para dentro de seu luxuoso gabinete. Young, um homem corpulento de seus sessenta anos, com rosto arredondado,
culos de aro fino, e cabelos finos e bem assentados, parecia satisfeito com a posio que desfrutava tanto na igreja quanto na comunidade. As paredes apaineladas
ostentavam muitas condecoraes de organizaes comunitrias e beneficentes. Ao lado delas, havia diversas fotos emolduradas de Young posando com o governador, alguns
evangelistas populares, alguns autores, e um senador. Atrs de sua imponente escrivaninha, Young criava um perfeito quadro do profissional bem sucedido. A cadeira
de couro, de espaldar alto, tornava-se um trono, e o prprio reflexo do homem no topo da mesa o tornava ainda mais pitoresco e impressionante, como uma montanha
refletida em lago alpino. Com um gesto, ele indicou a Marshall uma cadeira, e Marshall sentou-se, notando que afundava a um nvel em que seus olhos ficavam bem abaixo
dos de Young. Comeou a sentir um conhecido qu de intimidao; todo esse gabinete parecia projetado para esse fim.

-- Belo gabinete -- comentou ele. -- Muito obrigado -- disse Young com um sorriso que empurrou as bochechas, empilhando-as contra as orelhas. Reclinou-se em sua
cadeira, os dedos entrelaados e agitados na beirada da escrivaninha. -- Gosto dele, sou grato por ele, e aprecio bastante o calor, a atmosfera deste lugar. Deixa
a gente  vontade. Deixa voc  vontade, pensou Marshall. -- Sim... . -- E ento, como est indo o Clarim? -- Oh, recuperando-se. Voc recebeu o de hoje? -- Sim,
estava muito bom. Muito alinhado, no estilo. Voc trouxe consigo um pouco da classe de cidade grande, pelo que vejo. -- Hum. De repente, Marshall no sentia muita
vontade de falar. -- Fico contente por voc estar aqui conosco, Marshall. Esperamos ter um relacionamento muito bom. -- Oh, sim, obrigado. -- E ento, o que o trouxe
aqui? Marshall remexeu-se um pouco, e ento ergueu-se de um salto; aquela cadeira o fazia sentir-se demasiadamente como um micrbio debaixo do microscpio. Da prxima
vez, trarei minha prpria escrivaninha enorme, pensou ele. Deu uma volta pelo gabinete, tentando parecer despreocupado. -- Temos muito o que cobrir em uma hora --
comeou. -- Podemos sempre marcar outros horrios.

-- Sim, claro. Bem, antes de mais nada, Sandy --  minha filha -- fugiu de casa ontem  noite. No tivemos notcia alguma, no sabemos onde ela est... -- Ele deu
a Young uma rpida sinopse do problema e seu histrico, e Young ouviu atentamente, sem interromper. -- Ento -- perguntou Young, afinal -- voc acha que ela deu
as costas aos seus valores tradicionais e isso o perturba? -- Olhe, no sou uma pessoa profundamente religiosa, sabe como ? Mas algumas coisas tm de ser certas,
e algumas coisas tm de ser erradas, e minha dificuldade com Sandy  ela ficar apenas... apenas pulando de um lado para outro da cerca. Young ergueu-se majestosamente
de sua escrivaninha e caminhou at Marshall com ar de um pai compreensivo. Colocando a mo no ombro de Marshall, disse: -- Voc acha que ela  feliz, Marshall? --
Nunca a vejo feliz, e  provavelmente porque est perto de mim toda a vez que a vejo. -- E isso pode ser devido ao fato de voc ter dificuldade em compreender o
rumo que ela est agora escolhendo para a prpria vida.  bvio que voc projeta um desagrado definido em relao s filosofias dela... -- Sim, e em relao  professora
que despeja todas aquelas filosofias em cima dela. Voc conhece aquela... qual  mesmo o nome? Professora Langstrat, da faculdade? Young pensou, depois meneou a
cabea. -- Acho que Sandy j fez dois cursos com ela, e a cada trimestre descubro que minha filha est ainda mais fora da realidade.

O pastor deu uma risadinha. -- Marshall, parece-me que ela est apenas explorando, apenas tentando conhecer o mundo, o universo em que vive. Voc no se lembra de
quando estava crescendo? Havia tanta coisa que simplesmente no era verdadeira at que voc pudesse comprov-la por si mesmo. Provavelmente,  isso o que est acontecendo
com Sandy no momento. Ela  uma garota muito inteligente. Tenho certeza de que apenas precisa explorar, encontrar-se. -- Bem, quando ela descobrir onde est, espero
que telefone. -- Marshall, estou certo de que ela se sentiria muito mais  vontade para telefonar se pudesse encontrar coraes compreensivos em casa. No temos
o direito de determinar o que outra pessoa deve fazer consigo, ou pensar a respeito de seu lugar no cosmo. Cada pessoa precisa encontrar seu prprio caminho, sua
prpria verdade. Se algum dia vamos conviver como uma famlia civilizada aqui neste planeta, teremos de aprender a respeitar o direito que os outros tm a seus prprios
pontos de vista. Marshall percebeu um vislumbre de dj vu, como se uma gravao do crebro de Sandy tivesse sido ligada ao de Young. No pde deixar de perguntar:
-- Voc tem certeza de que no conhece a professora Langstrat? -- Absoluta -- respondeu Young com um sorriso. -- E Alf Brummel? -- Quem? -- Alf Brummel, o Delegado
de polcia. Marshall observou-lhe o rosto. Estaria ele se debatendo em responder? Young finalmente disse:

-- Posso t-lo visto uma vez ou outra... Estava apenas tentando juntar o nome ao rosto. -- Bem, ele pensa como voc. Fala muito a respeito de as pessoas se darem
bem e no causarem encrencas. Como foi que ele chegou a ser um tira, palavra que no sei. -- Mas no estvamos falando de Sandy? -- , est bem. Pode falar. Young
continuou. -- Todas as perguntas com as quais voc est-se debatendo, as questes do certo e errado, ou o que  a verdade, ou nossos pontos de vista diferentes a
respeito desses assuntos... tantas dessas coisas so impenetrveis, a no ser no corao. Todos ns sentimos a verdade como um pulsar comum em cada um de ns. Cada
ser humano tem uma capacidade natural para o bem, para amar, para esperar e esforarse pelos melhores interesses prprios e de seu prximo. -- Acho que voc no
estava aqui durante o Festival. Young soltou um risinho. -- Admito que ns humanos certamente podemos direcionar mal as nossas melhores inclinaes. -- E por falar
nisso, diga, voc chegou a ir ao Festival? -- Sim, algumas partes. Receio que a maior parte pouco me interessasse. -- Ento, voc no esteve no parque de diverses?
-- Claro que no.  jogar dinheiro fora. Mas, falando de Sandy... -- , estvamos falando acerca do que  verdadeiro, e as opinies de todo o mundo... como a questo
de Deus, por exemplo. Ela no parece encontrlo, eu estou somente tentando defini-lo, no conseguimos chegar a um acordo quanto  nossa religio, e

at agora voc no ajudou muito. Young sorriu pensativo. Marshall podia perceber uma homlia muito elevada a caminho. -- O seu Deus -- disse Young -- est onde o
encontrar, e para encontr-lo, precisa apenas abrir os olhos e perceber que ele est verdadeiramente dentro de todos ns. Jamais estivemos sem ele, Marshall; acontece
somente que nossa ignorncia nos cegou, e isso nos impediu de receber o amor, a segurana e o significado que todos desejamos. Jesus revelou o nosso problema na
cruz, lembra-se? Ele disse: "Pai, perdoa-os, pois no sabem... Por isso, o exemplo que ele nos deu  o de buscarmos conhecimento, onde quer que possamos encontr-lo.
 isso o que voc est fazendo, e estou convencido de que  isso o que Sandy est fazendo. A fonte do seu problema  uma perspectiva estreita, Marshall. Precisa
ter a mente aberta. Precisa buscar, e Sandy precisa buscar. -- Ento -- disse Marshall pensativo -- voc est dizendo que  tudo uma questo de como vemos as coisas?
-- Isso seria uma parte, sim. -- E que se eu perceber algo de certa maneira, no quer dizer que todo mundo vai enxerg-lo da mesma maneira, certo? -- Sim, est certo!
-- Young parecia muito contente com seu aluno. -- Ento... deixe-me ver se entendi bem. Se minha reprter, Berenice Krueger, teve a percepo de que voc, Brummel,
e trs outras pessoas estavam fazendo uma pequena reunio atrs da barraca de dardos no parque de diverses... bem, essa foi apenas a percepo que ela teve da realidade?
Young sorriu com um sorriso estranho, do tipo

aonde-est-tentando chegar, e respondeu: -- Suponho que sim, Marshall. Acho que esse seria um exemplo. No cheguei nem perto do parque, e j lhe disse isso. Tenho
horror a essas coisas. -- Voc no estava l com Alf Brummel? -- No, de jeito nenhum. Por isso, como v, a Srta. Krueger teve uma percepo muito incorreta de outra
pessoa. -- De vocs dois, suponho. Young sorriu e deu de ombros. Marshall insistiu um pouco. -- Qual voc acha que  a probabilidade de isso acontecer? Young continuou
a sorrir, mas seu rosto corou um pouco. -- Marshall, o que deseja que eu faa? Argumentar com voc? Certamente voc no veio aqui para esse tipo de coisa. Marshall
lanou a isca para ver o que apanharia. -- Ela conseguiu at tirar umas fotos de vocs. Young suspirou e olhou por um momento para o cho. Depois, disse friamente:
-- Ento, por que voc no traz essas fotos da prxima vez, e a poderemos falar sobre elas? O risinho no rosto de Young atingiu Marshall como se fosse cuspo. --
Est bem -- resmungou Marshall, sem abaixar os olhos. -- Marge marcar outro horrio para voc. -- Muito obrigado. Marshall olhou no relgio de pulso, foi at a
porta e a abriu. -- Entre, Alf.

Alf Brummel estivera sentado na sala de recepo. Ao dar com Marshall, levantou-se precipitadamente, desajeitado. Tinha o aspecto que algum poderia ter uma frao
de segundo antes de ser atingido por um trem. Marshall agarrou Alf pela mo e a sacudiu excitadamente. -- Ei, amigo! Olhe, j que, pelo visto, vocs dois no se
conhecem muito bem, deixem-me apresent-los. Alf Brummel, este  o Reverendo Oliver Young. Reverendo, Alf Brummel, Delegado de polcia! Brummel deu a impresso de
no apreciar nem um pouco a cordialidade de Marshall, mas Young sim. Adiantou-se, agarrou a mo de Brummel, apertou-a, e depois puxou o Delegado rapidamente para
dentro do gabinete, dizendo por sobre o ombro: -- Marge, marque outro horrio para o Sr. Hogan. Mas o Sr. Hogan j no se encontrava ali.

8
Triste, Sandy Hogan estava sentada  mesinha de almoo numa praa do campus sombreada por um caramancho. Seu olhar estava fixo num hambrguer pr-preparado e aquecido
em forno de microondas, que esfriava aos poucos, e numa caixinha de leite que aos poucos ficava morno. Ela conseguira assistir s aulas naquela manh, nem absorvera
a maior parte delas. A sua mente estava demasiado ocupada consigo mesma, sua famlia, e seu belicoso pai. Alm disso, tinha sido uma forma horrvel de passar a noite,
atravessar a cidade de ponta a ponta, e ficar sentada a noite toda na estao rodoviria de Ashton, lendo o texto de psicologia. Aps a ltima aula do dia, ela havia
tentado

tirar uma soneca no gramado do jardim da escultura, e chegara at a dar um breve cochilo. Quando acordou, o seu mundo no havia melhorado, e ela tinha apenas duas
impresses: fome e solido. Agora, sentada naquela mesinha com o almoo comprado na mquina, sua solido estava empurrando para longe a fome e ela estava  beira
das lgrimas. -- Por que, Papai? -- murmurou em tom quase inaudvel, mexendo o leite com o canudo. -- Por que voc no me consegue amar do jeito que sou? Como podia
ele ter tanta coisa contra ela quando mal a conhecia? Como podia ser to inflexvel contra os seus pensamentos e filosofias quando nem mesmo conseguia compreend-los?
Os dois viviam em mundos diferentes, e cada qual desprezava o do outro. Na noite anterior ela e o pai no haviam trocado palavra, e Sandy fora deitar-se deprimida
e zangada. Mesmo enquanto ouvia os pais apagarem as luzes, escovarem os dentes, e se deitarem, pareciam estar a meio mundo de distncia. Ela desejava cham-los para
virem ao seu quarto e estender-lhes os braos, mas sabia que no daria certo; o pai faria exigncias e imporia condies ao relacionamento, em vez de am-la, simplesmente
am-la. Ela ainda no sabia o que a havia aterrorizado no meio da noite. Tudo o de que conseguia se recordar era ter acordado acossada por todos os medos que j
tivera -- medo da morte, medo do fracasso, medo da solido. Ela tinha de sair da casa. Ela sabia, mesmo enquanto se vestia s pressas e saia correndo pela porta,
que era tolice e no adiantaria nada, mas as sensaes eram mais fortes do que qualquer bom senso que ela podia invocar. Agora ela se sentia muito como um pobre
animal jogado ao espao sem meios de voltar, flutuando

inquieto, esperando por nada em particular e sem nenhuma expectativa. -- Oh, Papai -- choramingou ela, e ento as lgrimas comearam a cair. Ela deixou que os cabelos
cor de fogo cassem como macios anteparos dos dois lados do rosto e as lgrimas caram uma a uma no topo da mesa. Ela ouvia gente passando, mas essas pessoas preferiam
viver em seu prprio mundo e deix-la a ss no dela. Ela tentou chorar baixinho, o que era difcil quando as emoes queriam sair como o cascatear de uma represa
quebrada. -- Ah... -- veio uma voz suave e hesitante -- d licena... Sandy ergueu os olhos e viu um rapaz loiro, um tanto magro, com grandes olhos castanhos cheios
de compaixo. O rapaz disse: -- Por favor, desculpe a intromisso. .. mas... h alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? A sala de estar do apartamento da professora
Juleen Langstrat estava escura, e muito, muito quieta. Uma vela na mesinha de centro espalhava luz amarela e baa pelas estantes que iam at o teto, as estranhas
mscaras orientais, a moblia muito bem disposta, e as faces das duas pessoas que estavam assentadas uma em frente da outra, com a vela no meio. Uma das pessoas
era a professora, a cabea descansando de encontro ao espaldar da cadeira, os olhos cerrados, os braos estendidos  frente, as mos fazendo suaves movimentos circulares
como os de algum tentando manter-se  tona da gua. O homem sentado  sua frente era Brummel, tambm de olhos fechados, mas no refletindo muito bem a expresso
e os atos de Langstrat. Parecia constrangido e pouco  vontade. A pequenos intervalos,

e por um timo, ele entreabria os olhos apenas o suficiente para ver o que Langstrat estava fazendo. Ento, ela comeou a gemer e seu rosto registrou dor e aborrecimento.
Ela abriu os olhos e endireitou-se na cadeira. Brummel devolveu-lhe o olhar. -- Voc no se sente bem hoje, no ? Ele deu de ombros e olhou para o cho. -- Estou
bem. Apenas cansado. Ela abanou a cabea, insatisfeita com a resposta. -- No, no,  a energia que sinto emanando de voc. Est muito perturbado. Brummel no teve
resposta. -- Conversou com Oliver hoje? -- sondou ela. Ele hesitou, e finalmente disse: -- Sim, claro. -- E voc foi falar com ele sobre o nosso relacionamento.
Essa afirmativa provocou uma reao. -- No! No ... -- No minta para mim. Ele murchou um pouco e deixou escapar um suspiro de frustrao. -- Sim, claro, falamos
sobre isso. Mas falamos de outras coisas tambm. Langstrat sondou-o com os olhos como se tirasse uma radiografia dele. As mos da mulher se abriram e comearam a
oscilar no ar muito de leve. Brummel tentou escapar de vista afundando-se na cadeira. -- Ei, escute -- disse, a voz trmula -- no foi grande coisa... Ela comeou
a falar como se estivesse lendo um bilhete preso ao peito dele. -- Voc est... amedrontado, sente-se

encurralado, foi contar ao Oliver... tambm sente que est sendo controlado... -- Ela fitou-lhe o rosto. -- Controlado? Por quem? -- No sinto que estou sendo controlado!
Ela deu uma risadinha a fim de deix-lo mais  vontade. -- Ora, claro que sim. Acabei de ler que sim. Brummel olhou por uma frao de segundo em direo ao telefone
na mesinha de canto. -- Young ligou? Ela sorriu divertida. -- No foi preciso. Oliver est muito prximo da Mente Universal. Estou comeando a unir-me aos seus pensamentos
agora --. A expresso dela endureceu. -- Alf, eu realmente gostaria que voc estivesse se saindo to bem quanto ele. Brummel suspirou novamente, escondeu o rosto
nas mos, e finalmente explodiu: -- Ei, escute, no posso atacar tudo de uma s vez!  demais o que existe para aprender! Ela colocou a mo na dele, confortando-o.
-- Bem, ento vamos tratar dessas coisas uma de cada vez. Alf? -- Ele olhou para ela. -- Voc est amedrontado, no est? De que tem medo? -- Diga voc -- e era
quase um desafio. -- Estou-lhe dando uma chance de falar primeiro. -- Est bem, no estou com medo. Pelo menos, no at aquele exato segundo, quando os olhos de
Langstrat se entrefecharam e comearam a atravess-lo. -- Voc realmente est amedrontado -- disse ela severamente. -- Est amedrontado por ter sido

fotografado aquela noite pela reprter do Clarim. No  verdade? Zangado, Brummel apontou-lhe um dedo. -- Est vendo, foi exatamente essa uma das coisas das quais
eu e Young falamos! Ele ligou para voc! Deve ter ligado para voc! Ela assentiu com a cabea, imperturbvel. -- Sim, claro que me ligou. Ele no esconde nada de
mim. Nenhum de ns esconde a verdade de todos os outros, voc sabe disso. Brummel viu que era melhor abrir o jogo. -- Estou preocupado com o Plano. Est ficando
grande demais, grande demais para conseguirmos manter escondido. Acho que fomos descuidados ao encontrar-nos em pblico daquele jeito. -- Mas j resolvemos esse
assunto. No h com que se preocupar. -- Oh, no? Hogan est no nosso rasto! Suponho que saiba que ele esteve fazendo umas perguntas muito delicadas a Oliver? --
Oliver sabe cuidar-se. -- E ento, como cuidamos de Hogan? -- Da mesma forma que cuidamos de todos os outros. Est sabendo que ele conversou com Oliver a respeito
dos problemas que est tendo com a filha? Voc deveria achar isso interessante. -- Que tipo de problemas? -- Ela fugiu de casa... e, no obstante, ainda sentiu vontade
de ir  minha aula hoje. Gostei disso. -- Ento como usaremos isso? Ela sorriu aquele sorriso astucioso.

-- Tudo na hora certa, Alf. No podemos apressar as coisas. Brummel levantou-se e comeou a andar de c para l. -- Com Hogan, no tenho tanta certeza. Ele pode
no ser o bobalho que Harmel era. Talvez mandar prender Krueger tenha sido um erro. -- Mas voc teve acesso ao filme; fez com que fosse destrudo. Ele se voltou
a fim de defront-la. -- E o que adiantou? Antes eles no estavam fazendo perguntas, e agora esto! Vamos, sei o que eu pensaria se pegasse a minha mquina de volta
e o filme tivesse sido arruinado. Hogan e Krueger no so to ingnuos assim. Langstrat falou docemente, colocando os braos ao redor dele como os ramos de uma trepadeira.
-- Ah, mas eles so vulnerveis, primeiro com relao a voc, e por ltimo com relao a mim. ele. -- Exatamente como todo mundo -- resmungou

Ele deveria ter esperado a reao da mulher. Ela se tornou muito fria e assustadora e olhou-o diretamente nos olhos. -- E esse -- disse --  outro tpico que voc
discutiu com Oliver hoje. -- Ele lhe conta tudo! -- Os Mestres me contariam se ele no contasse. Brummel tentou desviar os olhos. No podia suportar o que quer que
fosse que tornava tamanha beleza to imensamente repelente. -- Olhe para mim! -- insistiu ela, e Brummel obedeceu.-- Se voc no est contente com o nosso relacionamento,
posso sempre termin-lo.

Ele olhou para baixo, gaguejou um pouco. -- Est... tudo bem... -- O qu? -- Quero dizer que estou feliz com o nosso relacionamento. -- De verdade? Ele estava desesperado
para apazigu-la, fazer que ela o largasse. -- Eu... apenas no quero ver as coisas se descontrolarem... Ela lhe deu um beijo lento, vampiresco. -- Voc  quem precisa
de mais controle. No  o que sempre lhe ensinei? Ela o estava picando em pedacinhos, e ele sabia disso, mas ela o possua. Ele lhe pertencia. Ainda sentia uma preocupao
da qual no conseguia se desvencilhar. -- Mas quantos adversrios podemos continuar a remover? Parece que toda vez que nos livramos de um, aparece outro no lugar.
Hannel se foi, chegou Hogan... Ela completou o pensamento dele. -- Voc deu um jeito em Farrel, e chegou Henry Busche. -- Isso no pode continuar. As probabilidades
esto contra ns. -- Busche est praticamente fora. No vai haver um voto de confiana nesta sexta-feira? -- A congregao est ficando bem transtornada. Mas...
-- Sim?

-- Voc sabia que ele tirou Lou Stanley da igreja por adultrio? -- Ah, sim, isso deve ajudar a congregao a decidir. fez! -- Uma poro de gente concordou com
o que ele

Ela se afastou um pouco a fim de encar-lo melhor, gelando-lhe o sangue com os olhos. -- Voc est com medo de Henry Busche? -- Oua, ele ainda tem bastante apoio
na igreja, mais do que pensei que tivesse. -- Voc est com medo dele! -- Algum est do lado dele, no sei quem. E se ele descobrir a respeito do plano? -- Ele
jamais descobrir coisa alguma! -- Se ela tivesse presas, estariam de fora. -- Ele ser destrudo como ministro muito antes disso. Voc dar um jeito nele, no ?
-- Estou trabalhando nisso. -- No se curve diante desse Henry Busche! Ele se curva diante de voc, e voc se curva diante de mim! -- Estou trabalhando nisso, j
disse! Ela se descontraiu e sorriu. -- Tera que vem, ento? -- Eh... -- Celebraremos a extino de Busche que ocorrer sexta-feira. Poder me contar o que aconteceu.
-- E o que diz de Hogan? -- Hogan  um tolo frouxo e enfraquecido. No se preocupe com ele. Ele no  sua responsabilidade.

Antes que Brummel soubesse o que estava acontecendo, estava em p do lado de fora da porta dos fundos. Langstrat observou-o da janela at que ele entrou no carro
e partiu pelo caminho de sempre, o beco, onde no seria visto. Ela abriu as cortinas para deixar entrar um pouco de luz, apagou a vela da mesinha de centro, e ento
tirou uma pasta da gaveta da escrivaninha. No demorou para que tivesse organizado em pilhas bem feitas os histricos de vida, perfis de personalidade e fotografias
atuais de Marshall, Kate e Sandy Hogan. Quando seus olhos recaram sobre a foto de Sandy, brilharam maliciosamente. Pairando invisvel sobre o ombro de Langstrat
estava uma enorme mo preta adornada de anis de pedras e braceletes de ouro. Uma voz profunda e sedutora colocava pensamentos na mente da mulher. Na tarde de tera-feira,
o Clarim fazia lembrar um campo de batalha aps todos terem morrido ou batido em retirada. O lugar estava mortalmente silencioso. George, o linotipista, geralmente
tinha folga no dia aps a publicao a fim de poder recuperar-se da frentica corrida para aprontar tudo dentro do prazo. Tom, o colador, estava fora cobrindo uma
histria local. Quanto a Edie, a secretria/reprter/moa dos anncios havia pedido demisso e deixado o emprego na noite anterior. Marshall no sabia que ela j
tinha sido feliz no casamento, mas o relacionamento foi-se deteriorando gradativamente, e afinal ela teve um pequeno caso com um caminhoneiro, o que resultar em
uma exploso muito recente em casa, com pedaos do casamento voando para todos os lados e os cnjuges voando abruptamente em direes opostas. Agora ela se fora,
e Marshall podia sentir o sbito vazio. Ele e Berenice estavam sentados a ss no

escritrio fechado a vidro no fundo da pequena sala de noticirio/sala de anncios/escritrio de entrada. De sua escrivaninha, uma pechincha de segunda mo, Marshall
podia olhar pelo vidro e ver as trs escrivaninhas, duas mquinas de escrever, dois cestos de lixo, dois telefones, e uma cafeteira eltrica. Tudo parecia atravancado
e ocupado, com papis e material para publicao espalhados por toda a parte, mas absolutamente nada estava acontecendo. -- Por acaso voc saberia onde ficam as
coisas por aqui? -- perguntou ele a Berenice. Berenice estava sentada  mesa de trabalho adjacente  escrivaninha de Marshall, as costas contra a parede, mexendo
uma caneca personalizada de chocolate quente. -- Ah, acharemos tudo -- respondeu ela. -- Sei onde ela guardava os livros, e tenho certeza de que o fichrio rotativo
dela contm todos os endereos e nmeros telefnicos. -- E o fio da cafeteira? -- Por que voc acha que estou tomando chocolate quente? -- Droga. Gostaria que algum
me tivesse dito. -- Acho que, na realidade, ningum sabia. --  melhor colocarmos um anncio para o cargo de secretria esta semana. Edie fazia mais do que sua obrigao
por aqui. -- Acho que foi uma briga violenta. Ela est deixando a cidade para sempre, antes que os olhos roxos do marido sarem e ele consiga ver para encontrla.
-- Casos. Nunca do bom resultado. -- E ento, voc ouviu a ltima a respeito de Alf

Brummel? Marshall ergueu os olhos para ela. Empoleirada na mesa, como um pssaro arisco, ela tentava parecer mais interessada no chocolate quente do que na novidade
picante. -- Nas atuais circunstncias -- disse ele -- estou morrendo de vontade de ouvir. -- Almocei com Sara, a secretria dele, hoje. Ele some por diversas horas
toda tera  tarde e nunca diz onde vai, mas Sara sabe. Acho que nosso amigo Alf tem alguma namorada especial. -- Sim, Juleen Langstrat, professora de psicologia
da faculdade. Isso estragou tudo para Berenice. -- Como voc sabia? -- A loira que voc viu aquela noite, lembra-se? Um dia depois Que minha reprter vai parar em
cana por tirar as fotos erradas no parque de diverses, Langstrat expulsa-me da sua sala de aula. Acrescente a isso o fato de as orelhas de Oliver Young terem ficado
bem vermelhas quando ele me disse que no a conhecia. -- Voc  brilhante, Hogan. -- Apenas um bom adivinhador. -- Ela e Brummel realmente esto aprontando alguma
coisa. Ele diz que  terapia, mas acho que est gostando, se  que entende aonde quero chegar. -- E da, qual  a ligao de Young com os dois? Berenice no ouviu
a pergunta. -- Pena que Brummel ainda no seja casado. Nesse caso, eu poderia fazer mais com o que sei. -- Ei, sintonize de novo, est bem? Temos um clubezinho aqui,
e todos os trs so membros. -- Desculpe. -- O que realmente procuramos  seja o que for

que no querem que saibamos, especialmente se, e quero dizer SE, at vale a pena fabricar uma falsa priso para encobrir. -- E estragar o meu filme. -- Ser que
alguma daquelas impresses digitais no filme nos diria algo? -- No muito. No so fichadas. Marshall voltou-se na cadeira para olh-la mais diretamente. -- Est
bem, quem voc conhece? Berenice estava cheia de si. -- Tenho um tio que  muito chegado ao gabinete de Justin Parker. -- O promotor municipal? -- Claro. No h
o que ele no faa por mim. -- Ei, no o envolva neste negcio, pelo menos por enquanto... Berenice ergueu as mos ao alto como se ele lhe estivesse apontando um
revlver e assegurou-lhe: -- Ainda no, ainda no. -- Mas no estou dizendo que eles no possam vir a ser muito teis. -- No pense que ainda no considerei isso.
-- E da, diga-me uma coisa: Brummel chegou a pedir desculpas? -- Depois que voc se curvou diante dele da maneira como fez, est brincando? -- No veio um pedido
oficial de desculpas da parte dele e de seu gabinete? -- Foi isso que ele lhe disse? Marshall teve de caoar.

-- Ah, tanto Brummel quanto Young me disseram todo tipo de coisa, como mal se conheciam, como nem chegaram perto do parque de diverses... puxa, como gostaria de
ter aquelas fotos. Berenice ficou ofendida. -- Olhe, voc pode acreditar em mim, Hogan. De verdade! Marshall fitou o espao por um ou dois segundos, cismando. --
Brummel e Langstrat. Terapia. Acho que faz sentido agora. -- Vamos l, trate de colocar todos os pedaos sobre a mesa. Que pedaos? pensou Marshall. Como se expe
sensaes vagas, experincias estranhas, vibraes? Finalmente, ele disse: -- Ah... esse Brummel e Langstrat... os dois esto metidos na mesma coisa. Sei que esto.
-- Que coisa? Marshall sentiu-se encurralado. -- Que tal... do outro mundo? Berenice pareceu confusa. Ora, vamos, Krueger, no me faa ter de explicar. Ela disse:
-- Vai ter de me explicar essa a. Fazer o qu, aqui vamos ns, pensou Marshall. -- Bem... sei que vai parecer loucura, mas quando falei com cada um deles, e voc
devia tentar isso algum dia, todos tinham essa coisa esquisita, um olhar aparvalhado de vez em quando... quase como se me estivessem hipnotizando ou coisa parecida...
Berenice caiu na risada. --  isso a, v, ria. -- O que est dizendo? Todos eles esto metidos em algum tipo de viagem extica?

-- Ainda no sei que nome dar, mas, sim. Brummel no chega aos ps de Langstrat. Ele sorri demais. Young pode estar metido nisso tambm, mas ele usa palavras. Um
monte de palavras. Berenice estudou o rosto  sua frente por brevssimo instante, e ento disse: -- Acho que voc precisa de um drink reforado. Serve chocolate
quente? -- Claro, faa um para mim. Por favor. A moa retornou com outra caneca personalizada, a de Edie, cheia de chocolate quente. -- Espero que esteja forte bastante
-- disse ela, e encarapitou-se de novo na mesa. -- Ento por que esses trs tentam parecer despreocupados... -- cismou Marshall. -- E o que dizer dos outros dois
desconhecidos, Gorducho e Fantasma? Nunca os tinha visto antes? -- Nunca. Podiam ser de outra cidade. Marshall suspirou. --  um beco sem sada. -- Talvez ainda
no. Brummel vai quela igrejinha branca, a da Comunidade de Ashton, e ouvi dizer que algum acabou de ser excomungado de l por transar ou algo assim... -- Berenice,
isso  fofoca! -- Que me diz, ento, de eu falar com uma amiga que leciona na faculdade e que me poderia contar algo acerca dessa misteriosa professora? Marshall
parecia em dvida. -- Por favor, no crie mais problemas para mim. Do jeito como as coisas esto, j tenho o bastante.

-- Sandy? De volta aos assuntos realmente difceis. -- Ainda no tivemos notcia alguma, mas continuamos telefonando, perguntando a parentes e amigos. Temos certeza
de que ela voltar para casa, mais cedo ou mais tarde. -- Ela no est fazendo uma matria da Langstrat? Marshall respondeu com certa amargura: -- Ela est em diversas
matrias da Langstrat --. Ento se interrompeu. -- Voc no acha que poderamos estar confundindo a linha que divide o jornalismo imparcial... da vingana pessoal?
Berenice deu de ombros. -- Apenas descobrirei o que realmente estiver l, e ser notcia ou no ser. Enquanto isso, achei que talvez voc gostasse de ter um pouco
mais de informao. Marshall no conseguia tirar da cabea a lembrana do encontro com a fogosa Juleen Langstrat, e ficava cada vez mais magoado quando se lembrava
das idias da professora arremessadas contra ele pela boca da prpria filha. -- Se for uma pedra, revire-a -- disse finalmente. -- Por minha conta ou por conta do
Clarim. -- Apenas revire-a -- disse ele, e comeou a datilografar furiosamente.

9
Aquela noite Marshall e Kate puseram trs lugares  mesa do jantar. Era um ato de f, confiando que Sandy estaria presente como sempre. Tinham telefonado

a todos os conhecidos, mas ningum vira Sandy em parte alguma. A polcia no havia encontrado nada. Telefonaram para a faculdade a fim de verificar se Sandy havia
estado ou no presente s aulas, mas at aquela hora no tinham conseguido entrar em contato com nenhum de seus Marshall sentou-se  mesa, fitando a cadeira vazia
da filha. Kate estava sentada em frente ao marido, silenciosa, esperando enquanto o arroz cozia no vapor. -- Marshall, no se torture. -- Estraguei tudo. Sou um
fracasso. -- Oh, pare com isso! -- E o problema , agora que sei ter estragado tudo, o de no existir muita possibilidade de repetir a cena. Kate estendeu a mo
por sobre a mesa e segurou a dele. -- Claro que existe! Ela voltar. Tem idade bastante para ser razovel e cuidar de si prpria. Quero dizer, basta ver o que ela
levou. No pode estar pensando em ficar longe indefinidamente. Nesse exato momento, a campainha da frente soou. Os dois deram um pulo. -- Deve ser o carteiro, ou
uma bandeirante vendendo doces, ou um testemunha-de-Jeov -- disse Marshall...! -- Bem, de qualquer forma, Sandy no tocaria a campainha. Kate levantou-se para atender
a porta, mas Marshall correu adiante dela. Ambos chegaram  porta mais ou menos juntos e Marshall a abriu. Nenhum deles esperava o rapaz, louro e bem arrumado, tpico
estudante de faculdade. Ele no trazia panfletos nem propaganda religiosa e parecia tmido.

-- Sr. Hogan? -- perguntou. -- Sim, sou eu -- disse Marshall. -- Quem  voc? O jovem era calmo mas firme bastante para tratar do que o levara ali. -- Meu nome 
Shawn Ormsby. Estou no terceiro ano da faculdade Whitmore e sou amigo de sua filha Sandy. Kate ia dizer: -- Por favor, entre -- mas Marshall interrompeu com: --
Voc sabe onde ela est? -- Sim. Sim, sei, -- respondeu Shawn, depois de pequena pausa -- E ento? -- disse Marshall. -- Posso entrar? -- perguntou Shawn. Kate assentiu
graciosamente, afastando-se quase empurrando Marshall para o lado. -- Sim, por favor, entre. Levaram-no  sala-de-estar e convidaram-no a sentar-se. Kate segurou
a mo de Marshall o tempo suficiente para faz-lo sentar-se e silenciosamente lembr-lo de se controlar. -- Muito obrigada por ter vindo -- disse Kate. -- Temo-nos
preocupado muito. A voz de Marshall estava sob controle quando ele disse: -- O que voc sabe? Shawn estava visivelmente constrangido. -- Eu... eu a conheci no campus
ontem. -- Ela foi  escola ontem? -- deixou escapar Marshall, sobressaltado. -- Deixe-o falar, Marshall -- lembrou-lhe Kate. -- Bem -- disse Shawn -- sim. Sim, ela
foi. Mas e

encontrei-a no refeitrio ao ar livre. Ela estava sozinha e to visivelmente transtornada que, bem, achei que tinha de me envolver. Marshall mal podia conter a ansiedade.
-- O que quer dizer transtornada? Ela est bem? com visivelmente

-- Oh, sim! Est perfeitamente bem. Isto , nada de mau lhe aconteceu. Mas... estou aqui em seu lugar -- . Desta vez, os dois, me e pai estavam ouvindo sem interromper,
por isso Shawn continuou. -- Conversamos durante um bom tempo e ela me contou o seu lado da histria. Ela realmente quer voltar para a casa; devo dizer-lhes em primeiro
lugar. -- Mas? -- encorajou Marshall. -- Bem, Sr. Hogan, essa foi a primeira coisa que tentei persuadir Sandy a fazer, mas... se o senhor conseguir aceitar isto,
ela est com medo de voltar, e acho que um tanto envergonhada. -- Por minha causa? Shawn estava pisando em terreno perigoso. -- O senhor pode... consegue aceitar
isso? Marshall estava preparado para ser duro consigo mesmo. -- Sim, sem dvida, eu posso aceitar isso. H anos que estou pedindo para apanhar. Bem que mereo. Shawn
pareceu aliviado. -- Bem,  isso o que estou tentando fazer, a meu prprio modo, fraco e limitado. No sou nenhum profissional, vou me formar em geologia, mas gostaria
de ver esta famlia unida de novo. Kate disse com humildade: -- Ns tambm gostaramos.

-- Sim -- disse Marshall -- realmente queremos nos esforar para isso. Oua, Shawn, quando chegar a me conhecer melhor, perceber que sa de uma frma bem torta
e que realmente sou difcil de endireitar. .. -- No saiu, no! -- protestou Kate. -- Sa, sim. Mas estou aprendendo o tempo todo. Quero continuar a aprender --.
Ele se inclinou para a frente na cadeira. -- Diga... Sandy mandou voc aqui para nos ver? Shawn olhou pela janela. -- Ela est no carro neste momento. Kate ps-se
de p no mesmo instante. Marshall agarrou-lhe a mo e a fez sentar-se de novo. -- Ei -- disse ele -- quem est sendo superansiosa agora? -- Ele se voltou para Shawn.
-- Como est ela? Ainda est com medo? Ela acha que vou passar-lhe uma carraspana? Shawn assentiu mansamente com a cabea. -- Bem -- disse Marshall, sentindo emoes
que no desejava que ningum percebesse -- escute, digalhe que no vou-lhe passar nenhum pito. No gritarei, no acusarei, no usarei de ironia ou palavras ferinas.
Eu simplesmente... bem, eu... -- Ele a ama -- disse Kate pelo marido. -- De verdade. -- O senhor a ama? -- perguntou Shawn. Marshall assentiu com a cabea. -- Diga-me
-- pediu Shawn. -- Diga em voz alta. Marshall olhou-o nos olhos. -- Eu a amo, Shawn. Ela  minha garota, minha filha. Eu a amo e a quero de volta. Shawn sorriu e
se ergueu.

-- Vou busc-la. Naquela noite, havia quatro lugares  mesa. A edio de sexta-feira do Clarim estava nas ruas, e a calmaria ps-publicao de sempre no escritrio
deu a Berenice a chance de que precisava para andar um pouco. Estivera esperando ansiosamente a oportunidade de dar um pulo  faculdade Whitmore a fim de falar com
algumas pessoas. Alguns telefonemas tinham resultado em importante convite para almoar. Aquele refeitrio do campus era uma nova adio, uma estrutura moderna de
tijolo vermelho  vista com janelas de vidros azulados que iam do cho ao teto, e canteiros de flores cuidadosamente tratados. Podia-se comer dentro, em pequenas
mesas para dois ou para quatro, ou sentar-se no ptio,  luz do sol. Era do tipo buf e a comida no era ruim. Berenice saiu ao ptio carregando uma bandeja com
caf e uma salada leve. Ao seu lado estava Rute Williams, uma bem humorada senhora de meia idade, catedrtica de economia, carregando uma salada mexicana. Escolheram
uma mesa isolada abrigada da luz direta do sol. Na primeira metade da refeio trocaram amenidades e colocaram as novidades em dia. Mas Rute j conhecia Berenice
muito bem. -- Berenice -- disse, finalmente -- posso ver que est preocupada com alguma coisa. Berenice foi franca com a amiga. -- Rute, desagradvel.  algo nada
profissional e muito

-- Quer dizer que descobriu alguma coisa nova? -- Oh, no, no a respeito de Pat. No, esse

assunto est adormecido h bom tempo. Mas pode ter certeza de que acordar de novo se surgir alguma novidade --. Berenice olhou para Rute por longos instantes. --
Voc no acha que conseguirei descobrir coisa alguma, no ? -- Berenice, voc sabe esforos cem por cento, mas acrescentar minhas sinceras esforos jamais faam
surgir ftil. To trgico. Berenice deu de ombros. -- Bem,  por isso que estou tentando concentrar meus esforos somente onde eles produziro algum resultado. O
que me leva ao assunto constrangedor do dia. Voc sabia que fui presa e fui parar na cadeia domingo  noite? Rute, naturalmente, mostrou-se incrdula. -- Presa?
Por que motivo? -- Por oferecer meus servios a um tira secreto para um ato de prostituio. Essa resposta evocou a reao certa em Rute. Berenice contou todas as
humilhaes de que conseguiu se lembrar. -- No consigo acreditar! -- dizia Rute sem parar. -- Isso  revoltante! No posso acreditar! -- Bem, de qualquer forma
-- disse Berenice, desfechando o golpe final -- acho que tenho razo em questionar os motivos do Sr. Brummel. Veja bem, tudo o que tenho  teoria e especulao,
mas quero seguir essas coisas at o fim para ver se realmente existe algo por trs delas. -- Bem, posso entender isso. E o que eu poderia possivelmente saber que
a ajudaria? que a apio em seus com esse apoio preciso dvidas de que seus alguma coisa. Foi to...

-- Voc conhece a professora Juleen Langstrat, do Departamento de Psicologia? -- Oh... j nos encontramos uma ou duas vezes. Sentamo-nos  mesma mesa em um almoo
dos professores. Berenice surpreendeu um resqucio de desagrado na expresso da amiga. -- Hum. Algo errado com ela? -- Bem, cada um na sua -- disse Rute, absorta
a remexer a salada com o garfo. -- Mas achei muito difcil relacionar-me com ela. Foi praticamente impossvel dar incio a uma conversa coerente com ela. -- Como
ela se porta?  dinmica, retrada, agressiva, irritante...? -- Distante, em parte, e acho que misteriosa, embora eu use essa palavra por no achar outra melhor.
Tenho a impresso de que ela considera as pessoas nada mais que uma chatice. Seus interesses acadmicos so muito esotricos e metafsicos, e ela parece preferilos
 realidade prosaica. -- Com que tipo de gente ela se associa? -- No saberia dizer. Acho que at ficaria surpresa ao saber que ela se d bem com algum. -- Ento
voc nunca a viu na companhia de Alf Brummel? -- Oh, e esse deve ser o objetivo final de suas perguntas. No, nunca mesmo. -- Mas, de qualquer modo, acho que voc
no a v muito. -- Ela no  muito socivel, por isso, no. Mas, oua, realmente me esforo para no me meter na vida dos outros, se entende o que quero dizer. Eu
definitivamente gostaria de ajud-la no que pudesse

para satisfazer s suas dvidas a respeito da morte de Pat, mas o que voc est querendo desta vez ... -- Pouco profissional e muito desagradvel. -- Sim, realmente
tem razo nesse ponto. Mas, acompanhando meu prprio conselho para que se desvencilhe dessa coisa, deixe-me, como amiga, dar-lhe o nome de algum que pode saber
mais. Est com o lpis  mo? Seu nome  Albert Darr, e ele  do Departamento de Psicologia. Pelo que fiquei sabendo, na maior parte por intermdio do prprio, ele
convive com Langstrat quase diariamente, no gosta dela, e adora fofocar. Posso at cham-lo para voc. Albert Darr, um jovem professor com cara de beb, roupas
elegantes e certa queda pelas mulheres, estava em seu escritrio, corrigindo provas. Ele tinha tempo para conversar, especialmente com a adorvel reprter do Clarim.
-- Bem, al, al -- disse ele quando Berenice entrou. -- Bem, al, al para voc -- respondeu ela. -- Eu sou Berenice Krueger, amiga de Rute Williams. -- Ah... --
Ele olhou para os lados procurando uma cadeira vazia, e finalmente removeu uma pilha de livros de referncia. -- Sente-se. Desculpe a baguna --. Ele se sentou em
outra pilha de livros e papis que poderia ter tido uma cadeira por baixo. -- Em que posso ajud-la? -- Bem, esta visita no  realmente oficial, professor Darr...
-- Albert. -- Obrigada. Albert. A bem da verdade, estou aqui por razes pessoais, mas se minhas teorias estiverem

certas, poderia ser importante num sentido noticioso --. Com uma pausa, ela indicou novo pargrafo e uma pergunta difcil. -- Olhe, Rute me disse que voc conhece
Juleen Langstrat... De sbito, Darr sorriu um amplo sorriso, reclinouse para trs em sua cadeira cheia de livros e descansou as mos atrs da nuca. Pelo visto, esse
seria um assunto que ele teria prazer em discutir. -- Ah -- disse, encantado -- ento voc se atreve a invadir solo sagrado! -- Darr olhou em volta do aposento fingindo-se
desconfiado, procurando bisbilhoteiros imaginrios, depois inclinou-se para diante e disse, abaixando a voz: -- Escute, h certas coisas que ningum deveria saber,
nem mesmo eu --. Ento animouse novamente e disse: -- Mas a nossa cara professora j teve muitas ocasies de me magoar e espezinhar, e portanto sinto que no tenho
nenhuma dvida para com ela. Estou morrendo de vontade de responder s suas perguntas. Evidentemente, Berenice podia simplesmente mergulhar de cabea; aquele sujeito
no parecia precisar de formalidades. -- Muito bem, para comear -- disse ela, apanhando a caneta e o bloco de anotaes -- o que realmente estou tentando descobrir
 algo a respeito de Alf Brummel, o Delegado de polcia. Fui informada de que ele e Langstrat se vem bastante. Pode confirmar isso? -- Oh, sem dvida. -- E ento...
h alguma coisa entre eles? -- O que quer dizer com "alguma coisa"? -- Voc preenche o espao em branco. -- Se est falando de um caso romntico... -- Ele sorriu
e meneou a cabea. -- No sei se vai gostar da

resposta, mas no, no acho que isso esteja ocorrendo. -- Mas ele a v com bastante regularidade? -- Oh, sim, mas muita gente faz a mesma coisa. Ela d consultas
nas horas vagas. Ora, diga-me, Brummel no a v semanalmente? Um pouco desapontada, Berenice respondeu: -- Sim, todas as teras-feiras. Pontualmente. -- A, est
vendo s? Ele a procura para fazer sesses semanais regulares. -- Mas por que ele no conta a ningum? Faz grande segredo em torno dessas visitas. Ele se inclinou
para diante e abaixou a voz. -- Tudo o que Langstrat faz  segredo profundo, sombrio! O Crculo ntimo, Berenice. Ningum deve sequer saber da existncia das chamadas
consultas, ningum alm dos privilegiados, a elite, os poderosos, os muitos patrocinadores especiais que a procuram.  assim que ela . -- Mas o que ela est aprontando?
-- Ora, veja bem -- disse ele com um brilho malicioso no olhar -- isso  informao confidencial, e tambm  melhor adverti-la de que no  de inteira confiana.
Sei muito pouco do que vou contar por observao direta; a maior parte eu dei um jeito de descobrir aqui pelo departamento. Felizmente, a professora Langstrat fez
tantos inimigos que poucos dos que trabalham com ela lhe tm algum compromisso e dedicao --. Ele se reposicionou numa postura em que os olhos ficavam na mesma
altura. -- Berenice, a professora Langstrat , como diria? No uma pessoa... do andar trreo. Suas reas de estudo excedem tudo aquilo em que o resto de ns tem
o menor desejo de se meter: a Fonte, a Mente Universal, os Planos Elevados...

-- Receio no saber do que voc est falando. -- Oh, ningum aqui tambm sabe do que ela est falando. Alguns de ns estamos muito preocupados; no sabemos se ela
 muito brilhante e est fazendo descobertas muito reais, ou se ela  meio louca. -- Bem, que negcio  esse, essa Fonte, e essa Mente? -- Pelo que sabemos, ela
tira essas coisas das religies orientais, das antigas seitas e escritos msticos, coisas das quais nada sei, nem quero saber. No que me diz respeito, os estudos
que ela fez nessas reas podem t-la levado a perder todo o contato com a realidade. De fato, pode at ser que meus colegas caoem e falem mal de mim por dizer isto,
mas vejo o progresso de Langstrat nessas reas como nada mais do que feitiaria tola, neopag. Acho que ela est desesperadamente confusa! Berenice lembrava-se agora
das estranhas descries que Marshall havia feito de Langstrat. -- Ouvi dizer que ela faz coisas estranhas com as pessoas... -- Tolice. Pura tolice. Acho que ela
pensa que pode ler minha mente, controlar-me, enfeitiar-me, sei l. Simplesmente no penso no assunto e fao fora para ficar longe dela. -- Mas nada disso  digno
de crdito? -- De forma alguma. As nicas pessoas que ela pode controlar ou afetar so os pobres trouxas do Crculo ntimo que so idiotas e ingnuos o bastante
para... -- O Crculo ntimo... voc j usou esse termo antes... Ele ergueu a mo em advertncia. -- No  fato, no  fato. Eu mesmo cunhei esse

ttulo. Tudo o que tenho  dois aqui, dois ali, que do um quatro muito persuasivo. J a ouvi admitir que aconselha as pessoas que a procuram, e percebi que algumas
delas so bem importantes. Mas como poderia uma conselheira com idias to distorcidas possivelmente endireitar os outros? Mas, ento... -- Sim? -- Seria de esperar
que ela... reivindicasse uma vantagem especial numa situao dessas. Quem sabe, talvez ela faa sesses espritas ou de leitura da mente. Talvez ela cozinhe cauda
de lesma e olhos de lagartixa e os sirva com pernas de aranha empanadas para invocar alguma resposta do sobrenatural... mas agora estou fazendo pilhria. -- Mas
voc acha que h possibilidade disso? -- Bem, nada to bizarro quanto o que descrevi, mas, sim, algo parecido, de acordo com o interesse que ela tem no oculto. --
E essas pessoas do Crculo ntimo a vem regularmente. -- Pelo que sei, sim. Realmente no tenho a mnima idia sobre como isso  feito ou por que as pessoas chegam
a ir l. Que bem pode lhes fazer? -- Pode me dar alguns exemplos? -- Bem... -- Ele pensou por um momento. -- Claro, j mencionamos e confirmamos o seu Sr. Brummel.
Oh, e voc conhece Ted Harmel? Berenice quase derrubou a caneta. -- Ted? -- Sim, o antigo redator do Clarim. -- Trabalhei para ele antes de ele se ir embora e Hogan
comprar o jornal.

-- Ah, pelo que sei, o Sr. Harmel no apenas "foise embora". -- No, ele fugiu. Mas quem mais? -- A Sra. Pinckston, membro do conselho diretor da faculdade. -- Ah,
ento no  apenas homens. -- Oh, claro que no. Berenice continuou a escrever. -- Continue, continue. -- Oh, cus, quem mais? Ah, acho que Dwight Brandon... --
Quem  Dwight Brandon? Darr a fitou com ar de superioridade. --  simplesmente o dono da propriedade sobre a qual a faculdade foi construda. -- Oh... -- Ela escreveu
o nome com uma explicao grifada. -- Oh, depois temos Eugene Baylor. Ele  o tesoureiro geral, um homem muito influente no conselho diretor, pelo que soube. Parece
que ele levou algumas alfinetadas acerca de seja l o que for que ele e a professora fazem nas sesses de que participa, mas ele continua fazendo-se passar por virtuoso
e firme em suas convices. -- Hum. -- Ah, e h tambm aquele sujeito pastor, aquele... ah... -- Oliver Young. -- Como  que voc sabe? Berenice apenas sorriu. --
Um bom palpite. Continue.

10
Na noite de sexta-feira, Hank no conseguia tirar da cabea a assemblia extraordinria que se aproximava, o que provavelmente era bom para ele em vista da moa
que estava sentada  sua frente no seu pequenino escritrio, canto da casa. Ele havia pedido a Mary que estivesse por perto e agisse de forma amorosa e conjugai.
Esta jovem senhora, Carmem, foi o nico nome que ela deu, era um caso dos pesados. Pela forma de se vestir e se portar, ele fez questo que fosse Mary quem atendesse
 porta e a fizesse entrar quando ela chegou. Mas pelo que Hank podia notar, Carmem no estava tentando projetar uma imagem falsa; parecia genuna, apenas sinceramente
exagerada. Quanto aos motivos pelos quais queria aconselhamento... -- Acho -- comeou ela -- acho que eu apenas estou muito sozinha, e  porque ouo vozes... Imediatamente,
ela examinou os rostos dos dois para ver sua reao. Mas depois da recente experincia, nada parecia muito irreal para Hank e Mary. Hank perguntou: -- Que tipo de
vozes? Que tipo de coisas elas dizem? Ela pensou por um instante, os grandes olhos azuis, exagerada-mente inocentes, perscrutando o teto. -- O que est acontecendo
comigo  legtimo -- disse ela. -- No estou louca. -- No duvido da sua palavra -- disse Hank. -- Mas conte-nos acerca dessas vozes. Quando elas falam com voc?
-- Quando estou a ss, especialmente. Como

ontem  noite, eu estava deitada na cama e... -- ela relatou as palavras que a voz lhe dissera, que poderiam ter sido o texto perfeito de um telefonema obsceno.
Mary no sabia o que dizer; aquilo estava ficando muito forte. A Hank, a coisa toda soava um tanto familiar, e embora ele se sentisse muito cauteloso em relao
a Carmem e seus motivos, ainda permanecia aberto  possibilidade de que ela estivesse enfrentando parte das mesmas foras demonacas que ele enfrentara. -- Carmem
-- perguntou ele -- essas vozes j disseram quem so? Ela pensou por um momento. -- Acho que uma delas era espanhola ou italiana. Tinha um sotaque, e o nome era
Amano, ou Amanzo, ou algo parecido. Ele sempre fala muito suavemente e sempre diz que deseja ter relao sexual comigo... Nesse momento o telefone tocou. Mary levantou-se
depressa para atender. -- No se demore -- pediu Hank. Que ela saiu bem depressa, saiu. Hank a estava acompanhando com o olhar quando sentiu que Carmem lhe tocava
a mo. -- Voc no acha que estou louca, acha? -- perguntou, com olhar splice. -- Ah... -- Hank retirou a mo a fim de coar uma coceira inexistente. -- No, Carmem,
no estou... isto , no acho. Mas realmente quero saber de onde essas vozes vm. Quando foi que voc comeou a ouvi-las? -- Quando cheguei a Ashton. Meu marido
me abandonou e vim para c a fim de comear vida nova, mas... sinto-me to sozinha. -- Voc as ouviu pela primeira vez quando chegou a Ashton? -- Acho que  por
que estava me sentindo muito

solitria. Ainda me sinto solitria. -- O que foi que elas disseram no comeo? Como se apresentaram? -- Eu estava sozinha, e solitria, havia acabado de mudar para
c, e pensei ter ouvido a voz de Jim. Sabe, o meu marido... -- Continue. -- Realmente pensei que era ele. No indaguei como ele podia falar comigo sem estar presente,
mas respondi e ele me disse quanta falta sentia de mim, e como achava que era melhor a maneira como as coisas estavam, e passou o resto da noite comigo. Ela comeou
a derramar lgrimas. -- Foi lindo. Hank no sabia o que pensar do que ela dizia. -- Incrvel -- foi tudo o que conseguiu dizer. De novo ela olhou para ele com aqueles
grandes olhos splices e disse atravs das lgrimas: -- Eu sabia que voc acreditaria em mim. J ouvi falar de voc. Dizem que  um homem compassivo, e muito compreensivo...
Depende de quem voc ouve, pensou Hank; mas ento a mo dela estava novamente tocando a sua. Hora de suspender a consulta, pensou Hank. -- Ah -- disse, tentando
ser confortador, sincero e imparcial. -- Escute, acho que foi uma hora bem proveitosa... -- Oh, sim! -- Voc gostaria de voltar na semana que vem? -- Oh, adoraria!
-- exclamou ela, como se Hank a tivesse convidado para um encontro. -- Tenho tantas

outras coisas para lhe contar! -- Bem, timo, acho que a prxima sexta est bem para mim se voc puder. Oh, ela podia, podia, sim, e Hank levantou-se, indicando
que a sesso havia terminado. No haviam coberto muito terreno, mas no que dizia respeito a Hank, cus, fora o bastante. -- Agora, vamos os dois tirar um tempo para
pensar nessas coisas. Depois de uma semana, elas podem parecer um pouco mais claras. Podem fazer mais sentido --. Onde, oh, onde estava Mary? Ah, ela voltava  sala.
-- J est de sada? -- Foi maravilhoso -- suspirou Carmem, mas pelo menos soltou a mo de Hank. Botar Carmem porta afora foi mais fcil do que Hank havia esperado.
Maravilhosa Mary. Salvara a ptria! Hank fechou a porta e recostou-se contra ela. -- Uau! -- foi tudo o que conseguiu dizer. -- Hank -- disse Mary, com voz quase
inaudvel -- eu no estou gostando nada disto! -- Ela... ela  bem quente, isso ela . -- O que acha da histria dela? -- Esperarei para ver. Quem telefonou? --
Espere s at ouvir isto! Era uma mulher do Clarim querendo saber se a pessoa que havamos suspendido da comunho da igreja era Alf Brummel! De repente Hank pareceu
um brinquedo inflvel com um vazamento. Um pouco desapontada, Berenice entrou no

escritrio de Marshall. O redator estava  sua mesa, examinando alguns anncios para a edio de terafeira. -- E ento, o que disseram? -- perguntou ele sem erguer
os olhos. -- No  o Brummel, e acho que no foi uma pergunta muito delicada. Conversei com a esposa do pastor, e pelo tom da voz dela pude perceber que o assunto
todo  muito espinhoso. -- E, ouvi conversa l no barbeiro. Algum estava dizendo que vo votar para mandar o pastor embora esta noite. -- Ah, ento eles de fato
tm problemas. -- Mas totalmente independentes do nosso, o que me deixa contente. Isso j foi longe demais. Marshall examinou de novo a lista de nomes que Berenice
havia conseguido com Albert Darr. -- Como  que querem que eu trabalhe aqui com esse tipo de coisas no resolvidas rolando por a? Bernie, voc est comeando a
dar muito trabalho, sabia? Ela aceitou as palavras dele como elogio. -- E voc j examinou aquele folheto que traz as matrias facultativas que Langstrat est dando?
Marshall apanhou-o e pde apenas menear a cabea incredulamente. -- Que raio de negcio  isto? "Introduo ao Deus e  Deusa Conscincia e a Arte: a divindade do
homem, bruxa, bruxo, a Roda Sagrada da Medicina, como funcionam os feitios e rituais"? Voc deve estar brincando! -- Continue lendo, chefe!

-- "Caminhos para a sua Luz Interna: conhea os seus prprios guias espirituais, descubra a luz interna... harmonize seus nveis de existncia mental, fsico, emocional
e espiritual atravs da hipnose e da meditao." Marshall leu mais um pouco e a seguir exclamou: -- O qu? "Como Gozar o Presente Atravs da Experincia de Vidas
Passadas e Futuras"? -- Gosto dessa que est perto do fim: "No Princpio Era a Deusa". Langstrat, talvez? -- Por que ningum ouviu falar disso antes? -- Por algum
motivo, nunca foi anunciado no jornal da escola nem na lista pblica das aulas. Foi o prprio Albert Darr quem me deu o folheto e disse que era um item passado um
tanto exclusivamente de um para o outro entre os alunos interessados. -- E minha Sandy est assistindo  aula dessa mulher... -- , de certa forma tambm todas essas
pessoas da lista. Marshall colocou o folheto na mesa e apanhou a lista. Meneou a cabea novamente; era a nica coisa que ele conseguia pensar em fazer. Berenice
acrescentou: -- Acho que no me importo tanto se um bando de tontos querem cair na conversa dessa Langstrat, mas eles so importantes demais! Olhe s para isso:
Dois dos membros do conselho diretor, o dono do terreno da faculdade, o tesoureiro municipal, o juiz do distrito! -- E Young! O respeitado, reverenciado, influente
Oliver Young, to envolvido na comunidade! -- Marshall repassou mentalmente as recordaes gravadas em alguma fita da sua memria. -- , o quadro est completo,
agora faz sentido, todo aquele palavrrio vago,

evasivo que ele me passou no seu gabinete. Young tem uma religio toda particular. De batista conservador  que ele no tem nada, isso posso garantir! -- Religio
no me interessa muito. Mas mentiras e trapaas so coisas totalmente diferentes! -- Bem, ele negou veementemente conhecer a Langstrat. Perguntei-lhe diretamente,
bem na cara, e ele me disse que no a conhecia. -- Algum est mentindo -- cantarolou Berenice. -- Gostaria que tivssemos mais corroborao. -- , apenas acabamos
de conhecer o Darr. -- E Ted Harmel? Voc o conhecia bem? -- Bem o suficiente, suponho. Voc sabe por que ele se foi embora? -- Brummel disse que houve um escndalo,
mas em quem se pode acreditar hoje em dia? -- Ted negou. -- Ah, todo o mundo est dizendo tudo e todo o mundo est negando tudo. -- Bem, de qualquer forma, ligue
para ele. Eu tenho o nmero. Ele est morando perto de Windsor. Acho que est tentando ser um eremita. Marshall correu os olhos pelo material dos anncios ainda
sobre a sua mesa, esperando seu tempo e ateno. -- Como  que vou conseguir fazer alguma coisa por aqui? -- Ei, no  nada importante. Se eu posso dar umas voltas
por conta prpria, o mnimo que voc pode fazer  ligar para o Ted. Ligue amanh... sbado, que  seu dia de folga. De reprter para reprter. De jornalista para
jornalista. Pode cair nas graas dele.

Marshall suspirou. -- Passe-me o nmero. Mary terminou de arrumar a cozinha, pendurou o pano de pratos, e foi ao quarto dos fundos. Ali, no escuro, Hank estava orando
ajoelhado ao lado da cama. Ela se ajoelhou ao lado dele, tomou a sua mo, e juntos se colocaram nas mos do Senhor. A vontade de Deus seria feita aquela noite e,
fosse qual fosse, a aceitariam. Alf Brummel tinha uma chave da igreja e j estava presente, acendendo as luzes e aumentando a temperatura do termostato. Ele no
se sentia nada bem. Era melhor que votassem certo desta vez, pensava. No lado de fora, embora ainda faltasse meia hora para o incio da reunio, carros comearam
a chegar, em nmero maior do que o que geralmente comparecia aos domingos. Sam Turner, o principal comparsa de Brummel, chegou em seu Cadilac, e ajudou Helen, a
esposa, a descer do carro. Ele era uma espcie de fazendeiro, no um grande proprietrio, mas agia como se fosse. Naquela noite, ele estava sombrio e decidido, assim
como a esposa. Em outro carro, chegou John Coleman e a esposa Patrcia, um casal discreto que se transferira para aquela igrejinha de uma igreja grande em outra
parte da cidade. Eles realmente gostavam de Hank e no se importavam em demonstrar a sua afeio. Bem sabiam que Alf Brummel no ficaria muito contente com a sua
presena. Outros foram chegando e depressa se coagulavam em grupinhos de sentimentos afins, falando em slabas rpidas e tons baixos e mantendo os olhos voltados
para si mesmos, exceto por uns poucos que espichavam o pescoo para ver quem tinha comparecido, tentando prever a contagem final. Diversas sombras escuras de seu
poleiro no topo

do telhado da igreja, de suas posies  volta do prdio, ou dos postos para os quais tinham sido designados no templo, vigiavam tudo com muita cautela. Lucius,
mais nervoso que nunca, andava e flutuava sem cessar. Baal Rafar, ainda desejoso de manter-se em quase anonimato, havia-lhe confiado essa tarefa e, pelo menos nessa
noite, Lucius estava de volta  antiga glria. O que mais preocupava Lucius era a presena dos outros espritos que ali se encontravam, os inimigos da causa, o exrcito
dos cus. Estavam sendo mantidos afastados pelas foras de Lucius, sem dvida, mas havia guerreiros novos que ele jamais vira antes. Nos arredores, mas no muito
perto, Signa e seus dois guerreiros vigiavam. De acordo com as ordens de Tal, haviam permitido que os demnios tivessem acesso ao prdio, mas estavam de olho nas
suas atividades e vigilantes quanto  presena de Rafar. At ento, simples presena deles, assim como a de muitos outros guerreiros, tinha exercido um efeito tranqilizador
sobre as hostes demonacas. No havia ocorrido nenhum incidente e, no momento, era tudo o que Tal desejava. Quando Lucius viu o casal Coleman entrar pela porta da
frente, comeou a agitar-se. No passado, eles nunca se tinham mostrado muito fortes contra as derrotas e desnimos ordenados por Lucius, e o casamento deles quase
se desfizera. Ento, haviam-se colocado ao lado desse Busche de Orao, ouvindo o que ele dizia e tornando-se cada vez mais fortes. No demoraria muito e eles, e
outros como eles, constituiriam uma verdadeira ameaa. Mas a sua chegada no causou tanta agitao em Lucius quanto o enorme e loiro mensageiro de Deus que os acompanhava.
Lucius tinha certeza de nunca ter visto esse guerreiro antes. Enquanto os Coleman se assentavam, Lucius precipitou-se para baixo e

interpelou o novo intruso. -- Nunca o vi antes! -- disse grosseiramente, e todos os outros espritos concentraram a ateno nele e no estranho. -- De onde vem? O
estranho, Chimon da Europa, nada disse. Apenas cravou os olhos nos de Lucius e permaneceu firme. -- Diga-me o seu nome! -- exigiu Lucius. O estranho no disse palavra.
Lucius sorriu matreiramente e sacudiu a cabea. -- Voc  surdo?  mudo?  to irracional quanto  silencioso? -- Os outros demnios caram na risada. Adoravam esse
tipo de jogo. -- Diga-me, voc  bom de luta? Silncio. Lucius puxou de uma cimitarra que rebrilhou cor de sangue e zumbiu metalicamente. Seguindo-lhe o exemplo,
os outros demnios fizeram o mesmo. O rudo e o retinir de lminas lustrosas encheram o aposento  medida que rubras meias-luas de luz refletida danavam nas paredes.
Um crculo de demnios armados impediram a interveno dos outros mensageiros de Deus, enquanto Lucius continuava a provocar o guerreiro desconhecido. Lucius olhou
para esse oponente firme e imvel com um dio ardente que fez seus olhos amarelados saltarem e seu hlito sulfuroso ser violentamente expelido atravs de narinas
muito dilatadas. Ele brincou com a espada, fazendo-a descrever pequenos crculos na frente do rosto do estranho, tentando ver se o estranho fazia o menor movimento.
O estranho apenas o fitava, sem se mexer. Com um grito intenso, Lucius passou a espada

pela frente do estranho, cortando-lhe a roupa. Vivas e risadas ergueram-se do bando de demnios. Lucius posicionou-se para lutar, segurando a espada com as duas
mos, agachado, as asas abertas. Diante retalhada. dele estava uma esttua de tnica

-- Lute, seu esprito desanimado! -- desafiou Lucius. O estranho no reagiu, e Lucius cortou-lhe o rosto. Outros vivas da parte dos demnios. -- Tiro uma orelha?
Ou duas? Corto-lhe a lngua, se  que tem uma? -- provocava Lucius. -- Acho que est na hora de comearmos -- disse Alf Brummel do plpito. Os presentes cessaram
suas conversaes cochichadas, e o lugar comeou a aquietar-se. Lucius olhou para o estranho com uma risadinha de mofa e indicou com a espada: -- V juntar-se aos
outros covardes. O novo guerreiro afastou-se, e ento tomou seu lugar junto aos outros mensageiros de Deus atrs da barricada demonaca. Onze anjos tinham conseguido
entrar na igreja sem encolerizar em demasia os demnios: Triskal e Krioni j haviam entrado com Hank e Mary. Eles tinham sido freqentemente vistos na companhia
do pastor e da esposa, e por isso no receberam muita ateno alm das expresses e posturas ameaadoras de sempre. Guilo estava l, grande e ameaador como nunca,
mas aparentemente nenhum demnio tinha o menor interesse em dirigir-lhe qualquer pergunta. Outro novo guerreiro, um polinsio troncudo, dirigiu-se a Chimon e tratou
do ferimento do seu rosto

enquanto Chimon consertava o rasgo da tnica. -- Mota, apresentao. chamado da Polinsia -- veio a

-- Chimon da Europa. Bem-vindo ao nosso grupo. Mota. -- Est em condies de continuar? -- perguntou

-- Continuarei -- respondeu Chimon, tecendo habilidosamente o tecido da tnica com os dedos. -- Onde est Tal? -- Ainda no chegou. -- Um demnio de febre tentou
deter o casal Coleman. Sem dvida Tal teve de enfrentar um ataque contra Duster. -- No sei como ele o repelir sem tornar-se visvel. -- Deixe por conta dele --.
Chimon olhou em redor. -- No vejo o Prncipe Baal em parte alguma. -- Pode ser que jamais o vejamos. -- E possa ele jamais ver Tal. Brummel, em p atrs do plpito
passou os olhos pelas quase cinqenta pessoas que se haviam reunido e deu incio  reunio. Desse local vantajoso, nem mesmo ele podia deixar de tentar adivinhar
a contagem final. Algumas pessoas iam definitivamente mandar Hank passear, algumas definitivamente no iam, e ento havia aquele grupo frustrador e imprevisvel
a respeito do qual ele no podia ter certeza. -- Desejo agradecer a todos o terem comparecido esta noite -- disse ele. -- Esta  uma questo dolorosa que temos de
resolver. Era o meu desejo que a noite de hoje nunca chegasse, mas todos ns queremos que a vontade de Deus seja feita e almejamos o que for melhor para o seu povo.
Assim, vamos iniciar com uma orao e

entregar o restante da noite ao cuidado e direo divinas. Tendo dito isso, Brummel iniciou uma orao muito pia, implorando a graa e a misericrdia do Senhor,
com palavras que trariam lgrimas ao mais seco dos olhos. No canto da frente do templo, Guilo, irritado, desejava que um anjo pudesse cuspir num ser humano. Triskal
perguntou a Chimon: -- Est recebendo fora? Chimon respondeu: -- Por qu? Algum mais vai orar? Brummel terminou a orao, os presentes murmuraram alguns amns,
e ento ele prosseguiu com a apresentao do assunto em pauta. -- A finalidade desta reunio  discutirmos abertamente os nossos sentimentos com relao ao Pastor
Hank, de colocar um ponto final em todas as calnias e disse-que-disses, e encerr-la com um voto decisivo de confiana. Espero que todos tenhamos a mente do Senhor
ao resolver essas questes. Se houver algo que algum deseje dizer ao grupo, eu pediria que limitasse o seu tempo a trs minutos. Avisarei quando o tempo acabar,
por isso no se esqueam. Brummel olhou para Hank e Mary, e continuou: -- Acho que  bom dar a palavra primeiro ao pastor. Depois, ele nos deixar a fim de podermos
falar  vontade. Enquanto Hank se levantava, Mary apertou-lhe a mo. Hank dirigiu-se ao plpito e, colocando-se atrs dele, segurou as laterais. Durante longos momentos,
no pde dizer coisa alguma, mas apenas ficou a olhar em cada olho de cada rosto. Percebeu de repente o quanto verdadeiramente amava essa gente, toda ela.

Podia ver a dureza em alguns rostos, mas no conseguia deixar de enxergar alm dela a dor e a escravido que subjugavam essas pessoas, iludidas, desviadas pelo pecado,
pela cobia, pela amargura e pela rebeldia. Em muitos outros rostos ele lia a dor que estavam sentindo por ele; sabia que alguns oravam silenciosamente, pedindo
a misericrdia e a interveno de Deus. Hank, ao comear, deixou que uma breve orao lhe entremeasse os pensamentos. -- Sempre considerei um privilgio colocar-me
atrs deste sagrado plpito, a fim de pregar a Palavra e falar a verdade. Examinou de novo o rosto dos presentes por apenas um momento e ento continuou: -- E mesmo
esta noite sinto que no posso me desviar da comisso que Deus me deu e do propsito pelo qual sempre me coloquei diante de vocs. No estou aqui com o propsito
de defender a minha pessoa ou o meu ministrio. Jesus  o meu advogado, e deixo o curso de minha vida aos cuidados da sua graa, orientao e misericrdia. Por isso,
esta noite, j que estou mais uma vez atrs deste plpito, deixem-me partilhar com vocs aquilo que recebi de Deus. Hank abriu a Bblia e leu na segunda epstola
de Paulo a Timteo, captulo 4. "Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que h de julgar vivos e mortos, pela sua manifestao e pelo seu reino; prega a palavra,
insta, quer seja oportuno, quer no, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haver tempo em que no suportaro a s doutrina; pelo
contrrio, cercar-seo de mestres, segundo as suas prprias cobias, como que sentindo coceiras em seus ouvidos; e se recusaro a dar ouvidos  verdade, entregando-se
s fbulas. Tu, porm, s sbrio em todas as coisas, suporta as aflies,

faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministrio." Hank fechou a Bblia, correu o olhar pelo aposento e disse com firmeza: -- Que cada um de ns
aplique a palavra de Deus onde ela for aplicvel. Esta noite falarei apenas por mim mesmo. Tenho um chamado de Deus; acabei de l-lo. Alguns de vocs, eu sei, tiveram
realmente a impresso de que Hank Busche est obcecado com o evangelho, que ele s pensa nisso. Bem,  verdade. s vezes chego a perguntar-me por que permaneo numa
posio to difcil como esta, neste esforo penoso... mas para mim o chamado de Deus na minha vida  uma ordem inescapvel e, como disse Paulo: "Ai de mim se no
pregar o evangelho." Compreendo que s vezes a verdade da Palavra de Deus pode tornar-se em diviso, irritao, em pedra de tropeo. Mas isso s acontece porque
ela permanece imutvel, inflexvel, firme. E que melhor razo poderia haver para construirmos a vida sobre to imutvel alicerce? Violar a Palavra de Deus nada mais
 que destruir a ns mesmos, nossa alegria, nossa paz, nossa felicidade. -- Desejo ser justo com vocs, e por isso falarei a verdade ao dizer-lhes exatamente o que
podem esperar de minha parte. Tenciono am-los a todos, no importa o que acontea. Tenciono pastore-los e aliment-los enquanto desejarem que eu fique. No desacreditarei,
nem transigirei, nem darei as costas quilo que acredito que a Palavra de Deus ensina, e isso significa que haver horas em que tero o meu cajado de pastor em torno
de seus pescoos, no para julgar ou fazer mal, mas para ajud-los a se voltarem para a direo certa, a fim de proteg-los e cur-los. Tenciono pregar o evangelho
de Jesus Cristo, pois para isso fui chamado. Sinto uma grande responsabilidade por esta cidade; h vezes em que sinto to fortemente essa responsabilidade

que tenho de perguntar-me por que, mas esse sentimento no se vai e no posso dar-lhe as costas nem tentar neg-lo. At que o Senhor me diga o contrrio, tenciono
permanecer em Ashton a fim de me desincumbir dessa responsabilidade. -- Se esse  o tipo de pastor que desejam, ento digam-me esta noite. Se no for esse o tipo
de pastor que desejam... bem, realmente tambm preciso saber. -- Amo-os a todos. Desejo o melhor que Deus tem para lhes dar. E acho que isso  tudo o que tenho a
dizer. Hank desceu da plataforma, pegou a mo de Mary, e os dois saram pela passagem central rumo  porta. Hank tentou captar os olhos de tantas pessoas quantas
pudesse. Algumas lhe deram olhar de amor e estmulo, outras desviaram os olhos. Krioni e Triskal saram com Hank e Mary. Lucius observava com zombeteiro desdm.
Guilo murmurou para os companheiros: -- Enquanto o gato est ausente, os ratos vo brincar. -- Onde est Tal? -- perguntou novamente Chimon. Brummel ps-se de p
diante do grupo. -- Ouviremos agora as declaraes da congregao. Levantem a mo se quiserem falar. Sim, Sam, porque no fala primeiro? Sam Turner levantou-se e
foi  frente. -- Obrigado, Alf -- disse. -- Bem, no tenho dvida de que todos conhecem a mim e a minha esposa Helen. Temos morado nesta comunidade por mais de trinta
anos, e apoiamos esta igreja atravs de tudo quanto foi dificuldade. Ora, no tenho muito o que dizer esta noite. Todos sabem que tipo de pessoa sou, como

acredito em amar ao prximo e em viver uma vida de bem. Tenho tentado fazer o que  certo e ser um bom exemplo daquilo que um cristo deveria ser. -- E estou zangado
esta noite. Estou zangado por causa de meu amigo Lou Stanley. Vocs podem ter notado que Lou no est aqui hoje, e estou certo de saber o por qu. Antigamente, ele
podia aparecer na igreja e fazer parte dela, e ns todos o amvamos e ele nos amava, e acho que todos ainda o amam. Mas esse sujeito Busche, que se acha ser um presente
de Deus para o mundo, pensou que tinha o direito de julgar o Lou e chut-lo para fora da igreja. Agora, amigos, deixem-me dizer-lhes uma coisa: ningum chuta Lou
Stanley para fora de lugar algum se Lou no quiser, e o prprio fato de Lou ter concordado com essa difamao de carter simplesmente mostra a bondade do seu corao.
Ele j podia ter processado Busche, ou resolvido a questo como j o vi resolver outros problemas. Ele no tem medo de nada. Mas acho que Lou est com tanta vergonha
das coisas horrveis que foram ditas a respeito dele e to magoado pelo que acha que pensamos dele que achou melhor no aparecer mais. -- Ora, temos aqui esse fofoqueiro
farisaico de Bblia em punho, o culpado desses problemas. Perdoemme se pareo um tanto duro, mas, ouam, lembro-me de quando esta igreja era como uma famlia. Quanto
tempo faz agora desde que ela foi assim? Vejam o que aconteceu: c estamos, envolvidos numa grande discusso, e por qu? Porque permitimos que Hank Busche viesse
e alvoroasse a todo o mundo. Ashton costumava ser uma cidade pacfica, esta igreja costumava ser pacfica, e digo que devemos fazer o que for necessrio para que
as coisas voltem a ser como antes. Turner voltou ao seu lugar enquanto algumas cabeas acenaram silenciosamente em encorajamento e

aprovao. Em seguida, John Coleman pediu a palavra. Uma pessoa tmida, ele estava muito nervoso por ter de falar na frente de todos, mas estava preocupado bastante
para faz-lo assim mesmo. -- Bem -- disse, revolvendo nervosamente a Bblia e olhando para o cho -- em geral no falo muito, e estou morrendo de medo pelo fato
de estar em p aqui, mas... acho que Hank Busche  um verdadeiro homem de Deus, um bom pastor, e eu realmente detestaria v-lo partir. A igreja da qual Pat e eu
viemos, bem, simplesmente no estava satisfazendo s nossas necessidades, e estvamos ficando com fome: fome da Palavra, da presena de Deus. Achamos ter encontrado
essas coisas aqui, e estvamos realmente esperando poder participar desta igreja e crescer no Senhor sob o ministrio de Hank, e sei que uma poro de outras pessoas
sentem da mesma forma. No que diz respeito a esse negcio do Lou, o que aconteceu no foi apenas responsabilidade do Hank. Todos ns participamos da deciso, inclusive
eu, e sei que Hank no estava tentando magoar a ningum. Quando John se assentou, Patrcia deu-lhe uns tapinhas no brao e disse: -- Voc se saiu muito bem --. Mas
John no tinha tanta certeza assim. Brummel dirigiu-se ao grupo. -- Acho que seria uma boa idia ouvirmos o que o secretrio da igreja, Gordon Mayer, tem a dizer.
Gordon Mayer foi  frente levando alguns arquivos e atas da igreja. Era um homem tenso, de expresso rgida e voz rouquenha. -- Tenho dois assuntos que desejo apresentar
ao grupo -- disse. -- Antes de mais nada, na parte de

negcios, vocs todos precisam ficar sabendo que as ofertas decaram nos ltimos meses, mas as nossas contas ficaram na mesma, se  que no subiram. Em outras palavras,
o dinheiro est acabando, e eu pessoalmente no tenho dvidas quanto ao motivo. Existem diferenas entre ns que realmente precisamos resolver, e deixar de contribuir
no  o modo de fazer isso. Se tiverem reclamao acerca do pastor, ento faam o que tiverem de fazer esta noite, mas no vamos acabar com a igreja toda por causa
desse homem. -- Em segundo lugar, no sei se adianta alguma coisa, mas deixem-me dizer-lhe que a comisso original designada para escolher o pastor estava considerando
outro homem para o cargo. Eu fiz parte da comisso e posso garantir-lhes que ela no tinha a menor inteno de recomendar Busche para o cargo. Estou convencido de
que a coisa toda foi um engano, um grave erro. Votamos no homem errado e agora estamos pagando. -- Por isso, deixem-me encerrar assim: Claro, cometemos um erro,
mas tenho f no grupo que est aqui, e acho que podemos dar as costas ao que passou e comear a fazer a coisa certa para variar. Vamos l, pessoal. E assim foi a
noite durante quase duas horas, enquanto ambos os lados se alternavam em crucificar e louvar a Hank Busche. Os nervos vieram  tona, os traseiros se adormeceram,
as costas se grudaram, e os pontos de vista opostos cada vez mais se exaltaram em suas convices. Aps duas horas, um sentimento comum comeou a ser murmurado pelo
salo: "Vamos l, est na hora de votar..." Alf Brummel havia tirado o palet, soltado a gravata, e arregaado as mangas. Ele estava juntando uma pilha de quadradinhos
de papel, as cdulas. -- Muito bem, este voto ser secreto -- disse, entregando os papis a dois auxiliares escolhidos s

pressas, os quais os distriburam  congregao. -- Vamos manter a coisa bem simples. Se deseja que o pastor fique, escreva sim, e se quiser outra pessoa, escreva
no. Mota cutucou Chimon. -- Hank ter nmero suficiente de votos? Chimon apenas meneou a cabea. -- Ainda no temos certeza. -- Quer dizer que ele pode perder?
-- Esperemos que algum esteja orando. -- Onde, mas, onde est Tal? Escrever um simples sim ou no tomava pouco tempo, de modo que quase de imediato os auxiliares
estavam recolhendo os votos. Guilo estava quieto no seu canto, fitando com ferocidade tantos demnios quantos olhassem para ele. Alguns dos espritos menores de
perturbao adejavam pelo templo tentando ver o que as pessoas estavam marcando nas cdulas, e rindo, fazendo caretas, dando vivas ou xingando conforme o que viam.
Em pensamento, Guilo via trs ou quatro daqueles pescocinhos finos em suas mos. No vai demorar, demoniozinhos, no vai demorar. Brummel assumiu o comando novamente.
-- No interesse da justia vamos escolher representantes dos dois diferentes... ah... pontos de vista para virem fazer a contagem. Depois de um bocado de risinhos
nervosos, John Coleman foi escolhido pelos favorveis e Gordon Mayer pelos desfavorveis. Os dois levaram os pratos de coleta cheios de votos a um banco nos fundos.
Um bando de demnios esvoaando e chiando convergiu sobre o local, querendo ver o resultado.

Guilo tambm saiu do seu canto. Nada mais justo, pensou. Lucius precipitou-se do teto num instante e sibilou: -- Volte para o seu canto! -- Desejo ver o resultado.
-- Ah,  isso o que voc deseja, no  mesmo? -- zombou Lucius -- E se eu resolver abri-lo como fiz ao seu amigo? Algo na forma pela qual Guilo respondeu: -- Experimente
-- pode ter feito Lucius reconsiderar.  aproximao de Guilo os demoniozinhos saram alvoroados como um bando de galinhas. Ele se inclinou sobre os dois homens
para dar uma olhada. Gordon Mayer contava primeiro, em silncio, e depois passava as cdulas a John Coleman. Mas sorrateiramente escondeu alguns votos positivos
na palma da mo. Guilo olhou para ver quo atentamente os demnios estavam observando, depois fez ele mesmo um movimento sorrateiro, tocando as costas da mo de
Mayer. Um demnio percebeu e bateu na mo de Guilo com garras  mostra. Guilo puxou depressa a mo e chegou infinitamente perto de rasgar o demnio em tiras, mas
conteve-se e obedeceu s ordens de Tal. -- Qual  seu nome? -- quis saber Guilo. -- Trapaa -- respondeu o demnio. -- Trapaa -- repetiu Guilo enquanto voltava
ao seu canto. -- Trapaa. Mas o golpe de Guilo havia servido para frustrar o esforo de Mayer. As cdulas caram da mo do homem e John Coleman as viu. -- Voc derrubou
alguma coisa a -- disse ele com muita doura. Mayer no pde dizer nada. Simplesmente entregou as cdulas ao outro.

A contagem estava terminada, mas Mayer queria contar outra vez. Contaram os votos novamente. O nmero no mudou: estava empatado. Os dois relataram o resultado a
Brummel, e este disse  congregao, que gemeu baixinho. Alf Brummel sentia as mos umedecerem; tentou enxug-las no leno. -- Bem, ouam -- disse ele -- pode no
haver muita possibilidade de que alguns de vocs reconsiderem, mas estou certo de que ningum deseja prolongar este negcio alm de hoje. Vamos fazer uma coisa:
por que no tiramos um curto intervalo e damos a alguns a chance de se levantarem, espreguiarem, usarem o banheiro. Depois nos reuniremos e votaremos de novo. Enquanto
Brummel falava, os dois demnios postados no canto da igreja viram algo muito inquietante. A apenas um quarteiro vinham duas senhoras idosas, manquitolando em direo
 igreja. Uma andava apoiada na bengala e ajudada pela mo da amiga. Ela no parecia nada bem, mas o queixo estava firme e os olhos brilhantes e decididos. Os estalidos
da bengala formavam um ritmo sincopado com os dos seus passos. A amiga, melhor de sade e mais forte, mantinha-se ao seu lado, segurando-lhe o brao a fim de afirm-la
e cochichava algo ao seu ouvido. -- A da bengala  Duster -- disse um demnio. -- O que saiu errado? -- quis saber o outro. -- Pensei que tivessem dado um jeito
nela. -- Est doente, com certeza, mas veio de qualquer forma. -- E quem  a velha que a acompanha? -- Edith Duster tem muitas amigas. Devamos ter sabido.

As duas senhoras subiram a escada da frente, cada degrau em si uma tarefa penosa, primeiro um p, depois o outro, depois a bengala colocada no degrau seguinte, at
que finalmente chegaram  porta da frente. -- A, olhe s! -- riu-se a mais forte. -- Eu sabia que voc conseguiria. O Senhor a trouxe at aqui, ele cuidar de voc
o resto do percurso. -- Edith Duster precisa mais  de um derrame -- murmurou um demnio de enfermidade, sacando da espada. Talvez fosse apenas sorte, ou incrvel
coincidncia, mas no exato momento em que o demnio se precipitou com grande velocidade para cortar as artrias do crebro de Edith Duster, a outra senhora adiantou-se
a fim de abrir a porta e se ps bem na frente. A ponta da espada do demnio bateu no ombro da mulher, que podia ter sido de concreto; a espada se deteve. Enfermidade,
contudo, no parou, mas deu uma reviravolta por cima das duas mulheres e aos tram-bolhes, como um papagaio quebrado, foi parar no ptio da igreja enquanto Edith
Duster entrava. Enfermidade levantou-se e berrou: -- O exrcito celestial! O outro compreender. demnio de guarda fitou-o sem

Brummel viu Edith Duster entrar sozinha. Ele soltou uma praga silente. Esse seria o voto que desempataria, mas ela certamente votaria em Busche. As pessoas reuniam-se
de novo. Os mensageiros de Deus estavam eufricos. -- Parece que Tal conseguiu -- disse Mota. Chimon, entretanto, estava preocupado. -- Com tanto inimigo por perto,
ele com toda a

certeza teve de se mostrar. Guilo deu uma risada. -- Estou certo de que o nosso Capito foi muito discreto. Alguns demnios estavam de fato tentando descobrir que
fim levara a companheira de Edith Duster entre a porta da frente e o santurio. Enfermidade continuava insistindo em que havia sido um guerreiro celeste, mas onde
estava ela agora? Tal, Capito do Exrcito, reuniu-se a Signa e aos outros guardas em sua posio escondida. -- O senhor enganou at a mim, Capito -- disse Signa.
-- Voc poderia tentar esse truque algum dia -- replicou Tal. Na plataforma, Brummel tateava mentalmente em busca de um trunfo. Ele podia at ver os olhos ardentes
de Langstrat, caso a votao sasse errada. -- Bem -- disse ele -- por que no reiniciamos a assemblia e nos preparamos para outra votao? -- Os presentes se acomodaram,
e fez-se silncio. O lado dos sim estava mais do que pronto. -- Agora que oramos e falamos sobre o assunto, talvez alguns de ns pensemos de forma diferente acerca
do futuro desta igreja. Eu... hum... -- Vamos l, Alf, diga alguma coisa, mas no fale bobagem. -- Acho que poderia dizer algumas palavras; ainda no transmiti o
que sinto. Sabem, Hank Busche  um pouco jovem... Um encanador de meia idade do campo positivo disse: -- Se voc vai reforar o lado negativo, temos o direito ao
mesmo tempo para o positivo. Todos os pelo sim murmuraram concordando

enquanto os pelo no permaneceram em frio silncio. -- No, ouam -- gaguejou Brummel, o rosto vermelho-vivo -- no tive a inteno de influenciar a votao. Apenas
estava... -- Vamos votar! -- disse algum. -- Sim, votem, e depressa! -- sussurrou Mota. Nesse exato momento a porta se abriu. Oh, no, pensou Brummel, quem est
chegando desta vez? O silncio caiu como uma mortalha sobre todo o grupo. Lou Stanley havia acabado de entrar. Sombrio, acenou com a cabea cumprimentando a todos
e assentou-se num banco dos fundos. Gordon Mayer disse: -- Vamos  votao! Os auxiliares passaram as cdulas enquanto Brummel tentava planejar uma boa rota de escape,
caso precisasse vomitar, seus nervos estavam praticamente em frangalhos. Ele conseguiu a ateno de Lou Stanley. Lou olhou-o e pareceu dar uma risadinha nervosa.
-- Assegure-se de que o Lou, que est l atrs, receba uma cdula -- disse Brummel a um dos auxiliares. O auxiliar cumpriu o pedido. Chimon sussurrou a Guilo. --
Acho que estamos prontos para qualquer truque que Lucius possa querer pregar. -- Qualquer coisa que leve a um desempate, voc quer dizer -- respondeu Guilo. -- Pode
ser que ainda demore bastante -- disse Mota. As cdulas foram recolhidas, e Lucius manteve os seus demnios em cerco fechado ao redor de cada receptculo de coleta,
e os olhos em cada guerreiro

celeste. Mayer e Coleman contaram novamente enquanto a tenso no ar aumentava. Os demnios observavam. Os anjos observavam. As pessoas observavam. Mayer e Coleman
mantinham-se de olho um no outro, pronunciando silenciosamente os nmeros ao contar. Mayer terminou de contar, e esperou por Coleman. Coleman terminou, olhou para
Mayer e perguntou-lhe se desejava contar novamente. Contaram mais uma vez. Ento Mayer tomou a caneta, escreveu o resultado num pedao de papel, e levou-o a Brummel.
Mayer e Coleman tomaram seus lugares enquanto Brummel desdobrava o papel. Visivelmente abalado, Brummel precisou de alguns momentos para recompor a imagem pblica
prtica e descontrada. -- Bem... -- comeou ele, tentando controlar a voz -- muito bem, ento. O... pastor foi confirmado. Uma ala do salo descontraiu-se e deu
risadinhas abafadas. A outra arrepanhou os casacos e os pertences para sair. -- Alf, qual foi o resultado? -- quis saber algum. -- Ah... no diz aqui. -- Vinte
e oito a vinte e seis! -- disse Gordon Mayer acusadora-mente, olhando para trs na direo de Lou Stanley. Mas Lou Stanley j tinha sado.

11
Tal, Signa, e as outras sentinelas viram a exploso de onde se encontravam. Com gritos e guinchos de raiva, os demnios se espalharam por toda a parte, explodindo
pelo teto e laterais da igreja como estilhaos, e irradiando em todas as direes sobre a cidade. Seus gritos formaram um alto e ressonante estrondear de fria selvagem
que repercutiu por toda a cidade como milhares de lgubres apitos de fbrica, sirenas e buzinas. -- Eles faro estrago violento esta noite -- disse Tal. Mota, Chimon
e Guilo estavam presentes para prestar relatrio. -- Por dois votos -- disse Mota. Tal sorriu e disse: -- Muito bem, ento. -- Mas Lou Stanley! -- exclamou Chimon.
-- Era realmente Lou Stanley? Tal entendeu a inferncia. -- Sim, aquele era o Sr. Stanley. No sa daqui desde que trouxe Edith Duster. Guilo. -- Vejo que o Esprito
tem trabalhado! -- riu-se

-- Vamos levar Edith a salvo para casa e montar guarda em torno dela. Todos a postos. Haver espritos irados sobre a cidade esta noite. Aquela noite a polcia esteve
ocupada. Brigas estouraram nos bares locais, lemas foram pichados nas paredes do tribunal, carros foram roubados e, por molecagem, usados para rodarem no gramado
e nas flores do parque.

Tarde da noite Juleen Langstrat flutuava num transe inescapvel, entre uma vida atormentada na terra e a proximidade das chamas ardentes do inferno. Ela se deitou
na cama, caiu ao cho, agarrou-se  parede a fim de pr-se em p, deu uns passos vacilantes pelo quarto, e caiu ao cho novamente. Vozes ameaadoras, monstros, chamas
e sangue explodiam e martelavam com fora inimaginvel em sua cabea; ela achava que seu crnio arrebentaria. Sentia garras rasgando-lhe a garganta, criaturas contorcendo-se
e mordendo o interior dela, correntes em torno dos braos e pernas. Ouvia vozes de espritos, via-lhes os olhos e as presas, sentia o cheiro de seu hlito sulfuroso.
Os Senhores estavam irados! "Fracassou, fracassou, fracassou, fracassou", as palavras martelavam-lhe o crebro e desfilavam diante dos seus olhos. "Brummel fracassou,
voc fracassou, ele morrer, voc morrer..." Segurava ela realmente uma faca nas mos ou isso era tambm uma viso das esferas mais elevadas? Sentia um desejo,
um impulso terrivelmente forte de livrar-se daquele tormento, de se libertar da carapaa do corpo, da priso de carne que a retinha. "Junte-se a ns, junte-se a
ns, junte-se a ns", diziam as vozes. Ela apalpou a ponta da lmina, e sangue escorreu-lhe pelo dedo. O telefone tocava. O tempo parou. O quarto registrou-se em
suas retinas. O telefone tocava. Ela estava no quarto. Havia sangue no cho. O telefone tocava. A faca caiu-lhe das mos. Ela podia ouvir vozes, vozes iradas. O
telefone tocava. Encontrou-se de joelhos no cho do quarto. Havia cortado o dedo. O telefone ainda tocava. Ela gritou al, mas ele continuou a tocar.

"No lhes falharei", disse ela aos seus visitantes. "Deixem-me. No lhes falharei." O telefone tocava. Alf Brummel estava sentado em casa, ouvindo o telefone tocar
no outro lado. Juleen devia estar fora. Ele desligou, aliviado, embora apenas temporariamente. Ela no ficaria contente com o resultado da votao. Outro atraso,
ainda outro atraso no Plano. Ele sabia que no podia evit-la, que ela descobriria, que ele seria confrontado e censurado pelos outros. Ele se atirou sobre a cama
e contemplou a idia de demitir-se, fugir, suicidar-se. Ensolarada manh de sbado. Os cortadores de grama chamavam um ao outro atravs de cercas, sebes, e becos
sem sadas; a meninada brincava, mangueiras borrifavam carros sujos. Marshall estava sentado na cozinha,  mesa cheia de material de anncios e uma lista dos novos
e antigos clientes; o Clarim ainda estava sem secretria. A porta da frente abriu-se e Kate entrou. -- Preciso de uma mozinha! Sim, o inevitvel descarregar de
compras da mercearia. -- Sandy -- berrou Marshall pela porta dos fundos --  a nossa vez! -- Com o passar dos anos a famlia havia inventado um sistema bem funcional
de separar, manejar e guardar as compras. -- Marshall -- disse Kate, passando legumes de um saco para ele na geladeira -- voc ainda est trabalhando nesse material?
 sbado! -- J est quase terminado. Detesto ver coisas empilhadas por cima de mim. Como esto Joe e a

turma? Kate deteve um transferncia e disse: mao de salso em plena

-- Sabe uma coisa? Joe se foi. Ele vendeu a mercearia e mudou-se, e nem fiquei sabendo disso. -- Nossa. As coisas acontecem depressa por aqui. E quando foi que ele
se mudou? -- No sei. Ningum me disse. Para falar a verdade, acho que no gosto do novo proprietrio. -- E este produto de limpeza aqui? -- Esse vai para debaixo
da pia. O produto foi para debaixo da pia. -- Perguntei quele sujeito acerca de Joe e Angelina e por que tinham vendido a mercearia e se tinham mudado e para onde
se haviam mudado e ele no me informou nada, disse apenas que no sabia. -- Esse  o dono da mercearia? Como se chama? -- No sei. Nem isso ele quis dizer. -- Bem,
ele fala? Conhece a nossa lngua? -- O bastante para cobrar as compras e tomar o dinheiro dos fregueses, e  s. Agora podemos tirar todo esse negcio de cima da
mesa? Marshall comeou a reunir a papelada ante a iminente invaso de lataria e verduras. Kate continuou: -- Acho que me acostumarei com a situao, mas por alguns
instantes pensei ter entrado na mercearia errada. No reconheci a ningum. Pode mesmo ser que todos os empregados sejam recentes. Sandy falou pela primeira vez.
-- Algo esquisito est acontecendo nesta cidade. Marshall perguntou:

--  mesmo? Sandy no deu continuidade ao assunto. Marshall tentou arrancar mais coisas dela. -- Bem, o que voc acha que ? -- Ah, nada, nada. Apenas uma impresso
minha. As pessoas esto comeando a agir de um modo esquisito. Acho que estamos sendo invadidos por aliengenas. Marshall no insistiu. Guardadas as compras, Sandy
voltou aos estudos e Kate preparou-se para trabalhar no jardim. Marshall tinha um telefonema a dar. A meno de aliengenas estranhos que invadiam a cidade mexeu
com sua memria e tambm com seu faro de reprter. Talvez a Langstrat no fosse aliengena, mas certamente era esquisita. Ele se sentou no sof da sala de estar
e tirou da carteira a tirinha de papel com o nmero do telefone de Ted Harmel. Uma ensolarada manh de sbado seria uma hora estranha para encontrar algum dentro
de casa, mas Marshall resolveu tentar. O telefone do outro lado da linha tocou diversas vezes e ento uma voz masculina atendeu. -- Al? -- Al, Ted Harmel? -- Sim,
quem fala? -- Aqui  Marshall Hogan, o novo redator do Clarim. -- Oh, ah... -- Harmel esperou que Marshall continuasse. -- Bem, olhe, voc conhece a Berenice Krueger,
certo? Ela est trabalhando para mim.

-- Ento ela ainda est por a? Descobriu alguma coisa a respeito da irm? -- Hum, no sei muito a respeito, ela nunca me contou. -- E ento, como vai o jornal?
Eles conversaram alguns minutos a respeito do Clarim, do escritrio, da circulao, o que podia ter acontecido com o fio da cafeteira eltrica. Harmel pareceu particularmente
preocupado ao saber que Edie se havia demitido. -- O casamento dela se desfez -- disse-lhe Marshall. -- Foi uma surpresa total para mim. Cheguei tarde demais para
saber o que estava acontecendo. -- Hum... ... -- Harmel estava pensando um bocado do outro lado. Mantenha a conversa fluindo, Hogan. -- , bem, tenho uma filha
que  caloura na faculdade. -- No diga. -- , sim, fazendo os pr-requisitos, vencendo as barreiras iniciais. Est gostando. -- Bom para ela. Harmel estava certamente
sendo paciente. -- Sabe, Sandy tem uma professora de psicologia que achei muito interessante. -- Langstrat. --  sim, ela mesma. Um bocado de idias diferentes.
-- Aposto que sim. -- Voc sabe alguma coisa a respeito dela? Harmel fez uma pausa, suspirou, e ento perguntou:

-- Bem, o que voc deseja saber? -- Qual o propsito dela, afinal de contas? Sandy est trazendo uma poro de idias esquisitas para casa... Harmel teve dificuldade
em responder. -- ... ah... misticismo oriental, arte religiosa antiga. Ela est nessa de, voc sabe, meditao, percepo mais elevada... ah... unio com o Universo.
No sei se qualquer coisa nisso tudo faz sentido para voc. -- No muito. Mas parece que ela consegue espalhar as suas idias, no? -- O que quer dizer com isso?
-- Voc sabe, ela se rene com algumas pessoas regularmente; Alf Brummel e, ah, quem mais? Pinckston... -- Dolores Pinckston? -- Sim, do conselho diretor. Dwight
Brandon, Eugene Baylor... Harmel interrompeu abruptamente. -- O que voc deseja saber? -- Bem, segundo consta, voc esteve envolvido na situao... -- No, nada
disso. -- Voc no chegou a ter sesses com ela? Houve uma longa pausa. -- Quem lhe disse isso? -- Oh, ns... ficamos sabendo. Outra pausa longa. Harmel suspirou
pelo nariz. -- Escute -- perguntou ele -- o que mais voc quer saber?

-- No muito mais.  que isso tudo me est cheirando a uma boa histria. Voc sabe como . Harmel estava-se debatendo, furioso, tateando  procura de palavras. --
Sim, eu sei como . Mas voc est errado desta vez, totalmente errado! Outra pausa, outro debate. -- Oh, que coisa! gostaria que no me tivesse ligado. -- Ei, olhe,
ns dois somos jornalistas... -- No! Voc  jornalista! Eu estou fora. Tenho certeza de que sabe tudo a meu respeito. -- Eu sei o seu nome, seu nmero, e que voc
foi dono do Clarim. -- Est bem, mas deixemos as coisas como esto. Ainda tenho respeito pela vocao. No quero v-lo arruinado. Marshall no queria perder o peixe.
-- Escute, no v me deixar no escuro! -- No estou tentando deix-lo no escuro. H algumas coisas acerca das quais simplesmente no posso falar. -- Claro, entendo.
No tem problema. -- No, voc no entende. Agora, escute o que vou dizer! No sei o que descobriu, mas seja l o que for, enterre. Faa outra coisa. V escrever
a respeito de plantar rvores nas escolas, qualquer coisa bem incua, mas no se meta em encrencas. -- De que voc est falando? -- E pare de tentar arrancar informao
de mim! O que lhe estou dando  tudo o que vai conseguir, e 

melhor aproveitar bem. Estou-lhe dizendo, esquea-se da Langstrat, esquea-se de qualquer coisa que tenha ouvido a respeito dela. Sei que voc  reprter, e por
isso sei que vai sair por a e fazer justamente o oposto do que lhe estou dizendo, mas deixe-me avis-lo enquanto  tempo: No faa isso. Hogan no respondeu. --
Hogan, est-me ouvindo? -- Como  que posso abandonar isso agora? -- Voc tem esposa, filha? Pense nelas. Pense em si mesmo. Se no, vai perder tudo como todos os
outros perderam. -- O que quer dizer, todos os outros? -- No sei de nada, no conheo a Langstrat, no conheo voc, no moro mais aqui. Ponto final. -- Ted, voc
est metido em alguma encrenca? -- Esquea-se! E desligou. Marshall bateu o telefone e, sentado, deixou que suas idias disparassem. Esquea-se, dissera Harmel.
Esquea-se. Nunca! Edith Duster, sbia anci da igreja, ex-missionria na China, viva de cerca de trinta anos, morava nos apartamentos Willow Terrace, um pequeno
complexo para aposentados no longe da igreja. Tendo mais de oitenta anos, ela subsistia com dificuldade da aposentadoria e uma penso de obreira que sua denominao
pagava, e gostava muito de receber pessoas em casa, especialmente por ter dificuldade em sair e andar pela cidade ultimamente. Hank e Mary estavam sentados  pequena
mesa de refeies perto da grande janela que dava para a frente do prdio. Vov Duster usava um bule muito

antigo, muito gracioso ao servir o ch em xcaras igualmente graciosas. Ela estava bem vestida, quase formalmente, como sempre fazia ao receber visitas. -- No --
disse quando afinal se sentou, a mesa do ch matutino arrumada corretamente, os doces folheados no lugar. -- No creio que os propsitos de Deus sero frustrados
por muito tempo. Ele tem a sua prpria maneira de ajudar o seu povo a passar pelas dificuldades. Hank concordou, mas debilmente. -- Imagino que sim... -- Mary segurava-lhe
a mo. Vov permaneceu firme. -- Eu sei que sim, Henry Busche. O fato de voc estar aqui no  um erro; discordo veementemente dessa idia. Se no fosse para voc
estar aqui, o Senhor no teria feito tudo o que ele tem feito atravs do seu ministrio. Mary ofereceu uma informao. -- Ele se sente um pouco deprimido por causa
da votao. Vov sorriu amorosamente e fitou os olhos de Hank. -- Acho que o Senhor est forando um reavivamento naquela igreja, mas  como a virada da mar: antes
que a mar possa voltar, precisa primeiro deter toda aquela gua que se escoa. D tempo  igreja para virar. Espere oposio, espere mesmo a perda de algumas pessoas,
mas a direo mudar depois da calmaria. Apenas d tempo. De uma coisa eu sei: nada me impediria de ter ido  reunio ontem  noite. Eu me estava sentindo muito
mal, ataque de Satans, acho, mas foi o Senhor quem me fez sair. Bem na hora da reunio, senti os seus braos me erguerem e coloquei o casaco e fui, e cheguei na
hora certa. No sei se teria ido to longe assim para comprar alimento. Foi o Senhor, disso eu sei. S sinto ter tido apenas um voto. -- Ento, de quem a senhora
acha que foi o outro

voto? -- perguntou Hank. Mary acrescentou depressa: -- No poderia ter sido de Lou Stanley. Vov sorriu. -- Ora, no diga isso. A gente nunca sabe o que o Senhor
pode estar fazendo. Mas vocs esto curiosos, no esto? -- Estou muito curioso -- disse Hank, e agora tambm sorria. -- Bem, talvez voc venha a saber, e tambm
talvez nunca saiba. Mas est tudo nas mos do Senhor, e voc tambm est. Deixe-me esquentar o seu ch. -- A igreja no tem possibilidade de sobreviver se metade
da congregao deixar de apoiar, e no consigo imaginar as pessoas dando apoio a um pastor que no desejam. -- Oh, mas tenho sonhado com anjos ultimamente --. Vov
sempre falava com naturalidade sobre essas coisas. -- No  sempre que sonho com anjos, mas j os vi antes, e sempre quando um grande progresso estava prestes a
ocorrer em prol do reino de Deus. Sinto uma sensao no esprito de que algo est realmente despertando aqui. Voc no tem sentido o mesmo? Hank e Mary se entreolharam
para ver qual deles devia falar primeiro. Ento Hank contou  anci tudo a respeito da batalha da outra noite, e o peso que vinha sentindo com relao  cidade ultimamente.
Mary intercalava coisas de que se lembrava sempre que lhe ocorriam. Vov ouvia com grande fascinao, reagindo em momentos-chave com "Nossa", "Bem, Deus seja louvado"
e "Puxa... !" -- Sim -- disse ela afinal -- sim, isso tudo faz muito sentido para mim. Vocs sabem, tive uma experincia certa noite no faz muito tempo, em p bem

ao lado daquela janela --. Ela apontou para a janela da frente que dava para o jardim. -- Eu estava pondo as coisas em ordem na casa, aprontando-me para dormir e,
ao passar por aquela janela, olhei os tetos e as luzes dos postes e de repente fiquei tonta. Precisei sentar-me para no cair. E eu no sofro de tonturas. A nica
vez que isso me aconteceu foi na China. Meu marido e eu estvamos visitando a casa de uma senhora mdium esprita, e eu sabia que ela nos odiava e acho que estava
tentando botar uma maldio em ns. Do lado de fora da porta tive a mesma sensao de tontura, coisa de que jamais me esquecerei. O que senti outra noite foi igual
quela vez na China. -- O que a senhora fez? -- perguntou Mary. -- Oh, orei. Disse apenas: "Demnio, retire-se em nome de Jesus!", e ele se foi. Hank perguntou:
-- Ento, a senhora acha que foi um demnio? -- Oh, sim. Deus est-se movimentando e Satans no gosta disso. Realmente acredito que espritos malignos estejam por
a. -- Mas a senhora no acha que h mais do que o normal? Quero dizer, fui cristo a vida toda e jamais me defrontei com algo que se assemelhasse ao que sinto agora.
O rosto da velha senhora ficou pensativo. -- "Mas esta casta no se expele seno por meio de orao e jejum." Precisamos orar, e precisamos fazer as outras pessoas
orarem.  isso que os anjos me dizem. Mary estava intrigada. -- Os anjos dos seus sonhos? -- Vov assentiu com a cabea. -- Que aparncia tm? -- Oh, de gente, mas
diferentes de todo o mundo.

So grandes, muito bonitos, roupas coloridas, grandes espadas ao lado, asas enormes, muito brilhantes. Um deles, que apareceu ontem  noite, fez-me lembrar meu filho;
era alto, loiro, parecia escandinavo --. Ela olhou para Hank. -- Ele me disse que orasse por voc, e voc tambm apareceu no sonho. Eu podia v-lo atrs do plpito,
pregando, e ele estava atrs de voc com as asas abertas, cobrindo-o como um palio, e olhou para mim e disse: "Ore por este homem." -- Eu no sabia que a senhora
estava orando por mim -- disse Hank. -- Bem, est na hora de outras pessoas comearem a orar tambm. Acho que a mar est virando, Hank, e agora voc precisa de
fiis verdadeiros, visionrios verdadeiros que se ponham ao seu lado e orem por esta cidade. Precisamos orar para que o Senhor os arrebanhe. Foi muito natural ento
darem-se as mos em louvor ao Senhor e aes de graa pelo primeiro estmulo real que aparecera em muito tempo. Hank fez uma orao de agradecimento e mal pde termin-la
pois suas emoes se avolumavam dentro dele. Mary deu graas no s pela fora recebida mas tambm por Hank ter-se animado mais. A seguir, Edith Duster, que j havia
participado de guerras espirituais, que j havia ganho batalhas em solos estrangeiros, agarrou com fora as mos daquele jovem casal de ministros e orou. -- Senhor
Deus -- disse ela, e o calor do Esprito Santo fluiu atravs deles -- ergo neste momento um cerco em torno deste jovem casal, e ato os espritos em nome de Jesus.
Satans, quaisquer que sejam os seus planos para esta cidade, eu te repreendo em nome de Jesus, e eu te ato, e te expulso!

CLUNQUE! Os olhos de Rafar voltaram-se rpidos na direo do rudo que interrompera o que ele estava dizendo e viu duas espadas cadas das mos dos donos. Os dois
demnios, guerreiros temveis, estavam pasmados. Ambos se abaixaram depressa para apanhar as armas, curvando-se, desculpando-se, pedindo perdo. Plaft! O p de Rafar
caiu sobre uma espada, e a sua prpria enorme espada prendeu a outra ao cho. Os dois guerreiros, aturdidos e aterrorizados, afastaram-se. -- Por favor, perdoe-me,
meu prncipe! -- disse um deles. -- Sim, por favor, perdo! -- disse o outro. -- Isso jamais aconteceu antes... -- Silncio, vocs dois! -- trovejou Rafar. Os dois
guerreiros se prepararam para algum terrvel castigo; seus atemorizados olhos amarelados espiavam por detrs de asas negras abertas no intuito de proteg-los, como
se houvesse alguma forma de proteo contra a ira de Baal Rafar. Mas Rafar no os atacou. Ainda no. Parecia mais interessado nas espadas cadas; quedou-se a fit-las,
a testa enrugada e os grandes olhos amarelados quase fechados. Deu lenta volta em torno das espadas, estranhamente incomodado de uma forma que os guerreiros jamais
tinham visto antes. -- Annhhh... -- Um grunhido baixo, gorgolejante, subiu-lhe da garganta enquanto as narinas expeliam vapor amarelo. Devagar, ele colocou um joelho
em terra e pegou uma espada. Em seu punho enorme, a arma parecia um brinquedo. Ele olhou para a espada, olhou para o demnio que a tinha deixado cair, depois para
o espao, o rosto retorcido registrando um dio ardente que veio

subindo lentamente do seu ntimo. -- Tal -- murmurou. Ento, como um vulco em erupo lenta, ele se colocou de p, a ira crescendo at que, de sbito, com um rugido
que sacudiu o aposento e aterrorizou todos os presentes, ele explodiu e atirou a espada atravs da parede do poro, a qual passou pela terra que circundava o prdio
onde se encontravam, atravessou o ar, atravessou diversos outros prdios do campus da faculdade, e foi chegar ao cu onde virou de pontacabea num longo arco de
diversos quilmetros. Depois da primeira exploso, ele agarrou o dono da espada e, ordenando: V busc-la! arremessou-o como se fosse uma lana pela mesma trajetria.
Agarrou a outra espada e a arremessou contra o outro demnio que se desviou a tempo de salvar a pele. Depois, esse demnio tambm voou pelos ares atrs da prpria
espada. Para alguns dos presentes, a palavra "Tal" nada significava, mas podiam perceber pelas caras e pelo murchar das posturas dos outros que tinha de significar
algo terrvel. Rafar comeou a agitar-se violentamente pelo aposento, rosnando frases ininteligveis e agitando a espada contra inimigos invisveis. Os outros lhe
deram tempo de desabafar antes de se atreverem a perguntar qualquer coisa. Lucius finalmente se adiantou e curvouse, por mais que detestasse faz-lo. -- Estamos
a seu servio, Baal Rafar. Pode dizernos quem  esse Tal? Rafar voltou-se enfurecido, as asas abrindo-se como o estrpito de um trovo, e os olhos em brasa. -- Quem
 esse Tal? -- berrou ele, e cada demnio presente caiu com o rosto em terra. -- Quem  esse Tal,

esse guerreiro, esse Capito dos Exrcitos Celestiais, esse desprezvel, intrigante rival dos rivais? Quem  esse Tal? Complacncia, por acaso, estava ao alcance
de Rafar. Com a enorme mo ao redor do pescoo mirrado de Complacncia, o prncipe o arrancou como uma frgil planta daninha e o segurou bem alto. -- Voc -- rosnou
Rafar entre uma nuvem de enxofre e vapor -- fracassou por causa desse Tal! -- Complacncia s conseguia tremer, mudo de terror. -- Hogan tornou-se um co de caa,
farejando e latindo em nosso encalo, e estou at s tampas com voc e suas desculpas lamurientas! A enorme espada rebrilhou num arco amplo, rubro, rasgando uma
fenda no espao que se tornou um abismo sem fundo no qual toda a luz parecia esvair-se como gua. Os olhos de Complacncia esbugalharam-se de puro terror, e ele
deu seu ltimo berro na terra. -- No, Baal, no! Com um poderoso impulso do brao, Rafar lanou Complacncia de cabea no abismo. O pequeno demnio revirou,
caiu, e continuou caindo, seus gritos cada vez mais fracos at sumirem de todo. Rafar alisou a cratera no espao com a parte chata da lamina, fechando-a, e o aposento
voltou a ser exatamente como antes. Nesse instante, os dois guerreiros retornaram com as espadas. Ele os agarrou pelas asas e com um safano colocou-os juntos 
sua frente. -- De p, todos vocs! -- berrou ele aos outros. Todos obedeceram prontamente. Agora ele segurava os dois demnios no ar como uma exibio. -- Quem 
esse Tal?  um estrategista que pode

fazer guerreiros derrubarem as espadas! -- Dito isso, ele arremessou os dois contra o grupo, esparramando diversos deles pelo cho. Eles se levantaram to depressa
quanto puderam. -- Quem  esse Tal?  um guerreiro sutil que conhece suas limitaes, que nunca entra numa batalha que no pode vencer, que conhece bem demais o
poder dos santos de Deus, uma lio que todos vocs fariam bem em aprender! Rafar segurou a espada num punho que tremia de raiva, acenando com ela para reforar
suas palavras. -- Eu tinha certeza de que ele viria. Miguel jamais teria mandado algum menor do que Tal para me enfrentar. Agora Hogan despertou, e est claro o
motivo pelo qual ele foi trazido a Ashton para comeo de histria; Henry Busche ainda continua e a Igreja da Comunidade de Ashton no caiu, mas est firme como um
baluarte contra ns; agora os guerreiros esto derrubando as espadas como uns tolos desajeitados! -- E tudo por causa desse... Tal!  esse o jeito de Tal. Sua fora
no est na prpria espada, mas nos santos de Deus. Em algum lugar, algum est orando! Essas palavras trouxeram um calafrio por todo o grupo. Rafar continuou a
andar, pensando e rosnando. -- Sim, sim, Busche e Hogan foram escolhidos a dedo; o plano de Tal deve girar em torno deles. Se eles carem, o plano de Tal cai. No
temos muito tempo. Rafar escolheu um demnio de aparncia viscosa e perguntou: -- Voc j preparou a armadilha para Busche? -- Oh, sim, Baal Rafar -- disse o demnio,
sem poder deixar de rir com prazer da prpria esperteza. -- Assegure-se de que seja sutil. Lembre-se, nenhum ataque frontal funcionar.

-- Pode deixar comigo. -- E o que tem sido feito para destruir Marshall Hogan? Contenda adiantou-se. -- Estamos tentando destruir-lhe a famlia. Ele depende muito
da fora que a esposa lhe d. Se esse apoio fosse removido... -- Faa isso, de qualquer jeito que puder. -- Sim, meu prncipe. -- E no negligenciemos ainda outros
meios. Hogan pode ser letal, e Krueger a mesma coisa, mas poderiam ser manipulados para comprometerem um ao outro... -- Rafar designou a alguns demnios a tarefa
de sondarem essa possibilidade. -- E a filha de Hogan? Engano adiantou-se. -- Essa j est em nossas mos.

12
As folhas eram verdes, aquele verde claro de folha nova que elas ostentam nos primeiros meses do vero. Da mesinha na praa de tijolos vermelhos, Sandy e Shawn podiam
olhar para cima e ver as folhas fulgurantes iluminadas pelo sol, e observar os pssaros saltitando nos galhos, quando no estavam procurando migalhas de po e batatas
fritas. Esse era o lugar do campus predileto de Sandy. Era to calmo, quase um mundo de distncia das desavenas, perguntas e disputas de casa. Shawn gostava de
observar os pardais piando e correndo atrs de cada migalha de po que ele jogava sobre os tijolos. -- Adoro o modo pelo qual o Universo todo se

encaixa -- disse ele. -- A rvore cresceu aqui a fim de nos dar sombra, sentamo-nos aqui e comemos e damos comida para os pssaros que vivem na rvore. Tudo se encaixa.
O conceito fascinou Sandy. Na superfcie parecia to simples, quase um conto de fadas, mas parte dela estava muito sedenta por esse tipo de paz. -- O que acontece
quando o Universo no se ajusta? -- perguntou. Shawn sorriu. -- O Universo sempre se encaixa. O problema s surge quando as pessoas no percebem essa harmonia. --
Ento como voc explica os problemas que estou tendo com meus pais? -- Nenhuma das suas mentes est sintonizada corretamente.  como uma estao de FM no rdio.
Se o sinal est fraco e as vozes chiam e soam intermitentes, no culpe a transmissora, acerte o rdio. Sandy, o Universo  perfeito.  unificado, harmonioso. A paz,
a unidade, a inteireza realmente existem, e todos ns fazemos parte do Universo; somos feitos da mesma matria, por isso no h motivo para no nos ajustarmos com
preciso no esquema total das coisas. Se no nos ajustamos,  porque tomamos a estrada errada em algum lugar. Estamos fora de contato com a verdadeira realidade.
-- Puxa, acho que sim -- murmurou Sandy. -- Mas  isso que eu no entendo! Meus pais e eu supostamente somos cristos e nos amamos e estamos perto de Deus e tudo
o mais, mas nada fazemos alm de discutir sobre quem est certo e quem est errado. Shawn riu e assentiu com a cabea. -- Sim, sei como so essas coisas. Tambm
j passei por isso. -- Muito bem, como foi que voc resolveu o

problema? -- Consegui resolver s a minha parte do problema. No posso fazer outras pessoas mudarem de idia, apenas eu mesmo.  um pouco difcil de explicar, mas
se voc estiver em sintonia com o Universo, umas pequenas peculiaridades que no estejam em sintonia no a incomodaro tanto. Essas coisas no passam de iluso mental,
afinal de contas. Assim que voc deixar de dar ouvidos s mentiras que sua mente lhe tem pregado, ver claramente que Deus  grande bastante para todos e em todos.
Ningum pode coloc-lo dentro de um vidro e guard-lo s para si, segundo seus prprios caprichos e idias. -- Eu gostaria de encontr-lo, de verdade. Shawn olhou-a,
confortando-a, e tocou-lhe a mo. -- Ei, ele no  difcil de encontrar. Somos todos parte dele. -- O que quer dizer? -- Bem,  como eu disse, tudo no Universo todo
se encaixa;  feito da mesma essncia, do mesmo esprito, da mesma... energia. Certo? -- Sandy deu de ombros e assentiu. -- Bem, seja l qual for o conceito que
voc tem de Deus, todos ns sabemos que existe algo: uma fora, um princpio, uma energia, que mantm tudo junto. Se essa fora  parte do Universo, ento deve ser
parte de ns. Sandy no estava conseguindo entender. -- Tudo isso  bastante estranho para mim. Perteno  antiga escola de pensamento judaico-crist, como sabe.
-- Ento tudo o que j aprendeu  religio, certo? Ela pensou por um momento, ento concordou. -- Certo.

-- Bem, voc entende, o problema com a religio, qualquer religio,  o de ser uma perspectiva basicamente limitada, apenas uma viso parcial da verdade total. --
Agora voc est parecendo a Langstrat. -- Oh, acho que ela est certa. Quando se pensa no assunto por tempo suficiente, faz muito sentido.  como aquela histria
antiga a respeito dos cegos que encontraram o elefante. -- Sim, sim, j a ouvi contar essa histria tambm. -- Bem, voc est vendo? A perspectiva que cada homem
tinha do elefante se limitava  parte que tocava, e como todos tocaram partes diferentes, no conseguiram chegar a um acordo sobre a verdadeira aparncia do elefante.
Brigaram por causa disso, da mesma forma que os religiosos de todos os tempos tm feito, e tudo o que precisavam perceber era que o elefante era um nico elefante.
No foi culpa do elefante eles no conseguirem chegar a um acordo. Eles no estavam em sintonia uns com os outros e com o elefante todo. -- Ento, somos todos como
aqueles cegos... Shawn assentiu firmemente com a cabea. -- Somos como um bando de insetos rastejando pelo cho, sem jamais olhar para cima. Se a formiga falasse,
voc poderia perguntar-lhe se ela sabia o que  uma rvore, e se ela jamais tivesse sado da grama e na realidade chegado a subir numa rvore, provavelmente argumentaria
com voc que rvore no existe. Mas quem est errada? Quem realmente est cega?  assim que somos. Permitimos que nossa percepo limitada nos engane. Voc gosta
de Plato? Sandy riu um pouco e sacudiu a cabea.

-- Estudei no trimestre passado, e acho que tambm no entendi nada. -- Pois olhe, ele teve a mesma iluminao. Calculou que devia existir uma realidade mais elevada,
uma existncia ideal, perfeita, da qual tudo o que vemos  cpia.  mais ou menos como se o que vemos com nossos sentidos limitados fosse to limitado, to imperfeito,
to fragmentado que no percebemos o Universo da forma como realmente , todo perfeito, funcionando suavemente, tudo se ajustando, tudo da mesma essncia. Pode-se
dizer que a realidade, como a conhecemos,  apenas uma iluso, um truque do nosso ego, da nossa mente, dos nossos desejos egostas. -- Tudo isso parece muito distante
da realidade. -- Mas  maravilhoso quando a pessoa consegue entrar nessa. Responde a uma poro de perguntas e soluciona uma poro de problemas. -- Se a pessoa
conseguir entrar. Shawn inclinouse para a frente. -- A pessoa no entra nela, Sandy. Ela j est dentro da pessoa. Pense nisso por um momento. -- No sinto nada
dentro de mim... -- E por que no? Adivinhe! Ela girou um invisvel boto de rdio com os dedos. -- No estou sintonizada? Shawn riu com gosto. -- Certo! Certo!
Oua. O Universo no muda, mas ns podemos mudar; se no estamos ajustados com ele, se no estamos sintonizados, somos ns que estamos cegos, que estamos vivendo
uma iluso. Veja, se sua vida est bagunada,  realmente uma questo de como voc v as coisas. Sandy caoou.

-- Ora, vamos! No me venha dizer que tudo isso s existe na minha cabea! Shawn ergueu a mo em advertncia. -- Ei, no caoe at ter experimentado --. Olhou novamente
para a luz do sol, as rvores verdes, os pssaros ocupados. -- Escute s por um momento. -- Escutar o qu? -- A brisa. Os pssaros. Veja aquelas folhas verdes balanando
ao vento l em cima. Por um instante, ficaram em silncio. Shawn falou mansinho, quase num sussurro: -- Vamos, admita. Voc ainda no sentiu uma espcie de... afinidade
com as rvores, com os pssaros, com quase tudo? Voc no acharia falta deles se no existissem? Voc j falou com as plantas? Sandy assentiu com a cabea. Shawn
estava certo nesse ponto. -- Ora, no resista porque o que est sentindo  um vislumbre do verdadeiro Universo, est-se sentindo unida a tudo. Tudo est ajustado,
entrelaado, entrosado. Ora, j sentiu isso antes, no sentiu? Ela acenou que sim com a cabea. -- Ento,  isso que estou tentando mostrar-lhe; a verdade j est
dentro de voc. Voc  parte dela. Voc  parte de Deus. Apenas nunca soube disso. Voc no se permitia saber. Sandy ouvia os pssaros claramente agora, e o vento
parecia quase melodioso mudando de tom e intensidade nos galhos das rvores. O sol era clido, benevolente. De repente ela teve uma sensao muito forte de j haver
estado naquele lugar antes, de ter conhecido essas rvores e esses pssaros. Eles estavam tentando entrar em contato com ela, conversar com ela.

Ento percebeu que pela primeira vez em muitos meses sentia paz interior. Seu corao descansava. No era uma paz completa, e ela no sabia se duraria, mas podia
senti-la e sabia que desejava mais. -- Acho que estou sintonizando um pouquinho -- disse. Shawn sorriu e apertou-lhe a mo encorajadoramente. Entrementes, em p
atrs de Sandy, como que a pente-la com movimentos muito suaves, muito sutis de suas garras, Engano lhe alisava a cabeleira cor de fogo e lhe falava doces palavras
de conforto  mente. Tal e suas tropas reuniram-se de novo na igrejinha, e desta vez estavam mais animados. Haviam provado as primeiras promessas da batalha; haviam
conquistado uma vitria, embora pequena, na noite anterior. Acima de tudo, o nmero deles era maior. Os vinte e trs originais haviam aumentado para quarenta e sete
 medida que mais guerreiros poderosos se haviam reunido, chamados pelas oraes do... -- O Remanescente! -- disse Tal com uma nota de antecipao, correndo os olhos
por uma lista preliminar que lhe foi apresentada. Scion, um lutador raivo e sardento das Ilhas Britnicas, explicou o progresso da busca. -- Eles esto l, Capito,
e em nmero mais do que suficiente, mas so estes os que com certeza estamos trazendo para participar. Tal leu os nomes. -- John e Patrcia Coleman... Scion explicou:
-- Eles estiveram aqui ontem  noite e falaram a favor do pregador. Agora esto mais a favor dele ainda e caem de joelhos com a maior facilidade. Eles esto trabalhando.

-- Andy e June Forsythe. -- Ovelhas perdidas, pode-se dizer. Deixaram a Crist Unida de Ashton por causa de pura fome. Vamos traz-los  igreja amanh. Tm um filho,
Ron, que est buscando o Senhor. Um pouco extraviado por enquanto, mas est comeando a se entediar do que faz. -- E muitos outros, pelo que vejo -- disse Tal com
um sorriso, e entregou a lista a Guilo. -- Designe alguns dos que chegaram recentemente para cuidarem do pessoal desta lista. Tragam essa gente para a igreja. Quero
que todos estejam orando. Guilo tomou a lista e conferenciou com diversos dos novos guerreiros. -- E os parentes, amigos em outros lugares? -- perguntou Tal a Scion.
-- Um nmero mais do que suficiente j est redimido e pronto para orar. Devo enviar emissrios a fim de incumbi-los dessa responsabilidade? Tal meneou a cabea.
-- No posso permitir que guerreiro algum se ausente por muito tempo. Em vez disso, envie mensageiros aos guardies das cidades dessas pessoas, e incumbam os guardies
de faz-las sentir a responsabilidade de orar pelos seus queridos daqui. -- Feito. Scion ps mos  obra, designando mensageiros que prontamente desapareceram no
cumprimento de suas misses. Guilo tambm havia enviado os seus guerreiros e estava excitado em ver a campanha em ao. -- Gosto da sensao que isto me d, capito.
--  um bom comeo -- disse Tal.

-- E Rafar? Acha que ele desconfia da sua presena aqui? -- Ns dois nos conhecemos muito bem. -- Ento ele estar esperando briga, e logo. -- Justamente o motivo
pelo qual no vamos brigar, pelo menos por enquanto. No at que a cobertura de oraes seja suficiente e saibamos por que Rafar est aqui. Ele no  prncipe de
cidadelas, mas de imprios, e jamais viria por uma tarefa abaixo do seu orgulho. O que j vimos  muito menos do que o inimigo planejou. Como vai o Sr. Hogan? --
Ouvi dizer que o demoniozinho Complacncia foi banido por ter fracassado e que o Baal est furioso. Tal riu-se. -- Hogan reviveu como uma semente em hibernao.
Nat! Armote! -- Eles apareceram imediatamente. -- Vocs tm mais guerreiros agora. Levem quantos precisarem para cercar Marshall Hogan. Maiores nmeros podem intimidar
onde espadas no podem. Guilo estava visivelmente indignado anelante a espada embainhada. Tal advertiu: -- Ainda no, bravo Guilo. Ainda no. Logo depois do telefonema
que Marshall deu a Harmel, o telefone de Berenice quase pulou da parede. Marshall no lhe pediu, ordenou: -- Esteja no escritrio s sete da noite, temos trabalho
a fazer. Agora, s 7:10hs, o resto do escritrio do Clarim estava deserto e escuro. Marshall e Berenice estavam na sala dos fundos, desencavando dos arquivos antigas
edies. Ted Harmel havia sido muito meticuloso: a maior parte dos nmeros antigos estavam e olhou

arrumados cuidadosamente em enormes pastas. -- Quando Harmel foi expulso da cidade? -- perguntou Marshall dando uma olhada rpida em diversas pginas antigas de
uma edio passada. -- Cerca de um ano -- respondeu Berenice, trazendo mais pastas para a grande mesa de trabalho. -- O jornal operou com uma equipe reduzida durante
meses antes de voc compr-lo. Edie, Tom, eu e alguns dos alunos de jornalismo da faculdade o mantivemos vivo. Algumas edies foram boas, outras saram com cara
de jornal estudantil. -- Como esta aqui? Berenice viu a edio de agosto. -- Ficaria grata se voc no a examinasse muito de perto. Marshall voltou as pginas de
trs para a frente. -- Quero ver os jornais at a poca em que Harmel foi embora. -- Est bem. Ted se foi no fim de julho. Aqui esto junho... maio... abril. Mas
o que voc est procurando? -- O motivo pelo qual o expulsaram. -- Voc conhece a histria, naturalmente. -- Brummel diz que ele molestou uma menina. -- Sim, Brummel
diz um monte de coisas. -- Bem, molestou ou no? -- A menina disse que sim. Ela tinha mais ou menos doze anos, acho, filha de um dos diretores da faculdade. -- Qual
deles? Berenice sondou o crebro, e finalmente forou a lembrana a sair.

l. Darr?

-- Jarred. Adam Jarred. Acho que ele ainda est -- Ele consta da lista que voc conseguiu com

-- No. Mas talvez devesse constar. Ted conhecia Jarred muito bem. Os dois costumavam ir pescar juntos. Ele conhecia a filha, tinha freqente acesso a ela, o que
ajudou o caso contra ele. -- Ento por que ele no foi processado? -- Acho que a coisa nunca chegou a esse ponto. Ele foi indiciado perante o juiz distrital... --
Baker? -- Sim, que consta da lista. O caso foi discutido no gabinete do juiz e aparentemente fizeram um acordo. Ted se foi alguns dias depois. Marshall deu um tapa
raivoso na mesa. -- Puxa vida, gostaria de no ter deixado aquele sujeito escapar. Voc no me disse que estaria metendo o punho num ninho de vespas. -- Eu no sabia
muita coisa a respeito. Marshall continuou correndo os olhos pela pgina  sua frente; Berenice examinava a edio do ms anterior. -- Voc disse que tudo isso explodiu
em julho? -- Do meio para o fim de julho. -- O jornal quase nada diz sobre o assunto. --  claro, Ted no ia publicar nada contra si mesmo, obviamente. Alm disso,
nem precisou; sua reputao estava em frangalhos, afinal de contas. Nossa circulao caiu criticamente. Diversas semanas se passaram sem pagamento algum.

-- O que  isto? Os olhos dos dois convergiram para uma carta ao redator num nmero de sexta-feira do comeo de julho. Marshall correu rapidamente os olhos por ela,
murmurando enquanto lia: "Devo expressar minha indignao pelo tratamento injusto que este conselho diretor vem recebendo por parte da imprensa local... Os recentes
artigos publicados pelo Clarim de Ashton constituem nada menos do que impudente mau uso da imprensa, e esperamos que nosso redator local seja profissional o bastante
para averiguar os fatos de agora em diante antes de imprimir quaisquer outras insinuaes infundadas..." -- Sim! -- animou-se Berenice, recordando-se. -- Essa foi
uma carta de Eugene Baylor --. Ento ela bateu as mos nos dois lados do rosto e exclamou:--Oh...! Aqueles artigos! -- Berenice comeou a voltar apressadamente os
nmeros contidos na pasta de junho. -- Sim, aqui est um. A manchete dizia: "STRACHAN PEDE AUDITORIA". Marshall leu a primeira sentena: "A despeito de contnua
oposio do conselho diretor da Faculdade Whitmore, o deo da faculdade Eldon Strachan pediu hoje uma auditoria de todas as contas e investimentos da Faculdade Whitmore,
expressando ainda sua preocupao quanto a recentes alegaes de m administrao de fundos." Os olhos de Berenice rolaram para cima e fitaram os cus enquanto ela
dizia: -- Barbaridade, isto pode ser mais do que um ninho de vespas! Marshall leu um pouco adiante: "Strachan afirmou haver prova mais do que adequada para justificar
uma auditoria mesmo que seja cara e prematura, segundo o conselho diretor ainda mantm."

Berenice explicou: -- Sabe, no prestei muita ateno quando isso tudo estava acontecendo. Ted era um tipo agressivo, j havia irritado muita gente antes, e isto
parecia apenas outra coisa poltica de rotina. Eu no passava de uma reprter na incua equipe dos assuntos de interesse humano... que me importava tudo isto? --
Ento -- disse Marshall -- o deo da faculdade meteu-se em apuros com os diretores. Parece ter sido um verdadeiro feudo. -- Ted era muito amigo de Eldon Strachan.
Ele tomou partido e os diretores no gostaram. Aqui est outro, de apenas uma semana mais tarde. Marshall leu: "DIRETOR MALHA STRACHAN. Eugene Baylor, membro do
Conselho Diretor e tesoureiro geral da Faculdade Whitmore, acusou hoje o Deo Eldon Strachan de malicioso ataque poltico, afirmando que Strachan est usando mtodos
deplorveis e antiticos a fim de promover sua prpria dinastia dentro da administrao da faculdade." Mais do que um arrufo inofensivo entre amigos. -- Pelo que
sei, o negcio ficou feio, bem feio. E Ted provavelmente meteu o nariz um pouco alm do que devia. Comeou a levar chumbo cruzado. -- Da a carta irritada de Eugene
Baylor. -- Alm de presso poltica, com certeza. Strachan e Ted fizeram muitas reunies e Ted estava descobrindo muita coisa, talvez demais. -- Mas voc no tem
detalhes... Berenice ergueu as mos aos cus e meneou a cabea. -- Temos estes artigos, o nmero do telefone de Ted e a lista.

--  -- disse Marshall, pensativo -- a lista. Uma poro dos diretores esto nela. -- Alm do Delegado de polcia e do juiz distrital que arruinou Ted. -- E que
fim levou Strachan? -- Demitido. Berenice repassou outras antigas edies do Clarim. Uma pgina solta saiu voando e caiu ao cho. Marshall a apanhou. Algo atraiu-lhe
a ateno e ele correu os olhos pela pgina at que Berenice encontrou o que estava procurando, um artigo publicado em fins de junho. -- Sim, aqui est a reportagem
-- disse ela. -- "STRACHAN DEMITIDO. Citando conflitos de interesse e incompetncia profissional como motivos, o conselho diretor da Faculdade Whitmore exigiu hoje
por unanimidade o pedido de demisso do Deo Eldon Strachan." -- Um artigo no muito longo -- comentou Marshall. -- Ted publicou porque tinha de faz-lo, mas  bvio
que evitou dar qualquer detalhe injurioso. Ele acreditava firmemente que a causa de Strachan era justa. Marshall continuou a repassar as pginas. -- O que  isto
aqui? "WHITMORE PODE ESTAR DEVENDO MILHES, DIZ STRACHAN" --. Marshall leu o artigo cuidadosamente. -- Espere um pouco, ele diz que a faculdade pode estar em grandes
dificuldades, mas no diz como sabe disso. -- O negcio foi saindo um pedacinho aqui, outro ali. Nunca chegamos a conseguir toda a informao at Strachan e Ted
serem silenciados.

-- Mas milhes... estamos falando em dinheiro grosso. -- Mas voc v como tudo se encaixa? -- . Os diretores, o juiz, o Delegado de polcia, Young, o tesoureiro,
e sabe l quem mais, todos ligados a Langstrat e muito quietos a esse respeito. -- E no se esquea de Ted Harmel. -- , ele tambm no fala do assunto. Isto ,
no fala mesmo. O cara est mais assustado do que peru em vspera de Natal. Mas ele no foi um membro muito fiel do grupo, se tomou o partido de Strachan contra
os diretores. -- Foi por isso que o riscaram do mapa, por assim dizer, juntamente com Strachan. -- Talvez. Por enquanto, temos uma teoria que, por sinal, est bem
confusa. -- Mas temos uma teoria, e a minha ida para a cadeia segue o padro. -- Certinho demais por enquanto -- pensou Marshall em voz alta. -- Precisamos estar
cientes do que estamos dizendo. Estamos falando de corrupo poltica, abuso de processo, extorso, quem sabe o que mais?  melhor estarmos bem seguros do que estamos
fazendo. -- O que era aquela pgina ali que caiu? -- Hein? -- Aquela que voc pegou. -- Hum. Estava fora de lugar. A data  antiga, de janeiro. Berenice apanhou
a pasta apropriada na prateleira do arquivo. -- No quero que os arquivos se misturem -- ei, por que voc a dobrou toda? Marshall deu levemente de ombros, fitou-a
com

muita brandura e desdobrou a pgina. -- Contm um artigo a respeito da sua irm -- disse ele. Ela apanhou a pgina que ele segurava e olhou o artigo noticioso. O
ttulo dizia "A MORTE DE KRUEGER CLASSIFICADA DE SUICDIO". Ela abaixou rapidamente a folha. -- Achei que voc no iria querer lembrar-se -- disse ele. -- Eu j
a vi antes -- disse ela abruptamente. -- Tenho uma cpia l em casa. -- Eu acabei de ler o artigo. -- Eu sei. Ela tirou outra pasta, abrindo-a sobre a mesa. -- Marshall
-- disse ela --  melhor voc ficar sabendo tudo a esse respeito. O assunto pode surgir novamente. O caso no est resolvido em minha cabea, e tem sido uma batalha
muito difcil para mim. Marshall suspirou e disse: -- Foi voc quem comeou isto, no se esquea. Berenice manteve os lbios apertados e o corpo reto. Estava tentando
ser uma mquina desinteressada. Ela apontou para a primeira histria, com data de meados de janeiro: "MORTE BRUTAL NO CAMPUS". Marshall leu em silncio. No estava
preparado para os horrveis detalhes. -- A histria no est totalmente correta -- comentou Berenice em tom de voz muito velado. -- Eles no encontraram Pat em seu
prprio dormitrio; ela estava num quarto desocupado mais adiante no corredor. Parece que algumas das garotas usavam esse quarto para ficarem sozinhas quando queriam
estudar e

havia muito barulho no andar. Ningum sabia onde ela estava at que algum viu o sangue escorrendo por baixo da porta... -- A voz falhou e ela fechou com fora a
boca. Patrcia Elizabeth Krueger, de dezenove anos, fora encontrada em um dormitrio, nua e morta, a garganta cortada. No havia sinais de luta, a faculdade toda
estava em estado de choque, no havia testemunhas. Berenice achou outra pgina e outra manchete: "NENHUM INDCIO NA MORTE DE KRUEGER". Marshall leu rapidamente,
sentindo cada vez mais estar invadindo uma rea muito sensvel que no lhe dizia respeito. O artigo declarava que nenhuma testemunha se havia apresentado, ningum
tinha visto ou ouvido coisa alguma, no havia nenhum indcio de quem o assaltante poderia ser. -- E voc leu o ltimo -- disse Berenice. -- Eles finalmente classificaram
de suicdio. Decidiram que minha irm se havia despido e cortado a prpria garganta. Marshall mostrou-se incrdulo. -- E ficou por isso mesmo? -- Ficou por isso
mesmo. Marshall fechou a pasta de mansinho. Ele nunca vira Berenice parecer to vulnervel. A destemida reprter que no se deixava intimidar em uma cela cheia de
prostitutas estava com uma parte de si ainda desnuda e ferida alm de qualquer blsamo. Ele colocou gentilmente a mo nos ombros da moa. -- Sinto muito -- disse.
--  por isso que eu vim para c, como voc sabe --. Ela enxugou os olhos com os dedos e apanhou um leno de papel para assoar o nariz. -- Eu... simplesmente no
consegui deixar as coisas como

estavam. Eu conhecia Pat. Conhecia-a melhor do que qualquer outra pessoa. Ela no era do tipo de gente que faz uma coisa dessas. Era feliz, bem ajustada, gostava
da faculdade. Pelas cartas, parecia estar bem. -- Por qu... por que no guardamos tudo e damos a noite por encerrada? Berenice fez que no ouviu a sugesto. --
Examinei a disposio do dormitrio, o quarto onde ela morreu, a lista dos nomes de todas as moas que moravam no prdio; conversei com todas elas. Verifiquei os
laudos policiais, o laudo do legista, examinei todos os pertences de Pat. Tentei encontrar a companheira de quarto de Pat, mas ela j tinha ido embora. Ainda no
consigo me lembrar do seu nome. Via uma vez apenas quando fui l fazer uma visita. -- Afinal, resolvi ficar por aqui, arrumar um emprego, esperar e ver o que acontecia.
Eu tinha certa experincia em jornalismo, no foi difcil conseguir o emprego. Marshall colocou o brao em torno dos ombros da moa. -- Bem, oua. Eu a ajudarei
de qualquer maneira que puder. No precisa carregar todo esse negcio sozinha. Ela se descontraiu um pouco, recostando-se contra ele apenas o suficiente para mostrar
que sentia o abrao. -- No quero amolar. -- Voc no est amolando. Escute, assim que se sentir preparada, podemos repassar tudo, examinar tudo de novo. Pode haver
ainda alguma pista em algum canto. Berenice sacudiu os punhos e choramingou:

-- Se ao menos eu conseguisse ser mais objetiva! Marshall envolveu-a com um confortante, e um aperto amistoso. risinho gentil,

-- Bem, talvez eu possa cuidar dessa parte. Voc est-se saindo bem, Bernie. Agente um pouco mais. Ela era uma boa menina, pensou Marshall e, tanto quanto conseguia
recordar-se, essa fora a primeira vez que a tocara.

13
Por motivos bvios, a congregao da Igreja da Comunidade de Ashton estava muito menor e mais fragmentada nessa manh de domingo, mas Hank tinha de admitir que o
ambiente era mais tranqilo. Ao postarse atrs do velho plpito a fim de dar incio ao culto, ele podia ver os rostos sorridentes dos que o apoiavam espalhados pela
pequena multido. Sim, l estavam os Colemans sentados no lugar de sempre. Vov Duster tambm estava presente, muito melhor de sade, louvado seja o Senhor, e l
estavam os Coopers, os Harris, e Ben Squires, o carteiro. Alf Brummel no comparecera, mas Gordon Mayer e a esposa estavam presentes, bem como Sam e Helen Turner.
Alguns dos no muito ativos estavam l para a sua costumeira visitinha mensal, e Hank deu-lhes olhares e sorrisos especiais, demonstrando-lhes que haviam sido notados.
Enquanto Mary atacava com entusiasmo "Louvai ao nome de Jesus" no piano e Hank dirigia o hino, outro casal entrou pela porta dos fundos e assentou-se num dos ltimos
bancos, como costumam fazer os visitantes. Hank no os reconheceu. Scion permaneceu perto da porta dos fundos,

observando Andy e June Forsythe tomarem seu lugar. Depois olhou na direo da plataforma e fez uma saudao amistosa a Krioni e Triskal. Eles sorriram e devolveram
o gesto. Alguns demnios haviam entrado com os humanos, e no ficaram nada contentes ao verem o novo estranho celestial rondando por ali, e muito menos por estar
ele trazendo gente nova  igreja. Mas Scion saiu inofensivamente de costas pela porta. Hank no conseguia explicar por que se sentia to exultante essa manh. Talvez
fosse por Vov Duster estar presente, e os Colemans, e o novo casal. E depois havia aquele outro sujeito, tambm novo, o loiro grandalho sentado no fundo. Tinha
de ser algum lutador ou algo parecido. Hank estava a lembrar-se do que a Vov Duster lhe havia dito: "Precisamos orar para que o Senhor os rena..." 55. Ele chegou
ao sermo e abriu a Bblia em Isaas

-- "Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto est perto. Deixe o perverso o seu caminho, o inquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que
se compadecer dele, e volte-se para o nosso Deus, porque  rico em perdoar. Porque os meus pensamentos no so os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os
meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os cus so mais altos do que a terra, assim so os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus
pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. Porque assim como descem a chuva e a neve dos cus, e para l no tornam, sem que primeiro reguem a terra e
a fecundem e faam brotar, para dar semente ao semeador e po ao que come, assim ser a palavra que sair da minha boca: no voltar para mim vazia, mas far o que
me apraz, e prosperar naquilo para que a designei. Saireis com

alegria, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros rompero em cnticos diante de vs, e todas as rvores do campo batero palmas." Hank amava essa passagem,
e no pde deixar de sorrir ao comear a explic-la. Algumas pessoas simplesmente o fitavam, ouvindo por obrigao. Mas outras at se inclinavam para a frente em
seus lugares, bebendo cada palavra. O novo casal, sentado no fundo, assentia com a cabea, expresso atenta. O loiro grandalho sorria, assentia com a cabea, chegou
at a gritar um "Amm!" As palavras continuavam a chegar  mente e corao de Hank. Tinha de ser a uno do Senhor. Ele ia ao plpito de vez em quando a fim de consultar
as anotaes, mas na maior parte do tempo passeava por toda a plataforma, sentindo-se como se estivesse em algum lugar entre o cu e a terra, anunciando a Palavra
de Deus. Os poucos demoniozinhos que rondavam pelo ambiente podiam apenas encolher-se e zombar. Alguns conseguiram fechar os ouvidos das pessoas que possuam, mas
a investida desta manh era particularmente severa e dolorosa. Para eles, a pregao de Hank tinha um efeito to calmante quanto uma britadeira. Em cima da igreja,
Signa e seus guerreiros se recusavam a curvar-se ou voltar atrs. Lucius apareceu com um bando considervel de demnios bem a tempo para o culto, mas Signa no abriu
caminho. -- Voc sabe que  melhor no mexer comigo! -- ameaou Lucius. Signa foi revoltantemente bem educado. -- Sinto muito, no podemos permitir a entrada de
mais demnios na igreja esta manh. Lucius deve ter tido coisas mais importantes para

seus demnios fazerem aquela manh do que forar a passagem atravs de um cerco de anjos obstinados. Ele lhes dirigiu alguns insultos seletos e ento o bando todo
zarpou com estrondo pelo espao, rumo a algum outro malfeito. Terminado o culto, algumas pessoas marcharam em linha reta para a porta. Outras se dirigiram em linha
reta para Hank. -- Pastor, meu nome  Andy Forsythe, e esta  a minha esposa, June. -- Al, al -- disse Hank, e podia sentir um largo sorriso a esticar-lhe o rosto.
-- Foi timo -- disse Andy, sacudindo a cabea admirado e ainda apertando a mo de Hank. -- Foi... nossa, foi realmente timo! Falaram de banalidades por alguns
minutos, descobrindo coisas a respeito um do outro. Andy era o proprietrio e administrador de uma serraria nos arredores da cidade; June era secretria. Tinham
um filho, Ron, que estava envolvido com drogas e precisava do Senhor. -- Bem -- disse Andy -- no faz muito tempo que ns dois aceitamos a Cristo. Costumvamos freqentar
a igreja Crist Unida de Ashton... -- A voz dele sumiu. June era menos inibida. -- Estvamos morrendo de fome. Mal podamos esperar para sair dela. Andy interrompeu.
-- , isso mesmo. Ouvimos falar desta igreja; bem, para dizer a verdade, ouvimos falar de voc; disseram que estava meio encrencado por ser to apegado  Palavra
de Deus, e pensamos: "Devamos sondar esse sujeito." Agora estou contente por termos feito isso.

-- Pastor -- continuou ele -- quero que saiba que h muita gente faminta nesta cidade. Alguns de nossos amigos amam ao Senhor mas no tm aonde ir. Tem sido bem
estranho estes ltimos anos. Uma a uma as igrejas nestas redondezas meio que morreram. Oh, ainda esto de p, no h dvida, e tm as pessoas e o dinheiro, mas...
sabe o que quero dizer. Hank no estava certo de saber. -- O que exatamente voc quer dizer? Andy sacudiu a cabea. -- Satans est brincando com esta cidade, acho.
Ashton no costumava ser assim, com tanta coisa esquisita acontecendo. Olhe, voc pode achar difcil acreditar, mas temos amigos que saram de trs, no, quatro
igrejas locais. June trocou olhares com Andy repassava uma lista mental de nomes. enquanto

-- Greg e Eva Smith, os Bartons, os Jennings, Clint Neal... -- , certo, certo -- afirmou Andy. -- Como eu disse, h uma poro de pessoas famintas, ovelhas sem
pastor. As igrejas simplesmente no do conta do recado. Elas no pregam o evangelho. Nesse instante, Mary chegou, toda sorridente. Alegre, Hank a apresentou. Depois
Mary disse: -- Hank, quero apresentar -- e se voltou para o salo vazio. Seja l quem fosse que devia estar l no estava. -- Ora... ele se foi! -- Quem era? --
perguntou Hank. -- Oh, voc se lembra daquele sujeito grandalho que estava sentado no fundo? -- O loiro alto? -- Sim. Tive oportunidade de falar com ele. Ele me

falou que lhe dissesse que -- Mary tornou a voz bem grave a fim de imit-lo: "o Senhor est com voc, continue orando e continue ouvindo". -- Ah, que bom. Voc ficou
sabendo o nome dele? -- No... acho que ele no chegou a dizer. Andy perguntou: -- Quem era? -- Voc sabe -- disse Hank -- aquele sujeito grande no fundo. Ele estava
sentado bem ao seu lado. Andy olhou para June, e os olhos dela se arregalaram. Andy ps-se a sorrir, depois comeou a rir, em seguida ps-se a bater palmas e praticamente
a danar. -- Louvado seja o Senhor! -- exclamou ele, e Hank no tinha visto tanto entusiasmo assim em muito tempo. -- Louvado seja o Senhor, no havia ningum l.
Pastor, no vimos a ningum! A boca de Mary caiu, e ela a cobriu com os dedos. Oliver Young era um verdadeiro artista; sabia trabalhar uma audincia at cada lgrima
ou riso, e cronometr-los com tanta preciso que as pessoas se transformavam em marionetes. Ele se postava atrs do plpito com incrvel dignidade, e suas palavras
eram to bem escolhidas que qualquer coisa que dissesse tinha de estar certa. A vasta congregao certamente parecia pensar que sim; o templo estava lotado. Muitos
dos presentes eram profissionais liberais: mdicos, professores, pessoas que se diziam filsofas e poetas; um segmento muito grande vinha da faculdade ou era de
alguma forma ligado a ela. Tomavam notas meticulosas da mensagem de Young, como se fosse uma preleo.

Marshall tinha ouvido bastante desse mesmo tipo de coisas antes, por isso nesse domingo especfico ficou remoendo as perguntas que no podia esperar para lanar
sobre Young quando o culto acabasse. Young continuava. -- Deus no disse: "Faamos o homem  nossa imagem, conforme a nossa semelhana"? O que havia permanecido
na escurido da tradio e da ignorncia, descobrimos agora revelado dentro de ns. Descobrimos, no, antes, redescobrimos o conhecimento que sempre tivemos como
raa: somos inerentemente divinos em nossa essncia, e temos dentro de ns a capacidade para o bem, o potencial para tornar-nos como que deuses, feitos  exata semelhana
do Deus Pai, o fonte final de tudo o que existe... Marshall deu uma olhada furtiva para o lado. L estava Kate, e l estava Sandy tomando notas feito doida, e ao
lado dela estava Shawn Ormsby. Sandy e Shawn estavam-se dando muito bem, e ele estava exercendo uma influncia positiva marcante na vida dela. Hoje, por exemplo,
ele havia feito um trato com Sandy: ele iria  igreja com ela se ele fosse com os pais. Bem, tinha funcionado. Marshall tinha de admitir, embora com alguma relutncia,
que Shawn conseguia comunicar-se com Sandy de uma forma que Marshall jamais conseguira. Tinha havido diversas ocasies em que Shawn servira como ligao ou intrprete
entre Sandy e Marshall, abrindo canais de comunicao que nenhum dos dois pensavam jamais se pudessem materializar. At que enfim as coisas estavam ficando tranqilas
em casa. Shawn parecia um tipo gentil com um verdadeiro dom para arbitrar disputas. E ento, o que fao agora? perguntou-se Marshall. Pela primeira vez no sei em
quanto tempo, toda a minha famlia est sentada junta na igreja, e isso  nada

menos do que um milagre, um verdadeiro milagre. Mas realmente escolhemos uma droga de igreja para freqentar juntos, e quanto quele pregador... Seria to confortvel
e to bom deixar as coisas como estavam, mas ele era reprter, e esse Young estava escondendo algo. Bolas! Falar em conflito de interesses! Assim, enquanto o Pastor
Oliver Young l em cima tentava explicar as suas idias acerca do "infinito potencial divino dentro do homem aparentemente finito", Marshall se ocupava com os prprios
problemas aflitivos. O culto terminou ao meio-dia em ponto, e o carrilho da torre automaticamente comeou a tocar um acompanhamento musical muito tradicional, que
soava muito cristo, a todos os cumprimentos, conversinhas e despedidas. Marshall e a famlia entraram no fluxo do trfego que se escoava em direo ao saguo. Oliver
Young estava em p ao lado da porta da frente, seu lugar de sempre, cumprimentando a todos os seus paroquianos, apertando as mos, fazendo agradinhos aos nens,
sendo pastoral. No demorou para que Marshall, Kate, Sandy e Shawn chegassem diante dele. -- Ora, Marshall, que prazer em v-lo -- disse efusivamente, apertando
a mo do jornalista. -- Voc conhece a Sandy? -- perguntou Marshall, e apresentou formalmente Young  filha. Young foi muito caloroso. -- Sandy, fico muito contente
em v-la. Sandy pelo menos agia como se estivesse contente em estar ali. -- E Shawn! -- exclamou Young. -- Shawn Ormsby! -- Os dois apertaram-se as mos.

-- Oh, ento vocs dois j se conhecem? -- perguntou Marshall. -- Oh, conheo Shawn desde que ele era um toquinho de gente. Shawn, veja se aparece de vez em quando,
est bem? -- Est certo -- respondeu Shawn com um sorriso tmido. Os outros continuaram a andar, mas Marshall ficou para trs e aproximou-se de Young pelo outro
lado a fim de conversar um pouco mais. Ele esperou at que Young tivesse acabado de cumprimentar um grupinho de pessoas, e depois inseriu na pausa: -- Olhe, achei
que voc gostaria de saber que as coisas esto melhores agora entre mim e Sandy. Young sorriu, apertou algumas mos, ento disse de lado: -- Que maravilha!  realmente
maravilhoso, Marshall --. Ele ofereceu a mo a outra pessoa: -- Que bom v-lo aqui hoje. Em outra pausa entre os cumprimentos finais, Marshall inseriu: -- Sim, ela
realmente gostou do seu sermo esta manh. Disse que apresentou um grande desafio. -- Ora, muito obrigado por me dizer. Sim, Sr. Beaumont, como est? -- Sabe, parecia
at um paralelo ao que Sandy est aprendendo na escola, nas aulas de Juleen Langstrat. Young no respondeu, e dirigiu toda a sua ateno a um jovem casal com um
beb. -- Nossa, ela est ficando to grande. Marshall

continuou: -- Voc precisa conhecer a professora Langstrat. H um paralelo muito interessante entre o que ela ensina e o que voc prega --. No houve reao por
parte de Young. -- De fato, pelo que sei a professora est envolvida com ocultismo e misticismo oriental... -- Bem -- disse Young -- eu nada saberia a esse respeito,
Marshall. -- E voc definitivamente no conhece essa professora Langstrat? -- No, eu j lhe disse. -- Voc no fez diversas sesses particulares com ela, com regularidade,
e no apenas voc como tambm Alf Brummel, Ted Harmel, Delores Pinckston, Eugene Baylor, e at mesmo o juiz Baker? Young corou um pouco, fez uma pausa, ento fez
uma careta de embaraada lembrana. -- Oh, cus! -- riu-se ele. -- Onde estava a minha cabea? Sabe, todo este tempo estive pensando em outra pessoa! -- Ento, voc
j a conhece, no? -- Sim, claro. Muitos de ns a conhecemos. Young voltou-se para o lado a fim de cumprimentar outras pessoas. Quando elas se foram, Marshall ainda
estava em p ali. E insistiu: -- E ento, o que me diz dessas sesses particulares?  verdade que a clientela dela inclui lderes cvicos, oficiais eleitos, diretores
da faculdade...? Young olhou diretamente para Marshall, e seus olhos estavam um tanto frios. -- Marshall, qual  exatamente o seu interesse em tudo isso?

-- Estou apenas tentando fazer o meu trabalho. Seja l o que for, parece algo de que a populao de Ashton deveria tomar conhecimento, especialmente por envolver
tantas pessoas influentes que esto moldando a cidade. -- Bem, se voc est preocupado a respeito, no  comigo que deve falar. Deveria perguntar  prpria professora
Langstrat. -- Oh,  o que tenciono fazer. Apenas queria que voc tivesse a chance de dar-me umas respostas honestas, algo que sinto que voc no est fazendo totalmente.
A voz de Young tornou-se tensa. -- Marshall, se pareo evasivo  porque aquilo que est tentando descobrir  protegido pela tica profissional.  informao confidencial.
Eu estava simplesmente com esperana de que voc percebesse isso sem que eu tivesse de dizer-lhe. Kate chamava-o da calada. -- Marshall, estamos esperando por voc.
Marshall afastou-se, e foi melhor assim. S poderia ter-se esquentado mais daquele ponto em diante, e no estava levando a nada, afinal de contas. Young era frio,
muito duro e escorregadio. A alguns estdios de distncia, num vale profundo, escondido, cercado por encostas escarpadas, coroado por altas montanhas e acarpetado
por espessa cobertura verde e pedras escondidas em tufos de musgo, um pequeno mas bem construdo conjunto de prdios se aninhava como um solitrio posto avanado,
cujo nico acesso era uma sinuosa e acidentada estrada de cascalho.

O pequeno conjunto de prdios, antiga e dilapidada casa de fazenda havia-se expandido, transformando-se em um complexo de edifcios de pedra e tijolos que agora
abrigavam um pequeno dormitrio, um complexo de escritrios, um refeitrio, um prdio de manuteno, uma clnica, e diversas residncias particulares. No havia
letreiros, entretanto, nenhuma etiqueta em parte alguma, nada que identificasse onde se estava ou o que era tudo aquilo. Traando um risco de carvo pelo cu, um
sinistro objeto negro voou por cima dos cumes das montanhas e comeou a descer ao vale, perfurando as camadas muito finas de neblina que pairavam no ar. Envolto
em escurido espiritual opressiva, e silencioso como uma nuvem negra, Baal Rafar, o prncipe da Babilnia, flutuou para o vale. Ia contornando de perto as encostas
das montanhas, manobrando num curso que serpeava entre escarpas e penhascos rochosos. O plio de escurido o seguia como sua prpria sombra, como pequenino crculo
de noite na paisagem; um leve trao de vapor vermelho e amarelado escapava-lhe das narinas e pairava no ar atrs dele como longa fita que se ia assentando aos poucos.
L em baixo, a fazenda parecia um enorme ninho cheio de pavorosos insetos negros. Diversas camadas de guerreiros implacveis pairavam quase estacionrias em vasta
cpula de defesa sobre o complexo, espadas desembainhadas, olhos amarelos perscrutando o vale. No fundo dessa concha, demnios de todos os tamanhos, formatos e foras
disparavam de um lado para outro, formando fervilhante massa de atividade. Quando Rafar desceu mais, notou uma concentrao de espritos negros cercando um casaro
de pedra de diversos andares nas cercanias do conjunto.  ali que est o Homem Forte, pensou ele, por isso fez suave curva lateral, mudando o rumo para aquele prdio.

As sentinelas externas o viram aproximar-se e deram um berro sinistro, como uma sirene. Imediatamente os defensores se irradiaram da trajetria do vo de Rafar,
abrindo passagem atravs das camadas de defesa. Rafar mergulhou agilmente pela passagem enquanto os demnios de todos os lados o saudavam com espadas erguidas, os
olhos ardentes como milhares de pares de estrelas amarelas contra veludo preto. Ele os ignorou e passou depressa. A passagem fechou-se novamente atrs dele como
se fosse um porto vivo. Flutuou lentamente atravs do teto, do sto, passou pelos caibros, pelas paredes, pelo cimento, por um quarto do andar superior, atravs
do cho espesso apoiado sobre vigas e chegou  espaosa sala de estar do piso inferior. O mal no aposento era espesso e restritivo, a escurido como negro lquido
que se revolvia, com qualquer movimento de braos ou pernas. A sala estava apinhada. -- Baal Rafar, o Prncipe da Babilnia! -- anunciou um demnio de algum lugar,
e monstruosos demnios no permetro da sala se curvaram em sinal de respeito. Rafar recolheu as asas de forma a carem qual manto real, e postou-se com ar intimidador
de realeza e poder, as jias faiscando de maneira impressionante. Seus grandes olhos amarelos estudavam cuidadosamente as bem formadas fileiras de demnios, dispostas
ao seu redor. Um horrendo ajuntamento. Eram espritos a nvel dos principados, prncipes de suas prprias naes, povos, tribos. Alguns eram da frica, outros do
Oriente, diversos da Europa. Todos eram invencveis. Rafar observou-lhes o incrvel tamanho e tremenda aparncia; eram todos seus pares em tamanho e ferocidade,
e ele duvidava que jamais se aventurasse a desafiar qualquer deles. Receber mesura

da parte deles era grande honra, um cumprimento de verdade. -- Salve, Rafar -- disse uma voz gorgolejante no fundo da sala. O Homem Forte. Era proibido mencionar
o seu nome. Ele era uma das poucas majestades que gozavam da intimidade do prprio L-cifer, um malvolo tirano global responsvel por sculos de resistncia aos
planos do Deus vivo e pelo estabelecimento do reino de Lcifer sobre a terra. Rafar e sua espcie controlavam naes; os do nvel do Homem Forte controlavam Rafar
e sua espcie. O Homem Forte ergueu-se do seu lugar, e seu enorme porte tomou aquela parte do aposento. Podia-se sentir a presena do mal que emanava dele por toda
a parte, quase como uma extenso do seu corpo. Era grotesco, o couro preto pendurado como sacos e cortinas de seus membros e tronco, a cara era um macabro cenrio
de proeminncias e sulcos em dobras profundas. Suas jias cintilavam em torno do pescoo, no peito, nos braos; suas grandes asas negras circundavam-lhe o corpo
como um manto real e se arrastavam pelo cho. Rafar fez uma profunda mesura, sentindo a presena do Homem Forte do outro lado da sala. -- Salve, meu senhor. O Homem
Forte jamais desperdiava palavras. -- Seremos detidos novamente? -- Os erros do Prncipe Lucius esto sendo corrigidos. A nova resistncia est caindo, senhor.
Logo a cidade estar pronta. -- E o que me diz do exrcito celestial? -- Limitado. O Homem Forte no gostou da resposta de Rafar, o subordinado pde perceb-lo distintamente.
O chefe

disse lentamente: -- Fomos informados de que um poderoso Capito do Exrcito foi enviado a Ashton. Creio que o conhece. -- Tenho motivos para crer que Tal foi enviado,
mas j o esperava. Os grandes olhos drapeados em veludo arderam de fria. -- No  esse Tal que o derrotou na queda da Babilnia? Rafar sabia que precisava responder,
e depressa. --  esse mesmo. -- Ento os atrasos desfizeram nossa vantagem. Agora tem pela frente um adversrio to forte quanto voc. -- Meu senhor, ver o que
o seu servo  capaz de fazer. -- Palavras audaciosas, Rafar, mas suas foras s podem ser bem sucedidas se usadas imediatamente; as foras do inimigo crescem com
o tempo. -- Tudo estar pronto. -- E o homem de Deus e o jornalista? -- O meu senhor digna-se a dar-lhes ateno? -- O seu senhor deseja que voc lhes d a sua!
-- Eles no tm poder, senhor, e logo sero removidos. -- Mas somente se Tal for removido -- disse o Homem Forte escarnecedoramente. -- Quero ver isso acontecer
antes que voc venha me amolar com a sua gabolice. At ento, permanecemos confinados a este lugar. Rafar, no esperarei muito tempo! -- Nem precisar. O Homem Forte
sorriu com afetao.

-- Voc tem as suas ordens. V! Rafar curvou-se profundamente, e com um desdobrar das asas atravessou silenciosamente a casa at o lado de fora. Ento, em furiosa
exploso de raiva, ele disparou para o alto, dando encontres to violentos em demnios desatentos que eles viraram cambalhotas no ar. Ganhou velocidade, o frentico
bater das asas formando um borro ofuscante, e os defensores mal tiveram tempo de abrir uma passagem antes que ele explodisse por ela deixando atrs de si um rasto
quente de hlito sulfuroso. Eles fecharam a passagem novamente, entreolhando-se curiosos enquanto o viam perder-se na distncia. Rafar subiu rugindo como um foguete
pela encosta das montanhas e depois sobre os cumes pontiagudos, voltando em direo  cidadezinha de Ashton. Em sua fria, ele no se importava em ser visto, no
se importava em manter o segredo, nem o decoro. Que o mundo inteiro o visse, e tremesse! Ele era Rafar, prncipe da Babilnia! Que o mundo inteiro se prostrasse
diante dele ou fosse dizimado pelo gume da sua espada! Tal! O nome em si j lhe trazia amargor  lngua. Os senhores servos de Lcifer jamais lhe permitiriam esquecer
aquela derrota to antiga. Nunca, at o dia em que Rafar redimisse a sua honra. E deveras o faria. Rafar entrevia sua espada estripando Tal e espalhando-o em tiras
e pedacinhos pelo cu; podia sentir o impacto em seus braos, podia ouvir o som cortante que produziria. Era apenas uma questo de tempo. Dentre as pedras pontiagudas
no cume de uma montanha, um homem de cabelos prateados saiu do seu esconderijo para observar Rafar sumir rapidamente 

distncia, desenhando uma longa trilha negra no cu, at desaparecer no horizonte. O homem olhou mais uma vez para o conjunto de prdios cheios de demnios no vale,
olhou novamente na direo do horizonte, ento precipitou-se pelo outro lado da montanha, desaparecendo num brilhar de luz e num adejar de asas.

14
Bem, pensou Marshall, mais cedo ou mais tarde vou ter de fazer isso. Quinta-feira  tarde, quando estava tudo tranqilo, ele se fechou no escritrio e deu alguns
telefonemas, tentando localizar a professora Juleen Langstrat. Ligou para a faculdade, conseguiu o nmero do Departamento de Psicologia, e falou com duas recepcionistas
diferentes em dois escritrios diferentes antes de finalmente descobrir que Langstrat no estava e que o telefone da sua casa no constava da lista. Ento Marshall
pensou no prestativo Albert Darr, e ligou para o escritrio dele. Darr estava em aula, mas lhe ligaria de volta se ele quisesse deixar recado. Marshall deixou um
recado. Duas horas mais tarde, Albert Darr ligou, e tinha o nmero do apartamento de Juleen Langstrat que no constava da lista. Marshall discou. A linha estava
ocupada. A sala de estar do apartamento de Juleen Langstrat, iluminada apenas por um pequeno abajur, estava quase escura. A sala era quieta, clida e confortvel.
As persianas estavam fechadas para evitar dis traes, luz forte e qualquer outra perturbao. O telefone estava fora do gancho. Juleen Langstrat, sentada na cadeira,
falava

baixinho com a pessoa que estava aconselhando, sentada  sua frente. -- Voc ouve apenas o som da minha voz... -- disse ela, repetindo a seguir diversas vezes a
sentena baixinho e claramente. -- Voc ouve apenas o som da minha voz... A cena prolongou-se por diversos minutos at a pessoa entrar em profundo transe hipntico.
-- Voc est descendo... descendo profundamente dentro de si mesma... Langstrat observava com cuidado o rosto da paciente. Ento, estendeu as mos espalmadas, e
comeou a mov-las para cima e para baixo a poucos centmetros do corpo da paciente, como se tentasse encontrar algo. -- Liberte o seu verdadeiro eu... liberteo...
ele  infinito... est em unio com toda a existncia... Sim! Posso senti-lo! Consegue sentir minha energia voltando? A pessoa murmurou: -- Sim... -- Voc est livre
do corpo agora... seu corpo  iluso... sente os limites do corpo se dissolvendo... mos. Langstrat inclinou-se mais perto, ainda usando as -- Voc est livre agora...
-- Sim... sim, estou livre... -- Posso sentir sua fora vital expandindo. -- Sim, posso senti-la. -- Basta. Pode parar a. -- Langstrat estava atenta, observando
tudo cuidadosamente. -- Volte... volte... Sim, posso sentir que est retrocedendo. Em um instante, sentir que estou-me distanciando de voc;

no se alarme, ainda estou aqui. Durante os prximos minutos, ela fez a pessoa sair lentamente do transe, passo a passo, sugesto a sugesto. Finalmente, disse:
-- Est bem, quando eu contar at trs, voc acordar. Um, dois, trs. Sandy Hogan atordoada, ento completamente a si. abriu os respirou olhos, fundo, revirou-os
voltando

-- Puxa vida! -- foi a sua reao. Os trs riram ao mesmo tempo. -- No foi tremendo? -- perguntou Shawn, sentado ao lado de Langstrat. dizer. -- Puxa vida -- foi
tudo o que Sandy conseguiu

Foi uma experincia totalmente indita para Sandy. A idia tinha partido de Shawn e, embora ela tivesse hesitado no comeo, agora estava muito contente por haver
concordado. As persianas foram abertas, e Sandy e Shawn se prepararam para retornar s aulas da tarde. -- Bem, obrigada por ter vindo -- disse a professora  porta.
-- Eu  que agradeo -- disse Sandy. -- E obrigada por t-la trazido -- disse Langstrat a Shawn. Ento ela se dirigiu aos dois: -- Agora, lembrem-se, eu no os aconselharia
a falar com ningum a respeito disto.  uma experincia muito pessoal e ntima que a todos devemos respeitar. -- Sim, certo, certo -- disse Sandy. Shawn levou-a
de volta ao campus.

Era sexta-feira, e Hank estava sentado em casa, no canto que era o seu pequeno escritrio, olhando ansioso em direo ao relgio. Mary geralmente cumpria a palavra.
Ela tinha dito que estaria em casa antes que Carmem chegasse para o aconselhamento. Hank no tinha a menor idia se havia espias vigiando a casa, mas nunca podia
ter certeza. Tudo o de que precisava era algum achar que Carmem fora v-lo enquanto Mary estava fazendo compras. O lado temeroso de Hank enxergava todo o tipo de
conspirao que os inimigos podiam estar tramando contra ele, tal como mandar uma mulher estranha e sedutora a fim de comprometlo e arruin-lo. Bem, de uma coisa
ele sabia: Se Carmem no se mostrasse genuinamente receptiva ao aconselhamento e comeasse a aplicar solues reais a um problema real, seria o fim dessa histria,
no que lhe dizia respeito. A campainha soava. Ele deu uma espiada pela janela. O Fiat vermelho de Carmem estava estacionado em frente. Sim, ela estava  porta, em
plena luz do dia, bem  vista de dez ou quinze casas. A maneira pela qual ela estava vestida aquele dia fez Hank pensar que o melhor era mand-la entrar depressa,
ainda que fosse apenas para ocult-la  vista do pblico. Onde, oh, onde estava Mary? Mary no sabia se gostava dos novos donos da mercearia que fora do Joe. Oh,
no era o atendimento ou a administrao; estava tudo bem na maioria dessas reas, e Mary achava tambm que levaria tempo para que viessem a conhecer todo o mundo
e vice-versa. O que incomodava Mary era a reserva bvia quando ela lhes perguntava que fim levaram Joe Carlucci e sua famlia. Pelo que Mary conseguiu descobrir,
Joe, Angelina e os filhos deixaram Ashton abruptamente sem dizer a ningum, e at aquele momento ningum

aparecera que soubesse pelo menos aonde eles tinham ido. Ora bolas. Ela saiu depressa da mercearia e dirigiu-se ao carro, um empregado da mercearia empurrando um
carrinho de compras atrs dela. Ela abriu o porta-malas e observou o menino carregar as compras. Foi ento que sentiu, subitamente, sem nenhuma razo aparente, uma
inexplicvel emoo, uma estranha mistura de receio e depresso. Sentiu-se fria, nervosa, um tanto trmula, e no podia pensar em coisa alguma alm de sair daquele
lugar e correr para casa. Triskal a estava acompanhando, guardando-a, e ele tambm sentiu a mesma coisa. Com retinir metlico e um lampejo faiscante, sua espada
estava instantaneamente na mo. Tarde demais! De algum lugar atrs dele um golpe estonteante atingiu-lhe a nuca. Ele caiu para a frente. Suas asas abriram-se de
chofre a fim de equilibr-lo, mas um peso incrvel recaiu-lhe sobre as costas como um bate-estacas, prendendo-o ao cho. Ele podia ver os ps dos atacantes, como
as patas cheias de garras de hediondos rpteis, e o rubro tremeluzir de suas lminas; podia ouvir-lhes o chiar sulfuroso. Olhou para cima. Cercavam-no pelo menos
uma dzia de guerreiros demonacos. Eram muito altos, ferozes, e possuam ardentes olhos amarelados e presas gotejantes, ar de escrnio e riso gorgolejante. Triskal
olhou para Mary. Ele sabia que a segurana da moa seria logo ameaada se ele no agisse. Mas o que podia fazer? O que era aquilo? Triskal sentiu de sbito intensa
onda de maldade rolando sobre si. -- Ergam-no -- disse uma voz de trovo.

Uma mo fechou-se como prensa em torno do seu pescoo e o sacudiu no ar como se fosse mero brinquedo. Agora ele olhava todos os espritos nos olhos. Haviam chegado
a Ashton recentemente. Jamais Triskal tinha visto tal tamanho, fora e desfaatez. Os corpos eram cobertos de escamas espessas, semelhante a ferro, os braos ondulavam
de poder, as caras eram zombeteiras, o hlito era sulfuroso e sufocante. Eles o voltaram para o outro lado e o seguraram firmemente, e ele encontrou-se face a face
com uma viso de puro horror. Flanqueado por nada menos que outros dez enormes guerreiros demonacos estava um esprito gigantesco com uma espada curvada em S na
monstruosa mo negra. Rafar! O pensamento percorreu a mente de Triskal como uma sentena de morte; cada centmetro do seu ser contraiu-se na antecipao de golpes,
derrota, dor insuportvel. A grande boca, abrindo-se num sorriso escarninho e hediondo, mostrou as presas; saliva mbar pingava, e enxofre saa em nuvens repugnantes
quando o gigantesco comandante galhofava zombeteiro. -- Est to surpreso? -- perguntou Rafar. -- Devia sentir-se privilegiado. Voc, anjinho,  o primeiro a me
ver. -- E como est hoje? -- perguntou Hank, indicando  moa uma confortvel cadeira no escritrio. Ela se afundou na cadeira com um arrulho e um suspiro, e Hank
comeou a perguntar-se onde tinha deixado o gravador. Ele sabia ser inocente, mas era bom ter alguma prova. -- Estou muito melhor -- respondeu ela, e a voz

era suave e estvel. -- Sabe, talvez possa me dizer por que, mas no ouvi nenhuma voz falando comigo a semana toda. -- Oh... hum... sim -- disse Hank, finalmente
engrenando os pensamentos de conselheiro. -- Era disso que estvamos falando, no era? Triskal olhou em direo a Mary. Ela estava agradecendo ao empacotador e fechando
o porta-malas. Rafar observou Triskal, divertido. -- Oh, entendo. Voc  responsvel pela proteo dela. Proteg-la de qu? Esperava estapear meras moscas? -- Triskal
no teve resposta. O tom de Rafar tornou-se mais cruel e mordaz. -- No, est enganado, anjinho.  com um poder muito maior que ter de se haver. Rafar bateu com
a espada no cho, e Triskal sentiu imediatamente as mos frreas de dois demnios apertando-lhe os braos por trs. Ele olhou na direo de Mary. Ela estava procurando
a chave da porta do carro. Estava entrando no carro. Outro demnio estendeu a espada e atravessou o cap. Mary tentou dar partida. Nada. Rafar olhou na direo de
uma lavanderia prxima, na frente da qual encontrava-se um sujeito jovem, seboso, encostado a um poste. Triskal percebeu que o homem estava possudo por um dos capangas
de Rafar, de fato, diversos deles. A um aceno de Rafar, os demnios entraram em ao e o homem ps-se a andar rumo ao carro de Mary. Mary verificou as luzes. No,
ela no as havia deixado ligadas. Ela virou a chave e ligou o rdio. Tocou. A buzina tocou. Mas o que estava errado? Ela viu o sujeitinho chegando. Oh, timo.

Enquanto Triskal observava impotente, demnios guiaram o homem  janela do carro. aqui?

os

-- Ei, belezinha -- disse ele -- algum problema Mary olhou para ele. Era magricela, sujo, e usava roupas de couro preto e correntes cromadas. Ela disse atravs da
janela: -- Ah... no, obrigada. Estou bem. Ele deu um risinho, olhando-a da cabea aos ps enquanto dizia: -- Por que no abre e deixa-me ver o que posso fazer?
Hank no se sentia bem com a situao. Onde estava Mary? Pelo menos Carmem estava falando mais racionalmente. Parecia estar tratando os problemas de forma inteligente
e com genuno desejo de mudar. Talvez hoje as coisas corressem de modo diferente, mas Hank no contava com isso. -- Ento -- perguntou ele -- o que voc acha que
aconteceu com as vozes amorosas? -- Eu j no as escuto -- respondeu ela. --  uma coisa que voc me ajudou a perceber, ao falar sobre elas. As vozes no eram reais.
Eu estava apenas enganando a mim mesma. Hank foi muito gentil ao concordar: -- Sim, acho que tem razo. Ela soltou um profundo suspiro e olhou para ele com aqueles
grandes olhos azuis. -- Estava tentando vencer a minha solido, s isso. Acho que era o que acontecia. Pastor, voc  to forte. Gostaria de poder ser assim. --
Bem, a Bblia diz: "Posso todas as coisas

mediante Cristo que me fortalece.'1 -- Ah. Onde est a sua esposa? -- Foi  mercearia. Deve estar de volta a qualquer momento. -- Bem... -- Carmem inclinou-se para
a frente e sorriu com muita doura. -- Estou realmente derivando fora da sua companhia. Quero que saiba disso. Mary sentia o corao bater com fora. O que aquele
sujeito faria a seguir? O homem inclinou-se de encontro  janela e seu hlito embaou o vidro: -- Escute, boneca, por que no me diz o seu nome? Rafar agarrou Tiiskal
pelos cabelos e puxou-lhe com fora a cabea para o outro lado. Triskal achou que o pescoo arrebentaria. Rafar soprou enxofre no rosto de Triskal, dizendo-lhe:
-- E agora, anjinho, trocarei palavras com voc --. A ponta da longa espada subiu  garganta de Triskal. -- Onde est o seu capito? Triskal no respondeu. Rafar,
com um safano, voltou-lhe a cabea e permitiu-lhe olhar na direo de Mary. O homem tentava abrir a porta do carro. Mary estava aterrorizada. Tateando, conseguia
alcanar cada boto de trava do carro, e empurr-los segundos antes de o homem poder agarrar o trinco de fora. Ele tentou todas as portas, um sorriso malicioso no
rosto. Mary tocou a buzina de novo. Um demnio j cuidara dela; no funcionou. Rafar torceu a cabea de Triskal de volta, e a lmina fria comprimiu o rosto do anjo.

-- Perguntarei outra vez: Onde est o seu capito? Carmem ainda estava dizendo a Hank o bem que o aconselhamento lhe estava fazendo, como ele lhe lembrava o seu
ex-marido, e como ela estava procurando um homem com as suas qualidades. Hank teve de pr um paradeiro no negcio. -- Bem -- conseguiu dizer, afinal -- voc tem
outras pessoas em sua vida que a fazem sentir-se importante no que diz respeito a fora, apoio, amizade, esse tipo de coisas? Ela o olhou um tanto chorosa. -- Mais
o bar. Mas pensamentos perguntou: -- ou menos. Tenho amigos que freqentam nada jamais dura --. Ela deixou os fervilharem por um momento, ento Voc me acha atraente?

O homem vestido de couro preto inclinou-se bem perto da janela de Mary, ameaou-a com horrveis obscenidades, e a seguir comeou a bater no vidro com uma grande
fivela de metal. Rafar acenou com a cabea para um guerreiro cuja mo passou atravs da janela de Mary e agarrou o boto da trava, pronto a ergu-lo quando Rafar
desse a ordem. Os demnios dentro do rapazola estavam babando e preparados. Sua mo apoderou-se do trinco. Rafar assegurou-se de que Triskal pudesse ver tudo o que
se passava, e depois disse: -- Sua resposta? Triskal falou, afinal, gemendo: -- O freio... Rafar apertou-o mais ainda, chegando mais perto.

-- No ouvi o que disse. Triskal repetiu. -- O freio. Mary teve uma sbita idia. O carro estava estacionado numa ladeira. No era muito forte, mas poderia ser suficiente
para faz-lo movimentar-se. Ela soltou o freio de mo e o carro comeou a rolar. O sujeitinho no esperava por essa; esmurrou a janela, tentou dar a volta pela frente,
a fim de deter o carro, mas o veculo comeou a ganhar velocidade, e logo o homem percebeu que seus esforos estavam-se tornando bvios demais. Um robusto empreiteiro
em p ao lado de sua reforada caminhonete finalmente percebeu o que estava ocorrendo e berrou: -- Ei, seu malandro, o que voc est fazendo? Rafar viu o que acontecia,
a raiva crescente fluindo pelo grande punho de ferro, apertando-o mais em torno de Triskal. O anjo achava que o pescoo arrebentaria a qualquer momento. Mas ento
Rafar pareceu ceder. -- Cessar! -- ordenou ele aos demnios. Eles se afastaram; o homem desistiu de seguir o carro e tentou afastar-se como se nada estivesse acontecendo.
O empreiteiro grandalho comeou a segui-lo e ele sai correndo. O carro continuou a rodar. Uma sada do estacionamento dava para uma viela que tinha uma ladeira
razovel. Mary dirigiu-se para l, esperando no cruzar com pedestres ou carros. Triskal viu que ela conseguiria salvar-se. Rafar tambm viu. O ao frio da sua lmina
pressionou a garganta de Triskal. -- Muito bem, anjinho. Voc salvou a sua

protegida at uma ocasio mais oportuna. Deixo-o com apenas uma mensagem por hoje. Preste muita ateno. Tendo dito isso, Rafar soltou Triskal nas mos dos capangas.
Um demnio enorme, verrugoso, socou o punho de ferro no tronco do anjo o que o fez revirar pelo ar onde outro demnio o interceptou com um golpe da espada, abrindo
um corte profundo em suas costas. Triskal volteou e caiu atordoado, nas garras de outros dois demnios que socaram-lhe o corpo flcido com punhos de ferro e o estraalharam
com as garras dos ps. Durante diversos horrveis minutos os demnios brincaram violentamente com ele enquanto Rafar observava impassvel. Finalmente, o grande Baal
rosnou uma ordem, e os guerreiros soltaram Triskal. Ele caiu ao cho, e a grande pata de Rafar pisou-lhe com fora o pescoo. A espada enorme desceu com um floreio
e descreveu pequenos crculos diante dos olhos de Triskal enquanto o demnio falava. -- Voc dir ao seu capito que Rafar, o Prncipe da Babilnia, o est procurando
--. O grande p de Rafar pressionou com mais fora. -- Voc lhe dir! De sbito, Triskal se encontrava sozinho, um farrapo flcido e roto. Com esforo, colocou-se
em p. A nica coisa em que conseguia pensar naquele momento era Mary. Hank tomou com delicadeza a mo de Carmem, tirou-a de cima da sua, e a colocou cortesmente
no colo da moa. Ele a segurou ali por apenas um instante e olhou-a bem nos olhos com compaixo mas com firmeza. Soltando-lhe a mo, ele se reclinou de volta na
cadeira a uma distncia segura. -- Carmem -- disse com voz suave e compreensiva. -- Sinto-me muito lisonjeado por voc estar to impressionada com as minhas qualidades

masculinas... e realmente duvido que uma mulher com as suas qualidades tenha problema em encontrar um bom homem com quem construir um relacionamento permanente e
significativo. Mas escute, no quero parecer abrupto, mas preciso enfatizar uma coisa aqui e agora: No sou esse homem. Estou aqui como ministro e conselheiro, e
temos de manter este relacionamento estritamente ao de conselheiro e cliente. Carmem pareceu muito perturbada e ofendida. -- O que est dizendo? -- Estou dizendo
que realmente no podemos continuar com estas consultas. Elas lhe esto causando conflitos emocionais. Acho que ser melhor voc procurar outra pessoa. Hank no
poderia explicar por que, mas mesmo enquanto dizia essas palavras, sentiu-se como se tivesse acabado de vencer uma batalha. Pelo olhar gelado que Carmem lhe lanou,
calculou que ela havia perdido. Mary chorava, enxugava as lgrimas na manga e orava. "Deus Pai, querido Jesus, salve-me, salve-me, salve-me!" O declive estava comeando
a nivelar; a velocidade do carro foi diminuindo, vinte e cinco, vinte, quinze quilmetros por hora. Ela olhou para trs e no viu ningum seguindo, mas a essa altura
estava apavorada demais para sentir alvio. Apenas queria chegar em casa. Ento, atrs dela pela rua e cerca de trs metro acima do cho, Triskal veio voando, as
vestes refulgindo com ardente luz branca e as asas batendo depressa. Seu vo seguia um rumo incerto e as asas batiam em ritmo descompassado, mas mesmo assim ele
estava decidido. Seu rosto estava marcado por profunda preocupao com o bem-estar da moa. Ele abriu as asas esfarrapadas, frementes, como grande dossel e deixou

que elas o freassem at parar enquanto se acomodava sobre o teto do carro. A essa altura, o veculo mal se movia e Mary simplesmente continuava a chorar e a gemer,
sacudindo espasmodicamente o corpo em ftil tentativa de forar o carro a continuar adiante. Triskal passou a mo pelo teto e a colocou delicadamente no ombro de
Mary. -- Acalme-se, est tudo bem agora. Voc est a salvo. Ela olhou para trs novamente e comeou a se acalmar um pouco. Triskal falou-lhe ao corao: -- O Senhor
a salvou. Ele no a deixar. Voc est bem. A essa altura o carro havia parado quase completamente. Mary dirigiu-o para a beira da calada e o encostou. Ela puxou
o freio de mo e ficou sentada diversos minutos apenas se recompondo. -- Isso mesmo -- disse Triskal, confortando-lhe o esprito. -- Descanse no Senhor. Ele est
aqui. Triskal escorregou do teto do carro, estendeu o brao atravs do cap. Encontrou o que estava procurando. -- Mary -- disse ele -- por que no tenta dar partida
novamente? Mary, sentada no carro, pensava consigo mesma que aquela ignio burra jamais funcionaria e que hora horrvel para estragar, deixando a em tamanho apuro.
-- Vamos -- instigou Triskal. -- D o passo da f. Confie em Deus. Voc nunca sabe o que ele pode fazer. Mary resolveu dar partida ao carro, mesmo tendo pouca f
de que alguma coisa acontecesse. Ela girou a chave. O motor deu uma volta, tossiu, pegou. Ela acelerou com fora diversas vezes s para ter certeza de

que ele continuaria funcionando. A seguir, ainda com grande pressa de chegar em casa e aos braos protetores de Hank, ela foi voando para casa com Triskal em cima
do teto. Hank sentiu-se muito aliviado ao ouvir a batida da porta do carro. -- Oh, deve ser Mary! Carmem ergueu-se. -- Acho melhor eu ir. Agora que Mary havia chegado,
Hank acrescentou: -- Escute, no precisa ir-se. Pode ficar mais um pouco. -- No, no, estou de sada. Talvez fosse melhor eu sair pela porta dos fundos. -- No,
que tolice. Olhe. Eu a acompanho  porta. Preciso ajudar Mary a trazer as compras para dentro, de qualquer forma. Mas Mary tinha-se esquecido das compras e s pensava
em entrar. Triskal correu ao seu lado. Estava contundido e mancava, as vestes rasgadas, e ainda podia sentir o corte ardente nas costas. Hank abriu a porta. -- Oi,
benzinho. Puxa, estava ficando preocupado com voc --. Ento, ele viu-lhe os olhos cheios de lgrimas. -- Ei, o qu... Carmem gritou. Foi um grito repentino, de
penetrar o corao, que fez cessar todo pensamento e sufocou quaisquer palavras. Hank rodopiou nos calcanhares, sem saber o que esperar. -- NAO! -- foi o grito
estridente da moa, os braos protegendo-lhe o rosto. -- Est doido? Afaste-se de mim, ouviu? Afaste-se! Diante dos olhos horrorizados de Hank e Mary,

Carmem afastou-se para dentro da sala, abanando os braos como que tentando proteger-se de algum atacante invisvel; saiu aos tropees pela sala, revirando sobre
o mobilirio, praguejou e soltou um jorro de horrveis obscenidades. Estava aterrorizada e enraivecida ao mesmo tempo, os olhos esbugalhados e vidrados, o rosto
contorcido. Krioni tentou agarrar Triskal e det-lo. Triskal estava glorificado e reluzia; as asas esfarrapadas enchiam o aposento e refulgiam como mil arcos-ris.
Ele segurava uma espada brilhante na mo, espada que coruscava e cantava em arcos ofuscantes enquanto ele se debatia em feroz batalha contra Lascvia, um demnio
hediondo de corpo escorregadio, cheio de escamas negras, como o de uma lagartixa, e com uma lngua vermelha que espadanava-lhe pela cara como a cauda de uma serpente.
Lascvia defendeu-se a princpio, depois comeou a devolver os golpes com sua brilhante espada vermelha, a lmina em forma de meia-lua cortando arcos rubros no ar.
As espadas se chocavam com exploses de chama e luz. -- Deixe-me em paz, estou-lhe dizendo! -- berrou Lascvia, as asas impelindo-o como uma vespa presa na sala.
-- Deixe-o em paz! -- gritou Krioni, tentando deter Triskal enquanto se mantinha fora do rumo daquela lmina infinitamente afiada. -- Est ouvindo a minha ordem?
Deixe-o em paz! Finalmente, Triskal retraiu-se, mas segurou a espada com firmeza e a manteve erguida  sua frente, a luz da lmina iluminando-lhe o rosto irado,
os olhos ardentes. Carmem acalmou-se, esfregou os olhos, e correu o olhar pela sala com expresso amedrontada. Hank e Mary acorreram imediatamente e tentaram confort-la.

-- O que est errado, Carmem? -- perguntou Mary, os olhos muito abertos e preocupados. -- Sou eu, Mary. Foi alguma coisa que fiz? No tive a inteno de assust-la.
-- No... no... -- gemeu Carmem. -- No foi voc. Foi outra pessoa... -- Quem? O qu? Lascvia afastou-se, a espada ainda erguida bem alto. Krioni lhe disse: --
Hoje no lhe daremos mais lugar. Suma, e no aparea aqui novamente! Lascvia dobrou as asas e circulou cuidadosamente em torno dos dois guerreiros celestiais e
alcanou a porta. -- Eu j estava de sada mesmo -- sibilou o demnio. -- Eu j estava de sada mesmo -- disse Carmem, se compondo. -- H... h m energia neste
lugar. Adeus. Ela escapuliu porta afora. Mary tentou cham-la, mas Hank tocou o brao da esposa e deu-lhe a entender que o silncio seria a melhor coisa no momento.
Krioni segurou Triskal at que a luz ao seu redor desaparecesse e ele embainhasse a espada. Triskal tremia. -- Triskal -- repreendeu Krioni -- voc conhece as ordens
de Tal! Estive com Hank o tempo todo; ele se saiu muito bem. No havia necessidade... -- Foi ento que Krioni viu os muitos ferimentos de Triskal e o profundo corte
nas costas. -- Triskal, o que aconteceu? -- Eu... no podia deixar-me ser atacado por mais um deles -- arquejou Triskal. -- Krioni, o nmero deles  superior ao
nosso. Mary finalmente lembrou-se de que estava prestes

a chorar. Ela continuou de onde havia parado. -- Mary, mas afinal o que est acontecendo? -- perguntou Hank, colocando os braos em torno dela. -- Apenas feche a
porta, querido! -- bradou ela. -- Apenas feche a porta e me abrace. Por favor!

15
Kate agarrou uma toalha de pratos e enxugou s pressas as mos a fim de atender ao telefone. -- Al? -- Oi. Era Marshall. Kate sabia o que se seguiria; era o que
havia acontecido muitas vezes nas ltimas duas semanas. -- Marshall, estou fazendo o jantar, e estou preparando o suficiente para ns quatro... -- Sei, bem... --
A voz de Marshall tinha o tom que ele sempre usava quando estava querendo livrar-se de alguma coisa. -- Marshall! -- Ento Kate deu as costas  sala de estar onde
Sandy e Shawn estavam estudando e conversando, mas principalmente conversando; no queria que eles percebessem o aborrecimento em seu rosto. Abaixou a voz. -- Gostaria
que estivesse em casa para o jantar. Voc ficou fora at tarde a semana toda, tem estado to ocupado e preocupado que nem parece que tenho mais marido... -- Kate!
--- interrompeu Marshall. -- No  to ruim quanto pensa; estou ligando apenas para avisar que vou atrasar um pouco, mas irei. -- Quanto tempo de atraso?

-- Puxa.. . -- Marshall no tinha certeza. -- Acho que cerca de uma hora. Kate no conseguiu pensar em nada para dizer. Apenas suspirou de desagrado e zanga. Marshall
tentou acalm-la. -- Escute, irei assim que puder. Kate resolveu falar; podia ser que jamais tivesse outra oportunidade. -- Marshall, estou preocupada com Sandy.
-- O que h de errado com ela agora? Oh, ela podia soc-lo por aquele tom de voz! -- Marshall, se voc pelo menos estivesse em casa de vez em quando, saberia! Ela
est... no sei. Apenas no  mais a antiga Sandy. Estou com medo do que Shawn est fazendo com ela. -- O que Shawn est fazendo com ela? -- No posso falar pelo
telefone. Agora foi a vez de Marshall suspirar. -- Est bem, est bem. Falaremos sobre esse assunto. -- Quando, Marshall? -- Oh, hoje  noite, quando eu chegar.
-- No podemos falar disso na frente deles... -- Quero dizer... oh, voc sabe o que quero dizer! -- Marshall estava-se cansando da conversa. -- Bem, apenas venha
para casa, Marshall, por favor! -- Est bem, est bem! Marshall desligou o telefone sem dizer nada amoroso. Por um timo, ele sentiu remorso pelo que

fizera, e pensou sobre como Kate devia sentir-se, mas forou os pensamentos ao prximo e premente projeto: entrevistar a professora Juleen Langstrat. Noite de sexta-feira.
Ela devia estar em casa. Ele discou o nmero, e desta vez o telefone tocou. E tocou. E tocou mais uma vez. Clique. -- Al? -- Al, aqui fala Marshall Hogan, redator
do Clarim de Ashton. Estou falando com a Professora Juleen Langstrat? -- Sim, est. Em que posso servi-lo, Sr. Hogan? -- Minha filha Sandy participa de algumas de
suas classes. Ela pareceu contente ao saber disso. -- Oh, timo! -- De qualquer maneira, gostaria de saber se poderamos marcar uma entrevista. -- Bem, o senhor
teria de falar com um dos meus assistentes. Eles  que so responsveis pela averiguao do progresso e problemas dos alunos. As classes so grandes, o senhor compreende.
-- Oh, bem, no era exatamente isso que eu queria. Estava pensando em entrevistar a senhora. -- Com relao  sua filha? Temo no conhec-la. No poderia dizer-lhe
muita coisa... -- Bem, poderamos falar um pouco acerca da aula, naturalmente, mas eu estava curioso tambm quanto aos outros interesses com que a senhora se ocupa
na faculdade, os cursos eletivos que vem dando  noite... -- Oh -- disse ela, terminando com uma nota descendente que no soava muito promissora. -- Bem,

eles so parte de uma idia experimental universitria que estamos tentando. Se desejar verificar esse fato, a secretaria pode ter alguns folhetos antigos disponveis.
Mas devo inform-lo de que me sinto muito pouco  vontade em dar uma entrevista  imprensa, e realmente no posso faz-lo. -- Ento a senhora no est disposta a
discutir as pessoas muito influentes que constam de seu crculo de amizades? -- No entendo a pergunta -- e parecia que tambm no havia gostado dela. -- Ali Brummel,
Delegado de polcia, o Reverendo Oliver Young, Delores Pinckston, Dwight Brandon, Eugene Baylor, o Juiz John Baker. .. -- Nada tenho a comentar -- disse ela em tom
cortante -- e realmente tenho outras coisas urgentes que me esperam. Alguma outra coisa em que possa ajud-lo? -- Bem... -- Marshall pensou que levaria adiante a
pergunta para ver o que acontecia. -- Acho que a nica outra coisa que eu poderia perguntar-lhe  por que a senhora me expulsou da sua aula. Agora ela estava ficando
indignada. -- No sei de que o senhor est falando. -- Sua aula da tarde de segunda-feira, h duas semanas. "A Psicologia do Eu", acho que era. Eu sou o sujeito
grandalho que a senhora mandou sair. Ela ps-se a rir incrdula. -- No tenho a menor idia de que est falando! Deve estar pensando em outra pessoa. -- No se
lembra de ter-me mandado esperar fora da sala? -- Estou convencida de que o senhor est-me

confundindo com outra pessoa. -- Bem, a senhora tem cabelo comprido e loiro? Ela disse simplesmente: -- Boa noite, Sr. Hogan -- e desligou. Marshall esperou um momento,
depois perguntou-se: "Vamos, Hogan, o que voc esperava?" Ele largou o telefone no gancho e dirigiu-se ao escritrio da frente onde uma pergunta de Berenice prendeu-lhe
a ateno. -- Ento, gostaria de saber quando vai finalmente chegar a Langstrat na parede -- brincou ela, revirando alguns papis sobre a escrivaninha. Marshall
sentiu-se como se seu rosto estivesse muito vermelho. -- Puxa, o seu rosto est bem vermelho -- confirmou Berenice. --  isso o que d conversar com muitas mulheres
temperamentais na mesma noite -- explicou ele. -- Langstrat foi uma delas. Arre, e eu tinha pensado que Harmel era difcil! Berenice voltou-se, animada. -- Voc
conseguiu falar com a Langstrat? -- Pelo total de trinta e dois segundos. Ela no tinha absolutamente nada a me dizer, e no se lembrava de ter-me expulsado de sua
classe. Berenice fez uma careta. -- No  engraado como ningum parece lembrar-se de ter nos encontrado? Marshall, acho que somos invisveis! -- Que tal inconvenientes?
muito indesejveis e muito

-- Bem -- disse Berenice, voltando a ateno  papelada -- Langstrat provavelmente tem estado muito ocupada, ocupada demais para falar com reprteres metidos...
Uma bola de papel atingiu-lhe a cabea. Ela olhou para trs e viu Marshall correndo os olhos por umas listas. Ele dava a impresso de que era impossvel ter sido
quem atirara aquele pequeno projtil. Ele disse: -- Puxa, ser que eu conseguiria falar com Harmel outra vez? Mas ele tambm no quer saber de conversa. A mesma
bola de papel bateu-lhe na orelha. Ele olhou para Berenice e ela estava absolutamente sria, toda profissional. -- Bem,  bvio que ele sabia demais. Aposto que
tanto ele quanto o antigo deo Strachan esto bastante assustados. --  --. Uma lembrana aflorou  mente de Marshall. -- Harmel falou dessa maneira, me avisando.
Disse algo como: eu iria ficar na rua da amargura como todos os outros. -- E quem so todos os outros? -- Sim, quem mais conhecemos que poderia ter sido removido?
Berenice correu os olhos por algumas anotaes. -- Bem, sabe, agora que examino esta lista, nenhuma destas pessoas est no cargo h muito tempo. A bola de papel
ricocheteou da cabea da moa e deslizou levemente pela escrivaninha. -- E quem foi que elas substituram? -- perguntou Marshall. Berenice apanhou solenemente a
bola de papel, dizendo: -- Podemos averiguar. Enquanto isso, a coisa

mais bvia a fazer  ligar para Strachan e ver o que -- ela atirou a bola em Marshall -- ele diz! Marshall agarrou a bola antes que esta o tocasse e depressa amassou
outra para aumentar o seu arsenal, devolvendo as duas na direo de Berenice. A moa psse a preparar um contra-ataque adequado. -- Est bem -- disse Marshall, caindo
na gargalhada -- ligarei para ele --. De repente, ele se viu no meio de uma tempestade de bolas de papel. -- Mas acho melhor irmos embora daqui, minha esposa est
esperando. Berenice ainda no havia terminado a batalha, de modo que acabaram a guerra e ento tiveram de fazer a limpeza antes de sair. Rafar andava de um lado
para outro no escuro poro, expelindo baforadas quentes que formavam uma camada de nuvem que o ocultava do ombro para cima. Ele batia com um punho no outro, estra
alhava inimigos invisveis com as garras estendidas, praguejava e fervia de raiva. Lucius, ao lado dos outros guerreiros, esperava que Rafar se acalmasse e desse
o motivo da reunio. Lucius bem que se divertia com a pequena cena que tinha diante de si. Era bvio que Rafar, o grande gabola, havia sido humilhado na reunio
que tivera com o Chefe! Lucius mal podia evitar que um sorriso hediondo lhe aflorasse  fisionomia. -- O anjinho no lhe disse onde poderia encontrar esse... como
 mesmo o nome dele? -- perguntou Lucius, sabendo muito bem o nome de Tal. -- TAL! -- rugiu Rafar, e Lucius conseguia detectar a humilhao de Rafar ao pronunciar
aquele nome.

nada?

-- O anjinho, o inofensivo anjinho, no lhe disse

A pronta reao de Rafar foi um monstruoso punho negro agarrando no mesmo instante em torno da garganta de Lucius. -- Est caoando de mim, seu diabinho? Lucius
havia aprendido o tom certo de servilidade que agradava ao tirano. -- Oh, no fique ofendido, grande senhor. Apenas procuro o que lhe agrada. -- Ento procure esse
Tal! -- rosnou Rafar. Soltou Lucius e voltou-se para os outros demnios. -- Todos vocs, procurem esse Tal! Quero-o nas mos para poder estraalh-lo  vontade.
Esta batalha poderia facilmente ser resolvida entre ns dois. Encontrem-no! Tragam-me notcias! Lucius tentou ocultar as palavras atrs de um tom lamuriento, mas
elas foram selecionadas especialmente com outro objetivo. --  o que faremos, grande senhor! Mas seguramente esse Tal deve ser um inimigo estupendo para t-lo derrotado
quando da queda da Babilnia! O que far com ele, se o encontrarmos? Ousar atac-lo novamente? Rafar riu, as presas brilhando. -- Vero de que o seu Baal  capaz!
-- Espero que no vejamos o que esse Tal pode fazer! Rafar aproximou-se de Lucius e fitou-o com ardentes globos amarelos at o outro abaixar o olhar. -- Quando eu
tiver vencido esse Tal e lanado os pedacinhos dele pelos cus como sinal de vitria, certamente darei a voc a oportunidade de me vencer.

Saborearei cada minuto. Rafar voltou-se, e por um instante as suas asas negras encheram o aposento antes de ele lanar-se atravs do prdio rumo ao cu. Durante
as horas que se seguiram, enquanto anjos em toda a cidade observavam de seus esconderijos, o Baal voou lentamente sobre a cidade, como um abutre sinistro, a espada
visvel e desafiadora. Para cima, para baixo, para diante, para trs, ele voou, serpeando entre os prdios do centro, elevando-se a seguir bem alto sobre a cidade
em arcos graciosos. L embaixo, atravs da janela de obscura loja num poro, Scion observava enquanto Rafar sobrevoava novamente. Ele se voltou para o seu capito,
sentado por perto nuns engradados de eletrodomsticos com Guilo, Triskal e Mota. Triskal, com a ajuda dos outros, estava conseguindo curar-se e consertar os estragos.
-- No compreendo -- disse Scion. -- O que ele acha que est fazendo? Tal ergueu os olhos dos ferimentos de Triskal e disse com naturalidade: -- Est acrescentou:
tentando forar-me a sair. Mota

-- Ele quer o capito. Aparentemente, ele ofereceu grandes honrarias ao demnio que encontrar o capito Tal e inform-lo sobre o seu paradeiro. Guilo disse asperamente:
-- Os demnios esto rastejando por toda a igreja com esse nico objetivo. Foi o primeiro lugar que examinaram. Tal previu a prxima pergunta de Scion e a respondeu.
-- Signa e os outros ainda esto na igreja.

Tentamos manter a nossa guarda ali com a mesma aparncia de sempre. Scion viu Rafar circular sobre o limite distante da cidade e voltar para outra sobrevoada. --
Eu estaria em apuros se fosse desafiado por algum como ele! Tal falou a verdade, sem se envergonhar. -- Se eu tivesse de defront-lo agora,  quase certo que perderia,
e ele sabe disso. Nossa cobertura de orao  insuficiente, enquanto ele tem todo o apoio de que precisa. Todos ouviram o ruflar das enormes asas de couro de Rafar
e viram a sombra do demnio recair sobre o prdio por um instante enquanto ele o sobrevoava. -- Teremos todos de ser muito, muito cuidadosos. Hank estava caminhando
pela cidade novamente, para cima e para baixo, passando pelas ruas e casas comerciais, conduzido pelo Senhor e orando a cada passo que dava. Ele sentia que Deus
tinha algum propsito particular para esse pequeno passeio, mas nem podia comear a imaginar qual fosse. Krioni e Triskal caminhavam ao lado dele; haviam obtido
alguns reforos para ficar na casa e tomar conta de Mary. Eles estavam cautelosos e alerta, e Triskal, ainda recuperando-se do recente encontro com Rafar, sentia-se
especialmente nervoso ao considerar aonde estavam conduzindo Hank. Hank virou para um lado onde jamais estivera antes, desceu uma rua  qual jamais olhara antes,
e finalmente se deteve do lado de fora de um estabelecimento comercial a respeito do qual apenas ouvira pssimas referncias mas que jamais conseguira encontrar.
Parado do lado de fora da porta, ele olhou,

admirado do nmero de garotos que entravam e saiam como abelhas. Por fim, entrou. Krioni e Triskal fizeram o possvel para parecer humildes e inofensivos ao seguirem-no.
A Caverna era um nome apropriado: a eletricidade consumida para acionar as fileiras e mais fileiras de jogos eletrnicos luminosos e ruidosos era compensada pela
total ausncia de qualquer outra luz, exceto um pequenino globo azul aqui e ali no teto preto, pelos quais serpeava de vez em quando um fiozinho de luz. Havia mais
som do que iluminao; pesada msica "rock" de metaleiros tonitruava de alto falantes em toda a volta do aposento e chocava-se dolorosamente com as mirades de sons
eletrnicos que rolavam das mquinas. Um nico proprietrio assentado atrs da pequena mquina registradora, lia uma revista pornogrfica quando no estava trocando
moedas para os jogadores. Hank nunca vira tanta moeda num nico lugar. Ali estavam garotos de todas as idades, com poucos outros lugares onde ir, reunindo-se depois
das aulas e durante todo o fim-de-semana para passar o tempo, agentar-se, jogar, arranjar um par, sair por a, entrar nas drogas, fazer sexo, fazer fosse l o que
fosse. Hank sabia que aquele lugar era um pedao do inferno; no por causa das mquinas, nem da decorao, nem da escurido -- era o pungente mau cheiro espiritual
de demnios no auge da atividade. Sentiu-se mal do estmago. Krioni e Triskal podiam ver centenas de olhos amarelos estreitados fitando-os dos cantos e esconderijos
escuros do aposento. J haviam ouvido diversos sons metlicos de espadas sendo puxadas e colocadas de prontido. -- Pareo suficientemente perguntou Triskal baixinho.
inofensivo? --

-- Eles j no acham que seja inofensivo -- disse Krioni secamente. Os dois olharam em redor a todos os olhos que os vigiavam. Sorriram de forma apaziguadora, erguendo
as mos vazias para mostrar que no tinham intenes hostis. Os demnios no replicaram, mas podiam-se ver diversas lminas brilhando no escuro. -- E ento, onde
est Sete? -- perguntou Triskal. -- A caminho, garanto. Triskal ficou tenso. Krioni seguiu-lhe o olhar e viu um demnio carrancudo que se aproximava. A mo do demnio
estava na espada; no a havia puxado, mas havia muitas outras espadas desembainhadas atrs dele. O esprito negro olhou os dois anjos da cabea aos ps e sibilou:
-- No so bem-vindos aqui! Que vieram fazer? Krioni respondeu rpida e educadamente: -- Estamos guardando o homem de Deus. O demnio deu uma olhada a Hank e perdeu
grande parte da arrogncia. -- Busche! -- exclamou nervoso enquanto os que estavam atrs dele se afastaram. -- O que ele est fazendo aqui? -- Esse no  assunto
que desejamos discutir -- disse Triskal. O demnio apenas sorriu zombeteiro. -- Voc  Triskal? -- Sou. O demnio riu, tossindo baforadas vermelhas e amarelas. --
Voc gosta de brigar, no gosta? -- Diversos demnios riram com ele.

Triskal no tinha a mnima inteno de responder. O demnio no teve tempo de exigir resposta. Subitamente, todos os espritos zombeteiros ficaram tensos e agitados.
Seus olhos dispararam por todos os lados, e a seguir, como um bando de pssaros tmidos, eles se afastaram e se amontoaram nos cantos escuros. Ao mesmo tempo, Krioni
e Triskal sentiram nova fora percorrendo-os. Eles olharam para Hank. Ele estava orando. "Querido Senhor", dizia ele silenciosamente "ajude-nos a alcanar esses
garotos; ajude-nos a tocar as suas vidas." Hank estava orando na hora certa, considerandose o tumulto que acabava de entrar pela porta dos fundos. Enquanto os demnios
se afastavam sorrateiramente da entrada, trs de seus camaradas entraram no prdio gritando, sibilando e babando, os braos e as asas a cobrir-lhe a cabea. Estavam
sendo perseguidos e espicaados por altssimo e inabalvel guerreiro angelical. -- Bem -- disse Triskal -- Sete nos trouxe Ron Forsythe e mais reforos. -- Era disso
que eu estava com medo -- disse Krioni. Triskal estava-se referindo a um jovem que mal podia ser visto em baixo de trs demnios, a confusa e desorientada vtima
de sua influncia destrutiva. Eles se agarravam ao rapaz como sanguessugas, fazendo-o cambalear de um lado para outro lutando para evitar o aguilho da ponta da
espada do grande guerreiro. Contudo, Sete os mantinha sob firme controle, e tocouos bem na direo de Hank Busche. -- Ei, Ron -- disseram alguns sujeitos diante
do jogo de bombardeiros.

-- Ei... -- foi tudo o que Ron respondeu, acenando-lhes lenta e pesadamente com a mo. No parecia muito contente. Hank ouviu o nome e viu Ron Forsythe vindo, e
por um instante no sabia se ficava onde estava ou se salvava a pele. Ron era um jovem alto, magricela, com longo cabelo descuidado, camiseta e calas de brim sujas,
e olhos que pareciam estar vendo outro universo. Ele cambaleou na direo de Hank, olhando por sobre o ombro como se um bando de pssaros o estivesse perseguindo
e depois para a frente como se estivesse a um passo do abismo. Hank, vendo-o aproximar-se, resolveu ficar exatamente onde estava. Se o Senhor queria que os dois
se encontrassem, bem, era o que estava prestes a acontecer. Nesse momento Ron se deteve bruscamente e recostou-se contra um jogo de corrida de automveis. Esse homem
 sua frente parecia vagamente familiar. Os demnios agarrados a Ron tremiam e choramingavam, lanando olhares na direo de Sete que estava atrs deles, e de Krioni
e Trskal, diante deles. Quanto aos outros demnios presentes, estavam loucos por uma briga. Seus olhos amarelos percorriam o ambiente e as lminas vermelhas retiniam,
mas alguma coisa os detinha: -- aquele homem de orao. -- Oi -- disse Hank ao rapazinho. -- Sou Hank Busche. Os olhos vidrados de Ron se arregalaram. Ele fitou
Hank e disse num resmungo quase ininteligvel: -- J o vi por a. Voc  o pregador em quem meus pais tanto falam. Hank tinha quase certeza de quem era o rapaz.
-- Ron? Ron Forsythe? Ron olhou em redor e se remexeu como se tivesse

sido apanhado fazendo algo ilegal. -- Sim... Hank estendeu a mo. -- Ora, Deus o abenoe, Ron, que prazer em conhec-lo. Os trs demnios rosnaram ao ouvirem aquilo,
mas os trs guerreiros inclinaram-se apenas um pouco para a frente e os mantiveram sob controle. -- Feitiaria -- disse Triskal, identificando um dos demnios. Feitiaria
agarrou-se a Ron com garras pontiagudas como agulhas e sibilou: -- E o que tem a ver conosco? -- O rapaz -- disse Krioni. -- No pode nos dizer o que fazer! -- cacarejou
outro demnio, os punhos teimosamente fechados. -- Rebeldia? -- perguntou Krioni. O demnio no negou. -- Ele nos pertence. Os espritos no aposento estavam cada
vez mais corajosos, aproximando-se cada vez mais. -- Vamos tir-lo daqui -- disse Krioni. Hank tocou Ron no ombro e disse: -- Por que no samos ali fora a fim de
conversar um minuto? Feitiaria e Rebeldia perguntaram juntos: -- Para qu? Ron protestou: -- Para qu? Hank simplesmente guiou-o com brandura: -- Vamos -- e eles
saram pela porta dos fundos. Triskal permaneceu  porta, a mo na espada. Apenas os demnios agarrados a Ron tiveram permisso de sair,

constantemente encurralados por Sete e Krioni. Ron afundou-se em cmara lenta num banco prximo como uma boneca de pano. Hank colocou a mo no ombro de Ron e permaneceu
olhando dentro daqueles olhos baos, sem saber onde comear. -- Como est-se sentindo? -- perguntou, afinal. O terceiro demnio envolveu a cabea de Ron em seus
braos grossos e viscosos. A cabea do rapaz caiu sobre o peito e ele quase adormeceu, alheio s palavras de Hank. A ponta da espada de Sete recebeu a ateno do
demnio. -- O qu? -- guinchou. -- Bruxaria? O esprito riu como que embriagado. -- O tempo todo, mais e mais. Ele jamais desistir! Ron ps-se a rir, sentindo-se
drogado e bobo. Mas Hank podia detectar algo em seu esprito, a mesma presena horrvel que sentira naquela noite to assustadora. Espritos malignos? Em um rapaz
to jovem? Senhor, o que posso fazer? O que posso dizer? O Senhor respondeu, e Hank sabia o que tinha de fazer. -- Ron -- disse ele, quer Ron o ouvisse, quer no
-- posso orar por voc? Apenas os olhos de Ron se voltaram a fim de olhar para Hank, e Ron chegou a suplicar: -- Sim. Ore por mim, pregador. Mas os demnios no
queriam saber daquilo. Todos eles bradaram ao crebro de Ron a uma voz: -- No, no, no! Voc no precisa disso!

Ron despertou de repente, a cabea balanou de um lado para outro, e ele resmungou: -- No, no... no ore... no gosto disso. A essa altura Hank j no sabia o
que Ron realmente queria. Ou era mesmo Ron que estava falando? -- Eu gostaria de orar por voc, est bem? -- perguntou Hank, s para ter certeza. -- No, no ore
-- disse Ron, e depois suplicou: -- Por favor, ore, vamos... -- Ore -- soprou Krioni. -- Ore! -- No! -- bradaram os demnios. -- No pode obrigar-nos a deix-lo!
-- Ore -- disse Krioni. Hank achou melhor assumir o comando da situao e orar por aquele rapaz. Ele j havia colocado a mo sobre Ron, e assim comeou a orar com
muita brandura. -- Senhor Jesus, oro por Ron; por favor, toque-o, Senhor, e chegue  sua mente, e liberte-o desses espritos que esto agarrados a ele. Os espritos
agarraram-se a Ron como crianas malcriadas e choramingaram diante da orao de Hank. Ron gemeu e sacudiu um pouco mais a cabea. Ele tentou erguer-se, em seguida
sentou-se outra vez e segurou o brao de Hank. nome. O Senhor falou novamente a Hank, e deu-lhe um -- Bruxaria, deixe-o em nome de Jesus. Ron remexeu-se no banco
e gritou como se tivesse levado uma facada. Hank pensou que Ron lhe arrancaria o brao de tanto apertar.

Mas Bruxaria obedeceu. Ele ganiu e berrou e cuspiu, mas obedeceu, esvoaando at as rvores prximas. Ron deu um suspiro angustiado e olhou para Hank com olhos cheios
de dor e desespero. -- Vamos, vamos, voc est conseguindo! Hank estava estupefato. Ele segurou a mo de Ron s para dar-lhe segurana e continuou a olhar nos seus
olhos. Estavam mais claros agora. Hank podia ver uma alma sincera, splice devolvendo-lhe o olhar.E agora? perguntou ele ao Senhor. O Senhor respondeu, e Hank soube
outro nome. -- Feitiaria... Ron olhou diretamente para Hank, os olhos selvagens e a voz rouca. -- No, eu no, nunca! Mas Hank no se deteve; olhou bem nos olhos
de Ron e disse: -- Feitiaria, em nome de Jesus, largue-o. -- No! -- protestou, mas ento Ron disse com a mesma presteza: -- V, Feitiaria, saia! No o quero mais
comigo! Feitiaria obedeceu relutante. Graas quele homem de orao, oprimir Ron Forsythe j no era divertido. Ron descontraiu-se novamente, fungando para deter
as lgrimas. Sete cutucou o ltimo demoniozinho. -- E voc, Rebeldia? Rebeldia estava achando difcil resolver o que fazer. Ron o sentia. -- Esprito, por favor,
v embora. J no quero saber de voc! Hank orou a mesma coisa.

-- Esprito, v. Em nome de Jesus, deixe Ron em paz. Rebeldia considerou as palavras de Ron, olhou para a espada de Sete, olhou para o homem de orao, e finalmente
soltou-se. Ron contorceu-se como se estivesse sofrendo de terrvel clica, e ento disse: -- Sim, sim, ele saiu. Sete tocou para longe os trs demnios, e eles esvoaaram
de volta  Caverna onde seriam bem-vindos e ningum os incomodaria. Hank continuou a segurar a mo de Ron e esperou, vigiando e orando at saber o que mais fazer.
Era tudo to incrvel, to fascinante, to apavorante, mas to necessrio. Essa devia ser a Lio Nmero Dois em Combate Espiritual que o Senhor lhe ensinava; Hank
sabia que estava aprendendo algo de que precisaria para vencer essa batalha. Ron estava-se transformando diante dos olhos de Hank, descontraindo-se, respirando com
mais calma, os olhos voltando ao normal,  realidade. Hank finalmente disse um "Amm" bem baixinho e perguntou: -- Voc est bem, Ron? O rapaz respondeu prontamente:
-- Sim, sinto-me melhor. Obrigado --. Ele olhou para Hank e sorriu um sorriso fraco, quase um pedido de desculpas. -- Engraado. No,  legal. Justo hoje eu estava
pensando que precisava de algum que orasse por mim. Simplesmente no podia continuar em todo esse negcio com que estive metido. Hank sabia o que havia acontecido.
-- Foi o Senhor, acho, que arranjou tudo. -- Ningum jamais orou por mim.

-- Sei que seus pais oram o tempo todo. -- Bem, , eles oram. -- Todos os outros na igreja tambm. Estamos todos torcendo por voc. Ron deu o primeiro olhar transparente
a Hank. -- Ento, voc  o pastor dos meus pais, hein? Achei que seria mais velho. -- No muito mais velho -- brincou Hank. -- As outras pessoas da sua igreja so
como voc? Hank riu-se. -- Somos todos apenas gente; temos as nossas qualidades e os nossos defeitos, mas todos temos a Jesus, e ele nos d um amor especial uns
para com os outros. Conversaram. Falaram da escola, da cidade, dos pais de Ron, de drogas em geral e em particular, da igreja de Hank, dos cristos que havia por
ali, e de Jesus. Ron comeou a perceber que, fosse qual fosse o assunto ou o problema, Hank tinha uma maneira de incluir Jesus na conversa. Ron no se importou.
No era um daqueles falsos papos de vendedor; Hank Busche realmente acreditava que Jesus Cristo era a resposta para tudo. Assim, depois de falar de tudo, com Jesus
sempre includo na conversa, Ron deixou que Hank falasse acerca de Jesus, s de Jesus. No era cacete. Hank realmente mostrava entusiasmo com relao a Jesus.

16
Nat e Armote voavam a grande altura sobre a linda paisagem de vero, seguindo o veloz automvel. As

coisas estavam definitivamente mais quietas ali, longe da cidade dividida por contendas que era Ashton. Mesmo assim, nenhum dos dois se sentia perfeitamente  vontade
com relao aos dois passageiros do carro que seguiam; embora os acompanhantes celestiais ainda no estivessem certos, tinham a impresso de que Rafar e seus guerrilheiros
poderiam estar realizando uma conspirao velada. Marshall e sua atraente e jovem reprter formavam uma combinao crtica demais para aqueles demnios deixarem
de lado. O antigo deo da faculdade, Eldon Strachan, morava num stio simples e despretensioso de pouco mais de quatro hectares a uma hora de distncia de Ashton.
Ele no cultivava o lugar, apenas o usava, e quando o carro atingiu a longa entrada de pedriscos, Marshall e Berenice viram que seus interesses no se estendiam
alm das imediaes da casa branca. O gramado era pequeno e cuidado, as rvores frutferas, podadas, produziam, a terra dos canteiros de flores havia sido recentemente
revirada e os canteiros desmatados. Algumas galinhas ciscavam o cho. Um collie saudou os recm-chegados com latidos furiosos. -- Um ser humano normal para entrevistar
desta vez -- disse Marshall. --  por isso que ele se mudou de Ashton -- disse Berenice. Strachan saiu  varanda, o co correndo e latindo ao seu lado. -- Al! --
gritou ele para Marshall e Berenice quando eles desceram do carro. -- Quieta, Lady -- acrescentou ele, dirigindo-se  collie. Lady jamais obedecia essas ordens.
Strachan era um sujeito saudvel, de cabelos brancos, que conseguia bastante exerccio desse lugar, e o demonstrava. Trajava roupas de trabalho e ainda trazia na
mo um par de luvas de jardinagem.

Marshall estendeu a mo para um bom e firme aperto. Berenice fez o mesmo. Trocaram apresentaes, e a seguir Strachan convidou-os a darem a volta em torno de Lady,
que ainda latia, e entrarem na casa. -- Doris -- chamou Strachan -- o Sr. Hogan e a Srta. Krueger esto aqui. Dentro de minutos, Doris, uma doce, rechonchuda e pequena
senhora com aparncia de av, havia enchido a mesinha de centro com ch, caf, pezinhos e doces, e eles discorriam agradavelmente sobre o stio, a regio, o tempo,
a vaca do vizinho. Todos estavam cientes de que essa parte era obrigatria e, alm disso, os Strachans eram pessoas muito agradveis e de boa prosa. Afinal Eldon
Strachan introduziu a sentena de transio: -- Sim, suponho que as coisas em Ashton no estejam to boas quanto aqui. Berenice tirou o bloco de anotaes, enquanto
Marshall dizia: -- , e detesto trazer tudo aquilo para c conosco. Strachan sorriu e disse, filosoficamente: -- A gente pode fugir mas no pode se esconder. Ele
olhou pela janela as rvores recortadas contra o cu azul infinito e disse: -- Sempre indaguei se fiz a coisa certa ao abandonar tudo. Mas o que mais eu podia fazer?
Marshall conferiu novamente as suas anotaes. -- Vejamos. Voc me disse no telefone quando partiu... -- No fim de junho, h quase um ano. -- E Ralph Kuklinski tomou
o seu lugar.

-- E pelo que sei, ainda est. -- Sim, ainda est. Ele participava de alguma forma desse... desse negcio do "Crculo ntimo"? No sei que outro nome dar. Strachan
pensou por um momento. -- No tenho certeza, mas no me surpreenderia se participasse. Era preciso que ele fizesse parte do grupo para receber o cargo de deo. --
Ento realmente existe um tipo de "panelinha", por assim dizer? -- Com toda a certeza. Esse fato tornou-se bvio depois de algum tempo. Todos os diretores estavam-se
tornando muito parecidos, como clones uns dos outros. Todos agiam da mesma forma, falavam da mesma forma... -- Exceto voc? Strachan riu. -- Acho que no me adaptei
muito bem ao clube. Para falar a verdade, tornei-me definitivamente um intruso, inimigo mesmo, e acho que foi por isso que me demitiram. -- Suponho que esteja falando
da confuso relacionada s finanas da faculdade? -- Exatamente --. Strachan precisou revirar a memria. -- Jamais suspeitei de coisa alguma at comearem a surgir
inexplicveis atrasos nos pagamentos. Nossas contas estavam demorando a ser pagas, nossas folhas de pagamentos estavam atrasadas. No era minha obrigao sair atrs
desse tipo de coisa, mas quando comecei a receber reclamaes indiretas, sabe como , outros falando a respeito, perguntei a Baylor qual era o problema. Ele no
respondeu diretamente s minhas perguntas, ou pelo menos no gostei do tom das suas respostas. Foi nesse ponto que pedi que um contador independente, amigo meu,
desse

uma olhada na coisa e talvez fizesse um exame rpido da contabilidade. No sei como ele conseguiu acesso  informao, mas era esperto e deu um jeito. Berenice tinha
uma pergunta na ponta da lngua. -- Pode nos dar o nome dele? Strachan deu de ombros. -- Johnson. Ernie Johnson. -- Como podemos entrar em contato com ele? -- Sinto
muito, mas ele morreu. Essa notcia causou profundo desapontamento. Marshall, porm, agarrou-se a um fio de esperana. -- Ele lhe deixou algum registro, alguma coisa
por escrito? Strachan apenas meneou a cabea. -- Se deixou, esses papis se perderam. Por que acha que fiquei sentado aqui to quieto? Escute, conheo bem a Norm
Mattily, o procurador geral do estado, e pensei em procur-lo e contar-lhe o que estava acontecendo. Mas, temos de convir, essa gente importante l de cima no nos
d a mnima ateno a no ser que tenhamos alguma prova realmente substancial.  difcil conseguir que as autoridades se arrisquem. Isso  algo que no fazem. --
Est bem... mas afinal o que Ernie Johnson descobriu? -- Ele ficou horrorizado. De acordo com o seu levantamento, dinheiro de doaes e matrculas estava sendo reinvestido
com alarmante velocidade, mas aparentemente no havia dividendos ou rendimento de espcie alguma provindos de fossem l quais fossem os investimentos, como se o
dinheiro tivesse sido despejado num poo sem fundo em algum canto. Os nmeros tinham sido manipulados de modo que cobrissem o rombo, as contas a pagar estavam sendo
escalonadas a

fim de se poder recorrer a outras contas a fim de pagar as vencidas... nada mais era do que uma baguna colossal. -- Uma baguna na casa dos milhes? -- No mnimo.
O dinheiro da faculdade vinha sumindo em grandes quantias, sem deixar pista, havia anos. Em algum lugar l fora havia um monstro esfomeado por dinheiro devorando
todo o ativo da faculdade. -- Foi ento que voc pediu a auditoria. -- E Eugene Baylor ficou furioso. A coisa toda num instante passou de profissional a pessoal
e tornamo-nos intensos inimigos. E isso me convenceu mais ainda de que a faculdade estava em grandes apuros e que grande parte da responsabilidade da situao era
de Baylor. Mas  claro que no h nada que Baylor faa que todos os outros no saibam. Estou certo de que todos esto cientes do problema, e sinto que seu voto unnime
pedindo a minha demisso foi uma conspirao geral. -- Mas com que finalidade? -- perguntou Berenice. -- Por que desejariam solapar a base financeira da faculdade?
Strachan pde apenas menear a cabea. -- No sei o que esto tentando fazer, mas a menos que haja outra coisa escondida por a que possa explicar aonde esses fundos
esto indo e como essas perdas sero compensadas, a faculdade est, com toda a certeza, a caminho da bancarrota. Kuklinski deve estar ciente disso. Pelo que sei,
ele concordou com as praxes financeiras e com a minha demisso. Marshall virou a pgina  procura de outras anotaes. -- E ento, qual  o papel da nossa bondosa

professora Langstrat nisso tudo? Strachan foi obrigado a rir. -- Ah, a querida mestra... -- Ele considerou a questo por um momento. -- Ela sempre foi uma influncia
e mentora, no resta dvida, mas... no creio que seja o centro ltimo das coisas. Parece-me que ela exercia grande responsabilidade no controle do grupo, enquanto
algum acima dela tinha grande responsabilidade pelo controle dela. Acho... acho que ela tem de prestar contas a algum, alguma autoridade oculta. -- Mas voc no
tem idia de quem seja? Strachan meneou a cabea. -- E o que mais voc sabe a respeito dela? Strachan rebuscou a memria. -- Diplomada pela Universidade da Califrnia...
lecionou em outras faculdades antes de vir para Whitmore. Faz pelo menos seis anos que pertence ao corpo docente. Lembro-me bem de que ela sempre teve forte interesse
pela filosofia oriental e pelo ocultismo. Esteve envolvida certa vez com algum tipo de grupo religioso neo-pago na Califrnia. Mas, sabe, nunca percebi at talvez
uns trs anos atrs que ela estava ensinando abertamente as suas crenas aos alunos, e surpreendeu-me bastante descobrir que os seus ensinos haviam despertado muito
interesse. As crenas e as prticas da professora estavam-se espalhando no apenas entre os alunos, mas tambm entre os professores. -- Quais dos professores? --
perguntou Marshall. Strachan meneou a cabea, enojado. -- Comeou anos antes de eu tomar conhecimento do caso, no Departamento de Psicologia, entre os colegas de
Langstrat. Margaret Islander, voc pode ter ouvido falar dela...

-- Creio que minha amiga Ruth Williams a conhece -- disse Berenice. -- Acho que ela foi a primeira a ser iniciada no grupo de Langstrat, mas ela sempre se interessou
por mdiuns como Edgar Cayce, por isso a atrao era lgica. -- Algum mais? -- encorajou Marshall. Strachan tirou uma lista rabiscada s pressas e deixou Marshall
examin-la. -- Repassei tudo o que aconteceu vez aps vez desde que vim embora. Olhe. Aqui est uma lista da maioria dos membros do Departamento de Psicologia...
-- Ele indicou alguns nomes. -- Trevor Corcoran  novo na equipe este ano. Ele estudou na ndia antes de vir lecionar aqui. Juanita Janke substituiu Kevin Ford...
bem, de fato uma poro de gente foi substituda nestes ltimos anos. Marshall observou outra poro da lista. -- E quem so estas pessoas? -- O Departamento de
Cincias Humanas, e depois o Departamento de Filosofia, e estas aqui esto nos programas de Biologia e de Cincias Mdicas. Muitas delas tambm so novas. Fizeram-se
muitas substituies. --  a segunda vez que voc diz isso -- observou Berenice. Strachan fitou-a. -- O que est pensando? Berenice pegou a lista da mo de Marshall
e colocou-a na frente de Strachan. -- Bem, diga-nos voc. Quantas destas pessoas foram contratadas nos ltimos seis anos, no tempo de Langstrat? Strachan deu uma
segunda e mais crtica

repassada na lista. -- Jones... Conrad... Witherspoon... Epps... -- Uma esmagadora porcentagem dos nomes pertenciam a novos membros do corpo docente, que tinham
vindo substituir membros antigos que haviam pedido demisso ou cujos contratos simplesmente no tinham sido renovados. -- Ora, no  estranho? -- Que  esquisito,
isso  -- concordou Berenice. Strachan estava visivelmente abalado. -- Todas aquelas substituies... eu estava ficando muito preocupado, mas no considerei... Isso
explicaria uma poro de coisas. Eu sabia que havia certo interesse comum espalhando-se entre toda essa gente; todos eles pareciam ter uma afinidade nica e indefinvel
entre si, jargo prprio, segredos ntimos prprios, idias prprias acerca da realidade, e parecia que nenhuma dessas pessoas podia fazer nada sem comunicar s
outras. Achei que era um modismo, uma fase sociolgica -- Ele ergueu os olhos da lista, cheios de percepo nova. -- Ento era mais do que isso. Nosso campus foi
invadido e nossos professores deslocados por uma... uma loucura! Por um instante, algo acudiu  mente de Marshall, uma lembrana rpida e passageira de sua filha
Sandy dizendo: "As pessoas por aqui esto comeando a agir de modo esquisito. Acho que estamos sendo invadidos por aliengenas." Essa lembrana foi seguida imediatamente
da voz de Kate no telefone: "Estou preocupada com Sandy... ela simplesmente no  mais a antiga Sandy... " Marshall forou-se a retornar ao presente e comeou a
folhear o seu material. Finalmente encontrou a lista que Berenice havia conseguido com Albert Darr. -- Muito bem, e que me diz dessas aulas que Langstrat estava
dando: "Introduo ao Deus e  Deusa Conscincia e  Arte... A Sagrada Roda Medicinal...

Feitios e Rituais... Caminhos Que Conduzem  Luz ntima, Conhea seus Guias Espirituais"? Strachan acenou reconhecimento. com a cabea, indicando

-- Tudo comeou como parte de um programa alternativo de educao, uma coisa puramente voluntria aos alunos interessados, que para isso pagavam taxa especial de
matrcula. Achei apenas que era um estudo de folclore, mitos, tradies... -- Mas acho que eles estavam levando o negcio muito a srio. -- , parece que sim, e
agora grande porcentagem do pessoal e do corpo estudantil est... enfeitiada. -- Inclusive os diretores? Strachan pensou em outra coisa. -- Veja o que acha disto.
Penso que o mesmo tipo de reviravolta se deu na diretoria tambm. Existe um total de doze cargos de diretores, e acho que cinco foram sbita e abruptamente substitudos
no ltimo ano e meio. Se no, como poderia o voto pedindo minha demisso ser unnime? Eu costumava ter amigos bem leais no conselho. -- Quais so seus nomes e para
onde foram? Berenice comeou a anotar os nomes  medida que Strachan ia-se lembrando, juntamente com qualquer outra informao que ele pudesse dar a respeito de
cada pessoa. Jake Abernathy havia morrido, Morris James havia enfrentado bancarrota e procurado outro emprego, Fred Ainsworth, George Olson e Rita Jacobson haviam
deixado Ashton sem dizer para ningum aonde iam. -- E esses -- disse Strachan -- so os nomes de todos. No sobrou ningum alm dos iniciados nesse estranho grupo
mstico.

-- Inclusive Kuklinski, o novo deo -- acrescentou Berenice. -- E Dwight Brandon, o proprietrio do terreno. -- E que diz de Ted Harmel? -- perguntou Marshall. Strachan
comprimiu os lbios, olhou para o cho, e suspirou. -- Sim. Ele bem que tentou escapulir, mas a essa altura eles j lhe tinham confiado muita informao. Quando
descobriram que no podiam control-lo, ele tem a mim e  nossa amizade para culpar por isso, eles deram um jeito de difam-lo e expuls-lo da cidade com aquele
escndalo ridculo. -- Hum.-- disse Berenice. -- Um conflito de interesses. -- Claro. Ele insistia comigo em que era uma fascinante cincia nova da mente humana,
e dizia apenas procurando uma histria, mas foi-se envolvendo cada vez mais na coisa, e eles o conquistaram, disso estou certo. Ouvi-o dizer que eles lhe prometeram
grande sucesso com o jornal por ter-se colocado ao lado deles... Outra lembrana passageira ocorreu a Marshall: viu Brummel olhando para ele com aqueles entorpecentes
olhos cinzentos, dizendo com doura: "Marshall, gostaramos de saber que est do nosso lado..." Strachan ainda estava falando. Marshall acordou e disse: -- Desculpe,
o que foi que disse? -- Eu estava apenas dizendo que Ted ficou dividido entre duas obrigaes: em primeiro lugar e acima de tudo, ele sentia obrigao para com a
verdade e seus amigos, e isso me inclua. Sua outra obrigao

era para com o grupo de Langstrat e suas filosofias e prticas. Acho que ele pensou que a verdade era inviolvel e que a imprensa sempre seria livre, mas, por qualquer
que fosse o motivo, comeou a publicar histrias acerca dos problemas financeiros. E isso era definitivamente ir longe demais no que dizia respeito aos diretores.
-- Sim -- lembrou-se Berenice. -- Agora me recordo de ele dizer que eles o estavam tentando controlar e ditar o que ele publicava. Ficou realmente furioso. -- Bem,
naturalmente -- disse Strachan -- quando se tratava de princpios, no importa por que suposta cincia ou filosofia metafsica ele possa ter-se interessado, Ted
ainda era jornalista e no se deixava intimidar --. Strachan suspirou e olhou para o cho. -- Por isso, temo que ele tenha sido apanhado no fogo cruzado da minha
briga com os diretores. Conseqentemente, ambos perdemos o emprego, o prestgio na comunidade, tudo. Creio que se poderia dizer que achei bom deixar tudo para trs.
Era impossvel lutar. Marshall no gostava desse tipo de conversa. -- Eles so... essa coisa ... realmente to forte assim? Strachan estava totalmente srio. --
Acho que no percebi como era vasta e forte, e creio que ainda estou descobrindo. Sr. Hogan, no tenho a menor idia de qual seja o objetivo final dessa gente, mas
estou comeando a ver que nada que esteja no seu caminho pode escapar de ser pisoteado e eliminado. Mesmo quando estamos sentados aqui posso olhar para trs nesses
anos, e mesmo sem considerar as substituies na nossa faculdade, apavora-me pensar em quantas outras pessoas em Ashton simplesmente sumiram. Joe, o dono do supermercado,
pensou Marshall. E

que dizer de Edie? Strachan parecia um tanto plido perguntou com bvia preocupao na voz: agora, e

-- E afinal o que vocs pretendem fazer com essa informao? Marshall teve de ser honesto. -- Ainda no sei. Um nmero grande demais de peas est faltando, premissas
demais. No tenho nada que possa publicar. -- Est-se lembrando do que aconteceu com Ted? Marshall no queria pensar no assunto. Queria descobrir outra coisa. --
Ted no quis falar comigo. -- Ele est com medo. -- Medo de qu? -- Deles, do sistema que o destruiu. Ele sabe mais a respeito das suas tramas esquisitas do que
eu; ele sabe o bastante para ter muito mais medo do que eu, e acredito que seu medo seja justificado. Realmente creio que exista perigo genuno nisso. -- Bem, ele
fala com voc alguma vez? -- Claro, fala de tudo menos do que voc est querendo saber. -- Mas vocs dois ainda se vem? -- Sim. Pescamos, caamos, almoamos juntos.
Ele no mora muito longe daqui. -- Poderia ligar para ele? -- Quer dizer, ligar para ele e recomendar voc? --  exatamente isso o que quero dizer. Strachan respondeu
cautelosamente: -- Olhe, ele pode no querer falar, e no posso

for-lo. -- Mas pode ligar e ver se ele fala comigo mais uma vez? -- Eu... pensarei no caso, mas isso  tudo o que lhe prometo. -- Assim mesmo eu ficaria grato.
-- Mas, Sr. Hogan... -- Strachan estendeu a mo e agarrou o brao de Marshall. Olhando para Marshall e para Berenice, disse baixinho: -- Vocs dois se cuidem. No
so invencveis. Nenhum de ns o era, e acredito que seja possvel perder tudo se fizer apenas um movimento errado ou der apenas um passo errado. Por favor, por
favor certifiquem-se a cada momento de saberem exatamente o que esto fazendo. No Clarim, Tom, o colador, estava organizando os anncios, artigos e as gals completas
de sempre na edio de tera-feira quando a campainha que ficava acima da porta da frente tilintou. Ele tinha mais coisa que fazer alm de atender visitas, mas com
Hogan e Berenice fora em misteriosa misso de intriga, era o nico que restava para defender o forte. Como ele gostaria que Edie no os tivesse deixado. O jornal
se tornava um desastre maior a cada dia e, fosse qual fosse a empreitada infrutfera na qual Hogan e Berenice estavam metidos, ela lhes tirava a ateno das muitas
tarefas que se estavam amontoando no escritrio. -- Al? -- chamou uma doce voz de mulher. Tom agarrou um pedao de pano para limpar as mos, e gritou em resposta:
-- Um momento, j vou. Ele se apressou pela estreita passagem que levava

ao escritrio da frente e viu uma jovem muito atraente e bem vestida em p diante do balco. Ao v-lo, ela sorriu. Ah, sim, pensou Tom, se eu ainda fosse jovem.
-- Al -- disse ele, ainda limpando as mos. -- Em que posso servi-la? A jovem disse: -- Li o anncio de secretria e gerente geral do escritrio. Vim me candidatar.
Tinha de ser um anjo, pensou Tom. -- Puxa, se voc gostar de trabalhar, deixe-me dizer-lhe, servio  o que no falta por aqui! -- Bem, estou pronta para comear
-- disse ela com um sorriso radiante. Tom verificou se sua suficiente, e ento a estendeu. mo estava limpa o

-- Tom McBride, colador e preocupador geral. Ela apertou com firmeza a mo dele e disse o nome: -- Carmem. -- Prazer em conhec-la, Carmem. Ah... Carmem do qu?
Ela riu do seu esquecimento e disse: -- Carmem Fraser. Estou to acostumada a usar s o meu primeiro nome. Tom abriu o portozinho que ficava na ponta do balco
e Carmem o seguiu, entrando na rea do escritrio. -- Deixe-me mostrar-lhe o que tem acontecido por aqui -- disse ele.

17
No vale longnquo e retirado, em pequeno conjunto de prdios no identificados escondidos por penhascos rochosos, uma transio apressada estava em plena movimentao.
No complexo de escritrios, sentados em escrivaninhas e mesas de trabalho, apressando-se para cima e para baixo nos corredores, correndo escada acima e escada abaixo,
mais de duzentas pessoas de todas as idades, descries e nacionalidades estavam datilografando cartas, examinando arquivos, verificando registros, calculando o
saldo de contas, papagueando no telefone em lnguas diferentes. O pessoal da manuteno em macaces azuis trazia grandes pilhas de caixas e engradados em carrinhos
de mo, e o pessoal dos escritrios comeava a encher meticulosamente as caixas com os contedos dos arquivos, com qualquer apetrecho de escritrio no necessrio
no momento, com outros livros e registros. No lado de fora, caminhes estavam sendo carregados com os engradados enquanto outros empregados da manuteno dirigindo
pequenos tratores de transporte percorriam todo o complexo, fechando vrias tomadas e sadas de energia, e pregando tbuas nas portas e janelas de qualquer prdio
j desocupado. Perto dali, na varanda de um casaro de pedra nos limites da propriedade, uma mulher, em p, observava. Era alta e esguia, com longos cabelos cor-debano;
trajava roupas pretas, soltas, e agarrava a bolsa a tiracolo apertada contra o lado com mos plidas, trmulas. Ela olhou de um lado e de outro, evidentemente tentando
descontrair-se. Inspirou profundamente algumas vezes. Enfiou a mo na bolsa e tirou um par de culos escuros com os quais cobriu os

olhos. A seguir, desceu da varanda e comeou a cruzar a praa em direo ao prdio de escritrios. Seus passos eram firmes e deliberados, os olhos fitos bem  frente.
Algumas pessoas do escritrio passaram e a saudaram, pressionando as palmas uma contra a outra na frente dos queixos e curvando-se levemente. Ela respondeu com um
aceno de cabea e continuou a andar. A equipe do escritrio a saudou da mesma maneira quando ela entrou e ela sorriu s pessoas, sem dizer palavra. Ao receber o
sorriso dela, elas retornaram  sua febril atividade. A gerente do escritrio, uma mulher bem vestida com o cabelo firmemente preso, fez uma pequena mesura e disse:
-- Bom dia. O que a Serva requer? A Serva sorriu e disse: -- Gostaria de fazer algumas cpias. -- Posso faz-las imediatamente. -- Obrigada. Gostaria de faz-las
eu mesma. -- Certamente. Aquecerei a mquina para a senhora. A mulher apressou-se na direo de uma saleta lateral, e a Serva seguiu. Diversos contadores e arquivistas,
alguns orientais, alguns indianos orientais, alguns europeus, curvaram-se quando ela passou e depois voltaram s consultas que trocavam. A gerente do escritrio
aprontou a copiadora em menos de um minuto. -- Obrigada, pode ir agora -- disse a Serva. -- Certamente -- respondeu a mulher. -- Estou  sua disposio se tiver
algum problema ou pergunta. -- Obrigada.

A gerente saiu e a Serva fechou a porta atrs dela, isolando-se do resto do escritrio e de qualquer intruso. A seguir, enfiou a mo na bolsa e retirou um livrinho.
Ela o folheou, passando os olhos pelas pginas escritas  mo at achar o que estava procurando. Ento, colocando o livro aberto voltado para a copiadora, ela ps-se
a apertar os botes e copiar pgina aps pgina. Quarenta pginas mais tarde ela desligou a mquina, dobrou as cpias com capricho e as colocou num compartimento
da bolsa, junto com o livrinho. Deixando o escritrio diretamente, ela voltou ao casaro de pedra. A casa era majestosa, tanto no tamanho quanto na decorao, com
uma grande lareira e teto elevado cortado por vigas rsticas. A Serva subiu depressa a escada coberta de espesso carpete que levava ao seu quarto e fechou a porta
atrs de si. Colocando o livrinho na imponente penteadeira antiga, ela abriu uma gaveta e tirou papel de embrulho e barbante. O papel j trazia um nome escrito,
do destinatrio: Alexander M. Kaseph. O endereo do remetente inclua o nome J. Langstrat. Ela embrulhou depressa o livro outra vez, como se o pacote nunca tivesse
sido aberto, e em seguida amarrou-o com barbante. Em outra parte da casa, num escritrio muito amplo, um homem de meia-idade, de porte arredondado, trajando calas
soltas e tnica, sentava-se  moda indiana sobre uma grande almofada. Seus olhos achavam-se fechados, e ele respirava profundamente. O belo mobilirio de pessoa
de grande prestgio e poder o cercavam: lembranas do mundo todo, tais com espadas, clavas de guerra, artefatos africanos, relquias religiosas, e diversos dolos
do Oriente, um tanto grotescos; uma belonave de escrivaninha com um consolo de computador embutido, telefone de muitas

linhas, e um interfone; um longo sof coberto de almofadas fundas, um conjunto de cadeiras e mesinha de centro de carvalho, torneadas  mo; trofus de caa de urso,
alce, alce americano e leo. Sem ouvir ningum bater, o homem falou suavemente: -- Entre, Susan. A grande porta de carvalho abriu-se silenciosamente e a Serva entrou,
carregando o pacote de papel pardo. Sem abrir os olhos, o homem disse: -- Ponha-o sobre a escrivaninha. A Serva o fez, e o homem comeou a se mexer, saindo de sua
posio imvel, abrindo os olhos e estirando os braos como se estivesse acordando de um sono. -- Ento finalmente o encontrou -- disse ele com um sorriso provocante.
-- Estava l o tempo todo. Como todo o empacotamento e nova arrumao ele foi atirado num canto. O homem levantou-se da almofada, esticando as pernas, e deu algumas
voltas pelo escritrio. -- Realmente no sei o que  -- disse, como que respondendo a uma pergunta. -- Eu no estava querendo saber... -- disse a Serva. Ele sorriu
condescendente e disse: -- Oh, talvez no, mas parecia que voc estava. s vezes, posso l-la to bem, e s vezes voc se distancia. Tem-se sentido perturbada ultimamente.
Por qu? -- Oh, toda essa mudana, acho, a desordem. Ele lhe envolveu a cintura com os braos e a apertou contra si enquanto dizia: -- No deixe que isso a perturbe.
Estamos indo para um lugar muito melhor. J escolhi a casa. Voc vai

ador-la. -- Eu fui criada naquela cidade, sabe? -- No. No, na realidade, no. No ser a mesma cidade de forma alguma, no a cidade da qual se lembra. Ser melhor.
Mas voc no acredita nisso, acredita? -- Como j disse, fui criada em Ashton -- -- E tudo o que queria era sair de l! -- Por isso, voc compreende porque meus
sentimentos esto confusos. Ele a fez rodopiar e riu alegremente enquanto olhava nos olhos dela. -- Sim, eu sei! Por um lado, voc no tem o mnimo desejo de ver
a cidade, e por outro lado, sai s escondidas para ir ao festival. Ela corou um pouquinho e olhou para o cho. -- Eu estava procurando algo do meu passado, algo
de onde pudesse vislumbrar meu futuro. Ele segurou-lhe a mo e disse: -- O passado no existe. Voc devia ter ficado comigo. Eu tenho todas as respostas para voc
agora. -- Sim, posso ver isso. Antes, no podia. Ele riu e postou-se atrs da escrivaninha. -- Bem, timo, timo. No precisamos fazer nenhuma outra reunio em esconderijos
atrs de um barulhento parque de diverses. Voc devia ter visto como nossos amigos ficaram envergonhados por ter de nos encontrar l. -- Mas afinal por que voc
precisou ir atrs de mim? Por que teve de arrast-los l? Ele sentou-se  escrivaninha e ps-se a manipular uma faca cerimonial de mau aspecto, com cabo dourado
e lmina afiadssima. Olhando por cima do gume da lmina na direo

da moa, ele lhe disse: -- Porque, cara Serva, no confio em voc. Amo-a, estou unido a voc em essncia, mas... -- Ele ergueu a faca ao nvel dos olhos e espiou
ao longo do gume da lmina em sua direo, os olhos to cortantes quanto a faca. -- No confio em voc.  uma mulher dada a muitas paixes conflitantes. -- No posso
prejudicar o Plano. Sou apenas uma pessoa entre milhares. Ele ergueu-se e deu a volta ao lado da escrivaninha onde outras facas estavam enfiadas na cabea esculpida
de algum dolo pago. -- Voc, minha cara Susan, partilha a minha vida, os meus segredos, os meus propsitos. Tenho de proteger os meus interesses. Com isso, ele
deixou cair a faca, de ponta, e ela penetrou com um baque na cabea do dolo. Ela sorriu em aquiescncia e achegou-se a ele, dando-lhe um beijo sedutor. -- Sou,
e sempre serei, sua -- disse ela. Ele lhe deu um sorriso irnico e o olhar cortante nunca deixou seus olhos enquanto respondia: -- Sim. Claro que . Muito acima
do vale, entre as rochas e fendas dos picos das montanhas, dois vultos se escondiam. Um, o homem de cabelos prateados que j havia estado l, observava continuamente
a atividade no vale. Era imponente e forte, os olhos penetrantes cheios de sabedoria. O outro era Tal, o Capito do Exrcito. --  isso o que voc procura -- disse
o homem de cabelos prateados. -- Rafar tratou de negcios a h questo de dias.

Tal baixou o olhar e perscrutou o vale. Os enxames de demnios negros eram numerosos demais para se chegar a uma estimativa. -- O Homem Forte? -- perguntou ele.
-- Sem dvida, com uma nuvem de guardas e guerreiros em toda a sua volta. Ainda no conseguimos penetr-la. -- E a moa est bem no meio dela! -- O Esprito tem
estado constantemente a abrirlhe os olhos e a cham-la. Ela est prxima ao Homem Forte -- perigosamente prxima. As oraes do Remanescente fizeram descer uma cegueira
e um estupor sobre as hostes demonacas ao redor dela. Por enquanto, essa cegueira ganhar tempo para voc, mas pouco mais que isso. Tal fez uma careta. -- Meu general,
precisaremos de mais que estupor para chegar at ela. Mal podemos defender a cidade de Ashton, quanto mais enfrentar o Homem Forte diretamente. -- E pode esperar
que esse reforo somente piore. Seus nmeros aumentam dez vezes a cada dia. -- Sim, eles esto se preparando, isso  certo. -- Mas, ao mesmo tempo, os conflitos
da moa continuam a crescer. Breve ela no ser capaz de esconder seus verdadeiros sentimentos e intenes do seu senhor l em baixo. Tal, ela ficou sabendo a respeito
do suicdio. Tal olhou diretamente para o general. -- Pelo que me consta, ela e Patrcia eram muito chegadas. O general assentiu com a cabea. -- Ela ficou chocada,
o que a tornou mais receptiva. Mas seu tempo de segurana  limitado. Aqui est o nosso prximo passo. A Sociedade da Percepo Universal est

oferecendo em Nova Iorque aos seus muitos capangas e membros das Naes Unidas um jantar com finalidade promocional e para angariar fundos. Kaseph no pode comparecer
por causa de suas presentes atividades aqui. Entretanto, ele enviar Susan a fim de representlo. Ela estar bem guardada, mas ser essa a nica hora em que estar
fora da cobertura demonaca do Homem Forte. O Esprito sabe que ela planeja escapar e entrar em contato com um ltimo amigo que tem no lado de fora, que pode, por
sua vez, entrar em contato com o seu jornalista. Ela se arriscar, Tal. Voc precisa fazer com que seja bem sucedida. A primeira reao de Tal foi: -- H cobertura
de orao em Nova Iorque? -- Voc a ter. Tal olhou os enxames l em baixo.--E eles no devem descobrir... -- No. Eles no devem suspeitar de que alguma coisa tenha
acontecido at que voc consiga tirar Susan de vez. Eles a destruiriam se soubessem. -- E quem  o amigo dela? -- Seu nome  Kevin Weed, um antigo colega e namorado.
-- Ao trabalho, ento. Tenho de arrebanhar mais algumas oraes. -- V com Deus, caro capito! Tal subiu atrs de umas grandes pedras para manter-se fora de vista
antes de abrir as asas. Depois, com o silncio e a graa de uma nuvem levada pelo vento, ele flutuou acima da crista das montanhas. Depois que ultrapassou os cumes
e j no podia ser visto por nenhum dos enxames no vale, suas asas se

engrenaram em marcha veloz e ele arremeteu para diante como uma bala, deixando atrs de si brilhante arco de luz pelo cu e acima do horizonte. Marshall e Berenice
atravessavam os arvoredos da zona rural no carro marrom, falando de si, seus passados, suas famlias, e qualquer outra coisa que lhes viesse  mente. J estavam
cansados de s falar de negcios de qualquer forma, e achando agradvel aproveitar a companhia um do outro. -- Eu fui criado na igreja presbiteriana -- disse Marshall.
-- Agora no sei o que sou. -- Meus pais eram episcopais--disse Berenice.-- Acho que nunca fui nada. Eles me arrastavam  igreja todos os domingos, e eu mal podia
esperar para sair dela. -- Eu no achava to ruim assim. Tive uma boa professora de escola dominical. -- , talvez seja nisso que eu tenha errado. Nunca fui  escola
dominical. -- Ora, acho que a meninada precisa conhecer alguma coisa a respeito de Deus. -- E se Deus no existir? -- Viu o que estou dizendo? Voc nunca foi  escola
dominical! O carro chegou a uma encruzilhada, e um letreiro indicava que o caminho de volta a Ashton era o da esquerda. Marshal virou  esquerda. Berenice respondeu
a uma das perguntas de Hogan. -- No, nenhum de meus pais ainda vive. Papai morreu em 76 e Mame morreu... deixe-me ver, h dois anos. -- Que pena.

-- E depois perdi minha nica irm, Patrcia. -- No diga! Puxa, sinto muito. -- s vezes, o mundo a fora  bem solitrio... --  acho que sim... e quem haveria
para voc ficar conhecendo em Ashton? Ela apenas olhou-o e disse: -- No estou caando, Marshall. A quase dois quilmetros  frente deles encontrava-se um alargamento
da estrada que chamavam de Baker, um vilarejo indicado pelo menor ponto possvel no mapa. Era um desses lugares tpicos de beira de estrada onde camioneiros e caadores
em caminhonetes encontravam caf preto e ovos frios. Uma piscadela e j passou. Acima do carro, movendo-se agilmente logo acima das copas das rvores, Nat e Armoth
mantinham cuidadosa vigia sobre o veculo, as asas batendo em ritmo equilibrado e os corpos deixando atrs de si dois rastros luminosos pontilhados de diamantes.
-- Ento  aqui que tudo comea -- disse Nat em tom jocoso. -- E voc foi escolhido para dar o golpe -- respondeu Armoth. Nat sorriu. -- Brincadeira de criana.
Armoth provocou-o um tantinho. -- Estou certo de que Tal poderia ter escolhido outra pessoa que desejasse a honra -- Nat desembainhou a espada, que rebrilhou como
se fosse um relmpago. -- Oh, no, caro Armoth. Esperei muito tempo. Eu aceito. Nat fez uma curva afastando-se de Armoth, baixou  estrada que serpeava entre altas
rvores, e ps-se a acompanhar a velocidade do carro, voando

preguiosamente uns dez metros acima dele. Ele mantinha-se de olho na cidadezinha de Baker que se aproximava, fez um clculo rpido quanto  distncia que o carro
deslizaria sem o impulso do motor, e ento, no momento exato, atirou a espada para baixo como uma lana chamejante. A arma percorreu trajetria perfeita e atravessou
o cap do carro. O motor morreu. -- Droga! -- disse rapidamente o ponto morto. -- Alguma coisa quebrou. Marshall tentou dar partida outra vez enquanto o carro continuava
a deslizar. Nada. -- Provavelmente eltrico... -- resmungou ele. --  melhor encostar naquele posto. -- , eu sei, eu sei. O carro foi rodando at o pequenino posto
em Baker e parou bem  porta da frente. Marshall abriu o cap. -- Voc vai me dar licena -- disse Berenice. -- V por mim tambm -- disse Marshal irritado, olhando
aqui e ali  volta do compartimento do motor. Berenice dirigiu-se  pequena construo que ficava ao lado, o Bar Sempre-Verde. O tempo e a acomodao o estavam carcomendo
lentamente de baixo para cima, e um lado estava bem afundado, a tinta da porta da frente estava descascando. O anncio de cerveja em non na janela ainda funcionava,
e a mquina toca-discos l dentro estava arranhando uma cano caipira popular. Berenice empurrou a porta -- a parte de baixo riscou um arco gasto sobre o linleo
-- e entrou, Marshall, engatando

-- O que aconteceu? -- perguntou Berenice.

torcendo o nariz um bocadinho ante a fumaa azulada de cigarros que havia substitudo o ar. Apenas alguns homens estavam sentados no aposento, provavelmente a primeira
das equipes de lenhadores a sair do trabalho. Falavam alto, trocando estrias, praguejando. Berenice olhou diretamente para o fundo da sala, tentando descobrir os
cartazes que mostravam diminutos Homens e Mulheres. Sim, havia Toaletes. Um dos homens numa mesa prxima disse: -- Ei, boneca, como est? Berenice nem ia olhar em
sua direo, mas sem perceber encarou-o e deu-lhe um olhar apropriadamente feio. Um pouco exagerado o toque local nesse lugar, pensou ela. Ela diminuiu os passos.
Seus olhos prenderam-se a ele. Ele devolveu o olhar com um sorriso alto, preguioso no rosto barbudo. Outro homem disse: -- Parece que voc conseguiu a ateno dela,
companheiro. Berenice continuou fitando-o. Aproximouse da mesa e deu uma olhada mais de perto. O cabelo estava comprido e embaraado, preso num rabo-decavalo por
uma argola de borracha. Os olhos estavam vidrados e agora espessamente sombreados. Mas ela conhecia aquele homem. O amigo dele falou: -- Boa noite, senhora. No
lhe d confiana, ele est apenas se divertindo, certo, Weed? -- Weed? -- perguntou Berenice. -- Kevin Weed? Kevin Weed apenas fitou-a, gozando a vista e dizendo
pouco. Por fim, ele disse: -- Posso lhe pagar uma cerveja? Berenice aproximou-se mais dele, certificando-se

de que ele pudesse v-la claramente. -- Lembra-se de mim? Berenice Krueger? -- Weed pareceu apenas confuso. -- Lembra-se de Pat Krueger? Uma luz comeou a iluminar
lentamente o rosto de Weed. -- Pat Krueger... Quem  voc? -- Sou Berenice, a irm de Pat. Lembra-se de mim? Encontramo-nos umas duas vezes. Voc e a companheira
de quarto de Pat estavam namorando. Weed animou-se e sorriu, ento praguejou e pediu desculpas. -- Berenice Krueger! A irm de Pat! -- Ele praguejou outra vez e
pediu desculpas novamente. -- O que est fazendo neste lugar? -- S de passagem. E aceito uma Coca pequena, obrigada. Weed sorriu e fitou os amigos. Seus olhos e
bocas estavam-se abrindo cada vez mais, e eles estavam comeando a rir. Weed disse com malcia: -- Acho que est na hora de vocs acharem outra mesa... Eles ajuntaram
seus capacetes e lancheiras e riram. -- ,  isso mesmo, Weed. -- Dan -- berrou Weed -- uma Coca pequena aqui para a moa. Dan precisou encarar por um instante a
moa distinta que havia entrado num lugar como aquele. Ele apanhou a Coca e lha levou. -- E afinal o que tem feito? -- perguntou-lhe Weed. Berenice tirou a caneta
e o bloco de anotaes. Ela lhe contou alguma coisa a respeito do que estivera fazendo e o que estava fazendo agora. Depois falou: -- Desde antes da morte de Pat
que no o vejo. -- Ei, sinto muito o que aconteceu com ela. -- Kevin, pode dizer-me alguma coisa a esse respeito? O que sabe?

-- Quase nada... somente o que li nos jornais. -- E a companheira de quarto de Pat? Voc tem tido notcias dela ultimamente? -- Berenice notou que os olhos de Weed
se abriram muito e sua boca se abriu no momento em que ela mencionou a moa. -- Caramba, este mundo est mesmo cada vez menor! -- disse ele. -- Voc a viu? -- Berenice
mal podia crer em sua boa sorte. -- Bem, sim, mais ou menos. -- Quando? -- insistiu Berenice. -- Mas foi s um pouquinho. -- Onde? Quando? -- Berenice estava achando
muito difcil se conter. -- Eu a vi no festival. -- Em Ashton? -- , sim, em Ashton. Foi um encontro inesperado. Ela chamou meu nome, me virei, e l estava ela.
-- O que ela disse? Falou onde est morando agora? Weed remexeu-se um tantinho. -- Caramba, no sei. Nem me importo. Ele me chutou, sabe, fugiu com aquele outro
cacundeiro. At estava com ele aquela noite. -- Como  mesmo c nome dela? -- Susan. Susan Jacobson. Uma verdadeira ladra de coraes, isso  o que ela . -- Voc
tem alguma idia ... ela lhe deu alguma idia de onde eu poderia encontr-la? Tenho de conversar com ela acerca de Pat. Ela pode saber alguma

coisa. -- Caramba, no sei. Ela no conversou comigo por muito tempo. Estava com pressa, tinha de encontrar o novo namorado ou algo assim. Queria o nmero do meu
telefone, s isso. Berenice no conseguia abandonar a esperana. Pelo menos por enquanto. -- Tem certeza de que ela no lhe deu alguma idia de onde est morando
agora, ou qualquer forma de entrar em contato com ela? -- Weed deu embriagadamente de ombros. -- Kevin faz sculos que venho tentando encontr-la! Tenho de falar
com ela! Weed estava amargurado. -- Fale com o namorado dela, aquele velhote gorducho todo endinheirado! No, no, no era legtimo o palpite que percorreu a mente
de Berenice. Ou era? -- Kevin -- disse ela -- como Susan estava vestida naquela noite? Ele estava fitando o espao, como um amante bbado e rejeitado -- Finria--disse
ele. -- Longo cabelos pretos, vestido preto, viseiras sensuais. Berenice sentiu o estmago contrair-se em um n ao dizer: -- E o namorado dela? Voc o viu? -- Sim,
mais tarde. Susan fez de conta que nem me conhecia quando ele apareceu em cena. -- Bem, que cara tinha ele? -- Cara de tonto da Cidade dos Gordos. Deve ter sido
o dinheiro dele, foi por isso que Susan se agarrou com ele. Berenice apanhou a caneta com a mo trmula: -- Qual  o nmero do seu telefone? Ele falou. -- Endereo?
Ele resmungou, dando-o tambm.

-- Bem, voc disse que ela pediu o nmero do seu telefone? -- E, no sei porqu. Talvez as coisas no estejam indo to bem com o seu apaixonado. -- Voc lho deu?
-- Dei. Talvez seja um trouxa, mas dei, sim. -- Ento, pode ser que ela lhe ligue. Ele deu de ombros. -- Kevin... -- Berenice deu-lhe um dos seus cartes. -- Escute-me
cuidadosamente. Est escutando? Ele a fitou e disse que sim. -- Se ela ligar, se tiver qualquer notcia dela, por menor que seja por favor d-lhe o meu nome e nmero
e diga-lhe que quero falar congela. Pegue o nmero dela para eu poder falar com ela. Voc faz isso? Ele apanhou o carto e acenou afirmativamente com a cabea --
Sim, claro. Ela terminou a Coca e preparou-se para sair. Ele a fitou com os olhos baos, vidrados. -- Ei, que vai fazer hoje  noite? -- Se tiver notcias de Susan,
ligue-me. Teremos muito sobre o que conversar nesse caso. Ele olhou de novo para o carto. -- Sim, claro. Alguns momentos depois Berenice estava de volta ao posto,
bem a tempo de ver Marshall dar partida no carro. O velho e encurvado dono do posto estava olhando o motor e meneando a cabea. -- Ei, deu certo! -- gritou Marshall
sentado atrs do volante. -- U, no fiz nada -- disse o velho.

Bem alto, acima do posto, Nat elevou-se ao cu a fim de reunir-se a Armoth, a espada recuperada. -- Feito -- disse ele. -- E agora veremos como o capito e Guilo
se saram em Nova Iorque. O carro ps-se a caminho novamente, e Nata e Armoth o seguiram, atrs e acima dele como duas pipas a ele amarradas.

18
Hank iniciou o culto da manh de domingo com um hino vibrante, o qual Mary tocava particularmente bem ao piano. Ambos estavam alegres e sentiam-se encorajados; a
despeito dos sons da batalha que se aproximava, sentiam que Deus, em sua infinita sabedoria, estava de fato operando um plano muito poderoso e eficaz para o restabelecimento
do seu reino na cidade de Ashton. Vitrias grandes e pequenas estavam em preparao, e Hank sabia que tinha de ser a mo de Deus. Em primeiro lugar, esta manh ele
estaria ministrando a uma congregao quase nova; pelo menos parecia assim. Muitos dos antigos dissidentes haviam sado da igreja e levado consigo sua amargura,
e a disposio e estado de nimo do lugar haviam subido diversos graus. Claro, Alf Brummel, Gordon Mayer e Sam Turner permaneciam, um bando carrancudo que fazia
lembrar o esquadro da morte, mas nenhum deles estava presente esta manh. Numerosos amigos e conhecidos, alguns casais, alguns solteiros, e alguns estudantes tinham
seguido o exemplo dos Forsythes. Vov Duster estava presente, forte e saudvel como sempre e pronta para uma luta espiritual; John e Patty

Coleman estavam de volta, e John no podia deixar de dar largo sorriso de alegria e entusiasmo. Dos demais, Hank conhecia apenas uma pessoa. Ao lado de Andy e June
Forsythe, parecendo um tanto acanhado, estava Ron Forsythe, junto da namorada, uma estudante de segundo ano da faculdade, baixinha e muito pintada. Hank teve de
sufocar uma emoo muito forte quando viu os Forsythes entrarem acompanhados do filho: era um milagre, um autntico ato de graa da parte do Deus vivo. Ele teria
gritado aleluia ali mesmo, mas no queria afugentar o rapazinho; esse poderia ser um daqueles casos de luvas de pelica. Aps o primeiro hino, Hank achou melhor tratar
da situao que o defrontava. -- Bem -- disse ele informalmente -- no sei se devo cham-los de visitantes, refugiados ou o qu. Todos riram e trocaram olhares.
Hank continuou: -- Por que no tiramos alguns momentos para nos apresentar? Acho que vocs provavelmente sabem quem sou; meu nome  Hank Busche, e sou o pastor,
e aquela florzinha sentada ao piano  Mary, a minha esposa. -- Mary ergueu-se depressa, sorriu humildemente, e sentou-se de novo. -- Por que no vamos de um em um
dizendo quem somos... E a primeira chamada do Remanescente ocorreu enquanto os anjos e demnios vigiavam: Krioni e Triskal em seus postos ao lado de Hank e Mary,
enquanto Signa e seu peloto, agora com dez, mantinham um cerco em torno do prdio. Novamente Lucius havia discutido amargamente com Signa, tentando ser admitido.
Mas ele sabia que era melhor no forar muito a situao, como se no bastasse Hank Busche, este tinha agora uma igreja cheia de santos que oravam. Os guerreiros
celestiais estavam gozando sua primeira vantagem real. Por fim,

Lucius ordenou aos seus demnios que permanecessem do lado de fora e ouvissem o que pudessem. Os nicos demnios que haviam conseguido entrar fizeram-no com seus
hospedeiros humanos, e agora, espalhados pela congregao, refletiam carrancudos a respeito deste terrvel acontecimento. Scion, perto da porta, parecia uma galinha
vigiando a ninhada, e Sete se mantinha ao lado dos Forsythes e do grupo que estava com eles. Havia poder no lugar hoje, e todos o sentiam crescer  medida que cada
pessoa se levantava e se apresentava. A Hank parecia como a reunio de um exrcito especial. -- Ralph Metzer, segundanista de Whitmore... -- Judy Kemp, do segundo
ano da faculdade... -- Greg e Eva Smith, amigos dos Forsythes. -- Bill e Betty Jones. Temos uma loja de miudezas na rua Oito... -- Mike Stewart. Moro com os Jones
e trabalho na usina. -- Cal e Ginger Barton. Chegamos h pouco  cidade. -- Cecil e Mriam Cooper, e realmente  um prazer ver todos aqui... -- Ben Squires. Sou
o sujeito que leva a sua correspondncia se voc mora na zona oeste... -- Tom Harris, e esta  a minha esposa Mabel. Sejam todos bem-vindos e louvado seja o Senhor!
-- Clint Neal, trabalho no posto de gasolina. -- Greg e Nancy Jenning. Sou professor e ela  escritora.

-- Andy Forsythe, e louvado seja o Senhor! -- June Forsythe, e digo amm. Ron ps-se de p, colocou as mos nos bolsos, e olhou para o cho enquanto dizia: -- Sou...
sou Ron Forsythe, e esta  Cynthia, e... fiquei conhecendo o pastor na Caverna, e... -- Sua voz falhou de emoo. -- Apenas queria agradecer a todos vocs o terem
orado por mim e o se importarem comigo. Ele permaneceu em p por um momento, fitando o cho enquanto lgrimas lhe assomavam aos olhos. June ps-se em p ao lado
do filho e dirigiu-se ao grupo por ele. -- Ron deseja que saibam que ele e Cynthia entregaram o corao a Jesus ontem  noite. Todos sorriram encantados e murmuraram
palavras de nimo, e isso fez com que Ron se sentisse  vontade o bastante para dizer: -- , e jogamos todas as drogas no vaso e demos descarga! Essa confisso cativou
a todos os presentes. Com gozo e fervor cada vez mais intensos, a chamada continuou. Do lado de fora, os demnios ouviam com grande alarme e sibilavam exclamaes
de mau agouro. -- Rafar precisa ficar sabendo! -- disse um deles. Lucius, as asas meio abertas apenas o bastante para evitar que seus alvoroados subalternos o amolassem,
postava-se imvel, remoendo pensamentos desagradveis. Um demnio pequeno pairou acima de sua cabea e bradou: -- Que devemos fazer, Mestre Lucius? Devemos procurar
Rafar?

-- Voltem ao que estavam fazendo! -- sibilou ele em resposta. -- Deixem que eu me incumbo de informar a Baal Rafar! Eles se reuniram em torno dele, querendo ouvir
sua prxima ordem. Ultimamente parecia que ele havia falado muito pouco. -- O que esto olhando? -- ganiu ele. -- Vo embora, faam diabruras! Deixem que eu me preocupo
com esses santinhos insignificantes! Eles adejaram em todas as direes, e Lucius permaneceu em seu lugar do lado de fora da janela da igreja. Contar a Rafar, deveras!
Que Rafar se humilhasse o suficiente para perguntar. Lucius no faria papel de lacaio. Nesta parte da cidade de Nova York, era tudo feito sob encomenda para a elite
e fregueses exigentes: as lojas, butiques e restaurantes eram do tipo exclusivo, os hotis muito luxuosos. rvores floridas cuidadosamente tratadas cresciam em jardineiras
redondas ao longo das caladas, e o pessoal da limpeza mantinha as ruas e caladas impecveis. Entre a multido de fregueses apressados e pessoas que estavam apenas
olhando as vitrinas encontravam-se dois homens muito grandes trajando tnicas cqui, passeando pela calada e olhando ao redor. "Hotel Gibson", leu Tal na fachada
de antigo e distinto prdio de pedra, que se erguia trinta andares acima deles. -- No vejo movimento algum -- disse Guilo. -- Ainda  cedo. Eles chegaro. Desincumbamonos
rapidamente de nossa tarefa.

Os dois entraram no saguo do hotel atravs das grandes portas da frente. Pessoas passavam por eles, e s vezes atravs deles, mas isso, naturalmente, no tinha
importncia. Dentro de momentos eles haviam examinado na recepo a lista das reservas para o salo de banquetes e verificado que o Grande Salo de Baile estava
reservado para a Sociedade da Percepo Universal. -- A informao do comentou Tal com prazer. general era correta --

Eles se apressaram por um longo corredor espessamente acarpetado, passando por uma barbearia, um salo de beleza, uma engraxateria, uma loja de presentes, chegando
afinal a duas enormes portas de carvalho com maanetas de lato luxuosamente ornamentadas. Passando atravs delas, eles se encontraram no Grande Salo de Baile,
agora cheio de mesas de jantar adornadas de cristais e toalhas de linho branco. Havia uma rosa solitria de cabo comprido num pequeno vaso em cada mesa. O pessoal
do buf apressava-se com os preparativos finais, colocando os guardanapos artisticamente dobrados e as taas de vinho. Tal verificou os cartes com os nomes dos
que se sentariam na mesa principal. Um, perto da ponta, dizia "Kaseph, Omni S.A.". Atravessaram a porta de uma sada prxima, e olharam  direita e  esquerda. No
fim do corredor,  esquerda e na direo dos fundos ficava o toalete das senhoras. Entraram, passaram por algumas mulheres que se enfeitavam diante dos espelhos
e encontraram o que procuravam: o ltimo sanitrio, para o uso de deficientes. Era construdo contra a parede de trs do hotel, logo abaixo de uma janela grande
bastante para permitir que um ser humano gil se arrastasse por ela. Tal ergueu a mo, quebrou a tranca, e testou a janela, assegurando-se de que se abriria e fecharia
facilmente.

Guilo atravessou depressa a parede e na viela encontrou uma grande lixeira e, com incrvel facilidade, moveu-a alguns metros de forma que ela foi para baixo da janela.
A seguir, ele arranjou alguns engradados e latas de lixo de encontro  lixeira, formando degraus. Tal reuniu-se a ele e os dois seguiram pela viela at a rua. A
um quarteiro de distncia havia uma cabina telefnica. Tal ergueu o receptor e assegurou-se de que tudo estava funcionando. -- A vm eles! -- avisou Guilo, e saltaram
pela parede de uma loja de departamentos e espiaram para fora da janela bem no momento em que uma longa limusine preta e depois outra e depois outra deram incio
a lgubre desfile pela rua na direo do hotel. Dentro das limusines sentavam-se dignitrios e outras pessoas importantes de muitas naes e raas diferentes, e
dentro e em cima estavam demnios, grandes, negros, verrugosos e ferozes, os olhos amarelos percorrendo rpida e cautelosamente todas as direes. Tal e Guilo observaram
fascinados. Acima, no cu, outros demnios apareceram, dirigindo-se ao hotel qual bandos de andorinhas, suas negras silhuetas aladas desenhadas contra o cu avermelhado.
-- Um significativo ajuntamento, Capito -- disse Guilo. Tal assentiu com a cabea e continuou a observar. Entre as limusines vieram muitos txis, tambm transportando
vasto exemplar da humanidade em geral: orientais, africanos, europeus, ocidentais, rabes; pessoas de grande poder, honra e dignidade de todas as partes do mundo.
-- Como dizem as Escrituras, os reis da Terra -- observou Tal -- embriagando-se com o vinho da imoralidade da grande meretriz. -- A Grande Babilnia -- disse Guilo.
-- A grande

Meretriz erguendo-se por fim. -- Sim, Percepo Universal. A religio do mundo, a doutrina dos demnios espalhando-se entre todas as naes. A Babilnia ressuscitada
logo antes do final dos tempos. -- Da o retorno do Prncipe da Babilnia, Rafar. -- Claro. E isso explica por que ns fomos chamados. Fomos os ltimos a enfrent-lo.
Guilo, ao ouvir isso, fez uma careta. -- Meu Capito, nossa ltima batalha com Rafar no  uma lembrana agradvel. -- Nem uma expectativa agradvel. -- O senhor
acha que ele vem aqui? -- No. Esta reunio  apenas uma festa antes da verdadeira batalha, e a verdadeira batalha est marcada para a cidade de Ashton. Tal e Guilo
permaneceram onde estavam, observando a reunio das foras da humanidade e do mal satnico convergirem ao Hotel Gibson. Estavam  espera da pessoa chave: Susan Jacobson,
a Serva de Alexander Kaseph. Por fim viram-na dentro de um luxuosssimo Lincoln Continental, provavelmente o veculo particular de Kaseph, dirigido por motorista
contratado. Vinha escoltada por dois acompanhantes, sentados um de cada lado. -- Ela ser vigiada de perto -- disse Tal. -- Vamos, precisamos ver melhor. Passaram
depressa pela loja de departamentos, atravs de paredes, mostrurios e pessoas, em seguida afundaram-se na rua e foram sair dentro do restaurante que ficava exatamente
em frente  porta principal do hotel. Em toda a volta, pessoas bem vestidas sentavam-

se  mesas silenciosas, iluminadas por velas, consumindo caros pratos da cozinha francesa. Apressando-se na direo de uma janela da frente, ao lado de um casal
idoso que saboreava frutos do mar e vinho, observaram o carro que conduzia Susan encostar  frente do hotel. A porta de Susan foi aberta por um porteiro de casaco
vermelho. Um dos acompanhantes saiu e estendeu a mo para ajud-la a descer; ela saltou e imediatamente o outro acompanhante estava ao seu lado. Os dois acompanhantes,
vestidos a rigor, eram muito atraentes mas ao mesmo tempo muito intimidantes. Mantinham-se grudados a ela. Susan trajava um vestido de noite solto que lhe cobria
o corpo de forma estonteante, e cascateava at os ps. Guilo teve de perguntar: -- Os planos dela so os mesmos que os nossos? Tal respondeu com segurana: -- O
general ainda no errou. Guilo apenas meneou a cabea apreensivo. -- Para a viela -- disse Tal. Seguiram por baixo da viela coberta de pedras e rachaduras e despontaram
num esconderijo atrs de uma sada de incndio. A noite havia cado, e a viela estava escura. Do seu posto de observao, conseguiam contar vinte pares de inquietos
olhos amarelos, a espaos regulares ao longo da viela e contra o hotel. -- H cerca de cem sentinelas -- disse Tal. -- Em melhores circunstncias, punhado -- murmurou
Guilo. um mero

-- Preocupe-se somente com estas vinte. Guilo tomou a espada na mo. Podia sentir as

oraes dos santos locais. -- Ser difcil -- disse. -- A cobertura de oraes  limitada. -- No precisa derrot-los -- respondeu Tal. -- Apenas faa com que o
persigam. Precisamos da viela livre por apenas alguns momentos. Aguardaram. O ar estava parado e mido. Os demnios quase no se mexiam, permaneciam nos postos,
trocavam resmungos em lnguas diferentes, seu hlito sulfuroso formando uma fita estranha e sinuosa de vapor amarelo que corria pela viela como um rio ptrido, flutuante.
Tal e Guilo podiam sentir sua crescente tenso, como molas cada vez mais apertadas, a cada segundo que passava. O banquete devia estar em progresso a essa hora.
A qualquer momento, Susan poderia pedir licena e deixar a mesa. Mais tempo se passou. De repente, tanto Tal quanto Guilo sentiram a instigao do Esprito. Tal
olhou para Guilo, que acenou com a cabea. Ela estava a caminho. Vigiaram a janela. A luz do toalete feminino brilhava; eles mal podiam ouvir o som da porta que
se abria e fechava  medida que as senhoras entravam e saam. A porta abriu-se. Saltos altos ressoaram no piso de cermica, movendo-se na direo da janela. Os demnios
se remexeram um pouco, resmungando entre si. A porta do ltimo sanitrio girou nas dobradias. A mo de Guilo agarrou a espada. Ele comeou a respirar fundo, o grande
torso a expandir-se e encolher-se, o poder de Deus percorrendo-o. Os olhos dos dois estavam pregados na janela. Os demnios se puseram mais alertas, os olhos amarelos
muito abertos correndo de um lado para outro. Falavam mais alto. A sombra da cabea de uma mulher apareceu na janela. Uma mo de mulher procurou a trava.

Tal tocou o ombro de Guilo, e este se deixou cair entrando pelo cho. Apenas uma frao de segundo se passou. -- IAHAAAAA! -- o sbito e ensurdecedor brado de guerra
partiu dos poderosos pulmes de Guilo, e a viela toda explodiu instantaneamente em ofuscante raio de luz branca enquanto Guilo brotava com mpeto do cho, a espada
fulgurante e tremeluzente traando brilhantes arcos no ar. Os demnios saltaram, berrando e guinchando aterrorizados, mas recobraram-se imediatamente e sacaram as
espadas. A viela ecoou com o retinir metlico, e o fulgor avermelhado de suas lminas danava como cometas nas altas paredes de tijolos. Guilo postou-se alto e forte,
e bramiu uma gargalhada que estremeceu o cho. -- Agora, suas lagartixas negras, testarei seu brio! Um grande esprito ganiu uma ordem, e os vinte demnios convergiram
sobre Guilo como predadores famintos, as espadas faiscando e as presas  mostra. Guilo arremeteu para o alto, escapando deles qual sabonete escorregadio, e acrescentou
um gil volteio ao prosseguir, espalhando luz por todos os lados em espirais coloridas. Os demnios abriram as asas e lanaram-se atrs dele. Diante dos olhos de
Tal, Guilo foi descrevendo arcos e rodopiando por todo o cu como um balo solto, rindo, atiando e provocando, mantendo-se um pouco alm do alcance dos seus perseguidores.
A essa altura, os demnios estavam em fria cega. A viela estava vazia. A janela se abria. Num instante, Tal estava debaixo da janela, apagado e escondido pela escurido.
Ele agarrou Susan assim que a mo dela apontou na janela e puxou-a com tanta fora que ela praticamente saiu voando. A moa vestia uma blusa simples e cala de brim,
e tinha nos ps pequenas

sapatilhas. Do pescoo para cima, ainda estava deslumbrante; do pescoo para baixo, estava preparada para correr por vielas escuras. Tal a ajudou a encontrar a maneira
de descer da lixeira e depois instigou-a a seguir pela viela e chegar  rua onde ela hesitou, olhou de um lado e de outro, e ento viu a cabina telefnica. Ela correu
como o vento, numa pressa terrvel e desesperada. Tal a seguiu, tentando manter-se to encoberto quanto possvel. Ele olhou para trs por sobre o ombro; o estratagema
de Guilo funcionara. No momento, Guilo era o maior problema para os demnios, e a ateno deles estava longe daquela mulher a correr freneticamente. Susan atirou-se
para dentro da cabina e bateu a porta atrs de si. Ela tirou uma pilha de moedas do bolso da cala, chamou a telefonista e pediu uma ligao interurbana. Em algum
lugar entre Ashton e a pequena beira de estrada que era Baker, em um depsito em runas transformado em apartamentos de baixo aluguel, Kevin Weed acordou de um sono
exausto com o tilintar do telefone. Ele revirou no colcho e ergueu o aparelho. -- Pronto, quem fala? -- perguntou. --  Kevin? -- veio uma voz desesperada do outro
lado. Kevin prestou mais ateno. Era voz de mulher. -- Sim, sou eu. Quem fala? Na cabina telefnica, Susan olhou de um lado a outro da rua medrosamente ao dizer:
-- Kevin,  Susan. Susan Jacobson. Kevin estava comeando a perguntar-se o que era tudo aquilo. -- Ei, o que voc quer comigo afinal?

-- Preciso de ajuda, Kevin. No tenho muito tempo. No h muito tempo. -- Tempo obtusamente. para qu? -- perguntou ele

-- Por favor, escute. Anote se precisar. -- No tenho com que anotar. -- Ento escute apenas. Olhe, voc j ouviu falar do Clarim de Ashton? O jornal de Ashton?
-- Sim, sim, j ouvi falar. -- Berenice Krueger trabalha l. Ela  a irm da minha antiga companheira de quarto, Pat, aquela que se suicidou. -- Caramba... o que
est acontecendo? -- Kevin, voc me faz um favor? Entre em contato com Berenice Krueger no Clarim e... Kevin? -- Sim, estou ouvindo. -- Kevin, estou em apuros. Preciso
da sua ajuda. -- E ento, onde est o seu namorado? --  dele que estou com medo. Voc sabe a respeito dele. Conte a Berenice Krueger tudo acerca de Alexander Kaseph,
tudo o que sabe. Kevin estava perplexo. -- Ento que sei eu? -- Diga-lhe o que aconteceu, sabe, entre ns, com Kaseph, diga-lhe tudo. Diga-lhe o que Kaseph est
planejando. -- No estou entendendo. -- No tenho tempo para explicar. Apenas diga a ela... diga que Kaseph est tomando conta da cidade toda... e faa com que ela
saiba que tenho informaes

muito importantes a respeito de Pat, irm dela. Tentarei entrar em contato com ela, mas temo que o telefone do Clarim esteja grampeado. Kevin, preciso que voc esteja
l para atender ao telefone, para... -- Susan estava frustrada, cheia de emoo, incapaz de encontrar as palavras certas. Ela tinha coisas demais para dizer, e muito
pouco tempo. -- Voc no est fazendo muito sentido -- murmurou Kevin. -- Voc tomou alguma coisa? -- Apenas faa o que pedi, Kevin, por favor! Ligarei de novo para
voc assim que puder, ou escrevei, ou darei um jeito qualquer, mas por favor ligue para Berenice Krueger e diga-lhe tudo o que sabe sobre Kaseph e sobre mim. Diga-lhe
que fui eu quem ela viu no festival. -- E como  que vou me lembrar de tudo isso? -- Por favor, d um jeito. Diga-me que o far! -- Sim, est bem, farei. -- Tenho
de ir! At logo! Susan desligou o telefone e saiu correndo da cabina. Tal a seguiu, desviando-se para dentro de prdios tanto quanto possvel. Ele chegou  viela
alguns instantes antes dela a fim de verificar o terreno. Encrenca! Outras quatro sentinelas haviam chegado para tomar o lugar das vinte originais, e estavam totalmente
alertas. No havia como saber onde Guilo e as vinte poderiam estar. Tal olhou atrs de si. Susan vinha em disparada. Tal mergulhou de cabea pelo calamento e penetrou
fundo na cidade, ganhando velocidade, estendendo a espada prateada. O poder de Deus estava aumentando agora; os santos deviam estar orando em algum lugar. Ele podia
senti-lo. Tinha apenas segundos, e sabia disso. Ele verificou sua posio, descreveu um

grande arco subterrneo distanciando-se do hotel, e ento, a quase dois quilmetros de distncia, voltou, ganhando velocidade, ganhando velocidade, ganhando velocidade,
faiscando, armazenando poder, mais depressa, mais depressa, mais depressa, a espada um ofuscante relmpago, os olhos em fogo, a terra um borro ao seu redor, o rugir
de cimento, vigas, canos e pedras que ficavam para trs como o rudo de um trem de carga. Ele segurou a espada atravessada, a ponta coruscante pronta para aquele
momento infinitesimal. Mais rpido que um pensamento, como a exploso de um foguete, um fulgurante raio de luz jorrou do cho do outro lado da rua e pareceu cortar
o espao em dois ao precipitar-se pela viela bem diante dos olhos dos quatro demnios. Os demnios, estonteados e cegos, caram ao cho, tropearam, tentaram encontrar
um ao outro. 0 raio de luz desvaneceu-se no cho to depressa quanto apareceu. Susan virou a esquina e entrou na viela, dirigindo-se  janela. Tal dobrou as asas
e parou. Tinha de voltar para ajud-la a passar pela janela antes que algum demnio se recuperasse e desse o alarme. Ele engrenou as asas em violento mpeto para
a frente e fez uma volta apressada. Susan escalou os engradados e latas e chegou  lixeira. Os demnios comeavam a recobrar a viso e esfregavam os olhos. Tal surgiu
de trs da sada de incndio, tentando calcular o tempo que ainda lhe sobrava. timo! Guilo estava de volta e caiu como um gavio, agarrando Susan e empurrando-a
atravs da janela num instante, segurando-a de maneira que ela no rolasse ao cho do lado de dentro. O prprio Guilo fechou a janela. Tal voou ao encontro de Guilo.
-- Mais uma vez -- gritou ele. No precisava dizer mais nada. As quatro sentinelas se haviam recuperado e se precipitavam sobre

eles, e as outras vinte retornavam, furiosas no encalo de Guilo. Tal e Guilo arremeteram para cima e se distanciaram como um raio, perseguidos por um bando de demnios
espumando de raiva. Os anjos voaram seguindo um curso bem alto sobre a cidade e contiveram a velocidade apenas o suficiente para encorajar os demnios. Rumando para
o oeste, os dois adentraram o cu escuro da noite, deixando um rasto de brilhantes listas brancas atrs de si. Os demnios foram tenazes na perseguio durante centenas
de quilmetros, mas afinal Tal voltou-se e descobriu que haviam desistido de segui-los e retornado  cidade. Tal e Guilo aumentaram a velocidade e rumaram para Ashton.
No toalete feminino, Susan enrolou apressada as pernas da cala de brim, apanhou o vestido de gala do gancho e logo recobrou a aparncia apropriada ao banquete.
Tirou as sapatilhas e as colocou na bolsa, calou os sapatos de salto, abriu a porta e saiu. Uma voz masculina do lado de fora da porta do toalete chamou: -- Susan,
esto  sua espera! Ela verificou a aparncia no espelho, penteou o cabelo, e tentou acalmar a respirao. -- Mas que pressa -- disse ela, provocante. Com dignidade
refinada, ela surgiu no corredor e tomou o brao do acompanhante. Ele a conduziu de volta ao Grande Salo de Baile, agora cheio de gente, levando-a at o seu lugar
na mesa principal, fazendo um aceno tranqilizador ao outro acompanhante.

19
O escritrio do Clarim estava enfim recuperando a

boa e saudvel eficincia que Marshall gostava de ver, e a nova moa, Carmem, era grandemente responsvel por essa melhora. Em menos de uma semana ela havia mais
do que preenchido a vaga de Edie, restabelecendo uma rgida rotina no escritrio. Era apenas quarta-feira, e o jornal j estava em pleno movimento, aprontando a
edio de sexta-feira. Marshall deteve-se diante da escrivaninha de Carmem, a caminho do caf. Ela lhe entregou matria nova e disse: --  parte do artigo de Tom.
Marshall assentiu com a cabea. -- Sim, o negcio do departamento de bombeiros... -- Separei-o em trs ttulos: pessoal, histrico e objetivos, e achei que podamos
public-lo em trs segmentos. Tom j deixou espao nas duas prximas colagens e acha que pode arrumar alguma coisa na terceira. Marshall gostou. -- , toque em frente,
gostei. Que bom voc entender a letra do Tom. Carmem j havia revisado a maior parte do material de sexta-feira e estava quase terminando de preparar a cpia para
George, o tipgrafo. Ela havia repassado os livros e acertado todas as contas. Planejava ajudar Tom com a colagem no dia seguinte. Os negativos para o layout do
Clube dos Esportistas estavam prontos. Marshall meneou a cabea em feliz espanto. -- Bem-vinda a bordo. Carmem sorriu. -- Obrigada, senhor. Marshall dirigiu-se ao
caf e serviu duas xcaras. Foi ento que percebeu: Carmem havia encontrado o fio dessa mquina boba!

Ele carregou as duas xcaras de volta ao escritrio e, ao passar por sua mesa, deu  moa um sorriso de aprovao. A localizao da mesa havia sido o seu nico pedido
no emprego. Perguntara se podia ser removida para um local ao lado da porta do escritrio de Marshall, e Marshall acedeu de bom grado. Agora, s precisava voltar-se
e dar um berro e ela entrava imediatamente em ao para fazer o que ele pedira. Marshall entrou no escritrio, colocou uma xcara sobre a escrivaninha, e ofereceu
a outra ao homem de cabelo comprido, levemente atordoado, sentado no canto. Berenice estava sentada numa cadeira que trouxera juntamente com sua prpria xcara de
caf. -- Bem, onde estvamos? -- perguntou Marshall, sentando-se  escrivaninha. Kevin Weed esfregou o rosto, tomou um gole de caf, e tentou apanhar o fio dos pensamentos
de novo, olhando no cho em seu redor como se os tivesse deixado cair ali em algum lugar. Marshall instigou: -- Muito bem, deixe-me pelo menos ter certeza de que
entendi o que disse: Voc costumava ser... conhecido de Susan, e ela foi a companheira de quarto de Pat Krueger, irm de Berenice. Estou certo at aqui? Weed assentiu
com a cabea. -- , sim, est certo. -- E ento o que Susan estava fazendo no festival? -- Sei l. Como j disse, ela apareceu atrs de mim e disse oi, e eu nem
a estava procurando. No podia acreditar que era ela, entende? -- Mas ela pegou o nmero do seu telefone e depois ligou para voc ontem  noite... -- , toda em
rbita, nervosa. Foi uma loucura.

Ela no dizia coisa com coisa. Marshall olhou para Weed e Berenice e perguntou  moa: -- E essa  a mesma mulher com cara de fantasma que voc fotografou aquela
noite? Berenice estava convicta. -- As descries que Kevin me deu se encaixam perfeitamente com a mulher que vi, e tambm a do homem mais velho que estava com ela.
-- Sim, Kaseph --. Kevin pronunciou o nome como se tivesse gosto ruim. -- Muito bem -- e Marshall fez uma lista mental. -- Ento vamos falar desse Kaseph primeiro,
depois falaremos de Susan, e depois falaremos de Pat. Berenice tinha o bloco de anotaes na mo. -- Faz idia de qual seja o nome completo de Kaseph? Weed forou
o crebro. -- Alex... Alan... Alexander... algo assim. -- Mas comea com A. -- Certo. Marshall perguntou: -- O que ele ? Weed respondeu: -- O novo namorado de Susan,
foi por causa dele que ela me chutou. -- Mas, e o que ele faz? Onde trabalha? Weed abanou a cabea. -- No sei. Mas ele tem grana. Vive fazendo rolos. A primeira
vez que ouvi falar dele, ele estava arrodeando Ashton e a faculdade, e falando de comprar propriedades e coisas desse tipo. Cara, o sujeito tinha grana e queria
que todo o mundo ficasse sabendo disso. Ento ele se lembrou:

-- Oh, Susan disse que ele est tentando tomar a cidade... -- Que cidade? Esta? -- Acho que sim. Berenice perguntou: -- E de onde ele ? -- Do Leste, talvez de Nova
York. Acho que  o tipo de cara de cidade grande. Marshall disse a Berenice: -- Faa uma nota para eu chamar Al Lemley no Times. Ele pode conseguir descobrir esse
sujeito se ele estiver em Nova York --. Berenice tomou nota. Marshall perguntou a Weed: -- O que mais voc sabe a respeito dele? -- Ele  esquisito, cara. Est metido
com negcios esquisitos. Marshall estava ficando impaciente. -- Vamos, faa um pouco mais de fora. Weed mexeu e remexeu na cadeira. -- Bem, sabe, ele era como um
guru, ou um feiticeiro, ou algum tipo de bruxo em rbita, e ele envolveu Susan em todo esse negcio. Berenice instigou: -- Voc est falando de misticismo oriental?
-- Sim. -- Religies pags, meditao? -- Sim, sim, todo esse tipo de coisa. Ele estava metido em tudo isso, ele e aquela professora da faculdade, como  mesmo o
nome dela... Marshall estava enjoado do nome. -- Langstrat. O rosto de Weed animou-se, relembrando.

-- Sim, essa mesmo. -- Kaseph e Langstrat eram associados? Eram amigos? -- Sim, claro. Eles davam juntos umas aulas  noite, eu acho, as que Susan freqentava. Kaseph
era um figuro visitante ou algo assim. Todo mundo estava impressionado com ele. Ele me fazia arrepiar os cabelos. -- Certo, ento Susan estava freqentando essas
aulas... -- E ela ficou louca, e estou dizendo louca. Cara, ela no podia ter ficado mais em rbita com mescalina. Eu nem podia mais falar com ela. Ela estava sempre
perdida no espao. Weed continuou a falar, pondo-se em movimento um pouco por conta prpria. -- Foi isso que realmente comeou a me chatear, como ela e o resto daquela
turma comeou a ter segredos e falar em cdigos e no me dizer do que estavam falando. Susan me dizia apenas que eu no era esclarecido e no compreenderia. Cara,
ela simplesmente deu tudo o que tinha quele tal Kaseph e ele a tomou, e estou dizendo que realmente a tomou. Ele  o dono dela agora. Ela se foi. J era. -- E a
Langstrat estava metida em tudo isso? -- Oh, sim, mas Kaseph era o verdadeiro chefo. Ele era o guru, sabe. Langstrat era o seu cachorrinho de estimao. Berenice
disse: -- E agora Susan pega o nmero do seu telefone e liga para voc depois de todo esse tempo. -- Ela estava apavorada -- disse Weed. -- Est em apuros. Ela me
disse que entrasse em contato com vocs e contasse o que eu sabia, e disse que tinha informao

a respeito de Pat. Berenice ansiava por saber. -- Ela disse que tipo de informao? -- No, nada. Mas ela quer entrar em contato com voc. -- Bem, por que ela no
me liga? Essa pergunta ajudou Weed a lembrar-se de algo. -- Oh, sim, ela acha que o seu telefone pode estar grampeado. Marshall e Berenice ficaram em silncio por
um momento. Esse era um comentrio que no sabiam se deveriam levar a srio. Weed acrescentou: -- Acho que ela me ligou para eu ser um intermedirio, passar a informao
a vocs. Marshall arriscou: -- Como se voc fosse a nica pessoa em quem ela ainda pode confiar? Weed apenas deu de ombros. Berenice perguntou: -- Bem, e o que voc
sabe a respeito de Pat? Susan contou-lhe alguma coisa quando vocs namoravam? Uma das empreitadas mais dolorosas para Weed era tentar lembrar-se das coisas. -- Ah...
ela e Pat eram boas amigas, por uns tempos, pelo menos. Mas, entende, Susan no quis mais saber da gente quando comeou a correr atrs da turma do Kaseph. Ela meio
que me afastou, e tambm  Pat. Elas no se deram muito bem depois disso, e Susan ficava a dizer como Pat era... ah... parecida comigo, tentando atrapalhar, no
esclarecida, arrastando os ps. Marshall pensou na pergunta e no esperou que Berenice a fizesse.

-- Ento voc diria que essa turma do Kaseph pode ter considerado Pat como inimiga? -- Cara... -- Weed lembrou-se de outras coisas. -- Ela realmente se arriscou,
isto , atrapalhou. Ela e Susan tiveram uma briga feia certa fez a respeito das coisas com que Susan estava metida. Pat no confiava em Kaseph e vivia dizendo a
Susan que ela estava se submetendo a uma lavagem cerebral. Os olhos de Weed brilharam. -- Sim, falei com Pat uma vez. Estvamos num jogo, e falamos a respeito daquilo
em que Susan estavase metendo e de como Kaseph a estava controlando, e Pat estava muito nervosa com a histria, da mesma maneira que eu. Acho que Pat e Susan realmente
tiveram umas brigas relacionadas com isso at que Susan se mudou do dormitrio e fugiu com Kaseph. Ela no apareceu mais nas aulas. -- Ento Pat arrumou inimigos,
isto , inimigos de verdade? Weed continuou a desenterrar coisas que haviam estado enterradas debaixo dos anos e do lcool. -- Ah, sim, talvez tenha arrumado. Foi
depois que Susan fugiu com esse Kaseph. Pat contou-me que ela ia fazer uma devassa em tudo aquilo de uma vez por todas, e acho que ela pode ter ido ver a Langstrat
algumas vezes. Pouco depois, encontrei-a de novo. Estava num refeitrio do campus, e estava com cara de quem no havia dormido por muitos dias, e perguntei-lhe como
ia, e ela mal falou comigo. Perguntei-lhe como a investigao estava indo, sabe, do Kaseph e da Langstrat e todo esse negcio, e ela disse que tinha parado de mexer
com aquilo, que realmente no era grande coisa. Achei aquilo um tanto esquisito, j que ela estava to amolada com a questo antes. Perguntei-lhe: "Ei, eles esto
atrs de voc agora?" e ela no quis tocar no assunto, disse que eu no compreenderia. Depois disse algo acerca de algum instrutor, um sujeito que a estava

ajudando e que ela estava bem, e acabei percebendo que ela no queria que eu metesse o nariz na vida dela, por isso mais ou menos deixei-a l. -- O comportamento
dela lhe pareceu estranho? -- perguntou Berenice? -- Sim, muito. Se ela no tivesse ido to contra toda a turma do Kaseph e da Langstrat, eu teria pensado que era
uma deles; aquele mesmo aspecto abobalhado, perdido no espao havia tomado conta dela. -- Quando? Quando foi exatamente que voc a viu pela ltima vez? Weed sabia
mas detestava dizer. -- Um pouco antes de ela ser encontrada morta. -- Ela parecia atemorizada? Deu qualquer indicao de algum inimigo, qualquer coisa assim? Weed
fez uma careta, tentando recordar-se. -- Ela no quis falar comigo. Mas eu a vi mais uma vez depois disso, e tentei perguntar-lhe acerca de Susan, e ela agiu como
se eu fosse um assaltante ou coisa parecida... ela berrou: "Deixe-me em paz, deixe-me em paz!" e tentou se afastar e ento viu que era eu, e olhou em volta como
se algum a estivesse seguindo... -- Quem? Ela disse quem? Weed fitou o teto. -- Oh... qual  o nome daquele cara? Berenice inclinou-se para a frente, presa s palavras
do homem. -- Havia algum? -- Thomas, algum sujeito chamado Thomas. -- Thomas! sobrenome dele? Alguma vez ela mencionou o

-- No me lembro de nenhum sobrenome. Nunca

encontrei o sujeito, nunca o vi, mas certamente ele deve ter sido o dono dela. Ela agia como se ele a estivesse seguindo por todo o canto, falando com ela, talvez
ameaando, no sei. Ela parecia ter muito medo dele. Weed: -- Thomas -- sussurrou Berenice. Ela disse a

-- H alguma coisa mais a respeito desse Thomas? Qualquer coisa que seja? -- Nunca vi o sujeito... ela no disse quem ele era ou onde ela iria encontr-lo. Mas a
coisa toda era meio estranha. Num minuto ela estava falando como se ele fosse a melhor coisa que lhe havia acontecido, e ento no prximo minuto se escondia e dizia
que ele a estava seguindo. Berenice ergueu-se e dirigiu-se  porta. -- Acho que temos uma lista da faculdade em algum canto --. Ela ps-se a procurar nas escrivaninhas
e estantes do escritrio da frente. Weed ficou em silncio. Tinha o aspecto cansado. Marshall assegurou-lhe: -- Voc est-se saindo bem, Kevin. Ei, j faz algum
tempo. -- Ah... no sei se isto  importante... -- Considere tudo importante. -- Bem, esse negcio de Pat ter um novo instrutor... acho que alguns da turma do Kaseph,
talvez fosse Susan, eles tinham instrutores. -- Mas entendi que Pat no queria ter nada com aquele grupo. -- Sim, ,  mesmo. Marshall mudou de rumo. -- Ento, onde
voc se encaixava em tudo o que estava acontecendo, alm de seu relacionamento com

Susan? -- Ei, em parte alguma! Eu no quis saber de nada daquilo, cara. -- Voc estudava na faculdade? -- Sim, fazendo contabilidade. Cara, quando tudo isso comeou
a deslanchar e depois Pat se matou, dei o fora depressa. Eu no queria ser o prximo, entende? -- Ele fitou o cho. -- Minha vida nada mais tem sido do que um inferno
desde ento. -- Voc est trabalhando? -- Sim, na madeireira dos Irmos Gorst, um pouco acima de Baker --. Ele meneou a cabea. -- No achava que fosse ver Susan
novamente. Marshall voltou-se para a mesa e procurou um papel. -- Bem, temos de nos manter em contato. D-me o nmero do seu telefone e endereo, do servio e particular.
Weed deu a informao. -- E se eu no estiver a, provavelmente pode me encontrar no Bar Sempre-Verde em Baker. -- Est bem, oua, se tiver alguma outra notcia
de Susan, avise-nos, de dia ou de noite --. Ele acrescentou o nmero do telefone de casa no carto e o entregou a Weed. Berenice voltou com a lista. -- Marshall,
h um telefonema para voc. Acho que  urgente -- disse ela. Em seguida voltou-se para Weed: -- Kevin, vamos para a outra sala e examinemos esta relao. Talvez
encontremos o nome completo daquele sujeito.

Weed saiu com apanhava o telefone.

Berenice

enquanto

Marshall

-- Hogan -- disse ele. -- Hogan, aqui  Ted Harmel. Marshall tateou  procura de um lpis. -- Oi, Ted. Obrigado por ligar. -- Ento voc falou com Eldon... -- E
Eldon falou com voc? Harmel suspirou e disse: -- Voc est em apuros, Hogan. Darei uma entrevista. Tem um lpis  mo? -- Pronto. Pode falar. Berenice tinha acabado
de se despedir de Weed quando Marshall apareceu na porta do escritrio com um pedao de papel na mo. -- Alguma coisa? -- perguntou ele. -- Nada de nada. No h
nenhum Thomas, nome ou sobrenome. -- Ainda assim  uma pista. -- Quem foi que telefonou? Marshall apresentou o pedao de papel. -- Graas a Deus por pequenos favores.
Foi Ted Harmel --. Berenice ficou bem mais animada quando Marshall explicou: -- Ele quer-me ver amanh, e aqui esto as informaes de como chegar l. Deve ser um
fim-demundo. O cara ainda est todo paranico; estou surpreso de que ele no me tenha feito ir disfarado. -- Ele no disse nada a respeito de tudo isto? -- No,
no pelo telefone. Tem de ser apenas ns dois, em particular.

Marshall inclinou-se de leve e disse: -- Ele  outro que acha que o nosso telefone pode estar grampeado. -- E como podemos verificar se est ou no? -- Tome isso
como uma de suas tarefas. E aqui est o restante delas --. Berenice pegou o bloco de anotaes de sobre a escrivaninha e fez a sua prpria lista enquanto Marshall
ia falando. -- Verifique a lista telefnica de Nova York... -- J verifiquei. Nenhum A. Kaseph consta dela. -- Risque essa. Prxima: D uma olhada nas agncias imobilirias.
Se Weed estiver certo a respeito de Kaseph procurar propriedades por aqui, algumas dessas pessoas poderiam saber alguma coisa. E eu procuraria na lista de propriedades
comerciais tambm. -- Hum-hum. -- E enquanto estiver fazendo isso, descubra o que puder sobre seja l quem for o proprietrio da mercearia do Joe. -- No  o Joe?
-- No. A mercearia era de Joe e Angelina Carlucci. Quero saber aonde eles foram parar e quem  o novo dono da mercearia. Veja se consegue algumas boas respostas.
-- E voc ia entrar em contato com o seu amigo do Times. -- Sim, Lemley --. Marshall acrescentou uma nota ao seu pedao de papel. -- S isso? -- Por enquanto. Enquanto
isso, voltemos a cuidar do jornal. O tempo todo, durante a reunio com Weed e a

conversa que se seguiu, Carmem estava sentada  sua mesa, muito ocupada e fazendo de conta que no tinha ouvido nem uma palavra. A manh havia sido apertada, com
o prazo do prximo nmero galopando ao encontro deles, mas at o meio-dia a colagem estava pronta para a tipografia e o escritrio teve a oportunidade de voltar
ao ritmo normal. Marshall ligou para Lemley, seu antigo confrade no Times de Nova York. Lemley recebeu a informao que Marshall possua acerca desse estranho personagem
Kaseph, dizendo que encetaria a busca imediatamente. Marshall desligou o telefone com uma mo e agarrou o palet com a outra; sua prxima parada era o encontro daquela
tarde com o recluso Ted Harmel. Berenice saiu para as tarefas designadas. Estacionou o carro vermelho no estacionamento do que fora a mercearia do Joe, e que agora
se chamava Ashton Mercantil, e entrou no estabelecimento. Cerca de meia hora mais tarde, ela voltou ao carro e foi embora. Tinha sido uma viagem perdida: ningum
sabia nada, apenas trabalhavam l, o gerente no estava, e no tinham a mnima idia de quando ele voltaria. Alguns jamais tinham ouvido falar de Joe Carlucci, alguns
tinham mas no sabiam aonde ele tinha ido parar. O auxiliar do gerente finalmente pediu-lhe que parasse de amolar os empregados na hora de trabalho. Era isso o que
conseguira ao procurar boas respostas. Agora, toca a procurar as imobilirias. A Imobiliria Johnson-Smythe ocupava uma casa antiga reformada como escritrio, localizada
na orla do distrito comercial; a casa ainda tinha um jardim muito gracioso na frente, com uma espcie de sequia alta plantada no meio e uma caixa de correspondncia
original, imitando uma cabana de toras, na frente.

Dentro, era clida e aconchegante, e silenciosa. Duas escrivaninhas ocupavam o que antigamente era sala de estar; as duas estavam desertas no momento. Nas paredes
encontravam-se quadros de avisos com fotos de casa aps casa, com cartes debaixo de cada foto descrevendo o prdio, a propriedade, a vista, proximidade de lojas
e assim por diante, e por ltimo, mas no menos importante, o preo. Puxa, o que as pessoas estavam pagando esses dias por uma casa! A uma terceira escrivaninha
no que tinha sido a sala de jantar, uma jovem ps-se de p e sorriu para Berenice. -- Ol, em que posso servi-la? Berenice perguntou: sorriu tambm, apresentou-se,
e

-- Preciso fazer uma pergunta que pode parecer um tanto estranha, mas aqui vai. Est pronta? -- Pronta. -- Vocs trataram de algum negcio com algum pelo nome de
A. Kaseph no ano passado? -- Como se escreve esse nome? Berenice soletrou-o para ela, depois explicou. -- Sabe, estou tentando entrar em contato com ele.  uma questo
pessoal. Gostaria de saber se voc teria um nmero telefnico ou endereo, ou qualquer coisa. A moa olhou o nome que havia acabado de escrever num pedao de papel
e disse: -- Bem, sou nova aqui, por isso no sei, mas deixe-me perguntar  Rosemary. -- Enquanto isso, importa-se se eu der uma olhada no seu arquivo de microfilme?

-- Pode olhar. Voc sabe como funciona? -- Sim. A moa dirigiu-se aos fundos onde Rosemary, aparentemente a chefe, tinha o escritrio. Berenice podia ouvir Rosemary
falando no telefone. Obter resposta dela poderia demorar um pouco. Berenice foi ao monitor de microfilmes. Por onde comear? Ela olhou um mapa de Ashton e vizinhanas
na parede e encontrou a localizao da mercearia do Joe. As centenas de pequenas placas de celulide estavam arranjadas por Seo, Cidade, Divises, e os nmeros
de ruas. Berenice teve de olhar para diante e para trs ao tentar obter todos os nmeros do mapa. Finalmente achou que poderia ter encontrado o microfilme certo
para colocar no monitor. -- Com licena -- veio uma voz. Era Rosemary, marchando pelo corredor em sua direo com uma expresso sombria no rosto. -- Srta. Krueger,
sinto muito, mas os microfilmes so para uso exclusivo de nosso pessoal. H alguma coisa que a senhorita gostaria que eu procurasse... Berenice manteve-se calma
e tentou fazer com que as coisas continuassem a fluir. -- Claro, desculpe. Eu estava tentando descobrir quem  o novo proprietrio da mercearia do Joe. -- Eu no
saberia dizer. -- Bem, achei que poderia estar em algum lugar aqui na mquina. -- No, acho que no. Faz algum tempo desde que as fichas foram atualizadas. -- Bem,
poderamos olhar mesmo Rosemary ignorou totalmente a pergunta. assim?

-- Alguma outra coisa que a senhorita deseja

saber? Berenice manteve-se firme e inabalvel. -- Ora, a minha pergunta original ainda no foi respondida. Vocs fizeram algum negcio com algum chamado Kaseph
no ano passado? -- No, nunca ouvi falar nesse nome. -- Bem, talvez outra pessoa da sua equipe... -- Eles tambm nunca ouviram falar --. Berenice estava prestes
a questionar essa resposta, mas Rosemary interrompeu com: -- Eu saberia. Conheo todos os clientes deles. Berenice pensou em mais uma coisa. -- Vocs no teriam
um... referncias cruzadas, teriam... um fichrio de

-- No, no temos -- respondeu Rosemary muito abrupta. -- Agora, mais alguma coisa? Berenice estava cansada de ser educada. -- Bem, Rosemary, mesmo que tivesse,
estou certa de que voc no poderia ou estaria disposta a fornec-lo. Estou indo agora, pode respirar aliviada. Ela saiu s pressas, sentindo que lhe haviam mentido
muito.

20
Marshall estava comeando a preocupar-se com os amortecedores. Essa velha estrada de madeireiros tinha mais buracos do que asfalto; aparentemente j no era muito
usada pelas serrarias, mas havia sido deixada aos caadores e excursionistas que conheciam a rea o suficiente para no se perder. Marshall no a conhecia. Ele olhou
novamente s instrues rabiscadas

e depois ao odmetro. Puxa, os quilmetros passam devagar em estradas como esta! Sacolejando, Marshall contornou uma curva pedregosa e finalmente viu um veculo
adiante, estacionado ao lado da estrada. Sim, um velho Corcel. Era Harmel. Marshall encostou atrs do Corcel e saiu. Ted Harmel desceu do carro, vestido em trajes
apropriados ao ar livre: camisa de l, calas de brim desbotadas, botas, bon de l. Seu aspecto correspondia ao tom de voz: exausto e apavorado. -- Hogan? -- perguntou.
-- Sim -- disse Marshall, estendendo a mo. Harmel apertou-a e ento voltou-se bruscamente. -- Venha comigo. Marshall seguiu-o por um trilho que subia por entre
rvores altas, toras, pedras e vegetao rasteira. Marshall estava de terno e os sapatos definitivamente eram do tipo errado para aquele terreno, mas no seria ele
quem reclamaria; recapturara a caa que havia fugido. Finalmente Harmel pareceu dar-se por satisfeito com o isolamento que haviam alcanado. Encaminhouse a uma enorme
tora ressecada e descorada pelas estaes, e sentou-se sobre ela. Marshall sentou-se ao seu lado. -- Quero agradecer o ter-me chamado -- disse Marshall abrindo o
dilogo. -- Nunca tivemos este encontro -- disse Harmel abruptamente. -- Est de acordo? -- Conte comigo. -- Agora, o que sabe a meu respeito? -- No muito. Voc
foi o redator do Clarim, Eugene Baylor e os outros diretores da faculdade estiveram

envolvidos no seu caso, voc e Eldon Strachan so amigos... -- Marshall repassou rapidamente tudo o que conseguira descobrir, em grande parte o que ele e Berenice
tinham coligido de antigos artigos do Clarim. Harmel assentiu com a cabea. -- Sim, tudo isso  verdade. Eldon e eu ainda somos amigos. Passamos basicamente pela
mesma coisa, por isso temos uma espcie de companheirismo. Quanto ao molestamento de Maria Jarred, a menina de Adam Jarred, foi um embuste estranho. No sei quem
a preparou, ou como, mas algum fez aquela menina dizer todas as palavras certas  polcia. Acho muito significativo o fato de a questo toda ter sido engavetada
na surdina. O que disseram que eu fiz  crime; no se dispe de uma coisa desse tipo debaixo de um quieto assim. -- Por que aconteceu, Ted? O que voc fez para trazer
uma coisa dessas sobre si? -- Envolvi-me demais. Voc tem razo quanto a Juleen e os outros.  uma sociedade secreta, um clube, toda uma rede de pessoas. Ningum
guarda segredo de nenhum dos outros. Os olhos do grupo esto por toda a parte; vigiam o que a pessoa faz, o que diz, o que pensa, como se sente. Esto trabalhando
em prol do que chamam de Mente Universal, o conceito de que mais cedo ou mais tarde todos os habitantes do mundo daro um gigantesco salto evolucionrio e se uniro
em um crebro global, uma percepo transcendental --. Harmel se deteve e olhou para Marshall.-- Estou soltando tudo conforme vai-me ocorrendo. Est fazendo sentido?
Marshall teve de comparar o que Harmel estava "soltando" com aquilo que ele j sabia. -- Cada pessoa afiliada  rede exclusiva aceita essas idias? -- Sim. A coisa
toda  estruturada ao redor de

idias de ocultismo, misticismo oriental, percepo csmica.  por isso que meditam e fazem leituras psquicas e tentam unificar as mentes... --  isso o que fazem
nas sesses de terapia com a Langstrat? -- Sim, exatamente. Cada pessoa que se associa  rede passa por certo processo de iniciao. Rene-se com Juleen e aprende
a alcanar estados alterados de percepo, poderes psquicos, experincias fora do corpo. As sesses podem constituir de apenas uma pessoa, ou diversas, mas Juleen
est no centro de tudo, como guru, e todos ns ramos seus discpulos. Todos nos tornamos como um, um organismo crescente, interdependente, tentando tornar-nos um
com a Mente Universal. -- Voc disse algo acerca de... unificar as mentes? -- Percepo Extra-Sensorial, telepatia, seja l o que for. Os pensamentos da pessoa no
lhe pertencem, nem tampouco a vida. A pessoa no passa de um segmento do todo. Juleen  muito hbil em coisas desse tipo. Ela... ela conhecia cada pensamento meu.
Ela me possua... -- Harmel teve dificuldade em falar sobre essa parte. Tornou-se tenso, a voz falhou e o volume diminuiu. -- Talvez ainda me possua. s vezes, ouo-a
a me chamar... movendo-se pelo meu crebro. -- Ela possui todos os outros tambm? Harmel assentiu com a cabea. -- Sim, todos possuem todos, e no se detero enquanto
no possurem toda a cidade. Eu podia ver que era nisso que daria. Qualquer pessoa que os atrapalha desaparece subitamente.  por isso que ainda estou sem saber
o que aconteceu a Edie. Desde que esse negcio todo comeou a ocorrer, fico desconfiado quando algum desaparece de repente... -- Que perigo Edie podia representar
para eles?

-- Talvez ela seja apenas mais um passo para a sua eliminao. No me surpreenderia. Eles eliminaram Eldon, me eliminaram, eliminaram Jefferson... -- Quem  Jefferson?
-- O juiz distrital. No sei como o conseguiram, mas, de repente, ele resolveu que no queria ser reeleito. Vendeu a casa, deixou a cidade, e ningum ouviu falar
nele desde ento. -- E agora Baker ocupa o lugar dele... -- Ele faz parte da rede.  possudo. -- E ento, voc sabia disso na ocasio em que seu pequeno crime foi
resolvido na surdina? Harmel assentiu com a cabea. -- Ele me disse que podia criar um caso muito feio para mim, entregar-me nas mos do promotor municipal e a
estaria fora de sua jurisdio. Ele sabia muito bem que era uma fraude! Era cheque-mate e aceitei o que ele ofereceu. Sa da cidade. Marshall tirou um bloco de anotaes
e a caneta. -- Quem mais voc conhece que pertence ao bando? Harmel desviou o olhar. -- Se eu lhe contar demais, sabero que fui eu a fonte. Voc ter de descobrir
por si mesmo. Tudo o que posso fazer  orient-lo na direo certa. Verifique o gabinete do prefeito e a cmara dos vereadores; veja quem  novo ali e quem foi substitudo.
Tem havido muitas substituies ultimamente --. Marshall anotou. -- Voc tem o Brummel? -- Sim, Brummel, Young, Baker. -- Verifique o comissrio municipal de terras,
e o presidente do Banco Independente, e... -- Harmel sondava a memria. -- O tesoureiro municipal.

-- Ele est na minha lista. -- O conselho diretor da faculdade? -- Sim. Escute, no foi o arrufo com eles que o levou a ser expulso da cidade? -- Apenas em parte.
Eu j no estava sob o controle deles. Atrapalhava. A rede deu um jeito em mim antes que eu lhes causasse dano. Mas no h como prov-lo. De qualquer forma, no
importa. A coisa toda  grande demais;  como um enorme organismo, um cncer que vai-se espalhando. Voc no pode ir atrs de apenas uma das partes como os diretores
e pensar que mata a coisa toda. Est em toda a parte, em todos os nveis. Voc  religioso? -- Num sentido meio limitado, acho. -- Bem, vai precisar de alguma coisa
para a luta.  espiritual, Hogan. No d ouvidos  razo, nem  lei, ou a nenhum conjunto de leis morais alm do seu prprio. Eles no acreditam em nenhum Deus,
eles so Deus --. Harmel fez uma pausa a fim de se acalmar e ento principiou em tom diferente. -- Comecei a envolver-me com Juleen quando quis escrever uma histria
acerca da assim chamada pesquisa que ela estava fazendo. Fiquei intrigado com tudo aquilo, a parapsicologia, os estranhos fenmenos que ela estava documentando.
Comecei tambm a fazer sesses de aconselhamento com ela. Deixei-a ler e fotografar minha aura e meu campo de energia. Deixei que ela me sondasse a mente e fundisse
os nossos pensamentos. Na realidade, entrei para aquilo  procura de uma novidade, mas fui fisgado. No consegui me afastar. Depois de certo tempo comecei a participar
de algumas das mesmas coisas com as quais ela estava profundamente envolvida: eu saa do corpo, ia para o espao, conversava com meus instrutores -- Harmel se deteve.
-- Oh, cara, est certo: voc nunca vai acreditar em nada do que eu disse!

Marshall foi firme, e talvez realmente acreditasse. -- Diga-me, de qualquer modo. Harmel cerrou os dentes e voltou os olhos para o cu. Tateou, gaguejou, empalideceu.
-- No sei. Acho que no posso contar. Eles descobriro. -- Quem descobrir? -- A rede. -- Estamos no meio do mato, Ted! -- No importa... -- Voc usou a palavra
instrutores. Quem so eles? Harmel apenas ficou sentado, tremendo, o terror esculpido em seu rosto. -- Hogan -- disse afinal -- ningum pode tra-los. No lhe posso
dizer! Eles sabero! -- Mas quem so? Pode pelo menos dizer-me isso? -- Nem sei se so reais -- murmurou Harmel. -- Eles apenas esto. .. ali, isso  tudo. Professores
ntimos, guias espirituais, mestres elevados... so chamados de todo o tipo de coisa. Mas qualquer pessoa que siga os ensinamentos de Juleen por muito tempo invariavelmente
acaba se envolvendo com eles. Eles aparecem sem a gente saber de onde vm, falam com a gente, s vezes aparecem quando se est meditando. H vezes em que a prpria
pessoa os visualiza, mas depois eles assumem vida e personalidade prprias... j no  apenas a sua imaginao. -- Mas o que so eles? -- Seres... entidades. s
vezes so como pessoas de verdade, s vezes ouve-se apenas uma voz, s vezes apenas sente-se a presena delas, como espritos,

suponho. Juleen trabalha para eles, ou talvez eles trabalhem para ela, no sei como a coisa funciona. Mas no se pode esconder deles, no se pode fugir, no se pode
fazer nada em segredo. So parte da rede e a rede sabe tudo, controla tudo. Juleen me controlava. Chegou a interpor-se entre mim e Gail. Perdi minha esposa por causa
desse negcio. Comecei a fazer tudo o que Juleen mandava... ela me chamava no meio da noite e me dizia que fosse  sua casa, e eu ia. Ela me dizia que no publicasse
certa histria, eu no publicava. Ela me dizia que tipo de notcias publicar e eu publicava, exatamente como ela mandava. -- Ela me possua, Hogan. Podia ter-me
dito que pegasse um revlver e me matasse, e talvez eu o tivesse feito. Voc precisa conhec-la para entender o que estou dizendo. Marshall lembrou-se de estar em
p no corredor do lado de fora da classe de Juleen Langstrat sem saber como fora parar l. -- Acho que entendo. -- Mas Eldon descobriu o que estava acontecendo com
as finanas da faculdade, e ns dois averiguamos a coisa, e ele estava certo. A faculdade estava a caminho do desastre, e estou certo de que ainda est. Eldon tentou
det-la, endireitar toda a baguna. Tentei ajudlo. Juleen veio atrs de mim imediatamente e fez todo o tipo de ameaa. Acabei indo em duas direes, fiel a duas
causas diferentes. Era como ser rasgado ao meio por dentro. Talvez tenha sido o que me fez despertar; resolvi que j no seria controlado, nem pela rede, nem por
ningum. Eu era jornalista; tinha de publicar as coisas da forma como as via. -- E eles deram um jeito em voc. -- Veio totalmente de surpresa. Bem, talvez no totalmente.
Quando a polcia foi ao jornal e me prendeu,

eu quase sabia do que se tratava. Era algo que eu podia ter predito pela forma como Juleen e os outros me ameaaram. Eles j haviam feito esse tipo de coisa antes.
-- Por exemplo? -- No posso deixar de pensar que os escritrios imobilirios, os registros de impostos, qualquer informao que possa obter acerca das propriedades
na cidade poderiam mostrar algo. No pude investigar esse lado quando era redator, mas todas as recentes transaes imobilirias no me pareciam muito corretas.
O negcio imobilirio no estava parecendo muito correto a Berenice tambm. Assim que ela chegou  frente da Imobiliria Tyler e Filhos, viu o dono, Albert Tyler,
fechando o prdio e aprontando-se para sair. Ela abriu a janela do carro e perguntou: -- Escute, vocs no ficam abertos at s 5:00hs? Tyler sorriu e deu de ombros.
-- No nas quintas. Berenice leu o horrio na porta da frente. -- Mas o horrio diz segunda a sexta, das 10:00 s 5:00hs. Tyler mostrou-se um tanto irritado. --
No nas quintas, j disse! Berenice notou o filho de Tyler, Calvin, saindo em seu Fusca de trs do prdio. Ela saltou do carro e acenou-lhe que parasse. De m vontade,
ele parou e abriu a janela. -- O que ? -- perguntou. -- Vocs geralmente no ficam abertos at s 5:00hs nas quintas? Calvin deu de ombros e fez uma careta.

-- E eu sei l? O velho diz vo para casa, e todos ns vamos para casa. Ele se foi. O "velho" Tyler estava entrando em seu carro. Berenice correu at ele e abanou
a mo chamando-lhe a ateno. A essa altura ele estava realmente zangado. Abriu a janela e disse asperamente: -- Dona, j fechamos e tenho de ir para casa! -- Eu
queria apenas examinar o seu arquivo de microfilmes. Preciso de informao sobre uma propriedade. Ele abanou a cabea. No posso ajud-la, de qualquer forma. Nosso
arquivo de microfilmes est quebrado. -- O qu...? Mas Tyler fechou a janela e se foi, cantando os pneus de leve. Berenice gritou enraivecida aps ele: -- Rosemary
o avisou? Ela se dirigiu s pressas ao carro. Havia ainda a Primeira Imobiliria da Cidade. Ela sabia que seu proprietrio dava uma mo ao time juvenil de beisebol
nas tardes de quinta-feira. Talvez a outra garota que trabalhava l no soubesse quem ela era. Harmel tinha um aspecto sombrio e abatido quando disse: -- Eles acabaro
com voc, Hogan. Tm influncia e as conexes a fim de faz-lo. Olhe para mim: perdi tudo o que possua, perdi minha esposa e minha famlia... eles me depenaram.
Faro o mesmo com voc. Marshall queria respostas, no vaticnios de mau agouro.

-- O que sabe acerca de um sujeito chamado Kaseph? Harmel fez uma careta de renovado desprazer. -- V atrs dele. Ele pode ser a fonte de toda a encrenca. Juleen
adorava esse cara. Todo o mundo fazia o que Juleen mandava, mas ela fazia o que ele mandava. -- Voc sabe se ele estava procurando alguma propriedade em Ashton?
-- Ele estava babando pela faculdade, disso eu sei. Marshall surpreendeu-se. -- A faculdade? Continue. -- No cheguei a ter a chance de investigar isso, mas pode
ser que haja algo a. Ouvi conversa na Rede de que a faculdade seria totalmente tomada por alguns maiorais da Rede, e Eugene Baylor passava muito tempo conversando
sobre dinheiro com Kaseph ou seus representantes. -- Kaseph estava tentando comprar a faculdade? -- Ainda no comprou. Mas acabou comprando tudo o mais na cidade.
-- O qu, por exemplo? -- Uma poro das casas, disso sei, mas no consegui descobrir muita coisa. Como j disse, examine os registros de impostos ou as agncias
imobilirias a fim de saber se ele est comprando outras coisas. Sei que tinha o dinheiro para faz-lo --. Harmel puxou um envelope de papel amarelo rasgado de debaixo
da jaqueta. -- E tire-me isto das mos, est bem? Marshall apanhou o envelope. -- O que ? -- Uma maldio, isso  o que . Algo acontece a quem o possuir. O contador
amigo de Eldon, Ernie Johnson, me

deu, e acho que Eldon lhe tenha dito o que aconteceu ao homem? -- Ele me contou. -- Contm o que Johnson encontrou departamento de contabilidade da faculdade. Marshall
no conseguia acreditar na sua sorte. -- Voc deve estar brincando. Eldon sabe a respeito disto? -- No, eu mesmo acabei de encontrar esses papis, mas no se ponha
a danar ainda.  melhor arranjar um contador amigo seu a fim de tentar decifrlos. No fazem muito sentido para mim... Acho que falta a outra metade dele. -- 
um comeo. Obrigado. -- Se voc quiser brincar com teorias, experimente esta: Kaseph vem a Ashton e quer comprar tudo em que consegue pr as mos. A faculdade no
est nem pensando em venda. Logo a seguir, graas a Baylor, a faculdade se mete em apuros financeiros to profundos que vender pode ser a nica forma de sair da
encrenca. De repente, a oferta de Kaseph no est to fora de cogitao e a essa altura o conselho diretor est lotado de gente que concorda com a venda. Marshall
abriu o envelope e folheou as pginas e pginas de fotocpias de colunas e nmeros. -- E voc no conseguiu encontrar nenhuma pista nisto tudo? -- No  de mais
pista que voc precisa, no tanto quanto de prova. O que precisa realmente achar  quem est no outro lado de todas essas transaes. -- Os amigos de Kaseph, talvez?
-- Com todos os amigos e associados que ele tem naquela faculdade, eu no ficaria surpreso se Kaseph no

estivesse voltando a compr-la com dinheiro da prpria faculdade! -- Essa  uma teoria e tanto. Mas o que um homem como esse iria querer com uma cidadezinha, ou
mesmo com toda uma faculdade? -- Hogan, um sujeito com o poder e a grana que aquele cara parece possuir poderia tomar toda a cidade de Ashton e fazer o que quisesse
com ela. Acho que, em grande parte, ele j conseguiu isso. -- Como sabe? -- Apenas averige.

21
Berenice tinha pressa. Ela estava na sala dos fundos da Primeira Imobiliria da Cidade, repassando o arquivo de microfilmes. Carla, a garota da recepo, era nova
no emprego e na cidade o bastante para cair na conversa fiada de Berenice a respeito de ser uma historiadora da faculdade procurando informaes a respeito da histria
de Ashton. No demorou para Carla mostrar os arquivos a Berenice e dar-lhe um curso rpido em como operar o monitor. Quando Carla a deixou, Berenice foi direto ao
arquivo cruzado. Aquele certamente era um maravilhoso golpe de sorte: as outras agncias imobilirias possuam arquivos que diziam quem era o dono das propriedades
se a pessoa soubesse onde a propriedade se localizava; as fichas cruzadas traziam o que as pessoas possuam se se soubesse o nome delas. Kaseph. Berenice rolou o
porta-filmes at chegar aos ks. Colocando a celulide no monitor, ela ps-se a procurar para cima e para baixo, de lado a lado, em

ziguezague, as mirades de letras e nmeros microscpicos passando num borro pela tela enquanto ela buscava a coluna certa. L estava. Kw... Kh... Ke... Ka... atravessando
para a prxima coluna. Depressa, Berenice! Ela no encontrou nada registrado sob Kaseph. -- Como est indo? -- perguntou Carla da recepo. -- Muito bem -- respondeu
Berenice. -- No estou encontrando muita coisa ainda, mas sei onde procurar. Bem, ainda havia a mercearia do Joe. Ela voltou ao arquivo normal e retirou o microfilme
da seo, cidade e diviso para aquele endereo. L foi a celulide monitor adentro, e mais uma vez Berenice correu as mirades de listas para cima e para baixo,
procurando o registro. L estava! A descrio legal do que antes era a mercearia do Joe, agora Mercantil de Ashton. Havia sido avaliada em 105.900 dlares para fins
de imposto, e o proprietrio era a Omni S.A. Era tudo o que dizia. Berenice voltou s fichas cruzadas. Monitor adentro foi a celulide Ok-Om. Para cima, para baixo,
de lado. Olson... Omer... Omni. Omni. Omni. Omni. Omni. Omni. Os registros sob Omni Companhia Ltda. desceram, desceram, desceram pela coluna; poderia ter havido
mais de cem. Berenice tirou a caneta e bloco de anotaes e ps-se a escrever furiosamente. Os muitos endereos e descries legais pouco significavam para ela;
muitos deles nem eram decifrveis, mas ela continuou rabiscando to depressa quanto conseguia, na esperana de poder ler a prpria letra mais tarde. Ela abreviou,
enchendo pgina aps pgina do bloco. O telefone tocou, como vinha fazendo; mas desta vez a conversa de Carla no pareceu muito feliz. A voz da moa estava baixa
e sria, e ela parecia estar-se desculpando bastante. A festa pode estar acabando,

mocinha, trate de escrever! Num instante Carla apareceu. -- Voc  Berenice Krueger, do Clarim? -- perguntou ela diretamente. -- Quem quer saber? -- disse Berenice.
Era bobagem, mas ela no queria ter de dizer logo a verdade. Carla pareceu muito perturbada. -- Escute, vai ter de ir embora imediatamente -- disse ela. -- Foi o
seu chefe quem telefonou, certo? -- Sim, e eu ficaria grata se voc no dissesse que a deixei entrar. No sei o que est acontecendo, e no sei por que mentiu para
mim, mas poderia fazer o favor de sair? Ele est vindo para c a fim de trancar o local, e eu disse que voc no tinha aparecido... -- Voc  um amor! -- Bem, menti
por voc, agora faa o favor de mentir por mim. Berenice apressou-se em reunir as suas anotaes e colocar de volta as celulides. -- Nunca estive aqui. -- Agradeo
-- disse Carla enquanto Berenice saa correndo. -- Voc quase me fez perder o emprego. O lar de Andy e June Forsythe era muito agradvel, uma moderna casa de toras
nas cercanias da cidade, no muito longe da Serraria Forsythe. Aquela noite, Hank e Mary tinham ido l para um jantar de comunho juntamente com muitos outros do
Remanescente, enquanto Krioni, Triskal, Sete, Chimon e Mota, sentados nos caibros, olhavam. Os anjos sentiam o crescente poder desse grupinho de pessoas de orao.
Os Jones estavam presente, bem como os Cole-mans, os

Coopers, os Harris, alguns alunos da faculdade; Ron Forsythe tambm estava presente juntamente com a namorada Cynthia. Alguns outros cristos recentemente convertidos
estavam com ele, sendo apresentados agora ao restante do grupo. Outros retardatrios vinham chegando aos poucos. Aps o jantar, o povo se reuniu e acomodou-se em
torno da grande lareira de pedra na sala de estar, enquanto Hank tomou seu lugar  frente, com Mary ao lado. Cada pessoa principiou a falar sobre sua formao. Bill
e Betty Jones haviam freqentado a igreja a vida toda, mas tinham assumido um compromisso srio com Jesus fazia apenas um ano. O Senhor lhes havia falado ao corao
e eles o haviam buscado. John e Patty Coleman haviam freqentado outra igreja na cidade, mas nunca aprenderam muito acerca da Bblia ou de Cristo at virem para
aquela igreja. Cecil e Mriam Cooper haviam sempre conhecido ao Senhor, e estavam felizes ao ver um novo rebanho reunindo-se para substituir o antigo. -- Parece
bastante com trocar um pneu vazio -- brincou Cecil. Enquanto os outros falavam, seus variados antecedentes foram expostos; havia tradies diferentes e antecedentes
doutrinrios diferentes, mas nenhuma diferena era muito importante naquele momento. Todos tinham uma grande preocupao comum: a cidade de Ashton. -- Oh,  guerra,
sem dvida -- disse Andy Forsythe. -- No se pode sair s ruas e no sentir isso. s vezes tenho a sensao de estar correndo dentro de uma chuva de lanas, sabem?
Um novo casal, amigos dos Coopers, Dan e Jean Corsi, falaram. Jean disse: -- Acho que Satans est realmente solto por a,

conforme diz a Bblia, como um leo que ruge tentando devorar a todos. Dan comentou: -- O problema  que ns apenas nos assentamos nas laterais e deixamos as coisas
acontecerem. Est na hora de nos preocuparmos e ficarmos com medo e nos ajoelharmos a fim de ver se o Senhor toma alguma providncia. Jean acrescentou: -- Alguns
de vocs sabem que nosso filho est passando por problemas bem srios no momento. Realmente gostaramos que orassem por ele. -- Qual  o nome dele? -- perguntou
algum. -- Bobby -- respondeu Jean. Ela engoliu em seco e disse a seguir: -- Ele se matriculou na faculdade este ano e algo realmente lhe aconteceu... -- Ela precisou
parar, sufocada de emoo. Dan continuou de onde ela havia parado, em tom amargo. -- Parece que algo acontece com qualquer garoto que vai para aquela faculdade.
Eu no sabia o tipo de coisa esquisita que eles estavam realmente ensinando l. O resto de vocs deveria descobrir o que est ocorrendo e no deixarem seus filhos
se envolverem. Ron Forsythe, quieto at aquele momento, disse: -- Sei do que est falando. Est acontecendo no ginsio tambm. A garotada est participando de negcios
satnicos como voc no acreditaria. Ns costumvamos tomar drogas; agora  demnios. Jean aventurou-se, atravs das lgrimas: -- Sei que parece terrvel, mas realmente
me

pergunto se Bobby no est possesso. -- Eu estava -- disse Ron. -- Sei que estava. Cara, eu ouvia vozes dizendo-me que conseguisse umas drogas, ou roubasse algo,
todo o tipo de coisa terrvel. Eu no dizia aos meus pais onde estava, no ia para casa, acabava dormindo nos lugares mais esquisitos... e com as pessoas mais esquisitas.
Dan murmurou: -- ,  assim que o Bobby est. Faz quase uma semana que no o vemos. Jean quis saber: -- Mas como foi que voc comeou com essas coisas? Ron deu de
ombros. -- Eu j estava andando pelo caminho errado. No estou seguro de estar endireitado. Mas digo-lhes quando acho que me envolvi com o satanismo: foi quando
algum previu o meu futuro. Foi ento que peguei a doena, disso estou certo. Algum perguntou se a cartomante era uma certa mulher. -- No, era outra pessoa. Foi
no festival, h trs anos. -- Ah, eles esto por todos os cantos -- gemeu outra pessoa. -- Bem, isso apenas vem mostrar como esta cidade est fora de base! -- protestou
Cecil Cooper. -- H mais feiticeiras e cartomantes do que professores de escola dominical! -- Bem, teremos de ver o que podemos fazer a esse respeito! -- disse John
Coleman. Ron interveio novamente. --  trabalho pesado. Isto , vi umas coisas bem

esquisitas: j vi coisas flutuarem sozinhas, j li as mentes das pessoas, cheguei at a sair do corpo certa vez e flutuar pela cidade. Vocs tm mais  que orar
mesmo! Jean Corsi ps-se a chorar: -- Bobby est possesso... eu sei que est! Hank percebeu que estava na hora de assumir o controle. -- Muito bem, minha gente,
sinto uma responsabilidade muito grande de orar por esta cidade, e sei que vocs tambm sentem, por isso acho que  aqui que se encontra a nossa resposta.  a primeira
coisa que precisamos fazer. Todos estavam prontos. Muitos se sentiam sem graa ao orar em voz alta pela primeira vez; alguns sabiam orar alto e confiantemente; alguns
oravam em frases que haviam aprendido em certas liturgias; todos eram sinceros em cada palavra que diziam, no importava como se expressassem. O fervor comeou a
crescer devagar; as oraes tornaram-se mais e mais fervorosas. Algum comeou a entoar uma cano simples de adorao e os que a conheciam, cantavam, enquanto os
que no a conheciam, aprendiam. Nas vigas os anjos cantavam, as vozes suaves fluindo como violoncelos e baixos numa sinfonia. Triskal olhou para Krioni, sorriu um
largo sorriso, e flexionou os braos. Krioni sorriu e repetiu o gesto. Chimon tomou da espada e a fez danar em torno do pulso, traando fitas e cachos de luz trmula
no ar enquanto a lmina cantava com linda ressonncia. Mota apenas fitou os cus, as asas sedosas abrindo-se, os braos erguidos, arrebatado no xtase da msica.
Kate silenciosamente arrumou a mesa da cozinha,

colocando um prato, uma xcara e um pires. Aquela noite ela comeu sozinha, mal conseguindo engolir alguma coisa por causa das emoes que lhe constringiam a garganta
e lhe reviravam o estmago. Ora, de qualquer forma eram sobras, sobras daquelas muitas outras refeies para as quais Marshall no aparecera. Era o que estava acontecendo
de novo. Talvez o lugar nada tivesse a ver com o quanto um jornalista se ocupasse. Talvez, embora Marshall se tivesse mudado para uma cidade pequena, supostamente
pacata, ele ainda possusse aquele maldito faro para novidades que o conduzia em buscas fantsticas a toda e qualquer hora da noite, arrumando uma histria onde
nenhuma existia. Talvez esse fosse, afinal de contas, o seu primeiro amor, mais do que a esposa, mais do que a filha. Sandy. Onde estaria ela? No haviam feito essa
mudana por causa dela? Agora ela se encontrava mais distante deles do que nunca, embora ainda morasse na mesma casa. Shawn havia invadido a vida da mocinha como
um cncer, no um amigo, e Kate e Marshall nunca chegaram a falar a respeito segundo ele prometera. Marshall havia estado completamente distrado. Estava casado
com o jornal, talvez enamorado da jovem e atraente reprter. Kate empurrou o prato e tentou no chorar. Ela no podia comear a criar confuso e a derramar lgrimas
agora, no quando tinha de pensar claramente. Indubitavelmente haveria decises a tomar, e ela teria de tom-las sozinha. Nos arredores de Ashton, ao lado do ptio
da estrada de ferro, Tal conferenciava com seus guerreiros dentro de uma velha e enorme caixa d'gua abandonada. Nat andava de um lado para outro, a voz ecoando

nas paredes do enorme tanque. -- Eu pressenti o que ia acontecer, Capito! O inimigo est atraindo Hogan para uma armadilha. A afeio que ele tem por Krueger tem
sofrido uma perigosa mudana. Sua famlia est em grave perigo. Tal assentiu com a mergulhado em pensamentos. cabea e permaneceu

-- Exatamente o que se poderia esperar. Rafar sabe que nenhum ataque frontal funcionar; est tentando um golpe maligno atravs da sutileza e do comprometimento
moral. -- E est conseguindo, eu diria! -- Sim, concordo. -- Mas o que podemos fazer? Se Hogan perder a famlia, ser destrudo! -- No. Destrudo, no. Derrubado,
talvez. Dizimado, talvez. Mas tudo por causa da escria em sua prpria alma, acerca da qual o Esprito de Deus ainda no o convenceu. Nada podemos fazer a no ser
esperar e deixar que as coisas sigam o seu curso. Nat podia apenas sacudir a cabea em frustrao. Guilo ponderava as palavras de Tal.  claro que o que Tal dizia
era verdade. Os homens pecaro se quiserem. -- Capito -- perguntou Guilo -- e se Hogan cair? Tal recostou-se contra a mida parede de metal e respondeu: -- No
podemos nos preocupar com a questo do "se". O problema que precisamos enfrentar  o "quando". Hogan e Busche esto no momento construindo o alicerce de que precisamos
para esta batalha. Uma vez que ele esteja pronto, tanto Hogan quanto Busche precisam cair. Somente sua clara derrota forar o

Valente a sair do esconderijo. Guilo e Nat, consternados, fitaram Tal. -- O senhor... o senhor sacrificaria esses homens? -- perguntou Nat. -- Apenas por algum
tempo -- respondeu Tal. Marshall trouxe o grande pacote de lanamentos que Ernie Johnson pirateara do escritrio de contabilidade da faculdade Whitmore e o passou
por cima do balco de recepo do Clarim a Harvey Cole. Cole era um contador a quem Marshall conhecia bem e em quem podia confiar. -- No sei se voc conseguir
entender tudo isso -- disse Marshall -- mas veja se encontra seja l o que for que Johnson encontrou, e se parece trapaa. -- Puxa vida! -- disse Harvey. -- Isto
vai lhe custar uma nota! --- Darei em troca propaganda de graa. Que tal? Harvey sorriu. -- Boa idia. Est bem, verei o que posso fazer e depois ligarei para voc.
-- O mais depressa que puder. Harvey saiu porta afora e Marshall voltou ao escritrio, reunindo-se a Berenice a fim de darem continuidade ao projeto noturno, depois
do expediente. Eles trabalhavam no meio de um amontoado de anotaes, papis, listas telefnicas e quaisquer documentos pblicos nos quais tinham conseguido colocar
as mos. No meio daquilo tudo, uma lista combinada de nomes, endereos, cargos e registros de impostos estava sendo formada pea por pea. Marshall correu os olhos
sobre suas anotaes da entrevista com Harmel.

-- Muito bem, e que me diz do juiz, como  mesmo o nome dele, Jefferson? -- Anthony C. -- Berenice respondeu, folheando a lista telefnica do ano anterior. -- Sim,
Anthony C. Jefferson, Rua Alder, 221 --. Imediatamente ela procurou nas notas que rabiscara na Primeira Imobiliria da Cidade. -- Rua Alder, 221... -- Seus olhos
varreram uma pgina do caderno, depois outra, at que finalmente: -- Na mosca! -- Outro! -- Ento, veja se estou certa: Jefferson foi chutado pela Rede e Omni apareceu
e comprou-lhe a casa? Marshall rabiscou num bloco de papel amarelo alguns lembretes. -- Gostaria de saber por que Jefferson se mudou e por quanto ele vendeu aquela
casa. Tambm gostaria de saber quem est morando nela. Berenice deu de ombros. -- Precisaremos somente correr a lista e verificar os endereos da gente da Rede.
Aposto que  um deles. -- Que me diz de Baker, o juiz que substituiu Jefferson? Berenice examinou outra lista. -- No, Baker ocupa a casa que foi do diretor do ginsio,
ah, Waller, George Waller. -- Isso mesmo, foi ele que perdeu a casa na venda judicial. -- Oh, h uma poro delas, e aposto que encontraramos outras se soubssemos
onde procurar. -- Teremos de espionar no Departamento Municipal de Finanas. Seja como for, de alguma maneira, o imposto predial dessa gente nunca foi parar

onde deveria ter ido. No consigo acreditar que tanta gente assim deixasse de pagar os impostos. -- Algum desviou o dinheiro de forma que os impostos nunca chegaram
a ser pagos. Isso  sujeira, Hogan, sujeira da grossa. -- No foi Lew Gregory, o antigo tesoureiro. Veja isto. Ele teve de pedir demisso por causa de uma acusao
de conflito de interesses. Agora Irving Pierce ocupa o lugar dele, e Irving est nas mos da Omni, certo? --  isso a. -- E o que foi mesmo que voc descobriu acerca
do prefeito Steen? Berenice consultou suas anotaes, mas sacudiu a cabea. -- Ele comprou a casa recentemente; a transao parece em ordem exceto pelo fato de o
dono anterior ter sido o antigo Delegado de polcia que deixou a cidade sem um motivo aparente.  o que aconteceu a todas as outras pessoas que me faz indagar. --
, e por que nenhuma delas jamais piou ou criou caso. Ei, eu no permitiria que o municpio simplesmente chegasse e leiloasse a minha casa bem debaixo do meu nariz
sem fazer no mnimo algumas perguntas. Existe mais alguma coisa nisto tudo que no sabemos. -- Bem, pense nos Carluccis. Voc sabia que a casa deles foi vendida
para a Omni por 5.000 dlares. Isso  ridculo! -- E os Carluccis tomaram ch de sumio! Desapareceram sem mais esta nem aquela. -- E quem est morando na casa deles
agora? -- Talvez o novo diretor do ginsio, ou o novo chefe dos bombeiros, ou um novo vereador, ou um novo

isto ou novo aquilo! -- Ou um dos novos diretores da faculdade. Marshall tateou  procura de outros papis. -- Que baguna! -- Finalmente ele encontrou a lista que
procurava. -- Vamos repassar esses diretores e ver o que encontramos. Berenice folheou algumas pginas do seu bloco. -- Sei com certeza que a casa de Pinckston 
propriedade da Omni. Algum tipo de arranjo de guarda judiciria. -- E Eugene Baylor? -- No est com voc a em algum lugar? -- Est com um de ns, mas agora no
consigo me lembrar qual de ns. Os dois remexeram suas anotaes, papis, listas. Por fim Marshall encontrou a informao entre as folhas espalhadas. 1024. -- Aqui
est, Eugene Baylor, Rua 147 Sudoeste,

-- Acho que j o vi aqui em alguma parte --. Berenice examinou suas anotaes. -- Sim,  propriedade da Omni tambm. -- Doar tudo  Omni S.A. deve ser um requisito
para tornar-se membro. -- Bem, ento Young e Brummel so membros fundadores. Mas isso faz sentido. Se todos desejam fundir em uma Mente Universal, tm de eliminar
a individualidade, e isso significa no ter propriedade privada. Um a um, Marshall leu os nomes dos membros do conselho diretor da faculdade, e Berenice pesquisou-lhes
os endereos. Dos doze diretores, oito moravam em

casas da Omni S.A. Os outros alugavam apartamentos; um dos prdios de apartamentos era da Omni. Berenice no tinha informao referente aos outros prdios de apartamentos.
-- Acho que eliminamos a possibilidade de coincidncia -- disse Marshall. -- E agora no posso esperar para ouvir o que o seu amigo Lemley tem a dizer. -- Claro,
que Kaseph e a Omni esto ligados. Isso  bvio --. Marshall tirou um momento para ponderar. -- Mas sabe o que realmente me apavora? At agora, tudo o que vimos
aqui  legal. Estou certo de que trapacearam em algum lugar para chegarem onde esto, mas d para ver que esto operando dentro do sistema, ou pelo menos se saindo
muito bem ao fingir que esto. -- Ora, vamos, Marshall! Pela madrugada, ele est tomando a cidade toda! -- E fazendo-o legalmente. No se esquea disso. -- Mas ele
tem de deixar rasto em algum lugar. Conseguimos descobrir a trilha dele pelo menos at aqui. Marshall inspirou profundamente e ento soltou respirao com um suspiro.
-- Bem, podemos tentar ir atrs de todas as pessoas que venderam as propriedades e deixaram a cidade, tentar descobrir por que o fizeram. Podemos averiguar os cargos
que elas tinham antes de ir embora e quem est ocupando o cargo agora. Podemos perguntar a quem ocupe o cargo agora que ligao tem com a Omni ou com esse grupo
de viagens mentais da Percepo Universal. Podemos perguntar a cada um deles o que talvez saibam acerca do esquivo Sr. Kaseph. Podemos pesquisar mais um pouco a
prpria Omni S.A., descobrir onde  sediada, em que negocia, e do que mais

 dona. E depois acho que ser hora de levarmos o que sabemos diretamente aos nossos amigos e ver a sua reao. Berenice podia sentir algo palpvel na maneira de
Marshall. -- O que o est preocupando? Marshall arremessou as notas sobre a mesa e reclinou-se na cadeira para ponderar. -- Bernie, seramos bobos em pensar que
estamos imunes a tudo isto. Berenice assentiu com a cabea, resignada. -- Sim, tenho pensado nisso, sobre o que eles podem tentar fazer. -- Acho que eles j tm
a minha filha --. Uma declarao abrupta. O prprio Marshall ficou chocado ao ouvi-la. -- Voc no sabe disso com certeza. -- Se no sei disso, no sei de nada.
-- Mas que tipo de poder real eles poderiam exercer exceto econmico e poltico? Eu no engulo essa histria csmica, espiritual; nada mais  do que uma viagem da
mente. -- Isso  fcil para voc dizer, voc no  religiosa. -- Ver que  muito mais fcil assim. -- E se ns acabarmos como... como o Harmel, sem famlia, simplesmente
se escondendo no mato e falando de... fantasmas? -- Eu no me importaria de acabar como o Strachan. Ele parece bastante cmodo ficando longe de toda essa coisa.
-- Bem, Bernie, mesmo assim  melhor nos

prepararmos antes que a coisa chegue --. Muito grave, ele agarrou a mo dela e disse: -- Espero que ns dois saibamos no que estamos nos metendo. Podemos j estar
atolados demais. Poderamos desistir, suponho... -- Voc sabe que no podemos fazer isso. -- Sei que eu no posso. No estou esperando nada de voc. Pode sair agora,
mudar-se, ir trabalhar para alguma revista feminina ou coisa parecida. No me importarei. Ela sorriu e apertou com fora a mo dele. -- Morrendo todos, morrem felizes.
Marshall apenas meneou a cabea e devolveu o sorriso.

22
Em outro estado, numa rea de baixa renda de outra cidade, um pequeno furgo serpeava por uma rua repleta de crianas atravs de um conjunto habitacional. As pequenas
casas geminadas, exceto por diferentes esquemas de cores, eram feitas no mesmo padro. Quando o veculo parou no fim de um beco de asfalto envelhecido, via-se 'Tinturaria
Princesa" escrito na lateral. A motorista, uma jovem de macaco azul, os cabelos cobertos por leno vermelho, desceu. Abrindo a porta lateral, ela tirou uma grande
pilha de roupas e alguns vestidos em cabides, cobertos com sacos plsticos. Conferindo novamente o endereo, ela se encaminhou a uma porta em particular e tocou
a campainha.

Primeiro a cortina da janela da frente foi puxada para o lado, e depois ouviu-se o rudo de passos vindo na direo da entrada. A porta se abriu. -- Oi, tenho umas
roupas para entregar -- disse a jovem. -- Sim -- disse o homem que atendeu. -- Pode entrar. Ele abriu um pouco mais a porta de modo que ela pudesse passar, enquanto
trs crianas, no obstante sua grande curiosidade, tentavam manter-se fora do caminho. O homem chamou a esposa. -- Querida, a moa da tinturaria est aqui. Ela
veio da pequena cozinha, o aspecto tenso e nervoso. -- Crianas, vo brincar l fora -- ordenou. Elas choramingaram um pouco, mas a me as fez sair, fechou a porta,
e ento fechou a nica janela que ainda estava aberta. -- Onde conseguiu perguntou o homem. todas essas roupas? --

-- Estavam no furgo. No sei a quem pertencem. O homem, um italiano entroncado de cabelos crespos e grisalhos, ofereceu a mo. -- Joe Carlucci. A jovem colocou
o pacote no cho e apertou a mo dele. -- Berenice Krueger do Clarim. Ele lhe ofereceu uma cadeira e ento disse: -- Disseram-me que jamais falasse com voc ou com
o Sr. Hogan...

-- Por amor s crianas, disseram eles -- acrescentou a Sra. Carlucci. -- Esta  Angelina. Foi por causa dela, por causa das crianas que ns... nos mudamos, deixamos
tudo, nada dissemos. -- Pode ajudar-nos? Berenice aprontou o bloco. -- perguntou Angelina.

-- Muito bem, no se apressem. Comearemos pelo comeo. No que Al Lemley chamava de "metade do caminho" entre Ashton e Nova York, Marshall dirigiu o carro para o
estacionamento de uma pequena seguradora em Taylor, uma cidadezinha na encruzilhada de duas grandes rodovias e sem outro motivo genuno para estar ali. Ele entrou
no pequeno escritrio e foi imediatamente reconhecido pela senhora  escrivaninha. -- Sr. Hogan? -- perguntou ela. -- Sim, bom dia. -- O Sr. Lemley j chegou. Est
esperando pelo senhor. Ela o levou atravs de outra porta que dava para um escritrio dos fundos o qual ningum estava usando no momento. -- Temos caf aqui no balco,
e o banheiro  logo depois daquela porta  direita. Marshall fechou a porta, e somente ento Al Lemley se levantou e apertou-lhe calorosamente a mo. -- Marshall
-- disse ele -- como  bom ver voc. Muito bom! Era um homem pequeno, calvo, com nariz adunco e olhos azuis penetrantes. Era enrgico e cheio de vida, e Marshall
sempre o considerara um valiosssimo colega, um amigo que se disporia a prestar quase qualquer favor.

Al sentou-se atrs da escrivaninha e Marshall puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado de forma que ambos pudessem examinar o material que Al havia trazido. Por
alguns instantes falaram dos velhos tempos. Al estava preenchendo a vaga que Marshall deixara no Times, e estava comeando a realmente apreciar a capacidade de Marshall
em realizar o trabalho. -- Mas no acho que desejo trocar de lugar com voc agora, companheiro! -- disse ele. -- Pensei que voc se tivesse mudado para Ashton com
o intuito de fugir do rebulio da cidade grande! -- Acho que no consegui escapar -- disse Marshall. -- Em algumas semanas Nova York pode ser muito mais segura.
-- O que voc conseguiu? Al tirou uma foto 20 x 25 de uma pasta de arquivo e a deslizou pela mesa para debaixo do nariz de Hogan. --  este o seu homem? Marshall
olhou a foto. Ele nunca tinha visto Alexander M. Kaseph, mas por todas as descries ele sabia que tinha de ser ele. --  ele, sim -- disse Al. --  conhecido, mas
tambm no  conhecido, se voc entende o que quero dizer. O pblico em geral jamais ouviu falar desse cara, mas comece a perguntar aos investidores na Wall Street,
ou ao pessoal do Governo, ou a diplomatas estrangeiros, ou a qualquer outro sujeito que esteja de alguma forma ligado a rolos e poltica internacional e obter uma
resposta.  o presidente da Omni S.A., sim; os dois esto definitivamente ligados. -- Surpresa, surpresa. E o que voc sabe acerca da Omni?

Al empurrou uma pilha de material na direo de Marshall, uma pilha de diversos centmetros de altura. -- Graas a Deus por computadores. Tive de usar meios de investigao
um pouco fora do comum. Eles no tm sede, no tm endereo central; esto espalhados por escritrios locais em todo o mundo e se mantm quase no anonimato. Pelo
que pude perceber, Kaseph mantm sua equipe imediata ao seu lado e gosta de ser to invisvel quanto possvel, dirigindo a operao ningum sabe de onde.  estranhamente
subterrneo. No constam da Bolsa de Valores, pelo menos no com esse nome. As aes esto todas diversificadas entre, oh, talvez uma centena de diferentes companhias
que servem de fachadas. A Omni  a proprietria e controladora de cadeias de lojas, bancos, hipotecrias, lanchonetes, engarrafadores de refrigerantes, o que quiser,
eles tm. Al continuou a falar enquanto folheava a pilha de material. -- Pus alguns da minha equipe a cavar este negcio. A Omni no sai s claras, nem publica nada
acerca de si mesma. Primeiro, voc tem de descobrir qual  a firma que serve de fachada, depois se insinuar mais ou menos s escondidas pela porta dos fundos e descobrir
qual o interesse que a Grande Companhia Me tem nela. Veja esta aqui... -- Al produziu o relatrio anual dos acionistas de uma firma de minerao no estado de Idaho.
-- No se sabe a respeito do que se est realmente lendo enquanto no chegar aqui no fim... est vendo? "Uma subsidiria de Omni Internacional." -- Internacional...
-- Muito internacional. Voc no acreditaria na grande influncia que exercem no petrleo rabe, no Mercado Comum, no Banco Mundial, no terrorismo internacional...

-- O qu? -- No espere encontrar um relatrio aos acionistas a respeito da exploso do ltimo carro ou de assassnio em massa, mas para cada item legtimo documentado
aqui existem centenas de rumores que ningum consegue provar mas que todo o mundo conhece. --  a vida. -- E assim  o seu homem Kaseph. Deixe-me dizer o seguinte,
Marshall, ele sabe derramar sangue se precisar, e s vezes quando no precisa. Eu diria que esse cara  um perfeito cruzamento entre um arrematado guru e Adolfo
Hitler, e deixa Al Capone com cara de escoteiro. Dizem que at a Mfia tem medo dele! Angelina Carlucci tinha a tendncia de falar levada mais pelas emoes do que
por lembranas objetivas, o que fazia sua histria dar voltas em crculos torturantes. Berenice precisava fazer perguntas contnuas a fim de esclarecer as coisas.
-- Voltando ao seu filho Carl... -- Eles quebraram as mos dele! -- chorou ela. -- Quem quebrou as mos dele? Joe interveio em ajuda  esposa. -- Foi depois de termos
dito que no venderamos a mercearia. Eles nos pediram... bem, pedir no pediram, disseram que faramos bem em concordai... mas conversaram conosco a esse respeito
algumas vezes, mas no queramos vender... -- Foi ento que comearam a amea-los? -- Eles nunca ameaam! -- disse Angelina com raiva. -- Eles dizem que nunca nos
ameaaram!

Joe tentou explicar. -- Eles... eles ameaam sem parecer que o esto fazendo.  difcil de explicar. Mas conversam com a gente sobre a transao, e deixam subentendido
que se a pessoa fosse esperta concordaria com o que propuseram, e a gente sabe, simplesmente sabe que deve concordar com o negcio, se no quiser que alguma coisa
ruim nos acontea. -- Com quem foi que vocs falaram? -- Dois cavalheiros que eram... bem, eles disseram ser amigos daquele pessoal novo, dono da mercearia agora.
No comeo pensei que fossem apenas corretores imobilirios ou algo parecido. No fazia idia... Berenice anotaes. correu novamente os olhos pelas

-- Muito bem, ento foi depois que vocs recusaram a vender a mercearia pela terceira vez que as mos de Carl foram quebradas? -- Sim, na escola. -- Bem, quem quebrou
as mos dele? Angelina respondeu: viu! e Joe se entreolharam. Angelina

-- Ningum viu. Foi durante o recreio, e ningum -- Carl deve ter visto.

Joe apenas sacudiu a cabea e acenou com a mo a Berenice, interrompendo-a. -- No pode interrogar Carl a esse respeito. Ele ainda est atormentado, tem pesadelos.
Angelina inclinou-se para a frente e murmurou: -- Espritos malignos, Srta. Krueger! Carl acha que foram espritos malignos!

Berenice ficou esperando que esses dois adultos responsveis explicassem a estranha percepo de seu filho. Ela teve dificuldade em formular uma pergunta: -- Bem,
o que... por que... o que vocs... Bem, vocs devem saber o que aconteceu, ou pelo menos devem ter uma idia --. Eles apenas se entreolharam sem saber o que dizer.
-- No havia professores presentes que o ajudaram depois que aconteceu? Joe tentou explicar. -- Ele estava jogando beisebol com outros meninos. A bola rolou para
dentro do bosque e ele foi busc-la. Quando voltou, estava... estava louco, gritando, tinha-se molhado... suas mos estavam quebradas. -- E ele nunca disse quem
fez isso? Os olhos de Joe Carlucci estavam cheios de terror. Ele sussurrou: -- Grandes coisas pretas... -- Homens? -- Coisas. Carl diz que eram espritos, monstros.
No critique, disse Berenice para si mesma. Estava claro que aquela pobre gente simplria realmente acreditava que algo dessa natureza os estava atacando. Eram catlicos
fervorosos, mas tambm muito supersticiosos. Talvez isso explicasse os muitos crucifixos em cada porta, as figuras de Jesus e as imagens da Virgem Maria por toda
a parte, em cada mesa, na entrada de cada porta, em cada janela. Marshall havia examinado o material relacionado  Omni S.A.. Ele ainda no tinha lido acerca de
uma coisa. -- Existe algum tipo de af iliao religiosa?

-- Sim -- disse Al, apanhando outra pasta. -- Voc tinha razo quanto a isso. A Omni  apenas uma das diversas patrocinadoras da Sociedade da Percepo Universal,
e esse  um caso financeiro e poltico totalmente diferente, e talvez a principal motivao por trs da companhia, mais at que dinheiro. A Omni possui ou apia,
oh, cus, deve haver centenas delas, firmas cuja proprietria  a Sociedade, indo desde empreendimentos a nvel de chals at bancos, lojas de atacado, escolas,
faculdades... -- Faculdades? -- Sim, e firmas de advocacia tambm, segundo este recorte noticioso. Eles possuem um grande grupo de lobby em Washington, tm forado
com regularidade a passagem de legislao de interesse especial para eles... geralmente antijudaica e anticrist, se  que isso lhe interessa. -- Quanto a cidades?
Essa Sociedade gosta de comprar cidades? -- Sei que Kaseph j fez isso, ou outras coisas parecidas. Oua, entrei em contato com Chuck Anderson, um dos nossos correspondentes
estrangeiros, e ele ouviu falar todo o tipo de coisa interessante alm de ter visto ele prprio muita coisa. Parece que essa gente da Percepo Universal forma um
clube mundial. Localizamos grupos da Sociedade em noventa e trs diferentes pases. Eles parecem surgir por todos os lados, no importa a parte do mundo, e, sim,
j adquiriram completo controle de cidades, vilarejos, hospitais, alguns navios, algumas corporaes. s vezes eles entram comprando, s vezes entram votando, s
vezes eles entram simplesmente tomando o lugar dos outros. -- Como uma invaso sem armas. -- Sim, geralmente muito legal, mas  bem provvel que isso resulte de
pura esperteza, no de

integridade, e lembre-se de que voc se est defrontando com muito poder e influncia aqui. Voc est bem no meio do caminho do prprio Chefo, e pelo que pude deduzir,
ele no diminui a velocidade, no pra nem d voltas. -- Bolas... -- Eu... bem, eu esfriaria a coisa, amigo. Chame a polcia federal, deixe que algum maior que
voc assuma o negcio, se quiserem. Voc ainda tem emprego no Times se algum dia o desejar. Pelo menos cubra a histria de certa distncia. Voc  um reprter classe
A, mas est perto demais, e tem muito a perder. Tudo o que Marshall conseguia pensar era: Por que eu? Berenice havia ido longe demais numa situao delicada. Os
Carluccis ficavam cada vez mais inquietos  medida que ela os interrogava. -- Talvez esta no tenha sido uma boa idia -- disse Joe finalmente. -- Se eles descobrirem
que falamos com voc... Berenice pensava que se ouvisse aquela palavra mais uma vez ela gritaria. -- Joe, o que voc quer dizer com "eles"? Voc no pra de falar
eles e deles, mas nunca diz quem so. -- Eu... eu no posso dizer -- disse ele com grande dificuldade. -- Bem, pelo menos deixe-me esclarecer este tanto: So pessoas,
quero dizer, pessoas de verdade? Ele e Angelina pensaram por um momento, ento ele respondeu: -- Sim, so pessoas de verdade.

-- Ento so pessoas reais, de carne e osso? -- E talvez espritos tambm. -- Estou falando das pessoas de verdade agora -- insistiu Berenice. -- Foi gente de verdade
que fez a auditoria de seus impostos? Relutantes, eles assentiram com a cabea. -- E foi um homem de verdade, de carne e osso, que colocou o aviso de leilo na sua
porta? -- No o vimos -- disse Angelina. -- Mas era um pedao de papel de verdade, certo? -- Mas ningum nos disse que isso iria acontecer! -- protestou Joe. --
Ns sempre pagamos os impostos, eu tenho os cheques cancelados para provar isso! O pessoal da prefeitura no nos deu ouvidos! Agora Angelina estava com raiva. --
No tnhamos o dinheiro para pagar os impostos que eles queriam. J os tnhamos pago, no podamos pagar de novo. -- Eles disseram que tomariam a mercearia, todo
o nosso estoque, e o negcio ia mal, muito mal. Metade dos nossos fregueses sumiram e no voltaram mais. -- E eu sei o que os manteve afastados! -- disse Angelina
em tom de desafio. -- Todos ns podamos senti-lo. Vou lhe contar, janelas no se quebram sozinhas, e a mercadoria no sai voando da prateleira sozinha. Era o prprio
diabo que estava na nossa loja! Berenice teve de assegurar-lhes: -- Muito bem, no duvido disso. Vocs viram o que viram, no duvido que vocs... -- Mas no percebe,
Srta. Krueger? -- perguntou Joe com lgrimas nos olhos. -- Sabamos que no podamos ficar. O que fariam a seguir? Nosso negcio ia

mal, no pudemos impedir que nosso lar fosse vendido, nossos filhos estavam sendo atormentados por espritos, gente, seja l o que fosse, malignos. Sabamos que
o melhor era no lutar. Era a vontade de Deus. Vendemos a loja. Eles nos pagaram um bom preo... Berenice sabia que no era verdade. -- Voc no pegou nem a metade
do que a loja valia. Joe no se conteve e caiu no pranto. -- Mas estamos livres... Estamos livres! Berenice teve de questionar. Depois veio a arrancada macia para
conseguir informao acompanhada por sentimentos mistos de determinao e mau agouro, por conflitos entre impulsos iniciais e consideraes posteriores. Durante
duas semanas, s teras e sextas, o Clarim de Ashton apareceu nas bancas e em todas as caixas dos assinantes, mas era difcil encontrar ou mesmo ver o seu Redator
e seu principal reprter. As mensagens telefnicas de Marshall empilhavam-se sem respostas; Berenice simplesmente nunca estava em casa. Houve diversas noites em
que Marshall no foi para casa, mas dormiu em vrios lugares, de vez em quando no escritrio, esperando chamadas especiais, dando telefonemas, trabalhando a fim
de manter o jornal em circulao com uma mo e repassando listas de contatos, registros de impostos, relatrios de negcios, entrevistas e pistas com a outra. As
pessoas que haviam deixado seus cargos em Ashton e as aqueles que as substituram definitivamente eram dois grupos distintos, de crenas muito diferentes. Aps algum
tempo Marshall e Berenice podiam praticamente prever quais seriam as respostas deles. Berenice telefonou para Adam Jarred, o Diretor da faculdade cuja filha supostamente
fora molestada por

Ted Harmel. -- No -- disse Jarred -- realmente no sei nada a respeito de nenhuma especial... como foi que disse? -- Uma sociedade. A Sociedade da Percepo Universal.
-- No, sinto muito. Marshall falou com Eugene Baylor. -- No -- respondeu Baylor um tanto impaciente -- jamais ouvi falar no nome de Kaseph, e realmente no percebo
onde voc quer chegar. -- Estou tentando averiguar algumas alegaes de que a faculdade estaria vendendo a propriedade a Alexander Kaseph da Omni S.A.. Baylor riu-se
e disse: -- Deve ser outra faculdade. Nada parecido est acontecendo aqui. -- E o que me diz da informao de que a faculdade est em grandes dificuldades financeiras?
Baylor no gostou nem um pouco da pergunta. -- Escute, o ltimo Redator do Clarim tambm tentou essa, e foi a coisa mais boba que ele j fez. Por que no cuida apenas
do seu jornal e deixa a administrao da faculdade por nossa conta? Os ex-diretores contavam uma histria diferente. Morris James, agora consultor comercial em Chicago,
nada tinha alm de ms recordaes do ltimo ano que trabalhou na faculdade. -- Eles realmente me ensinaram como um leproso deve se sentir -- disse ele a Berenice.
-- Achei que podia ser uma boa voz no conselho, sabe, um fator de estabilidade, mas eles simplesmente no toleravam dissenso. Achei aquilo tudo muito antiprofissional.

Berenice perguntou: -- E o que me diz da forma de Eugene Baylor cuidar das finanas da faculdade? -- Bem, eu sa antes que qualquer problema realmente srio comeasse,
essa encrenca que voc me descreveu, mas podia prev-la. Tentei bloquear algumas decises do conselho com relao  concesso de poderes e privilgios especiais
a Baylor. Achei que era dar controle demasiado a um nico homem sem a superviso dos outros diretores. Nem  preciso dizer que minha opinio no foi nada popular.
Berenice fez uma pergunta direta. -- Sr. James, o que finalmente precipitou o seu pedido de demisso do conselho e a sua sada de Ashton? -- Bem... essa  difcil
de responder -- comeou ele relutante. A resposta que deu durou quinze minutos, mas em resumo foi: "Minha loja de atacado estava sendo to importunada e to sabotada
por... bandidos invisveis, acho que se poderia cham-los... que eu me tornei um risco grande demais para a seguradora. J no conseguia preencher os pedidos, a
clientela foi desaparecendo, e eu simplesmente no consegui manter o pescoo fora da gua. O negcio faliu, aceitei o aviso, ca fora. Tenho-me sado bem desde ento.
No se pode destruir um homem bom, como voc sabe." Marshall conseguiu descobrir o paradeiro de Rita Jacobson, que agora estava morando em Nova Orleans. Ela no
gostou de ser procurada por algum de Ashton. -- Deixe o diabo ficar com essa cidade! -- disse ela amargamente. Se ele a quer tanto, deixe-o ficar com ela. Marshall
perguntou-lhe sobre Juleen Langstrat. -- Ela  uma bruxa. Quero dizer uma bruxa de verdade. Ele perguntou acerca de Alexander Kaseph.

-- Bruxo e bandido ao mesmo tempo. Fique longe do caminho dele. Ele o enterrar antes mesmo que voc o perceba. Ele tentou fazer-lhe finalmente, ela disse: outras
perguntas, este mas,

-- Por favor, jamais novamente -- e desligou.

disque

nmero

Marshall localizou tantos dos antigos membros da cmara municipal quantos pde por telefone e descobriu que um simplesmente se havia aposentado, e que os outros
haviam sado devido a algum tipo de dificuldade: Alan Bates contraiu cncer, Shirley Davidson passou por um divrcio e fugiu com um amante, Carl Frohm foi "incriminado",
segundo ele, com uma falsa acusao de delinqncia no pagamento de impostos, uma quadrilha de bandidos, a quem Jules Bennington tinha juzo o bastante para no
identificar, forou o seu negcio a sair da cidade. Cruzando as informaes, Marshall descobriu que em cada caso o vereador fora substitudo por algum novo ligado
de alguma forma com a Sociedade de Percepo Universal ou com a Omni S.A. ou com as duas. Em todos os casos a pessoa deposta achava ser a nica que estava saindo.
Agora, por causa do medo, de interesse prprio, de tpica relutncia em se envolver, permaneciam distantes, fora de contato, fora do cenrio, sem nada dizer. Algumas
mostraram-se dispostas a responder s perguntas de Marshall, mas outras sentiram-se muito ameaadas. No total, porm, Marshall conseguiu o que procurava. Quanto
queles que tinham tido seus prprios negcios, agora dirigidos por essa misteriosa companhia incgnita, pouqussimos foram os que haviam planejado vender, mudar-se
ou desistir das vidas tranqilas que levavam em Ashton ou de seus bem-sucedidos empreendimentos. Mas os motivos para a mudana seguiam sempre as mesmas

linhas: atrapalhadas nos impostos, hostilidades, boicotes, problemas pessoais, dissoluo de casamento, talvez uma molstia ou colapso nervoso, e uma macabra narrativa
ocasional de ocorrncias estranhas, talvez at sobrenaturais. A histria do ex-juiz da comarca de Ashton Anthony C. Jefferson era sinistramente tpica. -- Comearam
a correr boatos pelo tribunal e entre os colegas de que eu estava sendo comprado, sendo subornado para acertar as sentenas e pr as pessoas em liberdade. Algumas
testemunhas falsas chegaram a me confrontar e a fazer acusaes, mas isso jamais aconteceu... juro por tudo o que sou. -- Ento pode dizer-me o motivo de ter sado
de Ashton? -- perguntou Marshall, quase sabendo que resposta esperar. -- Razes pessoais bem como profissionais. Algumas dessas razes esto comigo at agora e ainda
so viveis o suficiente para limitar o que lhe posso dizer. Posso dizer, contudo, que minha esposa e eu estvamos precisando de mudana. Estvamos ambos sentindo
a presso, ela mais do que eu. Eu estava tendo problemas de sade. Afinal achamos que o melhor era deixarmos Ashton de vez. -- Posso perguntar, senhor, se houve
alguma... influncia externa desfavorvel... que forou a sua deciso de deixar a magistratura? Ele pensou por um momento, e depois, com a voz um tanto amarga, disse:
-- No posso dizer-lhe quem foram, tenho os meus motivos, mas posso dizer que sim, houve influncias altamente desfavorveis. A ltima pergunta de Marshall foi:
-- E o senhor realmente no me pode dizer nada

acerca de quem eles poderiam ser? Jefferson deu uma risada sardnica e disse: --  s continuar nesse caminho que est seguindo e logo descobrir por si mesmo. As
palavras de Jefferson estavam comeando a obcecar tanto a Marshall quanto a Berenice. Tinham ouvido muitas advertncias semelhantes ao prosseguirem, e ambos estava
cada vez mais desconfiados de que havia alguma coisa a rode-los, crescendo, chegando mais perto, cada vez mais maligna. Berenice tentou desfazer-se da impresso,
Marshall descobriu-se recorrendo cada vez mais a ligeiras e espontneas oraes; mas a sensao continuava, a sensao de que a pessoa nada mais  do que um castelo
na areia da praia e que uma onda de mais de cinco metros de altura est prestes a desabar. Alm do mais Marshall tinha de perguntar-se como Kate estava se saindo
em meio a tudo isso, e como ele conseguiria consertar as coisas entre eles quando aquilo finalmente terminasse. Ela estava falando sobre ser uma viva de novo, viva
de jornalista, e tinha at chegado a fazer algumas sugestes muito embaraosas a respeito de Berenice. Essa coisa simplesmente tinha de chegar ao fim; se demorasse
mais, o seu casamento no sobreviveria. E,  claro, havia Sandy, a quem Marshall no via fazia semanas. Mas quando tudo terminasse, quando realmente terminasse,
as coisas seriam diferentes. No momento a investigao que ele e Berenice estavam fazendo era incrivelmente urgente, prioridade absoluta, algo que se tornava mais
sinistro a cada nova pedra que reviravam.

23
Quando as coisas no escritrio estavam na costumeira calma de quarta-feira, Marshall mandou Carmem procurar uma caixa de papelo bem grande e algumas pastas de arquivo
e comeou a organizar as pilhas de papis, registros, documentos, anotaes e outras informaes que ele e Berenice haviam reunido em sua investigao. Enquanto
repassava tudo, ele tambm compilou uma lista de perguntas, perguntas que ele tencionava usar na entrevista com o primeiro dos reais protagonistas do enredo: Alf
Brummel. Nessa tarde, depois que Carmem foi ao dentista, Marshall ligou para o escritrio de Alf Brummel. -- Departamento de Polcia -- disse a voz de Sara. -- Oi,
Sara, aqui  Marshall Hogan. Posso dar uma palavrinha com o Alf? -- Ele no est no escritrio no momento... -- Sara soltou prolongado suspiro e acrescentou em tom
de voz muito estranho, muito baixo: -- Marshall... Alf Brummel no quer falar com voc. Marshall teve de pensar por um instante antes de dizer: -- Sara, voc est
envolvida com a coisa? O tom de Sara foi de ofensa. -- Talvez esteja, no sei, mas Alf me disse que eu no devo completar nenhuma ligao sua e que eu devo contar
a ele quais so as suas intenes. -- Ah... -- Olhe, no sei onde termina a amizade e onde comea a tica profissional, mas eu bem que gostaria de saber o que est
acontecendo aqui.

-- O que est acontecendo a? -- O que voc me d em troca? Marshall sabia que se estava arriscando. -- Acho que posso encontrar algo de valor igual. Sara teve um
instante de hesitao. -- Pelo que tudo indica, voc se tornou o pior inimigo dele. De vez em quando ouo o seu nome atravs da porta do escritrio, e nunca proferido
de maneira agradvel. -- Com quem ele est falando quando profere o meu nome? -- Ah-ah.  a sua vez. -- Est bem. Olhe, ns falamos sobre ele tambm. Falamos bastante
sobre ele, e se tudo o que descobrimos for verdade, sim, eu poderia mesmo ser o seu pior inimigo. Agora, com quem ele fala? -- Alguns eu j vi antes, alguns nunca
vi. Ele fez diversas ligaes para Juleen Langstrat. -- Quem mais? -- O juiz Baker foi um deles, e diversos membros da cmara dos vereadores... -- Malone? -- Sim.
-- Everett? -- Sim. -- Preston? -- No. -- Goldtree? -- Sim, e mais outras pessoas importantes, e depois Spence Nelson do Departamento de Polcia de

Windsor, o mesmo departamento que forneceu homens para ajudar no Festival. Quero dizer que ele tem falado com uma poro de gente, muito mais do que o normal. Alguma
coisa est acontecendo. O que ? Marshall precisava ter cuidado. -- Pode estar relacionado com o Clarim e comigo, e pode no estar. -- No sei se aceitarei isso.
-- No sei se posso confiar em voc. De que lado voc est? -- Depende de quem for o bandido. Sei que a reputao de Alf  duvidosa. E a sua? Marshall sorriu diante
da coragem dela. -- Voc ter de julgar por si mesma. Tento realmente publicar um jornal honesto, e temos feito uma investigao muito extensa no apenas do seu
chefe mas tambm de praticamente todos os mandachuvas da cidade... -- Ele sabe disso. Todos eles sabem. -- Bem, j falei com quase todos eles. Alf  o prximo na
minha lista. -- Acho que ele sabe disso tambm. Ele me disse hoje pela manh que no queria falar com voc. Mas est falando pelos cotovelos com todos os outros,
e acabou de sair com uma pilha de papis debaixo do brao, rumo a outra reunio sigilosa com algum. -- Alguma idia a respeito do que eles vo fazer comigo? --
Oh, pode estar certo de que faro alguma coisa, e tenho a impresso de que esto carregando a arma com carga de chumbo pesado. Considere-se avisado. -- E eu a aconselharia
a ser um anjo doce e

ignorante que no sabe nada e no diz nada. As coisas podem ficar pretas. -- Se ficarem, posso procurar as respostas com voc, ou pelo menos conseguir uma passagem
para outra cidade? -- Acertaremos alguma coisa. -- Eu lhe darei qualquer coisa que descobrir se voc me mantiver a salvo. Marshall percebeu pela voz dela que a moa
estava apavorada. -- Ei, calma, lembre-se de que no lhe pedi que se envolvesse. -- Eu no pedi para me envolver. Aconteceu. Conheo Alf Brummel. Acho melhor ter
voc como meu amigo. -- Manterei voc informada. Agora desligue e aja com naturalidade. Foi o que ela fez. Alf Brummel estava no escritrio de Juleen Langstrat,
e ambos examinavam uma pasta grossa de informaes que Brummel havia trazido. -- Hogan j tem o bastante para preencher a primeira pgina! -- disse Brummel com ar
infeliz. -- Voc me censurou por demorar em dar um jeito em Busche, mas pelo que estou vendo, voc deixou Hogan com o caminho livre desde o princpio. -- Acalme-se,
Alf -- disse Langstrat de modo tranqilizador. -- Acalme-se. -- Ele vir atrs de mim para me entrevistar a qualquer hora, da mesma forma que procurou todos os outros.
O que sugere que eu lhe diga?

Langstrat mostrou-se um pouco chocada com a burrice dele. -- No diga nada,  claro! Brummel andou pelo aposento, exasperado. -- No preciso, Juleen! A esta altura
nada do que eu diga ou deixe de dizer no far nenhuma diferena mesmo. Ele j tem tudo o de que precisa: sabe da venda das propriedades, tem boas pistas em todas
as vendas judiciais das casas com impostos atrasados, sabe tudo a respeito da companhia e da Sociedade, e tem boas informaes acerca do desvio de fundos da faculdade...
tem at prova mais do que suficiente para acusar-me de priso indevida! Langstrat sorriu satisfeita. -- Sua espi saiu-se muito bem. -- Ela me trouxe uma poro
deste material hoje. Ele est organizando tudo num arquivo no momento. Est prestes a dar o seu golpe, eu diria. Langstrat reuniu todo o material em ordem, colocou-o
de volta na pasta, e reclinou-se na cadeira. -- Adorei. Brummel cabea. fitou-a embasbacado e sacudiu a

-- Voc pode sair perdendo neste jogo algum dia, voc sabe. Todos ns podemos sair perdendo! -- Adoro um desafio -- exultou ela. -- Adoro enfrentar um adversrio
forte. Quanto mais forte o adversrio, mais estimulante a vitria! Mais do que tudo, adoro ganhar --. Ela sorriu, realmente satisfeita. -- Alf, j tive minhas dvidas
a seu respeito, mas acho que voc se saiu muito bem. Acho que deve estar presente para ver o Sr. Hogan cair na armadilha. -- S acreditarei quando o vir com meus
prprios

olhos. -- Oh, voc ver. Ver. Houve uma breve calmaria, e a cidade de Ashton ficou estranhamente quieta. As pessoas no se comunicavam. Ningum dizia quase nada.
Durante o dia, Marshall e Berenice organizavam seu material e permaneciam no escritrio. Marshall levou Kate para jantar fora uma noite. Berenice ficou em casa e
tentou ler um romance. Alf Brummel trabalhava em horrio regular, mas no tinha muito o que dizer a Sara ou a qualquer outra pessoa acerca de nada. Os Colemans visitaram
parentes de outra cidade. Os Forsythes aproveitaram a oportunidade para fazer um balano na serraria. O restante do Remanescente continuou na vida de sempre. Era
estranha a calma que pairava sobre tudo. O cu estava enevoado, o sol era um borro luminoso redondo, o ar estava quente e pegajoso. Tudo quieto. Mas ningum conseguia
se descontrair. Bem acima da cidade, no topo da protuberncia acinzentada de uma velha rvore morta havia muito tempo, qual enorme urubu negro, sentava-se Rafar,
Prncipe da Babilnia. Outros demnios o cercavam, esperando sua prxima ordem, mas Rafar se calava. Hora aps hora, a cara franzida, sentado, ele olhava a cidade
em baixo com lentos movimentos dos olhos amarelos. Em outra colina, no outro lado da cidade e na direo exatamente oposta  da grande rvore morta onde se encontrava
Rafar, Tal e seus guerreiros se ocultavam no bosque. Eles tambm corriam o olhar pela cidade, e sentiam a calmaria, o silncio, a sinistra apatia do ar.

Guilo estava ao lado do seu capito, e conhecia essa sensao. Havia sempre sido a mesma atravs dos sculos. -- Pode acontecer a qualquer minuto agora. Estamos
prontos? -- perguntou ele a Tal. -- No -- disse Tal terminantemente, correndo o olhar intenso pela cidade. -- Nem todo o Remanescente est reunido. Os que se reuniram
no esto orando, no o suficiente. No temos o nmero nem a fora. -- E a nuvem negra de espritos acima do Valente se multiplica por cem a cada dia. Tal ergueu
os olhos ao cu de Ashton. -- Eles enchero o cu de horizonte a horizonte. Do seu esconderijo, eles podiam enxergar o outro lado do vale, a uma distncia de diversos
quilmetros, e viam seu hediondo adversrio sentado na grande rvore morta. -- Sua fora no diminuiu -- disse Guilo. -- Ele est mais do que pronto para a batalha
-- disse Tal -- e pode escolher o tempo e o lugar que quiser, e seus melhores guerreiros. Poderia atacar em cem frentes ao mesmo tempo. Guilo apenas meneou a cabea.
-- O senhor sabe que no podemos defender tantas frentes assim. Nesse exato momento, um mensageiro veio voando apressado em sua direo. -- Capito -- disse ele,
pousando perto de Tal -- trago notcias do covil do Valente. Algo se est movendo l. Os demnios esto ficando impacientes. -- Est comeando -- disse Tal, e essa
palavra foi passada a todos os guerreiros. -- Guilo! Guilo apresentou-se.

-- Capito! Tal levou Guilo a um lado. -- Tenho um plano. Quero que voc leve um pequeno contingente e monte guarda ao vale... Guilo no costumava discutir com o
capito, mas: -- Um Valente? pequeno contingente? Para vigiar o

Os dois continuaram a conferenciar, Tal explicando suas instrues, Guilo meneando a cabea com ar de dvida. Depois de bom tempo, Guilo voltou para o grupo, escolheu
seus guerreiros e disse: -- Vamos! Com grande movimentao das asas, as duas dzias de guerreiros serpearam e ziguezaguearam pela floresta at ter-se distanciado
o suficiente para voar a cu aberto. Tal convocou um forte guerreiro. -- Tome o lugar de Signa na guarda da igreja e diga-lhe que venha aqui. A seguir, ele chamou
outro mensageiro. -- Diga a Krioni e Triskal que despertem a Hank e o faam orar, e tambm todo o Remanescente. Em um instante Signa chegou. -- Venha comigo -- disse
Tal. -- Vamos conversar. A tarde tinha transcorrido calma para Hank e Mary. Mary havia passado a maior parte na pequena horta atrs da casa, enquanto Hank consertava
um canto da cerca do quintal. Enquanto Mary procurava ervas daninhas entre os seus legumes, notou que as marteladas de Hank foram ficando cada vez mais espordicas
at cessarem totalmente. Ela olhou para o lado dele e o viu sentado, o martelo ainda na mo,

orando. Ele parecia muito perturbado, de modo que ela perguntou: -- Voc est bem? Hank abriu os olhos, e sem olhar para cima sacudiu a cabea. -- No me estou sentindo
nada bem. Ela foi at onde ele estava. -- O que ? Hank sabia de onde vinha a sensao. -- O Senhor, eu acho. Sinto que algo est muito errado. Algo terrvel est
prestes a acontecer. Vou ligar para os Forsythes. Nesse exato momento o telefone tocou. Hank entrou na casa para atender. Era Andy Forsythe. -- Desculpe incomodar,
Pastor, mas queria saber se voc est sentindo uma irresistvel necessidade de orar agora. Eu sei que estou. -- Venha aqui -- disse Hank. A cerca teria de esperar.
Noite adentro, o exrcito celestial esperou, enquanto Hank, os Forsythes, e diversos outros oravam. Rafar continuava sentado na rvore morta, os olhos principiando
a fulgurar na escurido cada vez mais espessa. Os dedos em garras continuavam a tamborilar nos joelhos; a fronte permanecia enrugada em intensa carranca. Atrs dele,
um exrcito de demnios comeou a reunir-se, aquecido em antecipao e muito atento, esperando a ordem. O sol se ps no oeste por trs das colinas; o cu estava
banhado em rubras chamas. Rafar, sentado, esperava. O exrcito demonaco

esperava. Em seu quarto, Juleen Langstrat estava sentada na cama, as pernas cruzadas na posio de loto de meditao oriental, os olhos cerrados, a cabea ereta,
o corpo perfeitamente imvel. A no ser pela luz de uma nica vela, o quarto estava escuro. Ali, sob o manto da escurido, ela convocou uma reunio com os Mestres
Elevados, os Guias Espirituais dos planos mais altos. Nas profundezas do seu estado consciente, bem no fundo do seu ser ntimo, ela conversava com uma mensageira.
Aos olhos da mente em transe de Langstrat, a mensageira apareceu como uma jovem, toda vestida de branco, com esvoaantes cabelos loiros que quase chegavam ao cho
e se mantinham em constante movimento, soprados pela brisa. -- Onde est o meu senhor? -- perguntou Langstrat  mensageira. -- Ele aguarda acima da cidade, vigiando-a
-- veio a resposta da moa. -- Seus exrcitos esperam prontos a sua palavra. sinal. -- Est tudo pronto. Ele pode aguardar o meu -- Sim, senhora. A mensageira partiu
qual linda gazela, saltitando graciosamente. A mensageira partiu, um imundo pesadelo negro de criatura, levado por asas membranosas; partiu a fim de levar o aviso
a Rafar que ainda aguardava. A escurido aumentou sobre Ashton; a vela no quarto de Langstrat derreteu at tornar-se redonda chama evanescente em uma poa de cera,
a tinta negra

da noite dominando sua luz fraca, alaranjada. Langstrat despertou, abriu os olhos embaados, e ergueu-se da cama. Com um sopro muito leve ela apagou a vela e, ainda
meio estonteada, dirigiu-se  sala de estar onde outra vela queimava na mesinha de centro, a cera escorrendo e endurecendo em dedos macabros por cima da foto de
Ted Harmel sobre a qual a vela fora colocada. Langstrat caiu de joelhos ao lado da mesinha, a cabea erguida, os olhos semicerrados, os movimentos lentos e lnguidos.
Como que flutuando no espao, seus braos se ergueram por sobre a vela, abrindo um dossel invisvel sobre a chama, e depois, muito baixinho, o nome de um deus antigo
comeou a se formar em seus lbios vez aps vez. O nome, um som gutural, spero, jorrava como se ela estivesse cuspindo centenas de pedregulhos invisveis, e a cada
meno do nome, o seu transe se aprofundava. O nome brotava, mais alto e mais depressa, e os olhos de Langstrat se arregalaram e permaneceram sem piscar, olhando
fixamente. Seu corpo ps-se a estremecer e a tremer; a voz tornou-se um lgubre gemido. Rafar a tudo ouvia do lugar onde estava sentado esperando. Sua prpria respirao
comeou a se aprofundar e explodir das narinas como ptrido vapor amarele. Seus olhos se entrefecharam, suas garras se flexionaram. Langstrat oscilava e estremecia,
chamando o nome, chamando o nome, os olhos fixos na chama da vela, chamando o nome. E ento ela ficou imvel. Rafar olhou para cima, muito quieto, muito atento,
escutando. O tempo se deteve. Langstrat permaneceu imvel, os braos estendidos sobre a vela. Rafar escutava.

O ar comeou a fluir lentamente para dentro da boca e das narinas de Langstrat, seus pulmes se encheram, e ento, com um brado sbito que veio das profundezas do
seu ser, ela baixou as mos como uma armadilha, batendo com elas sobre o pavio da vela, apagando a chama. -- Partam! -- gritou Rafar, e centenas de demnios arremeteram
ao cu como um bando trovejante de morcegos, voando ao longo de uma trajetria reta e nivelada rumo ao norte. -- Olhe -- disse um guerreiro anglico, e Tal e seu
exrcito viram o que parecia um negro enxame recortado contra o cu noturno, um alongado tufo de fumaa. -- Dirigem-se ao norte -- observou Tal. -- Para longe de
Ashton. Rafar observou o esquadro desaparecer a grande velocidade e permitiu que um riso zombeteiro lhe descobrisse as presas. -- Mant-lo-ei na incerteza, Capito
do Exrcito! Tal gritou as ordens. -- Cubram Hogan e Busche! Acordem o Remanescente! Uma centena de anjos desceram planando  cidade. Tal ainda conseguia ver Rafar
sentado na grande rvore morta. -- Afinal, quais so os seus planos, Prncipe da Babilnia? -- murmurou ele. O telefone despertou Marshall de um sono inquieto. O
relgio mostrava 3:48 da madrugada. Kate gemeu por ter sido acordada. Ele agarrou o aparelho e resmungou al. Por um instante, no teve a menor idia quanto a quem
estava do outro lado ou do que a pessoa estava

falando. A voz era descontrolada, histrica, esganiada. -- Ei, acalme-se e fale mais devagar seno desligo! -- disse Marshall bruscamente, a voz rouca. De repente,
ele reconheceu a voz. -- Ted?  Ted? -- Hogan -- veio a voz de Ted Harmel -- eles vieram me pegar. Esto por toda a parte! Marshall estava acordado agora. Pressionou
o aparelho contra a orelha, tentando entender o que Ted dizia. -- No estou ouvindo! O que disse? -- Eles descobriram que eu falei! Esto por toda a parte! -- Quem?
Ted comeou a chorar e a berrar ininteligivelmente, e aquele som foi suficiente para fazer com que as entranhas de Marshall se crispassem. Ele tateou por cima do
criado-mudo  procura da caneta e bloco. -- Ted! -- gritou no telefone, e Kate, assustada, voltou-se bruscamente para olh-lo. -- Onde est voc? Na sua casa? Kate
podia ouvir os gritos e gemidos saindo do aparelho, e eles a deixaram nervosa. -- Marshall, quem ? -- exigiu ela. Marshall no podia responder; estava ocupado demais
tentando obter uma resposta clara de Ted Harmel. -- Ted, escute, diga-me onde est --. Pausa. Outros gritos. -- Como chego a? Eu disse, como chego a? -- Marshall
ps-se a rabiscar apressadamente. -- Tente sair se puder... Kate ouvia, mas no conseguia entender o que a

pessoa do outro lado da linha dizia. Marshall disse: -- Escute, vou levar pelo menos meia hora para chegar a, e isso se eu conseguir encontrar um posto de gasolina
aberto. No, eu irei, apenas agente firme. Est bem? Ted? Est bem? -- Quem  Ted? -- Est bem -- disse Marshall no telefone. -- Dme um tempinho e chegarei a.
Acalme-se. At j. Ele desligou o telefone e saltou da cama. -- Mas, afinal, quem era? -- Kate precisava saber. Marshall agarrou as roupas e comeou a vestir-se
apressadamente. -- Ted Harmel, lembra-se, eu lhe falei a respeito dele... -- Voc no est indo l esta noite, est? -- O cara est ficando maluco, ou algo assim.
No sei. -- Volte para a cama! -- Kate, tenho de ir! No posso perder esse contato. -- No! No acredito! Voc no pode estar falando srio! Marshall estava falando
srio. Despediu-se de Kate com um beijo antes mesmo que ela chegasse a acreditar que ele estava indo de fato, e ento ele j no estava ali. Ela permaneceu sentada
na cama por uns momentos, atordoada, depois caiu de costas enraivecida, fitando o teto enquanto ouvia o carro dando r e arremetendo-se noite a adentro.

24
Marshall dirigiu quase cinqenta quilmetros ao norte, atravessando a cidadezinha de Windsor e indo um pouco adiante. Surpreendeu-se ao ver como Ted Harmel ainda
morava perto de Ashton, especialmente depois de se terem encontrado nas montanhas a mais de cento e cinqenta quilmetros na Rodovia 27. Esse cara tem de estar louco,
pensou Marshall, e talvez eu, ao concordar com esta baguna, esteja to louco quanto ele. O cara  paranico, um verdadeiro luntico. Mas ele bem que soara convincente
no telefone. Alm disso, era uma oportunidade de reabrir as comunicaes, aps aquela nica entrevista. Marshall teve de voltar algumas vezes e se reorientar por
aquele labirinto de estradas sinuosas, sem sinalizao, em seus esforos de entender as instrues de Harmel. Quando ele afinal localizou a casa de laterais de madeira
no fim de uma longa estrada de pedregulhos, uma faixa de luz rosada crescia no horizonte. Ele havia levado hora e meia para chegar. Sim, l estava o velho carro
de Harmel, parado na entrada. Marshall encostou atrs dele e desceu. A porta da frente estava aberta, a janela quebrada. Marshall agachou-se um instante atrs do
seu carro a fim de estudar a situao. No estava gostando nada da sensao que o invadia; suas entranhas j haviam passado por esse tipo de dana antes, na noite
em que Sandy fugira e, como daquela vez, no parecia haver razo bvia, visvel. Ele detestava admitir, mas estava com medo de dar mais um passo. -- Ted? -- chamou
ele, no muito alto. No houve resposta.

A coisa no estava nada boa. Marshall forou-se a dar volta no carro, caminhar pela calada e entrar na varanda muito devagar, com muito cuidado. Mantinhase  escuta,
olhando, sentindo. No havia som algum, exceto as batidas violentas do seu corao. Seus sapatos rangiam de leve nos cacos do vidro da janela. O som parecia ensurdecedor.
Vamos, Hogan, toque em frente. -- Ted? -- chamou ele atravs da porta aberta. -- Ted Harmel? Sou Marshall Hogan. Ningum respondeu, mas essa tinha de ser a casa
do Ted. L estava o palet dele, pendurado no cabide; na parede acima da mesa de jantar estava emoldurada a primeira pgina de uma da edies do Clarim. Ele se arriscou
a entrar. O lugar estava uma confuso. Os pratos que ficavam na arca do canto estavam agora espatifados pelo cho. Na sala de estar uma cadeira jazia quebrada logo
abaixo de um grande buraco na parede. As lmpadas estavam espatifadas. Livros das prateleiras estavam jogados por toda a parte. A janela lateral tambm se encontrava
quebrada. E Marshall podia sentir, to fortemente quanto antes: aquele terror feroz, de retorcer as entranhas, que havia sentido naquela outra noite. Ele tentou
se livrar dele, tentou ignor-lo, mas ali estava. Suas palmas suavam; ele se sentiu fraco. Correu os olhos em redor, procurando uma arma, e agarrou um atiador de
brasas da lareira. Mantenha-se de costas para a parede, Hogan, fique quieto e de olho nos cantos. Estava escuro ali dentro, e as sombras eram muito negras. Ele tentou
no se apressar, tentou deixar que os olhos se acostumassem  escurido. Tateou  procura de um interruptor, em qualquer lugar.

Atrs e acima dele, uma asa preta de couro mudou silenciosamente de posio. Olhos amarelos desconfiados vigiavam todo movimento que ele fazia. Aqui, ali, l adiante,
por todo o aposento, nos cantos do teto, sobre o mobilirio, grudados como insetos nas paredes, encontravam-se os demnios, alguns deixando escapar risinhos de escrnio,
alguns babando sangue. Marshall chegou  escrivaninha que ficava no canto e, usando um leno para no deixar impresses digitais, abriu as gavetas. Nada havia sido
mexido. Mantendo o atiador pronto para o ataque, ele continuou a percorrer a casa. O banheiro era uma baguna. O espelho estava espatifado; havia cacos na pia e
pelo cho. Ele percorreu o corredor, mantendo-se pregado  parede. Centenas de olhos amarelos vigiavam cada movimento que ele fazia. De vez em quando, um demnio
dava uma tossidela, um breve jato de vapor saa de sua boca gotejante. No quarto, aguardavam-no os espritos mais asquerosos de todos. Das posies que ocupavam
no teto, nas paredes, em cada canto, eles vigiavam a porta do quarto, e sua respirao soava como o arrastar de correntes atravs de lama cheia de pedregulhos. De
onde estava, Marshall podia apenas ver o canto da cama. Ele se aproximou cautelosamente, olhando para trs e at para cima. Ao chegar ele  porta do quarto, uma
nica imagem, como uma fotografia, imprimiu-se instantaneamente em seu crebro. Um segundo pareceu uma eternidade enquanto seus olhos voaram do cobertor borrifado
de sangue ao crnio de Ted Harmel, espatifado por uma bala, ao grande revlver que ainda pendia da sua mo inerte.

Gritos! Troves! Presas de fora para morder! Os demnios explodiram das paredes, dos cantos do quarto e se arremeteram como flechas na direo do corao de Marshall.
Um relmpago ofuscante! Depois outro, e mais outro! A mais alva luz ardente descreveu brilhantes arcos chamejantes, um gume cauterizante que ceifava o bando de espritos
malignos como uma grande foice. Pedaos de demnios sumiam no ar; outros demnios implodiam e desapareciam em nuvens instantneas de fumaa vermelha. Levas de espritos
ainda jorravam sobre o homem solitrio em p ali em terror irracional, mas de repente ele foi cercado por quatro guerreiros celestes revestidos de gloriosa luminosidade,
as asas cristalinas abertas como um dossel sobre o seu protegido, as espadas indistintas no meio do voltear e tremular de lenis de esplendor. O ar encheu-se com
os gritos ensurdecedores dos espritos hediondos  medida que lminas encontravam flancos, pescoos, torsos, e demnio aps demnio era jogado de lado em pedaos
que instantaneamente se desintegravam e desvaneciam como vapor. Nat, Armote e dois outros anjos, Senter e Cree, arremetiam-se, negaceavam, volteavam, esbordoavam
um esprito e retalhavam outro, dando estocadas com as lminas em mirades de direes. Os clares de suas espadas rebrilhavam contra as paredes, ofuscantes o bastante
para desbotar todas as cores. Nat destripou um demnio e mandou-o revirando atravs do teto, deixando uma trilha vermelha de vapor que aos poucos se desvaneceu.
Com a espada ele retalhava; com a mo livre colhia demnios pelos calcanhares. Armote e Senter rodopiavam numa nuvem de alta potncia, cortando demnios como quem
corta grama. Cree jogou-se contra Marshall e manteve as asas abertas

a fim de proteger o homem estonteado. -- Empurre-os! -- gritou Nat, e ps-se a girar em torno da cabea o bando de demnios que segurava, sentindo o choque de seus
corpos golpeando outros demnios ao ritmo de um pauzinho passando por uma cerca de estacas. Os demnios comearam a retirar-se; metade j no existia, bem como tambm
metade do seu zelo. Nat, Armote e Senter puseram-se a voar em fechada espiral em torno de Marshall, as espadas cortando as evanescentes fileiras demonacas. Um
demnio, com um grito de terror, arremeteuse diretamente ao cu. Senter lanou-se atrs dele e despachou-o depressa como uma ave abatida na caa. O anjo permaneceu
acima da casa por algum tempo, contendo muito caprichosa e bruscamente qualquer esprito em fuga, eliminando-os como quem rebate rpidas bolas de tnis. Ento, quase
to subitamente como havia comeado, a tormenta cessou. Nenhum demnio restava; nem um havia escapado. Nat pousou no fundo do corredor enquanto suas asas se dobravam
e a luz ao seu redor se desvanecia. -- Como est o nosso homem? Cree disse em tom de alvio: -- Ainda abalado, mas est bem. Ainda tem disposio para lutar. Armote
veio descendo para pousar, e imediatamente examinou o vulto deplorvel de Harmel. Senter passou atravs do teto e se reuniu a eles. Armote meneou a cabea e suspirou:
-- Como disse o Capito Tal, Rafar pode escolher qualquer frente que quiser, a qualquer hora. -- Eles possuam e atormentavam Ted Harmel havia muito tempo -- aquiesceu
Senter.

-- Kevin Weed est protegido? -- perguntou Nat. Armote respondeu com uma ponta de curiosidade: -- Tal enviou Signa para vigiar Weed. -- Signa? Ele no estava incumbido
da guarda da igreja? -- Tal deve ter mudado seus planos. Nat voltou a ateno ao problema imediato. --  melhor cuidarmos de Marshall Hogan. Marshall conseguiu
se controlar. Por um momento pensou que realmente sucumbiria ao pnico, e essa teria sido a primeira vez em sua vida. Droga, no preciso me envolver neste negcio,
no agora, pensou ele. Ele demorou mais alguns momentos para acalmar-se e pensar no que faria. Harmel era histria. Mas e os outros? Ele se dirigiu  sala de jantar
e encontrou o telefone. Usando o leno, e discando com uma caneta, chamou a telefonista, que fez a ligao com o departamento de polcia de Windsor, uma cidade que
felizmente era mais prxima do que Ashton. Algo lhe dizia que, neste caso, Brummel e seus homens definitivamente no eram quem ele devia chamar. -- Este  um telefonema
annimo. Houve um tiroteio fatal, um suicdio... -- Disse ele ao sargento. Ento deu instrues de como chegar l, e desligou. A seguir saiu do lugar. Diversos quilmetros
ao norte, ele encostou o carro num posto de gasolina e entrou na cabina telefnica. Primeiro discou o nmero de Eldon Strachan. No obteve resposta. Pediu  telefonista
que o ligasse com o Clarim. A essas horas Berenice j devia estar l. Vamos, moa, atenda!

-- Clarim de Ashton. -- Era Carmem. -- Carmem, aqui  Marshall. Diga a Berenice que atenda, sim? -- Claro. Berenice levantou imediatamente a sua extenso. -- Hogan,
voc est chamando para dizer que no vem trabalhar por que est doente? -- Aja com naturalidade, Bernie -- disse Marshall. -- Houve umas coisas da pesada. -- Bem,
tome uma aspirina ou algo assim. -- Isso mesmo. Prepare-se para esta. Acabo de chegar da casa de Ted Harmel. Ele estourou os miolos. Recebi um chamado dele esta
madrugada e ele estava falando loucuras, dizendo que algum estava vindo atrs dele, por isso fui at a casa dele e acabei de encontr-lo. Parece que ele teve uma
briga feia com alguma coisa. O lugar estava uma baguna. -- E ento, como est-se sentindo de verdade? -- disse Berenice e Marshall percebeu que para a moa essa
estava sendo a grande encenao de sua vida. -- Estou meio abalado, mas estou bem. Chamei a polcia de Windsor mas preferi sair de l. No momento, estou perto de
Windsor na Rodovia 38. Vou rumo ao norte fazer uma visitinha ao Strachan para ver como ele est. Quero que voc veja como o Weed est agora mesmo. No quero saber
de nenhuma outra fonte morrer. -- Voc acha... acha que  contagioso? -- No sei ainda. Harmel era um tanto doido; pode ser um incidente isolado. O que sei  que
tenho de falar com Strachan a esse respeito, e no quero que demore para ver como Weed est.

-- Est bem, farei isso hoje mesmo. -- Devo estar de volta esta tarde. Cuidado. -- Cuide-se. Marshall voltou ao carro e consultou o mapa a fim de descobrir a melhor
maneira de chegar  casa de Eldon Strachan. Levou mais uma hora para percorrer a distncia, mas logo estava encostando na mesma antiga entrada de carro da original
casa da fazenda. Ele pisou no freio e o carro parou com uma sacudidela, derrapando nos pedriscos. Abrindo a porta, ele deu mais uma olhada pela janela. No estava
enganado. As janelas estavam quebradas nessa casa tambm. E pensando bem, a esta altura aquele cachorro devia estar latindo, mas o lugar estava envolto em um silncio
tumular. Marshall deixou o carro onde estava e se encaminhou muito quieto na direo da casa. Nenhum som. As janelas da lateral tambm estavam quebradas. Ele observou
que, neste caso, o vidro estava quebrado para dentro, diferindo da casa de Harmel onde o vidro havia sido quebrado para fora. Ele passou pelo lado da casa e examinou
a rea de estacionamento nos fundos. Nenhum carro. Ele comeou a orar pedindo que Eldon e Doris tivessem ido a algum lugar e se encontrassem distantes de seja l
o que fosse que estivesse acontecendo. Ele deu a volta  casa, e ento entrou na varanda da frente e tentou abrir a porta. Estava trancada. Espiou pela janela da
frente -- quase todo o vidro se fora -- e viu caos total l dentro: a casa tinha sido saqueada. Com cuidado, ele passou pela janela e entrou no que fora uma sala
de estar, agora em lamentvel estado de confuso. A moblia estava jogada por toda a parte,

as almofadas do sof estavam todas cortadas, a mesinha de centro havia sido partida em diversos pedaos, alguns abajures haviam sido atirados ao cho e quebrados,
tudo fora de lugar e jogado. casa! -- Eldon! -- chamou Marshall. -- Doris!  de

Como se eu realmente esperasse resposta, pensou ele. Mas o que era aquilo no espelho em cima da lareira? Ele se aproximou para ver mais de perto. Algum havia tomado
tinta vermelha... ou seria sangue? Marshall examinou atentamente. Com grande alvio, sentiu o inconfundvel cheiro de tinta. Mas algum havia rabiscado uma mensagem
obscena de dio no espelho, uma ameaa muito clara. Ele sabia que teria de examinar cada cmodo da casa, e naquele exato momento perguntou-se por que no sentia
o mesmo terror que sentira na casa de Harmel. Talvez o dia o estivesse deixando amortecido. Talvez j no estivesse acreditando em nada daquilo. Ele verificou a
casa toda, a parte de cima e a de baixo, e at o poro, mas no encontrou nada terrvel, o que o deixou muito contente. Contudo, isso no o deixou menos preocupado,
nervoso ou perplexo. A despeito das diferenas bsicas, era muita coincidncia. Dando mais uma olhada na sala de estar, ele tentou encontrar uma ligao. Obviamente,
tanto Harmel quanto Strachan haviam sido fontes de informao para a investigao de Marshall e poderiam ter-se tornado alvo de intimidao. Mas Harmel, em seu incrvel
pavor, poderia ter feito o estrago em sua casa sozinho, lutando contra o que quer que fosse, ao passo que o estrago da casa de Strachan era claramente ao de vndalos,
de tipos malvolos desejosos de assust-lo. Havia uma ligao: o medo. No importa a forma que tomassem, tanto Harmel quanto Strachan haviam sido alvo de tticas
de intimidao. Mas por que iria...

-- Muito bem! Pare! Polcia! Marshall ficou imvel, mas olhou para fora pela janela quebrada. L, na varanda, estava um policial apontando-lhe um revlver. -- Calma
-- disse Marshall com muita suavidade, sem se mover. -- Ponha as mos para o alto, bem  vista! -- ordenou o oficial. Marshall obedeceu. -- Meu nome  Marshall Hogan,
redator do Clarim de Ashton. Sou amigo dos Strachans. -- No se mexa. Terei de ver alguma identidade, Sr. Hogan. Marshall foi explicando tudo o que fazia. -- Vou
enfiar a mo no bolso de trs, est vendo? Aqui est a minha carteira. Agora vou jog-la para voc atravs da janela. A essa altura, o companheiro do oficial havia
entrado na varanda e tambm apontava a arma para Marshall. Marshall jogou a carteira atravs da janela quebrada, e o primeiro policial a apanhou. O oficial examinou
a identidade de Marshall. -- O que est fazendo aqui, Sr. Hogan? -- Tentando descobrir que barbaridade foi essa que aconteceu com a casa de Eldon. E tambm gostaria
de saber o que aconteceu com Eldon e Doris, a esposa dele. O oficial pareceu satisfeito com a identificao de Marshall e descontraiu-se um pouco, mas seu companheiro
manteve o revlver apontado. O oficial tentou abrir a porta da frente e ento perguntou: -- Como foi que voc entrou a? -- Por aquela janela -- respondeu Marshall.

-- Muito bem, Sr. Hogan, vou-lhe pedir que saia com muito cuidado pela mesma janela, e o faa bem devagar. Por favor, fique com as duas mos bem  vista. Marshall
obedeceu. Assim que pisou na varanda, o oficial f-lo voltar-se, as mos contra a parede, e revistou-o. Marshall perguntou: -- Vocs so de Windsor? -- Delegacia
de Windsor -- veio a breve resposta, e com isso, o oficial agarrou os pulsos de Marshall, um de cada vez, e os algemou. -- Est sendo preso. Tem o direito de permanecer
em silncio... Marshall podia pensar em muitos tipos de perguntas que queria fazer e mal pde impedir-se de desmontar esses dois, mas sabia que era melhor no dizer
nada.

25
Logo aps ter falado com Marshall, Berenice ligou para Kevin Weed, mas ningum atendeu o telefone. Provavelmente ele estivesse trabalhando com o pessoal da madeireira
aquele dia. Ela rebuscou o arquivo e encontrou o nmero do telefone da Madeireira Irmos Gorst. Disseram-lhe que Kevin no havia aparecido, e que se ela o visse
era bom dizer-lhe que aparecesse depressa ou estaria despedido. Ela discou o nmero do Bar Sempre-Verde em Baker. Dan, o proprietrio, atendeu. -- Claro -- disse
ele -- Weed esteve aqui de manh, como sempre. S que estava mais azedo que limo. Puxou briga com um dos companheiros e tive de botar os dois para fora.

Berenice deixou com Dan o nmero do Clarim, caso visse Weed novamente. Ento desligou e pensou por um momento. No seria muito difcil pegar o carro e ir a Baker;
alm disso, ordens eram ordens. Ela examinou o horrio daquele dia e tentou dispor suas tarefas de modo que acomodasse a viagem. -- Carmem -- disse, agarrando o
casaco e a bolsa -- acho que estarei fora o resto do dia. Se Marshall ligar diga-lhe que fui averiguar certa fonte. Ele saber o que quero dizer. -- Certo -- disse
Carmem. Baker ficava cerca de vinte e cinco quilmetros ao norte pela Rodovia 27; os apartamentos onde Weed morava localizavam-se a pouco mais de trs quilmetros
antes da chegada  cidadezinha. Berenice encontrou-os sem grande dificuldade, um triste conjunto de cubculos apodrecidos enfileirados num velho depsito desbotado
pelo sol. O nariz de Berenice lhe disse que o sistema de esgoto estava com problema. Ela subiu pela escada de tbuas at a plataforma de carregamento que agora servia
de ptio e entrada. Entrando, ela se espantou com a escurido do prdio. Olhando pelo longo corredor, ela notou muitas portas bem prximas umas das outras. Aquilo
no eram apartamentos, eram cubculos. A moa ouviu passos nas velhas tbuas do andar de cima, passos que agora desceram a escadaria s suas costas. Ela voltou a
cabea apenas o suficiente para ver um tipo de aparncia desagradvel, uma apario magricela, o rosto cheio de espinhas, as roupas de couro preto. Prontamente,
ela resolveu que tinha um compromisso urgente na outra ponta do corredor e psse a caminhar nessa direo. -- Ol -- chamou o homem. -- Procurando algum? Rpido,
Berenice.

-- Apenas visitando um amigo, obrigada. -- Boa visita -- disse ele, e continuou medindo-a de alto a baixo como se ela fosse um fil. Ela caminhou depressa pelo corredor,
na esperana de que no desse num beco sem sada, e embora no olhasse para trs, sabia que ele ainda estava de olho nela. Hogan, voc me paga por isto. Como ela
ficou contente ao encontrar outro lance de escadas que levavam ao andar de cima. O nmero do apartamento de Weed estava na casa dos duzentos, e ela subiu as escadas.
Os degraus eram velhas tbuas gastas, e a iluminao provinha de uma simples lmpada pendurada de uma viga muito alta. Uns trinta anos antes, algum havia tentado
pintar as paredes. Ela foi subindo em crculos, ignorando os dizeres repulsivos pichados por toda a parte, os sapatos produzindo rudos ocos nas escadas. Chegando
ao corredor de cima, ela voltou, seguindo os nmeros decrescentes nas portas. De trs de algumas vinham sons de novelas, estaes FM de msica rock, brigas conjugais.
Ela encontrou a porta de Weed e bateu; ningum atendeu. Mas as batidas fizeram a porta ceder e ir-se abrindo devagar. A moa deu-lhe uma ajudazinha silenciosa. A
confuso era total. Berenice j tinha visto casa de gente bagunceira, mas como conseguia Weed viver numa condio de desastre como essa? -- Kevin? -- chamou ela.
No houve resposta. Ela entrou e fechou a porta. Tinha de ser vandalismo; Weed no possua muita coisa, mas o pouco que tinha estava jogado, quebrado, derramado,
e espatifado. Havia papis e bugigangas por todos os lados, o pequeno leito no canto estava de

pernas para cima, o violo estava furado e emborcado no cho, as lmpadas que pendiam do teto estavam quebradas, os poucos pratos de segunda mo em cacos por todo
o cho da pequena cozinha. Ento ela viu palavras pintadas de ponta a ponta numa das paredes, uma ameaa incrivelmente obscena. Por longo tempo, ela no se moveu.
Estava atemorizada. A inferncia era bastante clara -- quanto tempo ainda antes que ela ou Marshall tambm fossem atacados? Tentou adivinhar o que Marshall encontraria
na casa de Strachan, tentou adivinhar em que estado estaria a sua prpria casa, e percebeu que no podia chamar a polcia; a polcia estava do lado deles. Afinal,
ela deslizou silenciosamente pela porta, escreveu um bilhete rpido, caso Weed voltasse, e enfiou-o na rachadura logo acima da maaneta. Ela olhou para todos os
lados, seguiu pelo corredor e desceu as escadas novamente. Apenas um lance abaixo do segundo andar, uma parede formava um canto cego entre dois lances no patamar
do meio. Berenice estava acabando de pensar em como no gostava de cantos cegos num lugar desses, e como a iluminao era fraca... Uma figura negra, dos degraus
de baixo, saltou em cima dela. Seu corpo foi atirado com fora contra a velha parede de tbuas enquanto os dentes se chocavam uns contra os outros. O homem vestido
de couro! Uma mo spera, suja, agarrou a blusa. Um violento puxo para o lado. Tecido rasgando, seu corpo revirando. Um impacto e uma exploso no seu ouvido esquerdo.
Um rosto indistinto, cheio de dio. Ela estava caindo. Os braos se estenderam procurando a parede, estavam moles, dobraram-se, ela escorregou e caiu ao cho. Uma
bota preta eclipsou sua

viso, os culos foram calcados em seu rosto, sua cabea bateu contra a parede. Ela ficou dormente. Seu corpo continuou sendo sacudido -- ele ainda a estava espancando.
Passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo -- ele se foi. Ela estava sonhando, a cabea rodopiava, havia sangue no cho e os culos, feitos em pedaos.
Ela se afundou contra a parede, sentindo ainda o punho do homem no ouvido, e a bota em seu rosto, e ouvindo o sangue pingar da boca e do nariz. O cho a atraiu como
um m at sua cabea finalmente bater nas tbuas. Ela choramingou, um som gorgolejante  medida que sangue e saliva borbulhava sobre a sua lngua. Ela cuspiu tudo,
ergueu a cabea e clamou numa voz meio grito, meio gemido. De algum lugar acima dela, as tbuas comearam a martelar e estrondear com sbito fluxo de trfego. Ela
ouviu gente gritando, praguejando, descendo estrepitosamente os degraus. No conseguia se mexer; continuava a sonhar enquanto luz e som apareciam e sumiam, estavam
ali, no estavam ali. Mos puseram-se a segur-la, mov-la, ampar-la. Um pano limpou-lhe a boca. Ela sentiu o calor de um cobertor. Uma toalha continuava a limpar-lhe
o rosto. Ela gorgolejou de novo, cuspiu de novo. Ouviu algum praguejar de novo. Embora o investigador da Delegacia de Windsor continuasse tentando, Marshall no
respondia s suas perguntas. -- O caso  de homicdio, moo! -- disse o detetive. -- Ora, fomos informados por fontes de confiana de que voc esteve na casa de
Harmel hoje cedo, bem prximo  hora da morte. Tem alguma coisa a dizer a esse respeito?

Esse cretino nasceu ontem, pensou Marshall. Claro, seu bandido, vou-lhe contar tudo a fim de me ferrar! Qual homicdio, qual o qu! Mas o que realmente incomodava
Marshall era essa "fonte de confiana", e como ela no apenas sabia que ele estivera na casa de Harmel, como tambm sabia que os tiras poderiam encontr-lo na casa
de Strachan. Ainda estava tentando encontrar a soluo para esse enigma. O detetive perguntou: -- Ento voc no vai dizer nada? Marshall nem mesmo assentiu com
a cabea. -- Bem -- disse o detetive dando levemente de ombros -- pelo menos me d o nome do seu advogado. Vai precisar dele. Marshall no tinha uni nome para dar
e no conseguia nem mesmo pensar em algum. Passou a ser um jogo de espera. -- Spence -- disse um auxiliar -- uma ligao de Ashton para voc. O detetive ergueu o
telefone que estava na sua mesa. -- Nelson. Al, Alf. O que h? Alf Brummel? -- Sim -- disse o detetive -- est bem aqui. Voc quer falar com ele? Conosco  que
ele no quer falar. Ele ofereceu o aparelho a Marshall, dizendo: -- Alf Brummel. Marshall pegou o receptor. -- Sim, aqui  Hogan. Alf Brummel, fingiu-se chocado
e consternado. -- Marshall, o que est acontecendo? -- No posso dizer.

-- Disseram-me que Ted Harmel foi assassinado e que voc  um dos suspeitos.  verdade? -- No posso dizer. Alf estava comeando a entender. -- Marshall... escute,
telefonei para ver se posso ajudar. Ora, estou certo de que houve um engano e estou certo de que podemos chegar a algum acordo. O que voc estava fazendo na casa
de Harmel, afinal de contas? -- No posso dizer. Essa resposta o perturbou. -- Marshall, pela madrugada, quer se esquecer de que sou um tira? Tambm sou seu amigo.
Quero ajudlo! -- Faa-o. -- Eu quero. De verdade. Agora escute, deixe-me falar com o Detetive Nelson novamente. Talvez eu possa arranjar alguma coisa. Marshall
entregou o aparelho a Nelson. Nelson e Brummel conversaram um pouco, demonstrando que se conheciam muito bem. -- Olhe, pode ser que voc consiga fazer mais com ele
do que eu jamais conseguirei -- disse Nelson de maneira muito agradvel. -- Claro, por que no? Ah? Sim, est bem --. Nelson olhou para Marshall. -- Ele teve que
atender outra chamada. Acho que ele se responsabilizar por voc, e penso que assumir jurisdio do seu caso, se houver caso. Marshall acenou com a cabea, sabendo
de sobra o que se seguiria. Agora Brummel o teria exatamente onde queria. Se houvesse um caso! Se no houvesse, Brummel acharia um. O que seria agora, Harmel e Hogan
na chefia de uma quadrilha de molestadores de

crianas com um assassnio de bandidos? Nelson ouviu Brummel voltar  linha. -- Sim, al. Sim, claro. Nelson Marshall. entregou novamente contrariado o ou aparelho
pelo a

Brummel estava parecia contrariado.

menos

-- Marshall, foi o departamento de bombeiros que acabou de ligar. Acabaram de enviar um carro na direo de Baker.  Berenice. Ela foi assaltada. Marshall jamais
havia pensado que gostaria que Brummel estivesse mentindo. -- Diga-me mais. -- No saberemos mais at que cheguem l. No vai demorar. Escute, eles vo solt-lo
em reconhecimento pessoal sob minha superviso.  melhor voc voltar imediatamente para Ashton. Pode se encontrar comigo no meu escritrio, digamos, s 3:00hs? Marshall,
tentando conter os palavres que tinha para aquela embrulhada, pensou que teria um ataque. -- Estarei a, Alf. Nada poderia impedir-me. -- timo, at s trs. Marshall
devolveu o aparelho a Nelson. Nelson sorriu e disse: -- Levaremos voc de volta ao seu carro. O homem de roupas de couro preto estava de volta a Ashton, correndo
pelas ruas e depois pelas vielas como um possesso, olhando para atrs, arquejando, gritando, aterrorizado.

Cinco espritos cruis, montados nas costas dele, entravam e saam do seu corpo, apegavam-se a ele como enormes sanguessugas, as garras enterradas em sua carne.
Mas no estavam no controle. Tambm estavam aterrorizados. Logo acima dos cinco demnios e de sua vtima em disparada, seis guerreiros anglicos flutuavam com as
espadas desembainhadas, movendo-se para a esquerda e para a direita, fazendo o que fosse necessrio a fim de tocar os demnios na direo certa. Os demnios sibilavam,
cuspiam e tentavam afastar seus perseguidores abanando as mos entrecortadas de nervos. O rapaz invisveis. corria, tentando afugentar abelhas

O rapaz e seus demnios chegaram a uma esquina. Tentaram ir para a esquerda. Os anjos bloquearam o caminho e os incitaram com as espadas  direita. Com um grito
e um terrvel gemido, os demnios fugiram para a direita. Os demnios comearam a pedir misericrdia. -- No! Deixem-nos em paz! -- imploraram. -- Vocs no tm
esse direito! Logo adiante, Hank Busche e Andy Forsythe vinham andando juntos, conversando acerca dos seus encargos e orando. Ao lado deles caminhavam Triskal, Krioni,
Sete e Scion. Os quatro guerreiros viram o que os seus camaradas tocavam em sua direo, e estavam mais do que preparados. -- Hora de uma lio objetiva para o homem
de Deus -- disse Krioni. Triskal simplesmente chamou os demnios com o

dedo e disse: -- Venham, venham! Andy foi o primeiro a ver o homem. -- Ora... ! -- O qu? --- perguntou Hank, vendo a cara estupefata de Andy. -- Prepare-se. A
vem Bobby Corsi! Hank olhou e sentiu-se encolher  vista de um tipo de aparncia selvagem correndo em sua direo, os olhos cheios de terror, os braos batendo o
ar, debatendo-se com inimigos invisveis. Andy advertiu: -- Cuidado. Ele pode ser violento! -- Oh, formidvel! Eles ficaram imveis e esperaram para ver o que Bobby
ia fazer. Bobby os viu e gritou mais aterrorizado ainda: -- No, no! Deixem-nos em paz! Guerreiros celestiais j era ruim, mas os cinco demnios no queriam nada
a ver com Busche e Forsythe. Eles torceram Bobby na outra direo e tentaram escapar, mas foram prontamente cercados pelos seis anglicos. Bobby estacou bruscamente.
Ficou fitando o nada  sua frente, depois olhou para Hank e Andy, depois olhou novamente para seus inimigos invisveis. Deu um berro, parado onde estava, as mos
em forma de garras e tremendo, os olhos esbugalhados e embaados. Hank e Andy adiantaram-se devagar. -- Calma, Bobby -- disse Andy suavemente. -- Acalme-se.

-- No! -- berrou Bobby. -- Deixem-nos em paz! No queremos nada com vocs! Um anjo cutucou um dos demnios com a ponta da espada. -- Aiiii! -- gritou de dor o rapaz,
caindo de joelhos. -- Deixem-nos em paz, deixem-nos em paz! Hank adiantou-se rpido e disse com firmeza: -- No nome de Jesus, fique quieto! -- Bobby soltou mais
um berro. -- Fique quieto! Bobby aquietou-se e comeou a chorar, ajoelhado na calada. -- Bobby -- disse Hank, inclinando-se e falando com brandura -- Bobby, pode
me ouvir? Um demnio tapou os ouvidos de Bobby. Bobby no ouviu a pergunta de Hank. Hank, avisado pelo Esprito de Deus, sabia o que o demnio estava fazendo. --
Demnio, em nome de Jesus, solte os ouvidos do rapaz. O demnio tirou bruscamente as mos, um olhar surpreso na face. Hank perguntou de novo: -- Bobby? Desta vez
Bobby respondeu: -- Sim, pregador, eu o ouo. -- Voc quer-se ver livre desses Imediatamente um demnio respondeu: espritos?

-- No, no quer! Ele nos pertence -- e Bobby cuspiu as palavras no rosto de Hank: -- No, no quer! Ele nos pertence! -- Esprito, fique quieto. Estou falando com

Bobby. O demnio no disse mais nada, mas afastou-se amuado. Bobby murmurou: -- Acabei de fazer uma coisa horrvel... -- Ele comeou a chorar. -- Voc precisa me
ajudar... No posso parar de fazer esse negcio. .. Hank falou baixinho de lado com Andy: -- Vamos lev-lo a um lugar onde possamos cuidar dele, onde ele possa fazer
um escndalo, se precisar. -- A igreja? -- Vamos, Bobby. Eles o tomaram pelos braos, ajudaram-no a levantar-se, e os trs, e os cinco, e os seis, e os quatro dirigiram-se
rua acima. Marshall atravessou Baker em alta velocidade e ento deu uma passada rpida pelo conjunto de apartamentos onde Weed morava. No parecia haver atividade
ali, por isso ele se dirigiu a Ashton. Ao chegar ao hospital, viu o carro de socorro estacionado do lado de fora. Um tcnico de emergncias mdicas que estava prendendo
a maca de volta no veculo informou a Marshall que ela estava na sala de pronto-socorro, duas portas abaixo. Marshall explodiu pelas portas principais e num instante
encontrou a sala certa. Quando ia chegando  porta, ouviu um gemido de dor de Berenice. Ela estava deitada numa mesa, sendo atendida por um mdico e duas enfermeiras
que lhe lavavam o rosto e colocavam curativos nos cortes. Ao v-la, Marshall no mais conseguiu se conter; toda a raiva e

frustrao e terror daquele dia inteiro explodiram de seus pulmes em veemente imprecao. Berenice sangrentos: respondeu com lbios inchados e

-- Acho que isso diz tudo. Ele correu para o lado da mesa e o mdico e as enfermeiras lhe deram lugar. Tomando a mo de Berenice nas suas, ele no podia acreditar
no que tinha acontecido. Seu atacante havia sido impiedoso. -- Quem lhe fez isto? -- exigiu ele, o sangue a ferver. -- Percorremos os quinze rounds, chefe. -- Nada
de palhaada, Bernie. Voc viu quem foi? O mdico advertiu-o: -- Ei, calma, vamos cuidai dela primeiro... Berenice sussurrou algo. Marshall no conseguiu entender.
Ele se abaixou, chegando-se mais perto e ela sussurrou novamente, a boca inchada pronunciando indistintamente as palavras. -- Ele no me estuprou. -- Graas a Deus
-- disse Marshall, endireitandose. A reao dele no a satisfez. Ela acenou que ele se abaixasse de novo e escutasse. -- Tudo o que ele fez foi bater. Foi s o que
fez. -- No est satisfeita? -- Marshall sussurrou de volta um tanto alto. Entregaram  moa um copo d'gua para lavar a boca. Ela girou a gua na boca e cuspiu
numa vasilha. -- A casa de Strachan estava em ordem? -- perguntou. Marshall evitou responder. Perguntou ao

mdico: -- Quando posso falar com ela em particular? O mdico pensou a respeito. -- Bem, ela vai para a radiografia dentro de alguns minutos... -- D-me trinta segundos
-- pediu Berenice -- somente trinta segundos. -- No pode esperar? -- No. Por favor. O mdico e as enfermeiras saram da sala. Marshall disse baixinho. -- A casa
de Strachan estava uma baguna; algum realmente a revirou. Ele no estava l. No tenho a mnima idia de onde ele est ou se est bem. Berenice relatou: -- O apartamento
de Weed estava assim tambm, e havia uma ameaa pichada na parede. Ele no apareceu no servio hoje, e Dan do Bar Sempre-Verde disse que ele estava muito chateado
com alguma coisa. No o encontrei. -- E agora eles me embrulharam na morte de Ted Harmel. Descobriram que estive l hoje de manh. Pensam que foi eu que o matei.
-- Marshall, Susan Jacobson tinha razo: nosso telefone deve estar grampeado. Lembra-se? Voc me ligou no Clarim e me disse que havia estado na casa de Ted e para
onde ia a seguir. -- Sim, foi o que percebi. Mas isso quer dizer que os tiras de Windsor teriam de estar envolvidos tambm. Eles sabiam certinho onde e quando me
encontrar na casa de Strachan. -- Brummel e o Detetive Nelson so assim,

Marshall -- disse Berenice, erguendo dois dedos juntos. -- Eles devem ter ouvidos por toda a parte. -- Sabiam que eu estaria na casa de Weed sozinha... e quando...
-- disse Berenice. Foi ento que percebeu outra coisa. -- Carmem tambm sabia. A revelao atingiu Marshall quase como uma sentena de morte. -- Carmem sabe uma
poro de coisas. -- Fomos atingidos, Marshall. Acho que esto tentando nos dar um aviso. Ele se endireitou. -- Espere s at eu encontrar Brummel! Ela agarrou a
mo dele. -- Tome cuidado. Quero dizer, realmente tome cuidado! Ele beijou-lhe a testa. -- Boa radiografia! Ele saiu do quarto qual touro furioso, e ningum se atreveu
a meter-se em seu caminho.

26
Marshall estava com tanta raiva que estacionou mal, tomando dois lugares no estacionamento da Praa do Tribunal. Achou que se atravessasse depressa o estacionamento
at a porta do departamento de polcia, poderia se esfriar um pouco, mas a estratgia no deu certo. Ele abriu a porta com um safano e entrou na recepo. Sara
no estava  sua mesa. Brummel no estava no escritrio. Marshall olhou para o relgio. Trs horas em ponto. Uma mulher apareceu num canto. Ele ainda no a tinha
visto antes.

-- Ol -- disse ele, abruptamente: -- Quem  voc?

ento

acrescentou e ela

A pergunta a surpreendeu respondeu com timidez:

bastante,

-- Bem, sou... sou Brbara, a recepcionista. -- A recepcionista? Que fim levou Sara? Ela estava intimidada e um pouco indignada. -- Eu... no sei de nenhuma Sara,
mas h alguma coisa em que eu possa ajud-lo? -- Onde est Alf Brummel? --  o Sr. Hogan? -- Isso mesmo. -- O delegado Brummel est  sua espera na sala de reunies,
no fim do corredor. Ela nem tinha terminado a sentena e Marshall j estava a caminho. Se a tranca da porta tivesse oferecido a menor resistncia, no teria sobrevivido
 entrada de Marshall. Ele se precipitou porta adentro, pronto para torcer o primeiro pescoo em que pudesse botar as mos. Havia muitos pescoos  escolha. A sala
estava cheia de gente que Marshall no esperava, mas enquanto corria os olhos em redor, examinando o rosto dos presentes, no teve dificuldade em adivinhar a pauta
da reunio. Brummel tinha os amigos ao seu lado. Figures. Mentirosos. Maquinadores. Alf Brummel estava sentado  mesa, cercado por seus muitos comparsas e sorrindo
aquele sorriso dentuo. -- Ol, Marshall. Por favor, feche a porta. Marshall, sem tirar os olhos de toda aquela gente agora reunida, sem dvida para pr as coisas
em pratos

limpos com ele, fechou a porta com um pontap. Ali estava Oliver Young, bem como o Juiz Baker, o tesoureiro municipal Irving Pierce, o chefe dos bombeiros Frank
Brady, o detetive Spence Nelson de Windsor, alguns outros homens a quem Marshall no reconheceu, e finalmente o prefeito de Ashton, David Steen. -- Bem, ol, prefeito
Steen -- disse Marshall com frieza. -- Que interessante encontr-lo aqui. O prefeito apenas sorriu cordial e silenciosamente, como o fantoche mudo que Marshall sempre
achara que era. -- Sente-se -- disse Brummel, acenando com a mo na direo de uma cadeira vazia. Marshall no se moveu. -- Alf,  esta a reunio que eu e voc amos
ter? -- Esta  a reunio -- disse Brummel. -- Acho que no conhece todos os presentes... -- Com gentileza forada, Brummel apresentou as novas ou possivelmente novas
caras. -- Quero apresentar-lhe Tony Sulski, um advogado local, e creio que voc j tratou com Ned Wesley, presidente do Banco Independente. Pelo que sabemos, j
pelo menos conversou com Eugene Baylor, membro do conselho administrativo da faculdade. E voc naturalmente se lembra de Jimmy Clairborne, da Impressora Comercial
--. Brummel mostrou os dentes de modo largo, irritante. -- Marshall, por favor, sente-se. Palavres cruzavam a mente de Marshall, quando ele disse a Brummel: --
No enquanto eu for a minoria. Oliver Young piou uma resposta: -- Marshall, asseguro-lhe que ser uma reunio corts e cordial.

-- E ento, qual de vocs espancou a minha reprter at quase mat-la? -- Marshall sentia-se muito pouco corts. Brummel respondeu: -- Marshall, esse tipo de coisas
acontece a pessoas que no tm cuidado. Marshall cobriu Brummel com algumas descries como confeitos tirados de uma caixa de esgoto e ento lhe disse, fervendo
de raiva: -- Brummel, isso no aconteceu simplesmente. Foi planejado. Ela foi atacada e ferida e os seu tiras no fizeram coisa alguma e todos ns sabemos por qu!
-- Ele os olhou ferozmente. -- Vocs esto todos juntos neste negcio, e seus truques saem baratos. Vandalizam casas, fazem ameaas, expulsam as pessoas, agem como
um tipo de clube do bolinha de mafiosos! -- Ele apontou um dedo acusador na direo de Brummel. -- E voc, amigo,  uma vergonha para a sua profisso. Voc usou
os poderes que lhe foram confiados a fim de silenciar e intimidar, e a fim de cobrir a prpria sujeira. Young tentou interferir. -- Marshall... -- E voc se diz
um homem de Deus, um pastor, um exemplo piedoso do que um bom cristo deve ser. Mentiu para mim o tempo todo, Young, escondendo-se atrs da desculpa do que chama
de tica profissional, bebendo a baboseira mstica da bruxa Langstrat e depois agindo como se nada soubesse a respeito. A quantas pessoas que confiaram em voc,
voc vendeu uma mentira? Os homens na sala permaneceram assentados em silncio. Marshall continuou a se desabafar. -- Se vocs so servidores pblicos, Hitler foi
um grande filantropo! Vocs tramaram planos, manipularam

as pessoas e abriram caminho nesta cidade como bandidos, e silenciaram a todos os que ergueram a voz ou se opuseram a vocs. Lero acerca disso no jornal, cavalheiros!
Se quiserem fazer algum comentrio ou negar alguma coisa, terei muito prazer em ouvi-los, e at de publicar o que disserem, mas chegou a hora de todos vocs enfrentarem
a imprensa, quer gostem quer no! Young ergueu as mos tentando conseguir tempo para falar. -- Marshall, tudo o que posso dizer  que voc tenha certeza dos fatos.
-- No se preocupe. As minhas informaes so corretas. Sei de gente inocente como os Carluccis, os Wrights, os Andersons, os Dombrowskis, mais de cem pessoas, que
foram foradas a deixar suas casas e negcios por causa de intimidao e por causa de atraso forjado no pagamento de impostos. Young piou. -- Intimidao? Marshall,
no est em nosso poder evitar medo, supersties tolas, quebra de famlias. Exatamente o que vai publicar? Que os Carluccis, por exemplo, se convenceram de que
a mercearia estava assombrada e que espritos malignos quebraram as mos do filho deles? Ora, vamos, Marshall. Marshall apontou para Young. -- Ei, Young, essa 
a sua especialidade. Publicarei que voc e o seu bando atiaram os temores e orquestraram as supersties dessa gente, e contarei tudo a respeito das prticas e
filosofias absurdas que usaram a fim de conseguir fazer isso. Sei tudo acerca de Langstrat e da embromao mental que ela usa para deixar todo mundo dopado, e sei
que cada um de vocs est embrulhado na coisa. -- Publicarei que vocs incriminam as pessoas

com acusaes falsas a fim de fazer com que sejam tiradas dos cargos e posies a para que sua prpria gente possa ocupar esses lugares: incriminaram Lew Gregory,
o antigo tesoureiro, com uma acusao falsa de conflito de interesses; promoveram e foraram aquela grande rotatividade no Conselho Diretor da Faculdade Whitmore
depois que o Deo Strachan pegou Eugene Baylor -- Marshall fitou Baylor diretamente ao dizer -- mexendo nos livros! Vocs expulsaram Ted Harmel da cidade sem nada
sob a acusao falsa de molestar uma menina, e acho muito interessante o fato de a coitadinha da vtima da filha de Adam Jarred ter agora um fundo especial em seu
nome que lhe garante o curso universitrio. Se eu procurar mais um pouco,  provvel que descubra que o dinheiro saiu do bolso de vocs! -- Publicarei que minha
reprter foi vtima de falsa priso por parte dos capangas de Brummel pelo fato de ter tirado uma foto que no devia, uma foto de Brummel, Young e Langstrat com
nada mais nada menos que o prprio Alexander M. Kaseph, o Figuro que est por trs da conspirao para tomar a cidade, ajudado e protegido por vocs todos, um bando
de neofascistas pseudo-espiritualizados, sedentos de poder! Young sorriu calmamente. -- O que significa que voc planeja escrever acerca da Omni S.A. Marshall no
podia crer que realmente estava ouvindo isso da boca de Young. -- Ento esta  a hora de dizer a verdade? Young continuou, descontrado e confiante. -- Bem, voc
tem pesquisado tudo o que a Omni comprou e tem, no  verdade? -- Isso mesmo. Young sorriu ao perguntar. -- E quantas casas voc diria que foram entregues

 Omni por causa de atraso no pagamento dos impostos? Marshall recusou-se a fazer o jogo dele. -- Diga-o voc. Young simplesmente voltou-se para Irving Pierce, o
tesoureiro. Pierce folheou uns papis. -- Sr. Hogan, creio que seus registros mostram que cento e vinte e trs casas foram leiloadas e compradas pela Omni por falta
de pagamento dos impostos... Ele sabia. Ora, e da? -- Foi o que descobri. -- O senhor se enganou. Ouamos a mentira, Pierce. -- O nmero correto  cento e sessenta
e trs. Todas adquiridas legalmente, legitimamente, nos ltimos cinco anos. Marshall no conseguiu pensar numa resposta. Young continuou. -- Voc est certo quanto
 Omni ser a proprietria de todos esses imveis, alm de muitos outros empreendimentos comerciais. Mas tambm deve notar quanto essas propriedades foram substancialmente
melhoradas sob o novo proprietrio. Eu diria que Ashton  com certeza uma cidade melhor por causa disso. Marshall podia sentir o vapor subindo-lhe  cabea. -- Essa
gente pagou os impostos! Conversei com mais de cem pessoas! Pierce permaneceu calmo. -- Temos prova substancial de que no pagaram.

-- Tm coisa nenhuma! -- E com relao  faculdade... -- Young fitou Eugene Baylor, indicando ser sua vez. Baylor ergueu-se a fim de falar. -- No agento mais ouvir
essa calnia e falatrio a respeito de a faculdade estar mergulhada em dvidas. A faculdade est muito bem, obrigado e essa... essa campanha de difamao a que Eldon
Strachan deu incio precisa cessar ou o processaremos! O Sr. Sulski foi contratado exatamente para essa eventualidade. -- Tenho lanamentos, tenho prova, Baylor,
de que voc deu um desfalque de milhes de dlares na faculdade. Young interveio: -- Voc no tem prova alguma, Marshall. No tem lanamento algum. Marshall teve
de sorrir. -- Oh, voc devia ver o que tenho. Young disse simplesmente: -- J vimos. Tudo. Marshall teve a sensao de ter despencado de um penhasco. Young continuou,
em tom cada vez mais frio. -- Acompanhamos as suas fteis tentativas desde o comeo. Sabemos que falou com Ted Harmel, sabemos que esteve entrevistando Eldon Strachan,
Joe Carlucci, Lew Gregory e centenas de outros impostores, descontentes e profetas de mau agouro. Sabemos que tem perturbado nossa gente e nossos negcios. Sabemos
que tem espionado todos os nossos documentos pessoais. Young fez uma pausa para efeito, e ento disse: -- Tudo isso vai cessar agora, Marshall.

-- Da o motivo desta reunio! -- disse Marshall, sarcstico. -- O que me aguarda, Young? Que diz, Brummel? Tem uma boa acusao de torpeza moral para usar contra
mim? Vai mandar algum destruir minha casa tambm? Young levantou-se, pedindo com a mo uma oportunidade de falar. -- Marshall, pode ser que nunca venha a compreender
nossos verdadeiros motivos, mas pelo menos d-me a oportunidade de tentar esclarecer a questo. No existe nada de sede predatria de poder entre ns, como voc
provavelmente pensa. No procuramos poder como um fim. -- No, obtiveram-no puramente por acidente -- disse Marshall, mordaz. -- O poder para ns, Marshall, s 
necessrio como um meio para obtermos o nosso verdadeiro objetivo com relao  humanidade, que nada mais  do que paz e prosperidade universal. -- Quem  "ns"?
-- Oh, voc j sabe disso tambm, bem demais. A Sociedade, Marshall, a Sociedade a que voc tem farejado todo esse tempo como se estivesse perseguindo algum misterioso
ladro. A Sociedade da Percepo Universal. E temos nossa prpria pequena filial aqui em Ashton, nossa prpria pequena participao no Clube Para a Conquista do
Mundo! Young sorriu com muita tolerncia. --  mais do que um clube, Marshall. Na realidade,  uma fora h muito esperada que se levanta em prol da mudana global,
uma voz mundial que finalmente unir a humanidade. -- Ah, sim, um movimento to maravilhoso, to filantrpico que vocs tm de introduzi-lo s escondidas,

tm de ocult-lo... -- Somente das idias antigas, Marshall, dos velhos obstculos do fanatismo e da intolerncia religiosa. Vivemos num mundo que est crescendo
e mudando, e a humanidade ainda est-se evoluindo, amadurecendo. O processo de amadurecimento de muitos ainda est atrasado e no podem tolerar aquilo que ser melhor
para eles. Marshall, muitos de ns simplesmente no sabemos o que  melhor. Algum dia, e esperamos que seja breve, todos compreendero, no haver mais religio,
e ento no haver mais segredos. -- Enquanto isso, vocs fazem o que podem para assustar as pessoas e afugent-las de suas casas e negcios... -- Somente, somente
se forem limitadas em sua perspectiva e se resistirem  verdade; apenas se colocarem no caminho daquilo que  verdadeiramente certo e bom. Marshall estava ficando
to enjoado quanto estava zangado. -- Verdadeiramente certo e bom? O qu? De repente vocs so a nova autoridade acerca do que  certo e bom? Vamos, Young, onde
est a sua teologia? Onde Deus se encaixa em tudo isso? Young deu de ombros com resignao e disse: -- Ns somos Deus. Finalmente Marshall afundou-se numa cadeira.
-- Ou vocs esto loucos, ou sou eu que estou. -- Sei que vai muito alm de qualquer coisa que voc j considerou antes. Concordo em que nossos ideais so muito
altos e sublimes, mas o que viemos executar  inevitvel a todos os homens. Nada mais  do que o destino final da evoluo humana: iluminao,

autorealizao. Algum dia todos os homens, inclusive voc, devem realizar seu prprio potencial infinito, sua prpria divindade, e devem-se unir em uma s mente
universal, uma percepo universal. A alternativa  perecer. Marshall tinha ouvido o suficiente. -- Young, isso no passa de excremento de cavalo e voc est doido
varrido! Young fitou os outros e pareceu quase triste. -- Todo o mundo tinha a esperana de que voc compreendesse, mas, para dizer a verdade, j espervamos que
se sentisse dessa maneira. Voc tem tanto que caminhar, Marshall, tanto... Marshall olhou-os a todos por um bom tempo. -- Vocs planejam tomar a cidade, no ? Comprar
a faculdade? Fazer dela algum tipo de colmia para a sua Sociedade csmica, alucinatria? Young fitou-o com o rosto muito srio e disse: --  para o que h de melhor,
Marshall. Tem de ser assim. Marshall ergueu-se e se dirigiu  porta. -- Verei vocs no jornal. -- Voc no tem jornal algum, Marshall -- disse Young abruptamente.
Marshall apenas voltou-se e meneou a cabea. -- Caia morto. Ned Wesley, presidente do Banco Independente, ao receber o sinal de Young, disse. -- Marshall, temos
de executar a sua hipoteca. Marshall no acreditava no que estava ouvindo. Wesley abriu seu arquivo na ficha de emprstimos comerciais que Marshall fizera para o
Clarim.

-- Voc no tem pago as prestaes h oito meses, e no obtivemos resposta s muitas indagaes que fizemos. No temos escolha a no ser executar. Marshall estava
completamente preparado para fazer Wesley engolir seus lanamentos falsificados, mas no teve tempo, pois Irving Pierce, o tesoureiro municipal, tomou a palavra.
-- Quanto aos seus impostos, Marshall, temo que tambm estejam muito atrasados. No sei como voc achou que podia continuar morando naquela casa sem cumprir com
as suas obrigaes. Foi nesse exato momento que Marshall descobriu que podia virar assassino. Seria a coisa mais fcil do mundo, exceto por haver dois tiras na sala
que adorariam pregar-lhe essa acusao, e um juiz que adoraria jog-lo atrs das grades para o resto da vida. -- Vocs esto todos doidos -- disse lentamente. --
No conseguiro safar-se dessa. ele

Foi ento que Jimmy Clayborne, da Impressora Comercial, deu a sua contribuio. -- Marshall, temo que ns tambm estejamos tendo problemas com voc. Meus lanamentos
mostram que no recebemos nada pelas ltimas seis impresses do Clarim. No h como possamos continuar a imprimir o jornal a menos que voc pague as contas. O detetive
Nelson acrescentou: -- So problemas muito srios, Marshall, e em vista da nossa investigao no caso da morte de Ted Harmel, nada disso melhora a sua situao.
-- E quanto  lei -- disse o juiz Baker -- quaisquer decises que acabemos tomando depender, naturalmente, de como voc se comportar daqui por diante.

-- Especialmente tendo em vista a queixa de abusos sexuais que acabamos de receber -- acrescentou Brummel. -- Sua filha deve ser uma moa muito apavorada para ter
mantido silncio durante tanto tempo. Ele se sentiu como se balas estivessem rasgandolhe a carne. Podia sentir estar morrendo, estava certo disso. Apesar de se encolherem
 frente do pequeno templo da Igreja da Comunidade de Ashton, e chiarem maldies e imprecaes sulfurosas, os cinco demnios mantinham-se tenazmente agarrados a
Bobby Corsi. Triskal, Krioni, Sete e Scion estavam l, juntamente com seis outros guerreiros, as espadas desembainhadas, circundando o pequeno grupo de orao. Hank
estava com a Bblia na mo e j havia repassado algumas referncias dos Evangelhos para ter idia de como proceder. Ele e Andy seguravam Bobby, firme mas delicadamente,
que estava sentado no cho  frente do plpito. John Coleman tinha vindo prontamente a fim de ajudar, e Ron Forsythe no teria perdido a reunio. -- Sim -- observou
Ron -- ele est muito mal. Ei, Bobby, lembra-se de mim, Ron Forsythe? Bobby olhou para Ron com olhos vidrados. -- Sim, lembro-me de voc... Mas os demnios tambm
se lembravam de Ron Forsythe e do domnio que seus camaradas j haviam exercido sobre a sua vida. -- Traidor! Traidor! Bobby comeou a gritar com Ron: -- Traidor!
Traidor! -- enquanto lutava por livrarse de Hank e

Andy. John aproximou-se para ajudar a segurar Bobby. Hank ordenou aos demnios: -- Parem com isso! Parem com isso agora mesmo! Os demnios falaram atravs de Bobby
enquanto este se voltou e praguejou contra Hank. -- No precisamos escut-lo, homem de orao! Jamais nos derrotar! Morrer antes de nos derrotar! -- Bobby fitou
os olhos nos quatro homens e gritou: -- Vocs todos morrero! Hank orou em voz alta de maneira que todos, inclusive Bobby, pudessem ouvir. -- Senhor Deus, enfrentamos
agora estes espritos em nome de Jesus, e os atamos! Os cinco espritos esconderam a cabea debaixo das asas como se sob pedradas, chorando e choramingando. -- No...
no... -- disse Bobby. Hank continuou: -- E peo agora que o Senhor mande os seus anjos para nos ajudar. .. Os dez guerreiros estavam prontos e esperando. Hank dirigiu-se
aos espritos. -- Quero saber quantos so. Falem! Um demnio, menor que os outros, entrou pelas costas de Bobby e ganiu: -- No! O berro foi expelido com um arroto
da garganta de Bobby. -- Quem  voc? -- perguntou Hank. -- No direi! No pode me obrigar!

-- No nome de Jesus... O demnio respondeu imediatamente: -- Adivinhao! Hank perguntou: -- Adivinhao, quantos esto a dentro? -- Milhes! -- Triskal cutucou
Adivinhao de leve no flanco. -- Ai-ai! Dez! Dez! -- Outro cutuco. -- Ai-ai! No, somos cinco, apenas cinco! Bobby comeou a contorcer-se e a tremer enquanto os
demnios passaram a brigar. Adivinhao viu-se alvo de duras bofetadas. -- No! No! -- berrou Bobby pelo demnio. -- Agora vejam o que me obrigaram a fazer! Os
outros esto me batendo! -- Em nome de Jesus, saia -- disse Hank. Adivinhao soltou Bobby e flutuou para cima por sobre o grupo. Krioni agarrou-o. -- Saia desta
regio! -- ordenou. Adivinhao obedeceu imediatamente voando da igreja, sem olhar para atrs. e saiu

Um demnio grande e peludo gritou aps o esprito que partira, e Bobby olhou para o teto, gritando: -- Traidor! Traidor! Ainda pagar pelo que fez! -- E quem  voc?
-- perguntou Hank. O demnio fechou a boca, e Bobby fez o mesmo, fitando os homens com olhos cheios de fogo e dio. -- Esprito, quem  voc? -- exigiu Andy. Bobby
permaneceu em silncio, o corpo todo tenso, os lbios apertados, os olhos esbugalhados. Sua respirao era curta e frentica. Seu rosto estava rubro. -- Esprito
-- disse Andy -- ordeno-lhe que nos

diga quem , em nome de Jesus! -- No mencione esse nome! -- o esprito sibilou e ento praguejou. -- Mencionarei esse nome vez aps vez -- disse Hank. -- Voc sabe
que esse nome o derrotou. -- No... No! -- Quem  voc? -- Confuso, Loucura, dio... Fao tudo isso! saia! -- Em nome de Jesus, eu o ato e ordeno-lhe que

Todos os demnios fizeram um sbito movimento das asas em conjunto, puxando, dilacerando Bobby, tentando escapar. Bobby lutou para livrar-se dos homens que o seguravam,
e eles tiveram de usar toda a sua fora a fim de mant-lo no cho. O peso deles era pelo menos quatro vezes maior do que o do rapaz, e contudo ele quase escapou.
-- Saiam! -- ordenaram os quatro. O segundo esprito no conseguiu mais manter-se agarrado a Bobby e subiu com um solavanco enquanto o rapaz se descontraa subitamente.
O esprito encontrouse de imediato nas mos de dois guerreiros que o aguardavam. -- Saia desta regio! -- ordenaram-lhe. Ele baixou um olhar furioso a Bobby e a
seus trs comparsas restantes, depois arremeteu-se para fora da igreja e sumiu na distncia. O terceiro demnio falou logo a seguir, usando a voz de Bobby: -- Voc
jamais me expulsar! Passei aqui a maior parte da vida dele! -- Quem  voc?

-- Bruxaria! Muita bruxaria! -- Est na hora de sair -- disse Hank. -- Nunca! No estamos sozinhos, sabia? Somos muitos! -- Somente trs, pelas minhas contas. --
Sim, nele, sim. Mas voc jamais conseguir nos apanhar a todos. V em frente e nos expulse deste aqui; ainda existem milhes na cidade. Milhes! -- O demnio soltou
uma gargalhada. Andy arriscou uma pergunta. -- E o que  que vocs esto fazendo aqui? -- Esta cidade  nossa! Ficaremos aqui para sempre! Somos os donos!

-- Vamos expuls-los! -- disse Hank. Bruxaria apenas riu-se e disse: -- Vamos, tente! -- Saia, em nome de Jesus! O demnio agarrou-se a Bobby fortemente, desesperadamente.
O corpo do rapaz retesou-se de novo. Hank ordenou novamente. -- Bruxaria, em nome de Jesus, saia! O demnio falou atravs de Bobby enquanto os olhos do rapaz, selvagens
e esbugalhados, fixavam-se em Hank e Andy, e cada tendo de seu pescoo esticavase como uma corda de piano. -- No saio! No saio! Ele  meu! Hank, Andy, John e
Ron comearam a orar ao mesmo tempo, golpeando Bruxaria com suas oraes. O demnio entrou para dentro de Bobby e tentou esconder a cabea debaixo das asas; ele
babava de dor e agonia, e

fazia careta a cada meno do nome de Jesus. As oraes continuaram. Bruxaria comeou a respirar com dificuldade. Gritou. -- Rafar -- gritou Bobby. -- Baal Rafar!
-- O que foi que voc disse? O demnio continuou a gritar atravs de Bobby: -- Rafar... Rafar... -- Quem  Rafar? -- perguntou Hank. -- Rafar...  Rafar...  Rafar...
 Rafar... -- O corpo de Bobby se contorceu, e ele repetia como um repugnante disco quebrado. -- E quem  Rafar? -- perguntou Andy. -- Rafar reina. Ele reina. Rafar
 Rafar. Rafar  senhor. -- Jesus  Senhor -- lembrou John ao demnio. -- Satans  senhor! -- rebateu o demnio. -- Voc disse que Rafar era senhor -- disse Hank.
-- Satans  senhor de Rafar. -- E de quem Rafar  senhor? -- Rafar  senhor de Ashton. Ele reina sobre Ashton. Andy teve uma inspirao. -- Ele  o prncipe de
Ashton? -- Rafar  prncipe. Prncipe de Ashton. -- Bem, repreendemos Rafar tambm! -- disse Ron. Perto da grande rvore morta, Rafar voltou-se rapidamente como
se algum o tivesse espetado, e correu os olhos desconfiados por diversos de seus demnios.

O demnio continuou a soltar bazfias, falando atravs de Bobby, cuja face se contorcia em imagem quase perfeita das expresses do demnio. -- Somos muitos, muitos,
muitos! -- jactou-se o demnio. -- E a cidade de Ashton  sua? -- perguntou Hank. -- Com exceo de voc, homem de orao! -- Ento est na hora de comear a orar
-- disse Andy, e foi o que todos fizeram. O demnio fez uma careta de dor terrvel, escondendo com desespero a cabea debaixo das asas e agarrando-se a Bobby com
toda a fora que desaparecia rapidamente. -- No... no... no! -- choramingou. -- Solte-o, Bruxaria -- disse Hank -- e saia dele. -- Por favor, deixe-me ficar.
Prometo que no o ferirei! Um sinal seguro. Hank e Andy se entreolharam. A coisa estava prestes a sair. Hank olhou diretamente nos olhos de Bobby e ordenou: -- Esprito,
saia, em nome de Jesus! Agora! O demnio guinchou enquanto suas garras comearam a escorregar, soltando Bobby. Lentamente, centmetro a centmetro, apesar dos esforos
frenticos do demnio em mant-las enterradas, elas comearam a retrair-se. Ele berrava e praguejava, e os sons saam da garganta de Bobby enquanto a ltima garra
se soltou e o demnio adejou para o alto. Os anjos estavam prestes a ordenar-lhe que deixasse a regio, mas ele j estava a caminho.

vista.

-- Vou indo, vou indo! -- sibilou, sumindo de

Bobby descontraiu-se, e o mesmo fizeram os quatro homens que lhe ministravam. -- Tudo bem, Bobby? -- perguntou Andy. Bobby, o Bobby verdadeiro, respondeu: -- Sim...
ainda sobraram alguns, posso senti-los. -- Descansaremos um minuto expulsaremos a todos -- disse Hank. e depois

-- Sim -- disse Bobby. -- Faamos isso. Ron deu uns tapinhas no joelho do rapaz. -- Voc est indo muito bem! Nesse momento Mary entrou no templo para ver se podia
ajudar de alguma maneira. Tinha ouvido dizer que estavam ministrando a algum e no se sentia bem ficando em casa. Mas ento ela viu Bobby. O homem! O homem de roupas
de couro! Ela ficou paralisada no lugar em que estava. Bobby ergueu os olhos e a viu. Tambm a viu um demnio dentro dele. Subitamente Bobby se transformou, seu
rosto de rapaz exausto e temeroso passou ao de um esprito malicioso, lascivo, estuprador. -- Ol -- disse o esprito atravs de Bobby, e a seguir referiu-se a ela
em termos lascivos, obscenos. Hank e os outros ficaram chocados, mas sabiam quem estava falando. Hank olhou na direo de Mary, e viu que ela se afastava, aterrorizada.
-- Ele... foi ele quem estacionamento! -- gritou ela. me ameaou no

Os demnios jorraram mais obscenidades. Hank

interveio imediatamente. -- Esprito, fique quieto! O esprito o amaldioou. --  a sua esposa, no ? -- Eu o ato no nome de Jesus. Bobby retorceu-se e contorceu-se
como que vitimado por dor terrvel; o demnio estava sentindo a picada das oraes. -- Deixe-me em paz! -- berrou. -- Quero... quero...-- Prosseguindo, ele descreveu
um estupro com hediondos detalhes. Mary respondeu: recuou, mas ento se recomps e

-- Como se atreve! Sou filha de Deus, e no tenho de agentar esse tipo de conversa. Fique quieto e saia dele! Bobby contorceu-se como um verme espetado e teve nsia
de vmito. -- Deixe-o, Estupro! -- ordenou Andy. -- Solte-o! -- disse Hank. Mary chegou mais perto e disse com firmeza. -- Eu o repreendo, demnio! Em nome de Jesus,
repreendo-o! O demnio desgrudou-se de Bobby como se acertado por uma bola de demolio e ficou batendo as asas pelo cho. Krioni o agarrou e atirou-o para fora
da igreja. O ltimo esprito estava bem intimidado mas de qualquer forma, muito antiptico. -- Eu surrei uma mulher hoje! -- No queremos ouvir naHa a esse respeito
-- disse John. -- Apenas saia!

-- Eu bati nela e a chutei e a surrei... -- Fique quieto e saia! -- ordenou Hank. O demnio praguejou alto e saiu, Krioni ajudou-o a sumir. Bobby deixou-se cair
no cho exausto, mas um sorriso suave estampou-se-lhe no rosto e ele comeou a rir alegremente. -- Eles se foram! Graas a Deus, eles se foram! Hank, Andy, John
e Ron chegaram-se a ele a fim de confort-lo. Mary manteve-se afastada, ainda insegura quanto a esse desgrenhado. Andy foi claro e direto. -- Bobby, voc precisa
do Esprito Santo em sua vida. Se quiser ficar livre daquelas coisas, voc precisa de Jesus. -- Estou pronto, estou pronto! -- disse Bobby. Ali mesmo, naquele instante,
Bobby Corsi tornouse uma nova criatura. E suas primeiras palavras como cristo foram: -- Gente, esta cidade est mal! Esperem s at ficarem sabendo do que andei
fazendo e para quem estive trabalhando!

27
Sempre acontecia no apartamento da professora Juleen Langstrat, na sala de estar escurecida, iluminada por uma nica vela na mesinha de centro, sentada no macio
e confortvel sof. Langstrat era sempre a mestra e guia, instruindo em voz calma e clara. Shawn estava sempre presente para dar apoio moral e tambm participar.
Sandy nunca estava sozinha.

Eles se tinham encontrado dessa maneira regularmente, e cada vez era uma aventura totalmente nova. As excurses calmas, repousantes a outros nveis do consciente
eram como o abrir de uma porta totalmente nova a uma realidade superior, ao mundo de experincias e poderes psquicos. Sandy estava completamente fascinada. O metrnomo
sobre a mesinha batia, em ritmo lento, repousante, constante, inspire, expire, relaxe, relaxe, relaxe. Sandy estava ficando perita na arte de mergulhar abaixo dos
nveis superiores do consciente, nveis esses nos quais todos os seres humanos normalmente operam, mas que so os mais perturbados e atravancados por estmulos externos.
Em algum lugar abaixo deles encontravam-se os nveis mais profundos, onde se podiam encontrar verdadeiras capacidades e experincias psquicas. A fim de atingir
esses nveis era preciso descontrao, meditao e concentrao cuidadosas e metdicas. Langstrat havia-lhe ensinado todos os passos. Enquanto Sandy permanecia assentada
imvel no sof e Shawn observava atentamente, Langstrat fazia uma lenta e contnua contagem regressiva, na cadncia do metrnomo. -- Vinte e cinco, vinte e quatro,
vinte e trs... Em pensamento, Sandy se encontrava num elevador, descendo aos nveis mais profundos do seu ser, descontraindo-se, desligando os nveis superiores
de atividade cerebral, movendo-se atravs dos planos inferiores. -- Trs, dois, um, nvel Alfa -- disse Langstrat. -- Agora, abra a porta. Sandy visualizou-se abrindo
a porta do elevador e entrando numa linda campina verde cercada de rvores

recobertas de flores brancas e rosadas. O ar era clido e soprava uma leve brisa, como uma delicada carcia. Sandy olhou em redor. -- Voc a v? -- perguntou Langstrat
suavemente. -- Ainda estou procurando -- respondeu Sandy. Ento seu rosto se iluminou. A vem ela! Como  linda! Sandy podia v-la caminhando em sua direo, um
linda jovem de loiros cabelos cascateantes, toda vestida de tremeluzente linho branco. Seu rosto resplandecia de felicidade. Vinha de mos estendidas em saudao.
-- Ol! -- chamou Sandy feliz. -- Ol! -- respondeu a moa na voz mais linda e melodiosa que Sandy jamais ouvira. -- Voc veio para me guiar? A moa loira tomou
nas suas as mos de Sandy e olhou em seus olhos com tremenda bondade e compaixo. -- Sim. Meu nome  Madeline. Eu a ensinarei. Espantada, Sandy olhou para Madeline.
-- Voc parece to jovem! J viveu antes? -- Sim. Centenas de vezes. Mas cada vida foi simplesmente um passo para cima. Eu lhe mostrarei o caminho. Sandy estava
extasiada. -- Quero aprender. Quero ir com voc. Madeline tomou a mo de Sandy e comeou a conduzi-la atravs da campina verdejante na direo de uma imaculada calada
dourada. Enquanto Sandy permanecia sentada no sof do apartamento de Langstrat, o rosto cheio de gozo e arrebatamento, garras brilhantes penetravam-lhe o

crnio  medida que as mos retorcidas e negras de um hediondo demnio prensavam-lhe a cabea. O esprito, inclinado sobre ela, sussurrava palavras  sua mente:
-- Ento venha. Venha comigo. Eu a apresentarei a outros que se elevaram antes mesmo de mim. -- Eu adoraria! -- respondeu Sandy. Langstrat e Shawn sorriram um para
o outro. Tom McBride, o colador, ouviu a campainha da porta da entrada e s conseguiu gemer. O dia havia sido um dos mais traumticos pelos quais j passara. Dirigiu-se
apressado  frente a tempo de ver Marshall entrar e ir diretamente para o escritrio. Tom estava confuso e cheio de perguntas. -- Marshall, onde esteve e onde est
Berenice? Os jornais no chegaram da impressora! O telefone no parou de tocar o dia todo. Finalmente tive de ligar a secretria eletrnica, e muita gente j veio
indagar o que aconteceu com o jornal de hoje. -- Onde est Carmem? -- perguntou Marshall, e Tom notou que Marshall tinha uma aparncia muito, muito doente. -- Marshall
-- perguntou ele, preocupado -- o que... o que est errado? O que est acontecendo por aqui? Marshall rosnou, quase gritando: -- Onde est Carmem? -- No est aqui.
Esteve aqui, mas ento Berenice se mandou, e depois ela se mandou. Fiquei sozinho o dia todo! Marshall abriu com fria a porta do escritrio e entrou. Foi direto
a uma gaveta do arquivo e puxou-a com fora. Vazia. Tom, a distncia segura, observava.

Marshall enfiou a mo em baixo da mesa e puxou uma caixa de papelo. A caixa saiu fcil e leve. Ele viu que tambm ela estava vazia e a jogou ao cho soltando uma
praga em voz alta. -- Alguma coisa... h algo que eu possa fazer? -- perguntou Tom. Marshall deixou-se cair na cadeira, o rosto plido, o cabelo desgrenhado. Por
alguns instantes, ele apenas se deixou ficar sentado, a cabea apoiada na mo, respirando fundo, tentando pensar, tentando se acalmar. -- Ligue para o hospital --
disse afinal com voz muito fraca que de jeito nenhum parecia a de Marshall Hogan. -- O... o hospital? -- Tom no gostava nada daquilo. -- Pergunte como Berenice
est passando. O queixo de Tom caiu. -- Berenice! Ela est aconteceu? Marshall explodiu: no hospital? O que

-- Apenas faa o que mandei, Tom! Tom correu ao telefone. Marshall ergueu-se e foi  porta. -- Tom... Tom levantou os olhos, mas continuou a discar o nmero. Marshall
recostou-se contra a porta. Sentia-se to fraco, to impotente. -- Tom, sinto muito. Realmente sinto muito. Obrigado por fazer a chamada. Informe-me do que eles
disserem. Com isso Marshall voltou-se e entrou de novo no escritrio, deixando-se cair na cadeira e permanecendo sentado, imvel. Tom veio com o relatrio.

-- Ah... Berenice teve apenas uma costela quebrada e eles a enfaixaram... mas nenhum outro ferimento srio. Algum trouxe o carro dela de Baker, e ela j teve alta
e foi para casa.  l que ela est no momento. -- Sim... eu tenho de ir para casa... -- O que aconteceu com ela? -- Ela foi espancada. Algum a atacou, surrou. --
Marshall... -- Tom estava to horrorizado que quase ficou sem fala. -- ... bem... que coisa terrvel! Marshall levantou-se com dificuldade da cadeira e se recostou
contra a escrivaninha. Tom ainda estava preocupado. -- Marshall, a edio de sexta-feira vai sair? Mandamos as colagens  impressora... no compreendo. -- No imprimiram
-- respondeu Marshall com suavidade. -- O qu? Por que no? Marshall deixou a cabea pender para a frente, e sacudiu-a. Soltou um suspiro, ento olhou de novo para
Tom. -- Tom, olhe, tire o resto do dia de folga, o que sobra do dia. Deixe-me ajeitar as coisas por aqui e ento ligarei para voc, est bem? -- Est bem. Tom foi
 salinha dos fundos apanhar a lancheira e o palet. O telefone tocou, uma linha diferente, um nmero que Marshall reservava para chamados especiais. Marshall atendeu.
-- Clarim -- disse. -- Marshall?

-- Sim... -- Marshall, aqui  Eldon Strachan. Oh, graas a Deus, ele est vivo! Marshall sentia a garganta a se apertar. Achou que ia chorar. -- Eldon, voc est
bem? -- No muito. Acabamos de chegar de viagem. Marshall, algum destruiu a minha casa. Est uma baguna. -- Doris est bem? -- Ela est perturbada. Eu estou chateado.
-- Todos ns fomos atingidos, Eldon. Eles nos descobriram. -- O que aconteceu? Marshall contou-lhe tudo. A parte mais difcil de todas foi dizer a Eldon Strachan
que seu amigo e companheiro de exlio, Ted Harmel, estava morto. Durante longo tempo, Strachan teve dificuldade em falar. Passaram-se diversos minutos em constrangedor
e doloroso silncio, interrompido apenas quando um dos dois perguntava se o outro ainda estava no telefone. -- Marshall -- disse Strachan afinal --  melhor corrermos.
 melhor nos mandarmos daqui a toda e nunca mais voltarmos. -- Correr para onde? -- perguntou Marshall. -- Voc j correu uma vez, lembra-se? Enquanto estiver vivo,
Eldon, estar vivendo com esta coisa e eles sabero. -- Mas o que podemos fazer afinal? -- Temos amigos, pela madrugada! E o promotor geral do estado?

-- J lhe disse, no posso procurar Norm Mattily sem nada alm da minha palavra. Preciso de algo mais que nossa amizade. Preciso de prova, algum tipo de documentao.
Marshall baixou os olhos  caixa de papelo vazia. -- Conseguirei algo para voc, Eldon. De um jeito ou de outro, conseguirei algo para mostrar a quem se dispuser
a ouvir. Eldon suspirou. -- Apenas no sei por quanto tempo ainda isto vai continuar... -- Por tanto tempo quanto permitirmos, Eldon. Ele pensou por um instante,
ento disse: -- , voc tem razo. Consiga-me algo slido, e verei o que posso fazer. -- No temos escolha. No momento estamos com a corda em torno do pescoo; temos
de nos salvar! -- Bem, eu certamente pretendo fazer isso. Doris e eu vamos desaparecer, e 'depressa, e o aconselharia a fazer o mesmo. O que no podemos fazer 
ficar por aqui. -- Onde poderei encontr-lo? -- No vou dizer-lhe pelo telefone. O gabinete de Norm Mattily entrar em contato com voc. Ser sinal de que consegui
chegar a ele, e, de qualquer forma, essa  a nica forma de eu lhe ser til. -- Se eu no estiver aqui, se tiver dado o fora da cidade, ou aparecer morto, diga ao
seu amigo que entre em contato com Al Lemley no Times de Nova York. Tentarei deixar recado com ele. -- Verei voc um dia destes. -- Vamos orar para que sim.

-- Tenho orado bastante nos ltimos dias. Marshall desligou, trancou todas as portas, e dirigiu-se a casa. Berenice encontrava-se deitada no sof com uma bolsa de
gelo no rosto e uma faixa desconfortvel em torno das costelas, e com muita vontade de receber um telefonema. J havia vomitado uma vez, a cabea latejava e ela
se sentia pssima, mas queria receber um telefonema. O que estava acontecendo l fora? Tentou chamar o Clarim, mas ningum respondeu. Ligou para a casa de Marshall
mas l tambm ningum atendeu. Ora, quem diria! O telefone tocou. Ela o arrebatou como uma coruja agarrando um ratinho. -- Al? -- Berenice Krueger? -- Kevin? --
Sim... -- Ele parecia nervoso e agitado. -- Ei, estou morrendo, quero dizer, estou realmente apavorado! -- Onde voc est, Kevin? -- Em casa. Ei, algum entrou aqui
e bagunou o lugar! -- A porta est fechada? -- Est. -- Ento por que no a tranca? -- Sim, j tranquei. Estou com medo. Eles devem ter mandado algum atrs de
mim. -- Muito cuidado com o que disser, Kevin. O que ouvimos dizer acerca dos nossos telefones estarem grampeados  provavelmente certo. Podem ter

grampeado o seu telefone. Weed no disse nada por um momento; ento praguejou de puro pavor. -- Acabei de receber um telefonema de voc sabe quem! Acha que eles
ouviram a nossa conversa? -- No sei. Precisamos ter cuidado. -- E o que vou fazer? Est tudo vindo abaixo. Susan diz que tem a mercadoria, e est tudo vindo abaixo!
Ela vai dar o fora... Berenice interrompeu-o. -- Kevin, no diga mais nenhuma palavra. E melhor voc me dizer pessoalmente. Vamos nos encontrar em algum lugar. --
Mas eles no ficaro sabendo onde nos encontraremos? -- Se souberem, sabero, mas pelo menos teremos algum controle sobre o que ouviro. -- Bem, ento vamos depressa,
e estou dizendo depressa! -- Que tal a ponte ao norte de Baker, a do rio Judd? -- A verde grandona? -- Ela mesmo. H uma sada bem ao norte dela. Posso estar l
em torno... -- Berenice olhou para o relgio de parede --... digamos das 7:00. -- Estarei l. -- Certo. At logo. Berenice ligou imediatamente para o Clarim. Nada.
Ligou para a casa de Marshall.

O telefone na cozinha dos Hogans tocou e tocou, mas Marshall e Kate permaneceram quietos  mesa, deixando que tocasse at parar. Kate, as mos um tanto trmulas,
a respirao conscientemente controlada, os olhos marejados de lgrimas, olhava para o marido. -- O telefone sempre traz ms notcias -- gracejou ela, baixando os
olhos por um instante. No momento Marshall tinha tanta fora ntima quanto um saco de lixo vazio e, coisa rara em sua vida, no sabia o que dizer. -- Quando foi
que recebeu o chamado? -- perguntou ele afinal. -- Hoje de manh. -- Mas no sabe quem era? Kate respirou fundo, tentando manter-se acima das emoes. -- Fosse quem
fosse, sabia praticamente tudo sobre mim, sobre voc, e at sobre Sandy; no era apenas um engraadinho. As. credenciais dele eram impressionantes. -- Mas ele estava
mentindo! -- disse Marshall furioso. -- Eu sei -- respondeu Kate com firmeza. -- No passa de mais uma ttica para sujar meu nome, Kate. Esto tentando tomar o meu
jornal, esto tentando tomar a minha casa, e agora esto tentando destruir o meu casamento. No existe, nem jamais existiu nada entre mim e Berenice. Pela madrugada,
tenho idade para ser pai dela! -- Eu sei -- respondeu Kate, e fez uma pausa, tentando conseguir foras para continuar. -- Marshall, voc  o meu marido, e se algum
dia eu o perdesse sei

que jamais encontraria outro melhor. Tambm sei que voc no  de jogar suas paixes por a. Tirei a sorte grande com voc e jamais me esqueci disso. Ele tomou a
mo dela. -- E voc  toda a mulher que eu jamais poderia desejar. Ela apertou a mo dele, dizendo: -- Tenho confiana em que essas coisas jamais mudaro. Suponho
que  esse tipo de confiana que me tem feito continuar, esperando... Sua voz sumiu, e houve um momento de silncio. Kate teve de abafar as emoes e Marshall no
conseguia pensar em nada para dizer. -- Marshall -- disse ela afinal -- h algumas outras coisas que tambm no mudaram, mas essas deviam ter mudado; fizemos um
acordo, voc e eu, de que mudariam. Concordamos em que as coisas seriam diferentes depois que nos mudssemos de Nova York, que voc no se mataria mais no trabalho,
que teria mais tempo para a famlia, que talvez consegussemos nos conhecer novamente e consertar as coisas --. As lgrimas comearam a cair e lhe era difcil falar,
mas estava decidida, e continuou. -- No sei o que , se o maior furo jornalstico simplesmente o segue no importa aonde v ou se  voc mesmo quem o inventa, vez
aps vez. Mas se algum dia eu tivesse cime e suspeitasse de uma amante, a amante seria o seu trabalho. Voc realmente tem outro amor, Marshall, e no sei se posso
competir com ele. Marshall sabia que jamais conseguiria explicar tudo. -- Kate, voc no imagina o tamanho da coisa toda. Ela meneou a cabea. No queria ouvir.
-- No  esse o problema. Para dizer a verdade,

tenho certeza de que  grande, que  extremamente importante, provavelmente justifica a quantidade de tempo e energia que voc lhe tem dedicado. Mas o que tenho
de tratar agora  o prejuzo que essa coisa toda tem-me causado, e a Sandy, e a esta famlia. Marshall, no sou dada a fazer comparaes; no importa onde Sandy
e eu tenhamos sido colocadas em sua lista de prioridades, ainda estamos sofrendo, e esse  o problema que tenho de enfrentar. No me importo com nada mais. -- Kate...
 isso o que eles querem! -- Esto conseguindo -- respondeu ela abruptamente. -- Mas no se atreva a jogar a culpa sobre ningum mais pelo seu fracasso em cumprir
o que prometeu, Marshall, e estou exigindo o cumprimento das promessas que fez  sua famlia. -- Kate, no pedi que isto surgisse, no pedi que acontecesse. Quando
tudo terminar... -- J terminou! E no  realmente uma questo de escolha para mim. Tenho minhas limitaes, Marshall. Sei quanto consigo agentar. Tenho de ir embora.
Marshall estava fraco demais para dizer alguma coisa. No conseguia pensar em algo que dizer. Tudo o que podia fazer era olh-la nos olhos e deix-la falar, deix-la
fazer o que quer que fosse que tivesse de fazer. Kate continuou. Ela tinha de pr tudo para fora antes que no conseguisse faz-lo. -- Conversei com minha me hoje
cedo. Ela ficou firme ao lado de ns dois, e no est tomando partido de maneira alguma. De fato, e pode ser que voc ache isto interessante, ela tem orado por ns,
por voc em particular. Ela disse que at sonhou com voc outra noite; sonhou que voc estava em apuros e que Deus

enviaria seus anjos a fim de ajud-lo, se ela orasse. Ela levou a coisa toda muito a srio e tem orado desde ento. Marshall sorriu fracamente. Apreciava aquilo,
mas que bem estava fazendo? Kate chegou ao que realmente importava. -- Vou ficar com ela uns dias. Preciso de tempo para pensar. E voc precisa de tempo para pensar.
Ns dois precisamos saber ao certo quais das suas promessas voc est realmente disposto a cumprir. Precisamos resolver isso de uma vez por todas, Marshall, antes
de darmos mais um passo que seja. Quanto a Sandy, neste exato momento no sei onde ela se encontra. Se eu pudesse encontr-la pediria que viesse comigo, embora duvide
que ela quisesse deixar Shawn e tudo em que esto envolvidos --. Ela inspirou fundo enquanto essa nova dor tomava conta de seu ser. -- Tudo o que posso dizer  que
voc j no a conhece, Marshall. Eu no a conheo. Ela foi-se afastando de mansinho, de mansinho... e voc nunca estava por perto --. Ela no pde continuar. Enterrou
o rosto nas mos e chorou. Marshall perguntou-se se deveria aproximar-se dela, abra-la. Ser que ela aceitaria seu abrao? Poderia acreditar que ele a amava? A
verdade era que seu prprio corao estava-se partindo. Foi at ela e colocou com suavidade a mo em seu ombro. -- No lhe darei nenhuma resposta feita -- disse
ele baixinho. -- Voc tem razo. Tudo o que disse est certo. E no me atrevo a fazer no momento nenhuma outra promessa que talvez no possa cumprir --. As palavras
machucavam mesmo enquanto ele se forava a diz-las. -- Realmente preciso pensar a respeito. Preciso fazer uma verdadeira limpeza. Por que no faz o que

disse? V passar uns tempos com sua me, deixe toda esta confuso. Eu... eu a avisarei quando tudo terminar, quando tiver resolvido o que  importante. Nem mesmo
pedirei que volte at ento. -- Eu o amo, Marshall -- disse ela chorando. -- Tambm a amo, Kate. Ela se ergueu subitamente e abraou-o, dando-lhe um beijo de que
ele se lembraria por muito tempo, um beijo quando se agarrava desesperadamente a ele, quando o rosto estava molhado de lgrimas, quando o pranto lhe sacudia o corpo.
Ele a segurou com seus fortes braos como se estivesse agarrando-se  prpria vida, a um tesouro precioso que poderia jamais voltar a ter. Ento ela disse: -- 
melhor eu ir -- e lhe deu um abrao final. Ele a segurou por um ltimo instante e depois disse to confortadoramente quanto pde: -- Vai dar tudo certo. Adeus. As
malas delas j estavam feitas. Ela no levou muita coisa. Depois que a porta se fechou silenciosamente e o carro saiu, Marshall permaneceu sentado sozinho  mesa
da cozinha por longo tempo. Entorpecido, ele permaneceu com os olhos fixos nos veios da madeira da mesa, mil lembranas inundandolhe a mente. Minuto aps minuto
se passaram sem que ele o percebesse; o mundo continuava sem ele. Afinal  medida que todos os seus pensamentos e sentimentos vieram repousar sobre o nome dela,
seu estupor desmoronou: -- Kate... -- e ele chorou e chorou.

28
Guilo mordeu o lbio inferior e, juntamente com suas duas dzias de guerreiros, examinou o vale. De seu ponto de observao a meio caminho nas encostas das montanhas
e escondido entre as rochas, o Covil do Valente parecia uma caldeira que fervia e zumbia com mirades de espritos negros, formando uma neblina pululante e viva
acima da aglomerao de prdios. O som de asas era um cantocho constante, grave, cujo eco retornava sobre si dos penhascos rochosos ao redor do vale. Nesse momento,
os demnios estavam alvoroados,  semelhana de enraivecido enxame de abelhas. -- Eles esto-se preparando para alguma coisa -- observou um dos guerreiros. -- Mesmo
assim -- disse Guilo -- algo no me cheira bem, e eu me arriscaria a dizer que se relaciona com ela. Em todo o complexo, furges e reboques estavam carregados com
tudo, desde equipamento de escritrio at os trofus empalhados de Alexander M. Kaseph. O pessoal repassava os dormitrios, empacotando os pertences e varrendo os
quartos. Excitao e antecipao permeavam tudo, e as pessoas se aglomeravam, tagarelando em suas lnguas nativas. No casaro de pedra, segregada de toda a atividade,
Susan Jacobson trabalhava apressada em seu aposento particular, consolidando uma enorme caixa de lanamentos, livros-razo, documentos, material impresso. Tentava
eliminar tudo o de que no tivesse absoluta necessidade, mas quase todos os itens pareciam indispensveis. Mesmo assim, tudo teria de caber em apenas uma mala, que
agora estava sobre a

cmoda. At aqui a carga era volumosa demais para caber na mala, e pesada demais para Susan carregar mesmo que coubesse. Com algumas oraes, murmuradas s pressas,
e mais alguns exames rpidos, ela eliminou metade dos itens. A seguir, tomando o que sobrou, comeou a arranjar meticulosamente na mala, um livro aqui, alguns depoimentos
ali, mais documentos, algumas fotografias, outro livro-razo, um papel impresso no computador, espessa resma de fotocpias, filmes no revelados. Passos no corredor.
Ela fechou depressa a mala, apertando a tampa a fim de poder prender os trincos, e a seguir arrastou o pesado objeto para a grande cama em baixo da qual a fez desaparecer
rapidamente. Ento jogou os itens que no haviam cabido na mala de volta na caixa e escondeu-a numa prateleira atrs das roupas de cama num pequeno armrio. Kaseph
entrou no quarto sem bater. Vestia-se de modo informal porque tambm estivera fazendo as malas e participando de toda aquela atividade. Ela se dirigiu a ele e o
abraou. -- Oi, como vo as coisas com voc? Ele devolveu-lhe brevemente o abrao, depois deixou cair os braos e comeou a olhar pelo quarto. -- Estvamos sem saber
que fim voc havia levado -- disse. -- Estamos nos reunindo no sala de jantar, e estvamos contando com a sua presena --. Havia algo estranho e sinistro no tom
de voz dele. -- Bem -- disse ela, um tanto desconcertada com o comportamento dele -- claro que comparecerei. Nada me faria perder essa reunio. -- Bem, bem -- disse
ele, ainda correndo os olhos pelo quarto. -- Susan, posso examinar a sua mala?

Ela olhou para ele curiosa. -- O qu? Ele se recusou a mudar ou suavizar a pergunta. -- Quero examinar sua mala. -- Para qu? -- Traga-a aqui -- disse ele em tom
de quem no admitia contradio. Ela se dirigiu ao guarda-roupa, tirou uma grande mala azul cheia de roupas e colocou-a sobre a cama. Ele abriu os trincos e jogou
para trs a tampa, ento comeou desfaz-la de modo rude e rpido, atirando o contedo aqui e ali. -- Ei -- protestou ela -- o que est fazendo? Levei horas para
conseguir colocar tudo a dentro! Ele esvaziou a mala completamente, abrindo cada bolsa do forro, tirando e sacudindo cada pea de roupa. Quando ele terminou, ela
estava furiosa. -- Alex, o que significa isso? Ele se voltou para ela com uma expresso muito sombria, e ento seu rosto abriu-se subitamente num sorriso. -- Estou
certo de que voc conseguir fazer a mala com maior eficincia ainda da segunda vez --. Ela sabia que no se atrevia a contradiz-lo nesse ponto. -- Mas precisei
examin-la por causa de uma coisa. Sabe, cara Susan, voc esteve ausente da movimentao normal do pessoal e ausente da minha presena durante muito tempo -- e ps-se
a andar lentamente em volta do quarto, os olhos percorrendo todos os cantos. -- E parece que esto faltando uns registros e arquivos muito importantes, coisas de
natureza muito delicada, coisas a que voc, minha Serva, teria acesso --. Ele sorriu, aquele mesmo velho sorriso que cortava como faca. --

Claro que sei que, a despeito das... dvidas e temores mesquinhos que tem tido ultimamente, seu corao est de fato unido ao meu. Ela ergueu a cabea bem alto e
o olhou nos olhos. -- Essas coisas so estritamente a fraqueza da minha condio humana, mas algo que ainda espero conquistar. -- A fraqueza da sua condio humana...
-- Ele pensou sobre isso por um momento. -- Essa mesma pequena fraqueza que sempre a torna to fascinante, porque podia torn-la to perigosa. -- Est insinuando,
ento, que eu poderia tra-lo? Ele se aproximou e descansou as mos sobre os ombros dela. Susan imaginou como as mos dele no precisariam mover-se muito a fim de
agarrar-lhe o pescoo. --  possvel -- disse ele -- que algum esteja tentando trair-me, neste mesmo instante. Posso ler isso na atmosfera --. Ele olhou para ela
muito de perto, seus olhos investigando os dela. -- Poderia at mesmo ler traio nos seus olhos. Ela desviou o olhar e disse: -- Eu no o trairia. Ele se aproximou
mais e disse friamente: -- Nem ningum mais... se soubesse o que o esperaria. Seria uma questo realmente sria. fora. Ela sentiu as mos dele apertarem-se com
mais

Um mensageiro riscou o cu e ento disparou, ziguezagueou e serpeou atravs dos bosques acima de Ashton  procura de Tal.

-- Capito! -- chamou ele, mas Tal no se encontrava entre os demais. -- Onde est o capito? Mota respondeu: -- Conduzindo outra reunio de orao na casa de Hank
Busche. Cuidado para no atrair ateno. O mensageiro planou colina abaixo e flutuou silencioso pelo labirinto de ruas e becos da cidade. Na casa de Hank, Tal permanecia
cuidadosamente escondido dentro das paredes enquanto alguns de seus guerreiros executavam as suas ordens, trazendo pessoas prontas para orar. Hank e Andy Forsythe
haviam convocado uma reunio de orao especial, mas no esperavam o comparecimento de tanta gente. Mais e mais carros continuavam a chegar, e mais e mais gente
continuava a entrar pela porta: Os Colemans, Ron Forsythe e Cynthia, o novo crente Bobby Corsi, seus pais Dan e Jean, os Jones, os Coopers, os Smiths, os Bartons,
alguns alunos da faculdade e seus amigos. Hank trouxe para a sala todas as cadeiras que possua. As pessoas comearam a acomodar-se no cho. O aposento estava ficando
abafado; tiveram de abrir as janelas. Tal olhou para a frente da casa e viu uma velha perua encostar. Um grande sorriso abriu-lhe o rosto. Essa seria uma nova adio
que Hank ficaria feliz em ver. Quando a campainha tocou, diversas pessoas gritaram: -- Entre -- mas quem quer que estivesse  porta no entrou. Hank passou por cima
de uma poro de gente a fim de chegar  porta e abri-la. L estava Lou Stanley, juntamente com a esposa, Margie. Estavam de mos dadas. Lou sorriu timidamente e
perguntou:

--  aqui que esto fazendo a reunio de orao? Hank acreditou novamente em milagres. Aqui estava o homem que fora removido da igreja por causa de adultrio, em
p diante dele, reunido  esposa, e querendo orar com todos os outros! -- , sim -- disse Hank --  sim! Entrem! Lou e Margie entraram na lotada sala de estar, e
foram saudados com amor e aceitao. Nesse exato momento, ouviu-se outra batida  porta. Hank, ainda por perto, abriu a porta e viu um homem de meia-idade e a esposa
em p do lado de fora. Ele ainda no tinha visto nenhum dos dois antes. Mas Cecil Cooper sabia quem eram; de onde estava assentado, ele os cumprimentou: -- Ora,
louvado seja o Senhor! Incrvel! James e Diana Farrel! Hank olhou para Cecil e depois para o casal  sua frente, e seu queixo caiu. -- Reverendo Farrel? O reverendo
James Farrel, ex-pastor da Igreja da Comunidade de Ashton, estendeu a mo. -- Pastor Henry Busche? Hank assentiu com a cabea, tomando-lhe a mo. O Reverendo Farrel
prosseguiu: -- Ouvimos dizer que ia haver uma reunio de orao aqui esta noite. Hank, de braos abertos, convidou-os a entrar. Entrementes, o mensageiro chegou
e encontrou Tal. -- Capito, Guilo manda dizer que o tempo de Susan est chegando ao fim! Ela vai ser descoberta. O senhor precisa vir agora! Tal examinou rapidamente
a cobertura de orao que havia reunido. Tinha de ser suficiente para que o

plano dessa noite funcionasse. Hank dava incio  reunio. -- O Senhor nos fez sentir que precisamos orar por Ashton esta noite. Ora, ficamos sabendo algumas coisas
esta tarde, e estvamos certos quanto a Satans ter algum controle desta cidade. Precisamos orar pedindo para que Deus ate os demnios que esto tentando assumir
o controle, e precisamos pedir vitria para o povo de Deus, e para os anjos de Deus... Bom, bom! pensou Tal. Poderia bastar. Mas se o que o mensageiro disse fosse
a situao real no Covil do Valente, eles teriam de ir em frente com o plano quer a cobertura de orao fosse suficiente, quer no. A nuvem demonaca que pairava
sobre o vale continuava a engrossar e a rodopiar, e do seu ponto de observao Guilo e seus guerreiros podiam ver o coruscar de milhes de olhos amarelos. Guilo
no conseguia se descontrair, mas vigiava continuamente o espao acima dos cumes das montanhas a fim de divisar o raio de luz que marcaria a chegada de Tal. -- Onde
estar Tal? -- murmurou ele. -- Onde estar? Eles sabem. Sabem! Nesse momento, toda a equipe de Kaseph, a fora implementadora por trs da Omni S.A., estava reunida
no salo de jantar para um banquete arranjado s pressas e reunio final antes da grande mudana para a qual todos se haviam preparado. Era um jantar informal, tipo
buf; tudo era bem  vontade, e o ambiente era de descontrao. O prprio Kaseph, geralmente distante de seus inferiores, misturava-se livremente com eles, e mos
estendiam-se a ele como que implorando uma bno especial.

Susan, trajando novamente o conjunto preto de costume, permanecia ao lado dele, e mos tambm se estendiam para ela, buscando um toque especial, um olhar especial
ou um olhar de bno. Esses ela dispensava livremente aos seguidores agradecidos. Quando a refeio foi servida, Kaseph e Susan tomaram os seus lugares  mesa principal.
Ela tentou agir com naturalidade e comer com gosto, mas seu senhor ainda mantinha aquele sorriso, aquele estranho, cortante, maldoso sorriso, que a deixava nervosa.
Tinha de se perguntar quanto ele realmente sabia. Quase no fim do jantar, Kaseph ergueu-se, e como que a um sinal, os presentes se calaram imediatamente. -- Segundo
fizemos em outras regies, em outras partes deste nosso Mundo que se est unindo rapidamente, assim faremos aqui -- disse Kaseph, e todos aplaudiram. -- Como ferramenta
decisiva e poderosa da Sociedade da Percepo Universal, a Omni S.A. est prestes a estabelecer outro ponto de apoio para a futura Ordem do Novo Mundo e o reinado
do Cristo da Nova Era. Recebi mensagem de nossa vanguarda de Ashton de que a compra da nova propriedade poder ser finalizada domingo, e irei pessoalmente antes
de vocs a fim de fechar o negcio. Depois disso, a cidade ser nossa. A sala toda explodiu em aplausos e vivas. Mas foi ento que, com uma mudana um tanto abrupta
de disposio, Kaseph permitiu que seu sobrolho franzisse, e todos os presentes responderam com igual sobriedade. -- Naturalmente, durante todo este esforo macio,
temos muitas vezes sido lembrados de quo srio  todo este negcio no qual estamos envolvidos, ao qual juramos nossas vidas e nossa fidelidade. Muitas vezes ponderamos
sobre como seriam funestas as conseqncias para tudo em prol do que trabalhamos se algum de ns se voltasse para o mal e respondesse ao

persistente chamado da cobia, da temporalidade, ou mesmo -- ele olhou para Susan -- da fraqueza humana. Subitamente a sala ficou mortalmente silenciosa. O olhar
de todos estava fito em Kaseph enquanto os olhos deste varriam lentamente o grupo. Susan comeou a sentir um terror a formar-se em seu ntimo, um terror que sempre
tentara afastar, evitar, controlar. Sentia que a coisa que mais temia se aproximava sorrateiramente dela. Kaseph continuou: -- Apenas alguns de vocs sabem que durante
o processo de transferncia dos arquivos do escritrio central, descobrimos que diversas de nossas pastas mais importantes estavam faltando. Aparentemente algum
com altos privilgios e acesso interno achou que esses arquivos seriam valiosos... de alguma outra forma --. As pessoas sufocaram exclamaes e puseram-se a murmurar.
-- Ah, no se alarmem. Esta histria tem um final feliz. As pastas que faltavam foram encontradas! -- Todos se mostraram aliviados, e riram entre si. Essa, pareciam
pensar, era outra das provocaes de Kaseph. Kaseph fez sinal a uns guardas de segurana nos fundos da sala e um deles apanhou, o que seria? Susan ergueu-se na cadeira
a fim de ver. Uma caixa de papelo. No! A caixa de papelo? A que ela havia escondido atrs da roupa de cama? O guarda a estava trazendo  frente, na direo da
mesa principal. Ela ficou onde estava, mas pensou que ia desmaiar. Todo o seu corpo tremia de medo. O sangue fugiu-lhe do rosto; suas entranhas foram crivadas de
horrveis dores. Ela fora descoberta. No havia como escapar. Era um pesadelo. O guarda da segurana ergueu a pesada caixa e a

colocou sobre a mesa, e Kaseph a abriu com fora. Sim, ali se encontrava todo o material que ela havia to penosamente separado e escondido. Ele o ergueu e segurou
de modo que todos pudessem ver. Toda a multido reprimiu uma exclamao de assombro. Kaseph atirou o material de volta  caixa e deixou que o guarda a levasse embora.
-- Essa caixa -- anunciou ele -- foi encontrada escondida no roupeiro da Serva. Todos ficaram pasmados. Alguns permaneceram paralisados pelo choque. Alguns menearam
a cabea. Susan Jacobson orou. Orou furiosamente. O mensageiro voltou ao vale, encontrando Guilo vido por notcias. -- Vamos, fale! -- Ele est reunindo uma cobertura
de orao para a operao desta noite. Deve chegar a qualquer momento. -- Qualquer momento pode ser tarde demais --. Guilo olhou na direo dos prdios em baixo.
-- Susan pode morrer a qualquer momento. Tal observava enquanto o povo reunido orava fervorosamente  medida que o Esprito Santo guiava e dava poder. Oravam especificamente
para que os exrcitos demonacos fossem confundidos. Podia ser suficiente! Ele deslizou para fora, oculto na escurido. Passaria depressa pela cidade e ento iria
voando ao Covil do Valente, na esperana de chegar a tempo de salvar a vida de Susan. Mas mal havia colocado os ps na viela estreita e esburacada atrs da casa
quando sentiu uma dor aguda

na perna. A espada coriscou  vista num instante e, com um s movimento rpido, ele decepou a cabea de um pequeno esprito que se havia agarrado a ele. O demnio
dissolveu-se em um tufo de fumaa vermelho-sangue. Outro esprito cravou-se s suas costas. Ele o arrancou. Outro s costas, outra na perna, dois mais retalhando
e mordiscando-lhe a cabea! --  Tal! -- ele os ouviu chiando e tagarelando. --  o Capito Tal! Muito mais desse barulho e eles atrairiam Rafar! Tal sabia que teria
de destruir a todos ou arriscar-se a ser exposto. Os demnios  volta da sua cabea foram aniquilados com suficiente rapidez. Ele passou a espada de baixo para cima
e de um lado para outro das costas e desmembrou o que estava agarrado a elas. Mas eles pareciam multiplicar-se. Alguns eram de bom tamanho, e todos ambicionavam
a recompensa que Rafar daria quele que revelasse o paradeiro de Tal. Um grande esprito, rindo-se, veio voando para ver Tal de perto, e depois arremeteu-se em linha
reta ao cu. Tal seguiu-o em uma exploso de luz e poder e agarrouo pelos tornozelos. O esprito berrou e comeou a unhlo. Tal deixou-se cair de volta  Terra como
uma pedra, arrastando consigo o esprito, as asas do bicho batendo e adejando como guarda-chuva quebrado. Uma vez debaixo da cobertura de rvores e casas, a espada
de Tal mandou o esprito para o abismo. Mas outros demnios vinham sobre ele de todas as direes. A notcia se estava espalhando. Dois guardas poderosos e musculosos,
os mesmos homens que j haviam sido seus acompanhantes, arrastaram e carregaram Susan entre si, mal permitindo que ela usasse os prprios ps para se locomover,

atravessando a rea, subindo  varanda do casaro de pedra, entrando, subindo a escada ornamentada, e passando pelo corredor do andar superior at o quarto dela.
Kaseph acompanhou-os, frio, composto, perfeitamente implacvel. Os guardas jogaram Susan numa cadeira e a seguraram com todo o seu peso, evitando que ela escapasse.
Kaseph fitou-a com um olhar longo e glacial. -- Susan -- disse ele -- minha cara Susan, no estou realmente chocado com o acontecido. Esses problemas j ocorreram
antes, com muitas outras pessoas, muitas vezes. E todas as vezes tivemos de solucion-lo. Como voc sabe muito bem, problemas como esse nunca perduram. Nunca. Ele
chegou perto, to perto que suas palavras pareciam atingi-la como pequenos golpes. -- Jamais confiei em voc, Susan, j lhe disse. Portanto, fiquei de olho em voc,
outras pessoas, a meu pedido, estavam de olho em voc, e vejo agora que voc reavivou sua amizade com meu... rival, o Sr. Weed. Tenho olhos e ouvidos por toda a
parte, cara Susan. Desde o momento em que o seu Sr. Weed foi ao Clarim de Ashton, decidimos vigiar tudo o que ele faz: onde ele vai, com quem se encontra, a quem
telefona, e o que diz. Quanto quele apressado e descuidado telefonema que voc lhe deu hoje... -- Ele deu uma gargalhada. -- Susan, voc realmente pensou que no
controlaramos todas as chamadas sadas daqui? Sabamos que voc apresentaria a sua jogada mais cedo ou mais tarde. Tudo o que tnhamos de fazer era esperar e estar
prontos. Um empreendimento como o nosso naturalmente tem inimigos. Compreendemos isso. Ele se inclinou sobre ela, os olhos frios e espertos. -- Mas de modo nenhum
toleramos esse tipo de coisa. No, Susan, tratamos desses problemas dura e

rapidamente. Achei que uma pequena hostilidade silenciaria Weed, mas descubro agora que, graas a voc, ele sabe demais. Portanto, ser melhor cuidarmos de voc
e do seu Sr. Weed. Tudo o que ela conseguia fazer era tremer; no conseguia pensar em nada. Sabia que era intil pedir clemncia. -- Voc nunca compareceu a um dos
nossos rituais de sangue, compareceu? -- Kaseph comeou a explicar-lhe como se apresentasse uma pequena palestra. -- Os antigos adoradores de Isis, ou Moloque, ou
Astarote, no estavam muito atrasados em suas prticas. Pelo menos compreendiam que a oferta de uma vida humana aos que chamavam de deuses parecia ganhar o favor
do deus para eles. O que eles faziam em ignorncia, continuamos a executar com iluminao. A fora de vida que se entrelaa em ns e o Universo  cclica, no tem
fim,  autoperpetuadora. O nascimento do novo no pode ocorrer sem a morte do velho. O nascimento do bem  criado pela morte do mal.  este carma, cara Susan, o
seu carma. Em outras palavras, ele ia mat-la. Um guerreiro perguntou a Guilo: -- O que  aquilo? O que esto fazendo? Ambos ouviam. A nuvem, movendo-se e rodopiando
lentamente no vale, gotejava e balbuciava agora com um som estranho, um rudo indefinvel que se ia elevando aos poucos em volume e tonalidade. A princpio parecia
o reboar de ondas distantes, crescendo a seguir at atingir o rugido de uma turba incontvel. Desse ponto, foi crescendo at transformar-se no lamento lgubre de
milhes de sirenas. Guilo desembainhou lentamente a espada, e o metal da lmina retiniu.

-- O que est fazendo? -- perguntou o guerreiro. -- Preparar! -- ordenou Guilo, e a ordem espalhou-se entre o grupo. Retiniram as lminas  medida que cada guerreiro
sacava da espada. -- Esto rindo -- disse Guilo. -- No podemos fazer nada a no ser entrar l. O guerreiro estava disposto, e contudo a idia era inimaginvel.
-- Entrar? Entrar... naquilo? Os demnios eram fortes, brutais, selvagens... e agora estavam rindo, o odor da morte prxima era doce perfume em suas narinas. Triskal
e Krioni precipitaram-se vale adentro, espadas fulgurando e varrendo o espao em arcos letais de luz  medida que demnios se desintegravam por todos os lados. Outros
guerreiros arremeteram ao cu como chamas de um canho, agarrando demnios em fuga pelo ar, silenciando-os. Tal estava realmente em apuros, desejando dar vazo total
ao seu poder de lutar, e contudo precisando reprimir-se a fim de no chamar ateno sobre si. Assim, ele no podia derrotar os espritos que se aglomeravam sobre
ele como abelhas enraivecidas em violento ataque; antes, tinha de arranc-los um a um, picando e dando golpes rpidos com a espada. Mota entrou na briga e aproximou-se
de Tal, girando a espada e arrancando demnios do seu capito como morcegos da parede de uma caverna: -- Tome l! Outro! E mais outro! Ento chegou um momento infinitesimal
em que Tal esteve livre de demnios. Mota deslizou rapidamente para o lugar dele enquanto Tal desaparecia no cho.

Os espritos estavam enraivecidos com a luta, e a princpio continuaram a aglomerar-se e circular pela rea; mas ento perceberam que, de alguma forma, Tal havia-se
escapulido e que eles estavam apenas colocando-se nas mos de guerreiros celestiais para serem destrudos sem motivo. Seu nmero diminuiu depressa, seus gritos foram-se
desvanecendo, e logo eles desapareceram. A diversos quilmetros de distncia de Ashton, Tal arremeteu do cho como uma bala de um rifle, riscando o cu, uma trilha
luminosa a segui-lo como a cauda de um cometa, a espada estendida  frente. Fazendas, campos, florestas e rodovias tornaram-se um borro; as nuvens tornaram-se montanhas
que passavam apressadas dos dois lados. Ele podia sentir suas foras aumentarem com as oraes dos santos; sua espada comeou a queimar com poder, fulgurando. Ele
quase se sentia como se ela o estivesse puxando pelo cu. A velocidade cada vez maior, o vento zunindo, a distncia diminuindo, as asas um rugir invisvel, ele voou
ao Covil do Valente. Um pequenino guru de cabelos longos, aparncia muito estranha, ostentando manto preto e contas, vindo de alguma terra sombria e pag, obedecendo
a um sinal de Kaseph, entrou no quarto de Susan. Curvou-se em deferncia a seu senhor e mestre. -- Prepare o altar -- disse Kaseph. -- Haver uma oferta especial
pelo sucesso de nosso empreendimento. O pequeno sacerdote pago saiu. Kaseph voltou a ateno para Susan. Golpeou-a com as costas da mo. -- Pare com isso! -- gritou.
-- Pare de orar!

A fora da bofetada quase a derrubou da cadeira, mas um dos guardas a segurou com firmeza. A cabea da moa caiu e ela comeou a soluar, a respirao breve e rpida,
entrecortada pelo terror. Kaseph, como um conquistador, postava-se acima dela e vangloriava-se sobre o vulto frouxo e trmulo da moa. -- Voc no tem Deus a quem
clamar! Com a aproximao da morte, voc se desintegra, voltando aos velhos mitos e tolices religiosas! A seguir, quase bondosamente, ele disse: -- O que voc no
percebe  que, na verdade, estou-lhe fazendo um favor. Talvez na prxima vida sua compreenso seja mais profunda, suas fraquezas tenham desaparecido. A ddiva sacrificial
que nos far agora acumular carma maravilhoso para voc nas vidas futuras. Voc ver. Ento ele ordenou aos guardas. -- Amarrem-na! Eles agarraram os pulsos da
moa e os seguraram s suas costas; ela ouviu um estalido, sentiu o ao frio das algemas, e ouviu o prprio grito. Kaseph dirigiu-se ao escritrio, agora vazio exceto
por alguns caixotes que seriam despachados e malas de viagem. Ele se dirigiu diretamente a um pequeno estojo coberto de fino couro antigo e colocou-o debaixo do
brao. A seguir, desceu pela grande escadaria ao andar inferior, passou por imponente porta de madeira e, descendo outra escada, chegou ao fundo poro embaixo da
casa. Virando um canto, ele passou por outra porta e entrou num sombrio aposento de pedra, iluminado por velas. O estranho sacerdote j se encontrava ali, acendendo
velas e gemendo palavras estranhas, ininteligveis, em incessante repetio. Alguns dos

confidentes mais ntimos de Kaseph estavam presentes, esperando em silncio. Kaseph entregou o pequeno estojo ao sacerdote, que o colocou ao lado de um grande e
rstico banco que ficava num canto do cmodo. O sacerdote abriu o estojo e comeou a colocar em ordem as facas, facas de Kaseph, adornadas, enfeitadas com pedrarias,
delicadamente forjadas, afiadas como navalhas. Tal podia ver as montanhas adiante. Teria de ficar perto de suas encostas rochosas. No devia ser visto. Guilo e seus
guerreiros permaneciam na escurido, apagados, descendo s ocultas p ante p na direo do conjunto, escondendo-se atrs de pedras e salincias. Acima deles, fervilhando
e elevando-se como o prenncio de trovoada, a nuvem de espritos maliciosos, rindo, continuava a rodopiar. Guilo sentia certa cobertura de orao; certamente os
demnios j os teriam descoberto a essa altura, mas a viso deles achava-se estranhamente diminuda. L em baixo, estacionado muito prximo ao prdio principal da
administrao estava um grande furgo. Guilo encontrou um lugar de onde podia enxergar o veculo claramente, ento mandou que seus guerreiros se espalhassem por
toda a rea, mantendo um deles perto de si a fim de lhe dar instrues especiais. -- V a janela de cima da grande casa de pedra? -- perguntou-lhe Guilo. -- Sim.
--  l que ela est. Quando eu der o sinal, v sozinho e traga-a para fora.

29
No estranho aposento escuro embaixo da casa, Alexander M. Kaseph e seu pequeno squito permaneciam imobilizados, em profunda meditao. Diante deles, logo atrs
do tosco banco, postava-se o Valente, ladeado por seus guardas e auxiliares ntimos. Sua cara frouxa estava estirada agora num riso hediondo, e ele babava com as
presas  mostra, exibindo demonaco deleite. -- Um a um, os obstculos esto caindo -- disse. -- Sim, sim, sua oferenda lhe trar boa sorte, e me agradar --. Os
grandes olhos amarelos se estreitaram com a ordem: -- Tragam-na! No andar de cima, sentada indefesa entre os dois guardas, os ps e as mos presos com algemas, Susan
Jacobson esperava e orava. Com tudo o que havia dentro de si, ela clamou ao Deus verdadeiro, o Deus a quem no conhecia mas que tinha de existir, tinha de ouvi-la,
e era o nico que a podia ajudar naquela hora. Tal alcanou as montanhas e arremeteu encosta acima, subindo, subindo, diminuindo a velocidade. Ele continuou mais
devagar ao aproximar-se do topo, e ento, assim que passou a crista, cessou todo movimento e todo som, deixando-se planar encosta abaixo do outro lado, silenciosamente,
invisivelmente. Percebeu que a nuvem havia aumentado desde que ele partira dali. Sua nica esperana era a de que a cobertura de orao fosse suficiente pelo menos
para cegar essas ftidas criaturas. Guilo estivera alerta, esperando o capito, e seus

penetrantes olhos viram Tal descendo como guia silenciosa em sua direo. -- Apronte-se -- disse Guilo ao guerreiro ao seu lado. O guerreiro estava pronto, os olhos
na janela do andar de cima. Tal desceu to baixo que estava quase deslizando pelo cho. Finalmente se deteve ao lado de Guilo. -- Temos a cobertura -- disse Tal.
-- V! -- ordenou Guilo ao guerreiro, que saiu meio voando, meio correndo na direo da casa de pedra. O pequeno sacerdote, os olhos inquietos de antecipao, subiu
a grande escadaria, murmurando e resmungando uma mantra para si mesmo. Kaseph e seu pessoal esperavam em baixo, em pesado silncio, Kaseph em p ao lado das facas.
Susan Jacobson tentou afrouxar as algemas, mas elas estavam to apertadas que lhe cortavam a carne mesmo que ela no se esforasse para solt-las. Os guardas apenas
riram-se dela. -- Querido Deus -- orou ela -- se o senhor  verdadeiramente Senhor deste Universo, por favor tenha misericrdia daquela que ousou colocar-se do seu
lado contra este terrvel mal... Naquele instante, como se j no estivesse no quarto, como se acordasse lentamente de um pesadelo, o medo torturante que lhe retorcia
o corao comeou a desvanecer-lhe da mente como um pensamento que passa, como o acalmar lento e contnuo de uma tempestade. Seu corao estava em paz. O aposento
parecia estranhamente quieto. Tudo o que ela pde fazer

foi olhar curiosa ao seu redor. O que havia acontecido? Ser que ela j havia morrido? Estava dormindo, ou sonhando? Mas j havia-se sentido assim uma vez. A lembrana
daquela noite em Nova York voltou; ela pensou na estranha e alentadora sensao que havia tido mesmo enquanto passava desesperada atravs da janela. Havia algum
no quarto. Ela sentia isso. -- Voc est aqui a fim de me ajudar? -- perguntou ela em seu corao, e fagulha mnima de esperana voltou novamente  vida em algum
lugar muito profundo em seu ntimo. De sbito seus ps estavam livres. Os grilhes estavam abertos, no cho. Ela sentiu algo soltar-se em torno dos pulsos e puxou
os braos, livres. As algemas tilintaram no cho, da mesma forma que os grilhes que lhe haviam prendido os ps. Ela olhou para os dois guardas, mas eles estavam
apenas parados, fitando-a, ainda sorrindo zombeteiros, depois olhando para outro lado como se nada houvesse acontecido. Nesse instante ela ouviu um rudo, e olhou
a tempo de ver o trinco da janela soltar-se e a grande janela do quarto abrir-se sozinha. O ar fresco da noite comeou a soprar pelo quarto. Quer fosse iluso, quer
realidade, ela aceitou o acontecido. Pulou da cadeira. Os guardas no reagiram. Correu na direo da janela aberta. Ento se lembrou. Mantendo um olhar cauteloso
e descrente nos guardas, ela correu  cama, puxou a mala que Kaseph e sua gente no haviam encontrado, mesmo escondida num lugar to bvio! Apesar de toda a papelada
ela parecia estranhamente leve, mas nada naquele momento fazia muito sentido de qualquer forma, por isso ela simplesmente aceitou o fato de ser fcil carregar

a mala at a janela e coloc-la no teto do lado de fora. Ela olhou atrs de si. Os guardas estavam sorrindo confiantes a uma cadeira vazia! Sentindo-se como se algum
a estivesse levantando, Susan passou pela janela ao teto. Uma grossa trepadeira subia pelo lado da casa. Seria um escada perfeita para a fuga. L fora, no prdio
da administrao, um grupo de guardas de segurana conversava baixinho acerca da queda da Serva e do seu destino iminente quando de repente ouviu o rudo de passos
no estacionamento. -- Ei, olhe l! -- gritou algum. O pessoal da segurana olhou a tempo de ver uma mulher vestida de preto correndo na direo de um dos veculos.
-- Ei, o que est fazendo? --  a Serva! Eles correram atrs dela, mas ela j havia entrado num grande furgo de mudanas. A partida rosnou, o motor funcionou, e
com uma sacudidela e um gemido o veculo comeou a rodar. Guilo saltou do seu esconderijo e berrou: -- I-h! -- enquanto sua pequena tropa de vinte e trs estourava
pelo ar como fogos de artifcio seguindo o furgo. -- Cubram-se, guerreiros! O sacerdote chegou ao quarto de Susan e, com a mo ossuda, abriu a porta. -- Estamos
prontos -- declarou, e subitamente percebeu que estava falando com um par de guardas muito dedicados que tudo estavam fazendo para garantir que uma cadeira vazia
no escapasse.

O pequeno pago teve um acesso de primeira; os guardas no tinham explicao. O furgo subia lentamente a estrada sinuosa e precria que saa do vale, passando pelas
montanhas. Quatro anjos arremeteram atrs dele e puseram-se a empurr-lo subida acima, ajudando-o a passar de noventa. Estavam mantendo boa velocidade, mas olhando
para trs podiam ver uma legio de demnios que se aproximava em encarniada perseguio, o reluzir de suas presas e o coruscar rubro de suas lminas enchiam o cu
noturno. Do alto, Guilo observava a nuvem. Ela permanecia onde estava, cobrindo o Valente. Apenas um pequeno contingente de guerreiros demonacos havia sido enviado
atrs do furgo. Rugindo montanha acima atrs do veculo, quatro dos guardas de segurana de Kaseph, armados, perseguiam-no em um jipe de alta potncia. Mesmo assim,
tinham surpreendente dificuldade em alcan-lo. -- Pensei que aquela coisa estava totalmente carregada! -- disse um deles. -- E est -- disse o outro. -- Eu mesmo
a carreguei. -- E quantos cavalos aquela coisa tem? A essa altura Kaseph j tinha recebido a notcia da fuga de Susan. Ele ordenou que mais oito homens armados em
dois outros veculos se juntassem  perseguio. Eles saltaram em outro jipe e um carro esporte de motor V-8 e saram do estacionamento cantando pneu. Demnios e
anjos convergiram sobre o furgo, que ainda subia a mais de noventa quilmetros por hora, o escapamento emitindo pequenos estouros, os pneus

chiando e muitas vezes derrapando na serpeante, rodopiante estrada de pedregulhos. Os quatro anjos continuavam a empurrar enquanto os outros vinte faziam o melhor
que podiam para cercar o veculo e deter o ataque demonaco. Os demnios mergulhavam de cima, as espadas vermelhas brilhando, e engajavam os guerreiros celestiais
em ferozes refregas, as lminas cantando, zumbindo, e chocando-se com fragor metlico e jorros de fagulhas. O furgo chegou ao topo e comeou a ganhar velocidade.
Os veculos que o perseguiam alcanaram o topo apenas segundos depois. Enquanto o furgo acelerava cada vez mais, os buracos e as curvas da estrada faziam o veculo
danar em duas ou trs rodas enquanto se disparava ladeira abaixo. A estrada endireitou-se, depois fez uma curva abrupta, depois contorceu-se na direo oposta,
depois afundou numa lombada. O furgo lutava para manter-se na estrada enquanto rochas e gradis passavam como um borro. A cada curva fechada ele gemia e inclinava-se
com todo o peso para fora da estrada, o grande chassi afundava sobre as molas, e os pneus guinchavam em protesto. Uma curva muito fechada  esquerda! O pesado traseiro
do furgo rabeou de encontro ao gradil com barulhento raspo e um chuveiro de fagulhas. Estrada abaixo, outra lombada, afundando as molas, o chassi triturando os
amortecedores, gemendo e estalando. Os jipes e o carro esporte vinham atrs, saindo-se muito melhor nas curvas traioeiras mas fazendo a pior corrida da sua vida.
Dois homens no jipe da frente tinham rifles de longo alcance prontos, mas era impossvel acertar algum tiro. Apesar disso, deram uns tiros, ainda que somente para
assustar a Serva. O furgo dirigia-se a uma curva fechada, a sinalizao amarela por toda a parte gritando que diminusse a velocidade e procedesse com cautela.
Os

quatro anjos que vinham atrs do veculo, empurrando, agora imprensavam-se contra os lados, tentando mantlo na estrada. O prprio Guilo veio voando, a espada a
rebrilhar, abrindo a golpes da lmina uma trilha no meio dos interceptores demonacos at chegar ao furgo. O carro estava a apenas uma frao de segundo do gradil
e da queda a prumo alm quando Guilo jogou-se com fora contra o lado do veculo, a sacudidela forando as rodas dianteiras para a esquerda. O furgo fez a curva
e continuou. Os perseguidores nos outros veculos precisaram diminuir a velocidade, do contrrio atravessariam diretamente o gradil. Mas os guerreiros celestiais
que tentavam circundar o veculo eram perseverantemente removidos. Guilo olhou em tempo de ver um esprito enorme saltar com garras  mostra em cima de um guerreiro,
qual guia sobre uma andorinha, fazendo com que o anjo perdesse os sentidos, e mandando-o para dentro do profundo desfiladeiro. Outra refrega ao alto e  esquerda
terminou num grito de dor de outro guerreiro que entrou num rodopio maluco, uma asa dilacerada, e desapareceu dentro da montanha. Os encontros das lminas ecoavam
por todos os lados. L foi um demnio, sumindo num rasto de fumaa vermelha. Outro anjo caiu na direo do desfiladeiro, ainda segurando a espada mas letrgico e
estonteado, o demnio que o perseguia logo atrs dele. Os hediondos guerreiros do inferno finalmente comearam a atravessar as fileiras e atingir o furgo. Um deles
alcanou o guerreiro que estava logo atrs de Guilo e o derrubou. Guilo no teve tempo de pensar noutra coisa antes que sua prpria espada se erguesse para aparar
o golpe incrivelmente poderoso de um esprito pelo menos to forte quanto ele. Guilo devolveu o golpe, suas espadas se engancharam por um instante, brao contra
brao, e ento Guilo usou habilmente o p para afundar a cara do demnio e mand-lo rodopiando

ao desfiladeiro. O furgo comeou a dar desenfreadas guinadas, os pneus resvalando na beira do abismo. Guilo empurrou-o com toda a fora para faz-lo voltar ao rumo.
O furgo deu outra guinada e o anjo percebeu que devia haver um bando de demnios empurrando do outro lado. Olhando ao redor  procura de ajuda, viu mais garras
e olhos amarelos do que amigos. Enorme lmina foi brandida na direo do seu ombro e ele aparou o golpe. Outra veio na direo do seu tronco e ele bloqueou o golpe.
O furgo volteou rumo ao penhasco. Ele tentou empurr-lo, aparar um golpe, correr os olhos  procura de quem o ajudasse, acertar outro demnio, chutar uma cara,
empurrar o veculo, cortar um flanco, aparar um golpe, guiar o furgo... Um golpe! Ele no o viu chegando e no tinha idia de onde partira, mas ficou estonteado.
Largou o furgo, viu o fundo do abismo rodopiando muito abaixo, viu a terra, o cu, a terra, o cu. Estava caindo. Abrindo as asas, flutuou para baixo como uma folha
rasgada e cada. Ouviu, vindo de cima, um uivo de enregelar o sangue. Ergueu os olhos. Aquele devia ser o demnio que o atacara, um pesadelo enorme de olhos protuberantes
com couro de rptil e asas denteadas. -- Venha, venha -- murmurou Guilo, esperando que a coisa casse sobre ele. A criatura mergulhou a pique, a mandbula aberta,
as presas rebrilhando, uma lmina chata, larga, de gume afiado, coruscando. Guilo esperou. A coisa ergueu bem alto a espada e a abaixou com um golpe feroz. Guilo
estava subitamente a um metro do lugar onde havia estado, e a lmina continuou seu caminho sem que eles se tivessem encontrado, o demnio virando doidas cambalhotas
atrs dela. Guilo, com um rodopiar da prpria espada num arco ofuscante, cortou as asas do demnio, depois o liquidou.

O rasto fervente de fumaa vermelha clareou  frente dos olhos de Guilo a tempo de ele ver o furgo arrebentar o gradil e voar sobre o abismo. A queda foi to longa
e extensa, que o veculo pareceu flutuar por uma eternidade antes de dobrar-se e se arrebentar nas pedras embaixo, torcendo, voltando-se, pulando como uma lata de
refrigerante, enquanto cadeiras, mesas e armrios saiam pelo fundo e papis e mais papis adejavam pelo ar como flocos de neve. Cerca de trinta demnios pairavam
acima da cena ou se empoleiravam no que sobrara do gradil para ver seu trabalho chegar ao fim. Aps voltear e rolar vez aps vez, o furgo, j no reconhecvel como
coisa alguma, finalmente descansou num amontoado de lata e vidro ao lado da montanha. Os trs veculos que o perseguiam pararam, encostaram, e os doze homens da
segurana saram para dar uma olhada. Guilo descansou num penhasco rochoso, baixando a espada e olhando para o cu. Bem no alto ele conseguia divisar diminutas riscas
de luz dirigindo-se em diversos rumos, cada qual acompanhada de duas ou trs riscas pretas destacadas a vermelho. Seus guerreiros -- o que havia sobrado deles --
estavam-se espalhando em todas as direes. Guilo achou melhor continuar onde estava at que os limpassem. Ele, Tal, e seus guerreiros em breve se reagrupariam em
Ashton. Rafar ainda se encontrava sentado na grande rvore morta, observando a cidade de Ashton como um mestre enxadrista examinaria o tabuleiro. Tinha prazer em
ver as muitas peas jogando-se umas contra as outras. Quando um demnio mensageiro trouxe a boa notcia do covil Valente de que a Serva, aquela traidora, havia tido
um miservel fim e que o exrcito celestial havia sido posto em retirada, Rafar riu-se. Ele havia

tomado a rainha do seu adversrio! -- E assim acontecer com o restante -- disse Rafar com diablico prazer. -- O Valente confiou-me a preparao da cidade. Quando
chegar, ele a encontrar desocupada, varrida, em ordem! Ele chamou alguns de seus guerreiros e disse: -- Est na hora de limpar a casa. Enquanto os guerreiros celestiais
esto fracos e no podem enfrentarnos, cuidaremos dos obstculos finais. Gostaria de ver Hogan e Busche eliminados, como reis vencidos! Usem a mulher Carmem, e certifiquem-se
de que os dois sejam atados e se tornem indefesos, sejam objeto de ridculo e escrnio. Quanto a Kevin Weed... -- Os olhos do demnio guerreiro estreitaram-se de
desdm. -- Jamais poderia ser prmio digno de algum como eu. Dem um fim nele, da forma que quiserem; ento venham-me avisar. Os demnios partiram a fim de executar
as ordens. Rafar deu um suspiro fundo, meio zombeteiro. -- Ah, caro Capito do Exrcito, talvez eu vena a batalha s com o erguer de um dedo, com uma ordem casual,
com o veneno da minha sutileza; o toque de sua trombeta, que fende os cus, ser substitudo por um gemido desprezvel, e conquistarei a minha vitria sem ter de
ver o seu rosto, ou a sua espada. Ele baixou o olhar sobre a cidade e abriu-se naquele seu sorriso odioso, batendo a garra do polegar de encontro s outras quatro.
-- Mas esteja certo de que nos encontraremos, Tal! No pense que pode se esconder atrs de seus santos em orao, porque ns dois podemos ver que eles falharam.
Voc e eu nos encontraremos!

Berenice sabia que seria difcil, at mesmo perigoso, dirigir sem os culos, mas Marshall no atendera ao telefone, de modo que o encontro com Kevin Weed estava
inteiramente por sua conta, e com certeza valia o risco. At ento, enquanto dirigia pela Rodovia 27, a luz do dia lhe permitia enxergar o risco no meio da estrada
e os vultos que vinham em sua direo, de modo que ela continuou rumo  grande ponte verde ao norte de Baker. Kevin Weed, sentado numa cadeira no bar do Sempre-Verde,
as mos segurando uma cerveja e os olhos pregados no grande relgio que anunciava uma marca de cerveja, tambm pensava na ponte. De certo modo aqui ele se sentia
mais como um salvo do que sozinho em casa. Havia alguns companheiros por perto, bastante barulho, o jogo na televiso, a partida de mareia atrs dele. Contudo suas
mos ainda tremiam toda vez que largava a caneca de cerveja; assim, a maior parte do tempo ele, segurando a caneca, tentava agir com naturalidade. A porta da frente
arranhava o linleo  medida que as pessoas entravam. O lugar estava esquentando, o que ele achava timo. Quanto mais gente, melhor. Diversos lenhadores vinham comprar
cerveja e contar histrias. Acertavamse apostas em volta do jogo de mareia -- nessa noite uma rivalidade antiga seria resolvida de uma vez por todas. Kevin tirou
tempo para sorrir e cumprimentar seus amigos e bater um papo com eles. Isso o ajudou a descontrair-se. Dois lenhadores entraram. Eram novos, calculou ele; nunca
os vira antes. Mas se encaixaram bem no resto do grupo e no demoraram a pr todo o mundo a par de onde estavam trabalhando e por quanto tempo e se o tempo tinha
sido bom, mau ou indiferente. Chegaram at a sentar-se com Kevin. -- Ei -- disse um deles, estendendo a mo -- sou

Mark Hansen. -- Kevin Weed -- disse ele, apertando a mo de Mark. Mark apresentou Kevin ao outro sujeito, Steve Drake. Eles se deram bem, conversando sobre derrubada
de madeira, beisebol, caada de veados, bebidas, e as mos de Kevin pararam de tremer. Ele at terminou sua cerveja. -- Quer outra? -- perguntou Mark. -- Sim, claro,
obrigado. Dan trouxe as cervejas, e a conversa continuou animada. O pessoal do campeonato decisivo de mareia deu um estrondoso viva e os trs voltaram-se para ver
o ganhador apertando a mo do perdedor. Mark foi rpido. Quando ningum estava olhando, ele esvaziou um pequeno frasco na cerveja de Kevin. A turma do jogo de mareia
comeou a reunir-se no balco. Kevin olhou para o relgio. J estava mesmo na hora de sair. Apesar de todo o tumulto e conversa ele conseguiu despedir-se de seus
dois novos conhecidos, tomar o resto da cerveja e dirigir-se  porta. Mark e Steve acenaram-lhe amistosamente em despedida. Kevin subiu na velha caminhonete e se
foi. Calculou que at chegaria adiantado  ponte. O s pensar nisso o fez comear a tremer de novo. Mark e Steve no perderam tempo. Mal Kevin havia entrado na rodovia
eles estavam na sua prpria caminhonete, seguindo a pouca distncia. Steve consultou o relgio. -- No vai demorar muito -- disse. -- E ento, onde o jogaremos?
-- perguntou Mark.

-- Que tal o rio? Ele j est mesmo indo nessa direo. Deve ter sido a ltima cerveja, pensava Kevin. Devo t-la bebido depressa demais ou algo parecido. Agora
seu estmago reclamava. Alm disso, precisava ir ao banheiro. Alm disso, estava ficando com muito sono. Dirigiu alguns quilmetros debatendo o que fazer, e finalmente
achou que era melhor encostar antes que simplesmente tombasse. Uma lanchonete pintada de cores vivas apareceu logo  frente. Ele deixou a estrada e conseguiu parar
o veculo a uma distncia segura do prdio. Ele no percebeu a caminhonete que deixou a estrada e ficou esperando a uns cem metros atrs dele. -- timo! -- disse
Mark irritado. -- Ento o que  que ele vai fazer, tombar logo em frente quela lanchonete? Pensei que aquela coisa tinha efeito rpido e seguro! Steve apenas sacudiu
a cabea. -- Talvez ele precise ir ao banheiro. Teremos de esperar para ver. Parecia que Steve tinha razo. Tropeando e cambaleando, Kevin dirigiu-se ao banheiro
masculino atrs do prdio. Durante um minuto ou mais eles ficaram olhando para a porta do banheiro. Steve consultou o relgio novamente. O tempo estava encurtando.
-- Se ele sair e voltar  estrada, a coisa deve fazer efeito antes de ele chegar  ponte. -- Se ele conseguir sair! -- murmurou Mark. -- E se tivermos de arrast-lo
l de dentro? No. A vinha ele, pela porta do banheiro, com a aparncia um pouco melhor. Enquanto os dois homens observavam, Kevin subiu novamente na caminhonete
e

voltou  estrada. Eles o seguiram, esperando que algo acontecesse. E aconteceu. O veculo comeou a dar guinadas, primeiro  esquerda, ento  direita. -- L vai
ele! -- disse Steve. Logo adiante estava a ponte do rio Judd, uma armao de ao sobre um abismo muito profundo cavado pelo prprio rio. A pequena caminhonete continuou
a sua louca corrida, guinando a torto e a direito, depois voltando para a faixa da direita, ento indo para o acostamento. -- Ele est lutando contra a droga, tentando
permanecer acordado -- observou Steve. -- Pode ter sido diluda pela cerveja. A caminhonete foi para o acostamento, e os pneus comearam a bambolear e a enterrar-se
na camada mole de pedrisco. As rodas traseiras rodopiavam e atiravam pedras, e o veculo rabeou durante diversos metros, dirigindo-se  ponte, mas a essa altura
o motorista j no o controlava e parecia ter cado no sono com o p no acelerador. A caminhonete rugiu e acelerou, em seguida cruzou a estrada, passou rugindo a
sada logo antes da ponte, saltou sobre um capo de amieiros novos, deixando por fim o precipcio rochoso e caindo no desfiladeiro l embaixo. Mark e Steve pararam
a tempo de olhar pelo lado e ver o veculo afundando no rio com as rodas para cima. -- Mais um ponto para Kaseph -- disse Steve. Outro motorista num carro que vinha
da outra direo brecou com fora e saltou do automvel. Logo outro veculo parou. A ponte comeava a encher-se de gente excitada. Mark e Steve deixaram a ponte
de mansinho.

-- Chamaremos o corpo de bombeiros! -- gritou Mark para fora da janela. E l se foram eles, e jamais algum os viu ou ouviu falar neles novamente.

30
Kate. Sandy. A Rede. Berenice. Langstrat. A Rede. Omni. Kaseph. Kate. Sandy. Berenice. Os pensamentos de Marshall giravam enquanto, de p  porta de vidro de correr
da cozinha, ele observava a luz do dia lentamente desvanecer-se no quintal, passando do alaranjado delicado do pr-do-sol ao triste e cada vez mais profundo cinza
do anoitecer. Talvez fosse o perodo mais longo que houvesse passado no mesmo lugar em toda a sua vida, mas talvez o presente momento fosse o fim da vida que ele
sempre conhecera. Claro, j havia passado por diversas pequenas tentativas de negar tudo, procurando provar a si mesmo que esses personagens csmicos, esses conspiradores
to fora do comum, nada mais eram que vento, mas acabava voltando aos fatos frios e implacveis. Harmel tinha razo. Marshall estava agora sem nada, como todos os
outros. Acredite, Hogan. Acredite ou no, foi isso o que aconteceu! Ele estava fora, exatamente como Harmel, exatamente como Strachan, exatamente como Edie, exatamente
como Jefferson, Gregory, os Carluccis, Waller, James, Jacobson... Marshall passou a mo pela cabea e deteve a sucesso de nomes e fatos que lhe percorriam o crebro.
Esses pensamentos comeavam a machucar; cada um deles, ao passar-lhe pelo crebro, parecia dar-lhe um

soco no estmago. Como  que eles haviam conseguido? Como podiam ser to poderosos que na realidade destruam vidas a nvel pessoal? Seria apenas coincidncia? Marshall
no conseguia resolver essa questo. Tendo perdido a prpria famlia por culpa da Rede, ele estava muito prximo dela, mas tambm um pouco da culpa era dele. Seria
fcil culpar a conspirao por intrometerse na sua famlia e voltar a esposa e a filha contra ele, e indubitavelmente haviam tentado fazer isso. Mas onde estabelecer
a linha que separava a responsabilidade que cabia aos outros da que era sua? Tudo o que sabia era que sua famlia estava desfeita e agora ele estava fora, como todos
os outros. Espere! Um barulho na porta da frente. Seria Kate? Marshall foi  porta da cozinha e olhou na direo da sala da frente. Quem quer que fosse mergulhou
depressa num canto quando ele mostrou o rosto. -- Sandy? Por uns instantes no veio resposta, mas depois ele ouviu Sandy responder com uma voz muito estranha e fria.
-- Sim, Papai, sou eu. Ele quase saiu correndo, mas forou-se a se acalmar e se dirigiu ao quarto dela. Ele olhou para dentro do quarto e viu que ela estava repassando
o guarda-roupa, movendo-se um tanto apressada e nervosa, e mostrando-se definitivamente incomodada com a sua presena. -- Onde est a Mame? -- perguntou ela. --
Bem... -- disse ele, tentando encontrar uma resposta. -- Ela foi passar uns tempos com a me dela.

-- Ela o deixou, em outras palavras -- replicou ela muito diretamente. Marshall tambm foi direto. -- , sim,  isso mesmo --. Ele a observou por algum tempo; ela
estava agarrando roupas e pertences e atirando tudo numa mala e algumas sacolas. -- Parece que voc tambm vai embora. -- Isso mesmo -- disse ela, sem diminuir o
ritmo ou mesmo erguer os olhos. -- Vi que era isso o que ia acontecer. Sabia o que Mame estava pensando, e sabia que ela tinha razo. Voc se d to bem sozinho
que o melhor  deixarmos que viva assim para sempre. -- Para onde voc vai? Sandy olhou-o pela primeira vez, e seu olhar congelou-o, dando-lhe uma sensao de nusea.
Os olhos dela tinham uma expresso estranha, vidrada, manaca, que ele jamais vira antes. -- Nunca lhe direi! -- disse ela, e Marshall no podia crer no seu tom
de voz. No era Sandy, de jeito nenhum. -- Sandy -- disse ele suavemente, splice -- no podemos conversar? No farei presso alguma e no pedirei nada de voc.
No poderamos apenas conversar? Os olhos estranhos fitaram-no enraivecidos de novo e a pessoa que costumava ser sua amorosa filha respondeu: -- Verei voc no inferno!
Marshall imediatamente sentiu as sensaes por demais familiares de receio e runa. Alguma coisa havia entrado na sua casa. Hank atendeu a porta e prontamente sentiu
certa

reserva no esprito. Era Carmem. Ela estava vestida com capricho e de forma conservadora desta vez, e o seu comportamento era muito mais real; contudo, Hank tinha
l as suas dvidas. -- Ora, ol -- disse ele. Ela sorriu conciliatoriamente e disse: -- Ol, pastor Busche. Ele se afastou para o lado e acenou-lhe que entrasse.
Ela ps os ps dentro da casa a tempo de ver Mary saindo da cozinha. -- Ol, Mary -- disse. -- Ol -- respondeu Mary. Dando mais um passo, Mary abraou Carmem carinhosamente.
-- Voc est bem? -- Bem melhor, obrigada --. Ela olhou para Hank e seus olhos estavam cheios de arrependimento. -- Pastor, realmente devo-lhe desculpas pela maneira
como me comportei antes. Deve ter sido muito alarmante para vocs dois. Hank hesitou um pouco e por fim disse: -- Bem, certamente estvamos preocupados com o seu
bem-estar. Mary dirigiu-se  sala de estar e disse: -- No quer sentar-se? Posso trazer-lhe alguma coisa? -- No, obrigada -- respondeu sentando-se no sof. -- No
vou-me demorar. Carmem,

Hank sentou-se numa cadeira em frente ao sof e olhou para Carmem, orando sem cessar. Sim, ela parecia diferente, como se tivesse reunido uma poro de fios soltos
da sua vida, e contudo... Hank tinha visto muita coisa nesses ltimos dias, e tinha a distinta impresso de que naquele exato momento estava vendo mais da mesma
coisa. Havia algo nos olhos dela...

Sandy afastou-se um pouco e, como um touro bravio prestes a atacar, estreitou os olhos na direo de Marshall. -- Saia da minha frente! Marshall permaneceu bloqueando-a
com o corpo. na porta do quarto,

-- No quero brigar, Sandy. No vou permanecer  sua frente para sempre. Apenas quero que pense por um momento, est bem? No d para voc se acalmar e ouvir-me
apenas uma ltima vez? Ela permaneceu parada, rgida, respirando forte, os lbios muito apertados, o corpo meio encolhido. Simplesmente era irreal! Marshall tentou
acalm-la com a voz, como se aproximasse de um cavalo selvagem. -- Deixarei que v para onde quiser. A vida  sua. Mas no ousamos nos separar sem dizer o que precisa
ser dito. Eu a amo, sabe? -- Ela no reagiu. -- Eu realmente a amo. Voc... voc acredita no que estou dizendo? -- Voc... voc no sabe o que significa essa palavra.
-- Sim... sim, compreendo o que voc quer dizer. No me sa muito bem nestes ltimos anos. Mas, oua, podemos consertar tudo. Por que deixar esta coisa continuar
como est indo se podemos consert-la? Ela o observou novamente, viu que ele ainda estava de p na porta, e disse: -- Papai, tudo o que quero no momento  dar o
fora daqui. -- Num minuto, num minuto --. Marshall tentou falar devagar, com cuidado, com brandura. -- Sandy...

no sei se conseguirei explicar-lhe claramente, mas lembra-se do que voc mesma disse acerca da cidade naquele sbado, como voc achava... o que foi mesmo? Aliengenas
estavam tomando a cidade? Lembra-se? Ela no respondeu mas parecia estar ouvindo. -- Voc no sabe como estava certa, como a sua teoria era verdadeira. H pessoas,
Sandy, neste exato momento, que desejam tomar conta de toda a cidade, e esto dispostos a destruir qualquer um que se opuser a eles. Sandy, eu sou um dos que tentaram
impedi-los. Sandy comeou a sacudir a cabea com incredulidade. Ela no estava acreditando na histria. -- Escute, Sandy, apenas escute! Ora... eu sou o dono do
jornal, veja, e sei o que eles esto aprontando, e eles sabem que sei, por isso esto fazendo o que podem para me destruir, tomar a minha casa, o jornal, destruir
a minha famlia! -- Ele a fitou intensamente, mas no tinha a menor idia se ela estava entendendo alguma coisa do que lhe dizia. -- Tudo o que nos est acontecendo...
 o que eles querem! Eles querem que esta famlia se desfaa! -- Voc est louco! -- disse ela afinal. --  um manaco! Saia da minha frente! -- Sandy, escute. Eles
tm jogado voc contra mim. Voc sabia que os tiras esto tentando encontrar alguma coisa para me prenderem? Esto tentando acusar-me de assassnio, e parece at
que me esto acusando de violent-la! Para voc ver quanto essa coisa  terrvel. Voc tem de entender... -- Mas voc o fez! -- gritou Sandy. -- Voc sabe que fez.
Marshall estava atordoado. Tudo o que podia fazer era fit-la. Ela tinha de estar louca. -- Fiz o que, Sandy? Ela perdeu o controle e lgrimas vieram-lhe aos

olhos ao dizer: -- Voc me estuprou. Voc me estuprou! Carmem parecia estar tendo dificuldade em chegar a seja l o que fosse que tinha vindo lhes dizer. -- Eu...
no sei como comear...  to difcil. Hank tranqilizou-a: -- Ora, voc est entre amigos. Carmem olhou para Mary sentada na outra ponta do sof, e depois para
Hank, ainda sentado  sua frente. -- Hank, no agento mais viver com isso. Hank disse: -- Ento por que no entrega tudo a Jesus? Ele  o que cura, voc sabe. Ele
pode tirar seus remorsos e suas tristezas, acredite-me. Ela olhou para ele e apenas sacudiu a cabea com incredulidade. -- Hank, no estou aqui para brincadeiras.
Est na hora de dizer mos a verdade e colocarmos tudo em pratos limpos. No estamos sendo justos para com Mary. Hank no sabia do que ela estava falando, por isso
simplesmente inclinou-se para a frente e assentiu com a cabea, sua maneira de dizer-lhe que estava ouvindo. Ela continuou: -- Bem, acho que terei de botar tudo
para fora. Sinto muito, Hank --. Ela se voltou para Mary, os olhos cheios de lgrimas, e disse: -- Mary, nos ltimos meses... desde o nosso primeiro encontro de
aconselhamento... Hank e eu temos nos encontrado com regularidade. Mary perguntou:

-- O que quer dizer com isso? Carmem voltou-se para Hank e implorou: -- Hank, voc no acha que devia ser voc quem lhe contasse? -- Contasse o qu? -- perguntou
Hank. Carmem olhou para Mary, tomou-lhe a mo, e disse: -- Mary, Hank e eu estamos tendo um caso. Mary pareceu admirada, mas no muito chocada. Ela retirou a mo
da de Carmem. Ento olhou para Hank e perguntou: -- O que voc acha? Hank examinou Carmem cuidadosamente de novo e acenou que sim para Mary. Mary virou-se na direo
de Carmem, e Hank ergueu-se da cadeira. Os dois a fitaram atentamente, mas ela desviou o olhar. --  verdade! -- insistiu ela. -- Diga-lhe, Hank. Por favor, diga-lhe.
-- Esprito -- disse Hank com firmeza -- eu lhe ordeno em nome de Jesus que se cale e saia dela! Havia quinze demnios, amontoados no corpo de Carmem sobrepostos
como vermes, rastejando, fervilhando, retorcendo-se, uma massa de braos, pernas, garras e cabeas hediondos. Eles comearam a contorcer-se. Carmem comeou a contorcer-se.
Eles gemeram e gritaram, e Carmem fez o mesmo, os olhos tornando-se vidrados e o olhar vazio. Do lado de fora da sala, a certa distncia, Krioni e Triskal vigiavam.
Triskal estava furioso: -- Ordens, ordens, ordens! Krioni lembrou-lhe: -- Tal sabe o que est fazendo.

Triskal apontou para a sala de estar e bradou: -- Hank est brincando com uma bomba l dentro. Est vendo aqueles demnios? Vo faz-lo em pedacinhos! -- Temos de
ficar de longe -- disse Krioni. -- Podemos proteger a vida de Hank e de Mary, mas no podemos impedir que os demnios faam o que fizerem... -- Krioni tambm achava
difcil aceitar a situao. Sandy falava cada vez mais alto. Marshall sentiu que a qualquer momento perderia totalmente o controle sobre ela. -- Deixe-me... deixe-me
sair daqui ou vai se meter em srios apuros! -- disse ela, quase gritando. Marshall podia apenas permanecer em p em total consternao e horror. -- Sandy, sou eu,
Marshall Hogan, seu pai. Pense, Sandy! Voc sabe que eu nunca toquei em voc, que jamais a violentei. Eu apenas amei e cuidei de voc. Voc  a minha filha, minha
nica filha. -- Voc histericamente. fez isso comigo! -- gritou ela

-- Quando, Sandy? -- exigiu ele. -- Quando foi que toquei em voc de maneira errada? --  algo que minha mente bloqueou durante anos, mas a professora Langstrat
me ajudou a lembrar! -- Langstrat! -- Ela me hipnotizou, e eu vi tudo como se fosse ontem. Voc fez isso, e eu o odeio! -- Voc no se lembrava porque nunca aconteceu.
Pense, Sandy!

-- Eu odeio voc! Voc fez isso comigo! Nat e Armote, do lado de fora da casa, podiam ver o hediondo esprito de engano agarrado s costas de Sandy, as garras cravadas
na cabea dela. Ao lado deles encontrava-se Tal. Acabara de darlhes ordens especiais. -- Capito -- disse Armote -- no sabemos o que aquela coisa pode fazer. --
Preservem-lhes a vida -- disse Tal -- mas Hogan deve cair. Quanto a Sandy, faam com que um pequeno peloto a siga  distncia. Eles podero moverse quando chegar
a hora. Nesse exato momento, em trajetria muito rasa, furtiva, Signa veio flutuando at aterrissar. -- Capito -- relatou -- Kevin Weed est morto. Funcionou. Tal
deu-lhe um olhar e um sorriso estranhos, deliberados. -- Excelente -- disse. Os quinze espritos que possuam Carmem babavam, espumavam, uivavam e sibilavam. Hank,
com delicadeza, segurou a moa sentada, uma mo sobre a sua mo direita, a outra sobre o seu ombro esquerdo. Mary estava ao lado do marido, um tanto agarrada a ele
por causa da prpria timidez. Carmem gemia e se retorcia, os olhos irados fitando Hank. -- Solte-nos, homem de orao! -- advertiu a voz de Carmem, e o odor sulfuroso
que saiu de dentro dela era forte e repugnante. -- Carmem, voc quer se libertar? -- perguntou Hank. -- Ela no pode ouvi-lo -- disseram os espritos. -- Deixe-nos
em paz! Ela nos pertence!

-- Calem-se e saiam dela! -- No! -- berrou Carmem, e Mary estava quase certa de ter visto um tufo de vapor amarelo saindo da garganta de Carmem. -- Saiam, em nome
de Jesus! -- ordenou Hank. A bomba explodiu. Hank foi atirado para trs. Mary saltou de lado. Carmem estava em cima de Hank, arranhando, mordendo, ferindo. Seus
dentes se fecharam em torno do brao direito dele. Ele empurrava e socava com o esquerdo. -- Demnio, solte! -- ordenou ele. Os dentes se soltaram. Hank empurrou
com toda a fora e o corpo de Carmem cambaleou para trs, contorcendo-se e guinchando. Suas mos encontraram uma cadeira. No mesmo instante a cadeira subiu e desceu
com um baque, mas Hank se desviou. Ele pulou em cima de Carmem enquanto ela agarrava outra cadeira. A perna da moa subiu como uma catapulta e o atirou do outro
lado da sala, de encontro  parede. O punho dela o seguiu de perto. Ele se desviou. O punho fez um rombo na parede. Ele estava olhando nos olhos de uma fera; sentia
o hlito sulfuroso sibilando atravs dos dentes  mostra. Com um movimento brusco, ele escapuliu. Unhas afiadas rasgaram e retalharam sua camisa. Algumas cravaram-se
na sua carne. Ele ouvia Mary gritando: -- Pare com isso, esprito! Em nome de Jesus, pare com isso! Carmem dobrou-se ao meio e tapou os ouvidos com as mos. Ela
cambaleou e berrou. -- Cale-se, demnio, e saia dela! -- ordenou Hank, tentando manter-se  distncia. -- No saio! No saio! -- berrou Carmem, e seu corpo adernou
na direo da porta da frente e chocou-se contra ela com toda a fora. O centro da porta afundou

com um estalo. Hank correu  porta e abriu-a, e Carmem voou por ela rua abaixo. Enquanto a observavam ir, tudo o que podiam esperar era que os vizinhos no a vissem.
-- Sandy -- disse Marshall -- esta no  voc. Sei que no . Ela no disse nada, mas como uma cascavel, saltou sobre ele, tentando passar pela porta. Ele ergueu
as mos a fim de se proteger dos punhos dela. -- Est bem, est bem! -- disse ele, afastando-se. -- Pode ir. Somente lembre-se de que a amo. Ela agarrou a mala e
uma sacola e saiu a toda na direo da porta da frente. Ele a seguiu pelo corredor rumo  sala de estar. Dobrou o canto. Olhou para v-la, mas tudo o que viu foi
o abajur que o atingiu em cheio na cabea. Ele ouviu e sentiu a pancada em cada parte do corpo. O abajur caiu ao cho. Agora ele jazia de joelhos, contra o sof.
A mo foi  cabea. Ele ergueu os olhos e viu que a porta da frente ainda estava aberta. Ele sangrava. A cabea estava to leve que ele tinha medo de se levantar.
De qualquer forma, sua fora se fora. Droga, agora havia sangue no tapete. O que dir Kate? -- Marshall! -- veio uma voz acima dele. Uma mo descansou sobre o seu
ombro. Era uma mulher. Kate? Sandy? No, Berenice, espiando-o atravs de olhos enegrecidos. -- Marshall, o que aconteceu? Voc... voc ainda est a? -- Ajude-me
a limpar esta baguna -- foi tudo o que ele conseguiu dizer. Ela correu  cozinha  procura de toalhas de papel. Trazendo-as  sala, ela as comprimiu contra a cabea
dele. Ele se encolheu de dor.

Ela perguntou: -- Consegue levantar-se? -- No quero me levantar! -- respondeu ele contrariado. -- Est bem, est bem. Acabei de ver Sandy sair. Foi ela quem fez
isso? -- , ela jogou esse abajur em mim... -- Deve ter sido alguma coisa que voc disse. A, fique quieto. -- Ela no  a mesma de modo nenhum, est louca. -- Onde
est Kate? -- Ela me deixou. Berenice acomodou-se no cho, seu rosto ferido uma imagem viva de choque, desalento e exausto. Nenhum dos dois disse coisa alguma por
alguns momentos. Apenas se entreolharam como dois soldados feridos, numa trincheira. -- Puxa, voc est um desastre! -- observou Marshall afinal. -- Pelo menos o
inchao diminuiu. No estou com cara de raposa? -- Mais guaxinim que raposa. Pensei que voc devia estar descansando na sua casa. O que est fazendo aqui? -- Acabei
de voltar de Baker. E s tenho ms notcias de l tambm. Ele se antecipou. -- Weed? -- Est morto. A caminhonete que dirigia caiu da ponte do rio Judd e foi parar
naquele grande desfiladeiro. Deveramos ter-nos encontrado. Ele havia

acabado de receber um telefonema de Susan Jacobson, algo muito importante. A cabea de Marshall caiu contra o sof, e ele fechou os olhos: -- Que timo... timo
mesmo! -- Ele queria morrer. -- Ele me ligou hoje  tarde, e marcamos um encontro. Imagino que meu telefone esteja grampeado, ou o dele. O acidente foi planejado,
disso estou certa. Sa de l depressa! Marshall tirou as toalhas da cabea e examinou o sangue que havia nelas. Colocou-as de novo sobre o corte. -- Estamos afundando,
Bernie -- disse ele, e comeou a contar-lhe os eventos da tarde, sua reunio com Brummel e seus companheiros, a perda da casa, a perda do jornal, a perda de Kate,
de Sandy, de tudo. -- E voc sabia que costumo violentar a minha filha alm de estar tendo um caso com a minha reprter? -- Eles esto fazendo picadinho de voc,
no esto? -- disse ela baixinho, a garganta apertada de medo. -- O que podemos fazer? fazer! -- Podemos dar o fora daqui, isso  o que podemos -- Vai desistir?
Marshall apenas deixou que a cabea afundasse. Estava cansado. -- Que outra pessoa faa esta guerra. Fomos avisados, Bernie, e no demos ouvidos. Eles me pegaram.
Pegaram todos os nossos papis, qualquer prova que possamos ter tido. Harmel estourou os miolos. Strachan est indo para to longe quanto conseguir. Eles removeram
Weed. No momento acho que mal estou vivo e isso  tudo o que me restou.

-- E que diz de Susan Jacobson? Foi preciso um esforo e fora de vontade incomuns para faz-lo pensar. -- Nem sei se ela existe, e, se existir, no sei se est
viva. -- Kevin disse que ela tinha a mercadoria e que estava prestes a sair de onde quer que estivesse. Isso me soa como desero, e se ela tiver as provas de que
precisamos para arrematar a coisa... -- Eles deram um jeito nisso, Bernie. Est lembrada? Weed era o nosso nico contato com ela. -- Quer uma teoria? -- No. --
Se o telefone de Kevin estava grampeado, eles sabem do que Susan e Weed falaram. Ouviram tudo. -- Naturalmente, e Susan est praticamente morta tambm. -- No sabemos
disso. Talvez ela tenha conseguido escapar. Talvez ela fosse encontrar-se com Kevin em algum lugar. Marshall ouvia passivamente. -- Minha teoria  que em algum lugar
deve haver um registro daquele telefonema nas mos de algum. -- , suponho que sim --. Marshall sentia-se meio morto, mas a metade que ainda vivia estava pensando.
-- Mas onde estaria? Este pas  grande, Bernie. -- Bem... como eu disse,  uma teoria. Na verdade,  tudo o que nos resta. -- E que certamente no  muita coisa.
-- Estou morrendo de vontade de saber o que Susan tinha a dizer. ..

-- Por favor, no use a palavra "morrer". -- Bem, pense por um minuto, Marshall. Pense em todo o pessoal que parece ter reagido ao suposto grampeamento. Os policiais
de Windsor sabiam poder encontr-lo na casa de Strachan depois que voc me disse que ia para l... -- No  provvel que sejam eles que tenham o equipamento de gravao.
Esto longe demais. -- Ento algum que tinha o equipamento deve tlos avisado. Marshall teve uma idia, e um pouco de cor voltou-lhe ao rosto. -- Desconfio de Brummel.
Os olhos de Berenice brilharam. -- Claro! Como eu disse, ele e os tiras de Windsor esto de conluio o tempo todo. -- Ele despediu Sara, sabe? Ela no estava l hoje.
Foi substituda --. Novas idias comearam a formar-se na cabea de Marshall. -- Sim... ela falou comigo no telefone e deu com a lngua nos dentes sobre Brummel.
Disse que me ajudaria se eu pudesse ajudla... combinamos negociar... e Brummel despediu-a! Ele deve ter ouvido essa conversa tambm --. Foi ento que ele percebeu.
-- Sim! Sara! Os arquivos! Os arquivos de Brummel! -- Sim, voc est na pista certa, Marshall, v firme em frente! -- Ele mandou tirar os arquivos e coloc-los na
rea da recepo a fim de arranjar espao para novo equipamento de escritrio. Eu o vi, instalado no gabinete dele, e um fio saa da parede... ele disse que era
para a cafeteira eltrica. Mas no vi cafeteira alguma! -- Acho que voc descobriu algo! -- Era um fio telefnico, no fio de aparelho

eltrico --. A excitao fez sua cabea doer, mas ele disse mesmo assim: -- Berenice, era um fio telefnico. -- Se pudssemos descobrir com certeza que o equipamento
de gravar est no gabinete dele... se pudssemos encontrar algumas fitas das conversas telefnicas... bem, poderia bastar para algum tipo de acusao pelo menos:
grampeamento ilegal... -- Assassnio. Era uma idia enregelante. -- Precisamos de Sara -- acrescentou Marshall. -- Se ela estiver do nosso lado, agora  a hora de
prov-lo. -- S que voc no deve ligar para ela. Sei onde ela mora. -- Ajude-me a levantar. --  voc que tem de me ajudar a levantar!

31
Hank e Mary ainda estavam tremendo quando ele examinou a porta da frente. Ele meneou a cabea e assobiou o seu assombro. -- Ela rachou o batente. Olhe s! O encosto
afastou-se mais de dois centmetros. -- Bem, que tal trocar de camisa? -- perguntou Mary, e Hank lembrou-se de que metade de sua camisa se fora. -- Aqui est outra
para a pilha de trapos -- disse, tirando-a. Ento ele fez uma careta. -- Uuii!

-- O que h? Depois de tirar a camisa, Hank ergueu o brao a fim de dar uma olhada, e Mary prendeu a respirao. Os dentes de Carmem haviam deixado verges. Em alguns
lugares a pele estava cortada. --  melhor colocarmos gua oxigenada nesses cortes -- disse Mary, dirigindo-se s pressas ao banheiro. -- Venha aqui! Hank foi ao
banheiro, ainda carregando a camisa rasgada. Ele colocou o brao sobre a pia, e Mary comeou a limpar o ferimento. Ela estava espantada. -- Nossa! Hank, ela o mordeu
em quatro lugares. Olhe s! -- Cus, espero que ela esteja vacinada. -- Eu sabia que aquela mulher tinha ms intenes desde a primeira vez em que a vi. A campainha
tocou. Hank e Mary entreolharamse. O que podia ser agora? --  melhor atender -- disse Hank. Ela se dirigiu  sala de estar enquanto Hank acabava a limpeza do brao.
-- Hank! -- chamou Mary. -- Acho melhor voc vir aqui! Hank dirigiu-se  sala, ainda carregando a camisa rasgada na mo, e as marcas de dentes  mostra. Dois policiais
estavam  porta, um idoso, alto, e um jovem, tipo calouro de polcia. , os vizinhos devem ter pensado que algo terrvel estava acontecendo aqui. E, pensando bem,
eles estavam certos. -- Ol -- disse Hank. -- Hank Busche? -- perguntou o mais velho. -- Sim. Esta  Mary, minha esposa. Vocs devem ter recebido um telefonema dos
vizinhos, certo?

O policial grande olhava o brao de Hank. -- O que aconteceu ao seu brao? -- Bem... -- Hank no sabia ao certo como responder. A verdade pareceria uma grande mentira.
No importava. Ele no teve tempo. O policial mais jovem agarrou a camisa de Hank, tirando-a da mo dele, desdobrou-a, erguendo-a com as duas mos. O mais velho
estava com o restante da camisa de Hank escondido discretamente atrs das costas. Nesse momento, ele apresentou o pedao rasgado e fez uma comparao rpida do tecido.
O mais velho acenou com a cabea ao mais jovem, e este tirou um par de algemas e forou Hank a voltarse. O queixo de Mary caiu e ela guinchou: -- Que doidice  essa
que esto fazendo? O mais velho principiou a recitar a liturgia do prisioneiro. -- Sr. Busche, est sendo preso.  meu dever inform-lo a respeito dos seus direitos.
Tem o direito de permanecer calado, qualquer coisa que diga pode e ser usada contra voc... Hank tinha uma idia, mas perguntou mesmo assim: -- Ah... importa-se
de dizer de que sou acusado? -- Deveria saber -- disse bruscamente o mais velho. -- Suspeita de estupro -- disse o mais jovem. -- O qu? -- exclamou Mary. O mais
jovem ergueu a mo em advertncia. -- No se meta nisto, senhora. -- Est cometendo um engano! -- suplicou ela.

Os policiais conduziram Hank pela calada da entrada. Tudo aconteceu to depressa que Mary no sabia o que fazer. Correu atrs deles, implorando, tentado arrazoar
com eles. -- Isso  uma loucura! No posso acreditar! -- disse ela. O mais jovem disse-lhe simplesmente: -- Ter de afastar-se ou enfrentar acusao de obstruir
a justia. -- Justia! -- bradou ela. -- Vocs chamam isto de justia? Hank, que devo fazer? -- D uns telefonemas -- respondeu Hank. -- Vou com voc! -- No podemos
permitir que entre na viatura, senhora -- disse o mais velho. -- Mary, d uns telefonemas -- repetiu Hank. Eles o foraram a entrar no carro e fecharam a porta.
Os policiais entraram e se foram, rua abaixo, viraram a esquina e sumiram de vista. Mary permaneceu parada na calada sozinha, sem o marido. Tal e seus guerreiros
e mensageiros sabiam onde procurar e sabiam o que deviam ouvir; assim foi que escutaram os telefones tocando por toda a cidade, viram as muitas pessoas arrancadas
do televisor ou do sono. Todo o Remanescente estava alvoroado com a notcia da priso de Hank. As oraes comearam. -- Busche caiu -- disse Tal. -- Somente Hogan
sobrou --. Ele se voltou para Chimon e Mota. -- Sara est com as chaves? Chimon respondeu: -- Ela fez cpia de diversas chaves antes de deixar o emprego na delegacia.
Mota dirigiu o olhar para o outro lado da cidade,

ao dizer: -- Devem estar-se encontrando com ela neste exato momento. Sara, Berenice e Marshall conferenciavam amontoados na pequena cozinha de Sara. Exceto pela
luz de um abajur na sala de jantar, no havia outra iluminao na casa. Sara ainda estava em p, completamente vestida. Estava fazendo as malas para se mudar. --
Levarei o que conseguir enfiar no carro, mas no fico por aqui alm de amanh, especialmente depois desta noite -- disse ela, praticamente num murmrio. -- Como
est de dinheiro? -- perguntou Marshall. -- Tenho dinheiro para gasolina suficiente para me fazer sair do estado. Depois disso no sei. Brummel no me pagou o ltimo
salrio. -- Apenas a chutou fora? -- Ele no disse nada, mas no tenho dvida de que ouviu a conversa que tive com voc. No fiquei muito tempo depois daquilo. Marshall
estendeu-lhe cem dlares. -- Eu lhe daria mais se tivesse. -- Tudo bem. Eu diria que estamos de acordo --. Sara passou-lhe um molho de chaves. -- Agora escute com
cuidado. Esta aqui  a da porta da frente, mas primeiro voc precisa desativar o alarme contra ladro. Para isso voc usa esta chave aqui. A caixa do alarme fica
nos fundos, logo acima das latas de lixo. Tudo o que tem de fazer  abrir a tampa e desligar a chave. Esta aqui, com a cabea redonda,  a do gabinete de Brummel.
No sei se o equipamento est ou no trancado, mas no tenho chave para ele. Ter de correr

o risco. O operador noturno ainda est na estao de bombeiros, por isso no deve haver ningum mais por l. -- O que voc acha da nossa teoria? -- perguntou Berenice.
-- Sei que Brummel toma muito cuidado com o novo equipamento. Desde que o mandou instalar, no me permitiu que entrasse no gabinete e mantm a porta fechada.  o
primeiro lugar onde eu procuraria. --  melhor nos irmos -- disse Marshall a Berenice. Berenice abraou Sara. -- Boa sorte. -- Boa sorte a vocs -- replicou Sara.
-- Saiam em silncio. Eles se esgueiraram furtivamente na escurido. Mais tarde naquela noite, Marshall apanhou Berenice no apartamento dela e se dirigiram ao centro.
Marshall encontrou um bom local para esconder o carro a apenas alguns quarteires da Praa do Tribunal, um excelente terreno baldio cheio de exuberantes arbustos
e rvores. Ele deslizou o carro matagal adentro e desligou o motor. Por um momento, ele e Berenice simplesmente permaneceram sentados, sem saber o que fazer. Achavam
estar prontos. Haviam trocado de roupas, vestido peas escuras, e haviam trazido lanternas e luvas de borracha. -- Minha nossa! -- disse Marshall. -- A ltima vez
que fiz algo parecido foi num grupo de meninos; roubamos milho do vizinho. -- E como se saram? -- Fomos pegos, e, cus, como pagamos!

-- Que horas so? Marshall iluminou o relgio de pulso com a lanterna. -- 1:25. Berenice estava visivelmente nervosa. -- Gostaria de saber se ladres de verdade
trabalham desta forma. Sinto-me como se estivesse fazendo um filme. -- Que tal botar um pouco de carvo no rosto? -- J est negro o suficiente, obrigada. Permaneceram
sentados por mais alguns minutos, tentando conseguir coragem para prosseguir. Finalmente, Berenice disse: -- Bem, vamos ou no vamos? -- Morrendo todos, morrem felizes
-- replicou Marshall, abrindo a porta. P ante p, subiram por uma viela e atravessaram alguns metros at chegarem aos fundos do tribunal/delegacia de polcia. Felizmente,
a cidade ainda no tinha conseguido recursos para iluminar o estacionamento, e assim a escurido reinante os escondia bem. Berenice no podia deixar de sentir-se
petrificada; pura determinao a fez seguir em frente. Marshall estava nervoso, mas por algum motivo, sentia estranha exultao em fazer algo to furtivo e sujo
contra aqueles inimigos. Assim que atravessaram o estacionamento, esconderam-se numa sombra prxima e mantiveram-se colados  parede. Estava to bom e escuro ali
que Berenice no queria sair. A mais ou menos uns sete metros adiante na parede estavam as latas de lixo, e acima delas um pequeno painel cinza. Marshall chegou
l rapidamente,

encontrou a chave certa, abriu a porta, e achou o interruptor. Fez um sinal a Berenice, e ela o seguiu. Apressados, deram volta  frente do prdio, e agora estavam
no aberto, defrontando-se com a vasta rea do estacionamento entre a delegacia e a prefeitura. Marshall tinha a chave pronta, e conseguiram entrar no prdio. Marshall
fechou rapidamente a porta atrs deles. Descansaram apenas um momento e puseram-se  escuta. O lugar estava deserto e o silncio era mortal. No ouviram nenhuma
sirene ou alarme. Marshall achou a prxima chave e se dirigiram  porta do gabinete de Brummel. At a, tudo o que Sara tinha predito havia dado certo. A porta de
Brummel tambm abriu. Os dois mergulharam porta adentro. L estava o armrio que abrigava o misterioso equipamento -- se  que realmente estava ali. Marshall ligou
a lanterna e manteve o brilho controlado debaixo da mo a fim de no refletir nas paredes ou brilhar para fora da janela. A seguir, ele abriu a porta da parte inferior
esquerda do armrio. Dentro encontrou algumas estantes sobre trilhos rolantes. Ele puxou a de cima... fitas. L estava um gravador e um bom suprimento de -- Eureca!
-- sussurrou Berenice. -- Deve ser ativada por sinal... liga automaticamente quando recebe uma carga eltrica. Berenice acendeu a sua lanterna e examinou outra gaveta,
na parte inferior direita. Ali encontrou alguns arquivos e pastas. -- Parece um catlogo! -- disse. -- Olhe... nomes, datas, conversas, e em que fita esto. -- A
letra parece familiar. Ambos ficaram atnitos ante o nmero de nomes que constavam da lista, quantas pessoas estavam sendo

vigiadas. -- At o pessoal da Rede -- observou Marshall. Ento apontou para o fim da pgina. -- A estamos ns. Ele tinha razo. O telefone do Clarim estava includo,
a conversa anotada como tendo-se dado entre Marshall e Ted Harmel, gravada na fita 5-A. -- Quem ser que tem tempo para catalogar toda essa coisa? -- quis saber
Berenice. Marshall apenas meneou a cabea. A seguir, perguntou: -- Quando se deu a conversa entre Susan e Weed? Berenice pensou por um momento. -- Teremos de examinar
todas as conversas de hoje, ontem... quem sabe? Weed no disse exatamente quando. -- Talvez o telefonema tenha sido feito hoje. No est anotado aqui. -- Deve estar
na fita que ainda se encontra na mquina. Essas chamadas ainda no foram catalogadas. Marshall voltou a fita, ligou a mquina, empurrou o boto do alto-falante,
e abaixou o volume. Conversas comearam a se desenrolar na gravao, uma poro de coisas corriqueiras, incuas. A voz de Brummel constava de uma poro delas, falando
de negcios. Marshall passou a fita depressa para a frente, pulando diversas conversas. Subitamente, ele reconheceu uma voz. A sua. -- Voc j fugiu uma vez, lembra-se?
-- veio sua voz. -- Enquanto estiver vivo, Eldon, estar vivendo com isto e eles sabero... -- Eldon Strachan e eu -- disse ele a Berenice.

Era apavorante ouvir suas prprias palavras saindo da mquina, palavras que podiam dizer qualquer coisa  Rede. Marshall adiantou a fita. -- Cara, tudo isto  uma
loucura -- disse uma voz. Berenice animou-se. --  ele!  Weed! Marshall voltou a fita de volta e tocou-a novamente. Houve um intervalo e ento o abrupto incio
de uma conversa. -- Pronto, al? -- disse Weed. -- Kevin, aqui  Susan. Berenice Weed replicou: e Marshall escutavam atentamente.

-- Fale, estou ouvindo, cara. Que posso fazer? A voz de Susan estava tensa e as palavras se atropelavam. -- Kevin, vou embora, de uma forma ou de outra, e vai ser
esta noite. Pode encontrar-me no Sempre-Verde amanh  noite? -- Sim... sim. -- Veja se consegue levar Berenice Krueger junto. Tenho material para mostrar a ela,
tudo o de que ela precisa saber. -- Cara, tudo isto  uma loucura. Voc devia ver a minha casa. Algum entrou aqui e destruiu tudo. Tome cuidado! -- Todos ns estamos
em grave perigo, Kevin. Kaseph est de mudana para Ashton a fim de assumir o controle de tudo. Mas no posso falar agora. Encontreme no Sempre-Verde s 8. Tentarei
chegar l de algum modo. Se no, ligarei para voc. -- Est bem, est bem.

-- Tenho de desligar. Adeus e obrigada. Clique. A conversa terminou. --  -- disse Berenice -- ele me ligou para falar sobre isso. -- No foi muito -- disse Marshall
-- mas foi o bastante. Agora a pergunta , ser que ela conseguiu escapar? Uma chave tilintou na porta da frente. Berenice e Marshall nunca se moveram to depressa.
Ela guardou os arquivos, e Marshall empurrou a mquina de volta para dentro do armrio. Fecharam as portas do armrio. A porta da frente abriu-se. As luzes do saguo
se acenderam. Eles mergulharam atrs da grande escrivaninha de Brummel. Os olhos de Berenice estavam cheios de uma nica pergunta: O que fazemos agora? Marshall
gesticulou-lhe que ficasse fria, depois fechou os punhos, indicando-lhe que talvez tivessem de lutar para sair dali. Outra chave girou na porta do gabinete de Brummel,
e a seguir ela se abriu. O aposento foi subitamente inundado de luz. Ouviram algum ir ao armrio, abrir as portas, puxar a mquina para fora. Marshall calculou
que a pessoa tinha de estar de costas para ele. Ergueu a cabea para dar uma espiadinha rpida. Era Carmem. Ela estava voltando a fita ao comeo e preparando-se
para lanar outras entradas no registro. Berenice tambm deu uma espiada, e os dois sentiram a mesma fria e indignao. -- Voc nunca dorme? -- perguntou Marshall
a Carmem em voz bem alta. Aquilo sobressaltou Berenice que deu um pulo. Sobressaltou Carmem, que tambm pulou, derrubou os papis, e deu um gritinho. Ela se voltou
de chofre.

-- O qu! -- disse, sufocada. -- O que est fazendo aqui? Marshall e Berenice ergueram-se. Por sua aparncia contundida e pelas roupas escuras, dava para ver que
essa era tudo, menos uma visita cordial, despreocupada. -- Eu lhe perguntaria a mesma coisa -- disse Marshall. -- Voc tem idia de que horas so? Carmem correu
os olhos pelos dois, e ficou muda. Marshall podia certamente pensar em algumas coisas que dizer: -- Voc  espi, no ? Foi espi no nosso escritrio, grampeou
os nossos telefones, e agora fugiu com todo o material da nossa investigao. -- No sei... -- ... do que estou falando. Certo! Assim, suponho que faz isto todas
as noites tambm, repassa as conversas gravadas e as cataloga, vendo se escuta alguma coisa que os chefes possam querer saber. -- Eu no estava... -- E o que diz
dos registros comerciais do Clarim? Vamos resolver isso primeiro. De repente, ela caiu no choro, dizendo: -- Oh... voc no compreende... -- Ela saiu para a rea
da recepo. Marshall seguiu-a logo atrs, sem nenhuma disposio de perd-la de vista. Ele tomou o brao dela e f-la rodopiar. -- Calma, mocinha! Temos uns negcios
srios a liquidar aqui. -- Oh! -- lamuriou-se Carmem, e ento atirou os braos em torno de Marshall como se fosse uma criana atemorizada e soluou de encontro ao
seu peito. --

Pensei que voc fosse um ladro... Estou contente por ser voc. Preciso de ajuda, Marshall! -- E ns queremos respostas -- respondeu bruscamente Marshall, sem deixar-se
influenciar pelas lgrimas. Ele se sentou na cadeira de Sara. -- Sente-se e guarde as lgrimas para uma novela. Ela ergueu os olhos para os dois, a pintura dos olhos
escorrendo-lhe pelas faces. -- Vocs no compreendem? No tm corao? Vim aqui para pedir ajuda! Acabei de passar por terrvel experincia! -- Ela acumulou as foras
para dizer, e ento explodiu em acesso de lgrimas: -- Fui estuprada! Caindo ao cho, ela soluava incontrolavelmente. --  -- disse Marshall, insensvel -- parece
estar ocorrendo muito disso por a ultimamente, especialmente entre as pessoas que os seus chefes querem afastar do caminho. E quem foi desta vez? Tudo o que ela
fez foi ficar deitada no cho e chorar. Berenice tinha algo fervendo dentro de si. -- Gostou da minha cara hoje, Carmem? Acho interessante o fato de voc ser a nica
a saber que eu ia sair para visitar Kevin Weed. Foi voc que avisou o bandido que me espancou? Ela ainda estava chorando no cho, sem dizer nada. Marshall foi ao
escritrio de Brummel e voltou com alguns arquivos, inclusive as anotaes que Carmem havia escrito naquela mesma noite. -- Tudo com a sua letra, Carmem, minha cara.
Voc nada mais foi do que uma espi desde o comeo. Estou errado ou estou certo? Ela continuava chorando. Marshall segurou-a,

erguendo-a do cho. -- Vamos, levante-se! Foi no exato momento em que ele viu a mo dela soltar o boto de alarme silencioso no cho que a porta da frente se abriu
de chofre e ele ouviu uma voz gritando: -- No se mexa! Polcia! Carmem j no chorava. De fato, sorria maliciosamente. Marshall ergueu as mos e Berenice fez o
mesmo. Carmem correu e colocou-se atrs dos dois policiais que haviam acabado de entrar. As armas estavam apontadas diretamente para os dois larpios. -- Amigos
seus? -- perguntou Marshall Carmem. Ela apenas deu um sorriso maldoso. a

Nesse exato momento Alf Brummel em pessoa entrou no prdio, tendo acabado de sair da cama e ainda de roupo de banho. -- O que est perguntou, e ento viu acontecendo
por aqui? --

Marshall. -- O que...? Ora, ora, quem temos aqui? -- A seguir, ele deu uma risadinha. Dirigiu-se a Marshall, meneando a cabea e mostrando os dentes grandes. --
No acredito! Simplesmente no acredito! -- Ele olhou para Berenice. -- Berenice Krueger!  voc? Berenice no tinha nada a dizer, e Brummel estava longe demais
para ela poder cuspir no rosto dele. Oh, no. Agora a lotao estava completa. Juleen Langstrat, tambm de roupo de banho, entrou pela porta! Ela se deslocou para
o lado de Brummel e ambos postaram-se ali, olhando com orgulho para Marshall e Berenice, como se fossem trofus. -- Desculpem o t-los perturbado desta forma --
disse Marshall. Langstrat sorriu com prazer e disse:

-- Eu no teria perdido isto por nada do mundo. Brummel continuava a sorrir mostrando os dentes grandes e disse aos policiais. -- Recitem-lhes os direitos e prendam-nos.
A oportunidade era boa demais para deixar passar. L estavam os dois policiais tentando fazer o seu trabalho, e l estavam Brummel e Langstrat, parados apenas um
pouco  frente de Marshall. A situao era perfeita, e havia-se estado a acumular dentro de Marshall por um bom tempo. Instantaneamente, com todo o seu peso, ele
mergulhou na direo da barriga de Brummel e arrojou Brummel e Langstrat para trs sobre os dois policiais. -- Corra, Bernie, corra! -- gritou ele. Ela correu. No
parou para pensar se teria a coragem ou a vontade ou mesmo a velocidade, simplesmente deu tudo o que tinha pelo longo corredor, passando pelas portas dos gabinetes,
direto  sada. A porta abria-se por meio de uma barra antichoque. Berenice chocou-se contra ela, a porta abriu-se, e ela, com um tropeo, saiu para o fresco ar
noturno. Marshall encontrava-se no meio de um emaranhado de braos, mos, corpos e gritos, agarrando-se a tantos deles quantos conseguia. Estava quase se divertindo,
e no fez tanta fora assim para escapar. Queria manter a todos eles ocupados. Um tira recuperou-se e saiu correndo atrs de Berenice, explodindo pela porta dos
fundos. Ele estava suficientemente perto no rasto da moa para ouvir o som de passos dirigindo-se  viela de trs, e seguiu-a em encarniada perseguio. A estava
a chance de Berenice descobrir em que tipo de condio fsica se encontrava, costela quebrada e tudo. A respirao explodindo, ela dava longas

passadas, seguindo pela escurido; sonhava com os culos, ou pelo menos com um pouco mais de luz. Ouviu o tira gritando-lhe que parasse. A qualquer momento ele daria
um tiro de advertncia. Ela fez uma curva fechada  esquerda atravessando um quintal, e um cachorro ps-se a latir. Havia um espao de luz entre duas rvores frutferas
cujos galhos chegavam perto do cho. Ela se dirigiu para l e encontrou uma cerca. Duas latas de lixo ajudaram-na a transp-la com um fragor que revelou ao tira
onde ela estava. Berenice esmagou com os ps uma horta lavrada havia pouco tempo, achatando sem ver diversos suportes de feijoeiros. Ela chegou a um gramado, voltou
na direo da viela, revirou mais algumas latas, transps uma cerca, e continuou a correr. O tira parecia estar-se distanciando. Ela estava ficando desesperadamente
cansada e sua nica esperana era de que ele tambm estivesse. No agentaria correr assim por muito mais tempo. Cada flego produzia uma pontada aguda na costela
quebrada. J no estava conseguindo respirar. Ela dobrou a toda o canto de uma casa e voltou a passar por outros quintais, suscitando um tumulto de latidos de ces.
A seguir atravessou uma rua e mergulhou num bosque. Os galhos atacavam-na e a agarravam, mas ela investiu contra eles at chegar a outra cerca que rodeava um posto
de gasolina. Ela correu ao longo da cerca, encontrou um velho depsito de lixo logo do outro lado, foi um pouco adiante, e ento seus olhos foram atrados por um
fragmento de luz de um poste filtrando-se atravs de folhas e iluminando uma pilha de detritos que algum porcalho havia jogado ali. Ela agarrou a primeira coisa
que sua mo encontrou, uma garrafa velha, caindo em seguida ao cho, tentando no respirar alto, tentando no gritar de dor.

O tira ia devagar pelo bosque, tateando a fim de conseguir caminhar no escuro, estalando galhinhos sob os ps, arfando e bufando. Ela ficou em silncio, esperando
que ele se detivesse e escutasse. Finalmente ele parou e ficou quieto. Estava  escuta. Ela arremessou a garrafa por cima da cerca. Ela bateu em cima do depsito
de lixo e pulou, espatifando-se na calada atrs do posto. O tira arrojou-se pelo mato at a cerca. Ele a transps e quedou-se imvel atrs do posto. De onde estava,
Berenice no conseguia v-lo, mas escutava, muito atenta. Ele tambm. Ento, ela o ouviu andar lentamente pelos fundos do posto e parar. Passou-se um momento, e
ento ele comeou a caminhar em ritmo normal. Havia perdido a moa. Berenice permaneceu onde estava, tentando acalmar as violentas batidas do corao e o sangue
nos ouvidos, tentando acalmar os nervos e o pnico, e desejando que a dor desaparecesse. Tudo o que desejava era tomar grandes flegos; no parecia conseguir satisfazer-se.
Oh, Marshall, Marshall, o que esto fazendo com voc?

32
Marshall estava de bruos no cho, os bolsos esvaziados, as mos algemadas s costas. Estava dando bastante cooperao ao tira que estava em p acima dele com um
revlver na mo. Carmem, Brummel e Langstrat estavam no escritrio de Brummel repassando a fita que Marshall e Berenice tinham ouvido. -- Sim -- disse Carmem --
aqui est a minha anotao do contador da fita. Achei que ela no se havia adiantado muito para um perodo to grande de

vigilncia. As gravaes continuam depois desta parada. Eles voltaram a fita. Brummel saiu do escritrio e postou-se acima de Marshall. -- E ento, o que foi que
voc e Berenice escutaram? -- Grande orquestra de jazz, acho -- respondeu Marshall. Essa resposta levou o calcanhar de Brummel a cair sobre o pescoo de Marshall.
-- Ai! Brummel tinha mais uma pergunta: -- E ento, quem lhe deu as chaves deste lugar? Foi Sara? -- Se no me fizer perguntas, no terei de mentir. Brummel resmungou:
-- Terei de mandar um aviso pelo rdio para que a apreendam tambm! -- No se incomode -- disse Langstrat do gabinete. -- Ela se foi e ela no  nada. No traga
encrenca de volta depois que se tiver livrado dela. Apenas concentre-se em Krueger. Brummel disse ao tira que estava guardando Marshall: -- Ed, saia e veja se pode
ajudar o John. Krueger  a nica que precisamos realmente pegar. Mas nesse instante John entrou pela porta do fundo do corredor, e no trazia Berenice consigo. --
E ento? -- exigiu Brummel. John apenas deu de ombros timidamente. -- Ela correu como um coelho assustado, e est escuro l fora!

-- Ora, formidvel! -- gemeu Brummel. Marshall achou que realmente era formidvel. A voz de Langstrat veio do escritrio. -- Alf, venha ouvir isto.. Brummel dirigiu-se
ao escritrio, e Marshall podia ouvir de novo a conversa entre Weed e Susan. Langstrat disse: -- Ento eles ouviram essa conversa. Ns a apanhamos do telefone de
Susan hoje --. O dilogo entre Susan e Weed terminou. -- A menos que eu esteja enganada,  possvel que Krueger se esteja dirigindo ao Bar Sempre-Verde em Baker
a fim de encontrar-se com Susan... -- Ela caiu na risada. -- Vou mandar patrulharem o bar, ento -- disse Brummel. -- Mande uma patrulha ao apartamento dela tambm.
Ela vai querer pegar o carro. -- Boa idia. Brummel e Langstrat saram do escritrio e postaram-se em cima de Marshall como abutres sobre uma carnia. -- Marshall
-- vangloriou-se Brummel -- temo que tenha uma grande queda  sua frente. Tenho o bastante contra voc para mand-lo para as grades para sempre. Voc devia ter sado
desta coisa enquanto tinha a possibilidade. Marshall ergueu sorridente e disse: o olhar quele tolo rosto

-- Para usar um chavo, no vai conseguir safarse dessa, Brummel. Voc no  dono de todo o sistema judicirio. Mais cedo ou mais tarde este negcio vai escapar
ao seu controle; ficar maior do que voc. Brummel apenas sorriu um sorriso que Marshall

adoraria apagar com um chute e disse: -- Marshall, s precisamos de uma deciso do tribunal inferior, e tenho a certeza de que conseguiremos isso. No adianta negar.
Voc nada mais  do que um mentiroso e larpio de terceira categoria, para no falar em molestador de crianas e possvel homicida. Temos testemunhas, Marshall:
bons e honestos cidados desta comunidade. Faremos com que tenha o mais justo dos julgamentos, a fim de no ter base para um apelo. Poderia ser muito difcil para
voc. Pode ser que o juiz lhe d uma colher de ch, mas... no sei, no. -- Voc est falando de Baker, o finrio? -- Ouvi dizer que ele pode ser uma pessoa muito
compassiva... nas circunstncias certas. -- Ento deixe-me adivinhar. Vai prender Berenice sob acusao de prostituio? Talvez consiga encontrar aquelas prostitutas
novamente, aquele tira falso, tramar a coisa toda. Brummel deu uma risada zombeteira. -- Tudo depende da prova que tivermos, acho. Podemos prend-la por arrombamento,
como voc sabe, e foram vocs dois que arrumaram essa sozinhos. -- E ento, o que diz a lei a respeito de grampeamentos ilegais? Langstrat respondeu a essa pergunta.
-- Nada sabemos sobre grampeamento. No fazemos esse tipo de coisa --. Ela fez uma pausa de efeito, ento acrescentou: -- E no achariam nada mesmo que acreditassem
em voc --. Nesse momento ocorreu-lhe algo. -- Oh, posso perceber o que est pensando. No conte com Susan Jacobson. Recebemos a triste notcia hoje de que ela morreu
num terrvel acidente de carro. As nicas

pessoas que a Srta. Krueger pode esperar encontrar no Bar Sempre-Verde sero da polcia. Berenice estava tonta. Suas costelas pareciam estar arrebentadas; seus ferimentos
latejavam impiedosamente. Por quase uma hora ela no teve fora ou coragem para levantar-se de onde estava deitada entre os arbustos. Tentou decidir o que faria
a seguir. Cada toque de vento atravs das rvores era um policial que se aproximava; cada som trazia novo terror. Ela olhou o relgio. Eram quase trs da manh.
Logo amanheceria, e no daria mais para esgueirar-se s escondidas por ali. Era preciso pr-se a caminho, e ela sabia disso. Aos poucos, conseguiu levantar-se, depois
ficou parada, levemente agachada, debaixo do emaranhado de trepadeiras que pendiam dos galhos rasteiros de um medronheiro, esperando que suficiente sangue circulasse
atravs do crebro para conseguir manter-se em p. Ela deu um passou, depois outro. Tornou-se mais confiante e comeou a adiantar-se, tateando a fim de encontrar
o rumo no meio das rvores e da vegetao rasteira, tentando afastar os galhos que a arranhavam. De volta  rua, estava tudo quieto e escuro. Os ces j no latiam.
Ela comeou a seguir o percurso ao seu apartamento, a quase dois quilmetros do outro lado da cidade, indo em rpidas arrancadas de rvore  sebe  rvore. Apenas
uma vez um veculo passou, mas no era uma radiopatrulha; Berenice escondeu-se atrs de um grande bordo at que ele desaparecesse. Ela no conseguia distinguir a
dor e mal-estar fsicos da exausto e desespero emocional. Algumas vezes ela se confundiu e perdeu o rumo e no conseguiu enxergar nada do que diziam as placas de
sinalizao, e

foi nessas horas que quase chorou, deixando-se cair de encontro a uma cerca ou parede. Mas lembrou-se de Marshall atirando-se na boca dos lees por causa dela, e
no podia desapont-lo. Tinha de conseguir escapar. Tinha de sair da cidade, livrar-se, encontrar Susan, pedir ajuda, fazer alguma coisa. Por quase uma hora, quarteiro
a quarteiro, passo a passo, ela prosseguiu em seus esforos e finalmente aproximou-se do prdio do seu apartamento. Cautelosa, ela deu grande volta em torno dele,
desejando examin-lo por todos os lados. Finalmente, por trs da perua de um vizinho, ela achou que conseguiu distinguir o revelador conjunto de luzes em cima de
um carro estacionado no fim do quarteiro. Dessa posio, os ocupantes do veculo teriam viso perfeita de qualquer pessoa que tentasse entrar em algum apartamento.
Portanto, entrar estava fora de cogitao. Era muito mais fcil esgueirar-se pelos fundos do prdio; ali havia pequenas vagas de estacionamento ao longo de uma viela
escura e estreita, a iluminao era escassa, as vagas no podiam ser vistas do nvel do cho que ficava acima delas. Em termos de segurana, era um lugar terrvel
para se estacionar, mas perfeito para Berenice essa noite. Ela atravessou velozmente a rua a um quarteiro de distncia e longe das vistas da radiopatrulha, depois
voltou e esgueirou-se pela viela, mantendo-se colada ao mido muro de concreto que acompanhava a inclinao da viela para baixo do nvel do cho. Ela alcanou seu
pequeno carro, removeu o estojo magntico de chaves debaixo do pra-choques, e usou as chaves de emergncia para abrir a porta. Oh, to perto e contudo to longe!
No havia como ela pudesse dar partida no carro e escapar sem ser

ouvida nessa noite to silenciosa. Mas havia algumas coisas que podia aproveitar bem. Entrando com dificuldade no carro to depressa quanto pde, ela fechou a porta
atrs de si o suficiente para apagar a luz do teto. A seguir, abriu o cinzeiro do painel e esvaziou-o de todas as moedas que continha, colocando-as no bolso. Dava
uns dois dlares, mas teria de ser suficiente. No porta-luvas encontrou seus culos escuros feitos com grau; agora podia enxergar melhor e us-los a fim de esconder
o ferimento dos olhos. Nada mais havia a fazer alm de deixar a cidade, talvez tirar uma soneca em algum lugar, de alguma maneira, e depois, de uma forma ou de outra,
chegar a Baker e ao Bar Sempre-Verde at s 8:00 da noite. Era tudo, e era bastante. Ela se esforou por pensar em algum que conhecesse de quem eles no soubessem,
qualquer amigo que pudesse ainda ajudar e proteger uma foragida da lei, sem fazer perguntas. A lista mental de nomes era demasiado curta e duvidosa. Ela comeou
a andar na direo da Rodovia 27 enquanto rebuscava o crebro  cata de quaisquer outras idias. No poro do tribunal, sozinho numa cela no fim da lgubre fileira
de celas, Hank estava deitado em seu leito, dormindo enfim. No tinha sido a mais agradvel das noites: eles o haviam despido, revistado, tirado suas impresses
digitais, sua foto, e depois o haviam enfiado nessa cela, sem cobertor para aquec-lo. Ele havia pedido uma Bblia, mas no lhe permitiram receb-la. O bbado na
cela ao lado havia vomitado durante a noite, o passador de cheques sem fundos na cela seguinte  do bbado tinha a boca muito suja, e o assaltante na cela seguinte
demonstrou ser um marxista vociferante e dogmtico.

Ora, pensou ele, Jesus morreu por eles e eles precisam do seu amor. Tentou ser bondoso e falar-lhes acerca do amor de Deus, mas algum lhes havia dito que ele era
acusado de estupro, o que de certa forma tornou menos eficaz o seu testemunho. Por isso, ele se deitou, identificando-se com Paulo e Silas e Pedro e Tiago e todos
os outros cristos que, embora inocentes, haviam passado tempo numa priso miservel. Perguntou-se quanto tempo o seu ministrio sobreviveria agora que sua reputao
havia sido arruinada. Conseguiria manter-se no j abalado pastorado? Brummel e seus companheiros com certeza aproveitariam ao mximo o acontecido. Pelo que ele sabia,
a coisa havia sido arranjada por eles. Ah, bem, estava tudo nas mos do Senhor; Deus sabia o que era melhor. Ele orou por Mary e por todas as suas novas e heterogneas
ovelhas, e mentalmente recitou para si mesmo passagens da Escritura que sabia de cor at pegar no sono. Bem de madrugada Hank acordou com passos vindos da ala de
celas e com o tilintar das chaves do guarda. Oh, no. O guarda estava abrindo a porta da sua cela. Agora Hank teria de repartir a cela com... um bbado, um assaltante,
um verdadeiro estuprador? Ele fingiu que ainda dormia, mas abriu um olho para dar uma espiada. Minha nossa! Esse bandido era grande e de aspecto assustador, e pelo
curativo e machucado na testa parecia haver acabado de sair de uma briga. Ele estava resmungando algo a respeito de ter de ser trancado junto com um estuprador.
Hank comeou a orar pedindo a proteo do Senhor. Esse grandalho tinha de pesar o dobro dele, e parecia violento. O novo sujeito deixou-se cair sobre o outro leito
e respirou aquele tipo de respirao pesada associada a ursos, drages e monstros.

Senhor, por favor, livre-me! Rafar se pavoneava para diante e para trs no alto de sua colina de onde avistava a cidade, deixando que as asas se arrastassem e ondulassem
como manto real atrs de si. Demnios mensageiros lhe tinham trazido relatrios regulares de como estavam indo os preparativos finais na cidade. At ento as notcias
s tinham sido boas. -- Lucius -- chamou Rafar com o tom que algum usaria para uma criana -- Lucius, quer vir aqui? Lucius adiantou-se com toda a dignidade que
conseguiu reunir, tentando fazer as asas ondularem e tremularem como as de Rafar. -- Sim, Baal Rafar? Rafar olhou-o triunfante, um sorriso retorcido na cara, e disse:
-- Quero crer que voc aprendeu com esta experincia. Como viu to claramente, o que no conseguiu fazer em anos, eu consegui em dias. -- Talvez --. Isso foi tudo
o que Lucius lhe concedeu. Rafar achou graa. -- E voc discorda? -- Poder-se-ia pensar, Baal, que o seu trabalho foi apenas o clmax dos anos da minha labuta antes
da sua chegada. -- Anos de labuta quase destrudos pelas suas asneiras, voc quer dizer! -- retorquiu Rafar. -- O que faz a gente parar e pensar. Tendo conquistado
a cidade para o Valente, atrevo-me a deix-la agora nas mos daquele que quase a perdeu antes? Lucius no gostou nada do tom da conversa.

-- Rafar, durante anos esta cidade foi meu principado.  meu o direito de ser prncipe de Ashton! -- Foi seu. Mas honrarias, Lucius, recompensam aes, e em aes
eu o encontro remisso. Lucius estava indignado, mas controlou-se na presena desse poder gigantesco. -- O senhor no viu minhas aes pelo fato de ter preferido
no olhar. Esteve de m vontade para comigo desde o princpio. Lucius tinha ido longe demais. Imediatamente, foi arrebatado do cho pelo punho macio de Rafar em
torno de sua garganta, e agora Rafar o erguia e o olhava diretamente nos olhos. -- Eu -- disse Rafar lenta e ferozmente -- e apenas eu, sou o juiz disso! -- Deixe
o Valente ser o juiz! -- respondeu Lucius com atrevimento. -- Onde est Tal, esse adversrio que era para o senhor derrotar, cujos pedacinhos ia arrojar pelo cu
como seu vitorioso pavilho? Rafar permitiu que um leve sorriso lhe cruzasse a cara, embora seus olhos se mantivessem em chamas. -- Busche, o homem de orao, foi
derrotado e seu nome conspurcado. Hogan, que j foi perseguidor tenaz,  agora um infeliz imprestvel e derrotado. A Serva traidora est destruda, e o seu amigo
foi eliminado. Todos os outros fugiram. Rafar abanou a mo sobre a cidade. -- Olhe, Lucius! Voc v os chamejantes exrcitos celestiais descendo sobre a cidade?
Voc v as suas espadas brilhantes e polidas? V seus muitos guardas postados por l? Ele zombou de Lucius e de Tal ao mesmo tempo. -- Esse Tal, esse Capito do
Exrcito, comanda

agora um exrcito abatido e debilitado, e est com medo de mostrar-se. Desafiei-o vez aps vez a me confrontar, a me deter, e ele no apareceu. Mas no se preocupe.
Assim como disse, farei. Quando estas outras questes urgentes tiverem sido resolvidas, Tal e eu nos encontraremos, e voc ver o que vai acontecer... logo antes
de eu derrotar voc! Rafar segurou Lucius ao alto enquanto chamava outro demnio. -- Mensageiro, leve recado ao Valente de que est tudo pronto e que ele pode vir
 vontade. Os obstculos foram removidos, Rafar completou sua tarefa, e a cidade de Ashton est pronta a cair-lhe nas mos -- Rafar derrubou Lucius ao cho, ao dizer
isso -- como uma ameixa madura. Lucius arremeteu do cho e voou para longe em humilhado tumulto enquanto as tropas demonacas riam a valer.

33
Edith Duster havia sentido o esprito um tanto agitado antes de se deitar naquela noite. Por isso, ao ser acordada abruptamente por dois seres luminosos em seu quarto,
no se surpreendeu de todo, embora ficasse pasmada. -- Glria a Deus! -- exclamou, os olhos muito abertos, a face embevecida. Os dois homens altos tinham rosto bondoso
e compassivo, mas sua expresso era sria. Um era alto e loiro; o outro, jovem e de cabelos escuros. Ambos chegavam  altura do teto, e o fulgor de suas tnicas
brancas enchia o quarto. Cada um deles trazia bainha e

cinto resplendentes, e o cabo das suas espadas eram do mais puro ouro, cravejados de jias cintilantes. -- Edith Duster -- disse o loiro alto, com voz profunda e
ressonante -- vamos entrar em batalha pela cidade de Ashton. A vitria repousa nas oraes dos santos de Deus. Pelo temor que tem ao Senhor, ore, e convoque os outros
 orao. Ore pedindo que o inimigo seja vencido e os justos libertados. Ento disse o de cabelos escuros. -- O seu pastor, Hank Busche, foi preso. Ele ser libertado
mediante suas oraes. Chame Mary, a esposa dele. Sirva-lhe de conforto. De sbito, eles j no estavam ali, e o quarto ficou escuro novamente. De alguma forma,
Edith sabia que j os tinha visto antes, talvez em sonhos, talvez como pessoas comuns, normais, em diferentes lugares. E ela sabia da importncia do pedido que fizeram.
Erguendo-se, ela agarrou o travesseiro e colocou-o no cho, ajoelhando-se a seguir sobre ele, ao lado da cama. Ela queria rir, queria chorar, queria cantar; sentia
de repente uma responsabilidade e um poder nas profundezas do seu ser, e entrelaando as mos trmulas sobre a cama, ela curvou a cabea e comeou a orar. As palavras
fluam do mais profundo de sua alma, clamando em favor do povo de Deus e da justia de Deus, uma splica por poder e vitria em nome de Jesus, pela represso das
foras do mal que tentavam tomar a prpria vida, o prprio corao daquela comunidade. Nomes e rostos cascatearam diante dos olhos da sua mente e ela intercedeu
por todos, suplicando diante do trono de Deus a sua segurana e salvao. Ela orou. Orou. E orou. Do alto, a cidade de Ashton estava espalhada como um inocente vilarejo
de brinquedo numa colcha de

retalhos, uma comunidade pequenina e despretensiosa ainda adormecida, mas banhada agora pelo crescente transbordar de rosa e cinza que precedia a aurora, vindo das
montanhas do leste. At ento nada se movia na cidade. Nenhuma luz estava sendo acesa; o caminho de leite ainda estava estacionado. De algum lugar no cu, alm
das nuvens orladas de cor-de-rosa, principiou um som solitrio, impetuoso. Um guerreiro anglico, pairando no ar como uma gaivota, descreveu rpida e furtiva espiral
para baixo, at que sua forma se perdeu em meio aos desenhos das ruas e prdios embaixo. Depois outro apareceu e tambm deixou-se cair silenciosamente na cidade,
desaparecendo em algum lugar dentro dela. E Edith Duster continuou a orar. Dois apareceram, as asas majestosamente estendidas para trs, as cabeas apontando diretamente
para baixo, mergulhando como falces cidade adentro. A seguir veio outro, planando em trajetria mais rasa, que o levaria ao outro lado da cidade. Depois quatro,
deixando-se cair em direes diferentes. Depois outros dois, a seguir sete... Mary, deitada no sof, foi despertada de um sono inquieto pelo telefone. -- Al? --
Seus olhos brilharam imediatamente. -- Oh, Edith, estou to contente por ter chamado! Estive tentando telefonar-lhe. Nem fui para a cama, devo ter anotado errado
o seu nmero, ou os telefones no esto funcionando... -- Ento ela comeou a chorar, e contou a Edith tudo acerca dos acontecimentos da noite anterior. -- Olhe,
descanse e fique tranqila at eu chegar a -- disse Edith. -- Estive de joelhos a noite toda e Deus est-se movendo, e como est! Tiraremos Hank da

cadeia e muito mais do que isso! Edith agarrou a malha e os tnis e dirigiu-se  casa de Mary. Jamais se sentira to jovem. John Coleman acordou cedo aquele dia,
to perturbado por um sonho que no conseguiu pegar outra vez no sono. Patrcia sabia como ele se sentia: a mesma coisa lhe acontecera. -- Vi anjos! -- disse John.
-- Eu tambm -- disse Patrcia. -- E... e vi demnios. Monstros, Patty! Coisas horrorosas! Os anjos e os demnios estavam lutando. Era... -- Terrvel. -- Apavorante.
Realmente apavorante. Eles ligaram para Hank. Mary atendeu. Ficaram sabendo o que acontecera na noite anterior, e dirigiramse prontamente para l. Andy e June Forsythe
no puderam dormir a noite toda. Aquela manh Andy estava zangado e June simplesmente tentou manter-se afastada dele. Por fim, enquanto Andy tentava comer alguma
coisa no desjejum, conseguiu falar sobre o que o perturbava. ser. -- Deve ser o Senhor. No sei o que mais poderia

-- Mas por que voc est to perturbado? -- perguntou June to ternamente quanto possvel. -- Porque nunca me senti assim antes -- disse Andy, e ento sua voz comeou
a tremer. -- Eu... eu apenas sinto que preciso orar, como... como se algo tivesse de ser resolvido e no posso descansar enquanto isso no acontecer. -- Sabe --
disse June -- sei como voc se sente.

No sei se consigo explicar, mas sinto que no estive a ss a noite toda. Algum esteve aqui conosco, enchendonos dessas sensaes. Os olhos de Andy se arregalaram.
-- Sim!  isso mesmo!  essa a sensao! -- Ele agarrou a mo dela com muita alegria e alvio. -- June, querida, pensei que estava ficando doido! Nesse exato momento
o telefone tocou. Era Cecil Cooper. Tinha tido um sonho muito inquietante, da mesma forma que diversas outras pessoas. Algo estava para acontecer. Eles no esperaram
reunir-se para orar. Puseram-se a orar naquele momento onde estavam. Do norte, do sul, do leste e do oeste, de todas as direes, e em silncio, guerreiros celestiais
continuaram a cair na cidade qual flocos de neve, comearam a andar na cidade como gente, esgueirar-se pela cidade como guerrilheiros, deslizar atravs de campos
e pomares cidade adentro como peritos pilotos da selva. Depois se esconderam e esperaram. Hank despertou em torno das 7:00hs. O pesadelo no chegara ao fim. Ainda
se encontrava na cela. Seu novo companheiro de priso continuou a roncar por mais uma hora at que o guarda trouxe o caf matutino. O grandalho nada disse, mas
apanhou o pratinho que foi passado pela grade. No parecia muito excitado com a torrada queimada e os ovos frios. Talvez fosse a hora de quebrar o gelo. -- Bom dia
-- disse Hank. -- Bom dia -- replicou o grandalho com escasso entusiasmo. -- Meu nome  Hank Busche. O homenzarro passou o prato por baixo da porta

para o guarda. No havia tocado na comida. Ficou ali, olhando atravs das grades como um animal enjaulado. No respondeu  apresentao de Hank, nem lhe disse seu
nome. Estava obviamente sofrendo; seus olhos pareciam to anelantes e to vazios. Tudo o que Hank podia fazer era orar por ele. Passo, passo, tropeo, depois outro
passo. A manh toda, atravs de milharais, pastos, densos matagais, Berenice caminhou com dificuldade, dirigindo-se lentamente ao norte num percurso sinuoso mais
ou menos paralelo  Rodovia 27, localizada em algum lugar  esquerda da moa. O som dos veculos que passavam rugindo pela estrada ajudavam-na a manter o rumo. Ela
estava comeando a tropear nos prprios ps, os pensamentos tornando-se apticos. Fileira aps fileira de ps de milho passavam marchando por ela, as grandes folhas
verdes roando contra ela em ritmo constante, quase irritante. A terra lavrada era macia e poeirenta debaixo de seus ps. Entrava nos seus sapatos. Minava a energia
de suas passadas. Aps cruzar o mar de milho, ela chegou a um arvoredo comprido e estreito, um quebra-vento plantado entre os campos. Ela entrou no bosque e logo
encontrou um pedao de cho macio, coberto de grama. Verificou a hora: 8:25 da manh. Precisava descansar. De alguma forma chegaria a Baker... era a nica esperana...
esperava que Marshall estivesse bem... esperava no morrer... estava adormecida. Quando trouxeram o almoo, Hank e seu companheiro de cela estavam um tanto mais
dispostos a comer. Os sanduches no eram ruins e a sopa de carne e legumes estava bem boa.

Antes que o guarda se fosse, Hank pediu: -- Escute, tem certeza de que no poderia me arrumar uma Bblia? -- J lhe disse -- respondeu o guarda rudemente -- estou
esperando autorizao, e enquanto no a receber, nada feito. De sbito, o grande e calado companheiro de cela explodiu: -- Jimmy, voc tem uma pilha de Bblias dos
Gidees na gaveta da sua mesa e sabe disso! Vamos, d uma Bblia ao homem. O guarda apenas zombou dele. -- Ei, voc est do outro lado das grades agora, Hogan. Eu
darei as ordens por aqui! O guarda saiu, e o homenzarro tentou transferir sua ateno ao almoo. No obstante, ergueu os olhos para Hank, e brincou: -- Jimmy Dunlop.
Acha que  um homem de verdade. -- Bem, de qualquer forma, obrigado por tentar. O grandalho puxou um suspiro profundo e disse a seguir: -- Desculpe ter sido mal-educado
a manh toda. Precisava de tempo para recuperar-me de ontem, e precisava de tempo para averiguar quem voc era, e acho que precisava de tempo para me acostumar 
idia de estar na cadeia. -- Posso realmente me identificar com isso. Nunca estive na cadeia antes -- tentou Hank outra vez. Estendeu a mo e disse: -- Hank Busche.
Dessa vez o homem a tomou e apertou-a com

firmeza. -- Marshall Hogan. Foi ento que ambos tiveram um estalo. Antes mesmo que tivessem soltado as mos, entreolharam-se, apontaram um ao outro e ambos comearam
a perguntar: -- Escute, voc no ... ? Em seguida, fitaram-se por um momento e no disseram nada. Os anjos vigiavam, naturalmente, e avisaram Tal. -- Bom, bom --
disse Tal. -- Agora deixaremos os dois conversarem. -- Voc  o pastor da igrejinha branca -- disse Marshall. -- E voc  o redator do jornal, o Clarim -- exclamou
Hank. -- E ento, que cargas d'gua est fazendo aqui? -- No sei se voc conseguiria acreditar. -- Rapaz, voc ficaria pasmado, eu estou pasmado, com o que eu conseguiria
acreditar! -- Marshall abaixou a voz e inclinou-se bem perto ao dizer: -- Disseram-me que voc estava aqui por estupro. -- Isso mesmo. -- Isso  o tipo de coisa
que faria, no? Hank no sabia muito bem o que depreender daquela declarao. -- Bem, no fiz nada disso, entende? -- Alf Brummel no freqenta a sua igreja? --
Sim.

-- J se ops a ele? -- Ah... bem, sim. -- Eu tambm. E  por isso que estou aqui, e  por isso que voc est aqui! Conte-me o que aconteceu. -- Quando? -- Quero
dizer, o que realmente aconteceu? Voc chegou a conhecer essa moa que dizem ter estuprado? -- Bem... -- Onde conseguiu essas marcas de mordidas no brao? Hank estava
ficando em dvida. -- Escute,  melhor eu no dizer nada. -- O nome dela era Carmem? O rosto de Hank disse um sim que foi quase audvel. -- Apenas um palpite. Ela
 realmente uma garota traioeira. Trabalhava para mim e ontem  noite ela me disse que tinha sido estuprada e eu percebi na hora que era mentira. Hank estava completamente
estupefato. -- Isto  demais! Como  que voc sabe de tudo isso? Marshall correu os olhos pela cela e deu de ombros. -- Ora, o que mais temos para fazer? Hank, nem
imagina a histria que tenho para lhe contar! Vai demorar alguns horas. Est disposto? -- Se estiver disposto a ouvir a minha, estou disposto a ouvir a sua. -- Al?
Senhora? Berenice despertou de chofre. Algum se inclinava sobre ela. Era uma mocinha aproximadamente de idade colegial, talvez mais velha, com grandes olhos castanhos

e cabelos negros e encaracolados, vestindo macaco de peitilho, uma perfeita filha de fazendeiro. -- Oh! Ah... oi. -- Foi tudo o que Berenice conseguiu pensar em
dizer. -- A senhora est bem? -- perguntou a mocinha com sotaque descansado e suave. -- Ah, sim. Estava apenas dormindo. Espero que no haja problema. Sa para dar
uma volta, sabe, e... -- Ela se lembrou do rosto machucado. Ora, timo! Agora essa garota vai pensar que fui assaltada ou coisa parecida. -- Est procurando seus
culos escuros? -- perguntou a mocinha, abaixando-se e apanhando-os. Ela os entregou a Berenice. -- Eu.. . ah... acho que est pensando no que aconteceu ao meu rosto.
A mocinha apenas sorriu um sorriso afvel e disse: -- Ora, voc devia ver o meu rosto quando acordo de manh. -- Pelo que vejo, esta  sua propriedade? No tive
a inteno de... -- No, estou apenas de passagem, como voc. Via deitada aqui e achei melhor dar uma espiada. Posso dar-lhe uma carona a algum lugar? Berenice estava
prestes a dizer um no automtico, mas ento olhou o relgio. Oh, no! Quase 4:00hs da tarde. -- Bem, voc por acaso no estaria indo rumo ao norte, estaria? --
Estou indo na direo de Baker. -- Oh, perfeito! Poderia pegar uma carona com

voc? -- Logo depois do almoo. -- O qu? A mocinha saiu do arvoredo rumo  prxima lavoura de milho, e foi ento que Berenice notou uma brilhante motocicleta azul,
estacionada ao sol. A moa enfiou a mo numa bolsa lateral e tirou um saquinho de papel pardo. Voltando, ela colocou o saquinho  frente de Berenice, juntamente
com uma caixinha de leite frio. -- Voc almoa s 4:00 da tarde? -- perguntou Berenice com uma risadinha mais  vontade. -- No -- respondeu a jovem com outra risadinha
-- mas voc vem de longe, e tem uma boa distncia pela frente, e precisa comer alguma coisa. Berenice olhou dentro daqueles olhos castanhos, transparentes e risonhos,
e depois ao saquinho de lanche  sua frente, e pde sentir o rosto avermelhando e os olhos enchendo-se de lgrimas. -- Vamos, coma -- disse a jovem. Berenice abriu
o saquinho de papel e encontrou um sanduche de rosbife que era verdadeiramente uma obra de arte. A carne ainda estava quente, a alface tenra e verde. Debaixo dele
estava uma caixinha de iogurte de amoras, seu sabor favorito, ainda frio ao toque. Ela tentou controlar as emoes, mas comeou a ser sacudida pelo choro, e as lgrimas
escorreram-lhe pelas faces. Oh, estou fazendo papel de boba, pensou. Mas tudo isso era to diferente! -- Desculpe -- disse ela. -- ...  s que estou to comovida
com a sua bondade. A mocinha tocou-lhe a mo. -- Bem, alegro-me por ter podido estar aqui.

-- Qual  o seu nome? -- Pode chamar-me Betsy. -- Sou... bem, pode chamar-me Marie. -- Era o segundo nome de Berenice. --  o que farei. Escute, tenho um pouco de
gua fria tambm, se quiser. L veio outra onda de emoo. -- Voc  uma pessoa maravilhosa. O que est fazendo neste planeta? -- Ajudando voc -- respondeu Betsy,
correndo  motocicleta a fim de apanhar a gua. Hank achava-se sentado na beirada do leito, enlevado com a histria que Marshall contava. -- Voc fala srio? --
reagiu ele subitamente. -- Alf Brummel est envolvido com bruxaria? Um membro do conselho da minha igreja? -- Olhe, d o nome que quiser, mas estou-lhe dizendo,
 espacial! No sei h quanto tempo ele e Langstrat so amigos do peito, mas o suficiente para que a nojenta percepo csmica dela tenha passado para ele a ponto
de torn-lo perigoso, e no pense que estou brincando! -- E ento, quem pertence a esse grupo? -- Quem no pertence? Oliver Young, o juiz Baker, a maioria dos tiras
da polcia local...-- Marshall prosseguiu, dando a Hank apenas um pequeno segmento da lista. Hank estava abismado. Isso tinha de vir do Senhor. Tantas perguntas
que ele tivera por longo tempo estavam finalmente sendo respondidas.

Marshall continuou a falar por cerca de meia hora mais, e ento comeou a perder o embalo. Chegou  parte a respeito de Kate e Sandy. --  essa a parte que mais
di -- disse ele, e ento passou a olhar atravs das grades em vez de nos olhos de Hank. --  outra histria em si, e voc no precisa ouvi-la. Mas bem que a repassei
vez aps vez hoje de manh.  culpa minha, Hank. Eu permiti que acontecesse. Ele puxou um flego l do fundo e enxugou a umidade dos olhos. -- Eu podia ter perdido
tudo: o jornal, a casa, a... a batalha. Podia ter aceito isso se apenas elas estivessem comigo. Mas perdi-as tambm. .. E foi assim que vim parar aqui -- e parou.
Abruptamente. Hank estava chorando. Estava chorando e sorrindo, e elevando as mos a Deus, meneando a cabea em assombro. A Marshall parecia que ele estava tendo
algum tipo de experincia religiosa. -- Marshall -- disse Hank excitado, incapaz de ficar sentado quieto. -- Isso vem de Deus! O fato de estarmos aqui no  acidental.
Nossos inimigos o fizeram por mal, mas Deus o designou para o bem. Ele nos reuniu apenas com o propsito de nos conhecermos, apenas a fim de juntarmos a coisa toda.
Voc ainda no ouviu a minha histria, mas adivinhe s!  a mesma! Ns dois temos defrontado com o mesmssimo problema por dois lados diferentes. -- Conte, conte,
tambm quero chorar! Ento Hank comeou a narrar como subitamente se achara pastor de uma igreja que no parecia quer-lo. A motocicleta de Betsy voou como o vento
pela Rodovia 27, e Berenice segurava-se firme, sentada atrs

dela no macio assento de couro, vendo a paisagem passar. A viagem foi esfuziante; f-la sentir-se como uma criana de novo, e o fato de as duas usarem capacetes
com protetores escuros fez Berenice sentir-se tanto mais a salvo de ser descoberta. Mas Baker se aproximava rapidamente, e com ela os riscos e perigos e a importantssima
questo sobre a possibilidade de Susan Jacobson aparecer ou no. Parte de Berenice queria permanecer na motocicleta com aquela garota doce e amvel e simplesmente
prosseguir a... onde quer que fosse. Qualquer vida tinha de ser melhor do que essa. Os pontos de referncia tornaram-se familiares: o anncio de Coca-Cola, e o grande
lote de lenha  venda. Estavam chegando a Baker. Betsy tirou o p do acelerador e ouviu-se o queixume da mudana para marcha mais lenta. Afinal, ela saiu no acostamento
e seguiu aos solavancos at parar em um estacionamento forrado de pedriscos  frente do velho Hotel Pr-do-Sol. -- Aqui est bom para voc? -- gritou Betsy atravs
do protetor de rosto. Berenice conseguiu vislumbrar o Sempre-Verde logo adiante na estrada. -- Oh, sim, aqui est timo. Ela desceu da moto e fez fora para remover
a correia do capacete. -- Deixe-o mais um pouco -- disse Betsy. -- Para qu? Os olhos de Betsy lhe deram um bom motivo que ela devia reconhecer: uma radiopatrulha
da delegacia de Ashton passava casualmente, diminuindo a marcha ao entrar em Baker. Berenice observou o veculo dar seta  esquerda e entrar no estacionamento da
frente do Bar Sempre-Verde. Dois policiais saram do carro e entraram

no bar. Ela fitou Betsy. A mocinha sabia? No dava essa impresso. Ela apontou um pequeno restaurante ao lado do hotel. -- Aquela  a pequena lanchonete de Rose
Allen. Parece um lugar horrvel, mas ela faz a melhor sopa caseira do mundo e vende barato. Seria um bom lugar para matar o tempo. Berenice removeu o capacete e
colocou-o sobre a moto. -- Betsy -- disse ela -- tenho uma grande dvida para com voc. Muito, muito obrigada. -- De nada --. Mesmo atravs do protetor de rosto
o sorriso dela brilhava alegremente. Berenice olhou na direo do pequeno refeitrio. No, no tinha mesmo cara muito boa. -- A melhor sopa caseira do mundo, ?
Ela se voltou na direo de Betsy e ficou rgida. Por um momento, sentiu que cambalearia para diante como se uma parede  sua frente tivesse subitamente desaparecido.
Betsy se fora. A motocicleta se fora. Era como despertar de um sonho e precisar de tempo para ajustar a mente ao que era real e ao que no era. Mas Berenice sabia
que no fora um sonho. O rasto da motocicleta ainda estava perfeitamente visvel nos pedriscos, vindo do ponto onde havia sado da estrada at o lugar diretamente
 frente de Berenice. Ali terminava. Berenice afastou-se, atordoada e confusa. Ela olhou os dois lados da estrada, mas mesmo enquanto o fazia sabia que no veria
a mocinha de motocicleta. De fato, quando mais alguns segundos se passaram, Berenice percebeu que teria ficado desapontada se a

tivesse enxergado. Teria sido o fim de algo muito belo, algo que jamais havia sentido. Mas precisava sair da estrada, ficou a dizer-se. Sua presena ali chamava
muito a ateno. Ela se forou a deixar o local e se dirigiu s pressas  pequena lanchonete de Rose Allen. O jantar passou pelas grades s 6:00hs. Marshall estava
disposto a comer o frango frito e as cenouras cozidas, mas Hank estava to envolvido com sua histria que Marshall teve de sugerir-lhe que comesse. -- Agora que
estou chegando  parte interessante! -- protestou Hank, e ento perguntou: -- Voc est conseguindo acompanhar tudo isto? -- Muita coisa  novidade para mim -- admitiu
Marshall. -- O que Presbiteriano? foi mesmo que disse que era?

-- Ei, no culpe os presbiterianos. O problema  comigo, s isso, e sempre pensei que fantasmas saam apenas no Dia das Bruxas. -- Bem, voc sempre quis uma explicao
da estranha fora de Langstrat, e de como a Rede podia ter essa grande influncia sobre as pessoas, e o que pode ter realmente estado a atormentar Ted Harmel, e
especialmente quem esses guias espirituais poderiam ser. -- Voc... est-me pedindo que acredite em espritos maus. -- Voc acredita em Deus? -- Sim, acredito que
existe um Deus. -- Voc acredita num diabo?

Marshall teve de pensar um instante. Percebeu que havia passado por uma mudana de opinio ao longo do caminho. -- Eu... bem, sim, acho que acredito. -- Acreditar
em anjos e demnios  simplesmente o passo seguinte.  apenas lgico. Marshall deu de ombros e apanhou uma coxa do frango. -- Continue. Quero ouvir a histria toda.

34
Berenice matou hora e meia na lanchonete de Rose Allen, pedindo um prato fundo de sopa. Betsy tinha razo, era boa. E tomou-a bem devagar. Ficou o tempo todo de
olho em Rose. Puxa, se a mulher fizesse algum movimento na direo do telefone, Berenice cairia fora! Mas Rose no parecia pensar que uma mulher toda machucada em
sua lanchonete fosse algo assim to incomum, e nada aconteceu. Quando as 7:30hs foram-se aproximando, Berenice percebeu que teria de tentar chegar ao encontro marcado
de uma forma ou de outra. Pagou a Rose pela sopa com os trocados que tinha no bolso e saiu. Parecia que a viatura policial que havia parado no Sempre-Verde j se
fora, mas a luz estava ficando escassa e era longe demais para Berenice saber ao certo. Ela teria de averiguar a cada passo. Caminhando todas as direes tocaia,
veculos estacionamento do cuidadosamente, ela ia olhando em  procura de policiais, agentes de suspeitos, qualquer coisa. O Sempre-Verde estava superlotado, o

que provavelmente era tpico de uma noite de sbado. Ela no tirou os culos escuros, mas a no ser por isso tinha a exata aparncia da Berenice Krueger que a polcia
procurava. O que mais podia fazer? Ao aproximar-se do bar, ela olhou aqui e ali  procura de rotas de escape. Descobriu uma trilha que levava ao matagal nos fundos,
mas no tinha a menor idia de seu comprimento e de onde terminava. De modo geral, no parecia haver muitos lugares aos quais correr ou onde se esconder. Os fundos
do Sempre-Verde constituam a parte do prdio  qual ningum dava a mnima importncia; os trs carros velhos, as geladeiras esquecidas, os barris de cerveja amassados
e as pilhas de mesas de superfcies arrebentadas que se enferrujavam ali e as cadeiras totalmente destrudas afastavam-se apenas o suficiente para permitir um estreito
caminho que chegava  porta de trs. Essa porta tambm riscava um arco no linleo. A msica da vitrola automtica rebentou sobre Berenice como uma onda, da mesma
forma que a fumaa de cigarros e o enjoativo cheiro adocicado de cerveja. Ela fechou a porta atrs de si e achou-se numa caverna escura cheia de silhuetas. Cautelosamente,
ela olhou sobre, sob e  volta dos seus culos escuros, tentando ver onde se encontrava e onde todas as outras pessoas se encontravam sem tirar os culos. Tinha
de haver algum lugar para se sentar ali. A maioria das mesas isoladas estavam cheias de madeireiros e suas namoradas. Havia uma cadeira no canto. Ela tomou-a e acomodou-se
para examinar o aposento. Desse lugar ela conseguia vislumbrar a porta da entrada e podia ver quem entrava, mas no conseguia distinguir-lhes as feies. Dan, atrs
do bar, ela reconheceu; ele servia cervejas ao mesmo tempo que

tentava manter as coisas sob certo controle. Os ouvidos da moa atestaram que o jogo de mareia ia a todo vapor, e dois jogos de vdeo contra uma parede distante
apitavam e gorgolejavam, sendo alimentados por fichas. Eram 7:50hs. Ora, apenas ficar sentada ali no ia dar resultado; ela se sentia bvia demais, e simplesmente
no conseguia enxergar. Ela se levantou da cadeira e tentou misturar-se  multido, permanecendo perto das paredes. Ela olhou novamente para Dan. Ele se encontrava
um pouco mais prximo e podia ter estado a olh-la de volta, mas isso ela no sabia. Ele no dava a perceber que a havia reconhecido, ou que ligava, se tivesse.
Berenice tentou encontrar um lugar discreto do qual pudesse examinar as pessoas das mesas da frente. Ela se juntou a um pequeno grupo em torno de um dos jogos de
vdeo. As pessoas na parte da frente ainda eram silhuetas, mas nenhuma delas poderia ter sido Susan. L estava Dan outra vez, inclinando-se por cima de uma mesa
e abaixando ao meio o estore da janela da frente. Algumas pessoas que estavam perto no gostaram, mas ele lhes deu uma explicao qualquer e o deixou assim. Ela
resolveu voltar  sua cadeira e esperar. Refez o caminho de volta ao jogo de mareia, e depois dirigiu-se lentamente para trs das pessoas que se encontravam nos
fundos do aposento. Foi ento que o pensamento a atingiu. J havia visto aquele truque de abaixar o estore em algum filme. Um sinal? Ela voltou a cabea na direo
da frente, e naquele exato momento a porta da frente se abriu. Dois homens uniformizados entraram. Polcia! Um apontou diretamente para ela. Ela se dirigiu to depressa
quanto possvel  porta dos fundos. Nada havia alm de trevas  sua frente. Como  que ela conseguiria mesmo que fosse apenas achar a porta?

Ela ouviu um grito acima do rudo da multido. -- Ei! Detenham essa mulher! Polcia! Voc a! Pare! O pessoal  volta dela comeou a murmurar: -- Quem? Que mulher?
Essa mulher? -- Outra voz saindo da escurido disse: -- Ei, dona, acho que ele est falando com voc! Ela no olhou para trs, mas podia ouvir o arrastar de cadeiras
e ps. Eles estavam vindo atrs dela. Ento ela viu o aviso de sada em luz verde que ficava acima da porta dos fundos. Esquea-se dessa de ficar fria! E disparou
na direo da luz. Pessoas gritavam por toda a parte, vindo em sua ajuda, querendo ver o que estava acontecendo. Atrapalharam os policiais, que comearam a berrar:
-- Para o lado, por favor! Saiam do caminho! Detenham aquela mulher! Ela no conseguia enxergar o trinco ou maaneta ou seja l o que fosse que a porta tivesse.
Na esperana de que tivesse uma barra de abertura automtica, ela jogou o corpo contra a porta. Essa no tinha aquele tipo de abertura automtica, mas ela ouviu
algo quebrar-se e a porta se abriu de qualquer forma. Estava mais claro l fora do que dentro. Ela conseguiu vislumbrar a trilha que cortava toda a tranqueira e
disparou por ela, dando tudo o que tinha, ao mesmo tempo que ouvia a porta dos fundos abrir-se novamente com um baque. A seguir veio o som de passos. Conseguiria
escapar s vistas deles antes que atravessassem toda a tranqueira? Ela arrancou os culos escuros bem a tempo de descobrir a trilha que cortava o mato, do outro
lado da cerca.

 incrvel o que a pessoa consegue fazer quando suficientemente apavorada. Plantando as mos em cima da cerca, Berenice jogou o corpo e, descrevendo um arco, despencou
sobre a moita do outro lado. Sem se deter para congratular-se, ela se deslocou como pde pela trilha que levava ao mato, como um coelho assustado, abaixando-se a
fim de evitar os galhos rasteiros que conseguia ver e levando lambadas no rosto dos que no via. A trilha era macia e clara, e mantinha seus passos quietos e abafados.
Estava mais escuro no mato, e vez por outra ela precisava parar abruptamente a fim de ver onde a trilha continuava. Nessas horas, ela tentava ouvir tambm os seus
perseguidores; ouvia uma espcie de gritaria muito distanciada atrs de si, mas parecia que ningum havia pensado naquela trilha. Havia uma luz adiante. Ela chegou
a uma estrada secundria de pedregulhos, mas hesitou entre as rvores o tempo suficiente para olhar de uma lado para o outro da estrada,  procura de carros, tiras,
qualquer pessoa. A estrada estava silenciosa e deserta. Ela saiu depressa, tentando resolver que rumo tomar. De repente, em uma interseco logo adiante na estrada,
um carro apareceu, entrou na estrada e veio em sua direo. Eles a haviam visto! Nada mais podia fazer a no ser continuar correndo! Seus pulmes arfavam, o corao
doa e parecia que ia esborrachar-se de tanto bater, as pernas pesavam como se fossem de chumbo. No podia deixar de emitir gritos de angstia e medo a cada exalao
ao atravessar na disparada um campo, dirigindo-se a um aglomerado de construes  distncia. Ela olhou para trs. Um vulto a seguia, correndo velozmente em encarniada
perseguio. No! No! Por favor, no me persiga, deixeme escapar! No posso continuar assim! Os prdios estavam cada vez mais prximos.

Parecia uma velha fazenda. Ela j no pensava, apenas corria. No conseguia enxergar; seus olhos estavam agora duplamente anuviados por lgrimas. Ela respirava com
dificuldade, a boca seca, a dor das costelas disparando acima e abaixo em todo o lado. A grama lhe vergastava as pernas, quase fazendo-a tropear a cada passo. Ela
podia ouvir as passadas de quem a perseguia zunindo pela grama no muito longe. Oh, Deus, ajudame! Adiante encontrava-se um prdio grande e escuro, um estbulo.
Ela se dirigiria para l e tentaria esconderse. Se a encontrassem, pacincia. No agentava continuar correndo. Tropeando, arrastando-se, ela puxou um p aps o
outro  volta de uma ponta do prdio e encontrou uma grande porta de correr meio aberta. Praticamente caiu porta adentro. No interior, achou-se na mais negra escurido.
Nessa hora, de nada lhe serviam os olhos. Ela se adiantou aos tropees, os braos estendidos  frente. Seus ps se arrastavam no meio da palha. Os braos davam
encontres contra as vigas. Uma baia. Ela continuou. Outra baia. Podia ouvir as passadas virando o canto e entrando pela porta. Ela se jogou para dentro de uma baia
e tentou abafar seu arquejar. Estava a ponto de desmaiar. As passadas tornaram-se mais lentas. O perseguidor estava encontrando a mesma escurido e tateando em busca
da passagem. Mas estava cada vez mais perto. Berenice afundou-se mais ainda na baia, perguntando-se se haveria alguma forma de se esconder. Sua mo encontrou uma
espcie de ala. Ela apalpou um cabo. Um forcado. Ela o tomou nas mos. Teria coragem de usar aquela coisa a sangue frio?

Os passos adiantavam-se metodicamente; o perseguidor estava examinando cada baia, atravessando o estbulo. Berenice via um raiozinho de luz rebuscando aqui e ali.
Ela ergueu bem alto o forcado enquanto a costela quebrada a castigava em protesto. Vai-se arrepender bastante por ter-me seguido, pensou ela. Estava jogando pelas
leis da selva a esta altura. Os passos estavam muito prximos agora. O raiozinho de luz estava logo ao lado da abertura. Ela estava pronta. A luz brilhou em seus
olhos. Uma exclamao abafada. Vamos, Berenice! Jogue o forcado! Seus braos no se moveram. -- Berenice Krueger? -- perguntou um voz abafada, de mulher. Berenice
no se moveu. Segurando alto o forcado, ainda arquejante, o pequenino facho de luz iluminando seus olhos transtornados, enegrecidos, e seu rosto apavorado. Fosse
quem fosse, a pessoa abruptamente ao dar com ela e sussurrou: -- Berenice, no! No atire isso! Essas palavras fizeram com que Berenice sentisse recrudescer o desejo
de atirar aquela coisa. Estava choramingando e arquejando, tentando forar os braos a agirem. Eles no o fizeram. -- Berenice -- veio a voz --  Susan Jacobson!
Estou sozinha! Ainda assim Berenice no abaixou o forcado. Por um momento ela ultrapassara os limites da racionalidade, e palavras nada significavam. -- Est-me
ouvindo? -- veio a voz. -- Por favor, abaixe o forcado. No a machucarei. No sou da polcia, prometo. -- Quem  voc? -- perguntou Berenice por fim, a voz arquejante
e trmula. afastou-se

-- Susan Jacobson, Berenice --. Ela repetiu lentamente. -- Susan Jacobson, a antiga companheira de quarto da sua irm Pat. Tnhamos um encontro marcado. Foi como
se Berenice subitamente se recobrasse de uma alucinao ou de um pesadelo. O nome enfim penetrou-lhe a mente e a despertou. -- Voc... -- arquejou ela. -- Tem de
ser uma piada! -- No . Sou eu. Susan dirigiu o facho da pequena lanterna ao prprio rosto. Os cabelos negros e a tez plida eram inconfundveis, embora as roupas
pretas tivessem sido substitudas por calas de brim e uma jaqueta azul. Berenice abaixou o forcado. Depois largou-o e emitiu um gemido abafado, tapando a boca com
a mo. Percebeu de repente que estava sofrendo dor excruciante. Caiu de joelhos sobre a palha, os braos em torno das costelas. -- Voc est bem? -- perguntou Susan.
-- Apague essa luz antes que eles a vejam -- foi tudo o que Berenice disse. A luz apagou-se. Berenice podia sentir a mo de Susan tocando-a. -- Voc est machucada!
-- disse Susan. -- Eu... tento manter tudo em perspectiva -- arquejou Berenice. -- Ainda estou viva, encontrei viva a verdadeira Susan Jacobson, no precisei matar
ningum, a polcia no me encontrou... e estou com uma costela quebrada! Oooooo... Susan colocou os braos em torno de Berenice com o propsito de confort-la. --
De leve, de leve! -- acautelou Berenice. -- Afinal

de contas, de onde  que voc surgiu? Como me encontrou? -- Eu estava vigiando o bar do outro lado da rua, esperando para ver se voc ou Kevin apareceriam. Vi a
polcia entrar e voc sair correndo pelos fundos, e percebi imediatamente que era voc. A turminha da faculdade costumava vir sempre aqui, por isso eu conhecia a
trilha que voc tomou, e sabia que ia dar naquela estrada l. Dei a volta com o carro, pensando em cortar-lhe o caminho e faz-la entrar no carro comigo, mas voc
estava muito adiante e saiu correndo. Berenice deixou a cabea pender um pouco. Sentiu o afluxo das emoes novamente. -- Eu costumava pensar que jamais havia visto
um milagre, mas j no tenho tanta certeza. Hank terminou a sua histria e, incitado por Marshall, havia dado cabo da maior parte do jantar. Marshall comeou a fazer
perguntas, s quais Hank respondia com o conhecimento que tinha das Escrituras. -- Ento -- disse Marshall, cismando -- quando os Evangelhos falam a respeito de
Jesus e seus discpulos expulsarem espritos imundos, era o que estavam realmente fazendo? -- Era o que estavam realmente fazendo -- respondeu Hank. Marshall reclinou-se
contra as grades e continuou a pensar. -- Isso verdadeiramente explicaria uma poro de coisas. Mas e Sandy? Voc acha que ela... que ela est...? -- No sei ao
certo, mas poderia estar. -- A pessoa com quem falei ontem... no era ela.

Ela estava acreditado.

simplesmente

doida;

voc

no

teria

-- Ele percebeu o que dissera. -- Ah, pensando melhor, acho que provavelmente acreditaria. Hank estava excitado. -- Mas voc no percebe o que aconteceu?  um milagre
de Deus, Marshall. Todo esse tempo, voc estava examinando essa chantagem e tramia, e sem entender como essas coisas podiam estar acontecendo com tamanha facilidade
e fora, especialmente na vida particular de tantas pessoas. Ora, agora voc j tem o seu "como". E agora que me contou o que descobriu e tudo por que passou, eu
tenho o meu "por qu". Todo este tempo tenho encontrado poderes demonacos nesta cidade, mas nunca realmente descobri o que estavam tramando. Agora sei. A nossa
reunio tem de ser coisa do Senhor. Marshall deu a Hank um sorriso torto. -- E ento, aonde isso nos leva, Pregador? Eles nos trancafiaram, no nos permitiram comunicar
de forma alguma com nossas famlias, amigos, advogados, ou ningum. Tenho a impresso de que nossos direitos constitucionais no vo valer muita coisa na atual conjuntura.
Agora foi a vez de Hank reclinar-se contra a velha parede de concreto e pensar. -- Essa parte  s Deus quem sabe. Mas tenho uma impresso muito forte de que ele
nos meteu nesta, e que ele tem tambm um plano para tirar-nos daqui. -- Se vamos falar de impresses fortes -- volveu Marshall -- tenho a impresso muito forte de
que eles apenas nos querem fora do caminho enquanto terminam de uma vez por todas o que comearam. Ser interessante ver o que sobrar da cidade, do nosso

trabalho, das nossas casas, das nossas famlias, e de tudo o mais que prezamos quando sairmos daqui. Se sairmos daqui. -- Bem, tenha f. Deus  quem est controlando
esta situao. -- Sim, apenas espero que ele no tenha pisado na bola. As duas mulheres permaneciam sentadas na palha, no escuro, enquanto Berenice tentava explicar
tudo a Susan: o rosto machucado, a costela quebrada, o que acontecera a ela e a Marshall, e a morte de Kevin Weed. Susan digeriu tudo aquilo por um momento, e depois
disse: --  o modo de Kaseph agir.  o modo como a Sociedade opera. Eu deveria ter percebido que no podia meter Kevin nesta coisa. -- No... no se culpe. Estamos
todos juntos nisso, quer queiramos, quer no. Susan forou-se a ser indiferente e calculista. -- Voc tem razo... pelo menos por enquanto. Algum dia em breve me
sentarei e realmente pensarei a esse respeito, e chorarei por aquele homem --. Ela se ergueu. -- Mas neste exato momento h muito o que fazer e muito pouco tempo
para faz-lo. Voc consegue andar? -- No, mas isso no me deteve at agora. -- Meu carro  de aluguel, e tenho um nmero muito grande de papis importantes nele
para deix-lo l fora. Venha. Com passos cuidadosos e quietos, escolhendo bem onde punham os ps, Susan e Berenice chegaram 

grande porta do estbulo. O silncio reinava l fora. -- Quer arriscar uma corrida? -- perguntou Susan. -- Claro -- disse Berenice -- vamos. Elas correram de volta
atravs do vasto campo rumo  estrada onde Susan havia deixado o carro, usando para guiar-se uma rvore que se projetava contra o cu estrelado. Ao atravessarem
outra vez o campo, Berenice notou como a corrida parecia muito mais curta agora que no corria para salvar a vida. Susan guiou-a ao lugar em que o carro se encontrava
estacionado. Ela o havia dirigido para fora da estrada um pouco e aninhado debaixo de algumas rvores. Pondo-se a remexer os bolsos, ela procurava as chaves. --
Susan! -- disse uma voz do meio das rvores. As duas se imobilizaram. -- Susan Jacobson? -- veio a voz outra vez. Susan murmurou, excitada. -- No posso acreditar!
Berenice respondeu: -- Eu tambm no! -- Kevin? Alguns arbustos comearam a se mexer e a farfalhar, e ento um homem saiu do mato. No havia engano possvel quanto
ao porte desengonado e o andar arrastado. -- Kevin Weed? -- precisou perguntar Berenice mais uma vez. -- Berenice Krueger! -- disse Kevin. -- Voc conseguiu! Ah,
mas que timo! Aps um breve momento de pasmo e surpresa, os

abraos vieram automaticamente. -- Vamos cair fora daqui -- disse Susan. Eles se amontoaram no carro e colocaram alguns quilmetros entre si e Baker. -- Tenho um
quarto num hotel em Orting, ao norte de Windsor -- disse Susan. -- Podemos ir para l. Berenice e Kevin no tinham objees. Berenice disse muito alegre: -- Kevin,
acabou de me fazer passar mentirosa! Eu tinha certeza de que estava morto. por

-- Estou vivo por enquanto -- disse Kevin, no parecendo muito certo quanto a coisa alguma. -- Mas a sua caminhonete caiu no rio! -- , eu sei. Um idiota a roubou
e teve um terrvel acidente. Algum estava tentando me matar. Ele percebeu que no estava falando coisa com coisa, por isso comeou outra vez. -- Olhe, eu estava
a caminho da ponte a fim de nos encontrarmos, como voc havia dito. Parei no Sempre-Verde para tomar uns tragos, e aposto que algum cara me passou uma pingada...
sabe, colocou alguma coisa na minha cerveja. Quero dizer, fiquei alto mesmo. -- Estava indo pela estrada a fim de encontrar voc, e comecei a realmente a entrar
em rbita, por isso entrei numa lanchonete de caminhoneiros para vomitar ou tomar um gole d'gua ou usar o banheiro ou alguma coisa. Peguei no sono no banheiro masculino,
e devo ter dormido a noite toda. Acordei hoje cedo e sa no estacionamento e minha caminhonete no estava mais l. No sabia o que havia acontecido com ela at que
li a respeito no jornal. Ainda devem estar dragando o rio  procura do meu cadver.

--  bvio que fomos todos marcados por Kaseph e sua Rede -- disse Susan -- mas... acho que algum est cuidando de ns. Kevin, algo muito parecido aconteceu comigo:
fugi do stio de Kaseph a p, e a nica razo pela qual escapei foi que o pessoal da segurana saiu atrs de outra pessoa que estava tentando escapar em um dos ca
minhes de mudana. Ora, quem em perfeito juzo tentaria uma coisa dessas naquele exato momento? Berenice acrescentou: -- E ainda no consegui descobrir quem neste
vasto mundo era Betsy. Havia dias que Susan vinha formulando uma teoria. -- Acho que  melhor comearmos a pensar em Deus. -- Deus? -- E anjos -- acrescentou Susan.
Ela relatou rapidamente os detalhes do seu escape, e concluiu: -- Escutem, algum entrou naquele quarto. Tenho certeza. Kevin arriscou: -- Ei, talvez tenha sido
um anjo quem roubou minha caminhonete. Ento Berenice lembrou-se: -- Sabem, havia algo a respeito de Betsy que simplesmente me fez chorar. Jamais encontrei algo
parecido antes. Susan tocou-lhe a mo. -- Bem, parece que todos ns estamos encontrando algo, por isso, no importa o que faamos,  melhor prestarmos ateno. O
carro continuou a percorrer velozmente as estradas secundrias, chegando ao pequeno balnerio de Orting por um caminho um tanto indireto.

Como dois companheiros de armas, Marshall e Hank estavam comeando a achar que se conheciam desde criana. -- Gosto do seu tipo de f -- disse Marshall. -- No admira
que eles tenham feito tanta fora para tir-lo da igreja --. Ele deu uma risadinha. -- Puxa, voc deve sentir-se como se estivesse totalmente isolado! Voc  a nica
coisa que separa o diabo do resto da cidade. Hank deu um sorriso fraco. -- No sou grande coisa, acredite. Mas no sou o nico. H santos por a, Marshall, gente
orando por ns. Mais cedo ou mais tarde, algo ceder. Deus no permitir que Satans se aposse desta cidade com tanta facilidade. Marshall apontou o dedo para Hank,
chegando at a sacudi-lo um pouco. -- Est vendo s? Gosto desse tipo de f. Bem direta, arriscando tudo --. Ele meneou a cabea. -- Puxa vida! Quanto tempo faz
que algum a apresentou dessa maneira! Hank temperou as palavras com sal, mas sabia que havia chegado a hora de falar. -- Marshall, j que estamos falando to diretamente
aqui, arriscando tudo, que me diz de falarmos sobre voc? Sabe, pode haver outras razes pelas quais Deus nos colocou juntos nesta cela. Marshall no se mostrou
nada defensivo, mas sorridente e disposto a ouvir. -- O que vamos fazer, falar do destino da minha alma eterna? Hank devolveu-lhe o sorriso. --  exatamente disso
que vamos falar. Falaram a respeito do pecado, a tendncia exasperante e destrutiva que o homem tem de afastar-se

de Deus e escolher o seu caminho, sempre em prejuzo prprio. Isso os levou outra vez de volta  famlia de Marshall, e como tantas das atitudes e aes eram resultado
direto da vontade prpria bsica e humana e da rebeldia contra Deus. Marshall meneou a cabea ao ver as coisas por esse prisma. -- Olhe, nossa famlia nunca conheceu
a Deus. Era apenas uma representao. No admira Sandy no aceitar nada daquilo! Ento Hank falou de Jesus, e mostrou a Marshall que esse Homem cujo nome era jogado
para c e para l com tanta displicncia, e mesmo pisoteado no mundo, era muito mais do que um smbolo religioso, uma personalidade remota e intocvel num vitral
colorido. Era o real, vivo e pessoal Filho de Deus, e se dispunha a ser o Senhor e Salvador pessoal de qualquer pessoa que lhe pedisse. -- Jamais pensei que estaria
deitado aqui ouvindo isto -- disse Marshall subitamente. -- Voc realmente est-me acertando onde di, sabia? -- Bem -- disse Hank -- por que voc acha que aconteceu
assim? De onde vem a dor? Marshall respirou fundo e tomou algum tempo para pensar. -- Acho que de saber que voc est certo, o que significa que estive errado por
longo, longo tempo. -- Jesus o ama mesmo assim. Ele sabe que  esse o seu problema, e foi por isso que morreu. -- Sim... certo!

35
O hotel em Orting era simptico, extico, caseiro, exatamente como o resto dessa cidade situada ao longo do rio Judd, na fronteira da floresta nacional. Era uma
hospedaria para esportistas, construdo e decorado em agradvel tema de caa e pesca, de passeio nos bosques. Susan no queria encrencas ou ateno, portanto pagou
para ter mais dois ocupantes no quarto aquela noite. Eles se dirigiram ao aposento e abaixaram os estores. Todos deram uma passada pelo banheiro, mas Berenice ficou
l um pouco mais, cuidadosamente enrolando de novo as faixas em torno das costelas e a seguir lavando o rosto. Mirou-se ao espelho e tocou os machucados muito de
leve, assobiando com o que viu. S poderia melhorar dali em diante. Entrementes, Susan havia jogado a grande mala sobre a cama e a havia aberto. Quando Berenice
finalmente saiu, Susan tirou um livrinho da mala e entregou-lhe. -- Foi aqui que tudo comeou -- disse ela. --  o dirio de sua irm. Berenice no sabia o que dizer.
Um brilhante no teria constitudo tesouro maior. Pde apenas baixar os olhos ao pequeno dirio azul, o ltimo elo restante a lig-la  irm morta, e a luta para
acreditar que ele realmente ali se encontrava. -- Onde... como conseguiu isto? -- Juleen Langstrat assegurou-se de que ningum o visse. Fez com que fosse roubado
do quarto de Pat e deu-o a Kaseph, de quem eu roubei. Tornei-me a garota de Kaseph, como sabe; sua Serva, como ele dizia. Tinha acesso regular a ele o tempo todo,
e ele confiava em mim. Encontrei o dirio por acaso certo dia quando

arrumava o seu escritrio, e reconheci-o imediatamente pois costumava ver Pat escrever nele quase todas as noites no nosso quarto do dormitrio. Tirei-o s escondidas,
li-o, e ele me despertou. Eu achava que Alexander Kaseph era... bem, o Messias, a resposta para toda a humanidade, um verdadeiro profeta da paz e da fraternidade
universais... Susan fez ar de quem estava ficando enjoada. -- Oh, ele me encheu a cabea com todo esse tipo de conversa, mas em algum lugar dentro de mim sempre
tive minhas dvidas. Esse livrinho a disse-me que desse ouvido s dvidas e no a ele. Berenice folheou as pginas do dirio. Datava de alguns anos atrs, e parecia
muito detalhado. Susan continuou: -- Voc pode no querer ler neste exato momento. Quando li esse dirio... bem, fiquei nauseada durante dias. Berenice queria o
fim da histria. -- Susan, voc sabe como minha irm realmente morreu? Susan disse enraivecida: -- Sua irm Pat foi metdica e selvagemente destruda pela Sociedade
da Percepo Universal, ou eu deveria dizer pelas foras por trs da sociedade. Ela cometeu o mesmo erro fatal que vi tantos outros cometerem: descobriu muita coisa
a respeito da Sociedade, demonstrou ser inimiga de Alexander Kaseph. Escute, o que Kaseph quer, ele consegue, e no se importa com quem tenha de ser destrudo, assassinado
ou mutilado para garantir isso --. Ela meneou a cabea. -- Eu tinha de estar cega para no ver o que estava acontecendo com Pat. Era exatamente o que deveria esperar!

-- E que me diz de um homem chamado Thomas? Susan respondeu diretamente: -- Sim, foi Thomas. Ele foi o responsvel pela morte de Pat --. Em seguida, enigmaticamente:
ela acrescentou um tanto

-- Mas ele no era homem. Berenice estava aos poucos comeando a entender esse novo jogo com suas regras muito esquisitas. -- E agora vai me dizer que tambm no
era mulher. -- Pat tinha um curso de psicologia, e um dos requerimentos era o de que ela participasse de um grupo de "cobaias" para experincias psicolgicas...
est no dirio, ler tudo. Um amigo persuadiu-a a participar de uma experincia que envolvia tcnicas de descontrao, e foi durante essa experincia que ela teve
o que chamou de experincia psquica, certo tipo de percepo de um mundo superior, como ela disse. -- Serei breve; pode ler tudo isso por si mesma depois. Ela se
apaixonou profundamente pela experincia e no via ligao alguma entre essa explorao "cientfica" e as prticas "msticas" de que eu estava participando. Ela
voltou freqentemente, continuou a tomar parte nas experincias, e por fim entrou em contato com aquilo que chamou de "ser humano altamente evoludo e desencarnado"
de outra dimenso, um ser muito sbio e inteligente chamado Thomas. Berenice achou difcil aceitar o que estava ouvindo, mas segurava a documentao do relato de
Susan, o dirio da irm. -- Ento, quem era realmente esse Thomas? Apenas inveno dela?

-- H coisas que simplesmente ter de aceitar por enquanto replicou Susan com um suspiro. -- Falamos de Deus, brincamos com a idia de anjos; tentemos agora anjos
malignos, entidades espirituais malignas. Para os cientistas ateus, eles poderiam aparecer como seres extraterrenos, geralmente em suas prprias naves espaciais;
aos evolucionistas, podem alegar serem seres altamente evoludos; aos solitrios, podem aparecer como parentes h muito mortos, falando de alm tmulo; psiclogos
jungianos consideram-nos "imagens arqutipas" desenterradas do consciente coletivo da raa humana. -- O qu? -- Ei, escute, qualquer descrio ou definio serve,
qualquer que seja o formato, qualquer que seja a aparncia necessria para conquistar a confiana da pessoa e apelar  sua vaidade, essa  a aparncia que eles tomam.
E dizem  iludida pessoa que busca a verdade o que ela quiser ouvir at terem completo domnio sobre ela. -- Como um conto do vigrio, em outras palavras. --  tudo
um conto do vigrio: meditao oriental, bruxaria, feitiaria, Cincia da Mente, cura psquica, educao integralizada... oh, a lista no tem fim,  tudo a mesma
coisa, nada mais que uma tapeao para tomar a mente e o esprito das pessoas, e at seus corpos. Berenice repassou lembrana aps lembrana de sua investigao,
e as alegaes de Susan encaixavamse direitinho. Susan continuou: -- Berenice, estamos lidando com uma conspirao de entidades espirituais. Eu sei. Kaseph est
envolvido com muitas dessas entidades e recebe ordens delas. Elas fazem o trabalho sujo dele. Se algum

se mete no caminho dele, ele dispe de inmeros recursos no mundo espiritual para desvencilhar-se do problema da maneira que seja mais conveniente. Ted Harmel, pensou
Berenice. Os Carluccis. Quantos outros? -- Voc no  a primeira pessoa que me diz isso. -- Espero ser a ltima que ter de faz-lo. Kevin fez-se ouvir. -- Sim,
lembro-me de como Pat falava em Thomas. Ele nunca dava a impresso de ser humano. Ela agia mais como se ele fosse um deus. Tinha de consult-lo antes mesmo de resolver
o que comer no caf da manh. Eu... eu achei que ela tinha arranjado um namorado, sabe, algum tipo macho chauvinista. Susan histria. entrou suavemente no arremate
da

-- Pat havia entregue a vontade a Thomas. No demorou muito; geralmente no demora, uma vez que a pessoa realmente se submeta  influncia de um esprito. Sem dvida
ele passou a control-la, depois a aterroriz-la, depois convenceu-a de que... bem, os hindus chamam isso de carma;  a iluso de que sua prxima vida ser melhor
que esta porque voc fez um nmero suficiente de pontos. No caso de Pat, uma morte auto-infligida nada mais seria do que a forma de escapar ao mal deste mundo inferior
e juntar-se a Thomas num estado superior de existncia. Susan folheou delicadamente as pginas do dirio que ainda se encontrava nas mos de Berenice, e encontrou
o ltima anotao. -- A est. A ltima coisa no dirio de Pat  uma carta de amor a Thomas. Ela planejava juntar-se a ele em breve, e chega a mencionar como far
isso. A idia de ler essa carta repelia Berenice, mas ela

ps-se a repassar as ltimas pginas do dirio da irm. Pat escrevera no estilo de algum que estivesse sob uma iluso muito estranha que soava grandiosa, mas ficava
patente que ela tambm estava desorientada por um medo irracional da prpria vida. Terrvel sofrimento e angstia espiritual haviam tomado conta de sua alma, transformando-a
da despreocupada Patrcia Krueger com quem Berenice havia sido criada em uma psictica aterrorizada, sem rumo, totalmente desligada da realidade. Berenice tentou
continuar a leitura, mas comeou a sentir antigas mgoas reabrindo-se; emoes que haviam esperado por esse exato momento de revelao final explodiram de seus esconderijos
como um rio atravs da comporta aberta. As palavras rabiscadas e errantes nas pginas borraram atrs de sbita cascata de lgrimas, e todo o seu corpo foi sacudido
por soluos. Tudo o que ela queria fazer era excluir o mundo, no dar ateno a essa mulher galante e a esse pobre madeireiro desgrenhado, deitar-se na cama, e chorar.
E foi o que fez. Hank dormia tranqilamente em seu leito na cela. Marshall no conseguia pegar no sono. Achava-se sentado no escuro, as costas de encontro s grades
frias e duras da cela, a cabea pendida, a mo dando voltinhas nervosas em torno do rosto. Ele havia levado chumbo nas entranhas. Essa era a impresso que tinha.
Nalgum canto, ele havia perdido a proteo do seu escudo, a fora, a fachada forte e durona. Sempre havia sido Marshall Hogan, o caador, o perseguidor, o que conseguia
tudo o que queria com a atitude de saia-da-minha-frente, um inimigo que no podia ser subestimado, um cara que se virava sozinho. Um estafermo, isso  o que era,
e nada mais que um tolo. Esse Hank Busche tinha razo. Olhe para voc,

Hogan. No se preocupe com Deus pisar na bola; voc j pisou h muito tempo. Deu com os burros na gua, cara. Achou que tinha tudo sob controle, e agora onde est
a sua famlia, e onde est voc? Talvez tenha cado na esparrela desses demnios de quem Hank esteve falando, mas pode ser tambm que tenha cado na sua prpria
esparrela. Convenhamos, Marshall, que sabe por que lesou a sua famlia. Pura negligncia, a mesma velha histria. E gostou de trabalhar com a sua reprter bonita,
no gostou? Provocando-a, ati-rando-lhe bolinhas de papel, ora essa! Quantos anos tem, dezesseis? Marshall deixou que a mente e o corao lhe dissessem a verdade,
e sentiu que muito do que falaram j era do seu conhecimento em algum lugar mas ele nunca havia escutado. Por quanto tempo, comeou a perguntar-se, tinha mentido
para si mesmo? -- Kate -- sussurrou ali no escuro, os olhos brilhantes de lgrimas. -- Kate, o que foi que fiz? Uma grande mo atravessou a cela e tocou o ombro
de Hank. Hank mexeu-se, abriu os olhos e disse baixinho: -- Sim, o que ? Marshall chorava e disse em voz muito baixa: -- Hank, no presto. Preciso de Deus. Preciso
de Jesus. Quantas vezes na vida havia Hank dito as palavras "Vamos orar." Depois que diversos minutos se haviam passado, Berenice comeou a sentir o dilvio amainar.
Ela se sentou, ainda fungando, mas tentado retornar ao negcio diante deles. -- Foi o que me despertou -- reiterou Susan. -- Achei que esses seres eram benevolentes;
achei que Kaseph tinha todas as respostas. Mas vi a todos como

realmente eram ao ler o que fizeram com a minha melhor amiga, Sua irm. Kevin perguntou: -- Ento foi por isso que voc me procurou no parque de diverses e pediu
o meu nmero? -- Kaseph tinha uma reunio especial na cidade com Langstrat e outros conspiradores vitais, Oliver Young e Alf Brummel. Eu fui a Ashton com Kaseph,
acompanhando-o como sempre, mas quando tive a oportunidade, escapuli. Tinha de aproveitar a chance de talvez encontr-lo em algum lugar. Talvez tenha sido Deus outra
vez; foi nada menos que milagroso o fato de ter encontrado voc no parque. Eu precisava de um amigo no lado de fora em quem eu pudesse confiar, algum obscuro. Kevin
sorriu. -- , essa descrio me assenta muito bem. Susan continuou: -- Kaseph nunca gostou de sentir que no tinha controle absoluto sobre mim. Quando desapareci
de vista no parque, ele provavelmente disse aos outros que fora ele quem me enviara l e que eles se encontrariam comigo. Quando ele me encontrou e me arrastou atrs
daquela barraca idiota, falou aos outros como se eu tivesse ido  frente e escolhido aquele lugar. Berenice disse: -- E foi nessa hora que apareci e tirei a foto
de vocs! -- E Alf Brummel passou umas notas quelas duas prostitutas e algumas instrues a alguns de seus amigos de Windsor, e voc sabe o resto. Susan dirigiu-se
 mala. -- Mas vamos agora  notcia realmente

importante. Kaseph far a sua jogada amanh. H uma reunio especial marcada com os membros do conselho diretor da Faculdade Whitmore para as 14:00hs. A Omni S.A.,
como uma frente da Sociedade da Percepo Universal, tem planos de comprar a Faculdade Whitmore, e Kaseph vai fechar o negcio. Os olhos de Berenice se escancararam
de horror. -- Ento tnhamos razo! Ele quer-se apoderar da faculdade! --  boa estratgia. A cidade inteira de Ashton est praticamente construda em torno da faculdade.
Uma vez que a Sociedade e Kaseph se estabeleam em Whitmore, exercero influncia avassaladora sobre o resto da cidade. O pessoal da Sociedade afluir ali como um
enxame e Ashton se tornar outra "Cidade Sagrada da Mente Universal". J aconteceu um nmero suficiente de vezes antes, em outras cidades, em outros pases. Berenice
deu um soco na cama em frustrao. -- Susan, temos os registros das transaes financeiras de Eugene Baylor, prova que poderia mostrar como a faculdade foi arruinada.
Mas no conseguimos entender nada daquilo! Susan tirou uma latinha da mala. -- Na realidade, vocs s tm metade do quadro. Baylor no  nenhum bobo; sabia que teria
de esconder o que fazia de forma que seu desfalque em favor da Omni no fosse percebido. Voc precisa  da outra metade das transaes: os registros do prprio Kaseph
--. Ela estendeu a latinha para que eles vissem. -- Eu no tinha espao para todo o material. No obstante, fotografei-o, e se pudssemos revelar este filme... --
Temos um quarto escuro Poderamos fazer as fotos imediatamente. no Clarim.

-- Vamos sair daqui. Eles andaram depressa. O Remanescente continuava orando. Nenhum deles tinha podido ver ou mesmo receber notcias de Hank desde que fora preso.
A delegacia estava o tempo todo nas mos de policiais estranhos que ningum jamais vira em Ashton antes, e nenhum deles sabia coisa alguma a respeito de como visitar
algum na cadeia, ou como pagar-lhes a fiana, nem permitiam que se tentasse descobrir como fazer isso. Parecia que Ashton se havia tornado um estado totalitrio.
Medo, raiva e orao aumentaram. Algo terrvel estava acontecendo  cidade, e todos eles sabiam disso vividamente, mas o que podia ser feito numa cidade cujas autoridades
estavam surdas, em um municpio cujos gabinetes estavam fechados para o fim-de-semana? As linhas telefnicas continuavam zumbindo, tanto dentro da cidade quanto
em chamadas interurbanas a parentes e amigos, e todos esses caram de joelhos em intercesso e ligaram para suas prprias autoridades e legisladores. Alf Brummel
manteve-se afastado do seu gabinete, evitando assim algum cristo aborrecido que lhe viesse com sermes acerca dos direitos constitucionais do seu pastor, ou do
dever de um funcionrio pblico de fazer a vontade do povo, ou qualquer outra coisa. Permaneceu no apartamento de Langstrat andando de um lado a outro, preocupado,
suando, esperando as 14:00 horas do domingo. Vov Duster continuava a orar e a assegurar a todos que Deus tinha tudo sob controle. Lembrou-lhes do que os anjos lhe
haviam dito, e a seguir relembrou-os daquilo com que eles haviam sonhado, ou ouvido em pensamento enquanto oravam, ou visto numa viso, ou

sentido em seus espritos. E eles continuavam a orar pela cidade. E por toda a parte, de todas as direes, novos visitantes continuavam a chegar a Ashton, transportados
em caminhes de feno ou passando-os na estrada, pedindo carona como fazem excursionistas no vero, deslizando pelos milharais e a seguir pelas ruas secundrias,
rugindo cidade adentro como motoqueiros doidos, chegando agarradinhos como colegiais, escondidos em porta-malas e debaixo do bojo de todo o veculo que passava pela
Rodovia 27. E continuamente os escaninhos, as frestas, os aposentos que ningum usava, e incontveis esconderijos alm desses em toda a cidade ficaram repletos de
vultos quietos, calados, as mos robustas nas espadas, os olhos dourados penetrantes e alertas, os ouvidos sintonizados a um som especfico de uma trombeta especfica.
Acima da cidade, escondido nas rvores, Tal ainda podia olhar do outro lado do vasto vale e ver Rafar na grande rvore morta, supervisionando as atividades de seus
demnios. Capito Tal continuava a vigiar e esperar. No vale remoto, uma nuvem rapidamente crescente de espritos demonacos se revolvia em raio de uns trs quilmetros
em redor da fazenda, elevando-se  altura dos picos das montanhas. Era impossvel contar o seu nmero, sua densidade era tal que a nuvem obscurecia por completo
qualquer coisa que envolvesse. Os espritos danavam e sibilavam como desordeiros bbados, abanando as espadas, endoidecidos e babando, os olhos selvagens de loucura.
Mirades deles saam aos pares, combatendo, atacando e defendendo, testando a habilidade um do outro.

No escurecido centro da nuvem, no casaro de pedra, sentava-se o Valente com olhos meio fechados e um risinho torto que tornava mais profundas as dobras de sua grande
cara flcida. Na companhia de seus generais, ele tirou tempo para vangloriar-se com as notcias que havia acabado de receber de Ashton. -- O Prncipe Rafar satisfez
a meus desejos, cumpriu sua misso -- disse o Valente, pondo  mostra em seguida as presas de marfim em um sorriso baboso. -- Vou gostar daquela cidadezinha. Em
minhas mos, ela crescer como uma rvore e encher os campos. Ele saboreou seu prximo pensamento: -- Pode ser que jamais tenha de deslocar-me daquele lugar. O
que acham? Teremos nosso lar enfim? Os altos e odiosos generais murmuraram todos afirmativamente. O Valente ergueu-se do seu assento, e os outros puseram-se de chofre
em rgida e aprumada posio de sentido. -- O nosso Sr. Kaseph tem-me chamado por algum tempo agora. Preparem as tropas. Partiremos imediatamente. Os generais arrojaram-se
atravs do teto da casa nuvem adentro, ganindo ordens, reunindo as tropas. O Valente desfraldou as asas com pose real, depois qual abutre monstruoso, pesado, flutuou
ao aposento no poro onde Alexander Kaseph, sentado de pernas cruzadas sobre uma grande almofada, entoava o nome do Valente vez aps vez. O Valente aterrizou  frente
de Kaseph e observou-o por um momento, sorvendo a adorao e servilidade espirituais de Kaseph. Ento, num movimento rpido, adiantou-se e deixou seu enorme vulto
dissolver-se no corpo de Kaseph enquanto o homem se crispava e contorcia grotescamente. Em um instante, a possesso era completa, e Alexander Kaseph despertou da
meditao.

-- Chegou a hora! -- disse ele, com a expresso do Valente nos olhos.

36
Susan virou o carro alugado e entrou no pequeno estacionamento coberto de pedriscos atrs do Clarim de Ashton. Eram 5:00 horas da manh, e o dia estava comeando
a clarear. De alguma forma, pelo que sabiam, no tinham sido vistos por nenhum policial. A cidade parecia quieta, e o dia prometia ser agradvel e ensolarado. Berenice
dirigiu-se a um esconderijo especial atrs de algumas latas de lixo amassadas e encontrou a porta da chave dos fundos. Num instante rpido e acharam-se no lado de
dentro. silencioso, os trs

-- No acendam luz alguma, no faam barulho nem vo perto de uma janela -- advertiu-os Berenice. -- O quarto escuro  aqui. Entrem todos antes que eu acenda a luz.
Os trs apertaram-se no quarto escuro. Berenice fechou a porta e a seguir encontrou o interruptor. Ela preparou os produtos qumicos, examinou mais uma vez o filme,
e ento preparou o tanque de revelao. Ela apagou a luz, e eles ficaram em absoluta escurido. -- Esquisito -- disse Kevin. -- Isto s demora alguns minutos. Nossa,
no tenho a menor idia do que est acontecendo com Marshall, mas no me atrevo a tentar descobrir. -- E a sua secretria eletrnica? Pode ser que haja algum recado
nela.

-- Boa idia. Posso averiguar isso assim que terminar de carregar este filme. Estou quase terminando --. Depois Berenice pensou em outra coisa. -- No sei o que
aconteceu com Sandy Hogan tambm. Ela jogou um abajur no pai e saiu correndo da casa. -- Sim, voc estava me contando a esse respeito. -- No sei aonde ela iria
a menos que tenha resolvido fugir com aquele tipo Shawn. -- Com quem? -- perguntou Susan abruptamente. -- Quem foi que voc disse? -- Um sujeito chamado Shawn. --
Shawn Ormsby? -- perguntou Susan. -- Oh-oh, voc parece conhec-lo. -- Temo que Sandy Hogan esteja em grande apuro! Shawn Ormsby aparece um bom nmero de vezes no
dirio de sua irm. Foi ele quem levou Pat a envolver-se naqueles experimentos psicolgicos. Ele encorajou-a a continuar com eles, e no fim foi ele quem a apresentou
a Thomas! A luz do quarto escuro acendeu com um estalido. O tanque de revelao estava carregado e pronto, mas tudo o que Berenice, muito plida, pde fazer foi
fitar Susan. Madeline no era um ser belo sobre-humano, de cabelos dourados, altamente evoludo, de uma dimenso superior. Madeline era um demnio, um monstro hediondo
de couro ressecado com garras afiadas e natureza sutil, enganadora. Para Madeline, Sandy Hogan fora presa muito fcil e vulnervel. As profundas mgoas de Sandy
em relao ao pai fizeram dela um objeto ideal para o amor ilusrio com o qual Madeline a tentava, e a essa altura parecia que Sandy seguiria

qualquer curso que Madeline dissesse ser o certo para a sua vida, acreditando em fosse l o que fosse que Madeline dissesse. Madeline gostava muito de quando conseguia
fazer as pessoas chegarem a esse ponto. Patrcia Krueger, contudo, havia sido um desafio. Ento, disfarado no simptico e benevolente Thomas, o demnio tinha lutado
muito a fim de conseguir que Patrcia acreditasse que ele realmente estava ali; tinha sido necessrio lanar mo de umas alucinaes bem cruis e coincidncias oportunas,
sem mencionar os melhores de seus sinais e prodgios psquicos. No bastou dobrar chaves e garfos; teve de produzir umas materializaes muito impressionantes tambm.
Contudo finalmente havia conseguido, e cumprido as ordens de Baal Lucius. Pat se havia matado cerimonialmente, e jamais conheceria novamente o amor de Deus. Mas,
e Sandy Hogan? O que desejaria o novo Baal, Rafar, que fosse feito com ela? O demnio, chamando-se agora Madeline, aproximou-se do importante prncipe em sua grande
rvore morta. -- Meu senhor -- disse Madeline, curvando-se profundamente em sinal de respeito --  verdade que Marshall Hogan est derrotado e impotente? --  --
disse Rafar. -- E o que deseja que seja feito com Sandy Hogan, filha dele? Rafar estava prestes a responder, mas ento hesitou, considerando um pouco mais a questo.
Afinal, disse: -- No a destrua, pelo menos por enquanto. Nosso inimigo  to astuto quanto eu, e gostaria de ter mais uma garantia contra qualquer sucesso desse
Marshall Hogan. O Valente vem hoje. Deixe-a como garantia at essa hora. Rafar despachou um mensageiro juntamente com Madeline para visitar a professora Langstrat.

Shawn foi despertado telefonema da professora.

muito

cedo

por

um

-- Shawn -- disse Langstrat -- recebi recado dos mestres. Eles querem umas garantias a mais de que Hogan no ser um obstculo na negociao de hoje. Sandy ainda
est a com voc? Do seu quarto, Shawn podia ver a sala de estar de seu pequeno apartamento. Sandy ainda estava no sof, adormecida. -- Ainda est aqui. -- A reunio
com os diretores ter lugar no Prdio da Administrao, na sala de conferncia do terceiro andar. Uma sala do outro lado do corredor, a 326, foi reservada para ns
e para os outros mdiuns. Traga Sandy com voc. Os mestres a querem presente. -- Estaremos l. Ao desligar o telefone, Langstrat podia ouvir Alf Brummel fazendo
barulho na cozinha. -- Juleen -- chamou ele -- onde est o caf? -- No acha que j est nervoso demais? -- perguntou ela, saindo do quarto e dirigindo-se  cozinha.
-- Estou apenas tentando acordar -- resmungou ele, tremendo ao colocar uma panela com gua no fogo. -- Acordar! Voc nem chegou a dormir, Alf! -- Voc dormiu? --
replicou ele. -- Muito bem -- disse ela com brandura. Langstrat, muito bem vestida, parecia pronta para dirigir-se  faculdade. Brummel estava um desastre, os

olhos fundos, os cabelos desgrenhados, ainda de roupo. Ele disse: -- Ficarei muito feliz quando este dia tiver passado e tudo se acalmar. Como delegado, acho que
quebrei praticamente todas as leis que existem. Ela colocou-lhe a mo no ombro e tranqilizou-o: -- Todo esse mundo novo que est crescendo  sua volta ser seu
amigo, Alf. Ns somos a lei agora. Voc ajudou a estabelecer a Nova Ordem, uma ao que enfim  boa e que merece recompensa. -- Bem...  melhor garantirmos isso
de forma absoluta,  tudo o que tenho a dizer. -- Voc pode ajudar, Alf. Diversos dos lderes principais estaro se reunindo do outro lado do corredor na mesma hora
da reunio de encerramento da negociao esta tarde. Combinando nossas energias psquicas, poderemos assegurar que nada venha a impedir o sucesso completo. -- No
sei se me atrevo a sair em pblico. Acho que as prises de Busche e Hogan exasperaram uma poro de gente, gente da igreja, eu poderia acrescentar! Essa acusao
de estupro no chegou nem perto de prejudicar Busche tanto quanto deveria. A maior parte do pessoal da igreja est vindo atrs de mim, querendo saber o que eu estou
tentando fazer! -- Voc estar l -- disse ela distintamente. -- Oliver estar l, bem como os outros. E Sandy Hogan estar l. Ele se voltou bruscamente e fitou-a
com horror. -- O qu? Por que Sandy Hogan vai estar l? -- Como seguro. Os olhos de Brummel se arregalaram, e sua voz

tremeu. -- Outra? Voc vai matar outra? Os olhos dela se esfriaram bastante. -- No mato a ningum! Deixo apenas que os mestres decidam! -- E ento, o que eles decidiram?
-- Voc far com que Hogan saiba que a filha dele est em nossas mos e que ser muito sbio da parte dele no interferir com coisa alguma que acontea de hoje em
diante. -- Voc quer que eu lhe diga? -- Sr. Brummel! -- A voz dela era de provocar calafrio. Ela adiantou-se sobre ele de maneira intimidadora, e ele deu alguns
passos para trs. -- Acontece que Marshall Hogan est na sua cadeia. Voc  responsvel por ele. Voc lhe dir. Tendo dito isso, ela saiu pela porta da frente e
dirigiu-se  faculdade. Brummel ficou parado por um momento, confuso, frustrado, receoso. Seus pensamentos nadavam sem rumo, qual cardume de peixes assustados. Esqueceu-se
mesmo do motivo pelo qual estava na cozinha. Brummel,  o seu fim. O que o faz pensar que no  to dispensvel quanto qualquer outro que a Sociedade considera uma
convenincia, uma ferramenta, um joguete? E,  melhor enfrentar os fatos, Brummel. Voc  um joguete! Juleen o est usando para fazer o servio sujo dela, e agora
o est colocando na posio de nada menos que cmplice de assassnio. Se eu fosse voc, comearia a cuidar do Nmero Um. Esse plano todo ser descoberto mais cedo
ou mais tarde, e adivinhe quem ser apanhado com a boca na botija?

Brummel continuou a pensar sobre o assunto, e seus pensamentos deixaram de nadar sem rumo. Comearam a correr todos na mesma direo. Isso tudo era loucura, pura
loucura. Os mestres dizem isto e os mestres dizem aquilo, mas o que  isso para eles? No tm pulsos que possam ser algemados, no tm empregos para perder, no
tm cara que poderiam temer sair mostrando pela cidade algum dia. Brummel, por que no detm JuJeen antes que ela arrune totalmente a sua vida? Por que no pe
um paradeiro em toda essa loucura e age como verdadeiro, genuno agente da lei pelo menos uma vez na vida? , pensou Brummel. Por que no? Se eu no fizer isso,
vamos todos afundar neste barco doido. Lucius, o deposto Prncipe de Ashton, estava na cozinha com Alf Brummel, o delegado de polcia, tendo uma pequena discusso
com ele. Esse Alf Brummel sempre foi um tanto instvel; talvez Lucius pudesse aproveitar essa vantagem. Jimmy Dunlop chegou  delegacia s 7:00 horas da manh de
domingo, pronto para assumir o seu turno. Para surpresa sua, o estacionamento estava lotado de gente: casais jovens, casais velhos, senhoras idosas; parecia um piquenique
de igreja no lugar errado. Quando ainda estava chegando, pde ver todos os olhos focalizados no seu uniforme de policial. Oh, no! Agora estavam vindo na sua direo!
Mary Busche e Edith Duster reconheceram Jimmy imediatamente; fora ele o jovem e muito mal-educado policial que as havia impedido de visitar Hank na noite anterior.
Agora elas estavam bem  frente dessa multido, e embora ningum ali tivesse a menor inteno de fazer qualquer coisa precipitada ou imprpria, no estavam a fim
de ser espezinhados.

Jimmy tinha de sair do carro quer quisesse, quer no. Tinha de apresentar-se ao trabalho naquele dia. -- Agente Dunlop -- disse Mary com muito atrevimento -- creio
que o senhor me disse ontem  noite que daria um jeito de eu visitar meu marido hoje. -- Se me do licena -- disse ele, tentando forar a passagem. -- Agente --
disse John Coleman respeitosamente -- estamos aqui para pedir-lhe que acate o desejo dela de ver o marido. Jimmy era um agente policial. Ele realmente representava
a lei. Tinha bastante autoridade. O nico problema era que no tinha um pingo de coragem. -- Ah... -- disse. -- Escutem, tero de desfazer esse ajuntamento ou enfrentar
a possibilidade de priso! Abe Sterling adiantou-se. Era um advogado amigo de um amigo de um tio de Andy Forsythe e havia sido tirado da cama na noite anterior e
convidado exatamente para essa ocasio. -- Este  um ajuntamento legal, pacfico -- lembrou ele a Jimmy -- segundo a definio do RCS 14.021.217 e a deciso conferida
pelo Tribunal Superior do Municpio de Stratford no caso Ames contra o Municpio de Stratford. -- Sim -- disseram diversas pessoas --  isso mesmo. Escute o que
diz o homem. Jimmy ficou atrapalhado. Ele olhou na direo da porta da frente do tribunal. Dois agentes da delegacia de Windsor montavam guarda ao forte. Jimmy encaminhou-se
a eles, sem saber por que estavam permitindo que essa coisa continuasse. -- Ei -- perguntou-lhes ele, reprimindo a voz -- o que significa tudo isto? Por que no
se livraram dessa

gente? -- Olhe, Jimmy -- disse um deles -- esta  a sua cidade e o seu jogo. Achamos que voc saberia o que fazer, por isso falamos que esperassem at voc chegar.
Jimmy fitou os rostos que lhe devolviam o olhar. No, ignorar o problema no o faria desaparecer. Ele perguntou ao agente: -- Quanto tempo faz que essa gente est
a? -- Desde as 6:00hs mais ou menos. Voc devia ter visto a coisa. Estavam fazendo um perfeito culto. -- E podem fazer isso? -- Fale com o advogado deles. Eles
tm o direito de fazer demonstrao pacfica contanto que no atrapalhem a conduta normal das atividades. Tm-se comportado. -- E o que fao agora? Os dois agentes
apenas se entreolharam um tanto vagos. Abe Sterling chegou logo atrs de Jimmy. -- Agente Dunlop, a lei lhe permite reter um suspeito por at setenta e duas horas
sem incrimin-lo, mas visto que a esposa do suspeito tem o direito de entrar em contato com o marido, estamos dispostos a mover uma ao judicial junto ao Tribunal
Superior do Municpio de Stratford requerendo que o senhor comparea e comprove por que justa causa foi-lhe negado esse direito. -- Ouviu isso? -- disse algum.
-- Eu... ah... terei de falar com o delegado... -- Disfaradamente, ele amaldioava Alf Brummel por t-lo metido na encrenca. -- Por falar nisso, onde est Alf Brummel?
E o pastor dele que ele jogou na cadeia -- declarou Edith Duster.

-- Eu... no sei nada a respeito disso. John Coleman disse: -- Ento ns, como cidados, estamos pedindo que descubra. E gostaramos de falar com o Delegado Brummel.
Pode conseguir isso, por favor? -- Eu... verei o que posso fazer -- disse Jimmy, voltando-se para a porta. -- Quero ver o meu marido! -- disse Mary bem alto, adiantando-se
com o queixo firmemente resoluto. -- Verei o que posso fazer -- disse Jimmy novamente, e entrou depressa. Edith Duster voltou-se para os outros e disse: -- Lembrem-se,
irmos e irms, de que a nossa luta no  contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso,
contra as foras espirituais do mal, nas esferas celestes. -- Diversos "amns" se fizeram ouvir, e a seguir algum ps-se a entoar um hino de adorao. Imediatamente
todo o Remanescente cantou alto, adorando a Deus e fazendo com que o seu louvor fosse ouvido naquele estacionamento. De onde estava na colina acima da cidade, Rafar
ouviu o louvor, e olhou carrancudo para aqueles santos de Deus. Que choramingassem por causa do seu pastor cado. Seu cntico seria restringido logo mais quando
o Valente e suas hordas chegassem. Inmeros espritos estavam chegando  cidade de Ashton, mas no do tipo que Rafar desejava. Eles se apressavam a penetrar no cho,
infiltravam-se encobertos por nuvens ocasionais, entravam furtivamente como caronas invisveis em carros, caminhes,

furges, nibus. Em esconderijos por toda a cidade um guerreiro se juntava a outro, a esses dois se reuniam outros dois, a esses quatro se juntavam mais quatro.
Eles tambm ouviam o cntico. Sentiam o poder percorrer-lhes o corpo a cada nota. Suas espadas zumbiam com a ressonncia da adorao. Foram a adorao e as preces
desses santos que os haviam chamado ali em primeiro lugar. O remoto vale era agora uma enorme cavidade de tinta preta fervente, rodopiante, acentuada por mirade
de olhos brilhantes, amarelos. A nuvem de demnios se havia multiplicado de tal forma que enchia o vale como um mar fervilhante. Alexander Kaseph, possudo pelo
Valente, saiu de seu casaro de pedra e entrou na limusine que o aguardava. Todos os papis estavam prontos para serem assinados; seus advogados o encontrariam no
Prdio da Administrao no campus da Faculdade Whitmore. Esse era o dia pelo qual havia esperado e para o qual se havia preparado.  medida que a limusine que levava
Kaseph, e o Valente, prosseguia pela estrada sinuosa, o mar de demnios comeou a despejar naquela direo, come a mudana da mar. O zumbido de incontveis bilhes
de asas aumentou de tom e intensidade. Torrentes de demnios puseram-se a verter pelos lados da grande cavidade, jorrando entre os picos das montanhas como piche
quente e sulfuroso. No quarto escuro do Clarim de Ashton, Berenice e Susan, diante do ampliador, olhavam a imagem projetada dos negativos que Berenice acabara de
revelar. -- Sim! -- disse Susan. -- Esta  a primeira pgina dos registros do desfalque na faculdade. Ver que o nome da faculdade no aparece em parte alguma.

Contudo, as quantias recebidas devem ser exatamente iguais s quantias desembolsadas nos livros da faculdade. -- Sim, os nmeros ns temos, ou o nosso contador tem.
-- Est vendo aqui? Um fluxo de fundos bem constante. Eugene Baylor tem removido e canalizado os investimentos da faculdade um pouco de cada vez a vrias outras
contas, cada uma das quais  na realidade uma frente para a Omni e a Sociedade. -- Ento os chamados investimentos tm todos ido parar no bolso de Kaseph! -- E tenho
certeza de que constituiro parte substancial do dinheiro que Kaseph usar para comprar a faculdade. Berenice adiantou o filme. Diversos quadros de lanamentos financeiros
passaram num borro. -- Espere! -- disse Susan. -- Ali! Volte alguns quadros --. Berenice voltou o filme. -- Sim! Ali! Tirei isso de algumas anotaes pessoais de
Kaseph.  difcil entender a letra, mas veja a lista de nomes. Berenice realmente teve dificuldade em entender a letra, mas ela mesma havia escrito aqueles nomes
um bom nmero de vezes. -- Harmel... Jefferson... -- leu. -- Voc ainda no viu estes -- disse Susan, apontando o final de uma lista muito comprida. Ali, com a letra
do prprio Kaseph, estavam os nomes Hogan, Krueger e Strachan. -- Pelo que vejo,  uma espcie de lista de gente que deve ser eliminada? -- perguntou Berenice. --
Exatamente. Contm centenas de nomes. Observe o X vermelho depois de diversos deles.

-- Esses j foram removidos? -- Comprados, afugentados, talvez assassinados, talvez arruinados em reputao ou finanas ou ambos. -- E achei que a nossa lista era
longa! -- Essa  a ponta do iceberg. Tenho outros documentos que precisamos fotocopiar e guardar em algum lugar seguro. Poderia ser usado para se montar um caso
muito forte no apenas contra Kaseph como tambm contra a Omni, provas que demonstrariam uma longa histria de grampeamento, extorso, chantagem, terrorismo, assassnio.
A criatividade de Kaseph nessas reas no conhece limites. -- O crime personificado. -- Com uma scia internacional, no se esquea, unidos de maneira antinatural
pela dedicao comum  Sociedade da Percepo Universal. Nesse momento, Kevin, que estivera tirando fotocpias dos documentos que Susan roubara, sibilou para as
moas: -- Ei, tem um tira l fora! Susan e Berenice se enrijeceram. -- Onde? -- perguntou Berenice. -- O que ele est fazendo? -- Est do outro lado da rua. Aposto
que est vigiando a vizinhana! Susan e Berenice dirigiram-se cuidadosamente  frente a fim de olhar. Encontraram Kevin agachado no umbral da porta da sala de fotocpias.
A essa hora j era dia claro, e a luz penetrava pelas janelas do escritrio da frente. Kevin apontou para um carro velho e simples estacionado do outro lado da rua,
que mal podia ser visto atravs das janelas da frente. Um homem com

roupas comuns estava sentado atrs do volante, sem fazer nada em particular. -- Kelsey -- disse Kevin. -- J tive uns esbarres com ele. Vestido de civil e dirigindo
um velho Ford, mas eu reconheceria aquela cara a mais de um quilmetro de distncia. -- Mais ordens de Brummel, sem dvida -- disse Berenice. -- E ento, o que faremos
agora? -- perguntou Susan. -- Abaixem-se! -- sibilou Kevin. Elas se esconderam nos umbrais das portas no exato instante em que outro homem chegou  janela da frente
e espiou para dentro. -- Michaelson -- disse Kevin. -- O companheiro de Kelsey. Michaelson tentou abrir a porta. Estava trancada. Ele espiou atravs da outra janela
da frente, e depois se afastou. -- Hora de outro milagre, hein? -- disse Berenice, um tanto sarcstica. Hank acordou bem cedo naquele dia e teve a certeza de que
alguma grandiosa interveno milagrosa de Deus havia ocorrido, ou que ele estava prestes a subir ao cu, ou que anjos haviam vindo socorr-lo, ou... ou... ou ele
simplesmente no sabia o que acontecia. Mas enquanto permanecia deitado, meio adormecido, ainda naquele estado semiconsciente no qual no se tem muita certeza do
que  real e do que no o , ele ouviu cnticos de adorao e hinos flutuando em torno da sua cabea. Achou at que podia ouvir a voz de Mary cantando entre todas
as outras vozes. Por longo tempo permaneceu gozando aquilo, no querendo acordar com medo de que se desvanecesse. Mas Marshall exclamou:

-- Que cargas d'gua  isso? Ele tambm ouvira? Hank acordou enfim. Ergueuse do leito e dirigiu-se s grades. O som entrava pela janela no fim da fileira de celas.
Marshall reuniu-se a ele e os dois ficaram juntos, escutando. Podiam ouvir o nome "Jesus" sendo cantado e louvado. -- Conseguimos, Hank -- disse Marshall. -- Estamos
no cu! Hank estava chorando. Se aquela gente l fora soubesse que bno aquele cntico era! De repente ele soube que j no estava na priso, no de verdade. O
evangelho de Jesus Cristo no estava aprisionado, e ele e Marshall eram nesse momento dois dos homens mais livres do mundo. Os dois escutaram por algum tempo, e
depois, sobressaltando Marshall, Hank comeou a cantar tambm. Era uma msica que mostrava Jesus Cristo como um guerreiro vitorioso e a igreja como seu exrcito.
Hank conhecia a letra, naturalmente, e cantou a plenos pulmes. Um tanto sem graa, Marshall olhou ao seu redor. Os dois ladres de carro na cela contgua ainda
estavam atnitos demais para reclamar. O passador de cheques sem fundos meneou a cabea e voltou a ateno ao seu romance barato. Um outro sujeito na ltima cela,
ofensa desconhecida, praguejou, mas no muito alto. -- Vamos, Marshall -- incitou Hank. -- Cante, vamos! Quem sabe se cantando no conseguiremos sair deste lugar.
Marshall sorriu e meneou a cabea. Nesse momento exato, a grande porta no fim do corredor das celas abriu-se com fora e l veio Jimmy Dunlop, o rosto vermelho e
as mos tremendo. -- O que est acontecendo por aqui? -- exigiu ele. -- Sabe que est causando um tumulto?

-- Oh, estamos apenas gozando a msica -- disse Hank, todo sorridente. Jimmy sacudiu o dedo a Hank e disse: -- Bem, pare com esse negcio religioso agora mesmo!
A cadeia pblica no  lugar disso. Se quiser cantar, faa-o na igreja ou em outro lugar, no aqui. E, pensou Marshall, acho que j aprendi suficientemente a letra
a esta altura. Ps-se a cantar to alto quanto conseguia, dirigindo o cntico ao Jimmy. Isso trouxe uma reao muito satisfatria da parte de Jimmy. Rodando nos
calcanhares, ele saiu dali, batendo a porta atrs de si. Outro hino comeou, e Marshall achou que talvez j tivesse ouvido esse antes em algum lugar, talvez na escola
dominical. "Obrigado, Senhor, por ter salvo a minha alma." Ele cantou bem alto, em p ao lado do jovem de Deus, ambos segurando nas grades das celas. -- Paulo e
Silas! -- exclamou subitamente. -- Sim, agora me lembro! Marshall

Desse momento em diante, Marshall j no cantava por causa de Jimmy Dunlop. Tal podia ouvir a msica do seu esconderijo. Seu rosto ainda estava um tanto srio, mas
meneou a cabea satisfeito. Chegou um mensageiro com as notcias. -- O Valente est a caminho. Outro mensageiro informou-o: -- Temos cobertura de orao agora em
trinta e duas cidades. Outras catorze esto sendo convocadas. Tal desembainhou a espada. Podia sentir a lmina ressoando com a adorao dos santos, e podia sentir
o

poder da presena de Deus. Sorriu um leve sorriso e embainhou novamente a espada. -- Renam as fontes: Lemley, Strachan, Mattily, Cole e Parker. Faam-no abruptamente.
Ser importante fazerem isso na hora certa. Diversos guerreiros cumprir suas misses. desapareceram a fim de

37
Sandy Hogan continuava a se enfeitar em frente ao espelho no banheiro de Shawn, escovando nervosamente os cabelos, examinando a maquiagem. Oh, espero estar com boa
aparncia hoje... o que direi, o que farei? Nunca estive em uma reunio como essa antes. Shawn lhe havia dado uma notcia extraordinariamente boa: A professora Langstrat
havia achado que Sandy era um excelente exemplar com habilidades psquicas excepcionais, tanto que Sandy estava agora sendo considerada como principal candidata
 especial iniciao em algum tipo de exclusiva comunidade de mdiuns, uma sociedade internacional! Sandy lembrava-se agora de ter ouvido meno passageira a algum
tipo de grupo de Percepo Universal, e sempre havia parecido algo muito elevado, muito secreto, sagrado mesmo. Jamais havia sonhado que uma oportunidade to extraordinria
lhe seria concedida, a de ficar conhecendo de fato outros mdiuns e tornar-se parte de seu crculo de confiana! Ela podia imaginar as novas experincias e as percepes
mais elevadas que poderiam ser obtidas na companhia de tanta gente talentosa, todas elas combinando suas habilidades e energias psquicas na busca incessante de

iluminao! Madeline, voc teve alguma coisa que ver com isto? Espere s at nos encontrarmos de novo! Tenho um abrao e mil agradecimentos para lhe dar! Berenice,
Susan e Kevin no podiam fazer nada alm de tentar preservar as provas que Susan, a to grave risco, havia ajuntado. Berenice reproduziu todas as fotos que Susan
havia tirado, e Kevin fez fotocpias das reprodues, juntamente com cpias de todo o resto do material. Berenice examinou o prdio  procura de um bom lugar para
esconder aquilo. Susan examinou um mapa e considerou diferentes rotas de fuga da cidade, diferentes meios de escapar, diferentes pessoas que poderiam chamar assim
que sassem. Ento o telefone tocou. Eles o haviam ignorado antes e deixado que a secretria eletrnica grunhisse a mensagem de sempre. Mas desta vez, depois do
apitinho, uma voz disse: -- Al, aqui fala Harvey Cole, e acabei de trabalhar naquelas contas que voc me deu... -- Espere! -- disse Berenice. -- Aumente o volume!
Susan engatinhou rumo  escrivaninha no escritrio da frente onde se encontrava a secretria eletrnica e aumentou o volume. A voz de Harvey Cole continuou: -- Realmente
preciso falar com voc o mais rpido possvel. Berenice agarrou o telefone no escritrio de Marshall. -- Al? Harvey? Aqui  Berenice! Susan e Kevin ficaram horrorizados.
-- O que voc est fazendo?

-- Os tiras vo ouvir isso, cara! Harvey disse pelo telefone e tambm atravs do volume aumentado da secretria eletrnica: -- Oh, voc est a! Ouvi dizer que tinha
sido presa ontem  noite. A polcia no me quer dizer nada. Eu no sabia para onde ligar... -- Harvey, oua apenas. Tem caneta ou lpis? -- Sim, agora tenho. --
Chame meu tio. Seu nome  Jerry Dallas; o nmero  240-9946. Diga-lhe que me conhece, diga-lhe que  uma emergncia, e diga que tem material para mostrar a Justin
Parker, o promotor municipal. -- O qu? No to depressa. Berenice passou com esforo a informao mais uma vez, mais devagar. -- Agora, esta conversa est provavelmente
sendo ouvida por Alf Brummel ou um de seus asseclas do Destacamento de Polcia de Ashton, por isso quero que voc garanta que se alguma coisa me acontecer, essa
informao ainda ir parar nas mos do promotor a fim de que ele comece a indagar o que est acontecendo nesta cidade. -- Devo anotar isso tambm? -- No. Apenas
entre em contato com Justin Parker. Se por acaso for possvel, pea que ele nos ligue aqui. -- Mas, Berenice, eu ia dizer, est bem claro que os fundos tm sado,
mas os registros no mostram onde... -- Temos os registros que mostram onde. Temos tudo. Diga isso ao meu tio. -- Est bem, Berenice. Voc realmente est em

apuros, ento? -- A polcia est atrs de mim. Provavelmente descobriro que estou aqui porque estou falando com voc e o telefone foi grampeado.  melhor apressar-se!
-- , sim, est bem! Harvey desligou depressa. Susan e Kevin se entreolharam e em seguida fitaram Berenice. Ela lhes devolveu o olhar e pde dizer apenas: -- Sei
que  um risco. Susan deu de ombros. -- Bem, no tnhamos nenhuma idia melhor. O telefone tocou novamente. Berenice hesitou, esperando que a secretria eletrnica
repassasse seu pequeno recitativo. Ento veio a voz. -- Marshall, aqui fala Al Lemley. Oua, estou com uns agentes federais alvoroados aqui em Nova York que querem
falar com voc acerca do seu homem Kaseph. Faz j algum tempo que esto atrs dele, e se puder fornecer-lhes boa informao, eles estariam interessados... Berenice
apanhou o telefone de novo. -- Al Lemley? Aqui  Berenice Krueger. Trabalho para Marshall. Pode trazer esses homens a Ashton hoje? -- O qu? Al? -- surpreendeu-se
Lemley. --  voc mesma ou  uma gravao? -- Sou muito eu, e precisando da sua ajuda. Marshall est na cadeia e... -- Cadeia? -- Uma acusao forjada.  coisa do
Kaseph. Ele est assumindo controle da Faculdade Whitmore hoje s 2:00hs, botou Marshall na geladeira a fim de mant-lo afastado, e estou fugindo da polcia.  uma
longa histria, mas seus amigos a adoraro e obtivemos os do-

cumentos que provam cada palavra que estou dizendo. -- Qual  mesmo o seu nome? Berenice esforou-se por dar o nome de novo e teve de soletr-lo duas vezes. -- Oua,
eles grampearam este telefone, por isso provavelmente sabem onde estou agora, e assim poderia fazer o favor de apressar-se em vir e trazer todos os mocinhos que
conseguir encontrar? No sobrou nenhum nesta cidade. Al Lemley ouvira o bastante. -- Est bem, Berenice, farei toda e qualquer coisa que puder. E  melhor esses
vagabundos que grampearam seu telefone ficarem sabendo que se as coisas no estiverem um perfeito docinho de coco quando chegarmos a,  garantido que teremos encrenca!
-- Chegue ao Prdio da Administrao no campus da Faculdade Whitmore s 2:00hs ou antes. -- At as 2:00. A esta altura Kevin e Susan estavam comeando a ficar um
pouco mais animados. -- Era isso o que voc queria? -- perguntou Susan. -- Outro milagre? O telefone tocou novamente. Dessa vez Berenice no esperou, mas tirou o
aparelho do gancho no mesmo instante. Uma voz disse: -- Al, aqui  o Secretrio da Justia do Estado Norm Mattily, chamando Marshall Hogan. Susan no conseguiu
abafar um gritinho. Kevin disse: -- Est bem, est bem! Berenice falou com Mattily.

-- Sr. Mattily, aqui fala Berenice Krueger, reprter do Clarim. Eu trabalho para o Sr. Hogan. -- Oh... ah, sim... -- Mattily parecia estar consultando outra pessoa.
-- Sim, ah, Eldon Strachan est aqui comigo, e me diz que h algum tipo de encrenca a em Ashton... -- O pior tipo. Est tudo vindo a furo hoje. Obtivemos umas provas
substanciais para lhe mostrar. Quanto tempo demoraria para chegar aqui? -- Bem, no tinha a inteno de fazer isso... -- A cidade de Ashton vai ser tomada por uma
organizao terrorista internacional s 14:00 horas hoje. -- O qu? Berenice conseguia ouvir a voz abafada de Eldon Strachan, provavelmente martelando o outro ouvido
de Mattily. -- Ah... bem, onde est o Sr. Hogan? Strachan est preocupado com a segurana dele. -- Tenho certeza de que o Sr. Hogan no est nada seguro. Eu e ele
camos na emboscada dos bandidos locais ontem a noite durante uma investigao de rotina. Marshall os deteve enquanto eu fugi Tenhome escondido desde ento e no
tenho a menor idia do que aconteceu ao Sr. Hogan. -- Pela madrugada! Voc est... -- Eldon continuava falando no outro ouvido de Mattily. -- Bem, precisarei de
algum tipo de prova concreta, algo que agente o tranco legalmente... -- Isso ns temos, mas precisaremos de sua interveno direta e imediata. Pode vir e trazer
policiais verdadeiros consigo?  questo de vida e morte. --  melhor que isto seja pra valer! -- Por favor, chegue aqui antes das 14:00hs. O

melhor seria encontrar-se conosco no Prdio Administrao no campus da Faculdade Whitmore.

da

-- Muito bem -- disse Mattily, sua voz ainda soando um tanto hesitante -- irei at a e verei o que tenha para mostrar. Berenice desligou e o telefone prontamente
tocou de novo. -- Clarim. -- Al, aqui fala o Promotor Municipal Justin Parker. Com quem estou falando? Berenice tapou depressa o bocal com a mo e sussurrou para
Susan: -- Existe um Deus, sim! Alf Brummel no agentava mais. As coisas estavam-lhe escapando ao controle, coisas que muito tinham a ver com seu prprio futuro
e segurana. No podia ficar afastado da delegacia por mais tempo. Tinha de ir l a fim de tomar conhecimento do que estava acontecendo, a fim de evitar que as coisas
se transtornassem irreversivelmente, a fim de... oh, onde estavam as chaves do carro? Ele entrou no veculo e voou pela cidade rumo  delegacia. O Remanescente ainda
cantava no estacionamento quando ele chegou, e at ele descobrir quem eram e por que estavam ali, era tarde demais para escapulir. Teve de entrar e estacionar. Eles
convergiram sobre seu carro como voraz enxame de pernilongos. -- Onde esteve at agora, Delegado? -- Quando  que o Hank vai sair?

-- Mary gostaria de v-lo. -- Barbaridade, o que pensa estar fazendo com aquele homem? Ele no estuprou ningum! --  bom que esteja pronto para dizer adeusinho
ao seu emprego! Capriche, Alf, se tencionar salvar o que sobrou de voc. -- Ah, onde est Mary? Mary acenou-lhe dos degraus da frente do tribunal. Ele tentou abrir
caminho diretamente at ela, e uma vez que as pessoas viram a direo na qual ele se encaminhava, mostraram-se mais do que dispostas a deix-lo passar. Mary comeou
a fazer perguntas assim que ele chegou ao alcance dos seus gritos. -- Sr. Brummel, gostaria de ver o meu marido e como se atreve a permitir esta farsa? Jamais em
sua vida Brummel vira a doce e aparentemente vulnervel Mary Busche to agressiva. Ele tentou pensar numa resposta. -- Tem sido um hospcio por aqui. Desculpe eu
ter estado fora... -- Meu marido  inocente, e voc sabe disso! -- disse ela com bastante firmeza. -- No sabemos como pretende safar-se desta mas estamos aqui para
garantir que no o far. A esse comentrio, uma lufada de gritos de apoio reboou da multido. Brummel tentou usar o mtodo de intimidao. -- Agora escutem, todos
vocs! Ningum est acima da lei, no importa quem seja. O Pastor Busche foi acusado de ofensa sexual, e no tenho escolha a no ser cumprir o meu dever como agente
da lei. No posso

fazer nada se somos amigos ou membros da mesma igreja, esta  uma questo de lei... -- Besteira! -- veio um brado gutural de perto de Brummel. O delegado voltou-se
na direo da voz para corrigi-la, mas tornou-se plido ao deparar-se com Lou Stanley, seu antigo companheiro de armas. Lou manteve-se firme, uma mo na cinta, a
outra apontando diretamente para o rosto de Brummel, enquanto dizia: -- Voc falou de fazer uma tramia dessas muitas vezes, Alf! J o ouvi dizer que tudo o de que
precisava era a oportunidade certa. Ora, o que estou dizendo agora  que foi o que fez. Estou acusando-o, Alf! Se algum quiser o meu depoimento em qualquer tribunal,
estou pronto a dar! Um viva e algumas vaias soaram. Ento Brummel levou outro susto. Gordon Mayer, o tesoureiro da igreja, colocou-se  frente da multido, e tambm
apontou um dedo para o rosto de Brummel. -- Alf, simples divergncia  uma coisa, mas conspirao aberta  outra muito diferente. E bom ter certeza do que est fazendo.
Brummel estava encurralado. -- Gordon... Gordon, temos de fazer o melhor... ns... -- Bem, no conte comigo! -- disse Mayer. -- J fiz o bastante por voc! Brummel
voltou as costas aos dois antigos companheiros apenas para dar de cara com o repentinamente limpo Bobby Corsi! -- Ei, delegado Brummel -- disse Bobby. -- Lembra-se
de mim? Adivinhe para quem estou

trabalhando agora. Brummel ficou mudo. Ps-se a caminhar rumo  porta do departamento policial, como se ali houvesse abrigo de todo esse desastre. Andy Forsythe
no se colocou em seu caminho, mas acompanhou-o perto o bastante para faz-lo deterse. -- Sr. Brummel -- disse Andy -- h uma jovem esposa l atrs que ainda gostaria
que seus pedidos fossem considerados. Brummel andou mais depressa. -- Verei o que posso fazer, est bem? Deixe-me verificar a situao das coisas. Um instantinho.
Voltarei num momento. To depressa quanto pde, ele passou pela porta e a trancou atrs de si. A multido seguiu-o como uma onda e encostou-se  porta, uma barricada
a barrar-lhe a sada. A nova recepcionista encontrava-se sentada  mesa de recepo, os olhos arregalados, olhando atravs da janela a todos aqueles rostos enraivecidos.
-- Devo... devo chamar a polcia? -- perguntou ela. -- No -- disse Brummel. -- So apenas alguns amigos que vieram me ver. Com isso, ele desapareceu escritrio
adentro e fechou a porta. Juleen, Juleen! Era culpa dela! Ele estava enjoado dela, enjoado da coisa toda! Ele viu um bilhete na sua mesa. Sam Turner havia deixado
um recado para que ligasse. Ele discou o nmero e Sam atendeu. -- Como esto as coisas, Sam? -- perguntou Brummel.

-- Nada bem, Alf. Oua, estive no telefone a manh toda e ningum quer convocar uma assemblia de emergncia da congregao. Eles no tm a menor inteno de botar
Hank para fora, e pouca gente acredita nesse negcio de estupro. No h como negar, Alf, voc fracassou. -- Eu fracassei? -- explodiu Brummel. -- Eu fracassei? A
idia no foi sua tambm? -- No diga uma coisa dessas! -- veio muito ameaadora a resposta de Turner. -- Jamais diga uma coisa dessas! -- Ento agora voc tambm
no me vai apoiar. -- No h nada para apoiar, Alf. O plano furou. Busche  um escoteiro e todo o mundo sabe disso, e voc no vai conseguir fazer essa acusao
de estupro colar. -- Sam, entramos nisso juntos! Ia dar certo! -- Mas no deu, amigo. Hank veio para ficar,  assim que vejo a coisa, e estou me retirando de tudo
isso. Faa o que tiver de fazer, mas  melhor fazer algo, ou seu nome no vai valer um monte de esterco quando tudo tiver terminado. -- Ora, muitssimo obrigado,
amigo! -- Brummel desligou com raiva. Ele olhou para o relgio. Era quase meio-dia. A reunio comearia em duas horas. Hogan. Ele ainda tinha de dar um recado a
Hogan acerca de Sandy. Puxa vida, a estava outra das boas encrencas de Juleen. Claro, Juleen, pode deixar! J estou enrascado com essa acusao forjada contra Busche,
e agora voc quer-me ver declarado cmplice de seja l o que for que esteja planejando para Sandy Hogan.

E que dizer de Krueger? A quem teria ela conseguido dedar a coisa toda? Ele saiu correndo do escritrio e foi pelo corredor  sala de rdiocomunicao. -- Alguma
coisa sobre a fugitiva? -- perguntou ele ao nico funcionrio que ali se encontrava. O operador empurrou um pedao de sanduche de manteiga de amendoim contra a
bochecha e disse: -- No, tudo est muito quieto. -- Nada mesmo no Clarim? -- H um carro de fora estacionado nos fundos, mas  de outro estado e eles ainda no
conseguiram descobrir o registro da placa. -- No conseguiram...! Descubram o registro dessa placa! Examinem o prdio! Pode haver algum l dentro! -- Eles no viram
ningum... -- Examinem o prdio! -- explodiu Brummel. A recepcionista chamou do outro lado do corredor: -- Capito Brummel, Berenice Krueger est no telefone. Quer
que deixe recado? -- No! -- berrou ele, correndo pelo corredor ao seu gabinete. -- Atenderei aqui! Ele bateu a porta atrs de si e agarrou o telefone. -- Al?
-- Ele acertou o segundo boto do seu telefone. -- Al? -- Sr. Alf Brummel! -- veio uma voz muito condescendente. -- Berenice! -- Est na hora de termos uma conversa.

-- Muito bem. Onde est voc? -- No seja um refinado idiota. Escute, estou chamando para lhe dar um ultimato. Estive falando com o secretrio da justia do estado,
o promotor municipal, e a polcia federal. Tenho prova, e estou falando de coisa muito concreta, que desvendar totalmente sua tramoiazinha, e esto todos a caminho
para v-lo. -- Est blefando! -- Voc tem as conversas em fita, sem dvida.  s toc-las. Brummel sorriu. Ela acabara de revelar onde estava. -- E afinal qual 
o seu ultimato? -- Solte Hogan. Agora. E recolha a sua matilha que est atrs de mim. Dentro de duas horas tenho a inteno de mostrar a cara nesta cidade, e no
quero saber de ser perturbada, especialmente porque estarei acompanhada de visitantes muito especiais! -- Voc est no Clarim agora, no est? -- Sim, claro que
estou. E posso ver... qual  mesmo o nome dele? Kelsey, sentado l fora naquele caco velho, ele e o companheiro, Michaelson. Quero que recolha esses caras. Se no,
todos os grandes do mundo sabero o que aconteceu comigo. Se o fizer, poder contar a seu favor. -- Voc est... ainda digo que est blefando! -- Toque a sua maquininha
de grampeamento, Alf. Veja se estou falando a verdade. Esperarei para ver o carro ir embora. Clique. Ela desligou. Brummel voou ao armrio e abriu as portas. Tirou
o gravador. Ele hesitou, pensou furiosamente, ficou imvel por um momento. Empurrando o gravador de volta ao armrio, bateu com fora as portas, e disparou

pelo corredor  sala de rdio-comunicao. O operador ainda estava mastigando seu sanduche. Brummel estendeu o brao sobre o colo dele e agarrou o microfone, ligando
o transmissor. -- Unidades dois e trs, Kelsey, Michaelson, recolher. Repito: recolher imediatamente. O operador ergueu os olhos, feliz. -- Ei! O que aconteceu?
Krueger se entregou? Alf Brummel nunca foi bom em retrucar quando as perguntas eram idiotas ou fora de hora. Ele disparou pelo corredor  recepo e discou o nmero
do tribunal. -- Quero falar com Dunlop. Dunlop atendeu. -- Jimmy, Hogan e Busche vo sair sob minha responsabilidade pessoal. Solte-os. Jimmy fez-lhe mais algumas
perguntas idiotas. -- Apenas faa o que mandei e deixe a papelada por minha conta! Agora, v! Ele bateu o telefone e desapareceu escritrio adentro. A recepcionista
continuava a olhar pela janela a todas aquelas pessoas. Estavam recomeando a cantar. O som era bonito. Berenice, Susan e Kevin esperaram nervosos que uma coisa
muito boa ou muito ruim acontecesse. Ou Brummel acederia ou eles estariam ficando altos em gs lacrimogneo dentro de minutos. Mas ento ouviram a partida de um
motor do outro lado da rua. -- Ei! -- disse Kevin. Susan ainda retorcia as mos. Berenice apenas observava, sem poder acreditar numa coisa boa muito prontamente.
O velho carro se foi, carregando Kelsey e Michaelson.

Berenice no quis esperar. -- Vamos arrumar toda esta coisa na mala e chegar ao tribunal. Marshall vai precisar pr as novidades em dia. -- No precisa dizer isso
duas vezes! -- disse Kevin. Tudo o que Susan conseguiu dizer foi: -- Obrigada, Deus. Obrigada, Deus! Alf Brummel ouviu apenas um breve segmento de uma conversa telefnica,
aquela entre Berenice e o Secretrio da Justia do Estado Norm Mattily. Ele conhecia a voz de Mattily, e, sim, fazia perfeito sentido o fato de Eldon Strachan ter
procurado Mattily, se Strachan tivesse alguma informao genuinamente digna de confiana. Brummel praguejou alto. Informao de confiana! Tudo o que Mattily precisava
fazer era encontrar essa lindeza de gravador ali, ligado ilegalmente a todos aqueles telefones! Um zumbido indicou um chamado da recepcionista. Esticando o brao
 escrivaninha, ele apertou o boto do interfone. -- Sim? -- disse, muito irritado. -- Juleen Langstrat na linha dois -- disse ela. -- Pegue o recado! -- disse ele,
e desligou o seu boto. Ele sabia por que ela estava chamando. Ia amolarlhe a pacincia, lembr-lo de estar na reunio daquela tarde que envolvia Sandy Hogan. Ele
abriu a outra porta do armrio e tirou os livros e as fitas gravadas. Mas afinal onde poderia esconder todo aquele negcio? Como poderia destru-lo?

O sinal da recepcionista zumbiu novamente. -- O qu? -- Ela insiste em que o senhor fale com ela. Ele apanhou o aparelho, e a voz oleosa de Langstrat veio pela linha.
-- Alf, est pronto para hoje? -- Sim -- respondeu ele impaciente. -- Ento faa o favor de vir assim que puder. Precisamos preparar as energias das salas antes
que a reunio comece, e quero ter todas as coisa em unssono antes que Shawn chegue com Sandy. -- Ento voc realmente vai envolv-la nisto? -- Apenas como garantia,
naturalmente. Marshall Hogan foi afastado, mas precisamos estar certos de que continuar assim, pelo menos at que todos os nossos esforos e vises tenham-se cumprido
e a cidade de Ashton tenha empreendido o salto vitorioso para dentro da Percepo Universal --. Ela fez uma pausa para saborear o pensamento por um instante, e ento
perguntou sem grande interesse: -- E teve alguma notcia de nossa ladra fugitiva? Antes mesmo de saber por que o fazia, ele mentiu: -- No, nada ainda. Ela est
afastada. -- Certamente. Garanto que ser encontrada logo, e depois de hoje ela no ter nenhuma esperana. Ele nada respondeu. Estava subitamente distrado por
um pensamento que o inundou como uma onda de trs metros: Alf, ela acreditou em voc. Ela realmente no sabe! -- Voc vem imediatamente, Alf? -- ela perguntou e
ordenou ao mesmo tempo. Ela no sabe o que aconteceu, era tudo o que

Brummel conseguia pensar.  vulnervel! Eu sei algo que ela no sabe! -- Irei j, j -- disse ele, mecanicamente. -- At j -- disse ela com finalidade autoritria,
e desligou. Ela no sabe! Acha que est indo tudo bem e que no haver encrenca! Acha que conseguir fazer tudo isso sem ser apanhada! Brummel permitiu que seus
pensamentos voassem enquanto considerava suas opes, a informao exclusiva que acabara de receber, e o estranho senso de poder que ela lhe dava. Sim, estava tudo
praticamente acabado, e era provvel que ele afundasse... mas tinha o poder de levar aquela mulher, aquela aranha, aquela bruxa, para baixo consigo! De repente,
j no sentia desejo de destruir as fitas e os livros. As autoridades que os encontrassem. Que encontrassem tudo. Talvez ele at lhes mostrasse. Quanto ao Plano,
se Kaseph e sua Sociedade so to oniscientes e to invencveis, por que deveria voc contar-lhes coisa alguma? Eles que descubram por si mesmos! "No seria bom
ver a sua cara Juleen suando uma vez na vida?" perguntou Lucius. -- Seria bom ver Juleen suando uma vez na vida -- murmurou Brummel.

38
Hank e Marshall saram pela porta do poro do tribunal e se acharam sozinhos. Seus amigos ainda estavam congregados  porta do departamento de

polcia, cantando, conversando, orando, demonstrando. -- O Senhor seja louvado! -- foi tudo o que Hank pde dizer. -- Oh, Marshall. eu acredito, acredito -- respondeu

Foi John Coleman quem primeiro os viu e soltou um viva. Os outros todos volveram as cabeas e ficaram chocados e exultantes. Saram correndo na direo de Hank e
Marshall, como galinhas  rao. Mas abriram caminho para Mary, chegando mesmo a dar-lhe empurrezinhos carinhosos quando ela passava por eles. O Senhor era to
bom! Ali estava a querida Mary de Hank, chorando e abraando-o e sussurrando-lhe que o amava, e ele mal podia acreditar que isso estava realmente acontecendo. Jamais
se sentira to separado dela. -- Voc est bem? -- perguntava ela repetidas vezes, e ele respondia: -- Estou bem, muito bem. --  um milagre -- disseram os outros.
-- O Senhor respondeu s nossas oraes. Ele os tirou da priso da mesma forma que a Pedro. Marshall compreendeu quando praticamente o ignoraram. Aquela era a hora
de Hank. Mas o que estava acontecendo ali adiante? Atravs das cabeas, ombros e corpos, Marshall notou Alf Brummel escapulindo rapidamente pela porta da frente,
entrando no carro e partindo a toda. Aquele nojento. Se eu fosse ele, faria o mesmo. E ali vinha... No! No, no podia ser! Marshall ps-se a abrir lentamente caminho
entre a multido, espichando o pescoo a fim de certificar-se de que os passageiros no carro que acabava de chegar eram quem

pareciam ser. Sim! Berenice at lhe acenava! E l estava Weed, vivo! Aquela outra moa, a que estava dirigindo... no podia ser! Mas tinha de ser! Nada menos que
Susan Jacobson, voltando dentre os mortos! Marshall conseguiu passar por entre os admiradores de Hank e caminhou com passos rpidos, o rosto aberto em largo sorriso,
ao local onde Susan estava acabando de estacionar o carro. Minha nossa! Quando essa gente ora, Deus escuta! Berenice explodiu do carro e jogou os braos em torno
dele. -- Marshall, voc est bem? -- disse ela, quase chorando. -- Voc est bem? -- revidou ele. Uma voz atrs deles disse: -- Oh, Sra. Hogan, queria muito conhec-la.
Era Hank. Marshall fitou o homem de Deus, parado ali todo sorrisos, com a esposa do lado e todo o povo de Deus atrs de si, e sentiu o mpeto do abrao deixar-lhe
os braos. Berenice deslizou flacidamente do abrao. -- Hank -- disse Marshall com o tom quebrantado que Berenice jamais o ouvira usar antes -- esta no  a minha
esposa.  Berenice Krueger, minha reprter --. Ento Marshall olhou para Berenice e disse com grande amor e respeito: --  uma tima reprter! Berenice soube imediatamente
que algo havia acontecido a Marshall. No ficou surpresa; algo tinha acontecido com ela tambm, e podia ver no rosto de Marshall e detectar em sua voz aquele mesmo
quebrantamento ntimo que ela prpria vinha sentindo. De alguma forma ela soube que aquele homem em p ao

lado de Marshall tinha algo a ver com tudo o que acontecera. -- E quem  esse seu colega de cadeia? -- perguntou ela. -- Berenice Krueger, quero apresentar-lhe Hank
Busche, pastor da Igreja da Comunidade de Ashton e meu muito recente, muito bom amigo. Ela apertou-lhe a mo, empurrando de lado todos os pensamentos e emoes.
O tempo estava passando. -- Marshall, escute com cuidado. Temos de lhe dar um curso concentrado em sessenta segundos! Hank pediu licena e retornou ao seu excitado
rebanho. Quando Berenice apresentou Susan a Marshall, ele pensou que estendia a mo a nada menos que um milagre. -- Ouvi dizer que voc havia morrido, e Kevin tambm.
-- Estou ansiosa para lhe contar a histria toda -- replicou Susan agradavelmente -- mas no momento nosso tempo  muito curto e h muita coisa que voc precisa saber.
Susan abriu o porta-malas do carro e mostrou a Marshall o contedo de sua mala arrebentada. Marshall regalou-se com cada minuto da revelao. Estava tudo ali, tudo
o que ele achou haver perdido para os dedos grudentos de Carmem e para aqueles nojentos da "Sociedade". -- Kaseph est vindo a Ashton a fim de fechar o negcio com
o conselho diretor da faculdade. s 14:00 horas os papis sero assinados e o campus da Faculdade Whitmore ser vendido em surdina  Omni S.A. -- A Sociedade, voc
quer dizer -- respondeu

Marshall. -- Claro.  uma jogada-chave. Quando faculdade cair, a cidade acabar caindo junto. a

Berenice interrompeu de chofre com as novidades a respeito de Mattily, Parker e Lemley, quanto mais o fato de Harvey Cole ter decifrado os livros de Baylor. -- E
ento, quando eles chegam? -- perguntou Marshall. -- Esperamos que a tempo para a reunio do conselho. Eu lhes disse que nos encontrassem l. -- Pode at ser que
eu me convide para a reunio. Sei que ficaro todos muito contentes em me ver. Susan tocou o brao de Marshall e disse: -- Mas precisa ser avisado de que eles tm
trabalhado sua filha Sandy. -- E no sei disso?! -- Eles podem t-la sob sua influncia neste instante;  o estilo de Kaseph, acredite. Se voc tentar alguma coisa
contra ele, pode colocar a vida de Sandy em perigo. Berenice contou a Marshall acerca de Pat, acerca do dirio, acerca do misterioso amigo chamado Thomas, e acerca
daquele fingido advogado do diabo, Shawn Ormsby. Marshall chamou: fitou-os por um instante, depois

-- Hank,  aqui que voc e a sua gente entram! Um domingo de vero em Ashton  geralmente um dos dias mais alegres e tranqilos da semana. Os fazendeiros batem papo;
os balconistas desfrutam calma nas atividades; outros comerciantes fecham suas lojas;

mames, papais, e crianas pensam em coisas agradveis para fazer e lugares interessantes aonde ir. Muitas cadeiras preguiosas de jardim so ocupadas, as ruas ficam
bem mais quietas, e as famlias geralmente se renem. Mas esse ensolarado domingo de vero no corria bem para ningum: um fazendeiro estava com uma vaca inchada
nas mos enquanto outro estava com um magneto do trator queimado que ningum parecia ter em estoque; e embora nenhum deles fosse responsvel pelos problemas do outro,
acabaram brigando. Os balconistas que trabalhavam naquele dia estavam tendo dificuldade em contar o troco, e metendo-se em discusses muito desagradveis com os
fregueses cujo troco tentavam contar. Cada comerciante nada mais desejava do que deixar seu negcio porque no importava qual fosse o seu ramo, estava condenado
a fracassar mais cedo ou mais tarde. Muitas esposas estavam nervosas e queriam ir a algum lugar, qualquer lugar, no sabiam aonde; seus maridos faziam a crianada
entrar nas peruas, em seguida as esposas no mais queriam ir, ento a crianada comeava a brigar dentro dos veculos, ento seus pais comeavam a brigar, e as famlias
no iam a parte alguma enquanto as peruas permaneciam estacionadas nas entradas de carro com berros saindo-lhes pelas janelas e as buzinas tocando. As cadeiras preguiosas
nos jardins rasgavamse debaixo dos traseiros dos donos ou simplesmente no podiam ser encontradas; as ruas estavam congestionadas com motoristas frenticos dirigindo
sem destino; os ces, aqueles sempre vigilantes ces de Ashton, latiam e uivavam e ganiam, desta feita com os plos em p, as caudas erguidas e as caras voltadas
para o leste. Caras voltadas para o leste? Havia muitas. Aqui um administrador da faculdade, ali um empregado do Correio, acol uma famlia de oleiros e teceles,
l

adiante um vendedor de seguros. Por toda a cidade, certas pessoas que conheciam um certo destino e uma certa vibrao espiritual de empatia, postavam-se caladas,
como que em adorao, os rostos voltados para o leste. E nada se movia em torno da grande rvore morta. Rafar ergueu-se do grande galho, seu trono de poder como
mestre do jogo, e, em p sobre a colina, dirigiu os maldosos olhos amarelos  cidadezinha de Ashton, ao mesmo tempo em que o squito de suas hordas de espritos
se reunia em torno dele. Seus braos musculosos se ondularam, as amplas asas negras erguer-se s suas costas como um manto real, suas jias brilharam e refulgiram
ao sol. Ele tambm voltou-se para o leste. Ele esperou at ver. Ento, seu flego foi sugado atravs das presas como um arquejar de surpresa, mas no era surpresa.
Era o mais alto tipo de excitao, uma vibrao demonaca que ele apenas raramente sentia, um fruto precioso e muito maduro a ser saboreado somente aps muito trabalho
e preparo. A mo coberta de plos pretos agarrou o cabo dourado da espada e tirou a lmina da bainha, fazendoa cantar e zumbir e tremeluzir com luz vermelhosangue.
Todo o squito dos demnios arquejou e aplaudiu quando Rafar elevou bem alto a espada, banhando todo o ajuntamento em sua sinistra luz vermelha. As asas enormes
desapareceram repentinamente em um borro e com um jato de vento e uma exploso de poder elas o elevaram ao ar, acima do vasto vale, acima da cidadezinha, a descoberto,
onde podia ser visto de qualquer parte da cidade ou de qualquer esconderijo perto dela. Ele ascendeu a grandes alturas e em seguida comeou a pairar, a espada ainda
na mo. A cabea se voltava nesta e naquela direo, o corpo girava

lentamente, os olhos corriam em redor. -- Capito dos Exrcitos Celestiais! -- bradou ele, e os ecos de sua voz estrondosa atravessaram o vale de um lado a outro
como trovo. -- Capito Tal, escute-me! Tal podia ouvir Rafar perfeitamente. Ele sabia que Rafar estava prestes a fazer um discurso, e sabia o que o guerreiro demonaco
iria dizer. Tambm vigiava o horizonte leste enquanto se mantinha escondido na floresta, seus principais guerreiros ao seu lado. Rafar continuou a olhar por toda
a parte, procurando algum sinal de seu adversrio. -- Eu, que ainda no vi seu rosto nesta nossa aventura, agora lhe mostro o meu! Fitem-no, voc e seus guerreiros!
Pois hoje coloco este rosto para sempre na sua lembrana como o rosto daquele que o derrotou! Tal, Guilo, Triskal, Krioni, Mota, Chimon, Nat, Armote, Signa, estavam
todos juntos, reunidos para esse momento, reunidos para ouvir esse longamente esperado discurso. Rafar continuou: -- Hoje coloco o nome de Rafar, Prncipe da Babilnia,
para sempre em sua lembrana como o nome daquele que permanece ousado e continua invicto! -- Rafar deu mais algumas voltas rpidas, procurando  sua volta algum
sinal de seu inimigo mortal. -- Tal, Capito dos Exrcitos Celestiais, ousar mostrar-me seu rosto? Acho que no! E ousar mesmo atacar-me! Acho que no! E voc
e seu reles ban-dinho de assaltantes se atrevero a colocar-se no caminho dos po-deres do ar? -- Rafar irrompeu num riso debochado. -- Acho que no! Fazendo uma
pausa de efeito, ele se permitiu um riso zombeteiro. -- Tem minha permisso, caro Capito Tal, para retirar-se, a fim de se poupar a angstia que o espera s

minhas mos! Concedo agora a voc e a seus guerreiros a oportunidade de partirem, pois meu pronunciamento  o de que a deciso da batalha realmente j foi feita!
Ento Rafar apontou a espada na direo do horizonte leste e disse: -- Olhe para o leste, capito. L se encontra o resultado claramente escrito! Tal e seus chefes
j estavam olhando na direo do horizonte leste, a ateno arrebatada e inabalvel, mesmo quando um mensageiro chegou voando com as novidades: -- Hank e Busche
esto livres! Eles... -- ele se deteve no meio da sentena. Seus olhos acompanharam todos os outros olhares ao leste, e ele viu o que tanto lhes prendia a ateno.
-- Oh, no! -- disse ele num sussurro. -- No, no! A princpio a nuvem tinha sido apenas um ponto distante de trevas emergindo acima do horizonte; poderia ter sido
uma nuvem de chuva, ou a chamin de uma fbrica, ou uma montanha distante escurecida pela neblina que surgia subitamente. Mas ento,  medida que se aproximava,
seus limites expandiram-se para fora como a lateral da ponta rombuda de uma flecha que emergia lentamente e se estendia devagar e com segurana de um lado a outro
do horizonte qual dossel escuro, como constante mar de trevas a bloquear o cu. A princpio um olhar direto podia cont-la; em apenas alguns minutos, os olhos tinham
de espraiar-se de um lado a outro, de uma ponta do horizonte a outra. -- Desde a Babilnia -- disse Guilo baixinho a Tal. -- Eles estavam l -- disse Tal -- cada
um deles, e agora voltaram. Olhe as fileiras da frente, voando em mltiplas camadas por cima, por baixo, e no meio.

-- Sim -- disse Guilo, observando. -- Ainda o mesmo estilo de assalto. Uma nova voz falou: -- Bem, at aqui, Tal, seu plano funcionou muito bem. Saram todos do
esconderijo, e em nmeros incontveis. Era o General. Era esperado. Tal respondeu: -- E nossa esperana  que estejam planejando uma estrondosa vitria. -- Pelo
menos o seu antigo rival est, pela sua gabolice. Tal apenas sorriu e disse: -- Meu General, Rafar gaba-se com ou sem razo. -- E o Valente? -- Pelo formato da nuvem,
eu diria que ele a precede por apenas poucos quilmetros. -- Tendo possudo Kaseph? -- Seria esse o meu palpite, senhor. O General olhou cuidadosamente para a nuvem
que se aproximava, agora cor do negro profundo do carvo, e espalhada como um dossel atravs do cu. O zumbir grave e ressonante de asas apenas comeava a se fazer
ouvir. -- Qual  a nossa posio? -- perguntou o general. Tal respondeu: -- Estamos preparados. Ento, quando o som das asas cresceu e a sombra da nuvem comeou
a cobrir os campos e fazendas alm de Ashton, um tom avermelhado ps-se a permear a nuvem como se ela estivesse queimando por dentro. Guilo. -- Eles desembainharam
as espadas -- disse

Por que estou com tanto medo? perguntava-se Sandy. C estava ela, segurando a mo de Shawn, subindo os degraus da frente do Prdio da Administrao, prestes a ficar
conhecendo algumas pessoas que tinham de ser as verdadeiras chaves do seu destino, os degraus que a levariam  verdadeira satisfao espiritual,  mais elevada percepo,
talvez mesmo  autorealizao, e contudo... toda a conversa no conseguia remover um temor enervante que sentia bem no ntimo. Algo simplesmente no estava certo.
Talvez fosse apenas o nervosismo normal que algum sentiria antes do casamento ou de qualquer outro evento muito significativo, ou talvez fosse aquele ltimo resqucio
de sua velha e abandonada herana crist que ainda a segurava, retendo-a. Fosse l o que fosse, ela tentou ignorar, vencer pelo raciocnio, usar mesmo as tcnicas
de descontrao que havia aprendido na aula de ioga oferecida pela faculdade. Vamos, Sandy... respirao estvel concentre, concentre. .. realinhe suas energias.
agora...

Pronto, estava melhor. No quero que Shawn ou a professora Langstrat ou qualquer outro pense que no estou pronta para fazer parte do grupo. Enquanto o elevador
subia ela falou e tagarelou e tentou rir, e Shawn ria junto, e quanto chegaram ao terceiro andar e  porta que trazia o nmero 326, ela achou que estava pronta.
Shawn abriu a porta, dizendo: -- Voc gostar muito disto -- e entraram. Ela no os viu. Aos olhos de Sandy, essa era apenas a sala de descanso do pessoal da faculdade,
um cmodo muito agradvel recoberto por macio tapete,

com sofs de couro e mesinhas de centro pesadas, em estilo rstico. Mas a sala encontrava-se lotada, muito densa e hediondamente povoada, e os olhos amarelos fitavam-na
de maneira penetrante e fixa de todos os lados, de cada canto e cadeira e parede. Esperavam por ela. Um deles sibilou asmaticamente: -- Al, minha filha. Sandy estendeu
a mo a Oliver Young. -- Pastor Young, que surpresa agradvel -- disse ela. Outro emitiu uma risadinha longa e babosa e disse: -- Que bom voc ter vindo. Sandy deu
um abrao na Professora Juleen Langstrat. Ela correu os olhos pelo aposento e reconheceu muitos dos professores da faculdade, alguns dos seus prprios professores,
e mesmo alguns homens de negcios e operrios da cidade. L, no canto, encontrava-se o novo dono da antiga mercearia do Joe. Essas trinta pessoas ofereciam uma perfeita
amostra do que Ashton tinha de melhor. Os espritos estavam todos prontos e esperando. Engano exibiu-a como se fosse um trofu. Madeline encontrava-se presente,
sorrindo maldosa, e ao seu lado achava-se outro cmplice demonaco, com volta aps volta de pesadas correntes brilhantes enroladas nas mos ossudas. Na nuvem, havia
mirades de demnios altivos, selvagens, embriagados com a antecipao de vitria, chacina, poder e glria sem precedentes. Em baixo deles, a cidade de Ashton era
mero brinquedo, um vilarejo to pequeno num territrio to vasto. Camada

aps camada de espritos adiantavam-se num zumbido constante, e mirades de olhos amarelos espiavam o prmio l embaixo. A cidade estava quieta e desprotegida. Baal
Rafar fizera bem o seu trabalho. Uma srie de guinchos speros saram das fileiras da frente da nuvem; os generais davam ordens. Imediatamente, os demnios comandantes
nas orlas da nuvem transmitiram as ordens aos enxames atrs de cada um deles, e  medida que os comandantes deixavam a nuvem e comeavam a voar para baixo, seguidos
de seus incontveis esquadres, as laterais da nuvem principiaram a afrouxar e a se estender na direo do cho. Na sala de conferncias, ampla e formalmente mobiliada,
no terceiro andar, os membros do conselho comearam a reunir-se. Eugene Baylor encontrava-se l com uma pilha de livros e relatrios financeiros, fumando charuto
e sentindo-se animado. Dwight Brandon parecia um tanto sombrio, mas no o suficiente para manter-se calado. Delores Pinckston no se sentia nada bem, e apenas desejava
que o negcio todo acabasse. Os quatro advogados de Kaseph, muito profissionais, afiados, entraram com um sorrisinho. Adam Jarred entrou casualmente e parecia mais
preocupado em ir pescar depois do que com o negcio que estariam conduzindo. De vez em quando, algum consultava o relgio de pulso ou olhava para o enfeitado relgio
de parede. Logo seriam 14:00 horas. Alguns estavam-se sentindo um pouco nervosos. Os espritos malignos que haviam entrado no aposento tambm estavam-se sentindo
nervosos, percebiam que logo estariam na presena do Valente. Essa seria a primeira vez para eles.

A longa limusine preta de Kaseph, dirigida por motorista particular, adentrou os limites da cidade e virou na Rua da Faculdade. Kaseph, sentado em esplendor real
no banco de trs, carregava a pasta no colo e lanava olhares cobiosos atravs do vidro esfumaado das janelas  linda cidade que atravessavam. Ele fazia planos,
vislumbrando mudanas, decidindo o que manteria e o que removeria. O mesmo fazia o Valente, sentado dentro dele, que riu seu riso grave, gorgolejante. Kaseph riu
da mesma forma. O Valente no conseguia lembrar-se de quando estivera to contente e to orgulhoso. A nuvem estava frouxa nas beiradas enquanto continuava a adiantar-se,
e Tal e sua companhia continuavam a observar de seu esconderijo. -- Esto abaixando seu permetro -- disse Guilo. -- Sim -- disse Tal, fascinado. -- Como sempre,
tencionam conter a cidade por todos os lados antes de chegarem a descer sobre ela. Enquanto olhavam, as laterais da nuvem caram como negras cortinas que gradualmente
envolveram a cidade; demnios deslizavam a fim de ocupar seus lugares como tijolos numa parede. Cada espada estava desembainhada, cada olho cauteloso. -- Hogan e
Busche? -- perguntou Tal a um mensageiro. -- Eles esto-se dirigindo a seus lugares, juntamente com o Remanescente -- respondeu o mensageiro. A limusine de Kaseph
deslanchou na direo da

faculdade, e Ka-seph pde ver os imponentes prdios de tijolos vermelhos despontando entre os bordos e carvalhos que cercavam o campus. Ele olhou ao relgio. Chegaria
bem na hora. Quando a limusine passou por uma interseco, uma viatura policial verde, sem marca identificadora, entrou na Rua da Faculdade e ps-se a segui-la.
Seu motorista era o Delegado de Polcia Alf Brummel. Parecia sombrio e muito nervoso. Ele sabia a quem estava seguindo. Quando a limusine, e a seguir a viatura,
passaram por outra interseco, o semforo mudou e toda uma fila de carros dobrou  direita, entrando na Rua da Faculdade, seguindo atrs dos outros dois. O primeiro
veculo a fazer a curva foi o marrom. -- Ora, ora! -- disse Marshall quando ele, Hank, Berenice, Susan e Kevin perceberam os dois carros que estavam seguindo. --
Voc reconheceu Kaseph? -- perguntou Susan a Berenice. -- Sim, o bom velhinho em pessoa. Marshall ficou em dvida: -- Mas o que est acontecendo aqui? Parece que
a reunio ainda est em p, apesar de tudo. Berenice falou: -- Talvez Brummel no me tivesse acreditado, afinal de contas. -- Oh, acreditou, sim. Ele fez tudo o
que voc lhe disse que fizesse. -- Ento por que Kaseph no desmarcou a reunio? Ele est-se dirigindo diretamente para ela. -- Ou Kaseph pensa que  intocvel,
ou Brummel nada lhe disse. Hank olhou para trs deles.

-- Parece que todos conseguiram atravessar o semforo. Os outros olharam para trs. Sim, l estava Andy, dirigindo sua perua Volkswagen lotada de crentes que confiavam
na orao, e l vinha a caminhonete de Cecil Cooper com a cabina e a carroceria cheias de gente. A perua de John e Patty Coleman seguia logo atrs, e nalgum lugar
l adiante vinha o antigo pastor, James Farrel, dirigindo um furgo de bom tamanho, transportando Mary, e vov Duster e diversos outros irmos. Marshall olhou para
a frente, e depois para trs, e ento concluiu: -- Que vai ser uma reunio e tanto, isso vai.

39
Seguindo as instrues de Juleen Langstrat, todos os mdiuns sorridentes, juntamente com Sandy e Shawn, acomodaram-se confortavelmente nas cadeiras e sofs macios,
dispostos em tosco crculo em volta da sala. -- Este  um dia significativo -- disse Langstrat calidamente. -- Sim,  verdade! -- disse Young. Os outros tambm concordaram.
Sandy devolveulhes os sorrisos. Estava muito impressionada com a reverncia que todos pareciam ter por essa extraordinria mulher, essa extraordinria pioneira.
Langstrat assumiu a posio de loto na grande cadeira em que estava sentada  testa do grupo. Diversos outros que tinham o desejo e a flexibilidade imitaram-na.
Sandy apenas descontraiu-se onde estava,

acomodando-se no sof e reclinando a cabea de encontro ao encosto. -- Nosso propsito aqui  o de combinar nossas energias psquicas a fim de garantir o sucesso
do empreendimento de hoje. Nossa to esperada meta breve ser realizada: o campus da Faculdade Whitmore, e depois dele toda a cidade de Ashton, vo tornar-se parte
da Nova Ordem do Mundo. Todos na sala comearam a aplaudir. Sandy tambm aplaudiu, embora no soubesse de fato de que Langstrat falava. No obstante, era algo que
parecia vagamente familiar. Fora seu prprio pai quem havia dito algo acerca da existncia de gente que desejava tomar a cidade? Oh, mas ele no podia ter falado
sobre a mesma coisa! -- Tenho um maravilhoso novo Mestre Elevado para lhes apresentar -- disse Langstrat, e os rostos em toda a volta da sala se iluminaram com excitao
e expectativa. -- Ele viveu muito e viajou a lugares longnquos, e adquiriu a sabedoria de diversas eras. Veio a Ashton a fim de supervisionar este projeto. -- Damos-lhe
as boas vindas -- disse Young. -- Como se chama? -- Seu nome  Rafar.  um prncipe da Antigidade, e j reinou sobre a antiga Babilnia. Viveu muitas vidas, e agora
retorna com o propsito de nos permitir beneficiar com a sua sabedoria --. Langstrat fechou os olhos e respirou profundamente. -- Chamemo-lo, e ele nos falar. Sandy
podia sentir um mal-estar na boca do estmago. Achou que estava gelada. Os arrepios nos braos eram suficientemente reais. Mas ela colocou essas sensaes sob controle,
fechou os olhos, e comeou sua prpria descontrao, ouvindo atenta o som da voz de Langstrat.

Os outros tambm se descontraram e entraram em transe profundo. Durante um momento, a sala ficou em silncio exceto pelos profundos flegos inalados e exalados
por todos os presentes. Ento o nome se formou nos lbios de Langstrat. -- Rafar. . . Todos ecoaram: -- Rafar. . . Langstrat chamou o nome outra vez, e continuou
chamando, e os outros deixaram que seus pensamentos se afunilassem quele nico nome enquanto o repetiam baixinho. Rafar estava em p ao lado da grande rvore morta,
observando exultante a nuvem espalhar-se sobre a cidade. Ao som do chamado, seus olhos se entrefecharam com uma expresso muito astuciosa e sua boca distendeu-se
lentamente num riso que ps as presas  mostra. -- As peas esto-se encaixando agora -- disse. Voltando-se para um auxiliar, perguntou: -- Alguma notcia do Prncipe
Lucius? O auxiliar relatou satisfeito: -- O Prncipe Lucius diz que averiguou todas as frentes e no encontrou nenhum problema ou resistncia. Rafar agitou dez demnios
monstros com um repassar da asa, e eles se reuniram ao seu lado num instante. -- Venham -- disse ele -- terminemos este negcio. As asas de Rafar agitaram-se para
baixo, e ele arremeteu ao ar, seus dez capangas seguindo-o como guarda de honra real. Bem acima, a nuvem estendia-se

pelo cu como um dossel opressivo a bloquear a luz, sua sombra do mal e das trevas espirituais caindo sobre a cidade. Enquanto Rafar deslizava sobre Ashton num arco
elevado, podia olhar para cima e ver as mirades de olhos amarelos e as espadas rubras acenando em saudao. Ele acenou de volta com a prpria espada, e eles soltaram
brados de jbilo, suas incontveis espadas agitando-se para baixo como um campo invertido de trigo rubro agitado pelo vento. Eles encheram o ar de enxofre.  frente
e muito abaixo, encontrava-se o campus Whitmore, a mais madura das ameixas. Rafar diminuiu a rotao das asas e comeou a descer na direo do Prdio da Administrao.
Enquanto descia, viu a grande limusine que levava o Valente subir pela entrada circular e parar em frente da porta do prdio. O quadro encheu-o de excitao. Chegara
o momento! Ele e os demnios acompanhantes sumiram atravs do teto do prdio no exato momento em que o Valente e seu hospedeiro humano emergiam do carro.. . e um
pouco antes da hora em que veria uma fila de carros no muito distantes daquela limusine, agora encontrando lugares de estacionamento aqui, ali e em toda a parte.
Alf Brummel saiu de chofre do seu carro. Postouse apenas um instante, criando coragem, e em seguida dirigiu-se  porta principal do prdio com passos rgidos, nervosos.
Marshall estacionou seu carro, e os cinco ocupantes desceram.  volta toda podiam ouvir portas de carros batendo enquanto o Remanescente encontrava lugares para
estacionar e ento se reuniam. -- Brummel no parece muito contente -- observou Marshall. Os outros quatro olharam a tempo de ver Brummel entrar pela porta da frente.

-- Talvez ele v avisar Kaseph -- disse Berenice. -- E ento, onde esto os poderosos? -- perguntou Marshall. nossos amigos

-- No se preocupe... pelo menos no muito. Eles disseram que estariam aqui. Susan disse: -- Estou certa de que a reunio dever ocorrer na sala de conferncia do
terceiro andar.  onde o conselho diretor geralmente se rene. -- E onde posso encontrar Sandy? -- perguntou Marshall. Susan meneou a cabea. -- Isso no sei. Eles
se apressaram na direo do prdio, e de todos os lados o Remanescente convergiu  escadaria da frente. Lucius podia sentir a tenso no ar, como se fosse uma enorme
argola de elstico esticada ao limite e prestes a arrebentar-se. Enquanto descia silenciosamente do cu e pousava no teto do prdio Ames Hall, do outro lado do ptio
do Prdio da Administrao, ele podia ver que a nuvem ainda estava abaixando seu permetro, estirando espessa cortina em volta de toda a cidade. A atmosfera tornava-se
pesada e sufocante com a presena de tantos espritos ftidos. De sbito, ele ouviu frentico adejar atrs de si e voltando-se, viu um demoniozinho sentinela, vil
criatura, um fofoqueiro, alando vo a fim de lhe falar. -- Prncipe Lucius, h gente reunindo-se l embaixo! Eles no so dos nossos! So santos de Deus! -- arquejou
a coisinha. Lucius irritou-se.

-- Eu tenho olhos, insetozinho! -- sibilou ele. -- No lhes preste ateno. -- Mas e se eles comearem a orar? Lucius agarrou o demoniozinho por uma asa, e ele ps-se
a esvoaar em patticos e diminutos crculos da ponta do brao do prncipe. -- Voc, fique calado! -- Rafar precisa saber! -- Silncio! A criaturinha aquietou-se,
e Lucius a levou  orla do teto para breve lio. -- E da se eles orarem? -- disse Lucius em tom paternal. -- Isso os ajudou at agora? Atrapalhou um pouco que
seja o nosso progresso? E voc j viu o poder e a fora de Baal Rafar, no viu? -- Lucius no pde evitar o tom sarcstico com o qual acrescentou: -- Voc sabe que
Rafar  todo-poderoso, e imbatvel, e no precisa da nossa ajuda! -- O demoniozinho ouvia com os olhos esbugalhados. -- No amolemos o grande Baal Rafar com nossas
preocupaes insignificantes! Ele pode cuidar deste empreendimento... sozinho! Tal permaneceu firme e continuou a vigiar. Guilo foi ficando cada vez mais irrequieto,
andando de um lado para outro, olhando de uma ponta da cidade  outra. -- Logo o permetro estar inteiramente circunscrito -- disse ele. -- Eles tero envolvido
a cidade toda, e no haver escape. -- Escape? -- disse Tal, o sobrolho erguido. -- Puramente uma considerao ttica -- replicou

Guilo, dando de ombros. -- O momento est-se aproximando muito rpido agora -- disse Tal, olhando na direo da faculdade. -- Em apenas alguns minutos, todos os
jogadores estaro em seus lugares. Os demnios na sala de conferncia podiam sentilo chegando, e prepararam-se. Os plos de seus braos, nucas e costas se arrepiaram.
Uma escurido, uma rastejante nuvem de maldade vinha descendo pelo corredor. Rapidamente, cada qual se inspecionou a fim de assegurar-se de que nada estivesse fora
do lugar, que sua aparncia estivesse impecvel. A porta se abriu. Em respeito e homenagem, eles se postaram rgidos. E l estava ele, o Valente, que nada ficava
a dever ao mais horrendo pesadelo. -- Boa tarde a vocs -- disse ele. -- Boa tarde ao senhor -- responderam a Alexander Kaseph os diretores e advogados enquanto
ele entrava na sala e comeava a apertar-lhes as mos. Alf Brummel no tinha o menor desejo de encontrar-se com Alexander Kaseph. At esperou a fim de tomar um elevador
diferente. Quando o elevador se deteve no terceiro andar, ele espiou para ver se havia algum por l antes de sair. Somente depois de ter ouvido o estalido que a
grande porta da sala de conferncias mais adiante no corredor fez ao fechar-se foi que se ps a caminhar pelo corredor, dirigindo-se muito silencioso  Sala 326.
Ele se deteve por um momento  porta, escutando atentamente. Estava muito quieto l dentro. A sesso

devia estar em progresso. Muito devagar, ele girou a maaneta e abriu a porta apenas o suficiente para enxergar dentro do aposento. Sim, l estava a Langstrat meditando,
os olhos cerrados. Era a nica com quem Brummel se preocupava, e no momento ela no estava olhando. Entrando na sala silenciosamente, ele encontrou uma cadeira na
metade do crculo que rodeava Langstrat. Correu os olhos  sua volta, avaliando a situao. Sim, estavam chamando um certo guia esprito. Ele jamais ouvira esse
nome especfico antes. Essa entidade devia ser um novo personagem trazido ao projeto desse dia. Oh, no. L estava Sandy Hogan, tambm meditando. Ela tambm estava
chamando o nome. Bem, Brummel, o que voc faz agora? No lado de fora, o Remanescente estava pronto para receber ordens. Hank e Marshall deram-lhes um muito resumido
relatrio da presente situao, e a seguir Hank concluiu: -- Ns de fato no sabemos o que vamos encontrar l dentro, mas sabemos que precisamos entrar, ao menos
para ver se conseguimos localizar Sandy. No h dvida de que esta  uma batalha espiritual, por isso sabem o que todos tm de fazer. Todos continuou: sabiam, e
estavam prontos. Hank

-- Andy, gostaria que voc, Edith e Mary tomassem conta aqui e dirigissem as oraes e a adorao. Eu entrarei com Marshall e os outros. Marshall conferenciou com
Berenice. -- Fique aqui para ver quando os nossos visitantes chegarem. Ns outros entraremos e

tentaremos descobrir onde essa reunio est ocorrendo. Marshall, Hank, Kevin e Susan entraram no prdio. Berenice dirigiu-se a um lugar vazio nos degraus e sentou-se
para vigiar e esperar. No podia deixar de observar o Remanescente. Havia algo a respeito daquelas pessoas que lhe trazia uma sensao muito familiar, e muito...
bem, muito maravilhosa. Rafar e seus dez acompanhantes haviam estado na sala por um bom tempo a esta altura, apenas ouvindo e observando. Afinal, Rafar chegou por
trs de Langstrat e cravou bem fundo as garras no crnio da mulher. Ela se contorceu e pareceu sufocada por um instante e ento, aos poucos, de forma horrenda, sua
fisionomia assumiu indubitavelmente as expresses do prprio Prncipe da Babilnia. -- Deveeeeras! -- disse a voz grave e gutural de Rafar saindo da garganta de
Langstrat. Todos no aposento se estremeceram. Diversos olhos se abriram com um sobressalto, e depois se arregalaram ao darem com Langstrat, os olhos esbugalhados,
os dentes  mostra, as costas arqueadas como um leo de bote armado. Brummel s podia encolher-se e desejar poder desaparecer na cadeira antes que aquela coisa o
notasse. Mas ela estava fitando Sandy, babando. -- Deveeeeras! -- disse novamente a voz. -- Vocs se reuniram a fim de verem seu sonho verdadeiramente realizado?
Ser feito! -- A criatura sentada na cadeira apontou um dedo torto a Sandy. -- E quem  essa nova participante na busca da sabedoria oculta? -- S... Sandy Hogan
-- respondeu ela, os olhos ainda fechados. Estava com medo de abri-los. -- Fiquei sabendo que voc tem andado por

muitos caminhos com sua instrutora Madeline. -- Sim, Rafar,  verdade. -- Desa dentro de si de novo, Sandy Hogan, e Madeline a encontrar a. Esperaremos. Sandy
teve apenas uma frao de segundo em que perguntar-se como conseguiria descontrair-se o suficiente para chegar a um estado alterado. Ento um esprito limboso atrs
dela, com cara de morte, agarroulhe a cabea com a mo ossuda, e ela afundou imediatamente. Seus olhos rolaram para cima, ela murchou na cadeira, e sentiu seu corpo
se dissolvendo, juntamente com seus pensamentos racionais e os temores que a incomodavam. Todas as sensaes externas comearam a se desvanecer, e ela flutuava em
puro e exttico nada. Ouviu uma voz, muito conhecida. -- Sandy -- chamou a voz. -- Madeline -- respondeu ela. -- J vou! Madeline apareceu das profundezas de um
tnel sem fim, flutuando em sua direo, os braos estendidos. Sandy dirigiu-se ao tnel a fim de encontrar-se com ela. Madeline entrou em foco, os olhos brilhantes,
o sorriso como clida luz do sol. Suas mos se encontraram e se agarraram com fora. -- Bem-vinda! -- disse Madeline. Alf Brummel viu tudo acontecer. Podia ver a
expresso abobalhada, exttica no rosto de Sandy. Eles iam tom-la! Tudo o que podia fazer era sentar-se a remexer-se e tremer e suar. Lucius flutuou silenciosamente
atravs do teto do Prdio da Administrao e pousou no terceiro andar, recolhendo as asas atrs de si. Podia ouvir Rafar berrando e se vangloriando na sala dos professores;

podia ouvir o Valente repassando os comentrios preliminares na sala de conferncia. At a, nenhum temor ou suspeita. Ouviu o elevador se abrir adiante no corredor
e depois os passos de diversas pessoas. Sim, devia ser Hogan, o co de caa, e o homem de orao, Busche, e a pessoa que o Valente mais detestaria ver com vida:
a Serva. De repente houve um agitar de asas e frentico arquejar. Um demnio arremeteu pelo corredor em sua direo, as asas vibrando, a cara cheia de terror. --
Prncipe Lucius! -- gritou ele. -- Traio! Fomos logrados! Hogan e Busche esto livres! A Serva est viva! Weed est vivo! -- Silncio! -- advertiu Lucius. Mas
o demnio apenas continuou a arenga: -- Os santos esto reunidos e orando! Precisa avisar o Baal... O palavrrio do demnio cessou abruptamente em um gorgolejar
sufocado, e ele fitou Lucius com os olhos cheios de horror e perguntas. Ele comeou a encolher. Suas garras tentavam alcanar Lucius no esforo de manter-se reto.
Lucius puxou a espada da barriga do demnio e revolveu-a num arco chamejante atravs do seu corpo evanescente. O demnio desintegrou-se, dissolvido numa lufada de
fumaa vermelha. Do lado de fora, nos degraus da frente, enquanto transeuntes olhavam e pasmavam, o Remanescente orava. Sandy podia ver outros belos seres saindo
do tnel atrs de Madeline.

-- Oh... -- perguntou ela -- quem so? -- Novos amigos -- disse Madeline. -- Novos espritos guias que a levaro cada vez mais alto. Alexander Kaseph comeou a trocar
documentos e contratos importantes com os diretores e advogados. Estavam discutindo os pequeninos detalhes que precisavam ser acertados. A maioria era de pouca importncia.
No demoraria muito. A nuvem enfim completou o cerco em torno da cidade de Ashton. Tal e sua companhia encontraram-se presos debaixo de espessa e impenetrvel tenda
de demnios. As trevas espirituais tornaram-se profundas e opressivas. Era difcil respirar. O zumbido constante de asas parecia permear todas as coisas. De repente,
Guilo sussurrou: -- Esto descendo! Todos os olhares se ergueram e puderam divisar o teto de demnios, aquele cobertor negro tinto de fervilhante vermelho e amarelo,
comeando a assentar, chegando cada vez mais perto da cidade. Logo Ashton estaria soterrada. Diversos carros estavam dobrando a Rua da Faculdade. O primeiro deles
levava o Promotor Municipal Justin Parker, o segundo Eldon Strachan e o Secretrio da Justia Norm Mattily, o terceiro Al Lemley e trs agentes da polcia federal.
Quando passavam por uma interseco, um quarto veculo dobrou  direita e juntou-se ao cortejo. Esse era o carro que transportava o fiel e leal contador Harvey Cole,
com considervel pilha de papis ao seu lado no assento.

Tal segurava agora uma trombeta dourada na mo, agarrando-a com muita fora, cada msculo e cada tendo retesados. -- Preparem-se! -- ordenou ele.

40
Marshall, Hank, Susan e Kevin caminharam silenciosos pelo corredor,  escuta, tentando ouvir qualquer som, e examinando os nmeros em todas as portas. Susan gesticulou
na direo da sala de conferncia, e eles se detiveram logo do lado de fora. Susan reconheceu a voz de Kaseph. Com a cabea, acenou afirmativamente aos outros. Marshall
segurou a maaneta. Com um gesto, indicou aos outros que esperassem. Ento abriu a porta e entrou. Kaseph estava sentado  ponta da grande mesa de conferncia, e
os diretores e os quatro advogados em torno dela. Os demnios presentes na sala imediatamente desembainharam suas espadas e encostaram-se s paredes. No apenas
era esse o inesperado jornalista, como tambm vinha acompanhado de dois guerreiros celestiais com cara de malvados, um enorme rabe e um africano feroz que pareciam
mais do que prontos para a briga! O Valente sabia que isso queria dizer encrenca, mas... nem tanta assim. Olhou os intrusos desafiadoramente, sorrindo, e disse:
-- E afinal quem  voc? -- O nome  Marshall Hogan -- disse Marshall a Kaseph. -- Sou o redator do Clarim de Ashton... isto , assim que prove s pessoas certas
que ainda tenho direitos de proprietrio. Mas pelo que entendo voc e eu temos muito a ver um com o outro, e j era hora de nos conhecermos.

Eugene Baylor no estava gostando nem um pouco da cara da coisa, nem tampouco o estavam os outros. Estavam mudos, e alguns pareciam ratos assustados que no tinham
para onde correr. Todos sabiam onde Hogan devia estar, mas agora, de sbito, chocantemente, ele estava no pior lugar possvel: ali! Os olhos do Valente assumiram
um olhar fixo e gelado, e os demnios que o assistiam fortaleceram-se com o pensamento de que o Valente era invencvel e diabolicamente esperto. Ele saberia o que
fazer! -- Como chegou aqui?-- perguntou Kaseph por todos os presentes. -- Tomei o elevador! -- foi a resposta brusca de Marshall. -- Mas agora eu tenho uma pergunta
a lhe fazer. Quero a minha filha, e a quero s e salva. Faamos um trato, Kaseph. Onde est ela? Kaseph e o Valente apenas riram zombeteiros. -- Trato, diz voc?
Voc, um mero homem, deseja fazer um trato comigo? -- Kaseph lanou umas olhadelas laterais  sua equipe de advogados e acrescentou: -- Hogan, voc no tem idia
do tipo de poder com que est tratando. Os demnios tambm deram risadinhas abafadas. Sim, Hogan, ningum pode se meter com o Valente! Nat e Armote no estavam
rindo. -- Oh, no -- disse Marshall. --  a que voc se engana. Sei, sim, com que tipo de poder estou lidando. Tive umas lies timas em todo este negcio, e umas
boas palestras do meu amigo aqui. Marshall abriu a porta e Hank entrou, juntamente com Krioni e Triskal, desta vez no sujeitos a ordens de manter a paz.

O Valente deu um pulo, o queixo pontudo caindo. Os demnios na sala comearam a tremer e tentaram esconder-se atrs das espadas. -- Calma, calma! -- disse um dos
advogados. -- Eles nada so! Mas o Valente pde sentir a presena do Senhor Deus entrar no aposento com esse homem. O demnio monarca sabia quem ele era. -- Busche!
O homem de orao! E Hank soube com quem se defrontava. O Esprito gritava muito alto no corao de Hank, e aquela cara... -- O Valente, presumo! -- disse Hank.
Sandy perguntou novamente a Madeline: -- Madeline, aonde estamos indo? Por que est me agarrando tanto? Madeline no respondia mas continuava a puxar Sandy cada
vez mais para dentro do tnel. Os amigos de Madeline cercavam Sandy, e no pareciam nada bonzinhos ou delicados. Empurravam-na, agarrando-a, forando-a a continuar.
Suas unhas eram afiadas. As pessoas em volta da mesa de conferncia estavam chocadas e perplexas, encontrando-se de sbito na presena de hedionda criatura; jamais
haviam visto expresso como essa no rosto de Kaseph, e jamais haviam ouvido uma voz to malvola. Kaseph ergueu-se da cadeira, a respirao sibilando atravs dos
dentes, os olhos esbugalhados, as costas arqueadas, os punhos fechados. -- Voc no me pode derrotar, homem de orao! -- berrou o Valente, e os demnios ao seu
redor agarraram-se com temerria esperana a essas palavras. -- Voc no tem poder! Eu j o derrotei!

Marshall e Hank fincaram p, inflexveis. J haviam-se defrontado com demnios antes. Isto nada tinha de novo ou de surpreendente. Os advogados de Kaseph no conseguiam
pensar em nada para dizer. Marshall estendeu a mo e abriu a porta. Com a cabea erguida e o rosto cheio de determinao, Susan Jacobson, a Serva, entrou no aposento,
seguida pelo irado Kevin Weed, e mais quatro guardas bem altos. A sala estava ficando lotada e tensa. -- Ol, Alex -- disse Susan. Os olhos de Kaseph estavam cheios
de choque e temor, mas ainda assim arquejou e tartamudeou: -- Quem  voc? No a conheo. Nunca a vi antes. -- No diga nada, Alex -- aconselhou-o um advogado. Hank
adiantou-se. Era hora da batalha. -- Valente -- disse Hank em voz firme e resoluta -- em nome de Jesus, eu o repreendo! Repreendo-o e ato-o! Madeline no a soltava!
Suas mos pareciam de ao gelado enquanto ela ia puxando Sandy. O tnel estava ficando escuro e frio. -- Madeline! -- gritou Sandy. -- Madeline, o que est fazendo?
Por favor, solte-me! Madeline mantinha o rosto voltado para a frente e no fitava Sandy. Tudo o que a mocinha podia ver eram os longos e cados cabelos loiros. As
mos de Madeline eram duras e frias. Estavam machucando os pulsos de Sandy, os dedos cravados na carne. Sandy gritou desesperada: -- Madeline! Madeline, por favor,
pare! -- De

sbito, os outros espritos guias a comprimiram por todos os lados. Estavam prensando-a, e suas mos de ao a feriam. -- Por favor, no me est ouvindo? Faa-os
parar! Madeline voltou a cabea afinal. Seu couro era cor-de-carvo e ressecado. Os olhos eram enormes globos amarelos. O queixo era como a queixada de um leo,
e saliva pingava de suas presas. Um rosnado grave, gutural, rugiu-lhe da garganta. Sandy gritou. De algum lugar nessa escurido, nesse tnel, nesse nada, nesse estado
alterado, nesse abismo de morte e engano, ela gritou da profundidade de sua alma torturada que morria. Tal saltou da terra. Explodiu numa rajada de asas e luz. O
cho ficou para trs e a cidade tornou-se um mapa l embaixo, enquanto ele arremetia sobre Ashton qual cometa, perfurando as trevas espirituais como se fosse uma
seta ardente, iluminando o vale todo como um prolongado relmpago. Ele subiu, circulou; suas asas eram um borro agitado de jias. A trombeta foi erguida aos lbios,
e o chamado foi dado como uma onda de choque que fez tremer os cus. Ele ecoou atravs do vale, e voltou, e voltou, e voltou. Em onda aps onda, ele rolou pelo cho,
ensurdecendo os demnios, flutuando pelas ruas e rugindo pelas vielas, soando em cada ouvido em torrente aps torrente de notas, cada vez mais altas e soando por
mais tempo, e o ar pesado e parado foi despedaado pelo som. Tal tocou e tocou enquanto voava sobre a cidade, as asas refulgindo, as vestes brilhando. Chegara o
momento. O Valente calou-se de repente. Seus grandes olhos rolaram de um lado para outro.

-- O que foi isso? -- sibilou ele. Os demnios que o cercavam estavam trmulos e fitavam-no  procura de respostas, mas ele no tinha nenhuma. Os oito guerreiros
celestiais desembainharam as espadas. Era resposta suficiente. Rafar berrou atravs de Langstrat: -- Eu estou falando aqui! No prestem ateno a nada mais! Os demnios
tentaram prestar ateno novamente, como fizeram os mdiuns que controlavam. Pela frao de um momento, o aperto de Madeline se enfraqueceu. Mas apenas por um momento.
Mas todos sabiam que tinham ouvido algo. Os guerreiros malignos na nuvem foram caindo continuamente sobre a cidade, mas agora seus olhos estavam ofuscados pelo aparecimento
sbito de um nico anjo traando brilhantes riscos luminosos de um lado a outro do cu abaixo deles. E o que era essa trombeta horrivelmente alta? As foras celestiais
j no estavam derrotadas? Atreviam-se a pensar que podiam possivelmente defender a cidade? Subitamente pequenas exploses de luz apareceram por toda a cidade l
embaixo, clares que no se dissiparam mas permaneceram e cresceram em brilho. Eles engrossaram e aumentaram em nmero e em densidade. A cidade estava em chamas;
estava desaparecendo sob mirades de pequeninas luzes, to numerosas quanto gros de areia. Era de cegar! Os berros lgubres comearam no centro da nuvem e ondularam
na direo das orlas atravs de

camada sobre camada de demnios: -- O Exrcito Celestial! Gritos estrondosos comearam a soar no momento em que Tal pousou na sua colina e ergueu sua fulgurante
espada bem alto acima da cabea. -- Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro! Foi o que Tal bradou, foi o que Guilo bradou, foi o que mirades dos guerreiros celestiais
bradaram, e toda a paisagem de um lado ao outro do vale, a cidade toda, e mesmo as colinas cobertas de matas que cercavam Ashton explodiram em brilhantes estrelas.
Dos prdios, ruas, vielas, esgotos, lagos, lagoas, veculos, salas, armrios, escaninhos, frestas, rvores, moitas e todos os outros esconderijos imaginveis, estrelas
chamejantes romperam o ar. O Exrcito Celestial! Sandy tremia, debatia-se. A coisa chamada Madeline se apoderara de seus braos; os outros espritos lhe seguravam
as pernas, o pescoo, o tronco. Eles a mordiam. De algum lugar, a voz do Elevado Senhor, Rafar, dizia: -- Leve-a, Madeline! Ns a temos! No podemos fracassar agora.
Sandy tentava sair do transe, do estado alterado, do pesadelo, mas no conseguia lembrar-se de como faz-lo. Ela ouviu o tinido metlico de correntes. No! NAAO...
-- No pode derrotar-me! -- berrou o Valente, e seus demnios esperavam, ou melhor, desejavam que fosse verdade. -- Cale-se e saia dele! -- ordenou Hank.

Suas palavras jogaram os demnios contra as paredes e atingiram o Valente como um soco. Kaseph sibilou e cuspiu imprecaes e obscenidades ao jovem ministro. Os
diretores em torno da mesa estavam mudos; alguns se esconderam debaixo da mesa. Os advogados tentavam acalmar Kaseph. -- Quero a minha filha! -- disse Marshall.
-- Onde est ela? -- Est tudo acabado -- disse Susan. -- Dei-lhes os documentos certos! A polcia federal est vindo para peg-lo, e vou-lhes contar tudo! De trs
dos outros trs, Kevin gritou: -- Kaseph, voc acha que  to duro, vamos sair ali fora e resolver isto de homem para homem! A nuvem descendente de demnios e a
bola de fogo ascendente de anjos principiaram a colidir nos cus acima de Ashton. Trovo comeou a fender o cu em resposta ao terrvel embate de foras espirituais.
Espadas chamejavam, e uma saraivada de berros e gritos ecoava pelo cu. Os guerreiros celestiais ceifavam as fileiras demonacas como borres de foices. Os demnios
principiaram a cair do cu como meteoros, rodopiando, esfumaando, dissolvendo. Tal, Guilo e o General dirigiram-se qual relmpagos  faculdade, as espadas prontas,
a cidade um borro em baixo deles. Um regimento muito forte dos exrcitos celestiais havia forado passagem atravs do ataque demonaco e comeado a isolar o campus
da faculdade. Logo haveria um dossel anglico sobre a faculdade dentro do dossel demonaco sobre a cidade. A destruio das foras inimigas comearia ali. -- Eles
j quase conseguiram conter o Valente! -- gritou Guilo acima do rugido do vento e das asas.

-- Encontre Sandy! -- ordenou Tal. -- No h tempo a perder! -- O Valente fica por minha conta -- disse o General. Tal. -- E logo Rafar conseguir o que deseja --
disse

Eles se espraiaram, arrojaram-se para diante com nova velocidade, e puseram-se a cortar caminho atravs dos demnios que ainda tentavam bloquear a faculdade. Os
demnios guerreiros caiam sobre eles como avalanche, mas para Guilo aquilo era bom esporte. Tal e o General podiam ouvir suas vibrantes gargalhadas atravs do som
dos baques da sua lmina, que atravessava demnio aps demnio. O prprio Tal, sendo prmio to valioso para o demnio que o derrotasse, estava ocupado. Os mais
horrorosos guerreiros vinham atrs dele, e no caam facilmente. Ele deslizou de lado pelo ar, abateu um esprito com a espada, produziu uma nuvem com um rodopio
e partiu o prximo guerreiro com a fora de uma serra. Dois outros mergulharam sobre ele; ele arremeteu contra os dois, trespassou o primeiro ao passar por ele,
agarrou a ponta de sua asa e rodopiou em torno dele num crculo apertado, chegando por trs do Outro, sua lmina como uma bala. Eles sumiram numa nuvem de fumaa
vermelha. Escorregando pelas garras de diversos outros, ele mergulhou em seguida e ziguezagueou na direo da faculdade, destroando demnios na passagem. Podia
ouvir Guilo ainda rugindo e rindo em alguma parte acima de seu ombro esquerdo. A sala de conferncia perdia rapidamente a atmosfera calma. Delores Pinckston estava
perturbada. -- Eu sabia! Sabia! Sabia que estvamos nos enterrando demais!

-- Hogan -- disse Eugene Baylor -- voc est apenas blefando. No tem nada. -- Tenho tudo e voc sabe disso. Kaseph estava comeando a parecer muito doente. -- Saiam!
Saiam daqui! Eu os matarei se no sarem! Era esse o verdadeiro Kaseph que Marshall havia procurado todo aquele tempo? Era esse o implacvel bandido oculto que controlava
um to vasto imprio internacional? Estava ele na realidade com medo? -- Voc est frito, Kaseph! -- disse Marshall. -- Voc est derrotado, Valente! -- disse Hank.
O Valente comeou a tremer. Os demnios na sala podiam apenas encolher-se. -- Ento, faamos um trato -- ofereceu Marshall novamente. -- Onde est a minha filha?
Brummel estava quase tendo uma sncope, e desejava realmente poder ter uma. Era horrvel! Os outros estavam sentados  volta da sala ouvindo embevecidos essa besta
falar atravs de Langstrat, e chegando ao ponto de saborear o que estava acontecendo a Sandy. Ela tremia e se sacudia na cadeira, gemendo, gritando, debatendo-se
contra um assaltante invisvel. -- Solte-me! -- gritou ela. -- Solte-me! Seus olhos estavam muito abertos, mas o que ela via eram horrores indizveis de outro mundo.
Ela arfava, tentando respirar, plida de terror. Ela vai morrer, Brummel! Eles vo mat-la! A criatura pesada, de olhos saltados, sentada na cadeira de Langstrat
estava berrando numa voz que

fazia as entranhas de Brummel trepidarem. -- Voc est perdida, Sandy Hogan! Est em nossas mos agora! Voc nos pertence, e somos a nica realidade que conhece!
-- Por favor, Deus -- berrou ela. -- Tire-me daqui, por favor! -- Venha conosco! Sua me fugiu, seu pai est morto! Ele se foi! No pense mais nele! Voc nos pertence!
O corpo de Sandy amoleceu na cadeira, como se ela tivesse sido baleada. De sbito, o desespero fez com que seu rosto se tornasse insensvel. Brummel no agentou
mais. Antes de ter tempo de perceber o que fazia, pulou da cadeira e correu at ela. Sacudindo-a delicadamente, ele tentou falar-lhe. -- Sandy! -- implorou. -- Sandy,
no lhes d ouvidos!  tudo mentira! Est-me ouvindo? Sandy no podia ouvi-lo. Mas Rafar podia. Langstrat ergueu-se com um salto e berrou com Brummel na mesma voz
profunda, demonaca: -- Quieto, seu diabinho, e saia da! Ela me pertence! Brummel ignorou-a. -- Sandy, no d ouvidos a esse monstro mentiroso.  Alf Brummel quem
est falando com voc. Seu pai est bem. A fria de Rafar cresceu tanto que o corpo de Langstrat quase explodiu com a intensidade dela. -- Hogan est derrotado!
Est na cadeia! Brummel olhou bem nos olhos enlouquecidos de Langstrat, e de Rafar, e gritou: -- Marshall Hogan est livre! Hank Busche est

livre! Eu mesmo os soltei! Eles esto livres, e vm para destruir vocs! Rafar foi detido por um momento. Simplesmente no podia crer nos disparates desse fracote,
desse insignificante fantoche que nunca havia agido de forma to atrevida quanto agora. Mas esto Rafar ouviu uma risadinha abafada muito imprpria vindo de trs
de Brummel, e viu uma cara familiar e zombeteira. Lucius! Tal e Guilo mergulharam rumo ao Prdio da Administrao, mas de repente Tal se deteve bruscamente. -- Espere
um pouco! O que  isso? Lucius puxou a espada e disse: -- Voc no  to poderoso, Rafar! Seu plano fracassou, e sou o nico e verdadeiro Prncipe de Ashton! A espada
de Rafar retiniu ao sair da bainha. -- Atreve-se a me enfrentar? A espada de Rafar cortou os ares com uma rajada de vento, mas Lucius deteve a grande lmina com
a sua; a fora do golpe quase o fez rolar. Os muito demnios na sala ficaram assustados e confusos. Soltaram seus hospedeiros. O que era isso? Kaseph estava indignado
com seus advogados e chegou mesmo a dar alguns socos na direo deles. -- Parem com isso! No me diro o que hei de fazer! Este mundo  meu! Quem manda aqui sou
eu! Eu

digo o que  e o que no ! Essa gente toda  um bando de idiotas e mentirosos, cada um deles! Susan falou diretamente a Kaseph. -- Voc, Alexander Kaseph,  responsvel
pelo assassnio de Patrcia Krueger e pela tentativa de assassnio da minha pessoa e do Sr. Weed aqui presente. Tenho muitas listas que o ajudei a compilar, listas
de pessoas que acabaram mortas por ordem sua. -- Assassnio! -- exclamou um dos diretores. -- Sr. Kaseph,  verdade? -- No responda -- disse um advogado. -- No!
-- berrou Kaseph. Diversos outros diretores se entreolharam. A esta altura, conheciam Kaseph bem o suficiente. No acreditaram nele. -- O que diz, Kaseph? -- perguntou
Marshall sombriamente. O Valente desejava de todo o corao maligno investir sobre esse co de caa atrevido e dar cabo dele, e era o que teria feito, com guardas
ou sem guardas, se no fosse por aquele horroroso homem de orao que lhe barrava o caminho. Langstrat dirigiu-se como um leo na direo de Brummel, enquanto muitos
dos mdiuns, tendo perdido seus espritos guias, saram dos transes a fim de ver o que cargas d'gua havia acontecido. -- Acabarei com voc por esta traio! --
sibilou ela a Brummel. -- O que  isto? -- exigiu Oliver Young. -- Vocs dois ficaram loucos? Brummel fincou o p e apontou um dedo trmulo

a Langstrat. -- No mandar mais em mim. Este plano no dar certo para a sua glria. No o permitirei! -- Cale-se, seu idiota! -- ordenou Langstrat. -- No! --
gritou Brummel, instigado pelo endoidecido e atrevido Lucius. -- O Plano est condenado. Fracassou, como eu sabia que fracassaria. -- E voc est condenado, Rafar!
-- gritou Lucius, desviando-se das investidas letais da espada de Rafar. -- Est ouvindo a batalha l fora? Os Exrcitos Celestiais esto por toda a parte! -- Traio!
-- sibilou Rafar. -- Pagar por sua traio! -- Traio! -- gritaram alguns demnios. -- No, Lucius fala a verdade! -- gritaram outros em resposta. Sandy forou-se
a olhar naqueles malignos olhos amarelos e implorou: -- O que... o que lhe aconteceu, Madeline? Por que mudou? Madeline apenas cacarejou e respondeu: -- No acredite
no que v. O que  o mal? Nada mais que iluso. O que  a dor? Nada mais que iluso. O que  o medo? Nada mais que iluso. -- Mas voc mentiu para mim! Enganou-me!
-- Jamais fui diferente do que sou. Foi voc quem enganou a si mesma. -- O que vai fazer? -- Vou libert-la.

No exato momento em que Madeline proferiu essas palavras, os braos de Sandy caram subitamente puxados por peso to enorme que ela quase foi ao cho. Correntes!
Elo aps elo de correntes brilhantes e pesadas, penduradas  volta de seus pulsos e braos. Mos retorcidas envolviam-na rapidamente. Os elos frios e contundentes
batiam contra as suas pernas, seu corpo, seu pescoo. Ela j no podia debater-se. Tentou gritar, mas seu flego se fora. -- Agora voc est livre! -- disse Madeline
exultante. Brummel comeou a falar por si. -- As autoridades... o procurador geral do estado... Justin Parker. .. a polcia federal! Eles sabem de tudo! -- O qu?
-- gritaram alguns mdiuns, pulando das cadeiras. Comearam a fazer perguntas, a entrar em pnico. Young tentava manter a ordem, mas no estava conseguindo. Rafar
soltou Langstrat a fim de melhor poder cuidar desse presunoso traidor. Langstrat saiu bruscamente do transe e sentiu a energia psquica na sala debandando. -- Voltem
aos seus lugares, todos! -- gritou ela. -- No cumprimos o nosso propsito aqui! -- Ela fechou os olhos e chamou: -- Rafar, por favor, volte! Promova ordem!

Mas Rafar estava ocupado. Lucius era menor, mas era muito rpido e muito decidido. As duas espadas relampejavam pela sala como fogos de artifcio, queimando e retinindo.
Lucius esvoaava em torno da cabea de Rafar como um marimbondo irritante, investindo, girando e retalhando. A sala toda encheu-se das asas rodopiantes de Rafar
e das exploses de seus arquejos, e sua grande espada traava labaredas rubras no ar. -- Traidor! -- berrou Rafar. -- Eu o despedaarei! Langstrat moveu-se na direo
de Brummel com olhos tresloucados. -- Traidor! Eu o despedaarei! -- No -- murmurou Brummel com os olhos esbugalhados, a mo indo ao lado. -- No desta vez... no
mais! Young gritou com os dois: -- Parem com isso! No sabem o que esto fazendo! Os demnios dividiam-se em faces. -- O Prncipe Lucius fala a verdade! -- diziam
alguns. -- Rafar nos levou  runa! -- No,  Lucius quem est ajudando o inimigo! -- Vocs  que esto fazendo isso, mas ns salvaremos a nossa pele! Outras espadas
rebrilharam  vista. Rafar sabia que estava perdendo o controle. -- Tolos! -- rugiu ele. -- Isto  um truque do Inimigo! Ele est tentando nos dividir!

Bastou apenas aquele breve instante em que os olhos de Rafar se fixaram na briga de seus demnios e no na espada de Lucius. Bastou apenas aquele nico momento de
terror para Brummel se descontrolar. Ele apontou o revlver policial para a furiosa Langstrat. A lmina de Lucius cantou pelo ar e deslizou logo abaixo da espada
do adversrio. A ponta penetrou profundamente no couro de Rafar e abriu seu flanco com um corte profundo, borbotoante. Langstrat fez um nico movimento errado e
a bala entrou-lhe com um baque no peito. Na sala de conferncia, todos ouviram o tiro. Numa frao de segundos, Marshall estava no corredor.

41
Berenice saltou do seu lugar na escada da frente. Era Eldon Strachan com o prprio Norm Mattily, e Justin Parker, e aquele tinha de ser Al Lemley, e os trs sujeitos
trajando belos ternos tinham de ser do FBI! Oh, e l vinha Harvey Cole com uma pilha de papis debaixo do brao. Ela correu at eles, os olhos enegrecidos cheios
de excitao. -- Ol! Vocs conseguiram! Os olhos de Norm Mattily se arregalaram. -- O que aconteceu? Voc est bem? Berenice

pagara caro esses ferimentos; ia us-los. -- No, no, fui atacada! Por favor, corram l dentro! Algo terrvel est acontecendo! Todos aqueles sujeitos importantes
entraram correndo no prdio com srio propsito nos olhos e revlveres nas mos. Tal vira o suficiente. Gritando uma ordem a Guilo: -- Entre! -- ele arremeteu para
fora do prdio a fim de trazer reforos. Fumaa e piche vermelho jorravam do lado de Rafar, mas sua fria significava runa certa para o rebelde Lucius. A luz de
mil anjos brilhou atravs das janelas. Eles estariam na sala num instante, mas esse era todo o tempo de que Rafar precisava. Ele agitou a espada do tamanho de uma
tbua em crculos furiosos acima da cabea. Abaixou-a em golpe aps golpe sobre Lucius enquanto a pequena espada do demnio desafiador aparava cada golpe com grande
alarido e uma chuva de fascas. O estrondear das asas dos anjos no lado de fora tornou-se mais e mais alto. O cho e as paredes reverberavam com o barulho. Rafar
soltou um rugido e baixou a lmina perpendicularmente. Lucius bloqueou o golpe, mas caiu debaixo da fora dele. A lmina cortou o ar num crculo plano e apanhou
Lucius debaixo do brao. O brao saiu rodopiando pelo espao, e Lucius gritou. A lmina baixou de novo, passando em linha reta pela cabea, ombros e torso de Lucius.
O ar encheu-se de fervilhante fumaa vermelha. Lucius desapareceu. -- Mate a menina! -- gritou Rafar a Madeline. Madeline tirou uma faca horrorosa, torta.

Colocou-a com delicadeza na mo de Sandy. -- Essas correntes so as correntes da vida; so uma priso de maldade, da mente mentirosa, da iluso! Liberte seu verdadeiro
eu! Junte-se a mim! Shawn estava com a faca pronta. Ele a colocou na mo da moa mergulhada no transe. Rafar, cambaleando, passou por uma parede no exato momento
em que a luz de um milho de sis explodiu no aposento com o ensurdecedor trovo de asas e os gritos de guerra do Exrcito Celestial. Muitos demnios tentaram fugir,
mas foram desintegrados no mesmo instante pelo golpe cortante das espadas. O aposento todo era um borro enorme, bombstico, brilhante. O rugir das asas encobria
qualquer outro som exceto o dos gritos dos espritos que caam. Kaseph saltou da cadeira e caiu sobre a mesa. Os diretores e advogados se encolheram e encostaram-se
s paredes. Alguns rumaram  outra porta da sala. Hank, Susan e Kevin observavam a uma distncia segura. Sabiam o que estava acontecendo. O rosto de Kaseph parecia
insensibilizado pela morte e a boca abriu-se quando o mais horrendo berro saiu de dentro dele. O Valente estava face a face com o General. Seus demnios haviam sumido,
levados por avassaladora mar de anjos que ainda rugiam pela sala qual avalanche. A espada do General se movia mais depressa do que o pesado Valente podia mesmo
antecipar. O Valente rebateu os golpes, berrando, retalhando,

girando. O General simplesmente continuava a atac-lo. Marshall estava no corredor,  escuta de qualquer perturbao. Achou ter ouvido um rebulio adiante no corredor.
Sandy ainda segurava a faca, mas agora Madeline hesitava e olhava frentica ao seu redor. As correntes ainda prendiam Sandy com fora, um casulo de ferro. Guilo
viu as correntes muito apertadas em torno de Sandy, o horrvel cativeiro demonaco que eles haviam usado para escraviz-la. -- Basta! -- gritou ele. Erguendo a espada
acima da cabea, ele a baixou, deixando um rasto largo de luz brilhante. A ponta passou atravs das muitas voltas daquelas correntes como uma srie de pequenas exploses.
As correntes se arrebentaram para fora e para longe, contorcendo-se como cobras cortadas ao meio. O grande punho de Guilo fechou-se no pescoo medonho de Madeline.
Ele a sacudiu para trs, girou-a e cortou-a em pedacinhos evanescentes. Sandy sentiu-se rodopiando, depois impelida para cima como se fosse um foguete num elevador.
Seus ouvidos comearam a registrar sons. Ela conseguia sentir novamente seu corpo fsico. Luz registrou-se em sua retina. Ela abriu os olhos. Uma faca caiu-lhe das
mos. Caos reinava na sala. Havia gente gritando, correndo de um lado para o outro, tentando acalmar os outros, brigando, discutindo, tentando escapar da sala; diversos
homens estavam forando Alf Brummel ao cho. Havia uma nvoa de fumaa azulada e um cheiro

forte como o de fogos de artifcio. A professora Langstrat estava deitada no cho e diversas pessoas se amontoavam em cima dela. Havia sangue! Algum a agarrou.
No de novo! Ela olhou e viu Shawn segurando-lhe o brao. Ele estava tentando confort-la, tentando mant-la na cadeira. O monstro! O enganador! O mentiroso! --
Solte-me! -- berrou ela, mas ele no soltou. Ela socou-lhe o rosto, e em seguida escapou dele. Pondo-se de p em um salto, ela correu rumo  porta, dando encontres
com diversas pessoas e pisando em outras. Ele a seguiu, chamando-lhe pelo nome. Ela explodiu pela porta e tropeou no corredor. De algum lugar l adiante, ouviu
uma voz conhecida gritando seu nome. Ela berrou e correu na direo da voz. Shawn foi atrs de Sandy. Ele tinha de segurar aquela mulher antes que todo o controle
fosse pelos ares. O qu! Diante dele, enchendo todo o corredor com suas asas faiscantes estava o mais apavorante ser que ele jamais vira, apontando uma terrvel
espada chamejante ao seu corao. Shawn deteve-se bruscamente, os sapatos escorregando no cho. Marshall Hogan apareceu subitamente, atravessando a correr aquele
ser. Um enorme punho atingiu o queixo de Shawn, e a questo foi resolvida. -- Venha, Sandy -- disse Marshall -- desceremos pela escada! Rafar, em algum lugar dentro
do prdio sitiado, vacilante, sabia que tinha de escapar. Tentou mover as

asas. Elas apenas estremeceram. Precisava acumular foras. No podia ser derrotado na presena desses guerreiros insignificantes; no iria para o abismo! Caindo
sobre um dos joelhos, as mos segurando o lado que se esvaa, ele deixou sua fria crescer no ntimo. Tal! Era tudo culpa de Tal! No, esperto capito, no ganhar
sua vitria desta forma! Os olhos amarelos queimaram com novo fogo. Ele tentou novamente. Dessa vez, as asas se moveram e se agitaram num torvelinho indistinto.
Rafar segurou com fora a espada e voltou os olhos ao cu. As asas se enfunaram com poder e comearam a ergu-lo atravs do prdio, cada vez mais depressa, at ele
ser arrojado pelo teto a cu aberto... e encontrar-se face a face com o mesmo capito que tantas vezes havia insultado e desafiado. Em volta a batalha ardia em fria;
demnios, e a grande vitria de Rafar, caiam como chuva fumacenta e ardente do cu. Mas por um momento breve de espanto e horror mtuo, Tal e Rafar permaneceram
paralisados. Haviam-se encontrado afinal! E nem um dos dois podia evitar o amortecimento trazido pelas lembranas que tinha do outro. Nenhum se lembrava de que o
outro tinha aparncia to feroz. E nenhum podia estar absolutamente certo de que venceria. Rafar arremeteu de um lado, e Tal preparou-se para o golpe, mas... Rafar
estava fugindo! Ele se lanou pelo cu como um pssaro sangrando, deixando um rasto de emanao e vapor. Tal seguiu-o, as asas cleres, arrojando-se atravs de demnios
caindo e anjos atacando, olhando bem adiante atravs da furiosa agitao da batalha cujo fragor e trovejar o cercava. L! Ele divisou o demnio comandante mergulhando
na direo da cidade. Seria

difcil encontr-lo naquele labirinto de prdios, ruas e vielas. Tal aumentou a velocidade e diminuiu a distncia. Rafar devia t-lo visto surgindo por trs; o prncipe
maligno arremeteu adiante com surpreendente velocidade e depois deixou-se cair sbita e perpendicularmente na direo de um prdio de escritrios. Tal viu-o desaparecer
atravs do teto do prdio e mergulhou atrs dele. O negro teto coberto de piche veio em sua direo, crescendo num instante do tamanho de um selo a mais do que o
olho podia ver. Tal se lanou atravs dele. Teto, cmodo, piso, cmodo, ento erguer-se, passar por um corredor, atravessar uma parede, subir novamente, voltar,
seguir a fumaa, atravessar um escritrio, seguir parede acima, mergulhar por um piso, arrojar-se adiante, as paredes passando esbofeteando, esbofeteando, esbofeteando
os olhos e ficando para trs como vages disparados de um trem de carga. Um fumacento mssil preto seguido por chamejante cometa vermelho rugiram corredor abaixo,
atravs de diversos andares, subiram novamente, passando atravs do escritrio e por cima de todas as mesas, elevando-se atravs dos painis do teto, atravs do
teto e saindo a cu aberto de novo. Rafar arremetia, arrojava-se, descrevia crculos, ziguezagueava atravs de demnios cadentes, voltando atrs, desviando-se por
ruas secundrias, mas Tal o seguia de perto e acompanhava cada volta com perfeio. Por quanto tempo mais poderia aquele demnio que sangrava manter essa corrida?
A outra porta da sala de conferncia abriu-se de chofre e o corpo de Alexander Kaseph rolou pelo cho do corredor. Estava nauseado e berrava.

O General brandia a espada contra o Valente vez aps vez, enfraquecendo-o, cortando-o cada vez mais freqentemente enquanto o Valente continuava a perder as foras.
-- No me derrotar! -- ainda gabava-se ele, e o mesmo fazia Kaseph, mas a gabolice era vazia e ftil. Do Valente jorravam vapor vermelho e piche como de uma peneira
miservel e quebrada. Seus olhos estavam cheios de maldade e dio e ele retalhava com a grande espada, mas as oraes...! As oraes estavam-se fazendo sentir por
toda a parte, e o General no podia ser derrotado. Berenice reuniu seu grupo de vindicadores no saguo inferior, e tentava descobrir por onde comear a explicar
tudo, quando Marshall e Sandy explodiram pela porta que saa das escadas. -- Subam depressa! -- gritou Marshall, segurando a filha chorosa. -- Algum foi baleado!
Os agentes da polcia federal, entraram imediatamente em ao. -- Chamem a Berenice comentou: polcia! com o Lemley, prdio!

Isolaremos

-- Estou vendo alguns tiras l fora... A polcia tinha vindo apenas em resposta a um chamado acerca dos fanticos religiosos reunidos no campus. Estavam tentado
debandar o pessoal quando Norm Mattily e um agente da polcia federal correram at eles, identificaram-se e ordenaram-lhes que isolassem o prdio. Os homens Obedeceram.
de Brummel no eram tolos.

Rafar arremeteu e serpeou por todo o cu, ainda deixando um rasto de fumaa vermelha provindo do ferimento. Com esse indcio revelador era fcil segui-lo, e Tal
mantinha implacvel perseguio. Rafar voou rumo a um enorme depsito a diversos quarteires de distncia. Ele se arrojou pela parede de fora mais ou menos na altura
do terceiro andar, e Tal mergulhou no prdio atrs dele. Esse andar era aberto, sem lugar para esconder; Rafar mergulhou imediatamente a um andar inferior, e Tal
seguiu o rasto de fumaa. Os pisos de concreto cinzento subiam ao encontro deles. Tal saiu no primeiro andar e pde ver o rasto de fumaa desviando-se para um lado
e retorcendo-se atravs de uma parede distante. Ele se arrojou atrs da fumaa. A parede bateu em torno dele quando a atravessou. Cravado! Um gume ardente cortou
seu lado. Ele rodopiou e rodopiou com o impacto e a espada lhe voou da mo. O anjo caiu ao cho, dobrado de dor. L estava Rafar, curvado e ferido, as costas contra
a parede que Tal acabara de atravessar. Havia esperado de tocaia. A ponta de sua horrvel espada ainda estava envolta em parte da tnica de Tal. No dava tempo de
pensar! No dava tempo de sentir dor! Tal mergulhou atrs da espada cada. Craque! A espada de Rafar caiu com uma chuva de fascas. Tal rolou e adejou, desviando-se.
A grande espada vermelha cortou o ar novamente, e o gume afiado assobiou logo acima da cabea de Tal. Tal bateu as asas e com um movimento brusco lateral desviou-se
alguns metros.

Tchuiiiimm! A horrvel espada retalhou o ar com brilhantes traos vermelhos. Os olhos de Rafar passaram de amarelos a vermelhos, sua boca borbulhava com espuma ptrida.
As enormes asas rugiram e Rafar atacou Tal com o bote de um gato. Seu poderoso brao ergueu a lmina para golpear de novo. Tal arremeteu para a frente e mergulhou
abaixo do brao erguido de Rafar, metendo a cabea no peito do adversrio. O enxofre explodiu dos enormes pulmes enquanto Tal rodopiava em torno do corpo de Rafar
e alm da ponta da lmina vermelha enquanto ela retalhava o ar. Era disso que Tal precisava: estava agora entre Rafar e sua espada cada. Ele mergulhou atrs dela,
agarrou-a e voltou-se. Clangor! A lmina infernal desceu sobre a espada de Tal com um relmpago chamejante. Eles se defrontaram, espadas erguidas em prontido. Rafar
sorria. -- Ento, Capito do Exrcito, estamos juntos, s os dois, e em p de igualdade. Eu estou ferido, voc est ferido. Trocaremos golpes por outros vinte e
trs dias? Terminaremos muito antes disso, hein? Tal nada disse. Era assim que Rafar agia; palavras cortantes faziam parte de sua estratgia. As espadas entrechocaram-se
vez aps vez. Uma coberta de escurido principiou a encher o aposento: o mal rastejante, crescente de Rafar. -- A luz est-se apagando? -- zombou Rafar. -- Talvez
seja a sua fora que vemos sumindo agora! Santos de Deus, onde esto as suas oraes? Outro golpe! O ombro de Tal. Ele o devolveu com

uma repassada que apanhou Rafar abaixo das costelas. O ar se estava enchendo de trevas, com vapor e fumaa vermelhos. Diversos outros choques das lminas chamejantes...
abrindo pele, rasgando vestes, mais escurido. Santos! Orem! OREM! Quando os policiais chegaram ao terceiro andar, acharam primeiro que Kaseph era a vtima do tiro.
Descobriram que estavam enganados quando esse animal selvagem atirou-os longe como se no pesassem nada. -- No podem derrotar-me! -- berrou. O General retalhou
o Valente, e ele berrou novamente. As espadas se entrechocavam e soltavam labaredas. -- No pode derrotar-me! A polcia apontou. O que ia esse maluco fazer a seguir?
Hank gritou: -- No, cuidado! No  ele! Eles no entenderam patavina do que ele disse. Hank adiantou-se e tentou mais uma vez: -- Valente, sei que pode ouvir-me.
Est derrotado, sim. O sangue derramado por Jesus o derrotou. Cale-se e saia dele e suma desta regio! Hank! Agora a polcia estava apontando as armas para

Mas o Valente j no agentava as repreenses do homem de orao. Ele murchou. Sua espada caiu. O General deu uma repassada com sua lmina refulgente, e o Valente
desapareceu. Kaseph caiu ao cho e ficou como morto. Os advogados e os diretores gritaram da sala de conferncia: -- No atirem! -- e saram com as mos ao alto
quer tivessem recebido ordem para faz-lo, quer no. A polcia ainda no sabia a quem prender. -- Aqui dentro! -- gritou algum da sala dos professores. A polcia
correu l e encontrou o deplorvel desastre que Alf Brummel havia feito, e Juleen Langstrat morrendo.

42
Zap! A espada de Rafar arrancou uma ponta da asa de Tal. Tal continuava arremetendo e desviando, negaceando e gingando, e picou o ombro e a coxa de Rafar. O ar estava
repleto do mau cheiro de enxofre; a maligna escurido era espessa como fumaa. -- O Senhor te repreenda! -- gritou Tal. Clangor! Rasgo! -- Onde est o Senhor? --
zombou Rafar. -- No o estou vendo! Tchuiiiimm! Tal gritou de dor. Sua mo esquerda pendia inutilizada. -- Senhor Deus -- bradou Tal -- o nome dele  Rafar! Conte-lhes!
O Remanescente j no orava muito agora; em vez

disso, observavam todo o rebulio e a polcia a correr, entrando e saindo do Prdio da Administrao. -- Puxa vida! -- disse John Coleman. -- O Senhor est realmente
respondendo s nossas oraes! -- Louvado seja o Senhor! -- replicou Andy. -- Serve para mostrar. .. Edith! Edith, o que h? Edith Duster caiu de joelhos. Estava
plida. Os santos a rodearam. -- Devemos perguntou algum. chamar uma ambulncia? --

-- No! No! -- gritou Edith. -- Conheo esta sensao. J a tive antes. O Senhor est tentando falar comigo! -- O qu? -- perguntou Andy. -- O que ? -- Bem, parem
de tagarelar e deixem-me orar que lhes contarei! Edith comeou a chorar. -- H um esprito maligno por a -- gritou ela. -- Est causando grande dano. Seu nome ...
Rafael... Rafin... Bobby Corsi falou. -- Rafar! Edith fitou-o com olhos arregalados. -- Sim! Sim! Esse  o nome que o Senhor est-me transmitindo! -- Rafar! -- disse
Bobby outra vez. --  o chefo! Tal podia apenas afastar-se do temvel ataque do demnio prncipe, sua mo ativa ainda segurando a espada em defesa. Rafar continuava
a brandir e a retalhar, as fagulhas voando das lminas ao se chocarem. O brao de Tal abaixava mais a cada golpe. -- O Senhor. .. te repreenda! -- encontrou o anjo

flego para repetir. Edith Duster estava em p e pronta a grit-lo aos cus. -- Rafar, seu perverso prncipe do mal, em nome de Jesus ns o repreendemos! A lmina
de Rafar zuniu acima da cabea de Tal. No acertou. -- Ns o atamos! -- gritou o Remanescente. Os grandes olhos amarelos estremeceram. -- Ns o expulsamos! -- disse
Andy. Surgiu um tufo de enxofre, e Rafar dobrou-se ao meio. Tal ergueu-se de um salto. -- Ns o repreendemos, Rafar! -- gritou Edith novamente. Rafar berrou. A lmina
de Tal o havia rasgado. A grande lmina vermelha desceu com clangor contra a de Tal, mas a espada angelical cantava com nova ressonncia. Cortava o ar em arcos flamejantes.
Com a mo boa, Tal brandia, retalhava, cortava, empurrando Rafar para trs. Os olhos ardentes destilavam, a espuma borbulhava pela boca e efervescia pelo peito,
o flego amarelo se tornara um tom escuro de

carmesim. Ento, com uma horrvel estocada movida pela fria, a enorme espada vermelha veio chiando pelo ar. Tal revirou para trs como se fosse um brinquedo de
pano jogado. Caiu ao cho atordoado, a cabea girando, o corpo encharcado de dor abrasadora. No se podia mover. Sua fora se fora. Onde estava Rafar? Onde estava
a lmina? Tal tentou voltar a cabea. Esforou-se por enxergar. Aquele era o seu inimigo? Aquele era Rafar? Atravs do vapor e da escurido, ele podia ver o vulto
danificado de Rafar oscilando qual grande rvore ao vento. O demnio no se movia, no atacava. Quanto  espada, a enorme mo ainda a segurava, mas a arma agora
pendia inerte, a ponta descansando no cho. Os flegos vinham em longos e lentos chiados. As narinas expeliam nuvens vermelho-escuras. Aqueles olhos, aqueles olhos
cheios de dio, eram como enormes e ardentes rubis. O queixo, pingando e espumando, tremeu ao abrir-se, e as palavras gorgolejaram atravs do piche e da espuma.
-- Se... no... fosse... pela... orao dos seus santos! Se no fossem os seus santos...! A grande fera oscilou para a frente. Deixou escapar um ltimo suspiro sibilante,
e caiu com um baque surdo ao cho numa nuvem de vermelho. E houve silncio. Tal no conseguia respirar. No podia se mexer. Tudo o que podia ver era o vapor vermelho
espalhandose ao longo do cho como fina nvoa e a escurido que cercava aquele corpo enorme. Mas... sim. Em algum lugar os santos oravam. Ele podia sentir. Estava
sarando.

O que era aquilo? De algum lugar a doce msica chegou at ele. Acalmou-o. Adorao. O nome de Jesus. Erguendo a cabea do cho, ele deixou que seus olhos explorassem
o frio aposento de concreto. Rafar, o poderoso, detestvel Prncipe da Babilnia, se fora. Nada restava alm de uma nuvem de escurido que se desvanecia. Acima da
nuvem de escurido a luz vinha penetrando, quase como uma aurora. Ele ainda ouvia a msica. Ela ecoava atravs dos seres celestiais, purificando-os, limpando a escurido
com a luz santa de Deus. E seu corao foi o primeiro a lhe dizer: Voc venceu... pelos santos de Deus e pelo Cordeiro. Voc venceu! A luz aumentou cada vez mais,
florescendo, enchendo o aposento, e a escurido continuava a encolher e a recuar e a se desvanecer. Agora Tal podia ver a luz entrando pela janela. A luz do sol?
Sim. O Exrcito Celestial? Sim! Tal ergueu-se com esforo e esperou at sentir mais foras. Elas chegaram. Ele deu um passo. Seu andar tornou-se firme e estvel.
Ento, como o desfraldar de seda tecida em fulgurantes diamantes, ele estendeu as asas, dobra a dobra, centmetro a centmetro. Elas brotaram de seus ombros e costas,
e ele deixou que se fortalecessem. Respirando fundo, ele tomou o cabo da espada nas duas mos, segurou-a  frente, e as asas assumiram o comando. Ele estava nos
ares, subindo no cu fresco banhado de luz, olhando diretamente para cima sem ver nenhuma escurido, nenhuma opresso, nenhuma nuvem. O que viu foi luz: luz do Exrcito
Celestial que varria o cu de um lado a outro at que ele ficasse

lmpido. O ar era to fresco, os odores to limpos. Ele singrou acima da cidadezinha e voltou  faculdade bem em tempo de ver as muitas luzes piscando nas viaturas
policiais e as ambulncias e os carros oficiais estacionados por toda a parte. Onde estava Guilo? Oh, onde estava aquele barulhento Guilo? -- Capito Tal! -- veio
o brado, e Tal deixou-se cair rumo ao prdio Ames Hall onde seu corpulento amigo o aguardava com um abrao de quebrar costelas. -- Com certeza a batalha terminou?
-- rugiu Guilo feliz. -- Terminou? -- quis saber Tal. Ele olhou em redor a fim de se certificar. Sim, muito ao longe podia ver os ltimos resqucios em fuga da nuvem
espalhando-se em todas as direes, banidos pelas foras celestiais. O cu era de um azul muito lindo. Abaixo deles, Tal podia ver o Remanescente fiel ainda cantando
e dando vivas. Parecia que a polcia estava fazendo uma limpeza final. Norm Mattily, Justin Parker e Al Lemley amontoavam-se em torno de Berenice e sua nova amiga.
-- Bem, minha gente -- disse Berenice -- gostaria de apresentar-lhes Susan Jacobson. Ela tem muita coisa a lhes mostrar! Norm Mattily apertou a mo de Susan e disse:
-- Voc  uma mulher muito corajosa. Susan pde apenas apontar para Berenice atravs de lgrimas de alvio e dizer: -- Sr. Mattily, olhe bem ali. Est vendo a coragem
personificada.

Berenice olhou para a maca que dois enfermeiros tiravam do prdio. Juleen Langstrat estava coberta por um lenol branco. Atrs da maca ia Alf Brummel, algemado e
escoltado por dois de seus prprios agentes. Atrs de Brummel vinha o nmero um, Alexander M. Kaseph. Susan fitou-o por bom tempo, mas ele no ergueu o olhar. Entrou
na viatura da polcia com um agente federal sem dizer palavra. Hank e Mary estavam-se abraando e chorando, pois tudo terminara... e contudo estava apenas comeando.
Olhe todos esses santos acesos! Aleluia! O que Deus podia fazer com um grupo desses! Marshall segurava Sandy como se nunca a tivesse abraado antes. Ambos haviam
perdido a conta de quantas vezes pediram desculpas um ao outro. Tudo o que desejavam fazer agora era pr em dia muito amor perdido. E ento. .. o que era isso, algum
tipo de conto de fadas? Esquea as dvidas e esquea as perguntas, Hogan,  mesmo Kate vindo em sua direo! O rosto dela resplandecia, e, puxa, que viso bonita!
Os trs ficaram agarrados uns aos outros, e as lgrimas caram em cima de todos. -- Marshall -- disse Kate com lacrimejante estouvamento -- no consegui ficar longe.
Ouvi dizer que voc foi preso.' -- Ora -- disse Marshall, dando-lhe um aperto amoroso -- de que outra forma Deus ia conseguir a minha ateno? Kate achegou-se mais
a ele e disse: -- Puxa, isso parece promissor! -- Espere s at eu lhe contar o que aconteceu. Kate olhou ao redor para as pessoas e atividade.

--  este o fim do seu... grande projeto? Ele sorriu, favoritas, e disse: abraou as suas duas garotas

-- , sim. Pode apostar que sim! O General tocou o ombro de Tal. Ele olhou e viu a grande trombeta dourada na mo do General. -- Bem, capito -- disse o anjo de
cabelos prateados -- quer dar-nos a honra? D o toque de vitria! Tal tomou a trombeta e descobriu que no podia v-la atravs de sbito jorro de lgrimas. Ele baixou
o olhar a todos aqueles santos de orao e quele pastorzinho de orao. -- Eles... eles jamais sabero o que fizeram -- disse. Ento, respirou a fim de moderar-se
e voltou-se ao velho companheiro de armas. -- Guilo, que tal voc? -- Empurrou a trombeta na direo do anjo grande. Guilo relutou. -- Capito Tal,  sempre o senhor
quem d o toque de vitria. Tal sorriu, deu a trombeta a Guilo, e sentou-se ali mesmo no teto. -- Caro amigo... estou cansado demais. Guilo remoeu aquilo um breve
momento, e a seguir ps-se a soltar gargalhadas, depois bateu nas costas de Tal e singrou pelos ares. O sinal da vitria soou alto e claro, e Guilo at precipitou-se
para cima num apertado rodopio para causar efeito. -- Ele adora fazer isso! -- disse Tal. O General riu.

Assim, Hank ficou com Mary e sua igrejinha renascida; Marshall ficou com a famlia novamente reunida, pronta para consertar as coisas; Susan e Kevin estariam ocupados
por algum tempo como testemunhas da promotoria; Berenice calculou que Marshall lhe permitiria cobrir a histria at o final. Mas Berenice ficou ali, machucada e
exausta, sentindo-se muito separada, distante desse bando feliz. Alegrava-se por eles, e seu lado profissional, preocupado com o bem pblico fazia esse papel muito
bem. Mas o resto dela, a verdadeira Berenice, no podia dispersar com um sorriso aquele mesmo antigo peso de profunda tristeza que havia sido seu mais ntimo companheiro
por tanto tempo. E agora ela sentia saudades de Pat. Talvez fosse o mistrio de sua morte e a obsesso em encontrar as respostas que tivessem mantido Pat viva em
seu corao por tanto tempo. Agora no havia nada que adiasse aquele ltimo passo que Berenice jamais conseguira dar: dizer adeus. E l estava o estranho anelo no
fundo do seu corao, algo que jamais sentira antes de encontrar aquela estranha mocinha, Betsy; ser que havia realmente sido tocada por Deus de alguma forma? Se
tivesse sido, o que deveria fazer a respeito? Ela comeou a andar. O cu estava vivo de novo, o ar clido, o campus quieto. Talvez uma caminhada ao longo dos passeios
de tijolo vermelho a acalmasse e ajudasse a pensar, ajudasse a encontrar o sentido de tudo o que estava acontecendo ao seu redor e dentro de si. Ela se deteve embaixo
de um grande carvalho, pensou em Pat, pensou em sua prpria vida e o que iria fazer com ela, e ento permitiu-se chorar. Achou que talvez devesse orar. "Querido
Deus", sussurrou, mas ento no conseguiu pensar em nada para dizer.

Tal e o General estavam avaliando a situao abaixo deles. -- Eu diria que esse negcio todo deixou a cidade em petio de misria -- disse o General. Tal assentiu
com a cabea. -- A faculdade no ser a mesma por muito tempo, com a investigao pelas autoridades estaduais e federais, sem falar no dinheiro que ter de ser achado.
-- E ento, temos um bom contingente para colocar a cidade nos eixos novamente? -- Esto-se reunindo para isso agora. Enquanto isso, Krioni e Tris-kal permanecero
com Busche; Nat e Armote ficaro com Hogan. A famlia de Hogan ter uma boa igreja onde poder ser curada, e -- Tal notou de sbito uma figura abatida, sozinha,
no outro lado do campus. -- Espere --. Ele chamou a ateno de um anjo em particular. -- L est ela. No a deixemos escapar. Berenice finalmente conseguiu pensar
em uma sentena para orar. "Querido Deus, no sei o que fazer." Hank Busche. O nome surgiu em sua cabea. Ela voltou o olhar ao Prdio da Administrao. O pastor
e seu povo ainda estavam l. Sabe, disse uma voz dentro dela, no faria mal conversar com aquele homem. Ela olhou para Hank Busche, e depois para toda aquela gente
que parecia to feliz, to em paz. Voc esteve clamando por Deus. Bem, talvez esse pregador possa apresent-la a ele de uma vez por todas. Ele bem que fez algo por
Marshall, pensou

Berenice. H algo J atrs de que voc precisa, mocinha, e se eu fosse voc descobriria o que . O General estava ansioso por partir. -- Esto precisando de ns
no Brasil. O reavivamento vai indo bem, mas o inimigo est tramando algum plano. Voc deve gostar desse tipo de desafio. Tal ps-se de p outra vez e desembainhou
a espada. Nesse exato momento, Guilo voltou com a trombeta. Tal lhe disse: -- Brasil. Guilo riu-se animado e tambm puxou da espada. -- Espere -- disse Tal, olhando
para baixo. Era Berenice, timidamente chegando perto do pastor e seu novo rebanho. Pela quieta entrega em seus olhos Tal podia ver que ela estava pronta. Logo os
anjos se estariam regozijando. Ele acenou sua aprovao ao anjinho de cabelos encaracolados que estava sentado na curvatura do grande carvalho, e ela sorriu e devolveu
o aceno, seus grandes olhos castanhos brilhando. As refulgentes vestes brancas e sapatinhos dourados estavam muito mais de acordo com ela do que o macaco e uma
motocicleta. O General perguntou com prazer na voz: -- E ento, vamos? Tal estava olhando para Hank ao dizer: -- Um momento. Quero ouvir as palavras mais uma vez.
Enquanto olhavam, Berenice chegou at Hank e Mary. Ela comeou a chorar abertamente, e lhes disse

palavras calmas mas apaixonadas. Hank e Mary ouviram, assim como outros que estavam por perto, e ao ouvirem, comearam a sorrir. Colocaram seus braos ao redor dela,
falaram-lhe de Jesus, e ento tambm puseram-se a chorar. Finalmente, quando os santos se reuniram e Berenice foi cercada de braos amorosos, Hank disse as palavras:
-- Vamos orar... E Tal sorriu um longo sorriso. -- Podemos ir -- disse ele. Com uma exploso de asas fulgurantes e trs rastos de faiscantes labaredas, os guerreiros
arrojaramse ao cu, rumo ao sul, tornando-se cada vez menores at sumir, deixando a agora tranqila cidade de Ashton em competentes mos.

F I M
