Ttulo: O Talism.
Autor: Walter Scott.
Dados da Edio: Amigos do Livro.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Ana Medeiros.
Estado da Obra: Corrigida.
numerao de pgina: rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Traduo revista por L. Pereira
Gil
WALTER SCOTT O TALISM
Edio reservada
aos
AMIGOS DO LIVRO
ditions Femi (c) Genve

CAPTULO I
"- Retiraram-se os dois para tleserio, Mas estavam armados-"
MILTON. "O Paraso Reconquistado"

O sol brilhante da Sria no atingira ainda o ponto mais alto do horizonte quando um cavaleiro da cruz vermelha, que abandonara o seu lar distante no Norte da Europa
para se juntar ao exrcito dos cruzados na Palestina, atravessou lentamente os desertos arenosos dos arredores do mar Morto, ou como  chamado, do lago Astaltite,
onde as guas do Jordo se lanam como que num mar mediterrnico cujas ondas no tm qualquer escoamento.
O guerreiro peregrino viajara penosamente por entre os rochedos e os precipcios durante a primeira parte da manh; mais tarde, entrara na grande plancie, onde
as cidades malditas provocaram outrora a vingana terrvel do Omnipotente.
O viajante esqueceu a fadiga, a sede e os perigos do caminho, ao recordar a catstrofe medonha que convertera num deserto rido e sombrio o belo e frtil vale de
Siddim, outrora irrigado como o jardim do Senhor, agora condenado a uma esterilidade eterna.
Persignando-se ao ver ondular a massa negra das guas, que no se assemelhavam, nem na cor nem na qualidade, s de qualquer outro lago, estremeceu, pensando que
sob aquelas ondas lentas jaziam as orgulhosas cidades da plancie, cujo tmulo foi cavado pela trovoada do cu ou pela erupo de um fogo subterrneo. Este mar,

sob o qual desapareceram os seus escombros, no contm um nico peixe vivo, nenhum barco cruza a sua superfcie e, como se o seu leito fosse o nico receptculo
conveniente a guas to impuras, no envia, como os outros lagos, um tributo ao oceano: toda a terra  volta era apenas, como no tempo de Moiss, sal e enxofre;
"nada era semeado; nada se produzia e nenhuma erva ali crescia" 1. O epteto de Morto podia aplicar-se tanto  terra como  gua do lago, pois no se notava qualquer
aparncia de vegetao e o prprio ar estava desprovido dos seus habitantes alados, expulsos, sem dvida, pelos vapores betuminosos que os raios escaldantes do sol
extraem da superfcie do lago. Estes vapores tomam o aspecto de um nevoeiro e surgem algumas vezes sob a forma de uma tromba de gua. Massas dessa substncia viscosa
e sulfrica chamada nafta, que vogavam sobre as ondas sombrias e indolentes, forneciam novos vapores s nuvens rolantes e pareciam testemunhar de maneira imponente
a verdade da histria de Moiss.
O sol brilhava sobre esta cena de desolao, e toda a natureza viva parecia ter-se furtado aos seus raios, excepto o peregrino solitrio que pisava a areia esvoaante
e que parecia ser o nico ser dotado de vida em toda a superfcie da planura. Dir-se-ia tambm que o traje do cavaleiro e o equipamento do seu cavalo tinham sido
propositadamente escolhidos, pois eram os menos adequados para viajar numa tal regio: uma cota de malha de compridas mangas, guantes cobertos de placas de metal
e uma couraa de ao; do pescoo pendia-lhe um escudo triangular e usava um elmo de ao por baixo do qual flutuava um capuz. Um gorjal de malha, rodeando os ombros
e o pescoo do guerreiro, preenchia o intervalo entre a cota e o capacete; as pernas e as coxas, como o resto do seu corpo, estavam protegidas por malhas flexveis
e os ps metidos em sapatos guarnecidos de placas, como os guantes.
Uma espada comprida, de gume duplo, com punho em forma de cruz, harmonizava-se com um grande punhal colocado do lado direito. Firme sobre a sela, o cavaleiro trazia
na mo a sua arma usual, a comprida lana, guarnecida de ao, cuja extremidade repousava
1 Expresses das Escrituras.
6
no estribo e a cujo ferro estava agarrado um pequeno pendo que flutuava por trs dele enquanto cavalgava. Ao peso deste equipamento  preciso acrescentar uma espcie
de manto solto, em tecido bordado, muito gasto e muito usado, mas que era til na medida em que impedia que os raios escaldantes do sol batessem na armadura, o que
tornaria o calor insuportvel. Viam-se em vrios lugares do manto as armas do cavaleiro, em parte apagadas. Pareciam ser um leopardo deitado com a divisa: "Eu durmo,
no me acordem!" A mesma divisa parecia ter decorado o seu escudo, embora os golpes que este recebera tivessem deixado apenas alguns vestgios. O topo achatado do
seu elmo pesado e cilndrico no tinha qualquer cimeira a ornament-lo. Ao conservar a sua pesada armadura defensiva, os cruzados do Norte pareciam querer desafiar
a natureza do clima e do pas aonde tinham vindo trazer a guerra.
O equipamento do cavalo pouco menos macio era do que o do cavaleiro. A sua pesada sela, revestida de ao, unia-se  frente, a uma espcie de couraa que lhe cobria
o peitoral e atrs a uma outra armadura defensiva que lhe protegia os rins. Uma acha de ao, espcie de martelo a que se chamava maa-de-armas, estava suspensa ao
aro da sela; as rdeas estavam seguras por uma cadeia de metal e a testeira do freio era uma placa de ao com aberturas para os olhos e as ventas e cuja extremidade
superior era guarnecida de uma lana curta e aguada.
Mas o hbito que se torna numa segunda natureza, tinha tornado o cavaleiro e a sua montada capazes de suportar o fardo desta pesada panplia. Na verdade, um grande
nmero de guerreiros partidos do Ocidente para acorrer  Palestina, tinham encontrado a a morte antes de se ter podido aclimatar a este cu escaldante mas, para
outros, este clima tinha deixado de ser perigoso: tinha-se tornado at mesmo salutar. Entre este pequeno nmero de afortunados estava o solitrio cavaleiro que atravessava
nesse momento as margens do mar Morto.
A natureza, que tinha dado aos seus membros a fora e o vigor necessrios para usar uma pesada cota de malha, tinha-o dotado de uma constituio no menos forte
para desafiar as mudanas de clima, as fadigas e as privaes de toda a espcie. O seu carcter parecia partilhar, em certa medida, das qualidades do seu corpo.
8
o seu corpo possua tanta energia quanta fora e pacincia, na sua alma ardia, sob uma aparncia calma, esse amor entusiasta e essa sede de glria, que constituam
o principal atributo da raa normanda que tinha transformado os seus aventureiros em soberanos, em todos os pases da Europa para onde tinham levado as suas armas.
Contudo, no era a todos os filhos desta raa ilustre que a fortuna concedia recompensas to sedutoras, e as que o cavaleiro solitrio tinha obtido durante uma campanha
de dois anos na Palestina tinham sido apenas a fama temporal e tambm, como lhe tinham ensinado a acreditar, previlgios espirituais. Durante este tempo, a sua bolsa,
j ligeira  partida, tinha-se esgotado tanto mais facilmente que ele no tinha recorrido a nenhum dos expedientes habituais aos quais os cruzados se rebaixavam
para obter novos recursos, a expensas dos infelizes habitantes da Palestina; ele no exigia presentes, para poupar os seus haveres quando fazia a guerra aos Sarracenos
e no tinha tido ocasio de se enriquecer pelo resgate de alguns prisioneiros importantes. O pequeno squito que o tinha acompanhado desde o seu pas natal havia
diminudo  medida que desapareciam os seus meios para o manter. O nico escudeiro que lhe restava encontrava-se doente nesse momento, forado a permanecer no leito
e no podia seguir o seu senhor que, como j dissemos, viajava sozinho. Esta circunstncia parecia pouco importante ao cruzado, habituado a considerar a sua boa
espada como a mais segura escolta e os seus pensamentos devotos como a sua melhor companhia.
Contudo, apesar da constituio frrea e do carcter paciente do cavaleiro do leopardo adormecido, a natureza exigia-lhe que tomasse algum alimento e repouso. Assim,
cerca do meio-dia, viu com alegria duas ou trs palmeiras que se erguiam junto da nascente perto da qual ele contava fazer uma paragem. O seu bom corcel comeou
a levantar a cabea, a abrir as narinas e a apressar o passo, como se tivesse sentido de longe as guas vivas. Mas havia ainda fadigas a suportar e perigos a correr
antes que cavalo e cavaleiro chegassem ao local desejado.
Enquanto o cavaleiro do leopardo adormecido continuava a fixar atentamente os olhos no grupo de palmeiras que ele apercebia ao
8
longe, pareceu-lhe ver um objecto animado movendo-se por detrs delas. Este objecto separou-se finalmente das rvores cuja folhagem tinha escondido em parte os seus
movimentos, e avanou em direco ao cavaleiro com uma rapidez que em breve revelou um cavaleiro cujo turbante, comprida lana e flutuante capa verde, mostravam
ser um sarraceno.
"Ningum encontra um amigo no deserto", diz um provrbio oriental: mas o cruzado no se sentia inquieto com o facto de o infeliz, que se aproximava rapidamente sobre
um belo cavalo berbere, vir como amigo ou inimigo. Como campeo devotado  cruz, talvez mesmo tivesse preferido ter de o encarar sob este ltimo aspecto. Tirou a
sua lana da sela, pegou-lhe com a mo direita, manteve-a imvel, meio levantada, apertou as rdeas com a mo esquerda e, excitando com a espora o ardor do seu corcel,
preparou-se para ir ao encontro do estrangeiro.
O sarraceno chegou a todo o galope, conduzindo o seu cavalo mais com a ajuda das suas pernas do que pelo uso das rdeas que flutuavam, suspensas, da sua mo esquerda.
Deste modo, ele podia manter facilmente o ligeiro escudo redondo, em pele de rinoceronte ornamentada com alamares de prata, que trazia no brao, fazendo-o voltear
como se tivesse a inteno de opor o seu crculo estreito ao galope formidvel da lana ocidental. A sua comprida lana no estava deitada horizontalmente como a
do seu antagonista; segurava-a pelo meio com a mo direita e brandia-a por cima da cabea, com o brao estendido. Ao aproximar-se do seu inimigo, a toda a velocidade,
ele parecia esperar ver o cavaleiro do leopardo lanar o seu cavalo a galope para ir ao seu encontro; mas o cavaleiro cristo, conhecendo perfeitamente os costumes
dos guerreiros do Oriente, achou que no devia extenuar o seu excelente corcel em esforos inteis. Pelo contrrio, fez uma paragem brusca, convencido de que, se
o seu inimigo chocasse com ele, o seu peso e do seu cavalo dar-lhe-iam vantagem suficiente.
O cavaleiro sarraceno teve o mesmo pensamento e, receando o resultado provvel de tal choque, quando chegou perto do cristo, rodou o seu cavalo para a esquerda
com uma destreza inimitvel, por duas vezes deu a volta ao seu antagonista que, por uma manobra anloga, sem deixar o seu lugar, se lhe apresentava sempre de
9
frente, iludindo todas as suas tentativas para o atacar sem que ele estivesse em guarda, de modo que o sarraceno foi obrigado a retirar-se  distncia de umas cinquenta
toesas.
Contudo, o mouro em breve voltou  carga, mas foi de novo forado a bater em retirada. Aproximou-se da mesma maneira uma terceira vez, mas o cavaleiro cristo, desejando
pr fim a esta manobra na qual ele podia ficar extenuado pela actividade do inimigo, pegou subitamente na maa-de-armas, suspensa no aro da sua sela, e lanou-a
 cabea do seu adversrio que parecia ser nada menos que um emir. O sarraceno teve apenas tempo para colocar o seu escudo entre esta arma formidvel e a sua cabea:
a violncia do golpe empurrou o escudo para cima do seu turbante e, embora esta arma defensiva tivesse contribudo para amortecer o choque, foi derrubado do seu
cavalo. Contudo, antes que o cristo pudesse aproveitar-se desta queda, o gil sarraceno levantou-se e, chamando o seu cavalo, que se aproximou dele imediatamente,
saltou para a sela e tornou a ganhar a vantagem de que tinha sido privado pelo cavaleiro do leopardo.
Durante este tempo, o cristo tinha apanhado a sua massa-de-armas e o sarraceno, recordando-se com que destreza o seu inimigo se tinha servido dela, pareceu desejar
manter-se fora do alcance de uma arma, cuja fora tinha experimenttado, e mostrou a inteno de continuar o combate com armas de que se podia servir de mais longe.
Plantando a sua comprida lana na areia, a certa distncia, esticou um pequeno arco que trazia s costas e, pondo o seu cavalo a galope, descreveu ainda em volta
do cristo dois ou trs crculos de uma circunferncia mais extensa que as primeiras e atirou seis flechas contra ele, com um golpe de vista to seguro que se o
seu inimigo no recebeu igual nmero de feridas, no deveu isso seno  bondade da sua armadura. A stima pareceu ter embatido numa parte menos resguardada, pois
que o cavaleiro do leopardo caiu repentinamente do cavalo.
Mas qual no foi a surpresa do sarraceno quando, tendo posto o p em terra, para examinar o seu inimigo derrubado, se sentiu de repente agarrado pelo europeu, que
tinha recorrido a este estratagema para atrair o seu inimigo para perto de si! Nesta luta mortal, foi salvo pela sua presena de esprito e pela sua agilidade. Desapertando
10
o cinturo pelo qual o cavaleiro do leopardo o retinha e furtando-se assim s suas temveis mos, voltou a subir para o cavalo, que parecia seguir todos os movimentos
do seu dono, e afastou-se de novo. Mas, neste ltimo encontro, o sarraceno tinha perdido a sua cimitarra e a aljava cheia de flechas, agarradas ao cinturo que tinha
sido forado a abandonar. O seu turbante tinha tambm cado durante a luta. Estas desvantagens pareceram levar o muulmano a propor uma trgua. Acercou-se do cristo,
com a mo direita estendida, mas j sem ser numa atitude ameaadora:
- Existe uma trgua entre as nossas naes - disse-lhe ele, empregando a lngua franca que servia de meio de comunicao entre os cruzados e os sarracenos, por que
razo haveria pois de existir guerra entre tu e eu? Que haja paz entre ns.
- Acedo - respondeu o cavaleiro do leopardo -, mas que garantia me ofereces tu de que respeitars a trgua?
- Jamais um servidor do Profeta faltou  sua palavra - respondeu o emir. - Seria a ti, bravo nazareno, que eu deveria pedir uma garantia se eu no soubesse que raramente
a traio habita com a coragem.
A confiana do sarraceno fez corar o cruzado pela falta de confiana que tinha demonstrado:
- Pela cruz da minha espada! - disse - ser-te-ei companheiro fiel, sarraceno, enquanto a fortuna quiser que estejamos juntos.
- Por Maom, profeta de Deus, e por Al, Deus do Profeta! No h no meu corao traio contra ti. E agora dirijamo-nos a esta fonte, pois que  chegada a hora do
repouso e os meus lbios apenas se tinham humedecido, quando a tua presena me chamou ao combate.
O cavaleiro do leopardo logo anuiu com cortesia; e os dois guerreiros, antes inimigos, dirigiram-se juntos para o grupo de palmeiras sem que um nico olhar indicasse
o ressentimento.
11
CAPTULO II
"Para conversarem e viajarem juntos.
Para serem amigos e bons companheiros,  necessrio, segundo julgo, que os dois tenham o mesmo esprito, os mesmos costumes, as mesmas afeies. "
SHAKESPEARE
OS tempos de guerra tm sempre os seus momentos de trguas e segurana- isto era sobretudo de uso nos sculos feudais, porque com os costumes dessa poca, fazendo
da guerra a principal e a mais nobre ocupao do gnero humano, os intervalos de trguas, ofereciam mais atractivos a guerreiros que no desfrutavam deles seno
raramente.
No fundo, pensavam manter uma permanente inimizade contra o inimigo que tinham combatido como bravos campees e cuja vida podiam atacar na manh seguinte. O tempo
e as circunstncias ofereciam tantas ocasies para satisfazer as paixes violentas que estes guerreiros, a menos que fossem inimigos particulares, passavam com prazer,
na companhia uns dos outros, os curtos intervalos permitidos por uma vida consagrada s armas.
Apesar da diferena das religies, o zelo fantico que lanava uns contra os outros os servidores da cruz e os do crescente era consideravelmente adoado por um
sentimento to natural a guerreiros generosos e que alimentavam particularmente o esprito da cavalaria. Este ltimo impulso, que no era o menos forte, tinha-se
gradualmente estendido dos cristos aos seus inimigos mortais, os sarracenos de Espanha e da Palestina. Estes, no eram j os selvagens
13
fanticos que tinham partido do centro dos desertos da Arbia, de cimitarra numa das mos e o Coro na outra, para reduzir  escravatura e sobrecarregar com um tributo
quem quer que se recusasse a adoptar a crena do profeta de Meca.
Tal era a escolha que tinha sido proposta aos Gregos e aos Srios pouco belicosos, mas ao combater os cristos do Ocidente, animados por um zelo to ardente como
o deles, to indomveis pela sua coragem, dotados de destreza e ilustrados por mais de uma vitria, os Sarracenos tomaram pouco a pouco uma parte das suas maneiras
e sobretudo adoptaram os usos cavalheirescos. Eles tambm tinham os seus torneios e as suas justas; tinham at a sua cavalaria ou, pelo menos, qualquer coisa aproximada;
mas, acima de tudo, os Sarracenos mantinham a sua palavra com uma exactido que podia por vezes envergonhar os discpulos de uma religio mais pura. As suas trguas
eram religiosamente observadas e da resultava que a guerra, que em si prpria  talvez o maior dos males, servia para demonstrar de uma parte e de outra boa f,
clemncia e generosidade. Estes sentimentos mostravam-se talvez mais raramente nos tempos mais tranquilos, onde as paixes, encontrando ocasies menos prontas para
se satisfazerem, permanecem adormecidas no corao dos que so suficientemente infelizes para ficarem presos delas.
Foi sob a influncia destes sentimentos que o cristo e o sarraceno, que alguns momentos antes nada tinham descuidado para dar a morte um ao outro, se dirigiram
para a fonte das palmeiras, aonde o cavaleiro do Leopardo se dirigia quando fora interrompido na sua caminhada por um adversrio gil e temvel. Os seus corcis
pareciam igualmente gozar deste intervalo de repouso. O cavalo do sarraceno, apesar dos movimentos mais rpidos e mais numerosos aos quais fora forado, parecia
menos fatigado que o do cruzado europeu. O suor corria ainda das crinas deste, enquanto tinham bastado alguns instantes de marcha tranquila para secar o do nobre
corcel da Arbia. O solo movedio, pisado pelos dois corcis, de tal modo aumentava o sofrimento da montada do cristo, carregada com uma pesada armadura e com o
fardo do seu dono, que o cavaleiro, pondo p em terra, o conduziu pela rdea no meio da poeira espessa do terreno rido. Condenava-se assim a uma nova fadiga para
aliviar o
14
seu fiel corcel, pois que os seus ps se afundavam na poeira at ao tornozelo, a cada passo que fazia sobre um solo to ligeiro e que to pouca resistncia oferecia.
- Tendes razo - disse o sarraceno, e estas foram as primeiras palavras pronunciadas depois de terem concludo a sua trgua. Esse bom cavalo merece os vossos bons
cuidados; mas que fazeis vs no deserto com um animal que se afunda a cada passo at  bandeirola?
O cavaleiro cristo ficou pouco satisfeito com o tom de crtica com o qual o infiel se exprimia acerca do seu corcel favorito.
- Falais bem - respondeu - isto , de acordo com os vossos conhecimentos e as vossas observaes. Mas no meu pas atravessei sobre este bom cavalo um lago to extenso
como o que vedes por trs de ns, sem que ele molhasse um s plo acima da ponta.
O sarraceno olhou-o com surpresa, mas no a testemunhou seno por um ligeiro sorriso prximo do desdm, que mal fez mover os plos do seu espesso bigode:
- Bem dito, cristo - acrescentou ele retomando imediatamente a sua calma e gravidade costumadas. - Escutais um franco e ouvireis uma fbula.
- No estais a ser delicado, infiel, pois que duvidais da palavra de um cavaleiro; e se no soubesse que falais assim por ignorncia e no para me insultar, a nossa
trgua apenas iniciada, imediatamente cessaria. Julgais que vos digo uma mentira se vos disser que eu e quinhentos cavaleiros, marchmos durante vrias milhas sobre
a gua que possua a solidez do cristal?
- Que quereis dizer-me? - exclamou o muulmano. - Este mar que vs me mostrais tem a particularidade de, devido  maldio especial de Deus, permitir que nada se
enterre sob as suas guas; mas nem o mar Morto, nem qualquer dos sete oceanos que rodeiam a Terra, suportam sobre a sua superfcie a presso do p de um cavalo!
- Vs falais segundo os vossos conhecimentos, sarraceno disse o cavaleiro cristo -, e, contudo, acreditais nos meus. Aqui o calor converteu a areia numa poeira
que tem quase a instabilidade da gua; no meu pas, o frio transforma, por vezes, a gua numa substncia to dura como uma rocha. Mas no falemos mais sobre
15
isso; a lembrana da superfcie azul, calma e lmpida de um dos nossos lagos, durante o Inverno, reflectindo o fulgor brilhante das estrelas e da Lua, redobra os
horrores deste deserto onde o ar parece o vapor de uma fornalha.
O sarraceno olhou-o atentamente, como para se assegurar de que maneira deveria interpretar um discurso que, a seus olhos devia parecer esconder algo de misterioso
ou o desejo de o enganar. Por fim, pareceu tomar a sua deciso sobre o sentido que devia dar ao que o seu novo companheiro acabava de dizer:
- Pertenceis a uma nao que gosta de rir - disse-lhe ele - e diverti-vos a gracejar a expensas dos"outros, relatando-lhes coisas que nunca puderam acontecer. Vs
sois um dos cavaleiros de Frana que transformaram num prazer o facto de se gabarem de feitos acima do poder do homem. Faria mal em vos contestar, neste momento,
o previlgio de falar assim, pois que as fanfarronices vos so mais naturais do que a verdade.
- No sou desse pas - respondeu o cavaleiro - e no adopto a moda que, como dizeis,  de se "gabar" aos outros, vangloriando-se do que nunca se fez. Mas tornei-me
culpado da minha loucura, bravo sarraceno, falando-te do que  impossvel que compreendas. Mesmo dizendo-te a mais simples'das verdades, mereci passar a teus olhos
por um "gabarola"; peo-te, pois, que no me fales mais nisso.
Chegavam neste momento perto do grupo de palmeiras cuja folhagem protegia a gua limpa da fonte.
Um instante de trgua no meio da guerra, e este belo lugar, no meio de um deserto estril, oferecia um repouso agradvel  imaginao. Mostrava uma cena que pouco
teria atrado a ateno em qualquer outro stio; mas como este era o nico local que, num horizonte sem limites, oferecia sombra para se refrescar e gua para se
desalterar, esta dupla vantagem, que se desdenha quando a encontramos a cada passo, fazia da fonte e da sua vizinhana um pequeno paraso.
Mo generosa ou caritativa, antes do comeo dos dias de luto da Palestina, rodeara de um muro e cobrira esta fonte com uma abbada a fim de impedir que ela fosse
absorvida pela terra e atulhada pelas nuvens de areia que o menor sopreo de vento espalhava pelo
16
deserto. Esta abbada estava agora em runas, mas sobrava ainda a suficiente para cobrir a fonte, de maneira a dela excluir o sol. Apenas um raio oblquo podia aflorar
as suas guas que, enquanto em redor tudo era aridez e secura, ofereciam uma toalha prateada, deliciosa, tanto para os olhos como para a imaginao. Ao sair da abbada,
a gua era recebida numa bacia de mrmore, j deteriorada mas alegrando  vista, a provar que este local fora outrora olhado como uma paragem ou estao, que mo
humana a trabalhara e que a se pensara nas necessidades do homem. Era um sinal que lembrava, ao viajante alterado e fatigado, que outros alm dele tinham sido
expostos aos mesmos sofrimentos, e tinham sem dvida regressado em segurana a um pas mais frtil. A pequena corrente, apenas visvel, que se escapava desta bacia,
servia para alimentar as poucas rvores que cercavam a fonte; e quando ela desaparecia, absorvida na terra, a sua existncia era anunciada por uma bela verdura.
Foi neste local delicioso que os dois guerreiros pararam e, cada um deles a seu modo, desembaraaram o seu corcel da sela, do seu freio e das rdeas, e os dois cavalos
desalteraram-se na bacia enquanto os seus donos se refrescavam na fonte sob a abbada. Permitiram depois s suas montadas errarem  vontade nos arredores, sabendo
bem que os seus interesses os impediriam de se afastar de um lugar onde encontravam gua pura e erva fresca.
O cristo e o sarraceno sentaram-se em seguida sobre o relvado e tiraram da sua sacola as provises de que se tinham munido. Contudo, antes de pensarem em satisfazer
o seu apetite, olharam-se um ao outro. Cada um deles parecia querer medir a fora de um adversrio to terrvel e fazer uma ideia do seu carcter: cada um deles
foi obrigado a reconhecer que, se tivesse sucumbido no combate, teria sido com um brao digno de si.
As feies e o exterior dos dois campees ofereciam um contraste perfeito; e poder-se-ia julgar ver neles representantes bastante bem caracterizados das suas diferentes
naes. O franco parecia um homem robusto, modelo das antigas formas gticas, com uma floresta de cabelos castanhos, que frisaram naturalmente quando ele tirou o
capacete. O calor do clima dera ao seu rosto uma tez mais morena do que se esperaria ao ver os seus grandes olhos azuis bem rasgados, a cor dos seus cabelos e a
dos bigodes, porque a sua barba
17
estava cuidadosamente aparada no queixo, segundo o costume dos Nofmandos. Tinha o nariz bem formado, a boca um pouco grande mas com belos dentes de uma brancura
resplandecente; a cabea era pequena e graciosa. A sua idade no devia ultrapassar os 30 anos; mas, tomando em considerao os efeitos da fadiga e do clima, poder-se-ia
supor trs ou quatro anos menos. Tinha a estatura e o vigor de um atleta e, com o tempo, parecia susceptvel de adquirir uma certa obesidade, embora tudo anunciasse
ainda nele a ligeireza e a actividade; quando tirou os guantes, deixou ver umas mos grandes, brancas e bem-proporcionadas, uns pulsos vigorosos e braos de uma
fora notvel. Uma audcia militar e a expresso de uma franqueza descuidada caracterizavam todas as suas falas e os seus gestos; enfim, o som da sua voz anunciava
um homem mais acostumado a comandar do que a obedecer, habituado a expressar os seus sentimentos em qualquer circunstancia, sem tergiversar.
A estatura do emir elevava-se, na verdade, acima da altura mdia, mas ficava pelo menos trs polegadas abaixo da do europeu, que era quase gigantesco. Os seus membros
franzinos, as suas compridas mos e magros braos, no permitiam, em princpio, adivinhar o vigor e a elasticidade de que recentemente dera provas Mas, examinados
com mais ateno, os seus membros pareciam somente despojados de todo o excesso de carne, que lhe poderia dificultar os movimentos, de modo que no ficavam seno
ossos, msculos e nervos. Era um corpo feito para a fadiga e para proezas muito acima daquelas que poderia ter executado um campeo cujo vigor e estatura fossem
contrapostos pela sua lentido e que se cansasse com os prprios esforos. A fisionomia do sarraceno participava do carcter geral da tribo oriental de que ele descendia,
mas sem oferecer nenhum daqueles traos exagerados pelos quais os trovadores dessa poca representavam os campees infiis.
O seu rosto delicado e bem formado, mas queimado pelo sol do Levante, era terminado por uma barba negra naturalmente encaracolada, que parecia estar penteada com
um cuidado especial. Os olhos eram um pouco encovados mas vivos, negros e brilhantes; o seu nariz, direito e regular; e os dentes igualavam a beleza do marfim. Numa
palavra, a aparncia e as propores do sarraceno poderiam fornecer um paralelo anlogo ao da sua cimitarra brilhante, em
18
forma de nascente, com uma lmina de damasco estreita e ligeira, mas brilhante e bem afiada, comparada com a comprida e pesada espada gtica do cristo, que repousava
ao lado sobre o mesmo solo. O emir estava na flor da idade e poderia passar por um belo homem se a sua fronte no fosse demasiado estreita, e se s suas feies
no faltasse aquela relativa rotundidade que, pelo menos segundo as ideias dos Europeus,  necessria para constituir a beleza.
As maneiras do guerreiro oriental, cheias de gravidade e de graa, indicavam, contudo, em certo aspecto, o constrangimento que se impem a si prprios os homens
dotados de um carcter impetuoso e irascvel, para se porem em guarda contra as suas disposies naturais; e ao mesmo tempo via-se nelas transparecer o sentimento
ntimo da sua prpria dignidade, que parecia impor um certo formalismo a quem quer que se encontrasse com ele.
Este sentimento altivo de superioridade encontrava-se talvez no ntimo do seu novo conhecimento europeu; mas produzia nos dois companheiros um efeito completamente
diferente.
O mesmo sentimento que dava ao cavaleiro um ar de audcia, de franqueza e quase de despreocupao, sem se inquietar com o que os outros pensavam da sua importncia,
parecia prescrever no sarraceno um gnero de delicadeza que observava estritamente todas as regras do cerimonial. Ambos eram corteses; mas a cortesia do cristo
parecia ter a sua origem no conhecimento do que era devido aos outros, ao passo que a do mulumano parecia vir da elevada ideia que ele tinha do que se devia esperar
dele.
As provises de que cada um se havia abastecido para a sua refeio eram simples, mas as do sarraceno mais frugais ainda. Um punhado de tmaras e um bocado de po
bastaram para satisfazer o apetite de um homem cuja educao o tinha habituado  alimentao do deserto, embora, depois das suas conquistas na Sria, a simplicidade
da vida dos rabes tivesse muita vez dado lugar  mais extravagante prodigalidade. Alguns goles de gua da fonte completaram a sua refeio.
A do cristo, sem ser requintada, era mais substancial. Porco salgado, abominado pelo Muulmano, compunha a maior parte, e a sua bebida, que tirou de um cantil de
couro, valia um pouco mais
19
do que o lmpido elemento. Mostrou mais apetite ao comer e mais satisfao ao beber do que o sarraceno julgava conveniente fazer ao desempenhar uma funo meramente
animal. E sem dvida o secreto desprezo que eles tinham um pelo outro, ao olharem-se mutuamente como sectrios de uma falsa religio, devia ter aumentado com a diferena
ntida da sua alimentao e das suas maneiras. Mas cada um deles experimentara a fora do brao do outro, e o respeito recproco que lhes tinha inspirado o seu combate
bastava para fazer calar todas as consideraes de ordem inferior.
O sarraceno no pde impedir-se de fazer uma observao sobre o que lhe desagradava na conduta e nos modos do cristo e dirigiu-Lhe a palavra nestes termos:
- Valoroso nazareno, ser conveniente que aquele que sabe combater como um homem se alimente como um lobo? Mesmo um judeu descrente teria sentido horror da carne
que comes como se fosse um fruto das rvores do Paraso.
- Bravo sarraceno - respondeu o cristo, olhando-o com um ar de surpresa - aprende que eu uso da liberdade de um cristo ao alimentar-me de uma carne interdita ao
Judeu, porque ele est ainda ou, pelo menos, julga estar sob a servido da antiga lei de Moiss. Fica sabendo que ns temos uma melhor garantia pelo que fazemos.
Av-Maria, sejamos reconhecidos.
E como para desafiar os escrpulos do seu companheiro, bebeu ainda um longo trago da sua garrafa de couro, depois de ter pronunciado uma curta aco de graas em
latim.
- Eis ainda o que vs chamais uma parte da vossa liberdade disse o sarraceno. - No tendes maior moderao do que os animais dos bosques e degradais-vos at mais
do que eles, bebendo o que eles recusariam.
- Aprende, insensato sarraceno - respondeu sem hesitar o Cavaleiro do Leopardo - que blasfemas contra os dons de Deus. como blasfemas do teu pai Ismael. O sumo das
uvas  dado quele que o toma com moderao, como uma bebida que alegra o corao do homem depois dos seus trabalhos. Aquele que o usa deste modo pode dar graas
a Deus pela sua taa de vinho tanto como pelo seu po quotidiano; e aquele que abusa deste dom do Cu  maior louco na sua embriaguez do que tu s na tua abstinncia.
20
O olhar vivo do sarraceno inflamou-se com este sarcasmo e ele fez um gesto para levar a mo ao seu punhal. Contudo, no foi seno um pensamento momentneo, que se
desvaneceu quando pensou no vigor do campeo com quem ele se tivera que haver e no aperto terrvel daquela mo de que ainda conservava as marcas; contentou-se em
continuar uma disputa verbal, como sendo de momento o mais conveniente.
- As tuas palavras, nazareno - disse ele - poderiam excitar a clera, se a tua ignorncia no fizesse nascer a compaixo. Mais cego do que aqueles que pedem esmola
 porta de uma mesquita, no vs tu que a liberdade  demais preciosa para a felicidade do homem e, o que  mais, necessria  sua casa? A tua lei, se a observas,
no te prende por casamento a uma s mulher, quer ela seja doente ou saudvel, fecunda ou estril? Eis aqui, nazareno, o que eu chamo verdadeiramente uma escravatura;
ao passo que o Profeta concedeu aos fiis o privilgio patriarcal de Abrao, nosso pai, e de Salomo, o mais sbio dos homens, permitindo-nos uma variedade de belezas
aqui em baixo e prometendo-nos, para alm-tmulo, as huris de olhos negros do Paraso.
- Em nome daquele que adoro no Cu e daquela que mais venero sobre a Terra - exclamou o cristo -, no s seno um infiel cego e transviado. Este diamante que trazes
no dedo, considera-lo, sem dvida, de um preo inestimvel?
- Bassora e Bagdad no poderiam mostrar outro semelhante. Mas que relao tem essa pergunta com o assunto da nossa conversa?
- Uma relao directa, como tu prprio convirs. Toma a minha maa-de-armas e parte este diamante em vinte bocados. Ser cada fragmento to precioso como a pedra
inteira, e valero todas as partes juntas o dcimo do preo?
- Isso  uma pergunta que se faz a uma criana. O valor dos fragmentos de um tal diamante seria cem vezes menor do que o da Pedra inteira.
- Pois bem, sarraceno, o amor que um verdadeiro cavaleiro tem por uma nica mulher, bela e fiel,  o diamante inteiro, e a afeio que prodigalizas s tuas mulherres
escravas e s escravas que no so seno meias-mulheres tuas, no tem mais valor, do que teriam os fragmentos desta pedra.
21
- Pela santa Caaba! s um louco que beijas a tua corrente de ferro como se ela fosse de ouro. Este anel que tu vs perderia metade da sua beleza se este soberbo
brilhante no estivesse rodeado de diamantes de menor preo, que o valorizam. Esta pedra central  o homem, firme, inteiro e cujo valor no depende seno de si prprio;
e aquelas que o rodeiam so as mulheres que lhe pedem emprestado o seu lustro. Tira do anel o diamante que constitui o seu centro. O diamante ser to precioso como
antes, mas as pequenas pedras tero pouco valor. Tal  a verdadeira verso da tua palavra, pois  o favor do homem que d  mulher a sua beleza e o seu encanto,
do mesmo modo que a gua do ribeiro deixa de brilhar quando os raios do sol j no incidem nela.
- Sarraceno, falas como um homem que nunca viu uma mulher digna da afeio de um soldado. Acreditar-me-ias se pudesses ver aquelas europeias a quem ns, que recebemos
a ordem de cavalaria, prestamos juramento de fidelidade e de devoo, ficarias desgostado para sempre das pobres escravas sensuais que povoam o teu harm. Os atractivos
das nossas belas tornam as nossas lanas mais cortantes e as nossas espadas mais afiadas; as suas palavras so a nossa lei e mais depressa se ver uma lmpada espalhar
a sua claridade sem estar acesa do que um cavaleiro distinguir-se por feitos de armas sem ter uma dona das suas afeies.
- Tenho ouvido falar - disse o emir - dessa extravagncia dos guerreiros do Ocidente, e sempre a considerei como um dos sintomas que acompanham a loucura. Contudo,
ouvi os francos com que me tenho encontrado fazer um to grande elogio  beleza das suas mulheres que parece-me que gostaria de ver com os meus prprios olhos esses
encantos que podem fazer de tantos bravos guerreiros os instrumentos das suas vontades.
- Bravo sarraceno, se no me encontrasse em peregrinao para o Santo Sepulcro consideraria uma honra conduzir-te ao acampamento de Ricardo de Inglaterra, que sabe
melhor do que ningum prestar honras a um nobre inimigo, embora pobre e sem squito, assim como a todos aqueles que so o que tu pareces ser. Tu verias a vrias
das mais ilustres beldades da Frana e da Inglaterra.
- Pela pedra angular de Caaba - exclamou o sarraceno - aceitarei o teu convite to francamente como mo ests a fazer, se quiseres
22
retardar a tua peregrinao; e acredita-me, bravo nazareno, farias melhor em voltar a cabea do teu cavalo para o lado do acampamento dos teus companheiros; pois
que dirigires-te a Jerusalm sem passaporte  renunciar voluntariamente  vida.
- Tenho um - respondeu o cavaleiro, mostrando-lhe um pergaminho. - Est assinado por Saladino e revestido com o seu sinete.
O sarraceno inclinou a cabea ao reconhecer o selo e a letra do clebre sulto do Egipto e da Sria, e tendo beijado o pergaminho com um prfundo suspiro, levantou-o
 fronte e devolveu-o ao cristo, dizendo;
- Temerrio franco, pecaste contra o teu sangue e contra o meu. no me mostrando o teu passaporte quando nos encontrmos.
- Aproximaste-te de lana em riste - respondeu o cavaleiro. Se eu tivesse sido assaltado por um bando de sarracenos, a minha honra ter-me-ia permitido fazer-lhes
ver a ordem do sulto; mas ela no me permitia que a mostrasse a um homem s.
- E no entanto - replicou o sarraceno - um homem s bastou para interromper a tua viagem.
- Tens razo, bravo muulmano; mas os homens como tu so raros. Tais falces no se abatem todos juntos sobre um nico pssaro.
- Prestas-nos justia - respondeu o sarraceno, evidentemente to lisonjeado com este cumprimento como picado ficara antes com o que ele tinha apelidado de fanfarronices
do cavaleiro. - Ns teramos desdenhado tomar sobre ti uma injusta vantagem; mas  afortunado para mim que no te tenha privado da vida, tendo sobre ti a salvaguarda
do rei dos reis. Certamente que a corda ou a cimiterra me teriam justamente punido de um tal crime.
- Fico encantado por saber que a influncia deste escrito me poder ser til, pois que tenho ouvido dizer que o caminho est infestado de tribos de bandidos.
- Disseram-te a verdade, bravo cristo; mas juro-te pelo turbante do Profeta que, se fores vtima da malvadez desses bandidos, me encarregarei eu prprio de te vingar,
 cabea de quinhentos cavaleiros!
Preferiria, nobre emir, que todos esses esforos fossem destinados
23
a vingar um outro que no eu; mas o meu voto fica registado no Cu, acontea o que acontecer, e eu ficar-te-ia agradecido se me indicasses o caminho que devo seguir
para me dirigir ao local onde conto passar a noite.
- Ser sob a tenda negra de meu pai.
- Devo passar esta noite em orao com um santo homem, Teodorico d'Engaddi, que vive neste deserto e que consagra a sua vida ao servio de Deus.
- Pelo menos conduzir-te-ei at l em segurana.
- A tua companhia ser-me-ia muito agradvel, bravo emir; mas ela poderia pr em perigo a segurana do bom padre, pois que a mo cruel do teu povo j mais de uma
vez se avermelhou com o sangue dos servidores do Senhor, e  por isso que ns viemos para aqui armados com a espada e a lana, para abrir um caminho at ao Santo
Sepulcro, e proteger os anacoretas que vivem nesta terra.
- Os Gregos e os Srios caluniaram-nos cruelmente, nazareno, pois que ns no agimos seno segundo as ordens de Abubeker Alwakel, sucessor do Profeta, e depois dele,
o primeiro chefe dos crentes.
"Ide - disse ele a Yezed Ben Sophian, quando enviou este famoso general para conquistar a Sria aos infiis -, conduzi-vos como homens no combate; mas no matem
nem os velhos nem os enfermos, nem as mulheres nem as crianas. No devastem a terra nem destruam as colheitas, porque foi Al quem as deu de presente aos homens.
Guardai a vossa palavra mesmo que isso seja em vosso detrimento. Se encontrarem santos homens trabalhando com as suas mos e servindo Deus no deserto, no lhes faam
mal e no derrubem a sua casa."
- Tendo sido estas as palavras do califa, companheiro do profeta, ns obedecemo-lhes e aqueles que a nossa justia atacou no so seno os padres de Satans. Quanto
aos santos homens que, sem levantar as naes contra as naes honram Deus sinceramente, na f de Issa Ben Mariam 1, no somos para eles seno uma sombra e um escudo
e, sendo um desses aquele que tu procuras, embora a luz
1 Jesus, filho de Maria.
24
do Profeta no o tenha esclarecido, ele no encontrar em mim seno afeio, respeito e proteco.
- Ouvi dizer que o anacoreta que you visitar no  padre; mas se ele pertencesse a esta ordem ungida e sagrada eu experimentaria a minha lana contra todo o pago
e todo o infiel...
- No nos desafiemos um ao outro, meu irmo - disse o sarraceno, interrompendo-o. - Ns os dois encontraremos bastantes francos e muulmanos para exercitar as nossas
cimitarras e as nossas lanas. Este Teodorico  igualmente protegido pelo Turco e pelo rabe, e, embora seja um homem de carcter estranho, conduz-se. no entanto,
to bem, como sectrio do seu profeta que ele merece a proteco daquele que foi enviado...
- Por Nossa Senhora, sarraceno - exclamou o cavaleiro cristo
- se ousas nomear ao mesmo tempo o condutor de camelos de Meca e...
Um movimento de clera agitou todos os membros do emir; mas no durou seno um instante e o tom calmo da sua resposta anunciava tanta razo como dignidade:
- No calunies aquele que no conheces - disse ele, interrompendo por sua vez. - Tanto mais que ns respeitamos o fundador da tua religio, embora condenemos a doutrina
que os vossos padres tiram da sua moral. Vou-te conduzir eu prprio  caverna do ermita; porque, sem a minha ajuda tereis alguma dificuldade em a encontrar. Deixemos
aos mollahs e aos monges o cuidado de discutirem sobre a santidade da nossa respectiva f, e, durante o caminho, falemos de assuntos que convm mais aos jovens guerreiros.
25

CAPITULO III
"Ao v-lo, foi tomado de terror,
E no sabia que pensar nem fazer.
Seria ento apenas uma v quimera?
Seria um sonho abusando da sua razo?
Seria uma sombra, um esprito, um demnio?"
SPENSER
OS dois guerreiros levantaram-se e ajudaram-se cortesmente a ajustar os arreios de que tinham momentaneamente desembaraado os seus fiis corcis. Ambos pareciam
perfeitamente habituados a desempenhar as funes que nesta poca constituam uma parte necessria e at indispensvel dos deveres de um cavaleiro; ambos pareciam
tambm, tanto quanto o admitia a diferena entre a espcie animal e a espcie racional, possuir a confiana e a afeio do cavalo, fiel companheiro das suas fadigas
e dos seus perigos. A respeito do sarraceno, esta familiaridade ntima resultava dos seus hbitos da juventude; porque, sob as tendas das tribos belicosas do Oriente,
o guerreiro confere ao seu Cavalo uma importncia comparvel apenas quela que tem para ele a sua mulher e a sua famlia.
Quanto ao cavaleiro europeu, as circunstncias e a necessidade
faziam com que o seu cavalo de batalha lhe fosse to caro como um irmo de armas.
Os dois corcis deixaram-se pois privar tranquilamente da sua liberdade e - renunciando  sua pastagem, puseram-se a relinchar afectuosamente perto dos seus donos,
enquanto estes os revestiam
27
do seu equipamento para se meterem a caminho e suportarem novas fadigas. Cada um dos dois guerreiros, ao desempenhar-se da sua tarefa ou ao ajudar cortesmente o
seu companheiro a desempenhar-se da sua, olhava atentamente e reparava com curiosidade o que lhe parecia singular na maneira de arranjar os objectos de que no estava
habituado a servir-se.
Antes de montar a cavalo, o cavaleiro cristo humedeceu ainda os lbios e meteu de novo as mos na gua viva da fonte.
- Gostaria - disse ento ao seu companheiro pago - de saber o nome desta fonte para conservar dela uma lembrana reconhecida; porque nunca gua mais deliciosa pde
estancar sede to ardente.
- O nome que cia tem em rabe - respondeu o sarraceno significa o diamante do deserto.
- E merece esse nome - disse o cruzado. - Existem mil fontes no vale que me viu nascer, mas a nenhuma delas ligarei uma lembrana to preciosa como a esta fonte
solitria, que espalha os seus tesouros lquidos num lugar onde eles so no somente deliciosos mas quase indispensveis.
-  verdade - respondeu o emir - porque a maldio existe ainda sobre este mar de morte e nem o homem nem o animal bebem das suas guas; no saboreia aquelas da
ribeira que alimenta sem a encher seno depois de ter sado deste deserto inspito.
Os dois guerreiros montaram a cavalo e continuaram a sua viagem. O calor do meio-dia tinha passado, e uma brisa ligeira tornava mais suportveis os horrores do deserto,
embora trouxesse nas suas asas uma poeira impalpvel  qual o sarraceno prestava pouca ateno mas que o cavaleiro, pesadamente armado, achava to incmoda que suspendeu
o seu capacete de ao ao aro da sua sela e cobriu a cabea com um ligeiro bon de viagem, que se chamava ento almofariz, devido  semelhana que apresentava com
um almofariz vulgar.
Durante algum tempo marcharam em silncio, o sarraceno desempenhando as funes de guia, o que fazia examinando o corte dos primeiros traos de uma cadeia de rochedos
de que se estavam a aproximar a pouco e pouco. Esta tarefa pareceu absorver toda a sua ateno e era como um piloto que conduz um navio num brao de mar onde a navegao
 difcil; mas, mal tinham percorrido uma
28
meia lgua, pareceu ficar seguro da sua rota e mostrou-se ento disposto a entrar em conversao, com uma franqueza que no era vulgar encontrar na sua nao.
- Perguntaste-me - disse o cavaleiro - o nome de uma fonte que possui a semelhana, mas no a realidade de um ser vivo. Perdoar-me-s, espero, se perguntar o do
companheiro de perigos e de repouso que encontrei hoje e que no posso julgar desconhecido, mesmo no meio dos desertos da Palestina.
- Ele no merece ainda ser citado - respondeu o cristo. Dir-te-ei, no entanto, que Kenneth  o nome que tenho entre os soldados da cruz, Kenneth do Leopardo Adormecido.
Tenho outros ttulos no meu pas; mas o som deles seria duro para um ouvido oriental. Por minha vez, bravo sarraceno, perguntar-te-ei qual a tribo da Arbia que
te reclama como um dos seus filhos e sob que nome s a conhecido.
- Alegro-me, Sir Kenneth de que o teu nome seja um que os meus lbios possam pronunciar. Quanto a mim, no sou rabe, mas descendo de uma raa que no  nem menos
errante nem menos belicosa. Sabei, caro Cavaleiro do Leopardo, que me chamo Sheerkohf, o Leo da Montanha, e que o Kurdisto, donde sai a minha origem, no contm
famlia mais nobre do que a de Seldjouk.
- Ouvi dizer que o vosso grande sulto pretende ter ido buscar o seu sangue  mesma fonte.
- Graas sejam dadas ao Profeta que honrou as nossas montanhas a ponto de tirar do seu seio aquele cuja palavra  uma vitria. No sou seno um humilde verme diante
do rei do Egipto e da Sria e, contudo, o meu nome pode valer alguma coisa no meu pas. Nobre estrangeiro, com quantos homens vieste para a guerra?
- Sobre a minha f, no foi sem dificuldade que pude fornecer dez boas lanas e uns cinquenta homens, estando neles includos arqueiros e criados. Alguns desertaram
ao meu infeliz estandarte, outros pereceram no campo de batalha; vrios foram ceifados por doenas; at o meu fiel escudeiro est gravemente doente e foi para obter
a sua cura que empreendi esta peregrinao.
Cristo, tenho cinco flechas na minha aljava, todas guarnecidas de plumas tiradas das asas de uma guia. Se enviar uma para as minhas tendas, mil guerreiros montaro
a cavalo; se enviar a
29
segunda, uma fora semelhante ficar s minhas ordens. As cinco faro levantar cinco mil homens, e se enviar o meu arco, dez mil cavaleiros faro levantar a poeira
do deserto. E  com cinquenta homens no teu squito que vais invadir um pas de que no sou seno um dos nfimos filhos?
- Pela cruz, sarraceno, em vez de te gabares assim devias aprender que um guante de ao pode esmagar de um s golpe um punhado de vespas.
- Sim, mas  preciso primeiro poder pr a mo sobre elas disse o sarraceno, com um sorriso que teria podido romper a sua aliana, ainda to recente, se ele no tivesse
desviado o assunto da conversa acrescentando -: E a bravura ser pois assim to estimada entre os prncipes cristos para que tu, que no tens fortuna nem soldados,
me possas propor, como acabas de fazer, ser um protector no acampamento dos teus irmos e a me garantir contra todos os perigos?
- Fica sabendo, sarraceno, j que me falas assim, que o nome de um cavaleiro e o sangue de um gentil-homem lhe do o direito de se colocar na mesma categoria que
os mais poderosos soberanos em tudo o que no respeite a autoridade real e a poder supremo. Se o prprio Ricardo de Inglaterra ofendesse a honra de um cavaleiro
to pobre como eu, no poderia, segundo as leis de cavalaria, recusar-Lhe combate.
- Parece-me que gostaria de ver uma cena to estranha, em que um cinturo de couro e um par de esporas pem o mais pobre ao nvel do mais poderoso.
- Acrescentai a isso um sangue nobre e uma alma intrpida e talvez no vos tenhais enganado.
- E vs misturais-vos assim to ousadamente com as mulheres dos vossos chefes e dos vossos grandes?
- Deus no permita que o mais pobre cavaleiro da cristandade no seja livre de consagrar com toda a honra, o seu corao e a sua espada e o renome das suas aces
e toda a devoo da sua alma,  mais bela princesa que jamais usou coroa!
- Ainda h momentos me descrevias o amor como sendo o maior tesouro do corao. O teu est sem dvida colocado em lugar nobre e elevado?
30
- Estrangeiro - respondeu o cristo com o rosto invadido por intenso rubor -, ns no dizemos inconsideradamente onde colocamos o nosso tesouro mais precioso. Que
te baste saber que o meu amor est colocado, como tu o dizias, em lugar nobre e muito elevado. Mas se quiseres ouvir falar de amor e de lanas quebradas, vem ao
acampamento dos cruzados e a encontrars onde exercitar os teus ouvidos e at o teu brao, se quiseres.
O guerreiro do Oriente, soerguendo-se sobre os estribos e agitando a lana, respondeu com altivez:
- Duvido que encontre uma das vossas gentes, tendo a cruz sobre o ombro, que queira entrar na lia comigo para lanar o djrid.
- No te prometo nada a esse respeito - disse o cavaleiro - e, no entanto, h no acampamento certos espanhis que conhecem bastante bem o vosso passatempo oriental
do lanamento do dardo.
- Os ces! Os filhos de ces! - exclamou o sarraceno. - Em que se intrometem estes espanhis para vir aqui combater os verdadeiros crentes, de quem no seu pas so
os servidores e os escravos? No seria com eles que gostaria de me entregar a divertimentos guerreiros.
- Que os cavaleiros de Leo e das Astrias te no ouam falar deles em tais termos - disse o cavaleiro do Leopardo. - Mas se, em vez de lanar um dardo - acrescentou,
com um sorriso ocasionado pela lembrana do combate da manh - te quiseres servir de uma maa-de-armas, no te faltaro guerreiros do Ocidente que estaro dispostos
a jogar a tua partida.
Pela barba do meu pai, cristo - respondeu o sarraceno sorrindo as maas-de-armas so demasiado pesadas para delas fazer Jogo. No lhes fugirei nunca no combate;
mas a minha cabea acrescentou, passando a mo sobre a fronte - advertir-me- durante algum tempo para no os procurar por diverso.
Gostaria que visses a maa-de-armas do rei Ricardo. Aquela que est suspensa do aro da minha sela, em comparao, no  mais do que uma pluma.
- Temos ouvido falar muito desse soberano de uma ilha. Sois um dos seus sbditos?
- Sou um dos seus soldados na nossa expedio e sinto-me honrado
31
com isso. Mas no nasci seu sbdito, embora tenha visto o dia na ilha onde ele reinava.
- Que queres dizer? Tm, pois, dois reis numa pobre ilha?
- Dizes bem - respondeu o escocs (pois que era a Esccia a ptria de Sir Kenneth). - Temos dois. Mas embora os habitantes das duas extremidades da ilha estejam
frequentemente em guerra entre eles, o pas, como vs, pode ainda fornecer um corpo de homens de armas capazes de abalar a autoridade profana do teu senhor sobre
as cidades do Sio.
- Pela barba de Saladino, nazareno! Se no fosse uma loucura inconsiderada da juventude, rir-me-ia da simplicidade do vosso grande sulto, que vem aqui para conquistar
desertos e rochedos e disputar-lhes a posse queles que tm dez vezes mais braos s suas ordens, enquanto ele deixa uma parte da pequena ilha. onde recebeu o dia,
sob o domnio de um outro ceptro, que no o seu. Certamente, Sir Kenneth, tu e os outros guerreiros do teu pas, deviam-se ter submetido ao poder deste rei Ricardo
antes de deixar uma regio dividida contra ela prpria.
- No, pela brilhante luz do Sol! - exclamou Kenneth, com tanta altivez como vivacidade. - Se o rei de Inglaterra no tivesse partido para a cruzada seno depois
de ter sido reconhecido soberano de Esccia, nem eu nem nenhum bom escocs teramos alguma vez procurado impedir o crescente de brilhar sobre os muros do Sio.
Mal tinha pronunciado estas palavras quando, caindo em si prprio, disse a meia voz:
- "Mea culpa! mea culpa!" Que direito tenho eu, soldado da cruz, em pensar numa guerra entre naes crists?
A maneira como a reflexo e o dever corrigiram esta expresso inconsiderada no escapou ao mulumano; e se no compreendeu inteiramente o que o Cavaleiro do Leopardo
acabara de dizer, isso foi o suficiente para o convencer que existia entre os cristos como entre os maometanos, sentimentos de inimizade pessoal e querelas nacionais
difceis de apagar.
Mas os Sarracenos eram uma nao to civilizada quanto a sua religio o permitia e particularmente susceptvel de conceber elevadas ideias de cortesia; foi o que
impediu o emir de parecer
32
aperceber-se da contradio que existia nos sentimentos de Sir Kenneth como escocs e como cruzado.
Entretanto,  medida que avanavam, a cena comeava a mudar  volta deles. Marchavam ento em direco ao oriente e tinham atingido a cadeia de rochedos escarpados
e ridos que desse lado rodeiam uma plancie nua. Eminncias rochosas e a pique elevavam-se  sua volta e, em breve, montes formidveis, vertentes rpidas e desfiladeiros
estreitos opuseram aos viajantes obstculos de um tipo diferente. Sombrias cavernas, fendas nos rochedos, essas grutas, de que tantas vezes falam as Escrituras,
pareciam abrir abismos dos dois lados durante a sua marcha, e o emir informou o cavaleiro escocs de que aquelas constituam frequentemente o covil de animais de
rapina ou de homens, ainda mais ferozes, que se haviam tornado bandidos e se entregavam s suas depredaes sem respeito por religio ou por condio, por sexo ou
por idade.
O cavaleiro escocs escutou com indiferena o relato das devastaes cometidas por animais ferozes ou homens desenfreados, confiando no seu valor e na sua fora.
Mas foi assaltado por um terror misterioso quando notou que estava no meio do deserto memorvel do jejum de quarenta dias, esse teatro da tentao  qual o Esprito
das Trevas pde submeter o Filho do Homem.
Deixou a pouco e pouco de prestar ateno  conversa frvola e mundana do guerreiro infiel; e, por agradvel que fosse, para ele, encontrar em qualquer outro lugar
um companheiro to alegre e to valente, Sir Kenneth sentiu que nestas paragens de desolao e de aridez, onde os maus espritos costumavam vaguear, um irmo descalo
seria para ele uma melhor companhia que um alegre descrente.
Estas reflexes causaram-lhe um certo embarao, tanto mais que a alegria do sarraceno parecia aumentar  medida que avanavam, e, quando viu que no obtinha resposta
alguma, ps-se a cantar. Sir Kenneth conhecia suficientemente as lnguas do Oriente para ter a certeza que ele cantava canes onde o amor inspira aos poetas orientais
toda a pompa do seu estilo figurado. Tais imagens eram Particularmente mal adaptadas aos pensamentos srios de um devoto cavaleiro no deserto da tentao. com uma
inconsequncia notvel, o sarraceno cantou tambm coplas em louvor do vinho, o rubi lquido
33
dos poetas persas, e a sua alegria tornou-se por fim to importuna ao escocs que, sem a promessa de amizade que tinham feito mutuamente, Sir Kenneth teria provavelmente
obrigado o seu companheiro a mudar de tom. De qualquer maneira, parecia-lhe ter a seu lado um demnio maligno e licencioso, que estendia ratoeiras  sua alma e que
punha em perigo a sua salvao eterna.
Estava pois bastante embaraado e no sabia bem o que fazer. Por fim, num tom brusco de descontentamento, interrompeu o cantor no meio do poema do clebre Rudpiki,
na estrofe em que ele profere o "sinal de beleza" que ornamenta o seio da sua amante a todas as riquezas de Bokhara e de Samarcanda:
- Sarraceno - disse-lhe com gravidade - cego como ests e mergulhado nos erros de uma falsa lei, deverias contudo compreender que h locais mais santos do que outros,
e que existem tambm alguns em que o esprito maligno tem um poder invulgar sobre os fracos mortais. No te direi por que motivo sublime este lugar, estas rochas,
estas cavernas passam por ser um local especialmente frequentado por Satans e os seus anjos; basta que homens santos e prudentes, que conhecem os riscos que se
correm neste lugar maldito, me tenham h muito tempo avisado para desconfiar. Assim, pois, sarraceno, pe fim a uma louca frivolidade que vem a despropsito e orienta
os teus pensamentos para coisas mais em harmonia com o lugar em que estamos, embora, desgraadamente para ti, as tuas melhores oraes no sejam seno blasfmia
e pecado.
O sarraceno escutou-o com alguma surpresa e respondeu-lhe com um bom humor e uma alegria refreados apenas por cortesia:
- Meu bom Sir Kenneth, parece-me que ages com pouca justia em relao ao teu companheiro ou que as tribos ocidentais esto habituadas a agir sem cerimnia. Eu no
me ofendi quando te vi beber vinho e encher de carne de porco; deixei-te desfrutar de uma refeio a que chamas a tua liberdade crist e contentei-me em te lamentar
do fundo do corao, vendo-te gostos to impuros. Porqu pois escandalizar-te quando alegro o melhor que posso uma triste estrada por meio de alguns versos espirituosos?
Que diz o poeta? "O canto  como o orvalho do cu caindo no seio do deserto; ele refresca o caminho do viajante."
- Amigo sarraceno - respondeu o cristo - no te censuro
34
por amares o canto e a alegre cincia, mas mais vale recitar oraes e salmos do que cantar os prazeres do amor e do vinho, quando se atravessa este vale da sombra
da morte, cheio de espritos malignos que as oraes dos santos homens foraram a afastar-se das habitaes dos imortais e a errar em lugares to malditos como eles.
- No fales assim dos gnios, cristo - disse o sarraceno. Aprende que falas a um homem cuja famlia e nao tiram a sua origem da raa imortal que a tua teme e
contra a qual blasfema.
- Bem me parecia que a tua raa cega descendia do Esprito das Trevas, sem o recurso do qual nunca te poderia ter mantido nesta bem-aventurada terra da Palestina,
contra um to grande nmero de valorosos soldados de Deus. No falo de ti em particular, sarraceno, falo em geral do teu povo e da tua religio; parece-me no entanto
muito estranho, no que descendam no esprito maligno, mas que disso se vangloriem.
- E de quem  que os mais bravos se haviam de vangloriar em descender seno daquele que foi o mais bravo?
"Pode-se odiar Eblis, estrangeiro, mas  preciso que o temam; e os descendentes de Eblis, no Kurdisto, so semelhantes ao seu pai.
Os contos de magia e necromancia eram a cincia deste tempo; e Sir Kenneth ouviu, sem incredulidade e sem muita surpresa, o seu companheiro confessar que descendia
do Demnio; mas no foi sem estremecer secretamente por se encontrar em lugar to terrvel com um homem que se declarava descendente de uma tal linhagem. Contudo,
naturalmente inacessvel ao medo, fez o sinal-da-cruz e pediu ao muulmano para lhe explicar a genealogia de que ele se gabava. O emir imediatamente acedeu:
- Fica sabendo, bravo estrangeiro - disse-lhe ele - que quando o cruel Zohauk, um dos descendentes de Giamschid, ocupava o trono da Prsia, formou uma liga com os
poderes das trevas sob as abbadas secretas de Istakhar, abbadas que as mos dos espintos elementares tinham cavado na rocha viva, muito tempo antes do prprio
Ado ter visto o dia. A ele alimentava, por meio
ablues dirias de sangue humano, duas serpentes devoradoras
que, segundo os poetas, se tinham tornado parte de si prprio. Para
Prover  sua subsistncia utilizava cada dia uns tantos sacrifcios
humanos; mas, por fim, a pacincia esgotada dos seus sbditos fez
35
com que alguns de entre eles desembainhassem a cimitarra da resistncia, tais como o valoroso ferreiro e o vitorioso Feridoun, por quem o tirano foi finalmente destronado
e aprisionado para sempre nas horrveis cavernas da montanha de Damavend.
"Mas antes da Prsia ser deste modo libertada, os satlites ferozes que ele encarregava de lhe procurar vtimas para os seus sacrifcios dirios trouxeram para debaixo
das abbadas do palcio de Istakhar, sete irms to belas que as tomariam por sete huris. Elas eram filhas de um sbio que no tinha outros tesouros seno a sua
sabedoria e estas belas criaturas. A sua sabedoria no tinha sido suficiente para prever esta calamidade, e a beleza destas amveis raparigas no a pde afastar.
A mais velha no tinha mais de vinte anos e a mais nova tinha apenas treze. Pareciam-se tanto umas com as outras que no se podiam distinguir seno pela diferena
da altura, que se elevava por uma graduao insensvel, como o caminho que conduz ao Paraso. To belas estavam quando chegaram a estas sombrias abbadas, apenas
vestidas com uma samarra de seda branca, que os seus atractivos seduziram coraes que no eram mortais. Ribombou o trovo, a terra tremeu e a muralha das masmorras
fendeu-se para dar passagem a um ser vestido de caador, munido de um arco e flechas, e seguido por seis dos seus irmos. Eram de elevada estatura e, embora a sua
tez fosse bastante morena, nada tinha de desagradvel, mas os seus olhos possuam mais o brilho bao dos mortos do que a viva luz que brilha sob as plpebras dos
vivos:
"Zeineb - disse o chefe do grupo num tom baixo, doce e melanclico, dirigindo-se  irm mais velha e pegando-lhe na mo - eu sou Cothrob, rei do mundo subeterrneo
e chefe supremo de Oinnistan. Eu e os meus irmos pertencemos ao nmero dos seres que, criados do fogo primitivo, desdenharam, apesar da ordem do Todo-Poderoso,
prestar homenagem a um torro de terra que tinha recebido o nome de Homem. Podeis ter ouvido falar de ns como seres cruis, perseguidores e sem piedade;  uma calnia.
Ns somos bons e generosos por natureza. No nos entregamos  vingana seno quando somos insultados. Somos fiis aos que depositam a sua confiana em ns e ouvimos
as invocaes de Mithrasp, vosso pai, mortal suficientemente sbio para honrar aquele que est na
36
origem da fonte do mal. Vs e as vossas irms estais em vsperas de morrer, mas que cada uma de vs d um cabelo dessas belas tranas em penhor de fidelidade e levar-vos-emos
para um lugar seguro, onde podereis desafiar Zohauk e os seus ministros."
"O receio da morte, diz o poeta,  como a vara do profeta Aaro, que devorou todas as outras varas quando elas se transformaram em serpentes diante do Fara; e as
filhas do sbio persa estavam menos inclinadas do que quaisquer outras a ter medo de um esprito. Elas pagaram o tributo que Cothrob lhes pedia e, num instante,
acharam-se transportadas para um castelo encantado, nas montanhas de Tugrut no Kurdisto, onde nunca os olhos de um mortal as reviram. Mas, com o tempo, sete jovens,
desfigurados pelos seus feitos na guerra e na caa, apareceram nos arredores do Castelo dos Demnios. Eles eram mais morenos do que qualquer dos habitantes dos vales
do Kurdisto. Casaram e tornaram-se pais de sete tribos kurdas cujo valor  conhecido em todo o universo.
O cavaleiro cristo escutou com surpresa este conto estranho, de que se encontravam ainda vestgios no Kurdisto e, depois de um momento de reflexo, respondeu:
- Na verdade, sarraceno, tens razo; pode-se temer e odiar os teus antepassados, mas no se deve desprez-los. J no estou admirado com a tua obstinao numa f
falsa, porque  sem dvida uma disposio diablica que te transmitiram os teus avs, esses caadores infernais de que acabas de falar, e que te faz preferir a mentira
 verdade; e j no me surpreendo que o teu esprito se exalte e te inspire versos e cantos, quando te aproximas de lugares visitados pelos espritos maus, pois
que eles devem excitar em ti aquele sentimento de alegria que experimentam todos os homens, quando eles se aproximam do pas dos seus antepassados.
Pela barba de meu pai!, creio que tens razo - disse o sarraceno. - Porque, embora o profeta, que o seu nome seja bendito!, tenha semeado entre ns os grmens de
uma f melhor do que a ensinada aos nossos antepassados nos muros encantados de Tugrut, no estamos no entanto inclinados, como os outros muulmanos, a condenar
apressadamente os poderosos espritos primitivos de que 'ramos a nossa origem. Estes gnios, como cremos e como esperamos, no foram tocados com uma reprovao absoluta;
eles esto
37
ainda  experincia e podem ser depois castigados ou recompensados. Demais, deixemos isso aos mollahs e aos ims. Basta-me dizer-te que o nosso respeito por estes
espritos no  inteiramente apagado pelo que aprendemos no Coro; e que se cantam ainda nas nossas montanhas em memria da f mais antiga dos nossos pais. versos
como estes.
A estas palavras, ps-se a entoar estncias cujas expresses e moldes pareciam muito antigos e que se diriam ter sido compostos por algum adorador de Arimane, isto
, do mau prncipe:
ARIMANE
Tu que o Iraque olha ainda Como o autor de todos os males, Sombrio Arimane, que eu adoro, O maior dos deuses infernais! Lano em vo o olhar de Poente a Nascente.!
No, o Universo no me oferece nada! Possuindo um poder que seja igual ao teu.
No meio do deserto rido, Do bem o rbitro soberano! Pode fazer nascer uma gua lmpida Para refrescar o peregrino.! Mas s tu que conduzes esta vaga homicida! Que
desenraiza o rochedo E quebra o navio do mais audaz barqueiro.
A sua voz, do solo mais agreste! Faz um jardim delicioso,! A sua mo puxa, com um s gesto Perfumes que sobem dos cus: Mas quem pode parar a febre e a peste,  E
tantos males nascidos de uma s vez! Das setas temveis sadas da tua aljava?
 a tua voz o trovo! E a tempestade o teu vesturio! Como os magos que veneramos! Proclamaram no Oriente Alimenta-se o teu corao de dio e clera?! Tens tu ganas
para apanhar! A presa a quem o teu voo no permite fugir?
A fonte da natureza! Irs tu buscar todo o teu poder?! Podes tu transformar em onda impura! A gua que brilhava como um espelho?!  a tua mo fatal que nos mede!
Os males que queramos evitar E que apesar dos nossos esforos acabaram de vencer?
38
Quando sobre o nosso vale de lgrimas Se v brilhar um dia sereno Que parece banir dele os alarmes,! Que se treme... o teu reino est prximo Porque  quando a vida
oferece mais encantos Que o que nos agradava antes Se transforma, nas tuas mos, em instrumento de morte
Desde o instante do nosso nascimento Tu governas o nosso destino. E a morte  um sofrimento Que no devemos seno  tua mo. Mas, temvel espirito, diz-me se o teu
poder Pois que outro nome me responder?
(O digno e sbio eclesistico que traduziu esta espcie de hino, receando que o acusem a despropsito, deseja que advirtamos os nossos leitores que eles se devem
lembrar que ele foi composto por um pago. As verdadeiras causas do mal moral e do mal fsico eram desconhecidas do autor, que via a sua influncia sobre o sistema
do universo, tal como todos aqueles que no tiveram a felicidade de ser esclarecidos pela revelao crist. No tomemos a liberdade de acrescentar que o estilo do
tradutor revela a parfrase mais que a aprovao queles que conhecem o original. O tradutor parece ter desesperado de fazer passar para uma lngua europeia as ousadias
da poesia oriental e algumas vezes as substituiu, sem nada dizer, pelas suas prprias ideias).
Estas estrofes foram talvez a produo espontnea de algum filsofo meio esclarecido, que no via nesta divindade fabulosa, Arimane, seno a influncia do mal moral
e do mal fsico; mas elas produziram um efeito completamente diferente nos ouvidos do Cavaleiro do Leopardo, e contadas por um homem que acabara de se vangloriar
de descender em linha directa dos demnios, pareceram-Lhe uma invocao solene do esprito maligno. Ouvindo semelhantes blastmias no prprio deserto onde Satans
fora vencido quando "usara pedir ao Filho do Homem para lhe prestar homenagem, Sir Kenneth perguntou a si prprio se o voto que tinha feito como cruzado no o obrigava
a imediatamente desafiar o infiel a combat-lo e a abandonar o seu corpo para pasto dos animais ferozes. Mas
39
antes que ele tivesse tomado uma deciso, a sua ateno foi atrada por uma apario inesperada.
O dia comeava a baixar, mas a claridade era ainda suficiente para que o cavaleiro pudesse reparar que j no estava sozinho com o seu companheiro no deserto, porque
um ser de elevada estatura e de uma excessiva magreza parecia vigi-los de perto. Trepava as rochas e atravessava os macios de arbustos com tanta agilidade que,
esta circunstncia acrescida dos trajos bizarros e do ar selvagem deste indivduo, lembrava-lhe os faunos e os silvanos cujas esttuas tinha visto nos antigos templos
de Roma. Como o escocs, na simplicidade do seu corao, nunca duvidara que os deuses dos antigos gentios fossem verdadeiros demnios, no hesitou em crer nesse
momento que o livre blasfemar do sarraceno tivesse evocado um esprito infernal.
- Mas que importa! - disse para consigo o bravo Sir Kenneth.
- Peream o Demnio e os seus adoradores!
Contudo, com dois inimigos  ilharga, no julgou dever adverti-los a porem-se em guarda como teria feito se tivesse que se haver apenas com um nico antagonista.
Levou a mo  sua maa-de-armas e talvez que o sarraceno, apanhado desprevenido, tivesse pago os seus versos persas com um golpe que lhe teria esmagado o crnio,
se uma circunstncia imprevista no poupasse ao cavaleiro escocs a desgraa de cometer um acto que teria sido uma ndoa para o seu escudo. A espcie de espectro
sobre o qual os seus olhos estavam fixados h algum tempo, parecera primeiramente espiar os dois cavaleiros, escondendo-se por trs dos rochedos e arbustos.
Finalmente este indivduo, que era um homem de estatura quase gigantesca, coberto de peles de cabra, lanou-se para o meio do caminho, agarrou com as duas mos as
rdeas do sarraceno, mal ele acabara de cantar, e, colocando-se deste modo em frente do nobre corcel, empurrou-o violentamente para trs. O generoso cavalo berbere,
no podendo resistir  maneira como este assaltante lhe tomara subitamente o freio que, segundo o costume do Oriente, era um anel de ferro, ergueu-se sobre as patas
traseiras e caiu de costas sobre o dono que, no entanto, evitou o perigo desta queda saltando ligeiramente de lado.
O seu inimigo, largando ento as rdeas, lanou-se sobre o sarraceno
40
derrubado, agarrou-o pela garganta e, a despeito da juventude e da vitalidade deste, conseguiu mant-lo debaixo de si, prendendo com os seus longos braos os do
prisioneiro: "Hamako! - exclamou o emir, meio a rir meio encolerizado: - Hamako! Louco! Larga-me! Isto ultrapassa os teus privilgios! Deixa-me, digo-te eu, ou far-te-ei
sentir o meu punhal!"
O teu punhal, co infiel - respondeu a figura vestida de peles
de cabra -, pega nele, se s capaz. E arrancando-lhe esta arma das mos, brandiu-a sobre a sua cabea.
- Socorro, nazareno! - exclamou Sheerkohf, j seriamente assustado. - Socorro ou Hamako mata-me.
- Matar-te! - replicou o habitante do deserto. - Mereceste bem a morte por terdes cantado hinos blasfematrios, no somente em louvor do teu falso profeta, que 
o percursor do Demnio, mas ainda no do prprio autor do mal.
O cavaleiro cristo ficara at ento como que estupefacto, tanto este encontro tinha estranhamente contrariado, no seu comeo e nas suas sequncias, tudo o que ele
primeiramente conjecturara. Porm, sentiu por fim que a sua honra exigia que ele interviesse em favor do seu companheiro derrubado e dirigiu-se ao vencedor vestido
de peles de cabra.
- Quem quer que sejas - disse-lhe - e que as tuas intenes sejam boas ou ms, fica sabendo que fiz juramento de ser o companheiro fiel do sarraceno que mantns
debaixo de ti. Convido-te pois a permitir-lhe levantar-se, sem o qual me verei forado a tomar o seu partido.
- Seria uma bela querela a abraar para um cruzado! - respondeu este ser singular. - Por amor de um co que no recebeu o baptismo, combater um homem da tua prpria
crena! Vieste para o deserto a fim de levantar armas pelo crescente contra a cruz? s um excelente soldado de Deus, tu que escutas aqueles que cantam os louvores
de Satans.
Contudo, ao falar assim, levantou-se e, permitindo que o sarraceno se levantasse tambm, devolveu-lhe o seu cangiar.
- Vs a que perigo te conduzia a tua presuno - continuou ele dirigindo-se a Sheerkohf - e porque fracos meios o Cu pode "listrar, quando tal  a sua vontade,
a tua fora, a tua percia e a tua
41
agilidade to gabadas. Toma pois cuidado, Ilderim; porque se o astro da natividade no lanasse um claro que promete algo de afortunado e favorvel, quando for
a vontade do Cu, no te teria deixado seno depois de ter arrancado a lngua que acaba de proferir tais blasfmias.
- Hamako - disse o sarraceno sem parecer guardar qualquer ressentimento -, peo-te, bom Hamako, para tomares cuidado em no exagerares os teus privilgios, de ora
em diante. Porque, embora como bom muulmano eu respeite aqueles que o Cu privou da razo para os dotar do esprito de profecia, contudo, no admito a quem quer
que seja que ponha a mo nas rdeas do meu cavalo e menos ainda na minha pessoa. Fala tanto quanto queiras e nunca te guardarei rancor, mas trata de ter o suficiente
bom-senso para compreender que, se cometeres mais qualquer acto de violncia contra mim, torcer-te-ei a tua peluda cabea sobre os teus magros ombros. Quanto a ti,
amigo Kenneth - acrescentou ele mostrando o cavalo
- dir-te-ei que gosto de ter por companheiro no deserto aquele que me prove a sua amizade por aces mais do que por belas palavras. No deixes faltar estas ltimas;
mas teria sido melhor ajudar-me mais prontamente na minha luta contra Hamako, que no seu acesso de frenesim estava prestes a tirar-me a vida.
- Pela minha f - respondeu o cavaleiro - estou em falta, concordo; fui um pouco lento a prestar-te socorro, mas, ao ver a figura estranha do assaltante e esta cena
inesperada, teria podido acreditar que os teus cantos tinham invocado o Demnio. Tal era a minha confuso que se passaram dois ou trs minutos antes que pudesse
lanar mo das minhas armas.
- No passas de um amigo frio e demasiado prudente - replicou o emir - e, se o Hamako tivesse tido um gro de loucura a mais, o teu companheiro estaria morto ao
teu lado, para tua desonra eterna, sem que tivesses mexido um dedo para o ajudar, embora estivesses armado e montado num belo corcel.
- Por minha palavra, sarraceno, se queres que te fale francamente, pensei que esta estranha figura fosse o Diabo; e como s da sua linhagem, no sabia que segredos
de famlia podeis ter a comunicar um ao outro, enquanto se rebolavam os dois na areia.
- Isso  "gabares-te", irmo Kenneth, mas no  responder-me.
42
Aprende que, se o meu inimigo fosse verdadeiramente o Prncipe das Trevas, terias  mesma de o combater para socorrer o teu companheiro; fica sabendo tambm que
o que pode existir de impuro e de diablico neste Hamako pertence mais  tua linhagem do que  minha; porque ele  na realidade o anacoreta que vens procurar.
Como! - exclamou o cavaleiro, olhando esta personagem de
estatura atltica, mas magro e descarnado. - Semelhante ser! Ests a troar, sarraceno; no pode ser este o venervel Teodorico!
- Interroga-o tu mesmo, se no me queres acreditar - respondeu o emir. E mal pronunciara estas palavras, logo o ermita prestou testemunho de si mesmo.
- Sou Teodorico d'Engaddi - exclamou -, aquele que marcha no deserto, o amigo da cruz, flagelo dos infiis, dos adoradores do Diabo. Para longe! Para longe! Abaixo
Maom, Termagant e todos os seus aderentes!.
A estas palavras, tirou de debaixo das suas vestes felpudas uma espcie de aoute, ou antes, de clava de duas pedras unidas e guarnecidas de ferro que ele fez voltear
 roda da cabea com uma singular destreza.
- Eis aqui o teu santo - disse o sarraceno, rindo pela primeira vez, vendo o ar de espanto com que Sir Kenneth olhava os gestos estranhos de Teodorico e escutava
as palavras que ele murmurava indistintamente. Por fim, depois de ter brandido o aoute em todas as direces, sem parecer preocupar-se se iria de encontro  cabea
dos seus dois companheiros, acabou por dar a prova da sua fora e da boa qualidade da sua arma, descarregando um golpe numa grande pedra que se desfez em fragmentos.
-  um louco - disse o cavaleiro.
- Nem por isso deixa de ser um santo - replicou o emir, falando segundo a crena bem conhecida dos Orientais, que imaginam que os seres privados de razo sofrem
a influncia das inspiraes 'mediatas do Cu. - Fica sabendo, cristo - acrescentou ele -
que quando uma vista se extingue, a outra se torna mais clarividente; quando uma mo  cortada, a outra fica mais forte; e quando a nossa razo est perturbada no
que respeita s coisas deste mundo, a nossa viso torna-se mais penetrante e mais perfeita para as coisas do Cu.
43
Aqui, a voz do sarraceno foi sufocada pela do ermita, que se ps a gritar em voz alta num tom selvagem e quase cantante:
- Eu sou Teodorico d'Engaddi, o archote do deserto, o flagelo dos infiis; o leo e o leopardo sero os meus companheiros e procuraro guarida na minha choupana,
e o cabrito no temer as suas garras. Eu sou a tocha e a lanterna. "Kyrie Eleison!"
Terminou os seus gritos correndo durante alguns instantes e acabou a corrida com trs saltos que lhe teriam feito muita honra numa sala de ginstica, mas que estava
to pouco de acordo com o seu carcter de ermita, que o cavaleiro escocs estava confundido e no sabia que pensar.
O sarraceno pareceu compreend-lo melhor.
V - disse ele ao seu companheiro - que ele espera ver-nos
segui-lo para a sua cela: e, com efeito,  o nico asilo que podemos encontrar para a noite.
"Tu s o leopardo, pois que o trazes sobre as tuas armas; eu sou o leo, pois que me deram esse nome; e ao falar do cabrito,  a si prprio que alude pois que lhe
veste os despojos. Mas no devemos perd-lo de vista; ele  to ligeiro como um dromedrio.
com efeito, a tarefa deles era difcil; porque embora o seu reverendo guia parasse de tempos a tempos e agitasse uma mo no ar como que a encoraj-los a segui-lo,
no entanto, dotado de uma agilidade extraordinria  qual um esprito talvez perturbado dava bastante exerccio, conduzia-os atravs de fendas de rochedos e por
atalhos onde o sarraceno, ligeiramente armado, no podia passar sem grandes riscos, e onde o cavaleiro escocs, coberto de uma armadura e conduzindo um corcel no
menos pesadamente couraado, se achava a cada instante num to grande perigo que teria preferido ter de se haver com um inimigo sobre um campo de batalha. Sentiu-se
pois aliviado quando, finalmente, aps uma marcha penosa, viu o santo homem em p  entrada de uma caverna, tendo na mo uma grande tocha formada de um pedao de
madeira embebida em betume.
Sem se deixar intimidar pelo fumo sufocante, o cavaleiro lanou-se abaixo do cavalo e entrou na caverna. A cela estava dividida em duas partes. Na primeira via-se
um altar de pedra encimado por um crucifixo feito de vimes. Era a capela do anacoreta. Porque
44
a viso destes objectos sagrados inspirava um respeito religioso ao cavaleiro cristo, no foi sem alguns escrpulos que ele fez entrar o seu cavalo nesta primeira
diviso e que tornou todas as disposies necessrias para a passar a noite; mas imitou o sarraceno, que lhe deu a entender que tal era costume geralmente observado.
Ao fundo deste primeiro compartimento, uma estreita abertura, fechada por uma prancha que servia de porta, conduzia ao quarto de dormir, mais cmodo, do ermita.
 fora de trabalho ele nivelara o solo, coberto de areia branca; regava-a todos os dias com a gua de uma pequena fonte que brotava do rochedo, num canto, o que,
neste clima escaldante, era agradvel tanto aos olhos, como aos ouvidos e  garganta seca. Uma espcie de colches, ou antes, esteiras de gladolos, estavam estendidos
por terra; as paredes da cela tinham sido trabalhadas como o soalho, para lhe dar uma forma mais ou menos regular, e a toda a volta estavam suspensas ervas e flores
odorferas. Duas velas que o ermita acendeu espalharam uma claridade que tornava ainda mais agradveis o aroma e a frescura que a se respirava.
Num canto deste apartamento, viam-se alguns instrumentos de trabalho; num outro, um nicho continha uma esttua da Virgem, grosseiramente esculpida. Uma mesa e duas
cadeiras eram decerto obra das mos do ermita, porque eram de uma forma invulgar no Oriente. A mesa estava coberta no somente do juncos e de razes mas de carnes
secas, que Teodorico arranjou com cuidado. Esta aparncia de cortesia, embora muda e somente expressa por gestos, pareceu a Sir Kenneth quase impossvel de conciliar
com a conduta to violenta como estranha que o ermita mostrara alguns momentos antes. Todos os seus passos eram medidos e parecia que no era seno um sentimento
de humildade religiosa que impedia os seus traos, emagrecidos por uma vida austera, de parecerem nobres e majestosos. Marchava na sua cela como um homem nascido
para governar os seus semelhantes, e a sua estatura gigantesca, o comprimento da sua barba, o dos cabelos em desordem e o fogo que brilhava nos seus olhos encovados
e alucinados, davam-lhe o ar de um soldado, mais do que o de um recluso.
O prprio sarraceno parecia olhar o anacoreta com certa venerao, enquanto ele se ocupava com estas tarefas, e disse em voz baixa a Sir Kenneth:
45
- O Hamako est agora num dos seus momentos de calma; mas no falar enquanto no tivermos falado;  um voto que fez.
Foi pois em silncio que Teodorico fez sinal ao escocs para tomar lugar numa das cadeiras baixas, enquanto Sheerkohf se acocorava sobre as esteiras, segundo o costume
da sua nao. O ermita levantou ento as duas mos como que para abenoar a comida que oferecia aos seus hspedes, e estes puseram-se a satisfazer o seu apetite
guardando como ele um silncio profundo. Esta gravidade era natural no sarraceno e o cristo facilmente imitou a sua taciturnidade, ocupado como estava a reflectir
sobre a singularidade da sua situao e sobre o contraste que observava entre os gritos furiosos, os gestos estranhos e as aces extravagantes de Teodorico, no
momento do seu encontro com ele, e o ar decente e solene com que ele agora desempenhava os deveres de hospitalidade.
Quando a refeio terminou, o ermita, que no tinha comido um s bocado, levantou o que restava e ps diante do sarraceno um refresco e diante do escocs uma garrafa
de vinho.
Bebei, meus filhos - disse-lhes; e foram estas as primeiras
palavras que pronunciou, depois de terem entrado na sua cela. -  permitido desfrutar dos dons de Deus, desde que se recorde aquele que os concede.
Depois de ter falado deste modo, retirou-se para a sua cela de entrada, provavelmente para a se entregar aos seus exerccios de devoo, e deixou os seus hspedes
na posse do compartimento interior. Kenneth dirigiu ento diversas perguntas a Shcerkhof para tirar dele tudo o que pudesse saber sobre este singular ermita. Era
impossvel conciliar a conduta extravagante do anacoreta quando se mostrara aos seus olhos, com as maneiras humildes e tranquilas que tinha tomado na sua cela; mas
parecia que era ainda mais faz-lo concordar com a sua alta considerao que tinham por ele, como sir Kenneth soubera, os prelados mais esclarecidos do mundo cristo.
Teodorico, o ermita de Engaddi, correspondera-se nesta qualidade com papas e conclios, aos quais as suas cartas tinham pintado os males que os infiis faziam sofrer
aos cristos na Terra Santa, com uma eloquncia e imagens dignas das prdicas do Pedro, o Ermita, no conclio de Clermont. Encontrando numa personagem to veneranda,
objecto de tantas atenes, os gestos frenticos de um faquir
46
insensato, o cavaleiro cristo tinha necessidade de reflectir antes de lhe comunicar os assuntos importantes de que fora encarregado por algum dos chefes dos cruzados.
Estas comunicaes eram o fim principal de uma rota to pouco vulgar. Mas o que tinha visto esta tarde fazia-o hesitar em desempenhar-se da sua misso.
As poucas informaes que conseguia obter do emir, reduziam-se mais ou menos ao que se segue:
O ermita, segundo o que ouvira dizer, fora outrora um bravo e valoroso soldado, prudente nos conselhos e feliz nas armas, o que podia facilmente acreditar depois
da fora e da actividade pouco comuns que ele o vira mostrar em diversas ocasies. Ele tinha chegado a Jerusalm no como peregrino mas como homem que se tinha dedicado
a passar o resto da sua vida na Terra Santa. Pouco tempo depois, fixara a sua morada no meio das cenas de desolao em que o tinham vindo encontrar, respeitado pelos
cristos, devido  sua austera devoo, e pelos turcos, por causa dos sintomas de loucura que notavam nele e que atribuiam  inspirao. Era por isso que lhe tinham
dado o nome de Hamako, que exprime esta ideia na sua lngua. Quanto a Sheerkohf, parecia no saber bem o que devia pensar do seu hospedeiro. O Hamako, disse, tinha
sido um homem sbio; podia passar horas inteiras a dar lies de virtude e de sabedoria, sem a mais ligeira aparncia de incoerncia nas suas ideias; noutras ocasies
cometia actos de estravagncia e violncia, mas nunca lhe tinham visto disposies to malvolas como aquelas
que acabava de mostrar. O menor insulto feito  sua religio causava-lhe um acesso de raiva e corria uma histria de alguns rabes errantes, que tinham ultrajado
o seu culto e levantado a mo
contra o seu altar, e que ele tinha atacado e matado, por esta razo,
com o aoute que trazia sempre e que lhe fazia as vezes de qualquer
outra arma. Este acontecimento tinha feito muito barulho e era to
grande o receio que inspirava o aoute de ferro do ermita como o
ceu carcter com que Hamako fazia respeitar a sua morada e a sua
Capela por estas tribos errantes. A sua reputao estendera-se ao
g e Saladino dera ordens especiais para que o poupassem e o
protegessem. Este prncipe e vrios outros muulmanos de alta linhagem, tinham eles prprios mais de uma vez visitado a sua cela,
47
porque esperavam que um homem to sbio como o Hamako cristo lhes pudesse desvendar alguma coisa dos segredos do futuro. Ele tinha, continuou o sarraceno, um rashid
ou um observatrio, num lugar muito elevado, donde observava os corpos celestes e especialmente os planetas cujos movimentos e influncias os cristos e os maometanos
acreditavam poder dirigir os cursos dos acontecimentos humanos e servir para os predizer.
Tais foram, em substncia, as informaes que Sir Kenneth obteve de Sheerkhof, e elas deixaram-no na dvida se a loucura que se atribua ao ermita era causada pelo
fervor excessivo do seu zelo ou se era um vu com que ele se cobria para aproveitar os privilgios que o seu estado lhe obtinha. Contudo, reflectindo sobre o fanatismo
dos sectrios de Maom, no meio dos quais ele vivia, embora inimigo declarado da sua f, pareceu-Lhe que eles levavam bem longe a tolerncia a seu respeito. Pareceu-lhe
tambm que existia entre o ermita e o sarraceno um conhecimento mais ntimo do que o que aquele lhe dissera teria feito supor e no lhe escapou o facto de Teodorico
ter dado ao ermita um nome diferente do que o que ele havia tomado. Todas estas reflexes autorizavam, seno a suspeita, pelo menos a circunspeco. Kenneth resolveu
portanto observar o seu hospedeiro de muito perto e no se apressar demasiado a comunicar-lhe a importante misso que tinha recebido.
- Sarraceno - disse Kenneth - parece-me que a imaginao do nosso hospedeiro desvaira nos nomes como noutros assuntos. Tu chamas-te Sheerkohf e ouvi-o chamar-te
de outro modo.
- Quando estava sob a tenda de meu pai - respondeu o kurdo
- tinha o nome de Ilderim e muitas pessoas me chamam ainda assim. No exrcito, os soldados chamam-me o Leo da Montanha, sobrenome que a minha boa cimitarra me valeu.
Mas silncio! Eis o Hamako; conheo o seu costume; vem-nos convidar ao repouso. No quer que ningum o interrompa nas suas viglias.
O anacoreta entrava efectivamente neste momento. Cruzou os braos sobre o peito e, mantendo-se de p, disse num tom solene:
- Bendito seja o nome daquele que quis que uma noite tranquila se seguisse s preocupaes do esprito.
- Assim seja! - responderam os dois guerreiros; e, levantando-se logo, dispuseram-se a deitar-se sobre os colches que
48
Mapa por A. M. Perrot.
Ed. Furne-Gosselin-Perrotin, 1835 Bibl. Nac. Foto Holzapfel
49
o seu hospedeiro lhes mostrou com um gesto da mo, aps o que, saudando-os, saiu de novo do compartimento.
O Cavaleiro do Leopardo desembaraou-se ento das suas pesadas armas. O sarraceno ajudou-o a desapertar as fivelas da couraa e a desatar as outras partes da sua
armadura, no conservando ele seno a veste de plo de camelo que os cavaleiros e os homens de armas traziam por costume debaixo da sua armadura. Se Sheerkhof admirara
o vigor do seu adversrio quando o combatera todo coberto de ao, no ficou menos impressionado com as formas bem-proporcionadas do seu corpo nervoso. Por seu lado,
o cavaleiro, por troca de cortesias, ajudou o sarraceno a deixar os seus trajos exteriores para que pudesse dormir mais comodamente, e teve dificuldade em imaginar
que uma estatura to dbil e uns membros to magros pudessem ser dotados da fora de que ele dera provas durante o combate.
Cada um dos guerreiros fez a sua orao antes de se entregar ao repouso. O muulmano virou-se para o seu Kebla, ponto para o qual se devem dirigir as preces de todos
os seguidores do profeta, e murmurou as suas oraes pags, enquanto o cristo, parecendo temer macular-se com a vizinhana do infiel, se retirou para um outro canto,
colocou a espada sobre a ponta, com a cruz para cima e, ajoelhando-se diante deste sinal de salvao, disse o seu rosrio com uma devoo acrescida ainda pela lembrana
dos lugares desertos e ridos que percorrera. Esgotados pela fadiga da viagem e do combate, os dois guerreiros no tardaram a adormecer, cada um sobre o seu colcho.
49

CAPITULO IV
"Num deserto rido, desconhecido dos mortais,
Vivia desde jovem um santo eremita,
Na cavidade de um rochedo encontrando humilde abrigo.
A passava a noite estendido sobre o musgo.
Alimentava-se de frutos e no tinha por bebida
Seno um cristal que tirava de um ribeiro vizinho,
Cujo favor do cu ornava o seu eremitrio.
Renunciando para sempre a todo o comrcio humano.
Ele vivia com Deus, fazendo da orao
O seu prazer, o seu dever e o seu nico assunto.
PARNELL "O EREMITA"
O cavaleiro escocs no sabia h quanto tempo os seus sentidos estavam mergulhados num profundo repouso, quando foi despertado em sobressalto pela sensao de um
peso opressivo sobre o peito. Por fim, recuperando completamente o uso dos sentidos, ele ia perguntar quem estava ali, quando, abrindo os olhos, viu o estranho anacoreta,
que j descrevemos, debruado sobre o seu colcho, uma mo apoiada sobre o peito e tendo na outra uma pequena lamparina de prata.
- Silncio! - disse o ermita. - Tenho a dizer-te coisas que este infiel no deve ouvir.
Pronunciou estas palavras em francs e no em lngua franca, de que se servira at ento e que era um composto de dialectos orientais e europeus.
Traduo livre.
51
- Levanta-te - continuou ele - pe o casaco; no fales; anda sem rudo e segue-me.
Sir Kenneth levantou-se e tomou a sua espada.
- No necessitas dela - disse-lhe o anacoreta, sempre em voz baixa - vamos para um local em que s as armas espirituais tm todo o poder.
O cavaleiro tornou a pr a espada perto do colcho, onde a colocara ao deitar-se, e sem outras armas, alm do punhal que no deixava nunca neste pas de perigos,
preparou-se para seguir o seu misterioso hospedeiro.
O ermita ps-se ento em marcha, em passos lentos, seguido pelo cavaleiro, que no estava ainda bem certo se o ser extraordinrio que o precedia para lhe mostrar
o caminho no era criado pela agitao de um sonho. Entraram como sombras na cela exterior, sem perturbar o repouso profundo do emir. Diante da cruz e sobre o altar
de que j falmos, via-se uma lamparina e um missal aberto, e, por terra, estava uma disciplina, instrumento formado por um fio de ferro e pequenas cordas e que,
trazendo ainda as marcas de sangue recentemente derramado, provava sem dvida as prticas severas de penitncia a que se entregava o ermita.
A, Teodorico ajoelhou-se sobre um local coberto de calhaus pontiagudos, que pareciam ter sido colocados para tornar mais penosa esta atitude de devoo, e fez sinal
ao seu companheiro para o imitar. Recitou ento vrias preces e cantou em voz baixa trs dos salmos da penitncia, entremeando este cntico com suspiros, lgrimas
e gemidos que provavam a impresso que sobre ele fazia a poesia divina que recitava.
O cavaleiro escocs participou com grande sinceridade nestes actos de devoo, e a opinio que formara do seu hospedeiro comeou a mudar de tal modo que ao ver o
rigor da sua penitncia e o ardor das suas preces, comeou a duvidar se no devia olh-lo como um santo. Quando se levantaram, manteve-se de p, em frente dele,
com o respeito que um aluno teria por um mestre venervel; por seu lado, o ermita guardou silncio durante alguns instantes, parecendo absorvido nas suas reflexes.
- Olha para esta escavao, meu filho - disse-lhe ento, mostrando-lhe uma pequena porta de verga que rodeava uma cavidade
52
talhada na rocha, do outro lado da cela. - Encontrars a um vu, traz-mo.
O cavaleiro obedeceu, encontrou um vu e, quando o exps  luz, viu que estava rasgado e sujo, em diversos stios, por uma substncia negra. O anacoreta contemplou-o
com uma emoo profunda, e, antes de poder dirigir a palavra ao cavaleiro, deixou ainda escapar um gemido convulsivo.
- Vais ver agora o mais rico tesouro que possui a Terra - disse por fim. - Ai de mim, porque ho-de os meus olhos ser indignos da mesma ventura! No sou seno a
vil e miservel tabuleta que indica ao viajante fatigado onde poder encontrar repouso e segurana, e que est condenada a ficar sempre do lado de fora da porta.
" em vo que me tenho refugiado nas profundezas dos rochedos, no seio de um deserto rido; o meu inimigo encontrou-me na minha fortaleza.
Calou-se por um instante e, voltando-se em seguida para Sir Kenneth, disse-lhe com voz mais segura.
- Trazeis-me uma saudao da parte de Ricardo de Inglaterra?
- Venho da parte do Conselho dos Prncipes Cristos - respondeu o cavaleiro -, mas como o rei de Inglaterra se sentia indisposto, no fui honrado com as ordens de
Sua Majestade.
- A prova da vossa misso?... - perguntou o recluso.
Sir Kenneth hesitou; as suas primeiras suspeitas e as marcas de loucura que o ermita primeiramente dera na sua conduta apresentaram-se ao seu esprito; mas como
suspeitar de um homem cujas maneiras anunciavam tanta santidade?
- Eis a minha senha - respondeu ele: "Os reis pediram emprestado a um mendigo."
- Est bem - disse o ermita, e acrescentou depois de curto intervalo - conheo-te perfeitamente, mas a sentinela que est no seu posto, e o meu  importante, pede
a senha tanto ao amigo como ao inimigo.
Tornou a pegar na lamparina e reentrou com o cavaleiro na cela anterior que tinham acabado de abandonar. O sarraceno, estendido sobre o colcho, estava ainda profundamente
adormecido. O ermita Parou perto dele e olhou-o:
Dorme nas trevas - disse - e no devemos despert-lo.
53
A atitude do emir dava verdadeiramente a ideia de um repouso profundo. Os seus msculos, dotados de uma actividade to pouco comum quando acordado, estavam agora
to imveis como se pertencessem a uma esttua de mrmore. A mo aberta, a respirao regular, tudo nele testemunhava um sono pacfico. Era um grupo singular o deste
sarraceno assim adormecido, este ermita de estatura gigantesca vestido de peles de cabra, com uma lamparina na mo, e o cavaleiro cristo, de uma estatura quase
to elevada, revestido do seu casaco de camelo; o ermita apresentava uma expresso de austeridade asctica, o cavaleiro a de uma viva curiosidade.
- Dorme profundamente - disse o ermita em voz baixa e, repetindo as mesmas palavras de que j se servira num sentido literal, empregou-as num sentido metafrico,
acrescentando - dorme nas trevas; mas o dia do despertar na luz chegar para ele.  Ilderim, os teus pensamentos quando velas so to vos, to frvolos como as
vagas ideias que flutuam na tua imaginao durante o sono; mas ouvirs o som da trombeta e o teu sonho dissipar-se-.
A estas palavras, e fazendo sinal ao cavaleiro para o seguir, o ermita voltou a entrar na primeira cela, avanou para o altar, passou por detrs e carregou num ressalto
que se deslocou sem rudo e deixou ver uma pequena porta de ferro, to bem adaptada a um dos lados da caverna que teria sido precisa uma ateno extraordinria para
a descobrir. O ermita, antes de se aventurar a abrir esta porta, untou-lhe os gonzos com um pouco de azeite da lamparina; e, quando ela se abriu, apareceu uma escada
estreita talhada na rocha:
- Toma o vu que seguro - disse o ermita ao cavaleiro, num tom melanclico - e cobre-me com ele a cara, porque no posso olhar sem presuno o tesouro que vais ver.
Sir Kenneth, sem replicar, rodeou com o vu a cabea do anacoreta. Este, imediatamente subiu a escada como homem que conhecia demasiado bem o caminho para ter necessidade
de luz e, ao mesmo tempo, entregou a lamparina ao escocs que o seguia nesta estreita ascenso. Finalmente, chegaram a uma pequena abbada, num dos cantos da qual
terminava a escada, enquanto num outro se via uma segunda que parecia conduzir mais acima. Num terceiro ngulo estava uma grande porta gtica, ornada de esculturas
e colunas, na
54
qual estava talhada um postigo guarnecido de ferro e de grandes pregos. Foi para este ponto que o ermita dirigiu os seus passos.
Tira os teus sapatos - disse ao seu companheiro. - O terreno em que te encontras  sagrado; varre do fundo do teu corao todo o pensamento profano e carnal, porque
isso seria um pecado mortal em lugar como este.
O cavaleiro descalou-se e durante este tempo todas as faculdades do ermita pareciam absorvidas numa prece mental. Avanou ainda e disse ao cavaleiro para bater
trs pancadas na porta. Sir Kenneth obedeceu; a porta abriu-se sozinha, ou pelo menos ele no viu ningum abri-la, e os seus sentidos foram assaltados simultaneamente
pelo fulgor da mais viva luz e pelo cheiro dos mais ricos perfumes. Recuou dois ou trs passos e passou-se um minuto antes que se pudesse recompor do efeito deslumbrante
da passagem sbita das trevas para a luz. Ao entrar no compartimento de onde partia um fulgor to brilhante, apercebeu-se que esta claridade era produzida por uma
lamparina de prata, alimentada pelo azeite mais puro e pelos perfumes mais requintados. Estava suspensa por cadeias do mesmo metal  abbada de uma pequena capela
gtica talhada na rocha viva, como a maior parte da singular morada do ermita. Mas em tudo que Sir Kenneth vira at ento, o trabalho era simples e grosseiro, enquanto
nesta capela tudo anunciava a obra dos mais hbeis arquitectos. A abbada era sustida por seis colunas que eram, assim como os arcos da abbada, do melhor estilo
de arquitectura daquele sculo. De cada lado, e em correspondncia com a fila de colunas, estavam vidros de um trabalho primoroso, contendo cadum a esttua de um
dos doze apstolos.
Na extremidade da capela e do lado do oriente estava o altar, atrs do qual um cortinado de seda persa, magnificamente bordado a ouro, cobria um nicho que continha,
sem dvida, qualquer imagem ou relquia de uma invulgar santidade, em honra da qual este local singular tinha, sem dvida, sido consagrado ao culto. Convencido de
que no se podia enganar ao fazer esta suposio, o cavaleiro avanou para o altar, ajoelhou-se e orou com fervor; mas foi mterrompido nesta devoo ao ver o cortinado
afastar-se, sem que Pudesse dizer como nem por quem; e no nicho, que assim foi posto a descoberto, viu um grande relicrio de prata e bano, fechado por
55
uma porta de batente duplo e oferecendo semelhana com uma igreja gtica em miniatura.
Enquanto olhava este relicrio com uma viva curiosidade, as duas portas abriram-se tambm, deixando ver um grande pedao de madeira ao qual estava pegado um dstico
onde se liam em grandes letras as palavras VERA CRUX, e ao mesmo tempo um coro de vozes de mulheres cantou o "Gloria Patri".
Logo que a antfona terminou, fecharam-se as portas do relicrio e o cortinado foi puxado. O cavaleiro que se tinha ajoelhado diante do altar, pde ento continuar,
sem ser perturbado, as suas oraes, e f-lo com o respeito profundo de um homem que acabava de ver uma prova imponente da verdade da sua religio.
Passou algum tempo em oraes e, levantando-se, por fim, lanou os olhos  sua volta para procurar o ermita que o conduzira a este lugar sagrado e misterioso. Viu-o
com os olhos ainda cobertos pelo vu, humildemente prosternado no limiar da porta da capela, que parecia no ter ousado transpor. A sua atitude era a de um homem
acabrunhado e Sir Kenneth pensou que no eram seno a humildade, a penitncia e o remorso que podiam ter feito dobrar deste modo um esprito to altivo e um corpo
to robusto.
Aproximou-se, como que para lhe falar, mas o anacoreta pareceu prever a sua inteno e disse-lhe, com uma voz abafada, saindo debaixo do vu com que a sua cabea
estava coberta:
- Espera, espera, feliz tu que podes v-la. A viso no terminou ainda - a estas palavras levantou-se, afastou-se do limiar sobre o qual acabara de se prosternar
e empurrou a porta da capela, que era fechada no interior por um mecanismo que ressoou durante um momento pela abbada. Esta porta parecia de tal modo fazer parte
da rocha em que a capela fora escavada que Kenneth mal pde reconhecer a abertura. Encontrava-se sozinho no local iluminado pelas lamparinas e contendo a relquia
 qual acabara de render homenagem.
No sabendo o que lhe ia acontecer, Sir Kenneth passeou na capela solitria, mais ou menos at  hora do primeiro cantar do galo.
Neste momento de silncio profundo em que a noite e a manh se encontram, ouviu, sem poder descobrir de que lado vinha o rudo, o som de uma pequena campainha como
a que indica o instante da
56
elevao da hstia na celebrao da missa. A hora e o local tornavam este som imponente e solene, e por muito intrpido que fosse, o cavaleiro retirou-se para o
canto mais afastado da capela, na extremidade oposta ao altar, para observar sem interrupo o que resultaria deste sinal inesperado.
Ao fim de alguns instantes o cortinado de seda foi mais uma vez afastado e a santa relquia apresentou-se de novo a seus olhos. Ajoelhou-se uma segunda vez com respeito,
e reconheceu o canto das laudes, primeiro ofcio da Igreja Catlica, que vozes de mulheres cantavam ainda em coro. No tardou a aperceber-se que estas vozes se aproximavam
da capela e que se tornavam mais distintas de momento a momento.
Por fim, uma porta, to difcil de adivinhar como aquela por onde tinha entrado, abriu-se perto de um dos lado do altar e as vozes ressoaram mais livremente sob
as abbadas da capela.
O cavaleiro fixou os olhos sobre a porta, e, conservando a atitude de devoo que a santidade do lugar exigia, esperou o seguimento dos preparativos. Uma procisso
parecia prestes a entrar.
Efectivamente viu primeiro aparecer quatro belas crianas cujos braos, pescoo e pernas mostravam a pele acobreada do Oriente e formavam contraste com as tnicas
brancas como a neve de que estavam cobertas. Marchavam uma a uma. As primeiras agitavam turbulos cujo vapor acrescentava um novo perfume aos que j se respiravam;
as duas outras juncavam o solo de flores.
Aps elas, marchavam, em ordem conveniente e majestosa, as mulheres- que compunham o coro; seis que, pelos escapulrios negros e vus da mesma cor, pareciam ser
religiosas professas da Ordem do Monte Carmelo, e um nmero semelhante cujos vus as revelavam como novias ou como habitantes momentneas do claustro, mas que ainda
no estavam ligadas por nenhum voto.
As primeiras seguravam grandes rosrios na mo; as outras, mais jovens e de formas esbeltas, traziam uma grinalda em forma de tero, composta de rosas brancas e
vermelhas. Deram a volta  capela, em procisso, sem prestar a menor ateno a Kenneth, embora Passassem to perto dele que as suas vestes quase o tocavam.
Enquanto elas continuavam os seus cantos religiosos, o cavaleiro no teve dvidas que estava num desses claustros onde nobres donzelas
57
crists eram outrora abertamente consagradas ao servio do altar. A maioria desses conventos tinham sido suprimidos quando os maometanos reconquistaram a Palestina;
mas alguns tinham comprado, por meio de presentes, toda a tolerncia dos vencedores, ou tinham-na obtido, fosse por clemncia, fosse por desprezo, e continuavam
a ser habitados por reclusas que observavam, na clausura das suas paredes, os ritos da sua instituio.
Mas, embora Kenneth conhecesse todos esses detalhes, dificilmente se podia persuadir que a procisso que via fosse composta de criaturas deste mundo, de tal modo
se assemelhavam a um coro de seres sobrenaturais prestando homenagem ao objecto universal da adorao dos homens.
Tal foi a primeira ideia do cavaleiro, enquanto a procisso passava perto dele sem que nenhuma das que a compunham fizesse algum movimento visvel, alm do necessrio
para continuar a marcha, de modo que, vistas  claridade duvidosa e religiosa que as lamparinas espalhavam, elas pareciam deslizar mais do que marchar.
Mas quando, ao dar pela segunda vez a volta  capela, passaram perto do local em que ele se encontrava ajoelhado, uma das jovens virgens de vu branco tirou do tero
que levava um boto de rosa que, escapando-se-lhe dos dedos, talvez involuntariamente, tombou diante do cavaleiro. Kenneth estremeceu como se um dardo o tivesse
subitamente alvejado. Mas a sua imaginao acalmou-se quando reflectiu quo fcil era o acaso provocar um acontecimento, em si prprio indiferente, e que era apenas
a uniformidade montona da procisso que lho tinha feito parecer digno de nota.
Contudo, enquanto a procisso dava pela terceira vez a volta  capela, os olhos e os pensamentos de Kenneth seguiram exclusivamente os da novia que deixara cair
o boto de rosa.
Parecia-se tanto com as suas companheiras no andar, na figura e nas formas, que era impossvel descobrir nela algo que a fizesse distinguir.
Porm o corao de Kenneth estremeceu como para se assegurar que a jovem, a segunda das novias do lado direito, lhe era a mais querida, no somente de todas as
que via mas at de todas do seu sexo.
58
A paixo romanesca do amor, tal como era ento concebida, e mesmo tal como a definiam as regras de cavalaria, harmonizava-se perfeitamente com um sentimento de devoo
no menos romanesco; e poder-se-ia dizer que as duas tendncias da alma, longe de se prejudicarem, se serviam reciprocamente.
Era pois com uma espcie de impacincia religiosa que Sir Kenneth esperava um segundo sinal da presena de uma mulher, que ele julgava j lhe ter dado um primeiro.
Por pouco tempo que a procisso levasse a dar a terceira volta  capela, cada minuto pareceu ao cavaleiro uma eternidade. Por fim, a mulher que seguia com os olhos
com uma to contida ateno, chegou de novo perto dele. No havia diferena entre a sua figura velada e a das suas companheiras; mas quando passou pela terceira
vez diante de Kenneth, sempre ajoelhado, uma pequena mo, to elegantemente modelada que dava a mais alta ideia das porpores perfeitas da jovem virgem, saiu por
um instante de debaixo das pregas do seu vu de gaze, um boto de rosa caiu outra vez diante do Cavaleiro do Leopardo.
Este segundo sinal no podia ser acidental; no podia ser o acaso que fazia com que esta linda mo, que no tinha seno entrevisto, se assemelhasse to perfeitamente
quela que os seus lbios tinham uma vez tocado e  qual o seu corao fizera ao mesmo tempo juramento de fidelidade. Se tivessem sido precisas outras provas, tinha
visto brilhar por um momento, sobre um dedo to branco como a neve, esse rubi sem igual cujo valor inaprecivel possua no entanto menos preo, a seus olhos, que
o menor sinal que este belo dedo lhe pudesse fazer. E fosse acaso, fosse favor, tinha percebida uma das belas tranas castanho-escuras de que cada cabelo lhe era
cem vezes mais caro do que uma cadeia de ouro. Sim, era a dama dos seus pensamentos. Mas que ela se encontrasse neste local deserto, isolado, no meio das vestais,
morando na solido e nas cavernas para oficiar em segredo os ritos do cristianismo que no ousavam praticar abertamente, que isso fosse uma realidade, era o que
lhe parecia demasiado incrvel.
Enquanto estas ideias ocupavam o cavaleiro, a procisso saa da capela. Os jovens aclitos e as irms de vu negro foram desaparecendo.
59
Por fim, aquela de quem ele recebera o duplo sinal de reconhecimento desapareceu por sua vez; mas ao transpor a porta, fez um ligeiro movimento com a cabea, virando-se
para o stio em que Sir Kenneth se encontrava parado como uma esttua. Viu ainda o seu vu flutuar por um instante; tudo desapareceu e a sua alma ficou mergulhada
em trevas no menos sombrias que a obscuridade fsica em que foi envolvido quase de seguida; porque mal a ltima novia tinha posto o p fora da capela, logo a porta
se- fechou sem rudo; as vozes do coro deixaram de se ouvir, todas as luzes se extinguiram e ele ficou sozinho numa noite profunda.
Mas a solido, a obscuridade e a incerteza da sua situao misteriosa, no eram nada para Kenneth; no se inquietava com isso e no pensava seno na viso que acabava
de passar rapidamente perante os seus olhos. Curvar-se para a terra para a procurar as flores que a jovem novia deixara cair, comprimi-las nos lbios e no corao
ora uma aps outra, ora as duas ao mesmo tempo, beijar ternamente as pedras frias sobre as quais julgava ela ter passado, fazer todas as extravagncias que o amor
sugere, no eram outra coisa seno as provas de um amor apaixonado, comum a todos os sculos. Mas o que havia de especial nos tempos da cavalaria, era que, no meio
do seu entusiasmo exaltado, o cavaleiro no tivesse a mnima ideia de procurar fazer uma tentativa para sentir o objecto do seu apego romanesco. Ele no pensava
nela seno como numa divindade que, tendo condescendido mostrar-se por instantes ao seu devotado adorador, tinha reentrado na sombra do seu santurio; como um planeta
dotado de uma influncia poderosa sobre o seu destino e que, tendo deitado sobre ele um raio favorvel durante um afortunado momento, se envolvera no seu vu de
neblina. A dama da sua afeio era para ele um ser superior, cujos movimentos no deviam ser espiados nem constrangidos e que, ao sabor da sua vontade, o devia alegrar
com a sua presena ou acabrunh-lo com a sua ausncia, anim-lo com o seu doce sorriso ou desesper-lo com a sua crueldade. No permitia outras demonstraes seno
as que fossem expressas pelos leais servios do corao e da lana do seu nobre campeo, e este no tinha outro fim na vida seno obedecer s suas ordens e aumentar,
pelo esplendor dos seus altos feitos, o renome daquela que amava.
60
Tais eram as regras impostas pela cavalaria e pelo amor. Mas, outras circunstncias ainda mais particulares, davam um carcter romanesco  sua dedicao pela dama
dos seus pensamentos. Jamais ouvira o som da sua voz, embora tivesse frequentemente comtemplado os seus encantos com exaltao. Ela vivia numa esfera de que a sua
condio de cavaleiro lhe permitia, na verdade, aproximar-se, mas no fazer parte; e embora fosse distinguido pela sua bravura e a sua cincia militar, o pobre soldado
escocs era forado a louvar a sua dignidade a uma distncia quase to grande como a que separa o persa do astro que ele adora.
Mas onde est a mulher colocada suficientemente alto para no se aperceber da dedicao apaixonada de um amante?
Ela tinha tido os olhos fixados nele, no torneio; tinha ouvido o seu elogio no relato dos combates que tinham lugar todos os dias e, enquanto os lordes, os condes
e os duques se disputavam pelas suas boas graas, ela concedia-as, mesmo sem o saber, ao pobre Cavaleiro do Leopardo, que no tinha seno a sua lana para manter
a sua condio. O que ela via, o que ouvia, bastavam para encorajar uma afeio que contra sua vontade se lhe insinuara no corao. Se se fazia o elogio da boa presena
de qualquer cavaleiro, as damas mais virtuosas no tinham escrpulos em dar a preferncia ao escocs Kenneth; e, apesar das benesses considerveis que os pares e
os prncipes concediam aos menestris, acontecia, por vezes, que um esprito imparcial de independncia se apoderava do poeta e que a sua harpa cantava o herosmo
de um guerreiro que no tinha a dar por recompensa nem palafrm nem ricos trajos.
Os momentos em que escutava o elogio do seu amante tornavam-se pouco a pouco cada vez mais caros  nobre Edith; constituam uma diverso  lisonja, de que os seus
ouvidos estavam fatigados, e mostravam aos pensamentos secretos do seu corao um guerreiro mais digno dela, segundo a opinio geral, do que qualquer daqueles que
o eclipsavam pela sua condio e fortuna.  medida que a sua ateno se fixou mais constantemente, embora com circunspeco, sobre Sir Kenneth, ela cada vez ficou
mais convencida da sua dedicao, tanto mais certa que via no escocs
Kenneth o cavaleiro destinado pela sorte a partilhar com ela, na
cidade ou nas calamidades, a devoo apaixonada  qual os poetas
61
deste sculo atribuam um imprio to universal e que os costumes e os usos do tempo colocavam quase ao mesmo nvel que a prpria devoo.
Quando Edith conheceu bem o estado do seu prprio corao, por altivos que fossem os sentimentos de uma jovem que o seu nascimento colocara a pouca distncia do
trono de Inglaterra; por satisfeito que devesse estar o seu orgulho ao ver-se objecto da homenagem muda, mas contnua, do cavaleiro que ela distinguira, havia momentos
em que o corao da mulher que ama e que  amada murmurava contra o constrangimento que lhe impunham a sua posio e a sua situao, e em que ela quase censurava
a timidez do seu amante. A etiqueta do nascimento e da posio traara  volta dela um circulo mgico para alm do qual Sir Kenneth podia na verdade lanar um olhar
de admirao respeitosa, mas no qual no podia entrar mais do que um esprito evocado pode transpor os limites que lhe so prescritos.
Involuntariamente, Edith acabou por pensar que era necessrio que se aventurasse a dar o primeiro passo, mesmo para alm dos limites impostos ao seu amante, se queria
dar a um cavaleiro to tmido e to reservado a ocasio de obter um favor ligeiro, como por exemplo, beijar a fita dos seus sapatos.
Tinha presente na memria um exemplo bem conhecido, o da filha de um rei da Hungria, que encorajara desse modo generosamente um escudeiro de baixa nascena; e Edith,
embora de sangue real, no era filha de rei, do mesmo modo que o seu amante no era de baixa estirpe. A fortuna no fora uma barreira to poderosa que pudesse constituir
obstculo  sua afeio; contudo, encontrava no seu seio esse orgulho modesto que encandeia o prprio amor e que a levava apesar da superioridade da sua condio,
a fazer os avanos que a delicadeza o no deixava fazer. Alis, Sir Kenneth era um cavaleiro to honrado, to dotado, pelo menos como ela o imaginava, e conhecendo
to bem todos os seus deveres, tanto para com ela como para consigo prprio que, embora a sua atitude amaciasse certo constrangimento quando recebia o culto do seu
amor como uma divindade insensvel, o dolo receava que, descendo demasiado cedo abaixo do seu pedestal, se degradasse aos olhos daquele que a adorava com tanto
fervor.
62
Vrias vezes o adorador de um dolo verdadeiro julgou descobrir sinais de aprovao nas tranas imveis de uma esttua de mrmore: no  pois de espantar que o cavaleiro
encontrasse uma interpretao favorvel nos olhares da amvel Edith, cuja beleza consistia mais no encanto da expresso do que no brilho da tez e na regularidade
perfeita das feies. Apesar de toda a vigilncia sobre si prpria, ela tinha deixado escapar, em favor de Sir Kenneth, algumas ligeiras marcas de distino; sem
isso, como teria ele reconhecido to prontamente esta linda mo de que apenas tinham sado dois dedos debaixo do vu? Como teria ficado to seguro que as duas flores
que ela sucessivamente deixara cair diante dele eram destinadas a fazer-lhe saber que o tinha reconhecido?
No podemos tentar explicar por que sinais secretos este grau de inteligncia que se tinha estabelecido entre Edith e o seu amante. Basta-nos dizer que esta afeio
existia entre os dois amantes, que nunca se tinham falado, embora ela fosse reprimida, da parte de Edith, pelo sentimento profundo das dificuldades e perigos que
deviam necessariamente seguir o progresso da sua afeio, e da parte do cavaleiro por mil dvidas e pelo receio de estar a dar demasiada importncia s ligeiras
marcas de distino que ela lhe dera, depois de longos intervalos de reserva ou at de prudente frieza quando receava as testemunhas.
Este relato, um pouco longo mas que a sequncia da nossa histria tornava necessrio, pode servir para explicar a inteligncia que existia entre os dois amantes,
quando a presena inesperada de Edith, na capela, produziu em Kenneth uma impresso to profunda.
63

CAPITULO V
"Os seres evocados pela necromancia
Em vo atacariam a vida do guerreiro.
No  sob a renda e no seio de um acampamento
Que Astaroth  tmido e Termagnat receado."
WARTON
O mais profundo silncio e espessas trevas continuaram a reinar durante mais de uma hora na capela onde deixmos o Cavaleiro do Leopardo ainda de joelhos, dirigindo
alternadamente expresses de reconhecimento ao Cu e  sua dama pelo favor que acabara de lhe ser concedido. A sua segurana e o seu destino, que raramente lhe davam
muitas preocupaes, de modo algum o ocuparam nesta circunstncia. Estava perto de Lady Edith; tinha recebido provas das suas boas graas; encontrava-se num local
consagrado por uma relquia da mais augusta santidade; um soldado cristo, um amante apaixonado, nada podia recear e no devia pensar seno nos seus deveres para
com o Cu e para com a sua dama.
Depois, um assobio agudo, semelhante quele pelo qual o falcoeiro chama o seu falco, fez-se ouvir e ressoou sob as abbadas da capela. Este som convinha mal  santidade
do lugar e lembrou a Kenneth a necessidade de se manter em guarda.
Levantou-se  pressa e levou a mo ao seu punhal. Sucedeu-se-lhe uma espcie de estalido, que parecia produzido por um parafuso ou uma roldana, e uma luz, subindo
para a abbada, e que saa de uma abertura no soalho, provou-lhe que se acabava de levantar ou baixar um alapo. Em menos de um minuto, um comprido
65
brao descarnado, meio nu, meio coberto de uma manga de damasco vermelho, saiu desta abertura e avanou. O ser a quem pertencia este brao, subindo por degraus,
em breve se encontrou sobre o soalho da capela. A forma e figura da personagem que assim se apresentava eram as de um ano medonho, que tinha sobre a grande cabea
um bon bizarramente ornado de trs plumas de pavo e trazia vestes de damasco vermelho, cuja riqueza fazia sobressair ainda mais a sua fealdade.
Tinha braceletes de ouro nos pulsos e nos braos, e um cinto de seda branca que sustinha um punhal com cabo de ouro.
Logo que este ser singular, que segurava uma espcie de vassoura na sua mo esquerda, saiu da abertura por onde entrara, permaneceu imvel; e como se quisesse mostrar-se
mais distintamente, aproximou sucessivamente a luz da cara e de todas as partes do seu corpo, iluminando as suas feies selvagens e os seus membros disformes mas
nervosos. Apesar dos defeitos de proporo, o ano no era suficientemente aleijado para lhe parecer faltar vigor ou actividade.
Enquanto Sir Kenneth contemplava este ser desagradvel, recordou-se da crena popular relativa aos gnomos ou espritos que elegem a sua morada nas cavernas da Terra;
e o ser que tinha debaixo dos olhos correspondia to bem  ideia que tinha da sua aparncia, que o olhava com um horror mesclado, no de receio, mas dessa surpresa
respeitosa que a vista do que parece sobrenatural pode inspirar ao corao mais firme.
O ano assobiou uma segunda vez e assim evocou do subterrneo uma outra criatura cuja fealdade era igual  sua e subiu da mesma maneira que ele; mas, desta vez,
era um brao de mulher que segurava a luz, e foi uma mulher, cuja estatura e propores correspondiam s do seu companheiro, que subiu para a capela. Os seus trajes
eram tambm de damasco, talhado de maneira bizarra. Do mesmo modo que o seu companheiro fizera antes dela, dirigiu sucessivamente a claridade da lamparina sobre
todos os seus membros e feies. Mas, com esta aparncia pouco agradvel, algo anunciava o mais alto grau de inteligncia e de actividade. Os seus olhos, enterrados
sob espessas sobrancelhas negras, brilhavam com um fulgor que parecia contrariar, at certo ponto, a extrema disformidade de toda a sua pessoa.
66
Sir Kenneth ficou como se um encantamento o tivesse petrificado, enquanto o casal, dando volta  capela, parecia cumprir os deveres da domesticidade, varrendo-a,
mas, como no se serviam seno de uma mo, desempenhavam as suas funes com gestos bizarros e modos extraordinrios. Quando chegaram perto do cavaleiro, deixaram
descansar as suas vassouras e colocando-se lado a lado em face dele fizeram mover as lamparinas que tinham na mo, mais uma vez, como para lhe fazer ver claramente
feies que a proximidade no tornava mais agradveis e permitir-lhe observar a vivacidade dos clares que lanavam os seus olhos negros e brilhantes. Dirigindo
seguidamente a luz das suas lamparinas sobre o cavaleiro, examinaram-no por sua vez com ateno; e, virando-se um para o outro, saudaram-no com uma risada selvagem
que lhe ressoou aos ouvidos. O som era to estranho que Sir Kenneth estremeceu ao ouvi-lo, e perguntou-lhes, apressadamente, em nome de Deus, quem eram e porque
faltavam ao respeito a este lugar santo, permitindo-se gestos ridculos e exclamaes profanas.
- Sou o ano Nebectamus - respondeu o aborto que parecia do sexo masculino, com uma voz que se assemelhava ao crocitar do corvo.
- E eu sou Genivre, a dama da sua afeio - disse a an com uma voz ainda mais spera.
- Porque esto vocs aqui? - perguntou o cavaleiro, duvidando se falava a seres humanos.
- Eu sou - respondeu o ano, tomando um tom grave e um ar de dignidade - o dcimo segundo im. Mahomet Mohadi, o guia e condutor dos fiis. Cem cavalos aparelhados
esperam-me a mim e ao meu squito, na santa cidade, e tambm na cidade-refgio sou aquele a quem prestaro testemunho, e eis aqui uma das minhas huris.
;- Mentes - exclamou a companheira num tom ainda mais spero do que antes. - No sou uma das tuas huris; e tu no s um miservel infiel como o Mahomet de que falas.
Que o seu tmulo seja maldito! Diz, burro de Issachar, que s o rei Artur e eu sou a dama Genivre, to clebre pela sua beleza.
A dizer a verdade, nobre senhor - continuou o ano - somos prncipes infelizes que vivamos sob as asas de Guy, rei de
67
Jerusalm, quando os ces infiis o expulsaram do seu prprio ninho. Que os raios do cu os consumam!
- Silncio! - disse uma voz vinda do lado por onde o cavaleiro tinha entrado na capela. - Silncio, loucos, a vossa tarefa terminou.
Logo que esta ordem foi dada, os anes disseram algumas palavras um ao outro, apagaram as suas lamparinas e deixaram o cavaleiro numa obscuridade completa,  qual
se juntou um profundo silncio quando deixou de ouvir o rudo dos seus passos.
A partida destas desgraadas criaturas foi um alvio para o cavaleiro, pois no podia duvidar de que elas pertencessem quela classe de seres desgradados que, pela
disformidade da sua pessoa e perturbao do seu esprito, divertiam as grandes famlias. No estando isento dos preconceitos do seu sculo, o cavaleiro escocs teria
podido, em qualquer outro momento, divertir-se tambm com a loucura dos pobres abortos; mas, na altura, ficou encantado por ver desaparecer estes desafortunados.
Alguns minutos depois de terem partido, a porta pela qual tinham entrado entreabriu-se lentamente e, ficando aberta, deixou entrar na capela a dbil claridade de
uma lamparina colocada no limiar. A sua luz dbia e trmula fez-lhe aperceber um homem prosternado contra a terra, muito perto da entrada, no qual reconheceu o ermita
que conservava a humilde postura em que o deixara e que, sem dvida se mantivera durante todo o tempo em que estivera ali.
- Est tudo terminado - disse o ermita, ouvindo o cavaleiro aproximar-se - e o mais miservel dos pecadores da Terra, assim como aquele que se deve considerar como
o mais honrado e o mais feliz dos mortais, devem agora abandonar este santo lugar. Tomai esta lmpada e marchai diante de mim, porque no devo descobrir os olhos
seno quando estiver longe deste local sagrado.
O cavaleiro escocs obedeceu em silncio; um sentimento solene, que se aproximava do xtase, fazia com que a lembrana de tudo o que vira reprimisse os movimentos
de uma viva curiosidade. Encontraram todas as passagens secretas e as diversas escadas por onde tinham vindo e chegaram  cela exterior do ermita.
- O criminoso condenado  devolvido ao seu calabouo - disse Teodorico -: -lhe dada uma trgua de um dia para o outro, at
68
que o seu temvel juiz ordene finalmente a execuo da sentena que bem mereceu.
Ao pronunciar estas palavras o ermita tirou o vu que lhe cobria a cabea e um profundo suspiro escapou-se-lhe quando deixou cair um olhar sobre este misterioso
tecido. Logo que o voltou a colocar no canto em que tinha dito ao cavaleiro para o ir buscar, disse ao seu companheiro, em tom vivo e quase brusco:
- Entra e vai repousar; podes dormir, nada to impede; mas eu no devo nem posso.
Respeitando a agitao com que o anacoreta lhe falava, Sir Kenneth retirou-se para a segunda cela; mas, deitando um olhar para trs antes de ali entrar, viu o ermita
despojar-se, com uma precepitao quase frentica, da pele de cabra que lhe cobria os ombros e, antes mesmo que ele tivesse tido tempo de fechar a porta que separava
os dois apartamentos, ouviu o barulho dos golpes de disciplina do penitente e os gemidos sufocados que a dor lhe arrancava. Um suor frio cobriu o cavaleiro, pensando
quo negro devia ser o pecado que uma penitncia to severa no podia apagar. Rezou o tero com devoo, estendeu-se sobre o colcho, depois de ter lanado um olhar
sobre o muulmano ainda adormecido, e fatigado por todas as aventuras que lhe tinham acontecido durante esta noite e o dia que a havia precedido, em breve adormeceu
num sono profundo.
Quando despertou, de manh, conversou com o ermita acerca de assuntos importantes; esta conversa decidiu-o a passar mais dois dias na cela. Ps nos seus exerccios
de devoo toda a regularidade que se devia esperar de um peregrino; mas no voltou a ser admitido na capela onde tinha visto tais maravilhas.
69

CAPITULO VI
-A cena vai mudar, que soe o clarim:  preciso no seu covil despertar o leo.
(Antiga pea dramtica)
TAL como os versos precedentes o anunciam,  necessrio agora que modemos de cena.
Das montanhas solitrias do Jordo, vamos passar para o acampamento de Ricardo, rei de Inglaterra: este acampamento estava ento colocado entre Saint-Jean-d'Acre
e Ascalon. e encerrava o exrcito com o qual Corao-de-Leo tinha jurado a si prprio marchar em triunfo at Jerusalm, empresa na qual teria sido provavelmente
bem sucedido sem os obstculos suscitados pelo cime dos prncipes cristos que nela tinham tomado parte; mas podia-se tambm culpar o descontentamento causado pela
altivez indomvel do monarca ingls e o desprezo que ele mostrava por soberanos que, embora seus iguais em condio, estavam bem longe de o igualar em coragem, em
constncia e em talentos militares. A discrdia que reinava entre Ricardo e Filipe, rei de Frana, ocasionara querelas e dificuldades que se opuseram a todas as
medidas activas que o gnio herico, embora impetuoso, de Ricardo, props; Porm as fileiras dos cruzados iam diminuindo todos os dias, no somente pela desero
individual, mas pela partida de grupos inteiros que se retiravam, com os chefes  cabea, do teatro de uma empresa da qual j no esperavam qualquer sucesso.
71
Os efeitos do clima tornaram-se, segundo o costume, funestos aos soldados vindos do Norte, tanto mais que os costumes licenciosos e dissolutos dos cruzados, formando
um singular contraste com os princpios e os motivos que os tinham levado a pegar em armas tornavam-nos mais facilmente vtimas da influncia perniciosa dos calores
ardentes e dos orvalhos glaciais.
A estas causas de desnimo era preciso acrescentar as perdas causadas pela espada do inimigo. Saladino, o nome mais ilustre da histria do Oriente, tinha aprendido,
por uma experincia fatal, que os seus soldados, ligeiramente armados, no estavam em estado de combater corpo a corpo os francos cobertos de ao e que devia temer
o carcter aventureiro de Ricardo. Mas se os seus exrcitos tinham sido derrotados mais de uma vez com uma grande carnificina, o nmero dos seus soldados dava-lhe
vantagem nas ligeiras escaramuas.  medida que o exrcito dos assaltantes diminua, as arremetidas do sulto, nesta espcie de pequena guerra, tornavam-se mais
frequentes e mais audaciosas. O acampamento dos cruzados estava quase cercado por esquadres de cavalaria ligeira, que facilmente se esmagam quando se podem agarrar
mas que tm asas para fugir a uma fora superior e aguilhes para se vingarem.
Havia uma guerra perptua entre os postos avanados e as guarnies, e grande nmero de vidas preciosas foram sacrificadas sem qualquer vantagem. Comboios de cruzados
eram interceptados, e ora ao preo da sua vida que eles compravam os meios de subsistir; e a gua como a da fonte de Belm, to desejada pelo rei David, no podia
agora, como outrora, ser obtida seno derramando sangue.
Estes males eram contrabalanados em grande parte pela firme resoluo e a actividade infatigvel do rei Ricardo que, com alguns dos seus mais bravos cavaleiros,
estava incessantemente a cavalo, pronto a dirigir-se para os locais ameaados e no somente oferecendo aos cristos um socorro inesperado, mas derrotando os infiis
no momento em que eles se julgavam seguros da vitria.
Contudo, o prprio Corao de Leo no pde suportar as alternncias de um clima insalubre, acrescidas das fadigas perptuas de corpo e esprito. Foi atacado por
uma dessas febres lentas que so peculiares da sia, e, a despeito do seu vigor extraordinrio, ficou
72
primeiro incapaz de montar a cavalo e seguidamente de assistir aos conselhos de guerra que os cruzados faziam de tempos a tempos.
Seria difcil dizer se este estado de inaco forada se tornou mais penoso ou mais fcil de suportar para o monarca ingls, quando o conselho de cruzados resolveu
concluir uma trgua de trinta dias com o sulto Saladino; porque, se por um lado ele ficava contrariado com o atraso trazido  execuo do grande empreendimento,
por outro lado consolava-se um pouco pensando que os seus companheiros de armas no colhiam louros enquanto ele se encontrava estendido no seu leito.
Mas o que Corao de Leo menos podia desculpar era a indolncia geral que reinou no campo dos cruzados logo que a sua doena tomou um carcter grave; e as informaes
que arrancou, quase contra vontade, aos que o rodeavam, mostraram-lhe que as esperanas do exrcito tinham decrescido na mesma proporo em que a sua indisposio
tinha aumentado, e que o intervalo de trgua era empregado no em recrutar soldados para as fileiras, no em reanimar a sua coragem, alimentar o seu esprito de
conquista, prepar-los para marchar com coragem e rapidez para a Cidade Santa que era o fim da sua expedio, mas antes em fortificar o acampamento ocupado por um
exrcito tornado menos numeroso e em rode-lo de trincheiras, paliadas e outras fortificaes, como se se estivessem a preparar para afastar os ataques de um inimigo
formidvel logo que as hostilidades recomeassem, em vez de tomarem a iniciativa do ataque e de se comportarem altivamente como conquistadores.
O monarca ingls estremecia ao ouvir estes relatos; por natureza violento e impetuoso, sentia-se consumir pela irritabilidade do seu carcter.
Todos os que o serviam o receavam; e os homens da arte no ousavam tomar sobre ele a autoridade que um mdico deve exercer sobre o seu doente, para o curar.
Um fiel baro, cuja semelhana de carcter talvez o ligasse mais do que qualquer outro  pessoa do rei, era o nico a ousar colocar-se entre o leo e a sua clera
e, juntando a doura  firmeza, conservava um poder que nenhum outro ousava pretender sobre um doente que era perigoso contrariar; este poder, Thomas de Multon somente
o exercia porque fazia mais caso da vida e da honra do seu
73
soberano do que do favor de que gozava junto dele, porque pouco se inquietava com o risco que podia correr procurando governar um doente intratvel, cujo descontentamento
era to perigoso.
Sir Thomas era senhor de Gilsland, no condado de Cunlherland; e num sculo em que os apelidos e os ttulos no estavam to claramente ligados aos indivduos como
hoje, era chamado Lorde de Vaux. Os saxes, apegados  sua antiga lngua, e orgulhosos do sangue saxo que corria tambm nas veias deste guerreiro, chamavam-no Thomas
e, mais familiarmente, tom dos Gills ou do Estreito Vale, razo pela qual os seus vastos domnios eram conhecidos pela denominao geral de Gilsland.
Este baro tinha empunhado armas em quase todas as guerras entre a Inglaterra e a Esccia ou na luta das faces internas que tinham despedaado o primeiro destes
dois pases; em todas se tinha distinguido pela sua bravura. Noutros aspectos era um soldado grosseiro, brusco e descuidado, taciturno e at sombrio, parecendo pelo
menos desdenhar da poltica e da arte dos cortesos.
Havia contudo algumas pessoas que, pretendendo saber ler no fundo dos coraes, asseguravam que Lorde de Vaux era to fino e ambicioso quanto brusco e audacioso,
e que pensavam que, se ele imitava a brusquido do rei era, pelo menos at um certo ponto, com vista a insinuar-se melhor nas suas boas graas e tornar bem sucedidos
os projectos que uma profunda ambio inspirava. Mas ningum ousava contrariar os seus desgnios, se tais alimentava, partilhando com ele a perigosa ocupao de
passar todos os dias junto do leito de um prncipe cuja doena tinha sido declarada contagiosa e, sobretudo, quando se pensava que este doente era Corao de Leo,
rugindo com a impacincia de um guerreiro que no pode assistir a uma batalha e a de um soberano que no est em estado de exercer a sua autoridade. Quanto aos soldados,
pelo menos quanto aos do exrcito ingls, pensavam em geral que os cuidados que Vaux prodigalizava ao rei eram os que um camarada d a outro, com a franqueza militar
e a amizade desinteressada daqueles que todos os dias partilham os mesmos perigos.
Era no fim de um dia de Vero que Ricardo estava estendido num leito tornado to insuportvel ao seu esprito como a doena o tornara fatigante ao seu corpo. Os
seus grandes olhos azuis, que em
74
todas as ocasies brilhavam com um fulgor desusado, tornado mais vivo pela febre e as inquietaes, lanavam clares to rpidos como os ltimos raios que o Sol
dardeja atravs das nuvens da tempestade; as suas feies, anunciavam o progresso da doena que o minava. Mudando de posio a cada instante, o seu leito em desordem
e os seus gestos de impacincia davam provas da energia e da vivacidade de um carcter em que a actividade era o elemento natural.
Perto da cama estava Thomas de Vaux que, pela sua atitude, a sua fisionomia e as suas maneiras, formava o mais saliente dos contrastes com o monarca doente. A sua
estatura era quase gigantesca e o brilho dos seus grandes olhos negros assemelhava-se ao de uma manh de Outono; a sua calma era apenas momentaneamente perturbada
quando eles eram atrados pelas marcas de impacincia e agitao violenta de Ricardo. As feies, embora pesadas, como toda a sua pessoa, podiam ter possudo certa
beleza antes de terem sido sulcadas por numerosas cicatrizes. O lbio superior, segundo o costume dos normandos, estava coberto por espessos bigodes, to longos
que iam unir-se  sua cabeleira de um castanho escuro, j a comear a ficar grisalho. O seu corpo era talhado de modo a desafiar toda a espcie de fadigas e climas,
porque era esguio, tinha o peito largo, os braos compridos e os membros dotados de um vigor pouco comum.
Havia mais de trs noites que no tinha largado a sua cota de pele de bfalo, no tendo tomado seno alguns instantes daquele repouso que s  socapa se pode permitir
quem vela junto de um rei doente. Raramente mudava de atitude, a no ser para apresentar a Ricardo as bebidas que nenhum outro, alm dele, conseguia decidir o impaciente
monarca a tomar; e havia algo de tocante na maneira afectuosa, embora desajeitada, com que ele se desempenhava de cuidados to opostos aos seus hbitos militares
e ao seu feitio brusco.
O pavilho no qual se encontravam estas duas personagens oferecia  vista, de acordo com o esprito da poca e o carcter pessoal oe Ricardo, um aspecto mais militar
do que de pompa real. Armas ofensivas e defensivas, de uma forma estranha e nova, estavam esPalhadas pela tenda. Peles de animais estavam estendidas por terra ou
suspensas aos lados do pavilho; sobre um monte destes despojos repousavam trs alos, como eram ento chamados, ou seja trs
75
galgos da mais elevada estatura, brancos como a neve. As cicatrizes das feridas na cabea, feitas pelas garras e os dentes dos animais que tinham combatido, mostravam
a parte tomada na conquista dos trofeus sobre os quais estavam estendidos; os seus olhos, fixados de tempos a tempos sobre Ricardo com um ar expressivo, assim como
a sua goela escancarada, mostravam quanto estavam espantados e desgostosos pela inaco extraordinria que eram forados a partilhar.
Tudo isto no anunciava seno o caador e o guerreiro; mas, sobre uma pequena mesa, pousada perto do leito, via-se um escudo de ao de forma triangular, ostentando
os trs lees que o monarca cavaleiro tomara primeiramente como braso, e o diadema de oiro que, com a tiara de veludo purpreo bordado, era ento o emblema da soberania
em Inglaterra. Ao lado, como que pronta a defender este smbolo da realeza, estava a temvel maa-de-armas de Corao de Leo, cujo peso fatigaria qualquer outro
brao que no o seu.
Numa diviso exterior da tenda estavam dois ou trs oficiais da casa do rei, bastante inquietos com a m sade do seu senhor e que no o estavam talvez menos, com
o que lhes sucederia se ele sucumbisse a esta doena. As suas sombrias apreenses comunicavam-se s sentinelas que iam e vinham diante da porta do pavilho, com
um ar ansioso e consternado ou que, apoiadas nas suas alabardas, permaneciam imveis no seu posto.
- Assim, pois, no tens melhores novas a dar-me, Sir Thomas'.
- disse o rei, aps um intervalo bastante longo. - Todos os nossos cavaleiros esto metamorfoseados em mulheres; todas as nossas mulheres se tornaram devotas, e
j no existe uma centelha de valor ou de galantaria para animar um acampamento que contm o escol da cavalaria.
De Vaux, repetindo com pacincia a mesma observao pela vigsima vez, volveu:
- A trgua pe entraves  nossa actividade; quanto s damas, no sou um homem galante, como Vossa Majestade bem o sabe.  raro que troque o ao e a pele de bfalo
pelo ouro e o veludo, mas o que sei  que as nossas belezas mais clebres acompanharam Sua Majestade a Rainha e a princesa que esto em peregrinao ao convento
de Engaddi, como consequncia de um voto que fizeram para obter do Cu a cura de Vossa Majestade.
76
- E  assim - exclamou Ricardo - que mulheres e raparigas de sangue real se arriscam num clima onde os pagos que o profanam no tm mais lealdade para com os homens
que devoo para com o verdadeiro Deus!
- Pensai, sir - respondeu De Vaux - que elas tm por penhor a palavra de Saladino.
-  verdade,  verdade - replicou Ricardo - estava a ser injusto para o sulto, devo-lhe uma reparao. Permitisse o Cu que lha pudesse oferecer entre os nossos
dois exrcitos, com os cristos e os pagos por espectadores!
Ao dizer isto, Ricardo tirou para fora da cama o seu brao nu at ao ombro e, sentando-se com dificuldade, estendeu o punho fechado, como se estivesse a segurar
a sua espada ou a sua maa-de-armas, pronta a atacar o rico turbante de Saladino. No foi sem ter tido necessidade de recorrer a uma doce violncia, que o rei dificilmente
teria suportado da parte de qualquer outro, que o lorde de Vaux, na sua qualidade de enfermeiro, forou o seu senhor a deitar-se de novo e recobriu o seu brao nervoso,
o pescoo e os ombros, com todos os cuidados que uma me teria dado a uma criana caprichosa:
- s um guarda um pouco rude, embora cheio de boa vontade
- disse o rei, submetendo-se a uma fora a que ele no estava em estado de resistir. - Parece-me que uma coifa de velha te ficaria to bem como a mim uma touca de
criana.
- Seramos ento uma ama e um beb prprios para assustar as raparigas.
- Assustmos os homens mais de uma vez, sir - respondeu lorde de Vaux - e espero que vivamos ainda o suficiente para os Assustar de novo. Afinal o que  um acesso
de febre?  preciso suport-lo com pacincia para mais facilmente se desembaraar dele.
- Um acesso de febre! - exclamou Ricardo impetuosamente.
- Sim, podes crer com razo que a minha doena  um acesso de febre; mas qual  a de todos os outros prncipes cristos, de Filipe de Frana, do pesado austraco,
do marqus de Montserrat, dos "ospitalrios, dos templrios? Qual  a doena deles? Vou-te dizer:  uma paralisia, uma letargia mortal, um mal que os priva da faculdade
77
de falar e de agir, uma chaga que corroeu o corao de tudo o que havia de nobre, de virtuoso e de cavalheiresco entre eles, que os fez faltar ao mais nobre voto
jamais feito por um cavaleiro, que os tornou indiferentes ao seu renome, que os fez esquecer o seu Deus.
- Pelo amor do Cu, sir, falai com menos violncia - disse de Vaux. - Vo-vos ouvir fora da tenda. A soldadesca j tem demasiada tendncia para fazer tais discursos,
que no servem seno para engendrar a discrdia. Pensai que a vossa doena vos priva da fora mais necessria para o empreendimento. Seria mais fcil a um carpinteiro
trabalhar sem parafusos e alavancas do que ao exrcito cristo empreender algo sem o rei Ricardo.
- Lisonjeias-me, de Vaux - disse o rei; e no entanto, no sendo inacessvel s sedues dos elogios, apoiou a cabea no travesseiro.
Mas Thomas de Vaux no era corteso. A frase que acabara de pronunciar sara-lhe espontaneamente dos lbios, e no sabia como continuar de maneira a fazer prolongar
o instante de calma que tinha feito nascer. O rei, recaindo nas suas sombrias meditaes, exclamou por fim, com vivacidade:
- Por Deus! Semelhantes discursos so bons para distrair um doente; mas porque ser necessrio que uma liga de monarcas, uma reunio de nobres, um ajuntamento de
toda a cavalaria da Europa, fiquem na inaco por causa da doena de um homem, embora este homem seja o rei de Inglaterra? Por que razo a doena ou a morte de Ricardo
iria impedir a marcha de trinta mil guerreiros to bravos como ele? Dispersa-se o rebanho quando  morto o veado que o conduz? Porque  que no se renem e no escolhem
entre si um para lhe confiar a chefia do exrcito?
- Que Vossa Majestade no se aborrea - respondeu de Vaux.
- Ouvi dizer que j se abordou qualquer coisa desse gnero em vrios conselhos.
- Ah! - exclamou Ricardo, com o cime desperto e dando uma outra direco  sua irritao de esprito - serei pois esquecido pelos meus aliados, antes de ter recebido
os sacramentos? Julgam-me j morto? Mas no, no, eles tm razo; e quem escolhem eles para chefe do exrcito cristo?
78
A condio e a dignidade indicam o rei de Frana - disse de
Vaux.
- Oh! sem dvida! Filipe rei de Frana e de Navarra! Por Montjoie So Dinis! 1 Sua Majestade Cristianssima! Eis com que encher a boca; no h seno um risco, 
que ele se engane a dizer "para trs em vez de para a frente" e que nos reconduza a Paris em vez de nos fazer marchar sobre Jerusalm. A sua cabea poltica teve
tempo de aprender que h mais a ganhar oprimindo os seus feudatrios e pilhando os seus aliados do que disputando aos Muulmanos a posse do Santo Sepulcro.
- Poder-se-ia escolher o arquiduque da ustria?
- O qu? Ser por ser to grande e gordo como tu, Thomas? Digo-te que o austraco, com toda esta massa de carne, no tem mais coragem do que uma vespa irritada,
nem mais fora do que uma carria; nem pensem nisso! Conduzir cavaleiros  glria, ele! Que lhe dem uma garrafa de vinho para o ver beber com os seus lansquens
2 e os seus soldados cobardes e esfarrapados.
- H o gro-mestre dos Templrios - disse o baro, que no se importava em fixar as ideias do seu senhor sobre qualquer outro assunto que no fosse a sua doena.
-  instrudo, bravo nos combates, sbio nos conselhos; no tem estados que o possam distrair dos seus esforos para recuperar a Terra Santa. Que pensa Vossa Majestade
do gro-mestre, como general-chefe do exrcito cristo?
- Ah! No se pode fazer qualquer objeco contra o irmo Giles Amaury. Ele conhece a ordem de uma batalha e combate na primeira fila quando ela comea. Mas, Sir
Thomas, seria justo reconquistar a Terra Santa a Saladino, que rene todas as virtudes de que  capaz o homem a quem no ilumina a luz do cristianismo, para a mvestir
Giles Amaury, um homem mais pago que o prprio sulto, um idlatra, um adorador do Demnio, um necromante, um renegado que comete os crimes mais negros e mais infames
nos subterrneos e nos locais secretos consagrados s trevas e s abominaes.
1 Antigo grito de guerra dos reis franceses.
2 Al. Landsknecht - mercenrio alemo dos sculos XIV e XV.
79
- No se reprova heresia nem magia ao gro-mestre dos Cavaleiros Hospitalrios de So Joo de Jerusalm.
- Mas no  ele de uma avareza srdida? No houve suspeitas e mais que suspeitas de ele ter vendido aos infiis vantagens que nunca teriam obtido com as armas na
mo? Acredita-me, Thomas: valeria mais dar o exrcito, vend-lo aos patres de navios venezianos ou aos bufarinheiros lombardos do que confi-lo ao gro-mestre de
So Joo.
- Pois bem, sir, no vos citarei seno um mais. Que tendes a dizer do bravo marqus de Montserrat, to sbio, to elegante, to excelente homem de armas?
- Sbio! Queres dizer manhoso. Elegante! Sim, no quarto de uma dama, se o quiseres. Oh, sim! Conrado de Montserrat! quem no conhece este donzel? Poltico verstil
mudar os seus projectos tantas vezes quantas as cores dos seus fatos.
Sim, faz boa figura a cavalo e comporta-se maravilhosamente num torneio, em que se combate com a espada embotada. No estavas tu comigo quando eu disse a este galante
marqus:
"Eis-nos aqui trs bons cristos, e l em baixo uns sessenta sarracenos; ataquemo-los, que dizeis? No so seno vinte infiis contra um bom cavaleiro.
- Recordo-me - disse Vaux -; e o marqus respondeu-vos que os seus membros eram de carne e no de argila, que preferia ter o corao de um homem do que o de um animal,
mesmo que este animal fosse o leo. Mas agora vejo claro; acabmos como comemos sem poder esperar oferecer as nossas preces ao Santo Sepulcro at que preza ao
Cu devolver a sade ao rei Ricardo.
Ao ouvir este grave comentrio, Ricardo deu uma risada, a primeira desde h algum tempo:
- O que  a conscincia! - exclamou - se por ela um pesado crebro setentrional como o teu pode levar o seu soberano a confessar a sua loucura?  bem verdade que
se eles no se pusessem  frente como estando em condies de segurar na mo do meu ceptro de comando, no pensaria sequer em arrancar os pedaos de seda que cobrem
todos os bonecos que me fizeste passar sucessivamente sob os olhos. Sim, de Vaux, confesso-te a minha fraqueza e o egosmo da minha ambio! O acampamento cristo
contm, sem
80
dvida, muitos cavaleiros melhores do que Ricardo de Inglaterra, e seria prudente e razovel confiar ao mais digno de entre eles a conduo do exrcito; mas - continuou
o monarca levantando-se sobre o leito e afastando as cobertas - se esse cavaleiro plantasse o estandarte da cruz sobre o templo de Jerusalm enquanto eu no estivesse
em condies de tomar parte nessa nobre tarefa, no deixaria, desde que tivesse foras para pr a minha lana em riste, de o desafiar para um combate... Mas escuta!
Que trombetas ouo eu ao longe?
- As do rei Filipe, segundo creio, sir.
- Tens o ouvido duro, Thomas - disse o rei procurando levantar-se. - No ouves a maneira como soam? Pelo Cu, os turcos esto no acampamento, ouo os seus llies
1! - fez novos esforos para sair do leito e de Vaux foi obrigado a empregar toda a sua fora para a o reter, e mesmo a chamar em seu auxlio os oficiais que se
encontravam na primeira diviso da tenda.
- s um traidor desleal, de Vaux - exclamou o monarca, irritado, quando, esgotado e sem flego foi obrigado a ficar em repouso no seu leito. - Gostaria... gostaria
de estar em estado de levantar a minha acha para com ela te fender o crnio.
- Gostaria que tivsseis essa fora, sir, mesmo que fizsseis dela semelhante uso. Todas as apostas seriam pela cristandade, se Thomas Multon estivesse morto e Ricardo
de Inglaterra tivesse voltado a ser o que era.
- Meu bom e fiel servidor - disse Ricardo, estendendo-lhe a mo, que o baro beijou com respeito - perdoa ao teu senhor este movimento de impacincia.  a febre
e no Ricardo de Inglaterra que acaba de falar to duramente. Mas sai um instante e vem informar-me quais so os estrangeiros que se encontram no campo, porque estas
trombetas no pertencem  cristandade.
De Vaux saiu do pavilho para executar as ordens do rei, bem resolvido a no fazer uma grande ausncia. Recomendou aos oficiais que deixava perto de Ricardo para
redobrarem de ateno para com o soberano, ameaando fazer cair sobre eles toda a responsabilidade;
1 Gritos de guerra dos Muulmanos.
81
ameaa que, aumentando a sua tmida inquietao, no os tornou mais adequados a cumprir as suas funes, porque, depois da clera do monarca nada receavam tanto
como a do altivo e inexorvel lord de Gilsland.
82

CAPTULO VII
"Nunca o ingls e o escocs
Combateram nas fronteiras
Sem que se tenha visto o sangue inundar as nossas searas
Como gua caindo das goteiras."
A Batalha de Otterbourne
UM nmero considervel de guerreiros escoceses tinha-se juntado aos cruzados, e naturalmente colocado sob as bandeiras do monarca ingls, sendo como os soldados
deste prncipe, de origem saxnica ou normanda, falando a mesma lngua, alguns possuindo domnios tanto em Inglaterra como na Esccia, e vrios aliados da Inglaterra
pelo sangue e por casamentos. Esta poca, alis, precedia aquela em que a ambio desmesurada de Eduardodeu um carcter de venenoso encarniamento s guerras entre
estas duas naes. At ento, as guerras entre os dois povos, embora frequentes e animadas, tinham sido conduzidas segundo os princpios de uma franca hostilidade
e admitiam combates de cortesia delicada e de respeito pelos inimigos. Da resultava que, em tempo de paz, e sobretudo quando os dois pases estavam envolvidos,
como na poca de que se trata, numa guerra empreendida para uma causa comum que as suas ideias religiosas 'hes tornavam igualmente querida, os aventureiros das duas
regies consequentemente combatiam nas mesmas fileiras, a emulao nacional no servindo seno para os excitar a ultrapassarem-se uns aos outros.
83
O carcter franco e belicoso de Ricardo, que no fazia distino entre os seus prprios sbditos e os de Alexandre, rei da Esccia seno pela maneira como eles se
comportavam sobre o campo de batalha, contribua muito para as tropas das duas naes se ligarem a ele. Mas durante a sua doena, e nas condies desfavorveis em
que os cruzados se encontravam, as antipatias nacionais comearam a mostrar-se entre os soldados dos diferentes povos unidos para a cruzada.
Os escoceses e os ingleses eram igualmente altivos, ciumentos e prontos a ofenderem-se, os primeiros ainda mais que os outros, porque pertenciam  mais pobre e 
mais fraca das duas naes e comearam a preencher com divises intestinas o intervalo de tempo em que a trgua os impedia de fazer cair sobre os sarracenos os seus
esforos conjuntos. Tal como os dois chefes romanos que disputavam entre si o imprio do mundo, os escoceses no queriam admitir a igualdade. No se ouviam seno
queixas e e recriminaes; os soldados, os chefes e os cavaleiros, que tinham sido bons camaradas enquanto a vitria lhes sorrira, lanavam-se olhares encolerizados
no momento da adversidade, como se a concrdia no fosse ento mais necessria do que nunca.
A mesma desunio tinha comeado a surgir entre os franceses e os ingleses, os italianos e os alemes e at entre os dinamarqueses e
os suecos.
De todos os nobres ingleses que tinham seguido o rei na Palestina, de Vaux era o que tinha mais preconceitos contra os escoceses. Os seus domnios estavam situados
perto das fronteiras; tinha passado toda a sua vida a fazer a guerra contra eles, quer de nao para nao, quer de senhor para senhor; tinha-lhes levado o ferro
e o fogo e eles tinham-lhe feito experimentar calamidades semelhantes.
A sua dedicao e a sua fidelidade ao seu rei assemelhavam-se  afeio do antigo mastim ingls pelo seu dono. De Vaux nunca tinha visto sem desprezo e sem cime
Ricardo conceder uma marca de cortesia ou de favor a esta raa perversa, enganadora e feroz, nascida ao norte de um certo rio ou de uma linha imaginria de demarcao
traada no meio de um deserto e atravs das montanhas; ele duvidava mesmo do sucesso de uma cruzada na qual se tinha permitido aos escoceses empunhar armas, porque
os olhava mais ou menos
84
com os mesmos olhos com que olhava os sarracenos que viera
mbater. Pode-se acrescentar a isto que, sendo ele prprio um franco e verdadeiro ingls, pouco acostumado a esconder o mais ligeiro movimento de afeio ou de dio,
considerava a cortesia que os escoceses tinham ido buscar s suas relaes com os franceses, ou ao seu prprio carcter, como uma mscara dos seus perigosos desgnios
em relao aos vizinhos, contra os quais ele julgava, com uma confiana verdadeiramente inglesa, que era impossvel que alguma vez obtivessem vantagem empregando
meios honrados e legtimos.
Contudo, embora de Vaux alimentasse tais sentimentos em relao aos seus vizinhos do Norte, o seu respeito pelo rei e o sentimento dos deveres que lhe impunha o
seu voto como cruzado, impediam-no de os mostrar, a no ser evitando, tanto quanto lhe era possvel, qualquer contacto com os seus irmos de armas do Norte ou observando
uma sombria e desdenhosa taciturnidade todas as vezes que o acaso o obrigava a encontrar-se com qualquer deles. Os bares e os cavaleiros escoceses no eram homens
para suportar os seus desdns sem lhos pagar na mesma moeda, e as coisas chegaram ao ponto de eles o considerarem como o inimigo mais activo e mais decidido de uma
nao que ele se limitava no entanto a no amar e a desprezar. Bons observadores tinham mesmo notado que, se ele no tinha para com eles a caridade da Escritura,
que sofre durante longo tempo e julga com indulgncia, de modo nenhum lhe faltava essa virtude mais limitada que se compadece dos sofrimentos dos outros e os alivia.
A riqueza de Thomas de Gilsland fornecia-lhe com abundncia provises de toda espcie, e uma parte era sempre escoada, por secretos canais, para a rea ocupada pelos
escoceses; a sombria benevolncia partia do princpio de que o que havia de mais importante no mundo para um homem, depois dos seus amigos, eram os seus inimigos,
e passando por cima de todos os graus intermedirios, como sendo demasiado indiferentes para merecer um s pensamento. Esta explicao era necessria para que o
leitor pudesse compreender bem os detalhes em que vamos agora entrar.
Mal Thomas de Vaux tinha sado do pavilho do rei, quando reconheceu o que logo captara o ouvido muito mais fino do monarca,
85
a quem no faltava talento na arte dos menestris: isto , que os sons de msica que tinham ouvido eram produzidos pelas trombetas, os obos e os timbales dos sarracenos.
Ao fundo de uma comprida avenida de tendas que conduzia  de Ricardo, viu um grande grupo de soldados reunidos em volta do stio donde partia esse barulho, quase
no centro do acampamento; e, para grande surpresa sua, distinguiu no meio dos capacetes de forma variada usados pelos cruzados de diferentes naes, turbantes brancos
e compridas lanas que anunciavam a presena de sarracenos armados, e as grandes cabeas disformes de camelos e dromedrios, que se elevavam acima da multido, graas
aos seus longos pescoos desproporcionados.
To descontente quanto espantado por um espectculo to inesperado e to singular, o baro olhou apressadamente  volta, procurando algum a quem pudesse perguntar
a causa desta alarmante novidade.
Pelo andar grave e o ar de altivez do primeiro guerreiro que viu avanar, concluiu imediatamente que era um escocs ou um espanhol; e um instante depois disse para
consigo:
"Sim,  de facto um escocs:  o Cavaleiro do Leopardo; vi-o combater muito bem, para um homem do seu pas."
No se preocupando sequer em lhe fazer uma pergunta ao passar, ia continuar a caminhar quando Sir Kenneth o impediu de executar esta resoluo, porque avanou ele
prprio para o baro e, abordando-o com fria delicadeza, disse-lhe:
- Lorde de Vaux de Gilsland, preciso de vos falar.
- A mim? - exclamou o cavaleiro ingls. - Seja, mas fala depressa, porque estou encarregado de uma mensagem da parte do rei.
- O que vos tenho a dizer respeita o rei Ricardo ainda de mais perto - respondeu Sir Kenneth - pois espero trazer-lhe a sade.
Lorde de Vaux olhou o escocs com um ar incrdulo, e respondeu-lhe:
- No sois mdico, que eu saiba, sir escocs; com a mesma facilidade acreditaria que trazias a riqueza ao rei de Inglaterra.
Kenneth, embora descontente com o tom em que o baro lhe respondeu, acrescentou num tom calmo:
86
A sade de Ricardo  a glria e a riqueza da cristandade; mas
o tempo urge. Dizei-me, peo-vos, se posso ver o rei.
- Certamente que no, belo sir, at que me digas mais concretamente que mensagem tens para ele. O quarto de um prncipe doente no se abre a qualquer um que a queira
entrar, como uma hospedaria no Norte.
- A cruz que uso como vs, milorde, e a impotncia do assunto que me traz foram-me a no prestar ateno, neste momento, a uma conduta que em qualquer outra ocasio
no estaria disposto a suportar. Dir-vos-ei pois, concretamente, que trago um mdico mouro que se encarregar de devolver a sade ao rei Ricardo.
- Um mdico mouro! E quem me dir que os remdios que ir empregar no so veneno?
- A sua prpria vida, milorde, a sua cabea que oferece como garantia.
- Conheci mais de um celerado decidido que no fazia da sua vida mais caso do que o que ela merecia e que teria marchado para a forca to alegremente como se se
tratasse de danar com o carrasco.
- Mas eis os factos, milorde. Saladino, a quem ningum recusar a honra de ser um inimigo to generoso como valente, enviou para aqui este mdico com um squito
e uma guarda adequados  elevada estima que concede a El Hakim 1; juntou a isso frutos e refrescos para a tenda do rei e uma mensagem tal como se pode esperar da
parte de um honrado inimigo, desejando que Ricardo rapidamente se restabelea da sua febre, a fim de que fique em melhor estado para receber a visita que o sulto
se prope fazer-lhe, de cimitarra desembainhada na mo e  cabea de cem mil cavaleiros.
"Apraz-vos, a vs que sois do conselho privado do rei, ordenar Mue descarreguem estes camelos, e que se tomem medidas para receber este sbio mdico?
-  espantoso - disse de Vaux, como se falasse para consigo. Quem garantir a honra de Saladino, quando um acto de m-f o Poderia desembaraar do seu mais poderoso
inimigo?
1 o mdico.
87
- Responderei eu mesmo por isso, sobre a minha fortuna, a minha vida e a minha honra.
-  espantoso - repetiu de Vaux, como se falasse consigo. - Posso-vos perguntar, sir cavaleiro, como  que vos encontrais envolvido neste assunto?
- Estive ausente para uma peregrinao, milorde, e fui encarregado de uma mensagem para o santo ermita de Engaddi.
- No me podes confiar a resposta deste santo homem, Sir Kenneth?
- No, milorde.
- Ignoras - disse o ingls, altivo - que sou membro do Conselho de Inglaterra?
- No devo vassalagem a esse pas, milorde, embora, durante esta guerra, tenha combatido voluntariamente sob o estandarte do monarca ingls. Fui enviado pelo conselho
geral dos reis, prncipes e chefes supremos do exrcito da cruz, e s a ele darei conta da minha misso.
- Ah!  assim que falas? - exclamou o orgulhoso baro. Fica sabendo, mensageiro dos reis e dos prncipes, como podes s-lo, que nenhum mdico se aproximar do leito
de Ricardo de Inglaterra sem o consentimento do lorde de Gilsland, e ai de quem ousasse penetrar na sua tenda sem previamente o ter obtido!
Ia-se a afastar com um ar altivo, quando o escocs, avanando para mais perto e pondo-se em frente dele, lhe perguntou com um tom calmo, mas que no era destitudo
de orgulho, se o lorde Gilsland o considerava como um gentil-homem e como um bom cavaleiro:
- Todos os escoceses so nobres por direito de nascena - respondeu Sir Thomas com uma certa ironia; mas, sentindo ele prprio a sua injustia, e apercebendo-se
que o rubor subia ao rosto de Kenneth, acrescentou: - Sois,  certo, bom cavaleiro. Seria pecado duvidar disso, sobretudo para um homem que vos viu cumprir o vosso
dever com bravura e lealdade.
- Pois bem! disse o cavaleiro escocs, satisfeito pela franqueza desta ltima declarao -juro-vos, Thomas de Gilsland, to verdade como eu ser escocs, que considero
como um privilgio igual  minha antiga nobreza, to certo como ter recebido a ordem
88
He cavalaria e ter vindo aqui para adquirir laus 1 e renome nesta vida mortal, e o perdo dos meus pecados na que h-de vir, enfim, em nome da bem-aventurada cruz
que trago, que no tenho outro desejo seno assegurar a cura de Ricardo Corao de Leo, recomendando-lhe este mdico muulmano.
O ingls ficou impressionado com o tom solene com que Kenneth acabava de lhe falar e respondeu-lhe com maior cordialidade do que tinha mostrado at a.
- Sir Cavaleiro do Leopardo, supondo, o que no duvido, que ests perfeitamente convencido do que acabas de me dizer, diz-me se num pas onde a arte do envenenamento
 to geralmente praticada como a da cozinha, agiria com prudncia permitindo a um mdico desconhecido ensaiar as suas drogas num prncipe cuja vida  to preciosa
a toda a cristandade?
- Tudo o que vos posso responder, milorde,  que o meu escudeiro, o nico homem do meu squito que a guerra e a doena deixaram para me servir, foi perigosamente
atacado pela mesma febre que, apoderando-se do rei Ricardo, paralisou o membro mais essencial da nossa santa empresa. Este mdico, este El Hakim, cuidou dele. ainda
no h duas horas e j desfruta de um sono refrescante. No duvido que possa curar uma doena que nos foi to fatal; e o que prova, a meu ver, que ele tem a inteno
de o fazer,  a misso que lhe deu o sulto, que  to franco e leal quanto o pode ser um infiel cego  verdade da f. Quanto ao xito dos seus cuidados, a certeza
de uma recompensa, se for bem sucedido, e de um castigo exemplar, se falhar voluntariamente, parece-me dever oferecer uma garantia suficiente.
O ingls escutou-o, com os olhos baixos. Por fim, disse-lhe, levantando os olhos:
- Posso ver o vosso escudeiro, belo sir? O cavaleiro escocs hesitou, corou e respondeu finalmente:
- De boa vontade, milorde; mas  preciso que vos lembreis quando vires a minha humilde morada, que os nobres e os cavaleiros da Esccia no se alimentam to sumptuosamente,
no tm leitos
1 Laus - Louvor ou renome.
89
to fofos e no procuram um alojamento to magnfico como os seus vizinhos do Sul. Estou pobremente alojado, lorde de Gilsland
- acrescentou com uma nfase de altivez.
Quaisquer que fossem as precaues de lorde de Vaux contra a nao do seu novo conhecimento, e sem querer negar que parte dos seus preconceitos tinha tido origem
na pobreza desse povo, ele tinha demasiada nobreza de alma para desfrutar da mortificao de um bravo guerreiro forado a dar a conhecer necessidades que o seu orgulho
teria querido poder esconder.
- Vergonha - disse ele - vergonha ao soldado da cruz que pode pensar no esplendor mundano ou nas frivolidades do luxo quando marcha  conquista da Cidade Santa.
Por muitas provaes que pudssemos experimentar, os nossos sofrimentos no tero nada de comparvel aos daquele exrcito de santos e de mrtires que, tendo percorrido
estas regies antes de ns, trazem agora lmpadas de ouro e palmas sempre verdes.
Era talvez o discurso mais metafrico que jamais fora pronunciado por Thomas de Gilsland, tanto mais que ele no exprimia exactamente os seus sentimentos, porque
era partidrio da boa carne e amava um mobilirio esplndido.
Em breve chegaram ao local do campo onde era o aquartelamento de Cavaleiro do Leopardo. Segundo todas as aparncias, nada a violava as leis da mortificao que
os cruzados se deviam impor de acordo com a opinio que lorde de Gilsland acabava de enunciar. Um espao de terreno suficientemente grande para umas trinta tendas
estava em parte vazio, porque o cavaleiro, por ostentao, tinha pedido um terreno proporcional ao nmero de homens que comandava quando chegara, e em parte ocupado
por algumas cabanas miserveis, construdas com ramos de rvores e cobertas com folhas de palmeiras.
Estas habitaes pareciam inteiramente desertas e a maioria caa em runas. A cabana do centro servia de pavilho ao chefe; distinguia-se pelo estandarte em cauda
de andorinha, colocado no cimo de uma lana, e cujas longas pregas caam imveis. Mas nem pajens nem escudeiros, nem mesmo uma sentinela solitria guardavam este
emblema do poder feudal e da categoria do cavaleiro da Esccia. No tinha outra guarda seno o seu bom nome.
90
Sir Kenneth lanou um olhar melanclico  sua volta; mas, dominando a emoo, entrou na cabana e fez sinal ao baro de Gilsland para o seguir.
Este passeou em redor um olhar curioso que exprimia a piedade, no sem uma mistura de desprezo. Baixando ento o seu soberbo capacete, entrou nesta cabana, cujo
tecto quase poderia ser tocado pela sua fronte.
O mobilirio era constitudo por dois leitos: um, composto de folhas secas cobertas com a pele de um antlope, no estava ocupado; mas, pelas diferentes armas de
prata colocadas com cuidado e respeito por cima da cabeceira, julgava-se que devia ser a do cavaleiro. Sobre a outra estava estendido o doente de que Sir Kenneth
tinha falado. Era um homem robusto, de feies salientes e que parecia ser de meia-idade. O seu leito parecia ser um pouco melhor do que o do seu senhor. Era evidente
que Sir Kenneth tinha usado, para tornar mais cmoda a situao do seu escudeiro, o grande manto e as vestes que os cavaleiros traziam quando no estavam revestidos
das suas armas.
A cabana estava dividida em duas partes; na primeira, onde o baro entrou, um rapaz usando botas de pele de gamo, um bon azul e um gibo, cuja antiga elegncia
estava muito manchada, estava agachado diante de um fogareiro cheio de carvo no qual fazia cozer, sobre uma placa de ferro, os bolos de farinha de cevada, que eram
e so ainda hoje a alimentao favorita dos Escoceses 1. Um quarto de antlope, estava suspenso a um dos principais pilares que sustinham a cabana, e no era difcil
adivinhar como aquele que ali habitava tinha arranjado esta carne, porque um grande galgo, mais belo ainda do que os que estavam no pavilho do rei Ricardo, estava
estendido perto do fogareiro e parecia observar os progressos da cozedura dos bolos. Quando os dois cavaleiros chegaram, o nobre animal rosnou entre dentes, mas
logo que viu o dono reconheceu a sua presena e abanando a cauda baixou a cabea; absteve-se porm de qualquer ruidosa demonstrao de alegria, como se um instinto
1 The land of cakes  ainda a designao da Esccia (epgrafe dos "Contos do meu Hospedeiro.").
91
inteligente lhe tivesse ensinado que era necessrio guardar silncio perto do quarto de um doente.
Perto do leito do escudeiro, sobre uma almofada composta tambm de peles de animais, o mdico mouro, de que Sir Kenneth tinha falado, estava sentado sobre as pernas
cruzadas  maneira dos orientais. A escassa luz que penetrava na cabana fazia com que dele s se pudesse distinguir a parte inferior do rosto, coberto de uma longa
barba negra que lhe caa sobre o peito, e dois olhos penetrantes, que brilhavam com um fulgor desusado.
O lorde ingls guardou silncio, tocado por uma espcie de respeito, porque, apesar do seu carcter geralmente sombrio, a cena de um infortnio e de uma pobreza
suportados com firmeza, sem queixas nem murmrios, teria, em todas as circunstncias, impressionado mais Thomas de Vaux que todo o esplendor do quarto de um rei,
a menos que este quarto fosse o do rei Ricardo. Durante alguns minutos no se ouviu seno a respirao forte e regular do doente, que parecia gozar de um profundo
repouso.
- H seis dias que no pregava olho - disse Sir Kenneth conforme me assegurou o rapaz que o acompanha.
- Nobre escocs - disse Thomas de Vaux, agarrando a mo de Kenneth e apertando-a com uma cordialidade que as palavras no lhe permitiam exprimir -, este estado de
coisas no pode continuar; o vosso escudeiro no est nem suficientemente alimentado, nem convenientemente tratado.
Ao pronunciar estas ltimas palavras, a sua voz tinha retomado o tom alto e decidido que lhe era habitual. O sono do doente foi por isso perturbado:
- Meu nobre senhor, Sir Kenneth - dizia o pobre escudeiro falando como num sonho - as guas do Clyde no vos parecem como a mim, puras e refrescantes depois das
nascentes salobras da Palestina?
- Sonha com o seu pas natal e  feliz nos seus sonhos - disse Sir Kenneth a lorde de Vaux, a meia voz.
Mas mal tinha pronunciado estas palavras, quando o mdico, deixando o lugar que tinha tomado perto do leito do doente e colocando docemente sobre o leito o brao
que segurava para seguir os movimentos do pulso, avanou para os dois cavaleiros, fez-lhes sinal
92
para guardar silncio e, tomando-os cada um pela mo, conduziu-os para fora da cabana:
- Em nome de Issa ben Mariam, que honramos como vs disse-lhes - embora no com a mesma cega superstio, no perturbem o efeito da poo que lhe fiz tomar. O despertar
neste momento significaria para ele a morte ou a perda da razo; mas  hora da orao da tarde podero voltar e, se ele ficar tranquilo at a prometo-vos que este
soldado franco estar em estado de conversar convosco sobre todos os assuntos de que tendes de falar com ele, os dois, e sobretudo o seu senhor.
Os dois cavaleiros retiraram-se, cedendo ao tom de autoridade deste sbio, que parecia penetrado da verdade do provrbio oriental que diz: o quarto do doente  o
reino do mdico.
Pararam os dois alguns instantes  porta da cabana; Kenneth, como se esperasse que aquele de quem acabara de receber a visita lhe fizesse os seus adeuses; de Vaux,
como se tivesse o esprito ocupado por qualquer ideia que o impedia de lhos fazer. O co, que os tinha seguido, empurrava a mo do dono com o seu comprido focinho,
como para lhe pedir, modestamente, algum gesto de afeio. Assim que obteve o que desejava, sob a forma de uma palavra ou de um gesto carinhoso, logo partiu como
um relmpago para mostrar a sua alegria pelo seu regresso e o seu reconhecimento pela sua bondade, correndo a galope, a cauda levantada, indo, vindo, descrevendo
crculos mas no saindo nunca do recinto que o seu instinto lhe fazia conhecer como estando protegido pelo estandarte do dono. Depois de ter saltado deste modo alguns
instantes, voltou para perto de Sir Kenneth, abandonou de sbito o seu ar de alegria e retomou a gravidade habitual, como se estivesse envergonhado de se ter deixado
arrastar para fora dos limites da moderao.
Os dois cavaleiros olhavam-no com prazer, porque Sir Kenneth estava orgulhoso, e com razo, deste nobre animal, e o baro ingls, que amava a caa, era excelente
juiz do mrito de um co:
- Eis um soberbo animal; creio, belo sir, que o prprio rei Ricardo no tem um alo que lhe seja comparvel, se ele for to hbil na caa como alerta na corrida.
Mas permite-me perguntar-te, sem mteno de ofender, se no conheces a proclamao que probe quem quer que seja, abaixo do grau de conde, de guardar ces de caa
no
93
campo do rei Ricardo, a menos de ter obtido a permisso de Sua Majestade. No creio, Sir Kenneth, que ela vos tenha sido concedida. Estou-vos a falar como mestre
da cavalaria.
- E eu respondo-vos como homem livre e como cavaleiro escocs - replicou Kenneth com altivez. - Sirvo neste momento sob a bandeira de Inglaterra, mas no me recordo
de alguma vez me ter sujeitado ao seu cdigo florestal. Quando a trombeta chama s armas, ponho p no estribo to prontamente como outro qualquer; quando soa para
o ataque, a minha lana no  a ltima a ficar em riste; mas durante as minhas horas de mao e de liberdade, o rei Ricardo no tem o direito de me perturbar nas
minhas diverses.
- Contudo  uma loucura desobedecer s ordens do rei - disse lorde de Vaux. - Assim pois, salvo o vosso bom prazer, e estando este assunto nas minhas atribuies,
vou-vos enviar uma proteco para este meu amigo.
- Agradeo-vos, respondeu o escocs num tom glacial. - Mas ele conhece o terreno que me foi consignado, e nestes limites posso proteg-lo eu prprio. No entanto,
 responder bem friamente a uma amvel oferta. Agradeo-vos de todo o corao, milorde. Os escudeiros e os picadores do rei poderiam encontrar Roswall num momento
infeliz e pregar-lhe uma m partida que eu no demoraria muito a castigar e da poderiam resultar aborrecidas consequncias. Pois que, visto o interior do meu pavilho,
milorde, posso-vos dizer, sem corar, que Roswall  o meu principal fornecedor de caa e espero que o nosso leo Ricardo no ser como o leo da fbula do menestrel,
que ia  caa e aguardava s para ele todas as presas. No acredito que ele recusasse a um pobre gentil-homem uma hora de recreio e uma pea de caa, sobretudo quando
lhe  bastante difcil arranjar outro alimento.
- Por minha f - disse o baro - no fazes seno prestar justia ao rei; e contudo h nesta palavra "caa" algo que parece pr a cabea  roda aos nossos prncipes
normandos.
- Soubemos h pouco, por menestris e peregrinos - disse o escocs - que numerosos bandos de proscritos se organizaram nos comandos de York e de Nottinghan, e que
tomaram por chefe um audacioso arqueiro chamado Robin Hood, cujo lugar-tenente se chama Joo Pequeno. Parece-me que Ricardo agiria prudentemente
94
afrouxando o rigor do seu cdigo florestal em Inglaterra, em vez de procurar faz-lo executar na Terra Santa.
- M tarefa, Sir Kenneth - replicou de Vaux. - O mundo  louco, sir cavaleiro. Mas  preciso que vos diga adeus e regresse ao pavilho do rei.  hora de vsperas
regressarei para vos fazer uma segunda visita e conversar com o mdico infiel. Entretanto, sem vos querer ofender, gostaria de vos enviar algumas provises para
melhorar a vossa usual comida.
- Agradeo-vos, milorde - disse Sir Kenneth. - Mas no tenho necessidade: Roswall j guarneceu a minha despensa para quinze dias; porque, se o sol da Palestina nos
envia a doena, ao menos presta-nos um servio secando a carne de caa.
Os dois guerreiros separaram-se muito melhores amigos do que se tinham encontrado; mas, antes de se retirar, Thomas de Vaux soube em mais pormenor todas as circunstncias
relativas  misso do mdico mouro e recebeu do cavaleiro escocs as cartas de apresentao de que Saladino o tinha encarregado.
95

CAPITULO VIII
- Um mdico sbio, capaz de curar
Os males que os mortais esto destinados a sofrer.
Vaie um exrcito inteiro.
HOMERO
-  uma estranha histria, Thomas - disse o monarca doente depois de ter ouvido o relato do fiel baro de Gilsland. - Tens a certeza que esse escocs  um homem
em que nos podemos fiar?
- No sei bem que dizer, sir - respondeu o lorde - estou demasiado vizinho dos Escoceses para ter muita confiana neles, tendo-os sempre achado mais manhosos do
que francos. Mas a figura deste homem, fosse ele to diabo como escocs, respira a boa f.  um testemunho que lhe devo prestar, em conscincia.
- E a sua conduta como cavaleiro, que dizes tu dela, de Vaux?
- A Vossa Majestade compete julgar melhor do que a mim; e garanto-vos que reparastes na maneira como se comporta este Cavaleiro do Leopardo. Muito se falou nisso.
- E com justia, Thomas. Ns prprios fomos disso testemunhas. Porque nos colocamos sempre ns na primeira fila em dias de batalha?  para ver como se comportam
os nossos sbditos e os nossos companheiros, e no pelo desejo de monopolizar para ns uma glria v, como muita gente supe. Conhecemos a futilidade uos elogios
dos homens e no  para os obter que envergamos a nossa armadura.
97
De Vaux ficou alarmado quando ouviu o rei fazer uma declarao to pouco adequada ao seu carcter, e julgou ao princpio que no podia ser seno a proximidade da
morte que o podia levar a falar em termos to desdenhosos do renome militar.
Mas, recordando-se que tinha encontrado o confessor de Ricardo na parte do pavilho que servia de antecmara, atribuiu esta humildade ao efeito das ligaes dessa
reverenda personagem, e deixou falar o monarca, sem lhe responder.
- Sim, sem dvida - acrescentou Ricardo - que reparei na maneira como esse cavaleiro cumpre o seu dever no combate. O meu basto de comando no valeria o de um bobo
se no tivssemos tambm notado nele uma presuno insolente e audaciosa.
- Sir - disse o baro de Gilslande, vendo o rei mudar de disposio - receio ter-me exposto ao desagrado de Vossa Magestade servindo-lhe de apoio nas suas transgresses.
- Que queres dizer, Multon? - disse Ricardo franzindo o sobrolho e num tom de surpresa e clera. - Tu servirias de apoio a uma insolncia! Impossvel!
- Vossa Majestade perdoar-me- se lhe lembro que o meu lugar me d o direito de conceder aos homens de bom nascimento a permisso de conservar no acampamento um
ou dois ces de caa, unicamente para manter a bela arte venatria, alis seria um pecado matar ou ferir um galgo to nobre como o deste cavaleiro.
-  ento um animal muito belo?
- A criatura mais perfeita que existe sob o cu, sir - respondeu o baro, entusiasta por tudo o que respeitasse  caa. -  um co de caa da mais bela raa do Norte,
o peito largo, a garupa vigorosa, o plo negro sem uma mancha branca, mas com riscas cinzentas sobre o peito e as pernas, de uma fora capaz de derrubar um touro,
de uma agilidade que ultrapassa a do antlope.
O rei sorriu do seu entusiasmo:
- Pois bem - disse ele - permitiste-lhe guardar o seu co e  assunto encerrado. Todavia no sejas to prdigo nas tuas permisses com estes cavaleiros aventureiros
que no tm nem prncipe nem chefe sobre quem possam contar. So ingovernveis e no deixaro caa na Palestina. Mas voltemos a esse sbio pago. No dizes tu que
o escocs o encontrou no deserto?
98
- No, sir. Eis aqui a histria do escocs: ele tinha sido encarregado de uma misso para o velho ermita d'Engaddi, de quem se fala tanto e...
- Morte e inferno! - exclamou Ricardo, estremecendo. - Que misso era essa? Quem lha deu? Quem ousou enviar algum ao convento d'Engaddi, quando a rainha a anda
em peregrinao para obter do Cu a nossa cura?
- Foi o Conselho dos cruzados quem o enviou, sir. Quanto ao assunto, disso no me quis ele informar. Creio que quase no se sabe no acampamento que a rainha anda
em peregrinao; eu, pelo menos, ainda ontem o ignorava: e os prncipes podem ter partilhado da mesma ignorncia, visto que a rainha no quis ver ningum depois
da vossa afeio lhe ter interdito vir para junto de vs, com medo do contgio.
- Muito bem;  o que iremos saber. E assim pois esse escocs, esse enviado, encontrou um mdico errante na gruta d'Engaddi.
- No, sir; mas foi perto da, creio eu, que encontrou um emir sarraceno, que combateu para pr  prova o seu valor e, tendo-o achado digno de estar em companhia
de um bravo cavaleiro, dirigiram-se juntos, como cavaleiros errantes,  gruta d'Engaddi.
Aqui de Vaux retomou flego, porque ele no era das pessoas que conseguem contar uma longa histria numa s frase.
- E encontraram a o mdico? - perguntou o rei, com impacincia.
- No, sir; mas o sarraceno, quando soube da incmoda doena de Vossa Majestade, declarou que Saladino vos iria enviar o seu mdico e vos daria toda a garantia da
sua eminente sabedoria. Em Consequncia, o mdico dirigiu-"  gruta em que o escocs esteve  espera um dia ou dois. Tem um squito semelhante ao que poderia ter
um prncipe, trombetas, timbales, escravos a p e a cavalo, e traz uma carta de crdito de Saladino.
- Ela foi examinada por Giacomo Loredani?
- Mostrei-a ao intrprete antes de a trazer aqui e eis a traduo em ingls.
Ricardo pegou num pergaminho que lorde de Vaux lhe apresentou e, tendo-lhe deitado uma vista de olhos, entregou-lho de novo Para que o lesse. Continha o seguinte:
"Em nome de Allah e de Maom, seu Profeta."
99
- Para o diabo o co! - disse Ricardo cuspindo desdenhosamente e  laia de interjeio.
"Saladino, rei dos reis, sulto do Egipto e da Sria, luz e refgio da Terra, ao grande Melec Ric, Ricardo de Inglaterra, salve.
"Visto termos sido informados que a mo da doena se abateu sobre ti, nosso real irmo, e que no tens junto de ti seno mdicos nazarenos e judeus, que trabalham
sem a bno de Allah e do nosso santo Profeta..."
- Que a confuso caia sobre a sua cabea! - murmurou Ricardo, interrompendo a leitura uma segunda vez.
"Enviamos-te para te tratar neste momento o mdico da nossa pessoa, Adonebec El Hakim, diante da face do qual o anjo Azral 1 abre as suas asas e abandona o quarto
do doente; ele conhece todas as virtudes das ervas e das pedras, o caminho do Sol, da Lua e das estrelas, e pode salvar o homem de tudo o que no est escrito sobre
a sua fronte. Fazemos isto pedindo-te cordialmente para honrar a sua cincia e te servires dela, no somente porque desejamos prestar servio ao teu mrito e ao
teu valor, que  a glria de todas as naes do Frangisto 2, mas ainda para que possamos pr fim  querela que agora existe entre ns, seja por um tratado honroso,
seja medindo as nossas armas em campo raso; visto que no convm nem  tua condio nem  tua coragem morrer da morte de um escravo esgotado por um trabalho excessivo;
e que no convm  nossa reputao que um inimigo to bravo seja subtrado s nossas armas pela doena. E  porque possa o santo pr..."
- Basta! basta! - exclamou Ricardo. - Que no oua mais o nome do seu co de profeta! Tenho nuseas quando penso que o valente e digno sulto acredita num co morto.
Sim, verei o seu mdico; corresponderei  generosidade do nobre pago: encontr-lo-ei sobre o campo da batalha como ele corajosamente prope e no ter ocasio de
acusar de ingratido Ricardo de Inglaterra.
1 () anjo da morto.
2 A Huropu
100
"Derrub-lo-ei com a minha maa-de-armas; convert-lo-ei  Santa Igreja, enchendo-o de pancadas como raramente antes recebeu; abjurar dos seus erros diante da cruz
que forma o punho da minha boa espada, e f-lo-ei baptizar no campo da batalha. O meu prprio capacete servir para conter a gua purificante, mesmo que ele devesse
ficar tinto com o seu sangue e o meu. Apressa-te pois, Thomas Multon; porque tardas tu em acelerar um desenlace to agradvel? Traz-me esse El Hakim!
- Sir - respondeu Vaux - pensai que  um pago, que vs sois o mais formidvel inimigo dessa gente!
-  por essa razo que ele deve ser mais levado a prestar-me servio neste momento, com medo de que seja uma miservel febre que ponha fim  querela de dois reis
como ns. Digo-te que ele me ama como eu o amo, como nobres inimigos se amam sempre. Sobre a minha honra, seria pecar, duvidar da sua boa-f.
- No entanto, sir, valeria mais esperar o resultado dos cuidados que ele presta ao escudeiro do escocs. A minha vida depende disto; porque merecia morrer da morte
de um co se, agindo inconsideradamente neste assunto, fosse causar o naufrgio de todas as esperanas da cristandade.
- Nunca vi o receio da morte fazer-te hesitar assim - disse Ricardo, num tom de censura.
- E no hesitaria ainda, sir, se no se tratasse tanto da vossa v'ida como da minha.
- Pois bem, homem desconfiado, vai ver que progressos faz a cura desse escudeiro. Quase quereria que esse mdico me matasse se no me pode curar, pois estou farto
de estar estendido aqui como um boi morrendo de uma epidemia, quando ouo os tambores bater,
oscavalos relinchar e as trombetas soar.
O baro partiu  pressa, resolvido contudo a comunicar a sua misso a um eclesistico qualquer; porque sentia um certo peso na SUa conscincia com a ideia de ver
um infiel prestar cuidados ao seu senhor.
O arcebispo de Tyr foi aquele a quem primeiramente confiou as
suas dvidas, conhecendo o crdito que ele tinha sobre o esprito do
seu amo Ricardo, que amava e honrava este prelado cheio de sagacidade. O arcebispo escutou as dvidas que de Vaux lhe exps, com
101
essa finura que distingue o clero catlico romano. Tratou os escrpulos religiosos do cavaleiro com tanta ligeireza quanto as convenincias lhe permitiam mostrar
diante de um leigo sobre semelhante assunto:
- Os mdicos - disse ele - podem ser teis mesmo que fossem, pelo seu nascimento e as suas maneiras, os ltimos dos homens, do mesmo modo que os remdios que empregam
nos podem aliviar, embora eles sejam muitas vezes extrados das mais vis matrias. Alis, no h qualquer dvida que os primeiros cristos tivessem utilizado a ajuda
de pagos no convertidos; assim, no navio no qual o bem-aventurado apstolo So Paulo se fez ao largo para Itlia, os marinheiros eram incontestavelmente pagos;
e, no entanto, o que disse o santo, quando teve preciso do seu ministrio? Nisi hi in navi manserint, vos salvi fieri non potestis. (A menos que eles fiquem no
edifcio, no podeis ser salvos). Alis, os Judeus so infiis ao cristianismo tanto como os Muulmanos; contudo, h no acampamento muito poucos mdicos que no
sejam judeus e servimo-nos deles sem escndalo e sem escrpulos. PODEMOS POIS, IGUALMENTE, SERVIR-NOS DOS MAOMETANOS: quod erat demonstrandum 1.
Este raciocnio no deixou quaisquer dvidas no esprito de Thomas de Vaux sobre quem as citaes latinas fizeram particularmente impresso visto que no compreendia
uma s palavra.
Mas o prelado no se pronunciou com a mesma prontido quando foi questo de saber se no havia motivo para recear qualquer traio da parte dos sarracenos, e no
discutiu esta questo com a mesma volubilidade. O baro mostrou-lhe a carta de fiana; ele leu-a, releu-a, e comparou o original com a traduo:
-  um guisado bem preparado para lisonjear o paladar do rei Ricardo - disse ele - e no posso afastar inteiramente as suspeitas que me inspiram estes manhosos sarracenos.
So versados no conhecimento dos venenos e sabem prepar-los de maneira a que no
1 Eis o que querias saber.
102
produzam o seu efeito seno ao cabo de vrias semanas, de modo que aquele que os administrou tem tempo de escapar ao castigo. Podem impregnar com o veneno mais subtil,
o pano, o couro, e at mesmo o papel e o pergaminho. Que Nossa Senhora me perdoe! E porqu pois, sabendo isso, guardei eu tanto tempo esta carta entre as minhas
mos? Tome-a, Sir Thomas, tome-a depressa.
Estendeu o brao  pressa para a devolver ao baro e acrescentou: "Vamos, milorde, dirijamo-nos para a tenda desse escudeiro doente e vejamos se esse Hakim possui
realmente a arte de curar como pretende. Examinaremos seguidamente se convm permitir-lhe exercer a sua arte sobre o rei Ricardo. Um instante, porm; dai-me tempo
para ir buscar a minha caixa de aromas, porque estas febres so contgios. Aconselhar-vos-ia, milorde, a servir-vos de rosmaninho seco embebido em vinagre. Eu tambm
sei alguma coisa da arte de curar.
- Agradeo a Vossa Reverncia - respondeu Thomas de Gilsland; mas h j muito que teria apanhado o contgio perto do leito do meu amo, se a isso fosse susceptvel.
O arcebispo de Tyr corou, porque tinha evitado, tanto quanto possvel, de se encontrar em presena do monarca depois de este estar doente. Disse ao baro para lhe
mostrar o caminho e em breve chegaram  porta da miservel cabana que servia de pavilho ao Cavaleiro do Leopardo:
-  bem certo, milorde - disse o prelado a de Vaux - que estes escoceses tm menos ateno para com os seus servidores do que ns temos para os nossos ces. Eis
um cavaleiro que , segundo dizem, de uma bravura a toda a prova e que com o tempo merece ser elevado aos mais altos cargos. Pois bem, ele coloca o seu escudeiro
num alojamento que no vale o pior canil de Inglaterra. Que dizeis dos vossos vizinhos, milorde?
- Que um amo faz o bastante pelo seu servidor quando o aloja to bem quanto ele - respondeu de Vaux, entrando na cabana.
O arcebispo seguiu-o, no sem uma visvel repugnncia; porque, embora no lhe faltasse a coragem, associava-a a um cuidado especial com a sua segurana. No entanto,
entrou na cabana com um ar de majestade prprio, como julgava, a inspirar respeito ao sbio estrangeiro.
103
O prelado tinha realmente uma figura imponente; tinha sido, na sua juventude, um dos mais belos homens do seu tempo, e mesmo numa idade avanada no ficava aborrecido
por o parecer ainda. As suas vestes episcopais eram da maior riqueza, guarnecidas com as mais preciosas peles, e recobertas de rendas magnficas. A sua comprida
barba, prateada pela idade, descia para o peito. Um dos dois jovens aclitos que o seguiam proporcionava-lhe uma sombra artificial, segundo o costume do Oriente,
cobrindo-lhe a cabea com um guarda-sol de folha de palmeira, e o outro refrescava-o agitando um leque de plumas de pavo.
Quando o arcebispo de Tyr entrou na cabana, o cavaleiro escocs no se encontrava a. O mdico mouro, que ele vinha ver, estava sentado, com as pernas cruzadas sobre
uma esteira de folhas entrelaadas, na mesma atitude em que de Vaux o encontrara algumas horas antes, ao lado do leito do doente a quem ele apalpava o pulso de tempos
a tempos: o prelado ficou em p diante dele, em silncio, durante dois ou trs minutos, esperando que ele o saudasse com respeito e esperando ao menos deslumbr-lo
com o brilho da sua dignidade. Mas Adonebec no lhe concedeu outro cunho de ateno seno a de lhe lanar um olhar de raspo; e, quando o arcebispo finalmente o
saudou em lngua franca, meio de comunicao usual em todo o Oriente, o mdico limitou-se a responder-lhe com a saudao usual dos Orientais:
- Saiam aicum. Que a paz seja convosco!
- s mdico, infiel? - perguntou-lhe o prelado, um pouco mortificado com to frio acolhimento: - Gostaria de conversar contigo acerca da tua arte.
- Se conheces alguma coisa de medicina - respondeu El Hakim
- deverias saber que os mdicos no entram em consulta nem em discusses no quarto do seu doente. Escuta - acrescentou ele, ao ouvir o co rosnar surdamente na diviso
exterior da cabana - at este animal te poderia dar uma lio de prudncia. Ulema, o seu instinto ensina-lhe a ladrar baixinho se um doente o pode ouvir. Sai da
tenda, se tens alguma coisa a dizer-me.
A estas palavras levantou-se e ele prprio se disps a deixar a tenda.
Apesar da simplicidade do traje do mdico mouro e da inferioridade
104
da sua estatura, que contrastava com a do majestoso prelado e com a estatura gigantesca do baro ingls, havia nas suas maneiras e no seu porte algo que impediu
o arcebispo de Tyr de exprimir todo o descontentamento que este acolhimento pouco cerimonioso lhe causava. Quando saram da cabana, olhou Adonebec em silncio durante
alguns instantes, no sabendo bem como reatar a conversa. Nem uma s madeixa de cabelo se escapava do bon que o mouro usava, cuja fronte parecia ampla e elevada,
da mesma maneira que a parte das suas faces que no estava sombreada por uma barba espessa no mostrava uma nica ruga. J falmos dos seus olhos negros e penetrantes.
O prelado, impressionado pelo ar de juventude de Adonebec, rompeu por fim uma longa pausa que o mouro no parecia apressado em interromper, perguntando-lhe que idade
tinha:
- Os anos dos homens vulgares - respondeu El Hakim contam-se pelas suas rugas, os dos sbios pelos seus estudos. No ouso dizer-me mais idoso do que mais de cem
revolues da Hgira 1.
O baro de Gilsland, que tomou estas palavras como uma declarao formal feita pelo mdico de que era centenrio, lanou um olhar inquieto ao prelado que, embora
compreendesse melhor o que El Hakim queria dizer, lhe respondeu sacudindo a cabea com um ar de mistrio. Retomou seguidamente o seu tom importante, e perguntou
a Adonebec que prova lhe podia dar dos seus talentos em medicina:
- Tens a palavra do poderoso Saladino - respondeu o sbio, levando a mo ao seu turbante, em sinal de respeito - palavra  qual ele jamais faltou, nem para com os
seus inimigos. Que podes tu exigir mais, nazareno?
- Gostaria de uma prova visvel da tua cincia - disse o baro.
- Sem isso no te aproximars do leito do rei Ricardo.
- A prova dos talentos do mdico - respondeu El Hakim -  a
1 Querendo dizer que no possua seno os talentos que se poderiam ter adquirido em cem anos.
105
cura do doente. Olha para este soldado, cujo sangue secou com a febre que cobriu o vosso acampamento de ossos esbranquiados, e contra a qual a arte dos vossos mdicos
nazarenos no foi seno a que seria um gibo de seda contra uma lamina de ao, olha para os seus dedos e para os seus braos descarnados. Esta manh a morte tinha
a mo sobre ele; mas Azral estava de um lado do seu leito, eu estava do outro, e a sua alma no ser separada do seu corpo. No me perturbeis mais com outras perguntas;
mas esperai pelo instante crtico e admirai em silncio o acontecimento maravilhoso.
O mdico recorreu ento ao seu astrolbio, o orculo da cincia no Oriente e, tendo esperado com grave preciso que o momento da prece da tarde chegasse, ps-se
de joelhos, com o rosto virado para o lado de Meca, e recitou as oraes pelas quais o Muulmano termina os trabalhos do dia. O arcebispo e o baro ingls olhavam-no
com um ar de desprezo e de indignao; mas nem um nem outro julgaram prprio interromper El Hakim nos seus exerccios de devoo profana.
Finalmente, o mouro prosternado ergueu-se e, reentrando na cabana em que o seu doente estava estendido, tirou de uma pequena caixa de prata uma esponja, talvez embebida
em qualquer licor aromtico, porque quando o aproximou do nariz do escudeiro este espirrou, despertou e olhou  sua volta com um ar desnorteado Oferecia um espectculo
prprio para despertar a compaixo; os seus ossos e as suas cartilagens eram visveis atravs da pele, o seu rosto estava como que esticado e coberto de rugas. Contudo,
os seus olhos, que pareceram esgazeados ao princpio, em breve tomaram um ar mais calmo; pareceu aperceber-se da presena dos nobres senhores que estavam na cabana
e perguntou, numa voz fraca e respeitosa, onde estava o seu amo.
- Conheces-nos, vassalo? - disse-lhe lorde de Vaux.
- No precisamente - respondeu o escudeiro -, mas vejo pela vossa cruz vermelha que sois um grande baro ingls e creio que este outro senhor  um santo prelado
a quem peo a bno para um pobre pecador.
- T-la-s - disse o arcebispo: - Benedicto Domini sit tecum
- e abenoou-o, fazendo um sinal-da-cruz, mas sem se aproximar do leito.
106
Vem com os vossos prprios olhos - disse Adonebec - que
a febre foi subjugada. Ele fala calmamente; recupera a memria; o seu pulso est to tranquilo como o vosso. Assegurai-vos vs mesmo.
O arcebispo no se preocupou em fazer estas experincias; mas Thomas de Gilsland, mais resoluto, pegou no brao do doente, apalpou-lhe o pulso e convenceu-se de
que ele j no tinha febre.
-  verdadeiramente maravilhoso - disse o cavaleiro olhando para o prelado. - Este homem est curado.  necessrio que conduza imediatamente este mdico  tenda
do rei Ricardo. Que pensa Vossa Reverncia?
- Um momento - disse El Hakim - deixa-me acabar uma cura antes de comear outra. Acompanhar-vos-ei quando tiver dado ao meu doente uma segunda dose deste santo elixir.
A estas palavras, pegou numa taa de prata e encheu-a com uma gua que tirou de uma cabaa colocada perto do leito. Pegando seguidamente num pequeno saco formado
de malhas estreitas de seda e de prata, de maneira a que o olhar dos espectadores no pudesse descobrir o que ele continha, mergulhou-o na taa e deixou-o a cinco
minutos durante os quais guardou silncio. Durante esta operao, o baro julgou observar na gua um movimento de efervescncia, mas, se teve lugar, no durou seno
um instante.
- Beba isto - disse o mdico ao doente -, durma em seguida e ficar curado ao acordar.
- E  com uma beberagem aparentemente simples que pretendes curar um monarca? - disse o arcebispo de Tyr.
- Vs que ela curou um mendigo - respondeu o sbio. - Sero os reis feitos de uma outra argila no Frangisto?
- Conduzamo-lo imediatamente para junto do rei - disse o baro de Giesland. - Ele provou que possui o segredo que lhe pode restituir a sade. Se no fizer uso dele,
trat-lo-ei de maneira a que todos os segredos da medicina se lhe tornem inteis.
Quando iam a sair da cabana, o doente, elevando a voz tanto quanto a sua franqueza lho permitia, exclamou:
"Reverendo prelado, nobre cavaleiro, e vs, digno mdico, se Quereis que recupere o sono e a sade, dizei-me por caridade o que  feito do meu querido amo.
107
- Anda em viagem, amigo - respondeu o prelado - encarregado de uma misso honrosa que o pode reter ainda alguns dias.
- Porqu enganar este pobre diabo? - disse o baro de Gilsland.
- Amigo, o teu amo est de regresso ao acampamento e no tardars a v-lo.
O doente levantou ao Cu os seus braos emagrecidos, como para lhe agradecer e, no resistindo mais  virtude narctica de beberagem que acabara de tomar, adormeceu
num sono sossegado.
- Sois melhor mdico que eu, Sir Thomas - disse o arcebispo
- uma mentira calmante convm melhor ao quarto de um doente do que uma verdade desagradvel.
- Que quer Vossa Reverncia dizer? - perguntou de Vaux. com vivacidade. Julgais que diria uma mentira para salvar a vida du uma dzia de semelhantes seres?
- Disseste - respondeu o prelado com manifestos sinais de alarme - que o amo deste escudeiro estava de regresso, o Cavaleiro do Leopardo, quero dizer.
- Ele est efectivamente de regresso - disse de Vaux - ainda h poucas horas lhe falei. Este sbio mdico veio com ele.
- Santa Virgem! - exclamou o arcebispo com evidente perturbao - e porque no me disseste que ele tinha regressado?
- No vos disse que foi o Cavaleiro do Leopardo que trouxe aqui o mdico? Julgava ter-vos dito - respondeu de Vaux com um ar despreocupado. - Mas que importa isso?
O seu regresso no tem nada em comum com a cincia deste mdico nem com a sade de Sua Majestade.
- O seu regresso  importante, Sir Thomas, muito importante disse o arcebispo juntando as mos. -Mas aonde pode ter ido agora este cavaleiro? Que o Cu nos proteja!
Pode haver aqui algum mal-entendido fatal.
- Este jovem servo que est no primeiro compartimento - disse de Vaux, no sem ficar surpreendido com a emoo do prelado poder talvez dizer-nos o que  feito do
seu amo.
Chamou o rapaz de que j falmos e este, numa linguagem quase ininteligvel, conseguiu contudo faz-lo compreender que um oficial tinha vindo buscar o seu amo da
parte do rei, alguns instantes antes
108
da chegada deles. A inquietao do arcebispo elevou-se ento ao mais alto grau e tornou-se evidente para de Vaux, embora ele no fosse nem bom observador nem de
carcter desconfiado.
Despediu-se  pressa do cavaleiro que, olhando-o com espanto enquanto ele se afastava e erguendo os ombros em silncio, conduziu o mdico mouro  tenda do rei Ricardo.
109

CAPITULO IX
"A suspeita  uma pesada armadura.
Cujo peso esmagador, muito longe de proteger
Para aquele que a traz,  um novo perigo."
LORD BYRON
O baro de Gilsland marchava a passos lentos e com a inquietao pintada no rosto, para se dirigir ao pavilho do rei. Desconfiava ele prprio da sua capacidade
e sabendo que no tinha a inteligncia muito viva, contentava-se geralmente em ficar surpreendido com as circunstncias. Era, no entanto, uma coisa muito extraordinria,
mesmo para ele, que o arcebispo, perdesse de vista repentinamente a cura maravilhosa de que acabavam de ser testemunhas e a esperana que ela parecia dar de que
Ricardo poderia recuperar a sade, para no se ocupar seno da insignificante notcia do regresso de um pobre cavaleiro. E, apesar do hbito que havia contrado
no seu esprito de Permanecer passivo no meio dos acontecimentos, a imaginao do
baro fazia esforos extraordinrios para formar conjecturas sobre a verdadeira causa deste fenmeno. A ideia que finalmente se lhe apresentou foi que isto podia
ser o resultado de uma conspirao contra o rei Ricardo, formada no acampamento dos aliados, e na qual o arcebispo de Tyr, que muitas
pessoas olhavam como um poltico pouco escrupuloso, podia muito bem ter tomado parte. Era verdade que, em sua opinio, no existia
ningum que fosse to perfeito como o seu amo, mas sabia, no entanto,
111
que, sem o ter de qualquer modo merecido, o seu amo tinha sido sempre o objecto das censuras e da malevolncia tanto como dos elogios e da afeio e que, at no
campo dos cristos, no meio dos prncipes dedicados  cruzada por um voto solene, vrios teriam de boa vontade sacrificado toda a esperana da vitria pelo prazer
de perder, ou pelo menos, de humilhar Ricardo de Inglaterra.
"No  pois de maneira nenhuma impossvel - dizia para consigo o baro - que este El Hakim, com a sua cura verdadeira ou fingida, operada num escudeiro escocs,
e o prprio Cavaleiro do Leopardo, no sejam seno os cmplices de uma maquinao na qual o arcebispo de Tyr, por muito prelado que seja, poderia ter tomado parte."
Esta hiptese, na verdade, no se podia conciliar facilmente com o alarme que o prelado tinha mostrado ao saber que contra a sua expectativa, o cavaleiro escocs
estava j de regresso ao campo dos cruzados; mas de Vaux no se deixava influenciar seno pelos seus generosos preconceitos, e eles levavam-no a considerar como
certo que um padre italiano intrigante, um escocs de corao falso e um mdico pago, eram uma associao de que se podia extrair todo o mal possvel, mais do que
algo de bom. Resolveu, portanto, dar parte das suas dvidas a Ricardo, pois que tinha uma opinio quase to elevada do seu critrio como do seu valor.
Contudo, tinham-se passado entretanto acontecimentos absolutamente contrrios s suposies que Thomas de Vaux acabara de fazer. Mal ele havia abandonado o pavilho
do rei, logo Ricardo, quer como consequncia de uma agitao febril quer entregando-se  impacincia que lhe era natural, comeou a murmurar contra a demora que
ele punha em regressar. Tinha o suficiente bom-senso para tentar acalmar pela razo uma impacincia que no fazia seno aumentar a doena, mas foi em vo que recorreu
ao brevirio do padre, ao romance do letrado e  harpa do seu menestrel favorito. Finalmente, cerca de duas horas antes do pr do Sol e, consequentemente, muito
antes de poder esperar um relato satisfatrio da cura que o mdico mouro tinha empreendido, enviou, como sabemos j' um dos seus oficiais levar ao Cavaleiro do Leopardo
ordem para se dirigir imediatamente  sua presena, esperando acalmar a sua impacincia fazendo-se dar por Sir Kenneth detalhes mais extensivos
112
sobre a causa da sua ausncia do acampamento e sobre o seu encontro com o clebre mdico. O cavaleiro escocs, mandado assim  presena do rei,
apresentou-se como homem para quem semelhante honra no tem nada de estranho. Ricardo mal o conhecia de vista, embora, to cioso da sua condio como constante na
sua adorao pela dama dos seus secretos pensamentos, ele nunca estivesse ausente em qualquer das ocasies em que a munificncia e a hospitalidade de Inglaterra
abriam a corte do monarca a todos os que possuam um certo grau na cavalaria. Aproximou-se do leito do rei que tinha os olhos fixos nele, dobrou o joelho por um
momento, levantou-se, e permaneceu de p numa atitude conveniente a um oficial que est em presena do seu soberano, anunciando a deferncia e o respeito, mas no
(servilismo e a humildade:
- O teu nome  Kenneth do Leopardo - disse o rei. - De quem recebeste tu a ordem da cavalaria?
- Da espada de Guilherme, o Leo da Esccia
- respondeu o escocs.
-  uma arma bem digna de conferir essa honra - disse Ricardo - e o ombro que ela tocou no era indigno de a receber. Vimos-te comportar como valente cavaleiro na
luta e nos momentos mais crticos, e no deves ignorar que os teus servios nos eram conhecidos; mas a tua presuno noutros aspectos foi tal, que a maior recompensa
que te possam obter  o perdo da tua falta. Que dizes tu?
Kenneth tentou falar; mas no pde seno balbuciar algumas palavras. O sentimento do seu amor demasiado ambicioso, o olhar penetrante de Ricardo, que parecia querer
penetrar at aos mais secretos recnditos do seu corao, tudo se reuniu para o desconcertar:
- No entanto - acrescentou o rei - embora os soldados devam obedecer ao seu chefe e os vassalos respeitar o seu soberano, poderemos perdoar a um bravo cavaleiro
uma falta mais sria do que William Wallacc.
113
de guardar um co de caa, contra o teor das nossas ordens promulgadas.
Ricardo ao falar assim, continuava sempre com os olhos fixos sobre o cavaleiro, que ficou evidentemente aliviado pela forma como o rei acabara de dar uma acusao
concebida em termos to gerais. Isto no escapou a Corao de Leo, que sorriu interiormente:
- Salvo o vosso bom prazer, sir - disse Kenneth - Vossa Majestade, deve ter uma certa indulgncia para com estes pobres gentis-homens escoceses. Estamos muito longe
da nossa ptria; os nossos rendimentos so mdicos e no nos podemos manter como os vossos fidalgos que encontram crdito nos lombardos. Os sarracenos sentiro melhor
os nossos golpes se pudermos acrescentar, de tempos a tempos, um bocado de carne de caa aos nossos legumes e ao nosso po de farinha de cevada.
- No tens necessidade de me pedir licena, visto que Thomas de Vaux que, como todos os que me rodeiam, faz tudo o que lhe apetece, j te concedeu o direito de caar
o plo e a pluma.
- No a pluma, sir. Mas se aprouvesse a Vossa Majestade conceder-me tambm o privilgio da caa em voo e de me colocar um falco no punho, gabo-me de que poderia
fornecer alguns pssaros para a sua mesa real.
- Creio, que uma vez que tivesses o falco, terias dificuldade em esperar a permisso. Sei que dizem que ns, os prncipes da Casa d'Amou, ficamos to irritados
com uma contraveno ao nosso cdigo florestal como o ficaramos com um acto de alta traio contra a nossa Coroa; e, no entanto, podemos perdoar a primeira destas
faltas a pessoas valentes que disso nos paream dignas. Mas falemos de outra coisa. Desejo saber de vs, senhor cavaleiro, porqu e por ordem de quem fizestes recentemente
uma viagem no deserto.
- Por ordem do Conselho dos Prncipes da Santa Cruzada, sir.
- E como  que algum ousou dar semelhante ordem, quando eu, que no sou certamente o ltimo da liga, no estava disso informado?
-  uma pergunta que no me pertencia fazer, sir. Sou soldado da cruz servindo sem contestao, presentemente, sob o estandarte
114
de Vossa Majestade, e orgulhoso de ter obtido permisso para isso; mas tomei este smbolo sagrado para apoiar os direitos da cristandade e cooperar na libertao
do Santo Sepulcro, consequentemente sou obrigado a obedecer s ordens dos prncipes e dos chefes que dirigem esta santa empresa, sem ter o direito de lhes perguntar
os motivos. Devo lamentar, como toda a cristandade, que uma indisposio vos impea, momentaneamente, espero, de assistir aos vossos Conselhos, onde a vossa voz
 to poderosa; mas, como soldado, devo obedecer queles que possuem um direito legtimo para comandar, sem o que daria um mau exemplo a todo o acampamento.
- Tens razo; no  a ti que devemos censurar, mas queles a quem saberei pedir contas, quando aprouver a Deus fazer-me levantar deste maldito leito de inaco.
Qual era o objecto da tua mensagem?
-  uma pergunta, sir,que valeria mais dirigir queles que dela me encarregaram e que podem prestar contas dos motivos da minha viagem. Quanto a mim, no poderia
falar seno das circunstncias exteriores.
- No te ponhas com rodeios comigo, sir escocs - exclamou o monarca irascvel - se fazes algum caso da tua vida.
- A minha vida, sir - respondeu o cavaleiro, com firmeza considerei-a como uma coisa  qual no mais deveria prestar ateno, quando me devotei a esta gloriosa empresa
e desde logo me ocupei mais dos interesses da minha alma imortal do que do meu corpo perecvel.
Pela missa, s um bravo! - exclamou Ricardo. - Escuta-me.
Sr cavaleiro; gosto dos Escoceses; so intrpidos, embora cabeudos e teimosos, e julgo que no fundo so francos, embora razes do
Estado os tenham por vezes forado a dissimular. Mereo ter algum
lugar na sua afeio, porque fiz voluntariamente por eles o que no
lhe teriam podido arrancar pelas armas mais facilmente do que aos
meus predecessores. Reconstru as fortalezas de Roxburgh e de
crwick, que esto ligadas  Inglaterra; restabeleci os vossos antigos limites; procurei fazer amigos num pas em que os antigos reis de Inglaterra no tinham querido
seno sujeitar vassalos.
- Sim. sir, fizestes tudo isso como sequncia do tratado que
115
conclustes em Canterbury com o nosso soberano. E  por isso que me vedes aqui, com muitos outros escoceses valendo mais do que eu, para combater sob as vossas bandeiras
contra os infiis, enquanto sem isso estaramos neste momento ocupados a dizimar as vossas fronteiras em Inglaterra. Se o nmero dos meus compatriotas  agora pouco
considervel,  porque eles foram prdigos da sua vida.
- Concordo, mas, pelo preo dos servios que prestei ao vosso pas, peo-vos que vos recordeis que, como principal membro desta liga crist, tenho o direito de conhecer
as negociaes dos meus confederados. Dai-me pois o que me  devido, dizendo-me o que tenho o direito de saber e que estou certo que me direis com mais verdade do
que qualquer outro.
- Instado deste modo, sir, dir-vos-ei a verdade porque estou convencido que marchais para o fim da nossa empresa com intenes rectas e honrosas e isso  que no
ousaria dizer dos outros chefes da santa liga. Sabereis pois que a minha misso era de propor, pela interveno do ermita d'Engaddi, santo homem respeitado e protegido
pelo prprio Saladino...
- Um prolongamento da trgua, sem dvida - disse Ricardo interrompendo-o.
- No, por Santo Andr, sir, mas o estabelecimento de uma paz duradoura e a retirada dos nossos exrcitos da Palestina.
- Por So Jorge! - exclamou Ricardo - por muito m impresso que tivesse deles, com razo, no os teria julgado capazes de se humilhar at um tal ponto de desonra.
E como  que vos encarregastes de uma tal mensagem? Respondei, Sir Kenneth.
- com as melhores intenes, sir; pois que estando privado do nobre chefe que me levava a esperar sucessos, no via ningum que o pudesse substituir para nos conduzir
 vitria; e, em tais circunstncias, julgava ser prudente evitar uma derrota.
- E em que circunstncias se devia concluir esta paz gloriosa?
- perguntou o rei, dificilmente dominando a sua clera.
- Elas no me foram confiadas, sir. Entreguei-as ao ermita sob o selo do Conselho.
- E por quem tomas esse reverendo ermita? Por um louco? Por um traidor? Por um santo?
116
Creio, sir - respondeu o prudente escocs - que a sua loucura  uma mscara de que se serve para obter as boas graas e o respeito dos pagos. Pelo menos pareceu-me
que a loucura no se manifestava nele seno em certas ocasies, e no se misturava em todas as aces da sua vida, como se v quando a loucura  verdadeira.
- Prudentemente respondido - disse o monarca deixando-se cair de novo sobre o travesseiro. - a sua penitncia?
- Parece-me sincera, sir.  ocasionada pelo remorso de algum grande crime pelo qual ele parece julgar-se condenado.
- E os seus sentimentos sobre a guerra?
- Parece desesperar da salvao da Palestina como da sua prpria salvao, a menos da interveno de um milagre, pelo menos desde que o brao de Ricardo de Inglaterra
deixou de poder atacar.
- A tarefa poltica desse ermita  pois semelhante  desses miserveis prncipes que, esquecendo a sua condio de cavaleiros e a sua f, no pussuem coragem nem
deciso seno quando se trata de bater em retirada e que, em vez de marchar contra um sarraceno armado, pisariam com os ps, na sua fuga, o corpo de um aliado moribundo.
- Perdoai-me, sir, se me permito fazer-vos observar que uma tal conversa no pode seno agravar a vossa doena, um inimigo de cristandade tem mais males a recear
do que das armas dos infiis.
A tez do rei estava efectivamente mais inflamada, os seus gestos mais violentos. Parecia sofrer simultaneamente as dores mais cruis do corpo e do esprito, enquanto
a sua coragem indomvel o levava a continuar a conversa como que para as desprezar e desafiar:
- Sabeis lisonjear, sir cavaleiro - disse ele - mas no me escapars. Ainda no me disseste tudo o que pretendo saber. Viste a rainha, quando estivestes em Engaddi?
- No, sire, no com o meu conhecimento - respondeu Sir Kenneth com grande perturbao, pois que se lembrava da procisso nocturna que tinha visto na capela dos
rochedos.
- Pergunto-vos - disse o rei num tom mais severo - se no te encontraste na capela das religiosas carmelitas de Engaddi e se no
117
viste a Berangre, rainha de Inglaterra e as damas do seu squito, que para l foram em peregrinao?
- Falar-vos-ei, sir, com a mesma verdade que no confessionrio. Vi numa capela subterrnea, para a qual o anacoreta me conduziu, um coro de damas prestar homenagem
a uma relquia da mais alta importncia; mas como no lhes vi a cara e no ouvi as suas vozes, seno nos hinos que cantavam, no posso dizer se a rainha de Inglaterra
fazia parte dele.
- E nenhuma destas damas vos era conhecida? Kenneth guardou silncio.
- Pergunto-vos - disse Ricardo erguendo-se sobre o cotovelo
- como cavaleiro e como gentil-homem e verei pela vossa resposta o apreo que tendes por estes dois ttulos, se reconhecestes alguma das damas que compunham este
coro, sim ou no?
- Sir - respondeu Kenneth no sem muito hesitar -, pude fazer conjecturas.
- E eu posso fazer tambm as minhas - disse o rei franzindo os sobrolhos. - Mas basta. Por muito leopardo que sejas, sir cavaleiro, toma cuidado em no cair sob
a garra do leo. Escuta-me, apaixonar-se pela Lua, no seria seno um acto de loucura; mas saltar do alto de uma torre na louca esperana de se elevar at ela, seria
cometer um suicdio.
Neste momento ouviu-se algum rudo no primeiro compartimento e o rei, retomando o tom que lhe era natural, acrescentou  pressa:
- Basta. Retirai-vos, procurai de Vaux e enviai-mo prontamente com o mdico mouro. Garantiria sobre a minha vida a boa f do sulto. Se ele quisesse somente abjurar
do seu co de profeta, prestar-lhe-ia a ajuda da minha espada para expulsar dos seus estados toda esta escumalha de franceses e de austracos, e julgaria a Palestina
to bem governada sob as suas leis como quando tivesse por monarca um prncipe sagrado por um decreto do prprio Cu.
O Cavaleiro do Leopardo retirou-se e, quase no mesmo instante, um oficial do rei veio anunciar que uma deputao do Conselho de Estado acabara de chegar para ver
Sua Majestade o rei de Inglaterra.
-  muito afortunado que eles se queiram lembrar de que vivo
118
ainda - disse Ricardo. - E quem so esses venerveis embaixadores? O gro-mestre da Ordem dos Templrios e o marqus de
Montserrat.
O nosso irmo de Frana no gosta do leito de um doente -
disse o rei - e contudo, se Filipe o fosse, h muito que me teria visto perto dele. Jocelyn, arranjai o meu leito um pouco melhor, est liso como as vagas de um
mar embravecido. Dai-me esse espelho de ao. Passai um pente na minha cabeleira e na minha barba: elas assemelham-se mais  crina de um leo do que ao plo de um
cristo. Dai-me gua.
- Sir - disse Jocelyn tremendo - os mdicos dizem que a gua fria pode ser perigosa.
- Para o diabo os mdicos! - exclamou o monarca. - Se eles no esto em estado de me curar, julgas que suporto que me atormentem? Agora - acrescentou depois de ter
feito as suas ablues
- faam entrar os respeitveis embaixadores. Espero que tenham dificuldade em se aperceber de que os sofrimentos tenham negligenciado o cuidado da minha pessoa.
O clebre gro-mestre dos Templrios era um homem de elevada estatura, magro, o olhar sombrio mas penetrante, uma fronte sobre a qual as preocupaes tinham gravado
rugas. Colocado  cabea desse corpo, para quem a ordem era tudo e os indivduos nada, procurando aumentar-lhe o poder, mesmo a expensas da religio lhe tinha consagrado
 instituio; acusado de heresia e de feitiaria apesar do seu ttulo de religioso e de cavaleiro; suspeito de estar secretamente aliado com o sulto, embora tendo
feito voto de detender ou de recuperar o Santo Templo, o carcter pessoal do gro-mestre. como o da sua ordem, era um enigma que fazia estremecer aqueles que procuravam
explic-lo. O gro-mestre estava vestido com o seu trajo de aparato e trazia o "abacus". smbolo mstico da sua dignidade, cuja forma especial deu lugar a tantas
conjecturas e a tantos comentrios to singulares, at fazer suspeitar esta ordem de cavaleiros cristos de estarem alistados sob os mais inpuros emblemas do paganismo.
Conrad de Montserrat tinha o exterior mais agradvel que o sombrio e misterioso padre-soldado. Era um homem bem-feito, tendo
119
talvez ultrapassado um pouco a idade mdia da vida. ousado no campo de batalha, prudente nos conselhos, alegre e elegante nas festas: mas, por outro lado, acusavam-no
de versatilidade, de uma ambio estreita e egosta, do desejo de estender o seu principado e de procurar assegurar os seus interesses pessoais por meio de negociaes
privadas com Saladino, em prejuzo dos outros chefes cristos.
Quando estes dois dignatrios acabaram de fazer as saudaes usuais a que Ricardo respondeu com cortesia, o marqus de Montserrat comeou a explicar os motivos da
sua visita. Eram enviados, disse, pelos reis e prncipes que compunham o Conselho dos cruzados, para se informarem da sade do seu magnfico aliado, o valente rei
de Inglaterra.
- Ns no ignoramos qual a importncia que os prncipes do Conselho do  nossa sade - respondeu o monarca ingls - e sabemos quanto devem ter sofrido por reprimir
a sua curiosidade durante catorze dias, sem dvida no receio de agravar a nossa doena deixando-nos ver as inquietaes que ela lhes dava.
Tendo esta rplica posto fim  eloquncia do marqus e lanado a confuso nas suas ideias, o seu companheiro, de figura mais austera, retomou o fio da conversa e,
num tom grave, to breve quanto o permitia a condio daquele a quem se dirigia, informou o rei de que lhe vinham pedir, da parte do Conselho, e em nome de toda
a cristandade, para no confiar o cuidado da sua sade a um mdico infiel que se dizia enviado por Saladino, antes que o Conselho tivesse tomado medidas para ver
at que ponto eram fundadas as suspeitas que naturalmente se atribuam a semelhante misso.
- gro-mestre da santa e valorosa ordem dos cavaleiros Templrios, e vs, mui nobre marqus de Montserrat - respondeu Ricardo
- se vos aprouver retirar para o compartimento vizinho, vereis o caso que fazemos das ternas recomendaes dos reis e dos prncipes nossos companheiros nesta guerra
religiosa.
O marqus e o gro-mestre retiraram-se, e decorreram apenas alguns instantes quando o mdico mouro chegou, acompanhado do baro de Gilsland e do Cavaleiro do Leopardo.
O baro, contudo, no entrou seno alguns minutos depois dos seus dois companheiros, tendo parado  porta, talvez para dar ordens s sentinelas.
120
Quando El Hakim entrou, saudou  maneira oriental o marqus e
O gro-mestre, cujo ar e traje anunciavam a elevada condio: o gro-mestre devolveu-lhe a saudao com uma desdenhosa frieza e o marqus com essa cortesia que o
tornava popular aos homens de todas as naes. Seguiu-se um momento de silncio. Sir Kenneth esperando Thomas de Vaux e no ousando tomar sobre si a autoridade de
entrar no apartamento do rei.
Durante este intervalo, o gro-mestre virou-se para o muulmano e disse-lhe, num tom severo:
- Infiel, tens a ousadia de praticar a tua arte sobre a pessoa de um dos soberanos do exrcito cristo?
- O sol de Allah - respondeu o sbio - tanto brilha sobre os nazarenos como sobre o verdadeiro crente; e o seu servidor no ousa fazer distino entre eles quando
 chamado a exercer a arte de curar.
- Descrente Hakim - disse o gro-mestre - ou qualquer que seja o nome que se d a quem as guas do baptismo no purificaram. Sabes tu que os teus membros sero esticados
por quatro cavalos no domados se o rei Ricardo perecer entre as tuas mos?
- Seria um acto de injustia - respondeu o mdico - porque no posso empregar seno meios humanos e o resultado dos meus cuidados est escrito no livro da luz.
- Reverendo e valoroso gro-mestre - disse o marqus de Montserrat - tomai ateno que este homem sbio no conhece as nossas leis crists. Fica sabendo, grave mdico,
da cincia do qual no duvidamos de maneira nenhuma, que a medida mais prudente que podes seguir,  transportares-te  presena do ilustre Conselho da nossa santa
liga e, em presena dos outros mdicos que sero designados, prestar contas dos meios que contas empregar para a cura deste augusto doente. Por este meio evitareis
o perigo ao qual te Poders expor arcando temerariamente com toda a responsabilidade.
Compreendo-vos muito bem - respondeu El Hakim - mas a
ciencia tem os seus campees, algumas vezes os seus mrtires,
tanto como a religio. Recebi do meu soberano, o sulto Saladino, a
ordem de curar o rei nazareno, e com a beno do Profeta
obedecer-lhe-ei. Se no for bem sucedido, vs usais lanas que tm
121
sede do sangue dos verdadeiros crentes e abandono o meu corpo s vossas armas. Mas no quero entrar em discusso com um no-circuncisado sobre a virtude dos mdicos
de que adquiri o conhecimento pela graa do profeta, e peo-vos para no pr qualquer entrave entre mim e os meus deveres.
- Quem fala de entrave? - exclamou de Vaux entrando na tenda precipitadamente. - No pusemos seno de mais. j. Sado-vos, marqus de Montserrat, e a vs tambm,
valente gro-mestre; mas  necessrio que v imediatamente para junto do rei com este sbio mdico.
- Milorde - disse o marqus, em franco-normando ou em lngua d'oil como lhe chamavam ento -  bom que saibas que viemos da parte do Conselho dos Reis e dos Prncipes
da Cruzada para fazer recomendaes sobre o risco que se corre  permitindo a um infiel, a um mdico muulmano, exercer a sua arte no campo dos cristos, quando se
trata de uma sade to preciosa quanto  a de Ricardo.
- Nobre marqus - respondeu de Vaux, um pouco bruscamente
- no sou grande falador e no me ocupo a escutar longos discursos. Alm disso, sou mais levado a acreditar no que os meus olhos viram do que no que os meus ouvidos
escutaram; estou convencido que este pago pode curar a doena do rei Ricardo. O tempo  precioso. Se Maom estivesse  porta desta tenda com to boa inteno como
a deste Adonebec El Hakim, consideraria como um pecado faz-lo parar por um minuto. Assim, nobres senhores, afastai-vos!
- Mas o prprio rei - disse Conrado de Montserrat - nos disse que estaramos presentes s operaes deste mdico.
O baro disse algumas palavras em voz baixa a Jocelyn. sem dvida para saber se o baro dizia a verdade, e respondeu em seguida:
- Podeis entrar connosco se vos aprouver, nobres senhores, desde que vos armeis de pacincia; porque se interrompeis este douto mdico nas suas operaes por uma
palavra ou um nico gesto de ameaa, forar-vos-ei a sair da tenda do rei. Sabei que estou to convencido da virtude dos remdios deste sbio homem que, se o prprio
rei Ricardo hesitasse em tom-los, por Nossa Senhora
122
de Lancrcoste, creio que encontraria no meu corao a fora para o forar a engolir o que o curasse. El Hakim, entrai. Pronunciou estas palavras em lngua franca,
e o mdico obedeceu imediatamente. O gro-mestre lanou um olhar de lado ao pouco cerimonioso guerreiro; mas uma olhadela do marqus fez com que as rugas que o vexame
tinha cavado na sua fronte se apagassem um pouco. Ambos seguiram de Vaux e o mouro ao apartamento onde Ricardo os esperava com toda a impacincia do doente que ouve
os passos do seu mdico.
Ningum convidou Sir Kenneth a l entrar; mas ningum o proibiu e ele pensou que as circunstncias o autorizavam a acompanhar estas grandes dignatrios; mas, sentindo
a inferioridade da sua condio, manteve-se afastado.
Quando Ricardo os viu entrar no seu quarto, imediatamente exclamou:
- Oh! oh! eis uma boa companhia que vem para ver Ricardo passar para as trevas. Meus nobres aliados, sado-vos como os representantes da nossa liga; tornareis a
ver no meio de vs Ricardo tal como era outrora, ou levareis ao tmulo o que restar dele. De Vaux quer eu viva ou morra, tens os meus agradecimentos. Mas ainda
h um outro; esta febre perturbou-me a viso. Ah!  o baro escocs!  bem-vindo. Vamos. Sir Hakim. ao trabalho, ao trabalho!
O mdico, que j tinha sido informado dos diversos sintomas da doena do rei, apalpou-lhe o pulso durante muito tempo e com grande ateno, enquanto todos os assistentes
se mantinham num silncio de expectativa.
Encheu seguidamente uma taa com gua e mergulhou a a bolsinha de seda vermelha que tirou do peito, como fizera para o escudeiro. Quando pareceu julgar que a gua
estava suficientemente saturada pelas drogas, ia oferec-la ao soberano; foi ento que Ricardo o fez parar dizendo:
Um momento, apalpaste-me o pulso deixa-me apoiar o dedo sobre o teu. Conheo tambm um pouco de medicina, como  dever de um bom cavaleiro.
O mouro estendeu o brao sem hesitar e os seus dedos morenos compridos e magros, ficaram por um momento contidos na larga mo do rei Ricardo:
123
- O seu pulso est to calmo como o de uma criana - disse o rei - mas  assim que deve bater o de um homem que quer envenenar um prncipe. De Vaux. quer ns vivamos
quer morramos, este mdico deve ser despedido com honras e em segurana. Amigo, d os meus cumprimentos ao nobre Saladino. Se morrer, ser sem duvidar da sua boa
f; se viver, ser para lhe dar os agradecimentos que um guerreiro como ele tem o direito de esperar.
Sentou-se, pegou na taa com as mos e, virando-se para o marqus e para o gro-mestre, disse-lhes:
- Tomem ateno s minhas palavras e que os reis meus irmos me dem razo com vinho do Chipre. A glria imortal do primeiro cruzado que tocar com a sua lana ou
com a sua espada a porta de Jerusalm  a vergonha e infmia eternas de quem quer que lhe vire as costas!
Esvaziou a taa de um s trago, entregou-a ao mdico e caiu como que esgotado sobre os coxins que tinham sido arranjados para o receber. El Hakim, sem falar, mas
com gestos expressivos, deu ento a perceber que era necessrio que toda a gente sasse do quarto. Como resultado, todos os espectadores se retiraram com excepo
do mdico e de Thomas de Vaux, que nenhuma recomendao conseguiu levar a abandonar o seu amo.
124

CAPITULO X
Abrirei agora um volume secreto
E, pronto a conteher o vosso esprito que
murmura De um perigoso segredo, ouvir a leitura.
SHAKESPEARE. ("Henry IV-) acto 1
O marqus de Montserrat e o gro-mestre dos cavaleiros templrios ficaram juntos defronte do pavilho do rei e viram um forte destacamento de alabardeiros e de homens
de armas disporem-se em crculo a fim de afastar tudo o que pudesse perturbar o repouso do monarca. Os soldados tinham um ar sombrio e moviam-se em silncio; nenhum
rudo anunciava que estavam cobertos com os seus escudos e as suas outras armas, apesar do seu nmero.
- Eis uma grande mudana entre estes ces insulares - disse o gro-mestre a Conrado quando chegaram a certa distncia dos guardas de Ricardo. - Que tumulto se ouvia
anteriormente diante deste Pavilho; no faziam seno lanar a arra, empurrar a bola, lutar, cantar e esvaziar garrafas, como se estivessem numa festa de aldeia.
- Os ces so uma raa fiel - respondeu Conrado - e o rei seu amo ganhou a afeio deles lutando, conversando e divertindo-se com eles.
- Ricardo  um fantasista. Reparaste nas palavras que pronunciou
' que consistia em lanar o mais longe possvel uma barra de ferro, de maneira a deix-la cair sobre uma das extremidades.
125
antes de esvaziar a sua taa, em vez de dar aces de graas ao Cu?
- Essa taa teria sido um golpe fatal e ele ach-la-ia bem condimentada, se Saladino fosse como qualquer outro turco. Mas o sulto afecta boa-f, honra e generosidade,
como se pertencesse a um co no baptizado praticar as virtudes dos cavaleiros cristos! Dizem que pediu a Ricardo para lhe conferir a ordem da cavalaria.
- Por So Bernardo! Sir Conrado, seria altura ento de lanar para longe de ns os cintures e as nossas esporas, de apagar os nossos brases e de renunciar s nossas
lanas, se a maior honra da cristandade devesse ser concedida a um turco de dez vintns.
- Dais muito pouco valor a Saladino - disse o marqus. Contudo, embora seja um homem de boa aparncia, j vi mais belos serem vendidos por quarenta vintns no bazar.
Chegaram ento perto dos cavalos, que tinham deixado a alguma distncia da tenda de Ricardo, no meio de um brilhante cortejo de pajens e de escudeiros. Conrado,
depois de um momento de reflexo, props ao gro-mestre regressarem aos seus aquartelamentos atravessando as extensas linhas do acampamento dos cristos. O gro-mestre
consentiu e puseram-se em marcha, evitando, como se tivessem combinado, as partes mais habitadas da grande cidade de tendas, seguindo a larga esplanada que separava
o acampamento das defesas exteriores e onde podiam conversar em segredo sem ser apercebidos por outros olhos alm dos das sentinelas perto das quais passavam.
Conversaram durante algum tempo acerca de combates e de preparativos de defesa: mas este gnero de conversa, no qual nem um nem outro pareciam tomar interesse, em
breve esmoreceu. Da resultou um longo intervalo do silncio ao qual o marqus de Montserrat ps termo parando repentinamente, como um homem que acaba de tomar uma
resoluo sbita; e, fixando os olhos na fisionomia sombria e inflexvel do gro-mestre, dirigiu-lhe por fim a palavra nestes termos:
- Se isso pudesse convir ao vosso valor e  vossa santidade, reverendo cavaleiro Giles Amaury, pedir-vos-ia para baixar, por esta vez, a viseira negra que trazeis
sempre e conversar com um amigo de cara descoberta. -
126
O templrio sorriu:
H mscaras de cor clara como h viseiras negras, e elas no
escondem menos as feies naturais do rosto.
Seja - respondeu o marqus, levando a mo ao queixo e fazendo o gesto de um homem que tira a sua mscara - eis-me sem disfarce. E agora, o que pensais do que ir
resultar desta cruzada no que respeita aos interesses da vossa ordem?
- Isso  arrancar o vu que cobre os meus pensamentos, em vez de expor os vossos  minha vista. Contudo, responder-vos-ei por uma parbola que me contou um religioso
muulmano do deserto. Um certo lavrador pedia chuva ao Cu e resmungava porque no caa logo que ele a desejava. Para o punir da sua impacincia, Al ordenou ao
Eufrates para alagar as suas terras; todas as suas propriedades foram destrudas e ele prprio pereceu porque os seus votos tinham sido ouvidos.
- Esta parbola  uma verdade. Prouvesse ao Cu que o oceano tivesse engolido dezanove vigsimos dos armamentos destes prncipes. O que tivesse restado teria servido
melhor os projectos dos pobres cristos da Palestina, os miserveis restos do reino latino de Jerusalm. Abandonados a ns mesmos, teramos podido ceder  tempestade;
moderadamente apoiados com dinheiro e tropas, teramos podido forar Saladino a respeitar o nosso valor e a conceder-nos paz e proteco em condies razoveis.
Mas, aps o perigo iminente com que o ameaa esta cruzada, no podemos supor que, se conseguir afast-lo, suporte que algum de ns conserve possesses ou principados
na Sria e ainda menos permitir a existncia destas ordens militares e religiosas que j lhe fizeram experimentar tantos males.
Sem dvida, mas estes cruzados aventureiros podem ter xito e plantar de novo a cruz sobre as avenidas de Sio.
E que vantagem vir da  Ordem dos Templrios, ou a Conrado de Montserrat?
A vantagem para vs, pode ser muito grande. Conrado, marqus de Montserrat, poderia tornar-se Conrado, rei de Jerusalm.
Esta palavra soa a oco. Godofredo de Bulho tinha razo em Acolher a coroa de espinhos para seu emblema. Confessar-vos-ei, gro-mestre, tenho alguma afeio s formas
de governo oriental.
127
Uma pura e simples monarquia no deve consistir seno num rei e nos sbditos;  uma organizao primitiva dos imprios, um pastor e o seu rebanho. Toda a cadeia
de dependncia feudal  fictcia. Gostaria mais de manter com mo firme o basto de comando do meu pobre marquesado, e manej-lo  minha vontade, do que de ter na
mo o ceptro de um monarca, restringido e curvado pela vontade de todos os orgulhosos bares feudais. Um rei deve marchar livremente, gro-mestre, e no ter de parar
aqui por causa de um fosso, alm por uma sebe, mais longe por um privilgio feudal que um baro, armado at aos dentes, est pronto a sustentar. Numa palavra, sei
muito bem que os direitos de Guy de Lusignan, ao trono, sero preferidos aos meus se Ricardo ficar curado da sua doena e tiver qualquer influncia na escolha.
- Basta - disse o gro-mestre - convenceste-me da tua sinceridade. Outros podem ter a mesma opinio; mas,  excepo de Conrado de Montserrat, poucos ousariam confessar
francamente que no desejam o restabelecimento do reino de Jerusalm, mas preferem manter-se donos de uma poro dos seus fragmentos, do mesmo modo que os insulares
selvagens esperam um naufrgio para se enriquecerem com os seus destroos.
- No me irs trair? - exclamou Conrado, olhando-o com olhos que a desconfiana tornava penetrantes. - Fica certo que a minha lngua jamais por a minha cabea em
perigo e que a minha mo saber tomar a defesa de uma e de outra.
- Revoltas-te muito depressa para to intrpido corcel - respondeu o gro-mestre. - O que quer que seja, juro-te que guardarei o segredo como fiel companheiro.
- Por qual templo juras? - perguntou o marqus de Montserrat, cujo amor pelo sarcasmo frequentemente prevalecia sobre a poltica e a discrio. - Juras pelo templo
situado sobre a montanha do Sio, que foi construdo pelo rei Salomo, ou por este edifcio simblico e emblemtico que asseguram ser falado nos conselhos reunidos
sob as abbadas secretas dos comandos dos Templrios, para o engrandecimento da tua vunervel e valorosa ordem?
O templrio lanou-lhe um olhar mortfero; mas respondeu-lhe com calma:
- Qualquer que seja o templo porque jure, marqus de Montserrat,
128
fica certo que o meu juramento  sagrado. Gostaria de saber como hei-de raliar-te por uma promessa que eu possa crer ter o mesmo peso.
- Juro ser-te fiel - respondeu Conrado - pela coroa de marqus que uso e que espero mudar para algo de melhor antes do fim desta guerra. Ela  to ligeira, que no
defende a minha fronte contra o frio; a de duque seria uma proteco melhor contra uma brisa nocturna como a que experimentamos; mas a coroa real seria ainda prefervel,
visto ser forrada de veludo e de arminho. Numa palavra, gro-mestre, estamos ligados um ao outro por um interesse comum. No acredites que, se estes prncipes aliados
conseguirem conquistar Jerusalm e colocar a um rei da sua escolha, suportem que a tua ordem e o meu pobre marquesado conservem a independncia de que gozamos presentemente.
No, por Nossa Senhora! Seria necessrio ento que os orgulhosos cavaleiros de So Joo recomeassem a preparar unguentos, e a cuidar os pestferos nos hospitais,
e vs, poderosos e venerveis Cavaleiros do Templo, sereis obrigados a tornar a ser, como outrora, simples homens de armas a dormir trs sobre um colcho de palha,
montar dois sobre o mesmo cavalo; o que era outrora o vosso costume, como o prova o sinete de que vos servis ainda.
- A condio, os privilgios e a opulncia da nossa ordem evitaro uma degradao semelhante quela com que a ameaais - disse o gro-mestre com altivez.
-  precisamente o que ir perder - replicou Conrado de Montserrat - e vs sabeis to bem como eu, reverendo gro-mestre, que se os prncipes aliados obtivessem
um sucesso completo na Palestina, o primeiro cuidado da sua poltica seria o de destruir a independncia da vossa ordem, golpe que vos teria sido dado h j muito
sem a proteco do nosso Santo Papa. e sem a necessidade que h do vosso valor para a conquista da Terra Santa. Dai-lhes uma vitria completa, e sereis postos de
lado.
- Pode haver certa verdade no que dizes - replicou o templrio- sorrindo com um ar sombrio. - Mas quais seriam as nossas esperanas se os aliados retirassem as suas
foras e deixassem a Palestina sob o domnio absoluto de Saladino?
Elas seriam to grandes como certas; o sulto daria vastas
129
provncias para ter s suas ordens um corpo bem disciplinado de lanas francas! No Egipto, na Prsia, uma centena de auxiliares semelhantes, acrescentados  sua
cavalaria ligeira, assegurar-lhe-iam a vitria contra a mais terrvel desigualdade numrica. Esta dependncia no seria eterna, talvez no durasse mais do que a
vida dele, mas no Oriente os imprios nascem como os cogumelos. Suponhamos que ele est morto e que ns estamos a ser constantemente fortificados e recrutados por
aventureiros da Europa, cheios de ardor e coragem, que sucessos no podemos ns esperar quando j no formos entravados nas nossas operaes por estes monarcas dispostos
a votar-nos a uma dependncia eterna?
- Tendes razo, senhor marqus, e as vossas palavras encontram um eco no meu corao. No entanto,  preciso agir com circunspeco. Filipe de Frana  to prudente
quanto valoroso.
-  a verddade, e tanto mais fcil seria faz-lo renunciar a uma expedio na qual se envolveu inconsideradamente. Est ciumento do rei Ricardo, seu inimigo natural,
e ansioso por voltar para casa e seguir os seus planos ambiciosos, cujo fim est mais prximo de Paris que da Palestina. Aproveitar o primeiro pretexto para se
retirar de uma cena sobre a qual sabe muito bem que prodigaliza infrutiferamente as foras do seu reino.
- E o arquiduque da ustria?
- Oh! Quanto ao arquiduque, o seu amor-prprio e a sua loucura conduzem-no s mesmas concluses que a poltica e a prudncia de Filipe. Ele julga-se (que Deus o
mantenha nestes bons sentimentos) tratado com ingratido, porque todas as bocas, mesmo as dos seus minnesingers 1, no esto cheias seno de elogios do rei Ricardo,
que ele receia e detesta, e cuja runa o alegraria: semelhante a esses ces cobardes que, quando o mais valente da matilha  apanhado pela goela do lobo, esto mais
dispostos a atac-lo do que a prestar-lhe socorro. Mas para qu dizer-vos tudo isto, seno para
1Os menestris da Germniu chamavam-se assim.
130
vos provar que desejo sinceramente que esta liga seja dissolvida e que o pas seja libertado destes grandes monarcas e dos seus exrcitos? Sabeis, como eu, e vistes
que todos os prncipes que aqui tm influncia e autoridade desejam vivamente tratar com Saladino.
- Concordo, era preciso ser-se cego para o no ter entrevisto nas suas ltimas deliberaes. Mas levanta ainda a tua mscara por mais um pouco e diz-me a verdadeira
razo que te fez insistir no Concelho para encarregar de levar as propostas de tratado esse escocs, o Cavaleiro do Leopardo, ou qualquer que seja o nome que lhe
ds?
- Era um golpe de poltica - respondeu o italiano. - Nascido na Gr-Bretanha, essa qualidade bastava para pr Saladino a seu favor, pois sabia que ele combatia sob
as bandeiras de Ricardo; enquanto o seu carcter, como escocs, e alguns outros motivos de descontentamento pessoal que conheo, faziam com que no fosse provvel
que o nosso enviado, no seu regresso, tivesse qualquer comunicao com Ricardo, para quem a sua presena no era agradvel.
- Uma poltica cujo tecido era demasiado fino - disse o gro-mestre. - Acredita-me, essa teia de aranha italiana no reter nunca este "sanso" insular, cuja cabea
conserva todos os seus cabelos. No vs que esse enviado, que escolheram com tanto cuidado, nos trouxe o mdico que vai tornar a pr Corao de Leo em estado de
continuar a sua empresa da cruzada? E, logo que ele estiver em estado de marchar para a frente, qual dos prncipes ousar ficar para trs? A vergonha for-los-
a segui-lo, embora gostem tanto disso como de marchar sob os estandartes de Satans.
- Tranquilizai-vos - respondeu Conrado de Montserrat - antes que este mdico tenha tido tempo para completar a cura de Ricardo, ser possvel provocar uma ruptura
aberta entre o francs, ou Pelo menos o austraco, e o seu aliado de Inglaterra. Ento, se Ricardo abandonar o leito, poder ser para comandar as suas prprias tropas,
mas nunca para dirigir por sua vontade nica o emprego de todas as foras da cruzada.
- Es um arqueiro bem-intencionado, Conrado de Montserrat disse o templrio. - Mas o teu arco no est suficientemente distendido para lanar uma flecha para o alvo.
Calou-se subitamente, lanou  sua volta um olhar inquieto e,
131
pegando na mo de Conrado, apertou-a com fora, olhou-o de frente e disse-lhe numa voz lenta:
- Ricardo deixa o leito, dizes tu? Camarada,  preciso que ele no o deixe, nunca...
O marqus de Montserrat estremeceu:
- O qu? - exclamou. - Falas de Ricardo Corao de Leo. do campeo da cristandade?
As suas faces empalideceram. O templrio fixou os olhos nele o um sorriso de desprezo desenhou-se nas suas feies de ferro:
- Sabes a que te assemelhas neste momento, Sir Conrado? exclamou. - No  ao poltico e valoroso marqus de Montserrat. no  ao homem que queria dirigir o Conselho
dos Prncipes e decidir do destino do imprio,  a um novio que, tendo achado por acaso uma frmula de encantamento nos livros do seu mestre, invocou o Diabo sem
pensar e se aterroriza ao ver o esprito que se apresenta diante dele.
- Concordo - respondeu o marqus, voltando a si - que a menos que se possa descobrir qualquer outro meio seguro, acabas de fazer aluso quele que nos conduz directamente
ao alvo. Mas por Santa Maria! Tornar-nos-emos os objectos de horror de toda a Europa!
- Se vs as coisas assim - disse o gro-mestre. com o mesmo sangue frio que o tinha caracterizado durante esta notvel conversa
- faamos de conta, tu e eu, que nada se passou entre ns, que falmos a dormir, que acordmos e que a viso se desvaneceu.
- Ela estar sempre diante dos meus olhos - replicou Conrado.
-  verdade que as vises de coroas ducais e de diademas reais no abandonam facilmente o lugar que ocupam na imaginao disse o gro-mestre.
- Muito bem - respondeu o marqus. -Mas deixa-me primeiro tentar semear a discrdia entre a ustria e a Inglaterra!
Separaram-se. Conrado ficou parado no local onde ento se encontravam, olhando o manto branco do templrio, que desapareceu a pouco e pouco no meio das trevas da
noite.
Altivo, ambicioso, poltico e pouco escrupuloso, o marqus de Montserrat no era no entanto naturalmente cruel. Era um epicurista e, semelhante a muitas pessoas
com o mesmo carcter, no gostava,
132
a despeito do seu egosmo, nem de provocar feridas graves nem de ver actos de crueldade.
Os olhos, ainda fixados no ponto em que tinha deixado de aperceber o manto flutuante do templrio, disse para consigo:
"Eu vi verdadeiramente o Diabo, e  assustador. Quem teria acreditado que este severo e asctico gro-mestre, cuja fortuna, boa ou m, est absorvida na da sua ordem,
queria, para assegurar as suas vantagens, ir mais longe do que eu estou disposto a fazer para meu interesse pessoal? Pr um termo a esta louca cruzada era o meu
projecto, concordo; mas no ousava pensar no expediente que este guerreiro religioso no hesitou em me propor. E, contudo, no h nenhum mais seguro:  talvez o
que nos expe a menos perigos."
Tais eram as reflexes que o marqus fazia, em voz baixa. Quando foi interrompido por uma voz rouca que gritava, a pouca distncia, com o tom enftico de um arauto:
- Lembrai-vos do Santo Sepulcro!
Este grito repetiu-se de posto em posto, porque a ordem das sentinelas era de o fazer ouvir de tempos a tempos, a fim de que o exrcito de cruzados no esquecesse
nunca o motivo que os tinha feito pegar em armas. Mas, embora Conrado estivesse habituado a este costume, e tivesse muitas vezes ouvido este grito sem lhe ligar
importncia, contrastava de tal modo neste momento com os pensamentos que o ocupavam que parecia uma voz descendo do Cu para o advertir da iniquidade do projecto
que albergava no corao. Olhou para todos os lados, com inquietao, tal como o antigo patriarca, como se esperasse ver algum carneiro parado numa moita. alguma
vtima que se pudesse pr no lugar da que o seu companheiro lhe propunha sacrificar, no ao Ser supremo, mas ao Moloch da sua ambio.
Neste momento, os seus olhos pousaram no estandarte real de Inglaterra, agitado pelo sopro da brisa, mostrando-se ainda na obscuridade que aumentava a cada instante.
Estava arvorado numa obra que era evidentemente obra da mo dos homens, situada quase no meio do acampamento, erguida talvez por chefe ou campeo hebreu em comemorao
do repouso que encontrara neste local.
nome cara no esquecimento, e os cruzados tinham-lhe chamado
 o monte So Jorge, porque, desta elevao que comandava
133
todo o campo, o estandarte da Inglaterra, como um emblema de soberania, dominava todas as bandeiras dos chefes, dos prncipes e at dos reis, que se viam flutuar
em situaes inferiores. A inspirao de um instante bastou para despertar novas ideias num esprito to pronto como era o de Conrado. Um nico olhar lanado sobre
este estandarte pareceu dissipar subitamente a incerteza que reinava nas suas resolues. Tornou a pr-se em marcha para regressar ao seu pavilho, com as passadas
rpidas e decididas de um homem que acaba de adoptar um plano e no pensa seno em execut-lo. Ao chegar, despediu todos os servidores que o esperavam e que constituam
um squito quase digno de um rei; e, ao meter-se na cama, disse para consigo que a sua nova resoluo era a melhor, a de experimentar meios mais doces antes de recorrer
a vias desesperadas.
- Amanh - disse - jantarei  mesa do arquiduque da ustria. Verei o que  possvel fazer para assegurar a execuo dos nossos projectos, antes de seguir os conselhos
do sombrio templrio.
134

CAPITULO XI
O nosso clima do Norte tem esta rara vantagem
A fortuna e o espirito, a condio e o valor.
Mas a inveja de feio negra, perseguindo o mrito,
Tal como o ardente co de caa segue o veado palpitante,
Ciumenta do elevado ponto em que est colocado,
No respirar sem o ter derrubado.
SIR DAVID LINDSAY
LEOPOLDO, arquiduque da ustria, foi o primeiro dos chefes desse belo pas a gozar da categoria de prncipe. Fora elevado  dignidade ducal no Imprio Germnico
porque era parente prximo do imperador Henrique-o-Cruel, e mantinha sob o seu governo as mais belas provncias que o Danbio irriga. A histria enegreceu a sua
memria por causa de um acto de violncia e de perfdia que teve origem nos acontecimentos das cruzadas; e, no entanto, a vergonha de ter feito Ricardo Prisioneiro
enquanto ele atravessava os seus domnios, sem squito e disfarado, no era um acto natural do carcter de Leopoldo. Era
um Prncipe vaidoso e fraco, mais do que um tirano ambicioso e cruel. Observava-se uma grande analogia entre o seu carcter moral e as suas formas exteriores: era
de grande estatura, robusto e belo, mas havia algo de desajeitado no seu andar e dir-se-ia que o seu corpo no era animado de uma energia proporcional  sua dimenso
135
colossal. Como prncipe, parecia pouco familiarizado com a sua prpria dignidade e, embaraado por tomar um ar de autoridade quando a ocasio o exigia, frequentemente
se julgava obrigado a recorrer a expresses e a actos de violncia para tornar a ganhar o terreno que teria mantido com mais graa mostrando ao princpio um pouco
mais de presena de esprito.
No somente estes defeitos eram visveis para os outros, mas o prprio arquiduque no podia impedir-se de experimentar algumas vezes a convico penosa de que no
estava inteiramente  altura de manter e de fazer respeitar a sua condio, e com razo suspeitava terem os outros a mesma opinio dele.
Quando se reuniu aos cruzados,  cabea de uma tropa digna de um prncipe, desejou ardentemente ganhar a amizade de Ricardo, e fizera tais esforos para a obter
que o rei da Inglaterra, como bom poltico, deveria ter-lhe correspondido. Mas o arquiduque, sem lhe faltar coragem, era muito inferior a Corao de Leo em bravura
e no estava, como ele, inflamado por aquele ardor que lhe fazia procurar os perigos como se corteja uma amante; assim, em breve o rei o olhou com uma espcie de
desprezo.
Alm disso, Ricardo era um prncipe normando, povo para quem a temperana era um hbito e desprezava a inclinao do alemo para os prazeres da mesa e sobretudo
a sua embriaguez. Estes motivos, juntos a alguns outros inteiramente pessoais, fizeram com que o rei da Inglaterra cessasse em breve de se constranger para esconder
o seu desdm pelo prncipe austraco; e o desconfiado Leopoldo, tendo notado isso, pagou-lhe com um dio profundo. A discrdia foi fomentada pelos artifcios secretos
do poltico Filipe, rei de Frana, um dos mais sagazes monarcas do seu sculo. Filipe, temendo o carcter altivo e impetuoso de Ricardo, como seu natural rival,
procurava fortalecer o seu partido e enfraquecer o de Ricardo, excitando os prncipes cruzados de inferior condio a reunirem-se para resistir ao que apelidava
de autoridade usurpadora do rei de Inglaterra.
Tais eram as opinies do arquiduque de ustria quando Conrado de Montserrat decidiu servir-se do dio deste prncipe contra Ricardo como de um instrumento para dissolver
a liga dos cruzados.
136
Escolheu a hora do meio-dia para o ir visitar, e o pretexto foi o de o presentear com um vinho de Chipre de que recentemente lhe viera parar s mos, a fim de estabelecer
uma comparao com os do Reno e da Hungria.
Semelhante oferta valia bem um convite para jantar; o arquiduque fez-lho do modo mais corts, e nada foi poupado para que a refeio fosse digna de um prncipe soberano.
No entanto, o gosto delicado do marqus italiano viu mais profuso do que elegncia nos manjares substanciais sob os quais a mesa vergava.
Os Alemes, embora dotados ainda do carcter franco e marcial dos seus antepassados, que subjugaram o Imprio Romano, tinham, no entanto, conservado bastante do
seu barbarismo. No elevavam os princpios de cavalaria ao mesmo grau de delicadeza que os cavaleiros franceses e ingleses, e no observavam as regras que estas
duas naes consideravam como o ndice da mais alta civilizao. Sentado  mesa do arquiduque, Conrado ficou simultaneamente atordoado e divertido pela algazarra
com que os seus ouvidos foram assaltados por todos os lados, apesar da solenidade de um banquete dado por um prncipe.
Muitos servidores, jovens e velhos, que estavam de p, tomavam parte na conversa de tempos a tempos, e recebiam de seus amos os restos do banquete, que devoravam
por detrs dos convivas. Viam-se bufes, anes e menestris em nmero maior do que o usual, e faziam mais barulho e permitiam-se mais liberdades do que se teria
permitido numa sociedade mais bem regulamentada. Como o vinho no lhes faltava, o tumulto, que parecia ser-lhes permitido, no era seno mais expressivo.
No meio desta confuso e destes clamores, que melhor teriam convido a uma taberna alem do que  tenda de um prncipe soberano, o arquiduque era servido com todas
as formalidades de um respeito minucioso, mostrando a importncia que ele dava a manter a sua categoria e a exigir tudo o que lhe era devido.
Pajens de sangue nobre serviam-no de joelhos; comia em baixelas
e Prata e bebia os seus vinhos do Reno e de Tokai numa taa de ouro.
O seu manto ducal era enfeitado de arminho; a coroa de duque 'a igualar em preo a de um rei, e os seus ps, metidos em
137
sapatos de veludo cujo comprimento, contando com a ponta, podia ser de dois ps, repousavam sobre um tamborete de prata macia.
Mas o que servia em parte para indicar o carcter do prncipe, era que, embora desejando mostrar considerao pelo marqus de Montserrat, que cortesmente colocara
 sua direita, concedia muito mais ateno ao seu spruchsprecher ou recitador privilegiado de frases espirituosas que se mantinha por detrs do ombro direito do
arquiduque.
Esta personagem estava ricamente trajada e tinha um pequeno basto ao qual estavam suspensas por anis moedas de prata, que fazia soar quando ia dizer alguma coisa
digna de ateno. A sua categoria, na casa do arquiduque, estava entre a de menestrel e de conselheiro; era alternadamente lisonjeador, poeta e orador; todos os
que desejavam obter as boas graas do prncipe procuravam, em geral, obter as do spruchsprecher.
com receio de que uma dose demasiado forte da sabedoria deste oficial se tornasse fatigante, via-se  esquerda do arquiduque o seu hoffnarr, ou bobo da corte, chamado
Jonas Schwanker, que fazia quase tanto barulho, com as campnulas atadas ao seu barrete e ao seu ceptro, como o spruchsprecher com o seu basto guarnecido de moedas
de prata.
Estas duas personagens alternavam para fazer ouvir tiradas graves ou cmicas, enquanto o seu amo, rindo e aplaudindo, examinava no entanto cuidadosamente a fisionamia
do seu hspede para ver que impresso faziam, sobre um cavaleiro to dotado, todos estes esforos de eloquncia e de esprito austraco. Seria difcil dizer qual
campeo, se o da sabedoria ou o da loucura, contribua mais para o divertimento da assembleia ou tinha o maior quinho no favor do prncipe seu senhor. Algumas vezes
disputavam a palavra, mas em geral pareciam entender-se bem e estavam to acostumados a fazerem-se valer um ao outro, que o spnu-hsprecher condescendia algumas vezes
em acrescentar uma explicao aos ditos espirituosos do bufo para os pr mais ao alcance dos ouvintes, de modo que a sabedoria de um se tornava uma espcie de comentrio
sobre a loucura do outro.
Para corresponder ao seu colega o hoffnarr dizia frequentemente um gracejo como concluso a um maador discurso do orador.
138
Quaisquer que pudessem ser os seus verdadeiros sentimentos, Conrado teve grande cuidado em que a sua fisionomia no exprimisse seno uma satisfao completa por
tudo o que ouvia. Sorria e aplaudia, aparentemente com tanto entusiasmo como o prprio duque, quer a solene loucura do spruchsprecher quer o esprito subtil do louco.
O poltico italiano espreitava o instante em que algum introduzisse na conversa um assunto favorvel ao propsito que o ocupava.
No se passou muito tempo sem que o rei da Inglaterra fosse trazido  baila pelo bufo, que estava acostumado a considerar o Dick-da-Giesta 1 como um tema agradvel
e inesgotvel de gracejos. O orador guardou silncio e no foi seno quando o marqus lhe pediu uma explicao destas palavras, que lhe disse que a giesta era um
emblema de humildade e que seria conveniente que aqueles que com ela se enfeitavam se lembrassem dessa espcie de aviso.
Estas poucas palavras explicaram suficientemente a aluso  ilustre casa de Plantageneta, e Jonas Schwanker observou que aqueles que mais se humilhavam mais exaltados
seriam.
- Honrai aqueles a quem a honra  devida - disse o marqus de Montserrat. - Todos ns tomamos alguma parte nestas marchas e nestas batalhas, e parece-me que os outros
prncipes poderiam reclamar uma fraca parcela do renome que os menestris e os minnesingers atribuem exclusivamente a Ricardo de Inglaterra. Nenhum dos mestres da
alegre cincia tem uma aco em honra do nosso ilustre hospedeiro, o arquiduque real da ustria?
Trs minnesingers avanaram e comearam a cantar ao mesmo tempo, acompanhando-se com a sua harpa. O silncio foi imposto a dois de entre eles, no sem dificuldade,
pelo spruchsprecher, que Parecia preencher as funes de intendente dos pequenos prazeres, e escutaram o poeta preferido, que cantou em alemo estncias que Podem
ser traduzidas como se segue:
Que bravo chefe nos conduzir
Ao campo de honra onde a cruz nos chama?
 aquele que reunir
1 Abreviatura familiar de Ricardo Plantageneta.
139
Dos cavaleiros a tropa mais bela.
Que mostrar mais zelo,
E que levantar mais alto a cabea.
Aqui, o orador, agitando o seu basto para fazer soar as suas moedas de prata, explicou  assembleia o que talvez no tivesse sido compreendido por esta descrio
potica, que o chefe em questo nesta estrofe no era outro seno o ilustre prncipe seu hospedeiro; e todos os convivas, enchendo os copos, beberam fazendo o brinde:
Hoclilebe der lierzog Leopold! 1
O poeta continuou:
No me perguntem por que razo
A altiva ustria eleva o seu estandarte
Mais alto do que o do poderoso rei:
Perguntem antes por que razo, deixando a Terra
A guia com temerrias asas
Em direco ao Sol, se eleva sem receio. O orador, encarregado de explicar tudo o que podia parecer obscuro, disse ento:
- A guia ornamenta o escudo do nosso nobre senhor, o arquiduque. de sua graa real. deveria eu dizer: e a guia  de todas as aves a que mais alto voa e que mais
se aproxima do Sol.
- No entanto, aqui, o leo tomou a dianteira  guia - disse Conrado, negligentemente.
O arquiduque corou e fixou os olhos sobre o marqus de Montserrat, enquanto o sprnchsprecher lhe respondeu, aps um momento de silncio:
- O nobre marqus perdoar-me-; um leo no pode voar acima de uma guia, porque no tem asas.
- Excepto o leo de So Marcos - disse o bufo.
1 Longa vida ao arquiduque Leopoldo! Traduo livre.
140
a bandeira dos venezianos - disse o arquiduque - mas
com certeza que essa raa anfbia, meio nobre, meio mercantil, no ousaria pr a sua categoria em comparao com a nossa.
No era do leo de Veneza que falava - disse o marqus de
Montserrat. - Era dos trs lees de Inglaterra. Outrora, dizem, no eram seno leopardos; mas tornaram-se verdadeiramente lees e  necessrio que tenham precedncia
sobre todos os quadrpedes, todas as aves e todos os peixes, ou desgraado de quem lhes resista.
- Falas seriamente, marqus? - perguntou o austraco, cuja ca bea estava esquentada pelo vinho. - Acreditas que Ricardo de Inglaterra pretende ter qualquer supremacia
sobre os soberanos livres que se tornaram voluntariamente seus aliados nesta cruzada?
- No julgo seno pelas aparncias - respondeu Conrado. Eis o seu estandarte desfraldado, sozinho no meio do nosso acampamento, como se fosse rei e generalssimo
de todo o exrcito cristo.
- E suportars isso to pacificamente! E falas num tom frio! disse o arquiduque.
- No compete ao pobre marqus de Montserrat - replicou Conrado - reclamar contra uma injria  qual se submetem com tanta pacincia prncipes to poderosos como
Filipe da Frana e Leopoldo da ustria: a ignomnia que vos apraz suportar no pode ser uma desonra para mim.
Leopoldo cerrou o punho e deu um grande soco na mesa:
- Disse isso a Filipe - exclamou. - Frequentemente o acusei de que era nosso dever proteger os prncipes inferiores contra o esprito usurpador deste insular. Mas
ele respondeu-me sempre dizendo que no seria poltico provocar uma ruptura aberta num momento como este.
- O mundo sabe que Filipe  prudente - disse o marqus - e atribuir a sua submisso  poltica; quanto  do arquiduque da ustria, s ele poder dar o motivo; mas
no duvido que tenha excelentes razes para se submeter ao domnio ingls.
Eu, submeter-me! -exclamou Leopoldo, com indignao. Eu- arquiduque da ustria, membro to importante do Santo imprio Romano, submeter-me a esse rei de metade de
uma ilha, a esse neto de um bastardo normando! No, pelo Cu! O acampamento e
141
toda a cristandade vero se no sei prestar justia a mim prprio e se cedo um palmo de terreno a esse ingls. Levantai-vos, senhores levantai-vos e segui-me. Ns
prprios, com a nossa prpria mo, e sem perder um momento, plantaremos a guia da ustria numa situao em que esta bandeira flutuar to alto como nunca se viu
flutuar o estandarte de qualquer rei ou Csar.
A estas palavras, levantou-se da mesa e, no meio das aclamaes tumultuosas dos seus convivas e de todo o seu squito, saiu do seu pavilho e pegou no estandarte
arvorado diante da porta.
- No receias - disse Conrado, fingindo intervir - que seja uma ndoa para a tua sabedoria fazer um golpe semelhante a esta hora? Talvez fosse melhor submeteres-te
algum tempo mais ao domnio da Inglaterra, do que,..
- Nem uma hora, nem um momento mais! - gritou o arquiduque; e, levando ele prprio o seu estandarte, marchou a passos largos  cabea de um numeroso cortejo, em
direco  colina que formava o ponto central do acampamento; logo que a chegou, levantou a mo para arrancar o estandarte ingls.
- Meu amo, meu caro amo! - exclamou Jonas Schwanker rodeando-lhe o corpo com os braos. - Tomai cuidado; os lees tm dentes.
- E as guias tm garras - respondeu o arquiduque, sempre com a mo  volta da haste que sustinha a bandeira da Inglaterra, mas parecendo hesitar para a arrancar.
O orador, que apesar da sua usual ocupao tinha no entanto alguns intervalos de bom-senso, agitou vivamente o seu basto sonoro, e Leopoldo, por hbito, virou a
cabea para o seu conselheiro.
- A guia  o rei dos pssaros do ar - disse o spruchsprecher -tal como o leo  o monarca dos animais. Cada um tem o seu domnio, to separado um do outro como
a Inglaterra o  da Alemanha. Nobre guia, no desonreis o leo, e deixai as duas bandeiras flutuar em paz uma ao lado da outra.
Leopoldo retirou a mo que tinha agarrado o pau e voltou-se para procurar Conrado de Montserrat; mas no o avistou, porque logo que o marqus viu que fora bem sucedido
nos seus intentos, retirou-se da multido, depois de ter tido o cuidado de exprimir
142
diante de vrios espectadores neutros o seu desgosto de que Leopoldo tivesse escolhido o instante em que saa da mesa para se vingar de uma injria. No vendo aquele
a quem teria especialmente desejado dirigir-se, o austraco acabou por ordenar que trouxessem um barril de vinho e que o abrissem para regalar os espectadores, que
ao bater do tambor e ao som da msica, se puseram a fazer uma orgia em volta do estandarte da ustria.
Esta cena de desordem no se passou sem tumulto e o alarme espalhou-se em todo o acampamento.
Entretanto, chegara o momento crtico em que El Hakim declarara, seguindo as regras da sua arte, que o seu real doente podia ser despertado sem perigo. O mdico
no teve necessidade de reflectir durante muito tempo para assegurar ao baro de Gilsland que a febre abandonara completamente o seu soberano, e que no seria necessrio
dar-lhe uma segunda dose desta potente beberagem. Ricardo pareceu ser da mesma opinio, porque, sentando-se e esfregando os olhos, perguntou a de Vaux qual a soma
de dinheiro que se encontrava ento no cofre real.
O baro respondeu-lhe que no sabia com preciso:
- No importa - disse o rei.- Quer ela seja mdica ou considervel, dai-a toda a este sbio mdico, que me devolveu, segundo creio, ao servio da cruzada; e se a
se encontrarem menos de mil hesantes, completai esta soma dando-lhe jias.
- No vendo a cincia que a Allah aprouve conceder-me - respondeu o mdico mouro - e sabei, grande prncipe, que a beberagem divina que tomaste perderia toda a sua
virtude nas minhas mos imdignas se a trocasse por ouro ou diamantes.
"Recusa um salrio! - pensou de Vaux. - Esta recusa  nele ainda mais extraordinria do que a sua idade de cem anos."
- Thomas de Vaux - disse Ricardo. - Da coragem no conhece seno a da espada, das virtudes seno as da cavalaria. Digo-te que este mouro, na sua independncia, poderia
servir de exemplo queles que se consideram como a flor dos cavaleiros.
-  uma recompensa bastante grande para mim - disse El Hakim cruzando os braos sobre o peito em atitude respeitosa e digna -
ouvir um to grande rei como Melec Ric falar assim do seu
servidor. Mas permiti-me pedir-vos para vos manterdes tranquilo
143
por algum tempo ainda, pois poderia ser perigoso expor-vos demasiado cedo  fadiga antes de ter recuperado completamente as vossas foras.
-  preciso que te obedea, Hakim - respondeu o rei. - Contudo, acredita-me, o meu corao sente-se to completamente liberto deste fogo devorador que o consumia
h tantos dias que me sentiria em estado de resistir  lana do mais bravo campeo. Mas escutai! Que significam estes gritos e esta msica que se ouve ao longe no
acampamento? Thomas de Vaux, ide informar-vos.
De Vaux obedeceu e voltou depois de um minuto de ausncia:
-  o arquiduque Leopoldo - disse - que d um passeio no acampamento com os seus companheiros de pardia.
- O louco! O bbado! - exclamou Ricardo. - No pode esconder a sua brutal embriaguez no interior do seu pavilho! Pois bem, que tendes vs a dizer-me, sir marqus?
- disse ele a Conrado de Monserrat, que entrava neste momento na sua tenda.
- Que me felicito, muito honrado prncipe - respondeu o marqus - por ver Vossa Majestade em convalescena, e isto  um grande discurso para quem acaba de deixar
a mesa do arquiduque da ustria.
- O qu! Jantastes com o saco de vinho alemo! - exclamou o monarca ingls. - E que nova loucura o leva a fazer tanto barulho? Na verdade, sir Conrado, tinha-vos
olhado at aqui como um amigo da alegria, e estou surpreendido de que tenhais abandonado semelhante festa.
De Vaux, que estava um pouco atrs do rei, esforou-se por dar a entender ao marqus, piscando os olhos, que no deveria dizer a Ricardo o que se passava no acampamento;
mas Conrado no o compreendeu ou no quis compreender:
- O que o arquiduque faz - respondeu - no tem importncia para ningum e menos ainda para ele prprio, porque, muito provavelmente, no sabe o que faz. Contudo,
para dizer a verdade, pratica uma diverso que no me agradaria partilhar, porque derruba a bandeira da Inglaterra, que est arvorada no monte de So Jorge, no meio
do campo, para a plantar a sua.
- Que dizes tu? - exclamou o rei num tom que teria despertado um morto.
144
"Tinha chegado a Jerusalm um homem
que se propusera passar o resto da sua vida
na Terra-Santa."
Gravura em ao de Schreider.
Ed. P. M. Pourrat et Cie, 1838 Bibl. Nac. Foto Holzapfel.
- Sim - respondeu o marqus - Vossa Majestade no se deve encolerizar s porque agrada a um louco cometer loucuras.
- No me digam nada! - exclamou Ricardo saltando abaixo do leito e vestindo-se com uma rapidez espantosa. - No fale, marqus de Montserrat. Nem uma s palavra,
de Multon, probo-te. Aquele que pronunciar uma slaba no  amigo de Ricardo Plantageneta. Silncio, Hakim, ordeno-te.
Durante este tempo vestia-se  pressa e, ao pronunciar a ltima frase, pegou na espada e, sem outras armas, sem ordenar a ningum que o seguisse, precipitou-se para
fora do pavilho. Conrado, simulando o maior espanto, parecia disposto a entrar em conversao com de Vaux; mas Sir Thomas, empurrando-o rudemente, saiu da tenda
e chamando um dos escudeiros do rei, disse-lhe  pressa:
- Corre para as tendas de lorde Salisbury e diz-lhe para mandar as suas tropas pegar em armas e seguir-me imediatamente ao monte de So Jorge. Diz-lhe que a febre
do rei abandonou o sangue e fixou-se no crebro.
Surpreendido com a precipitao com que lorde de Vaux lhe falava, mal o tendo ouvido e compreendendo-o ainda menos, o escudeiro executou as ordens que acabara de
receber; os seus companheiros correram e espalharam em todo o arraial ingls um alarme to geral quanto a causa parecia vaga.
Os soldados, despertados em sobressalto, perguntavam uns aos outros qual podia ser a causa deste sbito tumulto; e, sem esperar resposta, supriam com a imaginao
as informaes que lhes faltavam.
Uns diziam que os sarracenos estavam no acampamento; outros, que tinham querido assassinar o rei; vrios, que ele morrera na noite Anterior; um grande nmero, que
fora morto pelo arquiduque da ustria. Os nobres e os oficiais, to embaraados como os soldados Para adivinhar a verdadeira causa desta desordem, no pensavam seno
em pr as suas tropas em armas e em boa ordem. As trombetas inglesas soavam, gritos de alarme eram repetidos  volta de cada tenda, e os soldados com o seu grito
nacional: "Por So Jorge e a Inglaterra!"
No entanto, durante uma cena cujo aspecto era to ameaador, o conde de Salisbury, antes de partir  cabea de um pequeno nmero
145
de homens de armas para o encontro que Thomas de Vaux lhe marcara, ordenou, felizmente, que o resto de exrcito ingls ficasse nos seus quartis, se mantivesse pronto
a marchar em socorro de Ricardo se a necessidade assim o exigisse, mas em boa ordem, com disciplina, e no com precipitao tumultuosa que o zelo e os alarmes pela
segurana do rei teriam podido inspirar.
Entretanto, sem se inquietar um s instante com os gritos, exclamaes e o tumulto, que comeavam a redobrar em volta dele, Ricardo, com as vestes em desordem e
a sua espada embainhada, dirigia-se correndo para o monte de So Jorge, no tendo no seu squito seno Thomas de Vaux e dois oficiais da sua casa.
Adiantou-se mesmo ao alarme que a sua impetuosidade excitara e atravessou o lugar em que estavam acampadas as suas bravas tropas d'Anjou, da Normandia, do Poitou
e da Gasconha.
O Cavaleiro do Leopardo, tendo reconhecido o rei e observando a pressa com que corria, convencido que estavam ameaados de qualquer perigo, pegou  pressa na sua
espada e no seu escudo e juntou-se a de Vaux, que dificilmente conseguia seguir as passadas do seu amo impaciente. De Vaux no pde responder a um olhar de curiosidade
que lhe lanou o cavaleiro escocs, seno levantando os ombros.
O rei em breve chegou ao sop do monte de So Jorge, cuja rampa e plataforma estavam cobertas por um ajuntamento considervel de soldados: eram as gentes dos squitos
do arquiduque da ustria, que celebravam, soltando grandes gritos de alegria, o que consideravam como um acto de justia para com a sua honra nacional. O resto desta
multido era composto por espectadores de diferentes nacionalidades, que o dio pela Inglaterra, ou a curiosidade, tinham atrado para ver qual seria o fim desta
cena extraordinria.
Ricardo abriu caminho atravs desta multido em desordem, tal como um navio abre passagem no meio das vagas espumantes, sem se preocupar se se fecham por trs dele.
Sobre a plataforma superior do monte de So Jorge viam-se flutuar as duas bandeiras rivais, em redor das quais estavam ainda reunidos os amigos e os partidrios
do arquiduque. No meio deste crculo, via-se o prprio Leopoldo, contemplando com satisfao o
146
resultado da proeza pela qual acabara de se ilustrar e escutando as aclamaes e os aplausos.
Enquanto o arquiduque se encontrava neste estado de euforia, Ricardo lanou-se no meio desta tropa, no sendo seguido seno por dois homens, na verdade, mas tendo
um exrcito irresistvel na sua impetuosa energia.
- Quem ousou? - exclamou, levando a mo ao estandarte austraco, e falando numa voz semelhante ao som que precede um tremor de terra. - Quem ousou colocar este miservel
farrapo ao lado da bandeira da Inglaterra?
Ao arquiduque no faltava coragem pessoal e era impossvel que ouvisse semelhante pergunta sem a ela responder. Contudo, ficou to surpreendido e perturbado com
a chegada inesperada de Ricardo, que a mesma pergunta foi repetida antes que ele respondesse com uma aparncia de resoluo:
- Fui eu, eu Leopoldo da ustria.
- Pois bem - replicou Ricardo - Leopoldo da ustria ver ento o caso que Ricardo da Inglaterra faz da sua bandeira e das suas pretenses.
com estas palavras, arrancou da terra o pau que sustinha o estandarte, quebrou-o em pedaos, e pisou aos ps a bandeira:
-  assim que trato a bandeira da ustria - acrescentou. Entre os vossos cavaleiros teutnicos, h algum que se atreva a achar isto mal?
Houve um momento de silncio, mas no h homens mais bravos que os alemes:
- Eu! Eu! Eu! - exclamaram vrios cavaleiros do squito do arquiduque, e ele prprio juntou a sua voz s que respondiam ao desafio do rei da Inglaterra.
- Porqu tantas demoras? - exclamou o conde de Wallenrode, guerreiro de estatura gigantesca, oriundo das fronteiras da Hungria.
- Irmos, nobres compatriotas, este homem pisa aos ps a honra do nosso pas. Vinguemo-nos deste insulto e abaixo o orgulho da Inglaterra!
A estas palavras tirou a sua espada e deu um golpe a Ricardo, que teria sido fatal se o cavaleiro escocs no se tivesse precipitado para a frente e no o tivesse
recebido no seu escudo.
147
- Fiz juramento - disse Ricardo, cuja voz se fez ouvir acima da algazarra que estava ento no auge - de nunca matar um homem cujo ombro traz a cruz. Vive pois, Wallenrode,
mas vive para te recordares de Ricardo da Inglaterra.
Ao falar deste modo, rodeou com os braos a cintura do gigante hngaro e, no tendo igual nem na luta nem em nenhum dos outros exerccios militares, deitou-o para
trs com uma tal violncia que o seu corpo, como se tivesse sido lanado por uma das mquinas de guerra desse tempo, atravessou o crculo dos espectadores at 
beira da plataforma e rolou ao longo da rampa at ao sop da elevao, onde o conde ficou como morto, com um ombro deslocado.
Esta prova de fora quase sobrenatural no levou o arquiduque, nem nenhum dos que estavam no seu squito, a renovar uma luta comeada sob to desastrosos auspcios.
Na verdade, aqueles que estavam nas fileiras mais afastadas agitavam as suas espadas no ar e gritavam:
- Faam em bocados esse buldogue insular!
Mas os que estavam mais perto encobriam talvez os seus temores pessoais com um pretenso respeito pela boa ordem, e exclamavam na maioria:
- Paz! Paz! A paz da cruz, a paz da Santa Igreja, a paz do nosso santo pai o Papa!
Estes gritos dos assaltantes mostravam a sua irresoluo, enquanto Ricardo mantinha o p sobre o estandarte arquiducal: os seus olhos pareciam procurar um inimigo,
e faziam baixar os olhos aos nobres austracos que o rodeavam  distncia, como se temessem a garra ameaadora de um leo. De Vaux e o Cavaleiro do Leopardo estavam
a seu lado e, embora as suas espadas estivessem ainda na bainha, era fcil ver que estavam prontos a defender Ricardo at  ltima gota de sangue; e a sua estatura
e fora notveis provavam que a defesa seria desesperada.
Salisbury aproximava-se tambm com a sua tropa, as lanas e as partazanas em riste, e os arcos j esticados.
Neste momento, Filipe, rei da Frana, acompanhado de dois dos seus nobres, chegou  plataforma para se informar da causa deste tumulto, e fez um gesto de surpresa
ao ver o rei da Inglaterra fora do leito onde a doena o retivera durante tanto tempo, fazendo face
148
ao seu aliado comum, o arquiduque da ustria, com um ar de ameaa e de ultraje. O prprio Ricardo corou por ser encontrado por Filipe, de quem respeitava a prudncia,
numa atitude que no convinha  sua dignidade de monarca nem ao seu carcter de cruzado. Observou-se que o seu p, recuando como por acaso, deixou de se apoiar sobre
a bandeira e as suas feies tomaram uma expresso de afectado sangue-frio. Leopoldo fez tambm esforos para mostrar uma certa calma, embora se sentisse mortificado
por ter uma nova testemunha da sua submisso aos insultos do impetuoso rei da Inglaterra. Dotado com as grandes qualidades que lhe fizeram dar pelos seus sbditos
o sobrenome de Augusto, Filipe teria podido ser chamado o Ulisses da cruzada, como Ricardo era o Aquiles. O rei da Frana era sbio prudente, reflectido no conselho,
firme quando se tratava de agir; sabia encontrar as medidas mais convenientes aos interesses do seu reino, e seguia-as com constncia; finalmente, tinha um porte
verdadeiramente real, e no lhe faltava bravura. Mais poltico do que guerreiro, no tinha tomado parte na cruzada por iniciativa prpria e fora conduzido para esta
expedio tanto a instncias da Igreja como pelos desejos unnimes de toda a sua nobreza. Em qualquer outra situao, e num sculo mais esclarecido, o seu renome
ter-se-ia elevado mais alto do que o do temerrio Corao de Leo. Mas na cruzada, empresa absolutamente insensata em si prpria, uma razo s era qualidade de que
se fazia menos caso, e julgava-se que o valor cavalheiresco, unido  sabedoria, era quase desgraado por esta aliana. Assim, o mrito de Filipe, comparado com o
do seu altivo rival era como a luz clara, mas fraca, de uma lamparina, colocada perto do vivo fulgor de uma tocha que, sem ser to til, age mais longe sobre os
olhos.
Filipe sabia que a opinio pblica o colocava numa condio inferior, e sentia o despeito natural a um prncipe de esprito elevado. No se pode pois ficar surpreendido
que aproveitasse todas as ocasies que se apresentavam para pr o seu carcter em contraste com o do seu rival, sob a luz mais vantajosa. Aquela que se lhe oferecia
parecia-lhe uma na qual era provvel que a calma e a prudncia levassem a melhor  violncia e  obstinao.
-  Que significa esta querela imprpria - perguntou - entre dois prncipes que juraram fraternidade ao tomar a cruz?
149
Que aconteceu entre Sua Majestade o rei da Inglaterra e Sua Alteza o arquiduque da ustria? Como  que aqueles que so os chefes e os pilares desta santa expedio...
- Basta de censuras, Filipe! - exclamou Ricardo, ultrajado no fundo do corao por se ver colocado ao mesmo nvel de Leopoldo e no sabendo bem como mostrar o seu
ressentimento.
"Esta alteza, este arquiduque, este pilar, se o quiserdes, mostrou-se insolente, e eu castiguei-o, eis todo o caso. No  preciso tanto barulho para que se castigue
um co raivoso.
- Rei da Frana - disse o arquiduque - apelo para vs e para todos os prncipes soberanos, pela indignidade com que acabo de ser tratado. Este rei da Inglaterra
derrubou a minha bandeira, pisou-a aos ps.
- Porque ele tinha tido a audcia de a pr ao lado da minha disse Ricardo.
- A minha condio, igual  tua, dava-me esse direito - respondeu o arquiduque, tornado audacioso pela presena de Filipe.
- Fala-me de igualdade - exclamou Ricardo - e, por So Jorge, tratarei a tua pessoa como tratei o teu leno bordado que aqui est e que no  bom seno para o uso
mais vil.
- Um pouco de pacincia, meu irmo de Inglaterra - disse o rei Filipe - e num instante farei compreender ao arquiduque que est errado neste ponto. No julgues,
nobre Leopoldo - continuou
- que ao permitir que a bandeira da Inglaterra ocupe o ponto mais elevado do nosso acampamento, tenhamos ns, soberanos independentes dos cruzados, reconhecido qualquer
superioridade ao rei Ricardo. Seria uma inconsequncia acreditar nisso, pois que a prpria auriflama do rei Ricardo, que no que respeita s suas possesses francesas,
no  seno vassalo, ocupa neste momento uma situao inferior aos lees da Inglaterra. Mas tendo ns jurado fraternidade sobre a cruz, sendo peregrinos militares
que, deixando de lado a pompa, o orgulho deste mundo, abrimos um caminho, de espada na mo, em direco ao Santo Sepulcro, eu e os outros prncipes, por respeito
pelos gloriosos feitos de armas do rei Ricardo, demos-lhe esta precedncia, que em qualquer outro lugar e sem este motivo lhe no teramos concedido. Estou convencido
de que, quando tiverdes reflectido no que acabo de vos dizer, expressareis o vosso desgosto
150
por terdes posto a vossa bandeira neste local, e que ento o rei da Inglaterra vos dar a satisfao do insulto de que vos queixais.
O spruchsprecher e hoffnarr tinham-se retirado para uma distncia respeitosa quando parecia de temer haver luta, mas aproximaram-se ao ver que se recorria s palavras.
O homem das sentenas ficou to encantado com o discurso poltico de Filipe que, quando o rei acabou de falar, sacudiu o seu besto com fora; e, esquecendo a presena
de quem se encontrava, exclamou:
- Em toda a minha vida nunca disse nada mais ajuizado.
- Pode ser que seja - disse-lhe Jonas Schwanker, a meia voz.
- Mas seremos fustigados se falas to alto.
O arquiduque respondeu de mau humor que transmitiria esta querela ao Conselho Geral da cruzada. Filipe, aplaudiu esta resoluo que parecia dever pr fim a um escndalo
capaz de se tornar funesto a toda a cristandade.
Ricardo, conservando sempre a mesma atitude de despreocupao, escutou Filipe at que a fonte da sua eloquncia pareceu ter secado e disse seguidamente em voz alta:
- Sinto-me ensonado, creio que tenho ainda um resto desta maldita febre. Meu irmo de Frana, conheces o meu gnio; sabes que, em nenhum caso, tenho muitas palavras
a dizer. Fica sabendo, pois, uma vez por todas, que no submeterei um assunto que diz respeito  honra da Inglaterra a nenhum prncipe, nem a nenhum conselho, nem
ao prprio Papa. Eis aqui a minha bandeira; se arvorarem uma outra a uma distncia de trs tiros de besta, fosse ela a prpria auriflama, de que julgo que falveis
h momentos, ser tratada como este farrapo. No darei outra satisfao seno a que pode ser dada por estes membros doentes na lia, se a ousassem chamar-me.
- Agora - disse o bufo ao ouvido do seu companheiro - eis as palavras to loucas como se eu prprio as tivesse pronunciado; julgo, no entanto, que se poderia encontrar
neste assunto um louco ainda maior do que Ricardo.
- Quem ento? - perguntou o homem sentencioso.
- Filipe ou Leopoldo - respondeu o hoffnarr - se um dos dois aceitasse o desafio. Mas, sbio spruchsprecher, que excelentes reis tu e eu teramos sido, j que aqueles
na cabea de quem assentaram
151
as coroas desempenharam o papel de loucos, to bem como ns prprios.
Enquanto estes dignos colegas desempenhavam entre eles as suas funes usuais, Filipe respondeu friamente ao desafio quase injurioso de Ricardo.
- No vim aqui - disse - para despertar novas querelas. Deixo o meu irmo de Inglaterra como os irmos se devem separar; e no haver querela entre os lees de Inglaterra
e as flores de Frana seno para saber quem penetrar mais avante nas fileiras dos infiis.
- Negcio concludo, meu irmo - exclamou Ricardo, estendendo-lhe a mo com toda a franqueza do seu carcter generoso na sua impetuosidade. - Pudssemos ns encontrar
em breve a ocasio de resolver esta nobre querela!
- Que o nobre arquiduque partilhe tambm a nossa amizade neste feliz momento! - disse Filipe; e Leopoldo aproximou-se com um ar sombrio, como para entrar em conciliao,
meio de vontade, meio constrangido.
- No penso nem nos loucos nem na sua loucura - disse Ricardo, num tom despreocupado; e o arquiduque, virando-lhe as costas, retirou-se com o seu squito.
Ricardo seguiu-o com os olhos durante alguns instantes.
- H uma espcie de coragem - disse ele - que, tal como o verme luminoso, no se mostra seno de noite. Durante o dia, o olhar de leo basta para proteger esta bandeira;
mas no a posso deixar sem defesa durante as trevas. Thomas de Gilsland, confio-te a guarda deste estandarte; vela sobre a honra de Inglaterra.
- A salvao da Inglaterra -me ainda mais cara - respondeu Thomas de Vaux - e a vida de Ricardo  a salvao da Inglaterra.  necessrio que reconduza Vossa Majestade
ao seu pavilho e isto sem demora.
- s um guarda-doentes obstinado - disse o rei a de Vaux, sorrindo ; e, virando-se em seguida para Sir Kenneth, acrescentou:
- - Bravo escocs, devo-te a minha recompensa e pagar-te-ei ricamente. Vs a bandeira da Inglaterra, vela sobre ela como um nobre vela sobre as suas armas na noite
que precede o dia em que deve ser armado cavaleiro; no te afastes mais que o comprimento de trs
152
lanas, e defende-a contra todo o insulto e toda a injria. Se fores atacado por mais de trs pessoas de uma vez, faz soar a tua trompa. Encarregas-te desta misso?
- De muito boa vontade, sir - respondeu Kenneth - e cumpri-la-ei mesmo que tenha de perder a cabea. Vou somente buscar as minhas armas e regresso j.
Os reis da Frana e da Inglaterra despediram-se ento, fingindo esquecer os motivos de queixa que tinham um contra o outro.
Os curiosos afastaram-se ento, deixando o monte de So Jorge na mesma solido que a reinara antes da bravata do arquiduque. Cada um julgou os acontecimentos do
dia segundo os sentimentos que o animavam; e, enquanto os ingleses acusavam o austraco de ser o nico causador da querela, os das outras naes concordavam em lanar
a culpa maior sobre o orgulho insular e o carcter arrogante de Ricardo.
- Vs - disse o marqus de Montserrat ao gro-mestre dos Templrios - que a astcia  uma via mais segura do que a violncia? Afrouxei os ns que uniam este feixe
de ceptros e de lanas; v-los-s em breve separar-se, caindo.
- Teria olhado o teu plano como excelente - respondeu o templrio - se se encontrasse entre estes austracos de sangue gelado um s homem que tivesse a coragem suficiente
para cortar, com um golpe de espada, os ns de que falas.
153

CAPITULO XII
"Mas onde encontrar cidadela bastante forte,
Corao de mortal armado de tal sorte.
Para que no se possa por fim dele apoderar-se
Ou pela astcia um dia a penetrar?
Nada  certo nem notvel sobre a terra.
O brao que os raios da guerra armam
Cede  habilidade e v-se desarmado
E o corao frio, que nunca amou
A beleza, que desafia os encantos,
Cede por sua vez e entrega tambm as armas."
SPENSER 1
Os sculos da cavalaria, um posto perigoso ou uma aventura temerria eram frequentemente uma recompensa concedida  bravura militar.
Era meia-noite, e a Lua brilhava em todo o seu fulgor enquanto o Cavaleiro do Leopardo se conservava no seu posto sobre o monte de So Jorge, perto da bandeira da
Inglaterra, sentinela solitria encarregada de proteger o emblema desta nao.
Grandiosos pensamentos se sucediam uns aos outros no esprito do guerreiro escocs. Parecia-lhe que ganhara algum favor aos olhos desse monarca cavalheiresco. Inquietava-o
pouco que a prova da estima do rei consistisse em lhe confiar um posto to perigoso; a devoo do seu amor ambicioso inflamava tambm o seu entusiasmo
1 Traduo livre.
155
militar. Parecia-lhe que o que acabara de se passar diminua algo da distncia que o separava daquela que amava. Aquele a quem Ricardo acabara de conceder uma tal
marca de confiana de distino j no era um aventureiro de pouca importncia, mas um homem digno de obter o olhar de uma princesa, embora ainda muito longe de
se achar ao seu nvel. O seu destino agora j no podia ser obscuro nem desconhecido. Se fosse surpreendido no posto que lhe era confiado, se perdesse a vida defendendo-o,
a sua morte, j que estava decidido a torn-la gloriosa, mereceria os elogios de Corao de Leo chamaria a vingana deste prncipe e seria seguida do desgosto e
at das lgrimas das belezas do sangue mais ilustre da Corte da Inglaterra.
Sir Kenneth tinha todo o tempo livre para se entregar a estas nobres ideias e a outras que fazia nascer na sua imaginao o esprito romanesco da cavalaria. Em redor
dele tudo parecia entregue ao sono, na calma do luar ou na profundeza da sombra. As filas de tendas e de pavilhes, que os raios do astro da noite faziam brilhar
ou que as trevas escondiam em parte, estavam silenciosas como as ruas de uma cidade deserta.
Perto da haste, no alto da qual flutuava a bandeira real, estava deitado o grande galgo de que j falmos, nico companheiro que Kenneth escolhera ao montar a sua
guarda, e sob a vigilncia do qual contava para o advertir a tempo da aproximao de qualquer inimigo. O nobre animal parecia compreender, pois que levantava a cabea
de tempos a tempos para olhar a bandeira cujas dobras se desenrolavam conforme o vento.
Quando a voz das sentinelas, colocadas nas defesas exteriores do acampamento, se fazia ouvir ao longe, respondia com um nico latido, como para anunciar que tambm
vigiava no seu posto; algumas vezes baixava a cabea e abanava a cauda quando o cavaleiro passava e tornava a passar perto dele, passeando perto do estandarte, e
quando Sir Kenneth parava, distrado e silencioso, apoiado sobre a sua lana e de olhos levantados ao cu, o seu fiel companheiro aventurava-se por vezes a perturbar
os seus pensamentos, pousando o focinho sobre a sua mo coberta de um guante, para solicitar uma carcia passageira. De repente, contudo, ps-se a ladrar furiosamente
e pareceu prestes a lanar-se para o lado em que
156
as trevas eram mais espessas; mas esperou o sinal do seu amo, como se estivesse pela trela.
- Quem vem l? - gritou Kenneth, convencido de que algum avanava na obscuridade.
- Em nome de Merlin e de Mangis - respondeu uma voz cida e desagradvel - retende o vosso demnio de quatro patas ou no me aproximarei de vs.
- E quem s tu para quereres aproximar-te do meu posto? perguntou o cavaleiro, fixando os olhos atentamente num objecto que via mover-se mas de que no podia ainda
destinguir a forma.
- Digo-vos para reter este satans de compridos dentes ou conjur-lo-ei com uma seta do meu arco.
E ao mesmo tempo Sir Kenneth ouviu o rudo que faz esta arma quando se retesa.
- Desarma o teu arco e mostra-te ao luar - exclamou o escocs
- ou, por Santo Andr, quem quer que sejas pregar-te-ei contra o solo.
A estas palavras, pegou na sua longa lana e, fixando os olhos sobre o objecto que parecia mover-se, brandiu-a no ar como para se preparar o uso que por vezes se
fazia desta arma, embora raramente, quando no havia outra seta a empregar.
No entanto, ficou quase envergonhado da sua precipitao quando viu sair da obscuridade, como um actor que chega do teatro, um ser disforme que, pela estatura e
pelo traje, reconheceu, mesmo a alguma distncia, como o ano da capela d'Engaddi. Recordando-se ao mesmo tempo de outras vises de um gnero bem diferente que tivera
nessa noite memorvel, fez ao co um sinal logo compreendido e o animal voltou a deitar-se aos ps da bandeira, rosnando surdamente.
Este disforme diminutivo da humanidade, no receando j um mimigo to formidvel, comeou a subir a rampa bastante escarpada do monte de So Jorge, tarefa que o
pouco comprimento das suas pernas tornava penosa, e chegou ofegante  plataforma. Fazendo ento passar para a mo esquerda o seu arco, que no era seno um desses
brinquedos que ento se davam s crianas para atirar aos pardais, tomou uma atitude de grande dignidade e estendeu a mo direita para Sir Kenneth, como se esperasse
receber dele
157
uma saudao de armas. Achando-se frustrado na sua expectativa, exclamou numa voz azeda e arreliada:
- Soldado, porque no presta a Nebectamus as honras que  sua dignidade so devidas? Seria possvel que o tivesses esquecido?
- Grande Nebectamus - respondeu o cavaleiro, querendo lisonjear o ano - semelhante esquecimento seria difcil para quem quer que te viu uma vez. Perdoa-me no entanto,
se, sendo um soldado no seu posto com as armas na mo, no concedo a um ser to formidvel como tu a vantagem de me poder agarrar sem eu estar em guarda e de se
apoderar das minhas armas. Que te baste que eu respeite a tua dignidade com toda a submisso e a humildade que pode mostrar um homem de armas de sentinela.
- Isso basta - disse Nebectamus - desde que me sigas imediatamente para te levar  presena daqueles que me enviaram aqui para vos dar a ordem.
- Sir Nebectamus - replicou o cavaleiro - no te posso satisfazer nesse aspecto porque devo permanecer junto desta bandeira at ao nascer do Sol. Peo-te, pois,
que me desculpes a esse respeito.
A estas palavras recomeou a passear sobre a plataforma; mas o ano no o deixou escapar to facilmente  sua insistncia:
- Escuta-me, sir cavaleiro - disse-lhe, colocando-se diante dele de modo a impedi-lo de marchar -  preciso que me obedeas como o teu dever o exige, ou dar-te-ei
ordens em nome daquela cuja beleza poderia evocar os gnios da sua esfera e cuja grandeza poderia comandar a raa imortal de que so descendentes.
Uma conjectura estranha e inverosmil apresentava-se ao esprito de Sir Kenneth, mas afastou-a imediatamente. " impossvel pensou - que a dama dos meus pensamentos
tenha utilizado um tal mensageiro para enviar semelhante ordem!" No entanto, o cavaleiro no respondeu seno com uma voz trmula, afectando sorrir desdenhosamente.
- No brinques, Nebectamus, e diz-me imediatamente com sinceridade se a dama ilustre de que falas no  a huri que vi ajudar-te a varrer a capela d'Engaddi.
- Presunoso cavaleiro! - exclamou o ano. - Pensas tu que a dona das nossas afeies reais, aquela que partilha a nossa grandeza
158
e a nossa beleza, se queria rebaixar at enviar uma mensagem a um vassalo como tu? No, qualquer que seja a honra insigne que te  concedida, no mereceste ainda
a ateno daquela para quem os prprios prncipes no parecem seno pigmeus. Olha para isto e, conforme reconheceres ou no reconheceres esta jia, obedece ou recusa
obedecer.
Falando assim, o ano entregou ao cavaleiro um anel ornado de um soberbo rubi, que mesmo ao luar, Sir Kenneth reconheceu sem dificuldade por aquele que geralmente
trazia no dedo a nobre dama ao servio da qual se consagrara. Se tivesse podido conservar qualquer dvida, teria sido convencido pelo pequeno n de fita encarnada
que estava preso ao anel.
O espanto tornou-o mudo e imvel, vendo em semelhantes mos esta prova incontestvel de uma misso.
O ano, assumindo ento um ar de triunfo, deu uma gargalhada e exclamou, abanando a sua grande cabea:
- Ousai agora recusar seguir-me; ousai desobedecer s minhas ordens; ousai duvidar que sou Arthur de Tintagel, tendo o direito de dar ordens a toda a cavalaria inglesa!
- Em nome de tudo o que h de mais sagrado - exclamou o cavaleiro - diz-me quem te deu esse anel; tenta fixar um minuto ou dois a tua razo errante e informa-me
de quem te enviou e qual  o verdadeiro fim da tua mensagem; toma muito cuidado no que vais dizer, porque  um assunto que no admite brincadeiras.
- Cavaleiro temerrio e insensato, que queres tu saber mais, seno que s honrado pelas ordens de uma princesa que escolheu um rei para te as trazer? No nos dignaremos
parlamentar por mais tempo contigo. Ordenamos-te, em nome e pelo poder deste anel. que nos sigas imediatamente e vs ter com aquela a quem ele Pertence. Cada minuto
de atraso,  um crime contra a tua vassalagem.
- bom Nebectamus, reflecte bem nisso. Esta dama sabe onde estou e qual o dever que tenho de cumprir esta noite? Sabe ela que a minha vida... mas para qu falar da
minha vida? Sabe ela que a minha honra depende da minha exactido em guardar esta bandeira at ao despontar do dia? Pode ela desejar que a perca, mesmo para a Ver?
 impossvel! A princesa quis-se divertir a expensas do seu
159
servidor enviando-lhe tal mensagem e a escolha do mensageiro que me envia deve-me fazer acreditar ainda mais.
- Conservai a vossa crena - disse Nebectamus voltando-se como para abandonar a plataforma - pouco me importa que sejais rebelde ou fiel a esta ilustre dama. Adeus.
- Um instante! - exclamou o cavaleiro. - Espera um instante! Responde somente a uma pergunta: a dama que te enviou est perto daqui?
- Que importa? - respondeu o ano. - Deve a fidelidade contar os quartos de milha e as lguas, como o pobre correio que  pago nos seus trabalhos em razo da distancia
que percorre? O que quer que seja, esprito desconfiado, dir-te-ei que a bela mo que usualmente traz o anel enviado a um to indigno vassalo no est seno a distancia
que uma seta, lanada pelo o que o meu arco poderia abrir.
Sir Kenneth deitou um novo olhar ao ano como para se assegurar bem de que se no enganava.
- Diz-me - perguntou ao ano - a minha presena  requerida por um longo espao de tempo?
- Longo espao de tempo! - repetiu Nebectamus, no tom que anunciava a ligeireza do seu crebro. - Que chamais tempo? No o vejo; no o sinto, mas  seno a sombra
de uma palavra, uma sequncia de instantes medidos  noite pelo som de um sino, e de dia pela sombra solar. Fica sabendo que o tempo de um verdadeiro cavaleiro no
se deve contar seno pelas suas proezas em honra de Deus e da sua dama.
- So palavras da verdade - disse o cavaleiro - embora saiam da boca da loucura. E essa dama chama-me realmente para me impor algum dever a cumprir para ela e em
seu nome? A obedincia s suas ordens no poderia ser deferida at ao nascer do Sol?
- Requer a tua presena imediatamente - respondeu o ano sem perder tanto tempo quanto fosse necessrio para que dez gros de areia tombassem na ampulheta. Escuta-me,
frio e desconfiado cavaleiro, eis as suas prprias palavras: "Diz-lhe que a mo que deixou cair rosas pode conceder louros."
Esta aluso ao que se passara na capela d'Engaddi fez nascer mil recordaes no esprito de Sir Kenneth e convenceu-o de que o ano
160
fora verdadeiramente encarregado de uma misso para ele. Os botes de rosa por muito murchos que estivessem, ocupavam ainda um lugar sob a sua couraa, perto do
seu corao, como o seu mais precioso tesouro.
Hesitou e no se resolveu a deixar escapar esta ocasio, a nica que talvez aparecesse, de obter um olhar favorvel daquela que reconhecera como soberana dos seus
pensamentos.
Contudo, o ano aumentava a sua confuso, insistindo para que lhe devolvesse o anel ou o seguisse imediatamente:
- Um instante! Um instante ainda? - disse o cavaleiro, e acrescentou como falando para consigo: - Sou eu escravo ou sbdito do rei Ricardo? No sou eu um cavaleiro
livre, devotado ao servio da cruzada? Que vim aqui servir com a lana e com a espada? A nossa santa causa e a minha dama!
- O anel? O anel?! - gritou o ano num tom de impacincia.
- Desleal e descuidado cavaleiro, devolve-me este anel, que s indigno de tocar ou de olhar.
- Um momento, bom Nebectamus, um momento: no me perturbes nas minhas reflexes. O qu! Se os sarracenos viessem neste instante atacar as nossas linhas, ficaria
aqui como vassalo submisso "ia Inglaterra, ocupado a velar para que o seu orgulho no sofresse humilhao, ou correria para a brecha para combater pela cruz? Mas
depois da causa de Deus vm as ordens da minha dama... E no entanto as de Corao de Leo, a minha promessa... Nebectamus, rogo-te, diz-me se me deves conduzir para
longe daqui.
- Aquele pavilho que vs l em baixo - respondeu Nebectamus. - E j que tens necessidade de o saber, a luz da manh toca j na esfera de ouro que coroa o cume e
que vale o resgate de um rei.
- Posso estar de regresso num instante - disse o cavaleiro, fechando os olhos com uma espcie de desespero, por todas as consequncias que a sua resoluo podia
trazer. - Se algum se aproximar da bandeira, posso ouvir de l os latidos do meu co. Lanar-me-ei aos ps da minha dama e suplicar-lhe-ei que me permita acabar
a minha guarda. Aqui, Roswall - gritou chamando o co e lanando o manto para debaixo da bandeira real da Inglaterra. Vela bem por isto e no deixes aproximar-se
ningum...
161
O majestoso co olhou o seu amo como para o assegurar que o compreendia bem, e deitou-se seguidamente sobre o manto, com a cabea levantada e as orelhas direitas,
como se tivesse compreendido perfeitamente porque o tinham colocado ali.
- Vamos Nebectamus - disse ento Sir Kenneth apressemo-nos a obedecer s ordens que me trouxeste.
- Apressar-se- quem quiser - disse o ano mal-humorado. No te apressaste a obedecer s minhas ordens e no posso seguir os teus passos. No marchas como um homem,
corres como uma avestruz do deserto.
No havia seno dois meios para vencer a obstinao de Nebectamus que, ao falar assim, tomara um passo de caracol; os presentes, Kenneth no tinha meios para lhos
dar, para a lisonja no tinha tempo. Na sua impacincia levantou o ano do cho, trouxe-o nos braos e em breve chegou ao pavilho que lhe fora indicado. No entanto,
ao aproximar-se, observou um pequeno destacamento de soldados sentados por terra e que tendas colocadas  frente tinham impedido de aperceber mais cedo. Surpreendido
de que o rudo da sua armadura no tivesse chamado a ateno, e supondo ser possvel que, em circunstncia semelhante, o segredo devesse proteger os seus menores
movimentos, tornou a pr no cho o seu pequeno guia ofegante, para que retomasse flego, e lhe indicasse o que tinha a fazer.
Nebectamus estava assustado e arreliado; mas sentira-se nos braos nervosos do cavaleiro to completamente em seu poder como um mocho nas garras de uma guia, e
no lhe interessava lev-lo a dar-lhe novas provas do seu vigor.
No se queixou pois da maneira como fora tratado; mas, mas fazendo um-desvio no labirinto de tendas, conduziu o cavaleiro em silncio para o outro lado do pavilho,
para o esconder aos olhos dos guardas que pareciam demasiado negligentes ou demasiado ensonados para cumprirem o seu dever com muita exactido. Ao chegar l, o ano
levantou do solo a extremidade do pano da tenda, e fez sinal a Sir Kenneth para se baixar e entrar. O cavaleiro hesitou; parecia-lhe pouco conveniente introduzir-se
furtivamente num pavilho que servia sem dvida de habitao a nobres damas; mas lembrou-se do penhor indubitvel da sua misso, que o ano lhe
162
entregara, e acabou por concluir que no lhe pertencia discutir o bel-prazer da sua dama.
Baixou-se pois para entrar na tenda, e logo que chegou ao interior, o ano disse-lhe:
- Ficai a at que vos chame.
163

CAPITULO XIII
"O qu! nomeias em conjunto Inocncia e Alegria. Mal Ado o fruto fatal provara, Viu nascer de sbito a sua desinteligncia E as duas irms dizerem um eterno adeus!
Da inocncia ocupa pois a Malcia o lugar. Desde os jogos cruis da primeira infncia. Que mata, voltejante, uma pobre borboleta At ao ltimo prazer que tem um
moribundo, Que no seu leito de morte encontra um ltimo sorriso Se sabe que um vizinho expira na misria."
Antiga Comdia 1
DURANTE alguns instantes Sir Kenneth permaneceu s e numa obscuridade completa. A necessidade de esperar assim prolongava a sua ausncia do seu posto e comeou quase
a arrepender-se da facilidade com que se decidira a deix-lo.
Mas voltar sem ter visto Lady Edith era o que j no podia imaginar. Faltara  disciplina militar e estava resolvido a ver realizar-se a espera que o seduzira.
Contudo, a sua situao no era de modo nenhum agradvel: no havia claridade para lhe mostrar em que lugar se introduzira; Lady Edith fazia parte do squito da
rainha, e a descoberta da sua entrada f'urtiva no pavilho real podia ocasionar suspeitas muito graves.
Enquanto quase desejava bater em retirada sem ser apercebido,
1 Traduo livre.
165
reconheceu vozes de mulheres e ouviu rir e conversar num compartimento vizinho de que no estava separado seno por um pano, tanto quanto podia depreender. Acenderam
a lmpadas, como se pde aperceber pela luz que bateu no pano servindo de tabique e viu, como outras tantas sombras, diversas pessoas sentadas ou a andar.
Na situao em que se encontrava, Sir Kenneth, seria severo censur-lo por ter escutado uma conversa na qual se achava profundamente interessado:
- Chamai-a! Chamai-a, pelo amor de Nossa Senhora! - disse uma das invisveis, rindo.
- Nebectamus, sers enviado em embaixadas  corte do Papa Joo para lhe mostrar como te sabes desempenhar de uma misso...
O som cido da voz do ano fez-se ouvir: mas falava to baixo que Sir Kenneth no pde compreender o que dizia.
- Mas como desembaraar-nos do esprito que Nebectamus acaba de evocar? - disse uma outra voz.
- Dignai-vos escutar-me, madame - disse uma terceira. - Se o sbio rei Nebectamus no for demasiado ciumento da sua real e atraente esposa, encarreguemo-la de ir
despedir esse insolente cavaleiro, que to facilmente se deixa persuadir, que elevadas damas podem ter necessidade do seu arrogante valor.
- Parece-me - continuou a voz que acabara de falar - que seria justo que a cortesia da rainha Genivre mandasse embora aquele que a sabedoria do seu digno esposo
conseguiu trazer aqui.
Cheio de vergonha e de ressentimento pelo que ouvira, Sir Kenneth ia procurar evadir-se da tenda, de qualquer maneira, quando o que se seguiu o fez parar:
- Na verdade - disse a segunda voz,  preciso que a nossa prima Edith fique a saber de que maneira se conduziu este to garboso cavaleiro.  preciso reservar os
meios de provar aos seus prprios olhos que ele faltou ao seu dever. Ser uma lio que lhe poder ser til; porque a acreditar-me, Caliste, algumas vezes pensei
que ela trazia a lembrana deste aventureiro escocs demasiado gravada no seu corao.
Caliste murmurou algumas palavras, para fazer o elogio da sabedoria e da prudncia de Lady Edith.
166
Prudncia! - retorquiu uma outra - no  seno orgulho e o
desejo de passar por mais escrupulosa do que qualquer de ns. No, no renunciarei  minha pequena vantagem. Sabeis muito bem que, quando ela vos apanhar em falta,
ningum vos pode mostrar o vosso erro melhor do que Lady Edith, embora seja de uma maneira delicada. Mas ei-la que chega.
A entrada de uma outra personagem foi anunciada por uma sombra que se desenhou na tela, e que deslizou at ficar confundida com as outras. Apesar do amargo desapontamento
que sentia e do insulto que recebera como consequncia, ao que parecia, da malcia ou de uma louca fantasia da rainha Berengre, porque j tinha chegado  concluso
que a que falara mais alto e num tom autoritrio era a esposa de Ricardo, o cavaleiro achava algo de to consolador ao pensar que Edith no fora cmplice da partida
indigna que lhe fora pregada, e a cena que se ia passar era to interessante para a sua curiosidade, que em vez de seguir o propsito mais prudente, procurou, pelo
contrrio, alguma fenda por onde os seus olhos pudessem, como o seu ouvido tomar parte no que ia acontecer.
- com certeza - disse para consigo - que a rainha a quem aprouve pr em perigo a minha reputao e talvez a minha vida, no tem o direito de se queixar se aproveito
a ocasio que o acaso me fornece para conhecer as suas anteriores intenes.
Contudo, parecia que Edith esperava as ordens da rainha, e que Sua Majestade no se atrevia a falar com receio de no poder nem impedir-se de rir nem conter a alegria
das damas do seu squito; porque Sir Kenneth no ouvia seno falar em voz baixa, e com um riso abafado:
- Vossa Majestade - disse por fim Edith - parece de bom humor, embora a semelhantes horas devesse antes ter disposio para dormir. Eu prpria dormia quando soube
que Vossa Majestade me chamava.
- No retardarei por mais tempo o vosso repouso, prima - respondeu a rainha. - Receio, no entanto, que ireis dormir menos Pacificamente quando vos tiver dito que
perdestes a vossa aposta.
-  insistir demasiado numa brincadeira, madame. No fiz aposta nenhuma, embora tenha agradado a Vossa Majestade supor que eu a tenha feito.
167
- A despeito da nossa peregrinao, bela prima. Satans tem poder sobre vs e inspira-vos uma mentira. Podeis vs negar que no apostastes o vosso anel de rubis
contra o meu bracelete de ouro que este cavaleiro do Libbart 1, ou no importa qual o seu nome, no se deixaria convencer a abandonar o seu posto?
- Tenho demasiado respeito por Vossa Majestade para contradizer; mas estas damas podem, se o quiserem, prestar testemunho que foi Vossa Majestade quem props uma
tal aposta e que retirou o meu anel do dedo, enquanto eu persistia em declarar que no julgava conveniente, nem  minha idade nem ao meu sexo, apostar sobre tal
assunto.
- Mas no podeis negar, Lady Edith - disse uma das aias da rainha - que mostrastes muita confiana no valor desse Cavaleiro do Leopardo.
- E se assim fosse - respondeu Edith com vivacidade -  isso razo para intervires a fim de lisonjear o capricho de Sua Majestade? Falei dele como falam todos os
homens que o viram combater e no tinha mais interesse em o defender do que tendes em o atacar De que podem falar as mulheres num acampamento seno de guerreiros
e feitos de armas.
- A nobre Lady Edith - disse uma outra - nunca nos perdoou, a Caliste e a mim, desde que dissemos a Vossa Majestade que deixara cair dois botes de rosa na capela
d'Engaddi.
- Se Vossa Majestade - disse Edith num tom que pareceu a Sir Kenneth o de uma respeitosa censura - no tem outras ordens a dar-me, pedir-lhe-ei licena para me retirar.
- Silncio, Florisa - disse a rainha - e que a nossa indulgncia no vos faa esquecer a distncia que existe entre vs e a parente do rei de Inglaterra. Mas vs,
bela prima - acrescentou, retomando o tom de brincadeira - como podeis vs, boa como sois, censurar alguns instantes de alegria a pobres damas que passaram tantos
dias no meio do choro e do ranger de dentes?
- Possa a alegria de Vossa Majestade ser de longa durao! respondeu Edith. - Quanto a mim, consentirei em nunca mais sorrir durante todo o resto da minha vida de
preferncia a...
**Leopardo.
168
No disse mais. provavelmente por respeito; mas o som da sua voz deu a conhecer a Sir Kenneth que estava muito agitada.
Perdoai a uma princesa inconsiderada, mas divertida, da casa
imperial - disse Berengre. - Mas onde est o grande mal, afinal de contas? Um jovem cavaleiro foi aqui atrado por artimanha; afastou-se ou afastaram-no do seu
posto, que ningum atacar na sua ausncia, por amor da mais bela dama, porque, para prestar justia ao vosso campeo, Edith, foi preciso a Nebectamus nada menos
do que o vosso nome para o convocar eficazmente.
- Justo Cu! - exclamou Edith numa voz que anunciava mais alarme do que mostrara at a. - Vossa Majestade no est a falar a srio. No podeis falar assim, por
respeito pela vossa prpria honra e pela parente do vosso esposo. Dizei que gracejveis, madame, e perdoai-me ter podido duvidar disso um s instante.
- Lady Edith - disse a rainha num tom de descontentamento est zangada por ter perdido o anel que lhe ganhmos. Restitumo-vos o vosso penhor, bela prima; mas no
nos censures um pequeno triunfo que alcanmos.
- Um triunfo! madame - exclamou Edith, indignada. - Um triunfo! O triunfo ser para os infiis, quando souberem que a rainha de Inglaterra pode fazer da reputao
da parente do seu esposo o assunto de uma brincadeira.
- Lamentais a perda do vosso anel favorito, bela prima - disse ;i rainha - mas pronto, j que tanto vos custa pagar o vosso penhor, renunciaremos ao nosso direito.
Foi o vosso nome, foi a vosso anel que trouxeram aqui este cavaleiro, e ns pouco nos preocupamos com o engodo uma vez que o peixe foi apanhado.
- Madame - replicou Edith com impacincia - sabeis muito bem que tudo o que me pertence  de Vossa Majestade, logo que mostre disso o menor desejo; mas daria um
alqueire de rubis para
que no se tivesse servido nem do meu anel nem do meu nome para fazer cometer a um bravo cavaleiro uma falta que pode atrair sobre ele a vergonha e o castigo.
- Oh!  pela segurana do nosso fiel cavaleiro que receamos - disse a rainha. - Avaliais demasiado pequeno o nosso poder, bela prima, se imaginais que uma fantasia
que nos permitimos possa custar a vida a algum. Outras, alm de Lady Edith, podem ter influncia
169
sobre guerreiros revestidos de ferro. Mas o corao de um leo  de carne e no de mrmore; e acreditai-me, tenho o suficiente crdito junto de Ricardo para evitar
ao cavaleiro, no qual Lady Edith toma um tal interesse, o perigo a que o poderia expor a sua desobedincia s ordens do rei.
- Em nome da Santa Cruz, madame! - exclamou Edith; e Sir Kenneth, com uma emoo que seria impossvel descrever, ouvia-a ajoelhar-se aos ps da rainha - por amor
da bem-aventurada Virgem e de todos os santos do calendrio, tomai bem cuidado no que ides fazer, no conheceis ainda o rei Ricardo; s h pouco tempo sois sua esposa;
o vosso sopro poderia to facilmente combater toda a fria do vento do oeste como as vossas palavras persuadir o vosso esposo para perdoar uma falta contra a disciplina
militar. Pelo amor do Cu, mandai embora esse cavaleiro se realmente o atrastes aqui. Quase consentiria em ficar culpada da vergonha de o ter convidado a vir, se
soubesse que est de regresso onde o seu dever exige a sua presena.
- Levantai-vos, prima, levantai-vos - disse a rainha. - E ficai certa que tudo terminar melhor do que o pensais. Levantai-vos, digo-vos eu, minha querida Edith;
estou aborrecida por ter cometido a loucura de pregar semelhante partida a um cavaleiro pelo qual vos interessais to vivamente. No torceis assim as mos; quero
acreditar que no tomais nisso nenhum interesse. Acreditai em tudo o que quiserdes, de preferncia a ver-vos com um ar to desolado. Digo-vos que tomarei toda a
culpa sobre mim. No me olheis com esse ar de censura, vamos encarregar Nebectamus de mandar embora para o seu posto esse cavaleiro da bandeira. Est sem dvida
escondido nalguma tenda vizinha.
- Pela minha coroa de lis - disse Nebectamus. - Vossa Majestade engana-se. Est mais perto do que pensais; est ali escondido atrs de um pano.
- E ao alcance de ouvir tudo o que acabamos de dizer! - exclamou a rainha, surpreendida da parvoce e malignidade.
Mal pronunciara estas palavras, logo Nebectamus fugiu lanando um grito to agudo que  permitido duvidar de que a rainha se tivesse limitado a censuras, no acrescentando
alguma atitude mais sensvel da sua zanga.
170
- Que fazer? - perguntou a rainha a Edith, a meia voz e com evidente inquietao.
- O que a circunstncia exige - respondeu Edith, firmemente.
-  preciso ver este cavaleiro, e pr-nos  sua merc.
E sem tardar um instante, avanou para afastar um cortinado que cobria a entrada que servia de comunicao de uma pea para a outra.
- Pelo amor do Cu, no faais nada! -exclamou a rainha. - Pensai... a minha tenda... a hora, o nosso vesturio... a minha honra...
Mas, antes que tivesse acabado a sua censura, o cortinado fora afastado, e j nada separava as damas do cavaleiro. O calor de uma noite do Oriente levara a rainha
e as suas damas a vestirem-se mais ligeira e simplesmente do que a sua condio e sobretudo a presena de um cavaleiro o exigiam. A rainha recordou-o e, lanando
um grande grito, saiu e passou para uma outra diviso do pavilho, onde as suas aias a seguiram, com excepo de Edith; porque a amargura da sua dor, a sua extrema
agitao, o seu violento desejo de ter uma pronta explicao com o cavaleiro escocs, fizeram-lhe esquecer que a sua pessoa estava menos coberta do que convinha
a donzelas de alto nascimento num sculo que, afinal de contas, no foi a poca em que as damas tinham mais pudor. Um vestido solto e ligeiro de seda encarnada era
quase o seu nico vesturio. A cabea no estava coberta seno com o vu dos seus belos cabelos que, caindo em desordem por todos os lados, escondiam em parte feies
que um misto de confuso, ressentimento e de emoes mais doces cobria de vivo rubor.
Mas, embora ela sentisse a sua situao com esta delicadeza que  o maior encanto do seu sexo, no pareceu pr um instante sequer a sua timidez em balano com o
que devia quele que fora induzido em erro e posto em perigo por causa dela. Limitou-se a pousar sobre uma mesa uma lmpada que trazia na mo e que lanava sobre
ela demasiada claridade; apertou mais a estola de seda ao peito; depois, enquanto Kenneth permanecia imvel no prprio local em que se encontrava quando o cortinado
fora aberto, muito longe de se retirar, deu um passo em direco a ele e exclamou:
- Apressai-vos a regressar ao vosso posto, valoroso cavaleiro. Enganaram-vso para vos atrair aqui. No faais nenhuma pergunta.
171
- No tenho necessidade de fazer - respondeu Kenneth - dobrando o joelho diante dela com a devoo respeitosa de um santo aos ps de um altar, e os olhos fixos na
terra, com receio de que os seus olhares aumentassem o embarao de Edith.
- Ouvistes tudo? - exclamou Edith, com impacincia. - Ento porqu permanecer aqui quando cada minuto que passa vos ameaa com a desonra?
- Sei que estou desonrado - disse o cavaleiro. - E foi da vossa voz que o ouvi. Que me importa o castigo? No tenho seno um pedido a fazer-vos, vou-me lanar no
meio das cimitarras infiis e ver se a desonra se pode lavar no sangue.
- No faas isso, no permaneas aqui por mais tempo e s prudente; tudo correr bem se regressares prontamente ao posto.
- No espero seno o vosso perdo pela pretenso de que me tornei culpado ao acreditar que os meus humildes servios vos poderiam ser teis e merecer alguma estima.
- Sou eu que sou a causa da vossa desgraa. Parti, parti; sim perdoar-vos-ei, estimar-vos-ei como estimo todo o bravo cruzado, se partirdes neste instante.
- Receberei primeiro este penhor - disse o cavaleiro, sempre de joelhos, apresentando a Edith o anel que recebera de Nebectamus.
- No, no! - exclamou ela recusando pegar-lhe. Conservai-o, conservai-o como uma garantia da minha estima, do meu pesar, queria eu dizer; mas parti; se no  por
vs, que seja por mim.
O interesse que a sua dama parecia tomar na sua segurana quase indemnizava Sir Kenneth da perda da honra; levantou-se e, fixando um instante os olhos sobre Edith,
saudou-a profundamente e retirou-se.
O primeiro pensamento que o tirou do seu devaneio foi que era necessrio obedecer e apressou-se a alcanar o local pelo qual entrara no pavilho. Procurar o stio
onde era possvel levantar o pano para passar, era uma operao que exigia tempo e ateno; abreviou-a, fazendo uma abertura com o punhal.
Ao ver-se de novo ao ar livre, sentiu-se esmagado por um tal conflito de sentimentos contraditrios que lhe teria sido impossvel
172
analiz-los; mas estava metido no meio das cordas e dos ferros que serviam para prender as tendas e receava despertar as sentinelas colocadas diante do pavilho
da rainha. Era obrigado, portanto, a marchar cautelosamente at que alcanasse a avenida pela qual o ano o conduzira, sendo necessrio avanar a passos lentos com
medo de dar o alarme.
Uma ligeira nuvem cobria a Lua no momento em que ele saa do pavilho, e isto foi um novo obstculo que teve de vencer. Mas por fim chegaram aos seus ouvidos sons
que lhe restituram subitamente o uso de todas as suas faculdades. Partiam do monte de So Jorge. Primeiramente foi um nico latido, altivo, exprimindo a ameaa
e zanga; mas este foi seguido quase no mesmo instante por um grito de agonia.
Nunca um gamo partiu em mais rpida corrida ao ouvir a voz de Roswall do que o fez Sir Kenneth quando reconheceu o que considerou como o grito de morte desse pobre
animal, demasiado orgulhoso para que uma ferida vulgar lhe tivesse arrancado a menor queixa; transpor num instante o espao que ainda o separava da avenida e correu
em direco  elevao, embora armado de todas as peas, mais depressa do que o teria podido fazer muito cavaleiro que no estivesse como ele carregado com as suas
armas; escalou o monte sem afrouxar o passo e nalguns minutos chegou  plataforma.
A Lua entreabria, nesse momento, a nuvem que a cobria, e fez-Lhe ver que a bandeira de Inglaterra desaparecera; a lana que a sustinha estava por terra, partida
em bocados; o seu fiel co, estendido ao lado, parecia na agonia da morte.
173

CAPITULO XIV
"Perdi, pois, a honra, tesouro que a minha juventude
com to grande cuidado guardava para a minha velhice.
No e seno um ribeiro seco cujo curso
Deixa ver calhaus de que o seu leito est juncado
E que de ps secos, sem dificuldade, uma criana atravessa.
DRYDEN. "Dom Sebastio" 1
EM princpio atordoado e confundido, o primeiro pensamento de Sir Kenneth foi de procurar os autores do insulto feito  bandeira de Inglaterra; mas, para qualquer
lado que voltasse os olhos, no pde aperceber o menor vestgio. O segundo, que poder parecer estranho a algumas pessoas mas no quelas que realmente amaram a
raa canina, foi o de procurar certificar-se do estado em que se encontrava o seu fiel Roswall, mortalmente ferido, segundo parecia, ao cumprir o dever que a seduo
fizera o seu amo abandonar; acariciou o animal moribundo que, at ao fim, parecia esquecer as suas prprias dores Para testemunhar a satisfao que lhe causava a
presena de Sir Kenneth; continuava a abanar a cauda e a lamber-lhe a mo, mesmo ao anunciar pelos seus gemidos que o cavaleiro irritava a sua ferida tentando retirar
um fragmento de lana ou de zagaia que a ficara enterrada; retomava ento as suas fracas carcias, como se receasse ter ofendido o amo deixando-lhe ver que os seus
cuidados no faziam
1 Traduo livre.
175
seno agravar o sofrimento. As provas de afeio que lhe prodigalizava o nobre animal espalhavam uma nova amargura sobre o sentimento de vergonha e de desespero
que aniquilava todas as facilidades de Sir Kenneth. O seu nico amigo parecia ser-lhe arrebatado no prprio instante em que incorrera no desprezo e na indignao
de tudo o que o rodeava. A fora de alma do cavaleiro cedeu a esta angstia; soltou profundos gemidos e no pde mesmo reter as lgrimas.
Enquanto se entregava ao seu desgosto, foram as seguintes palavras pronunciadas perto dele em lngua franca, por uma voz sonora e solene como a de um irmo fazendo
uma prdica numa mesquita:
- A adversidade  como a poca das primeiras e das ltimas chuvas: frias, penosas, desagradveis para o homem e os animais, e no entanto so elas que produzem as
flores e os frutos, que fazem nascer a rosa, a tmara e a rom.
O Cavaleiro do Leopardo voltou-se para quem assim lhe falara numa lngua igualmente compreendida pelos cristos e pelos sarracenos, e viu o mdico mouro que, tendo-se
aproximado sem ter sido ouvido, se sentava um pouco atrs com as pernas cruzadas e recitava solenemente, mas num tom cheio de interesse, as sentenas morais de consolao
que lhe forneciam o Coro e os seus comentadores.
Envergonhado por ter sido surpreendido enquanto exprimia o seu desgosto como o teria feito uma mulher, Sir Kenneth enxugou as lgrimas e ocupou-se de novo do seu
animal moribundo.
- O poeta disse - continuou El Hakim sem parecer prestar ateno ao ar desesperado e aos olhos baixos do cavaleiro -: "O boi para a plancie e os camelos para o
deserto." A mo do mdico no seria mais conveniente do que a do soldado para curar as feridas, embora seja menos capaz de as fazer?
- Este doente, Hakim, j no est em estado de aproveitar os teus socorros - respondeu Sir Kenneth. - Alis, segundo a tua lei,  um animal imundo.
- Quando Al se dignou conceder  criatura a vida e o sentimento da dor e do prazer - disse o mdico - seria um orgulho culpvel, para o sbio que ele esclareceu,
recusar-se a prolongar a sua existncia ou a adoar os seus sofrimentos. A cura de um escudeiro obscuro, de um pobre co ou de um monarca conquistador
176
"O mdico mouro estava sentado sobre as pernas cruzadas  maneira dos orientais."
Desenho de douard Frre, gravado em madeira por Rouget.
Ed. J. Bry, 1852. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.
so acontecimentos entre os quais o sbio no faz distino. Deixa-me examinar a ferida deste animal.
Sir Kenneth consentiu e o mdico examinou a espdua ferida de Roswall com o mesmo cuidado e a mesma ateno como se pertencesse  raa humana. Pegou ento numa caixa
de instrumentos de cirurgia e, servindo-se deles com percia, fez a extraco do fragmento da arma e parou, por meio de uma loo adstringente e ligaduras, a hemorragia
que se seguiu. O pobre animal submeteu-se pacientemente a esta operao, como se tivesse conhecido as intenes benvolas de quem o fazia sofrer.
- Este animal pode curar-se - disse El Hakim, dirigindo-se a Sir Kenneth - se achas bem que o leve para a minha tenda e que o trate com o cuidado que merece a nobreza
da sua natureza; porque  bom que saibas que o teu servidor Adonebec no  menos instrudo na distino das raas e das qualidades dos bons ces e dos nobres corcis
do que na arte de curar as doenas s quais a raa humana est exposta.
- Leva-o - respondeu o cavaleiro -, de bom grado to dou, se lhe restitures a vida. Alis devo-te uma recompensa pelos cuidados que dispensaste ao meu escudeiro,
e no tenho outra coisa para oferecer. Quanto a mim, no soarei mais a trompa para excitar um co  caa.
O mouro no respondeu mas fez um sinal batendo as mos e logo apareceram dois escravos negros. Deu-lhes as suas ordens em rabe e recebeu por resposta: "Ouvir 
obedecer." Pegaram imediatamente no animal e levaram-no sem que fizesse muita resistncia; porque, embora os seus olhos se voltassem para o amo, estava demasiado
fraco para se debater.
- Adeus pois, Roswall - disse Sir Kenneth. - Adeus, meu ltimo e meu nico amigo; s um bem demasiado nobre para pertencer a um ser to degradado como aquele em
que me vou tornar, gostaria - acrescentou, enquanto os escravos se afastavam - de poder trocar de situao com este nobre animal, por moribundo que esteja.
- Est escrito - disse o mdico, embora esta exclamao no lhe fosse dirigida - que todas as criaturas so feitas para o servio do homem e o senhor da terra fala
loucamente quando, na sua impacincia
177
gostaria de trocar as suas esperanas presentes e futuras pela condio servil de um ser inferior.
- Um co que morre cumprindo os seus deveres - respondeu o cavaleiro com veemncia - vale mais do que o homem que os esquece. Deixa-me, Hakim. Possuis, quase at
ao milagre, a cincia mais maravilhosa de que o homem foi dotado; mas as feridas do esprito esto acima do teu poder.
- No - respondeu Adonebec - desde que o doente queira dar a conhecer os seus sofrimentos e deixar-se guiar pelo conselho do mdico.
- Fica sabendo, pois, j que s to obstinado - disse Sir Kenneth - que esta noite a bandeira da Inglaterra estava desfraldada sobre esta elevao e eu estava encarregado
de a guardar; a luz do dia comea a aparecer; vs esta haste partida, a bandeira desapareceu e eis-me vivo ainda!
- Como! - disse el Hakim examinando-o. - A tua armadura est inteira; as tuas armas no esto tintas de sangue e a fama assegura que no s homem para regressar
assim do combate. Deixas-te arrastar, para longe do teu posto, pelas faces rseas e os olhos negros de uma destas huris a quem vs, nazarenos, fazeis votos de uma
obedincia tal como a que s Al se deve; no me engano, porque foi sempre assim que o homem sucumbiu desde os tempos do sulto Ado.
- E se assim fosse, mdico - disse o cavaleiro, com um ar sombrio - onde est o remdio?
- A cincia  a me do poder - respondeu El Hakim - tal como o valor  suplemento da fora. Escuta-me: o homem no  uma rvore acorrentada pela raiz; no foi formado
para se prender ao rochedo como a concha, que dificilmente merece um lugar entre as criaturas animadas. As tuas prprias escrituras crists ordenam quele que 
perseguido numa cidade para fujiir para outra; e ns, muulmanos, sabemos tambm que Maomet, o profeta de Al, expulso da santa cidade de Meca, encontrou em Medina
um refgio para ele e para os seus companheiros.
- E em que  que isso me diz respeito? - perguntou o escocs.
- Vais sab-lo - respondeu o mdico. - O prprio sbio foge da tempestade que no pode dominar. Faz pois a diligncia, foge 
178
vingana de Ricardo e pe-te ao abrigo sob a bandeira vitoriosa de Saladino.
-  verdade - disse Kenneth, com ironia - que poderia esconder a minha desonra num acampamento de pagos infiis, onde essa palavra  desconhecida. Mas no faria
melhor em me assimilar a eles mais completamente? O teu conselho no iria at ao ponto de me recomendar que envergasse o turbante? Parece-me que no falta seno
a apostasia para consumar a minha infmia.
- No blafemes, nazareno! - exclamou El Hakim, vivamente.
- Saladino no procura converter  lei do Profeta seno aqueles que foram convencidos. Abre os olhos  luz, e o grande sulto, cuja liberdade  sem limites como
o seu poder, dar-te- um reino; permanece na tua cegueira, se quiseres; e sendo do nmero daqueles cuja segunda vida  votada  misria, nem por isso deixars de
te tornar rico e feliz durante esta, por Saladino. Mas no receies que a tua fronte alguma vez seja rodeada pelo turbante, a no ser voluntariamente e por tua prpria
escolha.
- A minha escolha seria de preferncia - disse o cavaleiro - o suplcio que me espera antes do pr do Sol.
- No s prudente em recusar esta bela oferta, nazareno - disse El Hakim. - Porque tenho crdito junto de Saladino, e pr-te-ia muito alto nas suas boas graas.
Toma bem ateno, meu filho. Esta cruzada, como chamais  vossa louca empresa,  como um grande navio que se vem despedaar no meio das vagas. Tu prprio foste portador
de protestos de paz ao poderoso Saladino, da parte dos reis e dos prncipes cujas foras esto aqui reunidas, mas no sabes talvez exactamente em que consistem.
- No o sei e preocupo-me pouco com isso - respondeu Kenneth, impacientemente. - Que me importa ter sido o enviado de Prncipes, quando antes da noite serei um cadver
desonrado e susPenso de uma forca?
O que digo tem por fim evitar essa desgraa - replicou Adonebec. - Saladino  cortejado por todas os lados; os prncipes que compem esta liga formada contra ele,
fizeram propostas de paz, que em qualquer outra circunstncia a sua honra talvez lhe tivesse permitido conceder. Alguns fizeram-lhe at separadamente ofertas Particulares
e propuseram-lhe retirar as suas foras do acampamento
179
dos reis do Frangisto e at mesmo de as juntar s suas para defender o estandarte do Profeta.
"Mas Saladino no quer aproveitar-se de uma tal traio, de uma defeco to interesseira. O rei dos reis no tratar seno com o rei de Leo. Saladino no concluir
arranjo definitivo seno com Melet Ric; e tratar com ele como prncipe ou combat-lo- como valoroso campeo. Conceder a liberdade de peregrinao a Jerusalm
e a todos os lugares que os nazarenos tm em venerao. Chegar mesmo a partilhar o seu imprio com seu irmo Ricardo, ao ponto de lhe permitir colocar uma guarnio
crist nas seis mais fortes praas da Palestina assim como em Jerusalm e elas ficaro sob o comando imediato dos oficiais do rei Ricardo, a quem Saladino consente
em conceder o ttulo de rei guardio de Jerusalm.
"Por muito estranho e incrvel que tudo isso te possa parecer, sir cavaleiro, dir-te-ei uma coisa que ainda te parecer mais, porque sei que se pode confiar  tua
honra o segredo mais importante. Fica sabendo que Saladino, para pr um selo sagrado nesta feliz unio dos dois mais nobres e mais bravos prncipes do Frangisto
e da sia, elevar  categoria de esposa uma donzela crist de sangue do rei Ricardo, conhecida sob o nome de Lady Edith Plantageneta '1
- Ah! que dizes tu? - exclamou Sir Kenneth, que escutara com indiferena tudo o que El Hakim lhe dissera at a. Contudo, por um grande esforo sobre si prprio,
conseguiu moderar-se reprimindo a indignao; e, velando-a sob a aparncia de uma dvida desdenhosa, continuou a conversa, a fim de obter tantos detalhes quantos
pudesse sobre a intriga, pois tal lhe parecia este projecto, contra a honra e a felicidade daquele que no amava menos depois que esta paixo parecia ter sido o
escolho da sua boa fortuna e da sua honra.
- Que cristo - disse - quereria sancionar uma unio contra a natureza, tal como  a de uma rapariga crist com um descrente sarraceno?
1 Esta proposta pode parecer to extraordinria, que vem a propsito dizer que teve de facto lugar. Contudo, em lugar de Edith, os historiadores falam da Rainha
de Npoles, irm de Ricardo, e substituem a este prncipe um dos seus irmos. Parece ter ignorado a existncia de Edith Plantageneta. Ver "A Histria das Cruzadas".
por Mill. II. p. 61.
180
- No s seno um nazareno ignorante e supersticioso - respondeu Adonebec. - No vs todos os dias prncipes muulmanos desposar em Espanha nobres raparigas crists,
sem que os mouros nem os cristos fiquem escandalizados? Alis, cheio de confiana no sangue de Ricardo, Saladino conceder  jovem inglesa a mesma liberdade que
os costumes do Frangisto concedem s mulheres. Permitir-lhe- o livre exerccio da sua religio, visto que no fundo pouco importa qual a f que as mulheres professam.
Elev-la- em condio e autoridade acima de todas as mulheres do seu "zenana". Numa palavra, ser, sob todos os aspectos, rainha absoluta, e a sua nica esposa.
- O qu! - exclamou Sir Kenneth - atreves-te a crer, muulmano, que Ricardo consinta que a sua parente, uma princesa virtuosa e de alta condio, se torne, quando
muito, na primeira concubina do harm de um infiel? Fica sabendo, Hakim, que o ltimo dos nobres livres da cristandade se revoltaria s  ideia de assegurar  sua
filha este esplendor ignominioso.
- Enganas-te - respondeu o mdico. - Filipe de Frana e Henri de Champagne, e outros aliados de Ricardo, ouviram esta proposta sem estremecer, e prometeram, tanto
quanto pudessem, favorecer uma aliana que poria fim a estas guerras desastrosas. O sbio arcebispo de Tyr encarregou-se de falar nisso ao rei de Inglaterra e no
duvida conseguir fazer-lhe aceitar este plano. A sabedoria do sulto faz ainda segredo deste projecto a outros prncipes, tais como o marqus de Montserrat e o gro-mestre
dos Templrios, porque sabe que os seus planos ambiciosos no tm por fim seno a morte e a ignomnia de Ricardo.
"Levanta-te pois, sir cavaleiro, e monta a cavalo. Entregar-te-ei uma carta que te tornar favorvel ao sulto. E no acredites que tras o teu pas, a sua causa
ou a sua religio, pois que os interesses dos dois monarcas em breve sero os mesmos. Saladino ficar encantado por ouvir os teus conselhos, porque podes inform-lo
de muitas coisas respeitantes aos casamentos dos cristos, a maneira como tratam as suas mulheres, e outros pontos, das suas leis e dos costumes que  importante
que conhea no instante de concluir semelhante tratado. Saladino, uma vez aliado com a Inglaterra, no ter qualquer dificuldade em obter de Ricardo no somente
que te
181
perdoe e te restitua as suas boas graas, mas que te confie um comando honroso entre as tropas que poder deixar aqui para a manuteno do seu governo e do de Saladino
na Palestina. Levanta-te, pois, e a cavalo; o caminho  sempre a direito.
- Hakim - respondeu o cavaleiro - s um homem de paz, salvaste a vida de Ricardo de Inglaterra e a do meu pobre escudeiro, Stranchan. Ouvi at ao fim um relato que,
se me tivesse sido feito por qualquer outro muulmano que no tu, teria terminado com uma punhalada. Hakim, em troca da tua benevolncia, aconselho-te a ter cuidado
em que o sarraceno que vier propor a Ricardo uma aliana entre o sangue dos Plantagenetas e o da sua raa maldita, tenha a cabea coberta com um capacete em estado
de suportar um golpe de maa-de-armas semelhante ao que fez cair a porta de Acre. Sem esta preocupao, certamente que no ficaria em estado de recorrer  tua arte.
- Ests pois teimosamente decidido a no procurar um asilo no meio do exrcito dos sarracenos? - perguntou Adonebec. - Lembra-te, contudo, que ficar aqui  correr
para a tua perda; e a tua lei, como a nossa, probe ao homem destruir o tabernculo da sua vida.
- Praza a Deus que o no esquea! - disse o escocs, fazendo o sinal-da-cruz. - Mas -nos tambm proibido fugir ao castigo que os nossos crimes merecem; e j que
no tens seno ideias to errneas da fidelidade, Hakim, lamento ter-te dado o meu bom co pois, se se curar, ter um dono que no conhecer todo o seu valor.
- Um presente que nos arrependemos de ter dado est j revogado - disse El Hakim. - Ns, os mdicos, temos como lei nunca mandar embora um doente antes de o ter
curado; mas se o vosso co no morrer  ainda vosso.
- Basta, basta, Hakim - respondeu Sir Kenneth. - No se deve falar nem de ces nem de falces quando talvez se tenha uma hora de dia entre si e a morte. Deixa-me
recordar os meus pecados e reconciliar-me com o Cu.
- Deixo-te na tua obstinao - disse o mdico. - Um nevoeiro esconde o precipcio aos olhos dos que esto predestinados a l cair-
Retirou-se a passos lentos, voltando a cabea de tempos a tempos, como para ver se uma palavra ou um sinal no poderia abalar a resoluo do cavaleiro que se abandonava
 sua sorte.
182
Por fim, o seu turbante desapareceu no meio do labirinto de tendas que se entendiam muito para alm do monte de So Jorge.
Embora os conselhos de Adonebec no tivessem feito sobre Kenneth a impresso que este sbio teria desejado, as suas palavras sugeriram-lhe um motivo para desejar
viver, e por desonrado que estivesse a seus prprios olhos, j no sentia vontade de abandonar a vida como se abandona um fato sujo. A lembrana de tudo que se passara
entre o ermita e ele, em Engaddi, ou entre o anacoreta e llderim, confirmou-lhe o que o mdico mouro acabara de lhe dizer do artigo secreto do tratado proposto.
- O reverendo impostor - exclamou -, o hipcrita de cabelos brancos falava do marido infiel convertido pela mulher crist. E quem sabe se o traidor no exps aos
olhos do sarraceno maldito de Deus as sedues de Edith Plantageneta, a fim de que o co pudesse julgar se era digna de lutar no serralho de um descrente? Se tivesse
uma segunda vez este pago, como o tive h alguns dias, no seria ele ao menos quem havia de vir encarregado de uma misso to vergonhosa para a honra de um rei
cristo e para a de uma nobre e virtuosa rapariga. Mas que pode fazer aquele cujas horas no so mais do que minutos? No importa, enquanto viver, enquanto respirar,
 possvel fazer alguma coisa e  preciso faz-la sem demora.
Reflectiu durante alguns instantes e, lanando o capacete para longe, tomou o caminho do pavilho do rei Ricardo.
183

CAPITULO XV
"O cantor da manh anunciava  aldeia
Da luz o regresso;
Eduardo viu a noite fugir sobre a sua nuvem
Para dar lugar ao novo dia;
Do corvo crucitante a voz medonha
Parecia um pressgio fatal,
- Escuto-te, disse o prncipe, e o teu grito lamentoso
 minha zanga d um sinal.
Juro, pelo trono cintilante de luz
Do Deus de fora e de virtude:
Antes que o Sol tenha acabado o seu curso
Charles Baudouin ter vivido."
Chatherton 1
RICARDO, tendo deixado Sir Kenneth perto da bandeira real, tornara a entrar no seu pavilho com a plena confiana que lhe inspiravam a sua coragem e a superioridade
de que fizera prova em presena de todo o exrcito cristo e de um grande nmero dos seus chefes, entre os quais sabia que se encontravam muitos que olhavam em segredo
a derrota do arquiduque da ustria como um triunfo alcanado sobre eles prprios. O seu orgulho desfrutava pois da satisfao de ter mortificado cem inimigos na
pessoa de um s.
Um outro monarca teria duplicado os seus guardas durante a noite que se seguiu a semelhante cena; Corao de Leo, pelo contrrio,
1 Traduo livre.
185
despediu-se da sua guarda e mandou fazer uma distribuio de vinho aos soldados, que celebrassem a sua cura e bebessem em honra da bandeira de So Jorge.
Teria da resultado que, no aquartelamento que as suas tropas ocupavam no campo, no reinaria qualquer vigilncia nem quaisquer preocupaes militares, se o conde
de Salisbury, Sir Thomas de Vaux e outros nobres, no tivessem tomado as medidas necessrias para a manter a ordem e a disciplina no meio da alegria geral.
O mdico mouro permaneceu junto do rei desde o instante em que este se meteu na cama at depois da meia-noite; durante este intervalo, fez-lhe tomar duas vezes uma
poo que preparou, tendo sempre, previamente, o cuidado de observar em que regio do cu se encontrava a lua cheia, cujas influncias, segundo ele, podiam ajudar
ou contrariar o efeito dos seus remdios.
Eram perto das trs da manh quando saiu da tenda de Ricardo, para se retirar para a que fora erguida para ele e para o seu squito. Ao dirigir-se para a, entrou
na tenda do Cavaleiro do Leopardo, a fim de ver como se encontrava o seu primeiro doente no acampamento cristo, Stranchan, nome do escudeiro de Sir Kenneth. Tendo
perguntado onde estava o cavaleiro, soube o dever de que fora incumbido, e esta informao conduziu-o provavelmente ao monte So Jorge onde encontrou aquele que
procurava, na situao desastrosa de que demos conta no captulo precedente.
Despontava o Sol quando se ouviu um homem armado aproximar-se a passos lentos do pavilho do rei; e De Vaux, que dormia sentado perto do leito do seu amo, com um
sono to ligeiro como o que fecha os olhos de um co de guarda, no teve seno o tempo de se levantar e de gritar.
- Quem vem l? - quando o Cavaleiro do Leopardo entrou na tenda.
- Como ousas entrar assim no apartamento do rei, sir cavaleiro?
- exclamou de Vaux, em tom severo mas de maneira a respeitar o repouso de seu amo.
- Paz, de Vaux - disse Ricardo - que despertara nesse instante - Sir Kenneth vem, como bom soldado, prestar-nos contas da sua guarda, e a tenda do general est sempre
aberta a homens como ele - levantando-se ento e apoiando-se sobre o cotovelo, fixou no
186
cavaleiro os seus grandes olhos brilhantes. - Falai, Sir escocs disse. - Vindes dizer-me que vos desempenhastes do vosso dever com vigilncia, honrosamente, e que
tudo corre bem, no  assim? O barulho das dobras da bandeira real de Inglaterra, agitada pelo.vento, teria bastado para a guardar sem que fosse protegida por um
cavaleiro com a tua reputao.
- Reputao que no voltarei a ter, sir - respondeu Kenneth.
- No me conduzi nem honrosamente nem com vigilncia, e tudo est longe de correr bem. A bandeira de Inglaterra foi tirada.
- E tu vives para mo dizer! - exclamou Ricardo, num tom de irnica incredulidade. - Impossvel! No acredito. Nem sequer tens um arranho na cara. Porque ficas mudo?
Diz a verdade, no nos devemos permitir brincar com um rei. Fala, perdoo-te se mentiste.
- Mentir, sir? - replicou o desafortunado, com um retorno passageiro de altivez. - Mas no h nada que no deva suportar. Disse-vos a verdade.
- Por Deus e por So Jorge! - exclamou o rei, furioso; mas reprimiu este movimento de clera. - De Vaux - disse - vai verificar o facto. A febre perturbou-lhe o
esprito. A coisa  impossvel. Este homem prestou as suas provas de coragem. Impossvel, digo eu! Vamos, parte pois ou envia algum em teu lugar, se no queres
l ir.
O rei foi interrompido pela chegada de Sir Henry Neville, que acorria, sem flego, para o informar de que a bandeira desaparecera e que o cavaleiro encarregado de
a guardar fora provavelmente atacado por uma fora superior, visto que havia manchas de sangue no local em que a bandeira estava arvorada.
- Mas que vejo? - acrescentou Neville, os seus olhos fixando-se de repente sobre Sir Kenneth.
- Um traidor - exclamou o rei, saltando do leito - e que vais ver morrer da morte de um traidor.
E, pegando na maa-de-armas que estava sempre ao seu alcance, levantou-a como que para o atacar.
Plido, mas imvel como uma esttua de mrmore, o escocs ficou de p diante do rei, com a cabea descoberta e sem defesa, os olhos baixos e os lbios um pouco agitados,
provavelmente porque
187
murmurava uma prece. Em face dele estava Ricardo, o corpo envolvido na sua "carmescia", espcie de grande tnica de pano que o cobria e agora deixava a nu o brao
direito, o ombro e uma parte do peito.
Exibia sinais de vigor que lhe teria podido valer o sobrenome de Brao de Ferro, que tinha um dos seus predecessores saxes. Mas depois de ter ficado um instante
como que pronto a atacar, repentinamente baixou a sua arma para terra e exclamou:
- Mas havia sangue? Neville, viste sangue sobre o montculo? Escuta-me, escocs, foste bravo outrora porque te vi combater. Diz-me que mataste alguns dos ces que
atacaram a minha bandeira... ou um somente. Diz que desferiste um bom golpe para a defender e vai arrastar para fora do acampamento a tua vida e a tua ignomnia.
- Chamaste-me mentiroso, sir - respondeu Kenneth, com firmeza - e nisso ao menos fizeste-me uma injria. Ficai sabendo que o sangue derramado para a defesa do estandarte
da Inglaterra  o de um co que, mais fiel do que o seu amo, combateu no posto que este abandonara.
- Por So Jorge! -exclamou Ricardo levantando o brao uma segunda vez -  agora que vais...
Mas De Vaux, lanando-se entre o rei e o objecto da sua zanga, disse-lhe com a franqueza brusca que lhe era habitual:
- Sire! No deve ser aqui, no deve ser da vossa mo. J  loucura bastante para vinte e quatro horas, ter confiado a guarda da vossa bandeira a um escocs. No
vos tinha dito que faziam sempre o jogo desleal? 1
- Tinhas-mo dito, De Vaux - respondeu o rei - e tinhas razo, concordo. Deveria t-lo conhecido melhor; deveria ter-me
1 Tais eram as expresses de que os Ingleses costumavam servir-se ao falar dos seus pobres vizinhos do Norte, esquecendo que os golpes feitos por eles prprios 
independncia escocesa obrigavam a nao mais fraca a empregar para sua defesa a astcia tanto como a fora. A culpa deve ser partilhada entre Eduardoe Eduardo III,
que subjugaram uma regio livre e foraram os Escoceses a prestar juramentos que no tinham inteno de cumprir.
188
lembrado como essa raposa de William me enganou na nossa presente cruzada.
- Sir - disse Kenneth - William da Esccia nunca enganou ningum; foram as circunstncias que o impediram de reunir as suas foras.
- Paz, descarado! - exclamou o rei. - Suja o nome, s de pronunci-lo. Pois bem! De Vaux,  estranho ver como este homem mantm o sangue-frio.  preciso que seja
um traidor ou um cobarde, e, no entanto, esperou o golpe de Ricardo Plantageneta quando o nosso brao estava levantado para lhe dar sobre o crnio a ordem da cavalaria.
Se tivesse mostrado o menor sinal de receio, ter-lhe-ia despedaado a cabea. Mas no posso bater quando no encontro receio nem resistncia!
Houve um momento de silncio.
- Sir - disse Kenneth...
- Ah! - exclamou Ricardo, interrompendo-o - reencontraste a lngua? Pede clemncia ao Cu, mas no a esperes de mim, porque a Inglaterra est desonrada por tua causa;
e mesmo que fosses meu irmo, meu nico irmo, no haveria perdo para um tal crime.
- No falo para pedir clemncia a um homem - respondeu o escocs. - Depende de Vossa Majestade conceder-me ou recusar-me o tempo necessrio para obter os socorros
de religio. Se o homem nos recusa, que Deus possa conceder-me a absolvio que queria pedir  sua Igreja!
"Mas, que morra neste instante ou daqui a meia hora, suplico a Vossa Majestade que me conceda um minuto de audincia, para o informar de uma coisa que toca de muito
perto o seu renome como monarca cristo.
- Fala - disse o rei, no duvidando que ia ouvir qualquer confisso relativa ao rapto da bandeira.
- O que tenho a dizer-vos - replicou Sir Kenneth - respeita Pessoalmente o rei de Inglaterra e no deve ser ouvido seno por Vossa Majestade.
- Retirai-vos, senhores - disse o rei a Neville e a Vaux...
O primeiro obedeceu imediatamente, o segundo recusou afastar-se da presena do rei.
- J que reconheceste que tinha razo - disse de Vaux ao seu
189
soberano - quero ser tratado como homem que teve razo. Farei a minha vontade nisto, no vos deixarei s com este traidor escocs.
- Como, de Vaux! - exclamou Ricardo, batendo o p com um ligeiro movimento de clera. - Ousas recear pela nossa pessoa em face de um traidor?
- Podeis franzir o sobrolho e bater o p, Sir - respondeu de Vaux -, no deixarei um doente com um homem de boa sade, nem com um soldado armado.
- Pouco importa - disse o cavaleiro escocs - no procuro ganhar tempo, falarei em presena de Lord Gilsland.  to fiel como bravo.
- Teria dito o mesmo de ti ainda h meia hora - disse de Vaux, num tom que anunciava uma mistura de desgosto e de despeito.
- Estais rodeado de traio, rei de Inglaterra - continuou Kenneth.
-Pode ser como dizes - replicou Ricardo - acabo de ter disso uma boa prova.
- Falo de uma traio - acrescentou Kenneth - que vos seria mais funesta do que a perda de cem bandeiras sobre o campo de batalha. - Hesitou um instante e continuou,
baixando a voz: Lady, Lady Edith...
- Ah! - exclamou o rei, fixando os olhos com firmeza sobre o suposto criminoso. - Que me tens tu a dizer dela, que tens a dizer-me? Que tem ela em comum com este
assunto?
- Sir - continuou o escocs - tramaram uma intriga para desonrar a vossa raa real, levando-vos a conceder a mo de Lady Edith ao sulto sarraceno, a fim de comprar
deste modo uma paz ignominiosa para toda a cristandade e vergonhosa para a Inglaterra.
Esta nova produziu um efeito diametralmente oposto ao que Sir Kenneth esperava.
Ricardo Plantageneta era um desses homens que para ir buscar o termo de lago1, no querem servir Deus quando  o Diabo que o ordena: os conselhos e as informaes
que recebia afectavam-no menos em proporo da sua verdadeira importncia do que o matiz
1 "Otelo", acto primeiro - William Shakespeare.
190
que lhe dava, no seu esprito, o carcter daqueles que lhos comunicavam e as intenes que supunham eles terem. O nome da sua parente trouxe-lhe  lembrana o que
olhara como o cmulo da presuno no Cavaleiro do Leopardo, mesmo quando gozava de um alto renome entre os seus iguais, e isso parecia, ao monarca, impetuoso, no
estado de degradao em que ento se encontrava Sir Kenneth, um insulto suficiente para o inflamar com renovada fria.
- Silncio - bradou - homem infame e audacioso! Pelo Cu, far-te-ei arrancar a lngua com tenazes rubras, se ousares pronunciar o nome de uma nobre donzela crist.
Fica sabendo, traidor degenerado, que j sabia a que altura ousaras levantar os olhos e que o suportava, porque s cheio de dissimulao, fazendo-nos acreditar que
merecias algum renome. Mas agora que, com os lbios amachucados pela confisso da tua desonra, ousas nomear a nossa nobre parente como se tomasses parte e interesse
no seu destino, que te importa que ela despose um sarraceno ou um cristo? Que te importa se, num acampamento onde prncipes so cobardes durante o dia e assaltantes
de noite, num acampamento onde bravos cavaleiros se tornam desertores e traidores; que te importa, a ti ou a quem quer que seja, se me aprouver fazer uma aliana
com a franqueza e o valor reunidos na pessoa de Saladino?
-  verdade - respondeu Sir Kenneth - que isso no importa a um homem do qual o mundo inteiro vai em breve desaparecer; mas, mesmo se mandasses torturar, repetir-vos-ia
que o que acabo de vos dizer  importante para a vossa conscincia e a vossa nomeada. Digo-vos, sir, que se tendes o pensamento de dar por esposa a vossa parente
Lady Edith...
- No pronuncies o seu nome! No penses nela nem por um instante! - exclamou Ricardo, pegando de novo na sua maa-de-armas e apertando-a com tanta fora que os msculos
se desenhavam sobre o brao.
- No a nomear! no pensar nela! - respondeu Sir Kenneth
que, anteriormente aturdido e acabrunhado, comeava a recobrar a energia nesta espcie de controvrsia. - Pela cruz, sobre a qual fundo as minhas esperanas, o seu
nome ser a ltima palavra que sair da minha boca, a sua imagem o ltimo pensamento que ocupar o meu esprito. Experimentai a vossa to gabada fora sobre
191
esta fronte descoberta e vede se podeis abalar a minha determinao.
- Pe-me doido - disse Ricardo a Thomas de Vaux, com despeito, mas, ao ver o ar de resoluo do criminoso, a sua arma caiu-Lhe das mos.
Antes que Lorde de Gilsland tivesse podido responder-lhe, ouviu-se barulho fora da tenda e vieram anunciar que a rainha estava a chegar.
- Retm-na, retm-na, Neville! - gritou o rei. - Este espectculo no  feito para os olhos de uma mulher. Mas porque me deixei eu encolerizar at este ponto por
um miservel traidor? De Vaux
- disse em voz baixa a Lorde Gilsland - leva-o pela sada das trazeiras. Fecha-o bem; respondes-me por ele, corpo por corpo. E escuta-me; ele vai morrer; que tenha
um pai espiritual: no queremos matar a alma e o corpo. Espera, no queremos que sejas desonrado. Que morra como cavaleiro, com o cinturo e as esporas; porque se
a sua traio  to negra como o Inferno, a sua intrepidez iguala a do Diabo.
De Vaux ficou encantado por Ricardo ter terminado esta cena sem se aviltar dando por suas prprias mos a morte a um prisioneiro que no oferecia a menor resistncia;
apressou-se a fazer sair Kenneth, e levou-o para uma outra tenda onde o desarmaram para lhe pr ferros nos ps e nas mos, como medida de segurana.
De Vaux olhou com um ar de melanclica ateno os oficiais do mestre de armas,  guarda do qual o prisioneiro fora confiado, tomarem estas severas precaues.
- A vontade do rei Ricardo  que morras sem ser degradado, sem mutilao do teu corpo, sem vergonha para as tuas armas, a tua cabea ser separada do corpo pela
espada.
-  uma prova de bondade - disse o cavaleiro, em tom baixo e submisso, como um homem que recebe um favor inesperado o golpe mais cruel ser poupado  minha famlia.
 meu pai! meu pai!
Esta invocao, embora feita em voz baixa, no escapou ao ouvido do ingls, cujo carcter era bom embora brusco, e teve necessidade de passar a sua grande mo pelos
olhos antes de poder retomar a palavra.
192
"Rodeou com os braos a cintura do gigante hngaro."
Desenho de douard Frre, gravado em madeira por Rougel.
Ed. J. Bry, 1852. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.
- A vontade de Ricardo de Inglaterra - disse por fim -  tambm que possas conversar com um santo homem. Encontrei, ao entrar aqui, um frade carmelita que te pode
preparar para a tua longa viagem. Espera l fora que estejas em disposio prpria para o receber.
- Que seja j - respondeu o cavaleiro. -  uma nova bondade de Ricardo. Em nenhuma ocasio posso estar em melhor disposio para ver o bom padre do que a que tenho
neste momento, porque a vida e eu fizemos os nossos adeuses.
- Est bem - disse de Vaux, com solene lentido. - Sinto certa dificuldade em te comunicar o resto da minha misso. A vontade do rei Ricardo  que te prepares para
receber a morte imediatamente.
- Que a vontade de Deus e a do rei se cumpram! - disse Sir Kenneth, pacientemente. - No contesto a justia da sua sentena e no peo para que a execuo seja retardada.
De Vaux deu alguns passos para sair da tenda, mas muito lentamente. Parou  porta e voltou-se para olhar o escocs. O valente baro ingls no era dotado de uma
sensibilidade muito viva mas, neste momento, sentiu-se movido por uma compaixo desusada.
Aproximou-se do molho de juncos em que o prisioneiro estava sentado, pegou-lhe numa das mos carregadas de ferros e disse-lhe com tanta doura quanto a sua voz brusca
podia exprimir.
- Sir Kenneth, s ainda jovem, tens um pai. O meu Ralph, que deixei exercitando-se sobre o seu cavalinho de Galloway, nas margens do Irthing, chegar talvez um dia
 tua idade, e queira o Cu que veja a sua juventude prometer tudo o que prometia a tua antes desta infeliz noite! No posso dizer ou fazer nada em teu favor?
- Nada - respondeu o escocs num tom melanclico. - Abandonei o meu posto; a bandeira confiada  minha guarda foi tirada; quando o bloco e a espada estiverem prontos,
a cabea e o tronco tambm estaro.
- Que Deus tenha, pois, compaixo de ti! - disse de Vaux. E contudo, preferia que isto me tivesse custado o meu melhor corcel e que me tivesse eu prprio encarregado
de guardar esse posto. H um mistrio nesta histria, rapaz; no  preciso ser-se muito clarividente, para nos apercebemos disso, embora no o possa explicar.
193
Cobardia? Ora vamos, nunca um cobarde combateu como te vi combater. Traio? No acredito que os traidores morram com tanta calma. Foste afastado do teu posto por
qualquer artimanha, por algum estratagema bem urdido; os gritos de alguma rapariga em perigo chegaram aos teus ouvidos ou o sorriso de alguma alegre criatura seduziu-te
os olhos. No cores, todos ns cedemos a semelhantes tentaes. Vamos, peo-te, alivia o peso da tua conscincia, confiando-te a mim. Que eu te sirva de padre. Ricardo
 indulgente depois de lhe ter passado a clera. No tens nada a confiar-me?
- Nada - respondeu o desafortunado cavaleiro.
De Vaux, que esgotara os seus meios de persuaso, levantou-se e saiu da tenda, com os braos cruzados e com mais melancolia do que parecia exigir a ocasio. Censurava-se
at por se afectar to profundamente.
"No entanto - disse para consigo - embora estes patifes sejam nossos inimigos no Cumberland, quase os olhamos como irmos na Palestina."
194

CAPTULO XVI
"Algum bom-senso, segundo dizem. Senso comum distinguia a dama: Tinha, como outra mulher qualquer. Tagarelice em vez de esprito."
Cano 1
A rainha Berengre, filha de Dom Sancho, rei de Navarra, e esposa do va'oroso Ricardo, passava por ser uma das mais belas mulheres do seu sculo. A sua figura era
gentil e de propores admirveis. Tinha uma beleza de tez pouco comum no seu pas e um to grande ar de juventude que se lhe teria dado alguns anos menos do que
tinha, embora apenas contasse vinte e um. Talvez fosse por isso que tomava, ou pelo menos afectava, modos um pouco infantis e um gnio voluntarioso, que podia supor
no ficar mal a uma jovem esposa. De resto, de humor fcil e alegre, se lhe concediam a parte de homenagens e de admirao que julgava devidas, ningum possua bondade
mais amvel.
Mas, tal como acontece a todos os dspotas, quanto mais poder lhe era voluntariosamente concedido mais desejava estender a sua autoridade.
Por vezes, quando todos os desejos da sua ambio eram satisfeitos, agradava-lhe-ter uma pequenina indisposio, a que depois se chamou humores.
1 Traduo livre.
195
Os mdicos no cessaram de inventar nomes para as suas doenas imaginrias enquanto as suas damas torturavam a imaginao para lhe encontrar novas diverses, a fim
de passar as horas desagradveis durante as quais a sua situao no era muito digna de inveja.
O recurso mais usual era qualquer brincadeira, qualquer partida que pregavam umas s outras; e a boa rainha, na vivacidade da sua alegria renascida, no examinava
demasiado, para dizer a verdade, se semelhantes passatempos convinham  sua dignidade, e se o mal que eles causavam, nos que serviam de joguete aos outros, no estava
desporpocionado em relao ao prazer que ela prpria tirava. Tinha a maior confiana no seu crdito junto do esposo e no poder que supunha possuir para compensar
os outros de tudo o que as suas brincadeiras lhes pudessem custar. Poderamos compar-la  jovem leoa brincando em liberdade, sem saber quando as suas garras so
penetrantes para aqueles em quem as apoia.
A rainha Berengre amava apaixonadamente o esposo mas receava o seu carcter brusco e altivo, e como sentia que no era dotada de uma inteligncia igual  sua, no
ficava muito satisfeita por ver que ele preferia muitas vezes conversar com Edith Plantageneta, unicamente por encontrar nela uma conversao mais agradvel, um
julgamento mais slido, ideias e sentimentos mais nobres do que na sua bela metade. Esta espcie de preferncia no inspirava em Berengre dio contra Edith, porque,
fora um pouco de egosmo, era, como dissemos, boa e generosa; mas as damas da Corte, cujos olhos so sempre clarividentes em semelhantes casos, em breve descobriram
que uma piada picante dirigida contra Lady Edith era remdio seguro contra os humores da rainha da Inglaterra e esta descoberta poupou muito trabalho  sua imaginao.
Esta conduta no era porm muito generosa, pois Lady Edith passava por ser rf; e embora fosse chamada Plantageneta, a bela Angevina, e Ricardo lhe tivesse concedido
certos privilgios de que s gozavam os membros da famlia real, poucas pessoas sabiam, e ningum da Corte de Inglaterra ousara perguntar, qual era exactamente o
grau do seu parentesco com Corao de Leo. Viera com Eleonora, a clebre rainha-me da Inglaterra, e reunira-se a Ricardo em Messines, como uma das damas destinadas
a ficar ligadas a Berengre, que ele estava prestes a desposar.
196
Ricardo tratava sempre a sua parente com muito respeito; a rainha fizera dela a sua companheira mais assdua e, a despeito do ligeiro cime de que acabamos de falar,
testemunhava-lhe geralmente as atenes convenientes.
Durante bastante tempo as damas da casa da rainha no tinham obtido outra vantagem sobre Edith seno a de encontrar algumas vezes a ocasio de criticar um penteado
arranjado com pouca arte ou um vestido que no lhe ficava bem, mistrios no conhecimento dos quais se reconhecia ser-lhes ela inferior! A devoo silenciosa do cavaleiro
escocs no passara despercebida e as suas cores, a sua divisa, os seus feitos de armas tinham excitado a ateno e fornecido matria a mais de uma brincadeira.
Veio em seguida a peregrinao a Engaddi, peregrinao que a rainha empreendera com algumas damas da sua casa, em consequncia de um voto que fizera para obter a
cura do esposo e que o arcebispo de Tyr animara a fazer por motivos polticos. Foi ento, e na capela desse santo lugar, que comunicava por um andar superior com
um convento de carmelitas e por um subterrneo com a cela do anacoreta, que uma das duas damas do squito da rainha notou a prova secreta que Edith dera ao seu amante
e no deixou de logo informar disso Sua Majestade.
A rainha regressou da sua peregrinao enriquecida com esta admirvel receita contra o tdio e os vapores, e o seu cortejo foi simultaneamente aumentado com dois
miserveis anes presenteados pela rainha destronada de Jerusalm, que eram to disformes e to loucos quanto qualquer rainha podia desejar. Berengre procurava
divertir-se a ver qual o efeito que produziria sobre o cavaleiro a sbita apario destes dois seres pouco vulgares e quase aterradores, enquanto permanecera sozinho
na capela; mas o sangue-frio do escocs e a interveno do ermita privaram-na do prazer que prometera a si prpria.
A segunda brincadeira que se permitira no seu regresso ao acampamento ameaava ter mais srias consequncias.
Quando Sir Kenneth se retirou da tenda, as damas reuniram-se outra vez, e a rainha, ao princpio pouco comovida com as censuras que Edith lhe fez bastante vivamente,
no lhe respondeu seno gracejando sobre o seu puritanismo e lanando sarcasmos sobre o traje,
197
a nao e sobretudo a pobreza do Cavaleiro do Leopardo, sempre com bom humor; e por fim Edith viu-se obrigada a retirar-se cheia de inquietao, para a sua tenda.
Mas quando, de manh, uma mulher que encarregara de se informar sobre o que se passara durante a noite lhe veio anunciar que a bandeira desaparecera, assim como
o campeo encarregado de a guardar, Edith correu ao apartamento da rainha e suplicou-lhe para se levantar e dirigir-se imediatamente  tenda do rei e empregar a
sua poderosa influncia para evitar as consequncias funestas da sua brincadeira.
A rainha, assustada por sua vez, lanou, como era costume as culpas para cima das que a rodeavam e esforou-se por adoar o desgosto de Edith e apaziguar o seu descontentamento
com mil argumentos contraditrios. Estava certa de que no pudera ter acontecido qualquer acidente, sem dvida o cavaleiro dormia depois da sua viglia nocturna;
talvez at se tivesse escapado com a bandeira, no receio do desagrado do rei; a bandeira no era seno um pedao de seda e ele prprio no era seno um pobre aventureiro;
se estava preso, isso no seria seno um castigo momentneo; em breve obteria o perdo, era apenas necessrio dar tempo a que se acalmasse a clera de Ricardo.
Continuou a falar assim a torto e a direito, e a amontoar inconsequncias sobre inconsequncas, no vo propsito de convencer Edith e de se persuadir a si prpria
de que no podia resultar nenhuma desgraa de uma brincadeira de que, bem no fundo, se arrependia amargamente. Mas enquanto Edith procurava parar esta torrente de
palavras vs, avistou uma dama da rainha que entrava nesse momento; a morte estava nos seus olhos gelados de horror e de susto e Edith, ao primeiro olhar que lanou
sobre ela, teria cado desmaiada se a preocupao da sua dignidade e a elevao natural do seu carcter no a tivesse posto em estado de conservar, pelo menos, uma
espcie de calma exterior.
- Senhora - disse  rainha - no percais um instante mais com palavras; salvai-lhe a vida, se todavia - acrescentou em voz entrecortada de emoo -  ainda tempo
de a salvar.
- Sim, sim, ainda  tempo - exclamou Lady Caliste. - Acabo de saber que foi conduzido junto do rei. No, no  ainda demasiado
198
tarde mas - acrescentou ela, derramando uma torrente de lgrimas - tudo est perdido se no tomarmos prontamente um partido.
- Fao a promessa - disse a rainha levada ao extremo - de dar um candelabro de ouro ao Santo Sepulcro, uma arca de prata a Nossa Senhora d'Engaddi, uma pea de brocado
de cem besantes a So Thomas d'Orthez.
- Levantai-vos, senhora, levantai-vos - disse Edith. - Chamai todos os santos em vosso auxlio, se quiserdes, mas sede vs mesma a sua primeira santa.
- Na verdade, senhora - disse Caliste, assustada - Lady Edith tem razo. Levantai-vos, vamos  tenda do rei Ricardo e peamos-Lhe a vida desse pobre cavaleiro.
- Eu vou, eu vou - disse a rainha, levantando-se toda trmula. Calma e tranquila na aparncia, mas plida como a morte, Edith serviu ela prpria a rainha, e suspirou
sozinha a inaco de todas as outras.
- Desempenhais bem os vossos servios, minhas senhoras! disse a rainha, incapaz, mesmo neste momento, de perder de vista distines frvolas. -  assim que deixais
que Lady Edith cumpra os vossos deveres? Vede, Edith, no prestam para nada. Nunca estarei pronta a tempo; vou mandar chamar o arcebispo de Tyr e encarreg-lo de
desempenhar as funes de mediador.
- Oh, no! No! - exclamou Edith. - Ide vs prpria, senhora! Fizestes o mal,  a vs que compete repar-lo.
- Pois bem, irei, irei - disse a rainha. - Mas, se Ricardo est encolerizado, no me atreverei a falar-lhe; matar-me-ia.
- Ide e no receeis nada, senhora - disse Lady Caliste, que conhecia melhor o temperamento da sua ama. - Um leo enfurecido que lanasse um s olhar sobre uma figura
e feies semelhantes, imediatamente perderia toda a ideia de clera; com mais forte razo um cavaleiro, um rei que vos ama, Ricardo, para quem o vosso menor desejo
seria uma ordem.
- Crs isso, Caliste? -respondeu a rainha. - Ah! tu no sabes... Irei, no entanto. Mas vejam! Que quer dizer isto? Puseste-me um vestido verde e  uma cor que ele
detesta; dai-me um azul e procurai o colar de rubis que fazia parte do resgate do rei de Chipre; deve estar no cofre de ao ou noutro stio qualquer.
199
- E tudo isto quanto se trata da vida de um homem! - exclamou Edith indignada. -  esgotar a pacincia humana! No vos incomodeis, madame, irei eu prpria procurar
o rei Ricardo. Sou parte interessada neste assunto; saberei se se deve fazer um jogo da honra de uma pobre rapariga do seu sangue, se  permitido abusar do seu nome
para afastar um bravo guerreiro do seu dever, conduzi-lo  morte e  ignorncia e fazer ao mesmo tempo da honra da Inglaterra o escrnio de todo o exrcito cristo.
Berangre pareceu, ante este impulso de indignao inesperado, ficar paralisada pelo receio. Mas, ao ver que Edith ia sair da tenda, exclamou em voz fraca:
- Segurem-na! Segurem-na!
- Parai, nobre Lady Edith - disse Caliste, retendo-a docemente pelo brao. - E vs, senhora, estou certa que ireis partir sem mais delongas. Se Lady Edith vai procurar
o rei, sozinha, ele ficar ainda mais zangado, e uma morte no bastar  sua clera.
- Vou partir, eu parto! - disse a rainha, cedendo  necessidade. E Edith parou, embora contra vontade, para esperar a sua partida.
Fez-se ento tanta diligncia quanto se teria podido desejar. A rainha envolveu-se  pressa num grande manto que escondia todas as irregularidades da sua "toilette"
e, acompanhada por Edith e pelas suas damas, precedida e seguida por alguns homens de armas e.seus oficiais, dirigiu-se para a tenda de Corao de Leo, seu esposo.
200

CAPITULO XVIII
"Cada um dos seus cabelos contaria uma vida
Tantas vezes dez vezes quanto conta de cabelos
Embora me implorassem para poupar um de entre eles.
Antes do fim do dia perderia o ltimo
Cada vida imolada  minha justa clera
Extinguir-se-ia uma por uma, tal como quando o dia brilha
Se extinguem as tochas alumiadas para a noite."
Antiga comdia 1
QUANDO a rainha Berengre chegou diante da tenda de Ricardo, os oficiais do rei opuseram-se a que entrasse, na verdade com todo o respeito e todas as atenes que
lhe eram devidas; mas enfim, opuseram-se; ela prpria pde ouvir a voz severa do rei dar-lhes ordem para isso:
- Vs - disse a Edith, como se tivesse esgotado todos os meios de intercesso que estavam em seu poder. - J o sabia, o rei no nos quer receber.
Ao mesmo tempo ouviram Ricardo falar a algum no seu apartamento:
- Vai-te embora patife, - dizia - e cumpre as tuas funes com rapidez, porque  nisso que consiste a tua compaixo. Dez besantes para ti, se o despachares de um
s golpe. E escuta-me: observa bem se as suas faces perdem a cor, se as plpebras se agitam,
1 Traduo livre.
201
se o seu olhar esmorece; toma ateno ao menor estremecimento das suas feies. Gosto de saber como  que um bravo enfrenta a morte.
- Se ele vir a minha espada sem estremecer, ser o primeiro respondeu uma voz dura, que um sentimento de desusado respeito parecia fazer descer abaixo do tom grosseiro
que lhe era habitual.
Edith no conseguiu manter silncio por mais tempo:
- Se Vossa Majestade no quer procurar entrar - disse  rainha
- eu prpria lhe abrirei caminho ou, se no for para Vossa Majestade, ser ao menos para mim. Oficiais, a rainha quer falar ao rei Ricardo; a esposa pede para ver
o seu marido.
- Nobre dama - respondeu o chefe dos oficiais, baixando o basto, sinal oficial da sua dignidade - custa-me recusar, mas Sua Majestade est ocupada em assuntos de
vida e de morte.
- E ns tambm lhe queremos falar de assuntos onde se trata de vida e de morte - replicou Edith. - Segui-me, senhora, abrirei eu mesma a passagem a Vossa Majestade.
E afastando com uma mo o oficial, abriu com a outra o cortinado que fechava a porta.
- No ouso opor-me aos desejos de Vossa Alteza - disse o oficial, cedendo  violncia de Edith; e como, ao falar assim, recuava, a rainha viu-se obrigada a entrar
no apartamento do rei.
O monarca estava estendido no leito; e a certa distncia, como que  espera das suas ltimas ordens, mantinha-se em p um homem cuja profisso no era difcil de
adivinhar. Trazia uma jaqueta de pano vermelho, cujas mangas no desciam seno a duas polegadas dos ombros, deixando nu o resto do brao. Por cima disso trazia,
quando estava prestes, como neste momento, a cumprir as suas horrveis funes, uma espcie de hbito sem mangas, ou de tabardo mais ou menos semelhante ao de um
arauto, e tingido  frente com vrias manchas de um vermelho carregado. A jaqueta e o tabardo desciam at aos joelhos e as vestes inferiores eram do mesmo couro
que o tabardo. Um barrete grosseiro, de plo, cobria a parte superior de uma cara que parecia querer furtar-se  luz e sobre o queixo crescia uma espessa barba ruiva,
que ia unir-se aos cabelos da mesma cor. Tudo o que se via das suas feies tinha um ar duro e selvagem. Era de pequena estatura, mas fortemente constitudo.
202
com um pescoo como um touro, ombros largos, braos de um comprimento desproporcionado e gordas pernas tortas. Esta personagem oficial, de expresso feroz, estava
apoiada sobre uma espada cuja lmina tinha mais de quatro ps de comprimento, e esperava as ltimas palavras do rei Ricardo.
Vendo entrar subitamente a rainha e as suas damas, Ricardo, estendido sobre o leito, o rosto virado para a porta e apoiado sobre o cotovelo ao falar ao horrvel
ministro das suas vontades, pareceu surpreso e descontente, e fez um movimento rpido do outro lado para lhes virar as costas, puxando para si a coberta que, fosse
por escolha prpria, fosse mais provavelmente por adulao dos oficiais do seu quarto, consistia em duas grandes peles de leo curtidas  veneziana, com tanta perfeio
que pareciam mais macias do que a camura.
Berengre, tal como a descrevemos, sabia muito bem (e qual a mulher que o ignora) o que tinha a fazer para se assegurar da vitria. Depois de ter lanado um no
fingido olhar de terror sobre o assustado companheiro dos conselhos secretos do esposo, precipitou-se para o leito de Ricardo e lanou-se de joelhos; o seu manto,
que descaiu dos ombros, deixou a flutuar as belas tranas dos seus cabelos dourados. Um poeta teria podido comparar o seu rosto a um sol que atravessa uma nuvem,
mas cuja palidez traz ainda marcas que provam que o seu esplendor foi obscurecido anteriormente. Pegou na mo direita do rei e, puxando-a para si a pouco e pouco,
com uma fora  qual Ricardo no resistia seno fracamente, apoderou-se desse brao, aprisionando-o nas suas encantadoras mozinhas, dobrou-o sobre a sua fronte
e aproximou-o dos lbios.
- Que significa isto, Berengre? - perguntou Ricardo sem virar a cabea para ela mas sem procurar retirar a mo.
- Mandai este homem embora! O seu olhar mata-me - murmurou a rainha.
- Vai-te embora, patife - disse Ricardo, sem mudar de postura. - No s feito para te mostrares diante destas damas! Que esperas tu?
- O prazer de Vossa Majestade no que respeita  cabea...
- Retira-te, co... A sepultura crist.
203
O selvagem desapareceu depois de ter lanado sobre a bela rainha, que o vesturio em desordem parecia tornar ainda mais bela, um olhar acompanhado de um sorriso
de admirao cuja expresso era ainda mais medonha, se possvel, do que o ar feroz da sua espcie de misantropia cnica:
- E agora, jovem louca, que me queres? - disse Ricardo, voltando-se lentamente e a contragosto, para a esposa suplicante.
Mas no era natural que algum homem, e Ricardo sobretudo, que apenas admirava a glria acima da beleza, pudesse ser insensvel  aflio de uma mulher to encantadora
como Berangre, e sentir sem um movimento de simpatia lbios to doces apoiarem-se sobre a sua mo e olhos to brilhantes molharem-na de lgrimas. Pouco a pouco
virou para ela as feies msculas, adoando tanto quanto possvel a expresso dos grandes olhos azuis. Acariciando a linda cabea da esposa, e entrelaando os compridos
dedos nas tranas dos belos cabelos, levantou-a e beijou ternamente o rosto celestial que parecia querer esconder-se na sua mo. As formas robustas do rei, a fronte
nobre e elevada, o seu ar majestoso, as peles de leo que o cobriam e a encantadora e frgil criatura ajoelhada a seu lado, teriam podido servir de modelo para representar
uma reconciliao de Hrcules com a sua esposa Dejanira.
- E mais uma vez - perguntou Ricardo - que vem procurar a soberana do meu corao no pavilho do seu cavaleiro, a uma hora to matutina e to pouco usual?
- Perdo, meu gracioso soberano, perdo - disse a rainha, cujos receios comeavam de novo a tornar pouco capaz de preencher as funes de mediadora.
- Perdo e de qu? - perguntou o rei.
- Primeiro - disse a rainha - de ter sido demasiado audaciosa e demasiado inoportuna ao apresentar-me na vossa real presena, e...
Calou-se.
- Tu, demasiado audaciosa! - disse o rei. - O mesmo seria o Sol procurar desculpar-se porque os seus raios entram pela janela da mansarda que um pobre miservel
habita. Mas estava ocupado com um assunto no qual a tua presena no era conveniente, minha boa Berengre. Alm disso, no queria que arriscasses uma
204
sade que me  to preciosa entrando num lugar antes habitado pela doena.
- Mas agora estais bem? - disse a rainha procurando afastar o instante em que seria necessrio explicar o motivo da sua visita.
- Sim - respondeu Ricardo - suficientemente bem para quebrar uma lana contra o audacioso campeo que recusasse reconhecer-te como a mais bela de toda a cristandade.
- No me recusareis ento - acrescentou a rainha outorgar-me um dom, apenas um, apenas uma pobre vida?
- Ah! - bradou Ricardo, franzindo os sobrolhos. - Continua.
- Este desgraado cavaleiro escocs - disse Berengre...
- No me faleis dele, senhora - disse o rei, interrompendo-a.
- Morrer! A sentena  irrevogvel.
- Sir, meu querido esposo - continuou a rainha - afinal no foi seno uma bandeira de seda que foi desprezada. Berengre bordar-vos- uma outra pelas suas prprias
mos, mais rica do que qualquer outra que o vento alguma vez agitou; ornament-la-ei com todas as prolas que possuo e cada prola ser acompanhada de uma lgrima
de reconhecimento pelo meu generoso esposo.
- No sabes o que dizes - exclamou o rei em tom zangado. Prolas! Julgas que todas as prolas do Oriente possam reparar a ofensa feita  honra de Inglaterra? que,todas
as lgrimas derramadas pelos olhos de uma mulher sejam capazes de apagar uma mancha feita  fama de Ricardo? Retirai-vos, senhora; aprendei a conhecer melhor os
tempos e os lugares. No estou ocupado neste momento com qualquer preocupao que possa partilhar convosco.
- Vs - disse a rainha a Edith a meia voz - no fizemos seno irrit-lo mais.
- Pois bem - disse Edith avanando. - Sir, sou eu, a vossa parente, que implora a vossa justia mais do que a vossa merc; e em todos os tempos, em todos os lugares,
em todas as circunstncias, o ouvido de um soberano deve estar aberto ao grito que pede justia.
- Ah! a nossa prima Edith! - disse Ricardo, sentando-se, coberto com a sua comprida "camescia". - Ela fala sempre ao rei, e  como rei que lhe responderei, desde
que no me faa um pedido indigno dela e de mim.
205
A beleza de Edith tinha um ar mais nobre, embora menos voluptuoso que o da rainha, mas a impacincia e a inquietao tinham dado s suas faces um colorido que lhe
faltava por vezes, e havia na sua fisionomia um carcter de energia e de dignidade que se imps durante alguns instantes ao prprio Ricardo.
- Sir - disse - o bravo cavaleiro de quem ides derramar o sangue prestou mais de um servio  cristandade. Faltou ao seu dever como consequncia de uma armadilha
que lhe foi estendida pela loucura e a inconscincia. Foi-lhe enviada uma mensagem em nome de uma pessoa que,.. e porque no o havia de dizer? Uma mensagem enviada
em meu nome, sir, levou-o a deixar o seu posto por um momento. E que cavaleiro, em todo o acampamento cristo, no teria cometido a mesma falta depois da ordem de
uma donzela que, por pobre que seja em todos os outros aspectos, tem no entanto nas suas veias o sangue dos Plantageneta?
- Ento viste-o? - perguntou o rei, mordendo os lbios para dominar a clera.
- Vi-o, sir.  intil explicar porqu; no estou aqui nem para me desculpar nem para acusar ningum.
- E onde lhe destes uma tal honra?
- No pavilho de Sua Majestade a rainha.
- Da nossa real esposa! - bradou Ricardo. - Pelo Cu, por So Jorge de Inglaterra, por todos os santos que marcham sobre o cristal do firmamento, isso  demasiada
audcia! Tenho notado negligncias, sem punir a insolente admirao deste guerreiro por uma mulher de uma condio to superior  sua; no achei mal que uma pessoa
do meu sangue espalhasse sobre ele, do alto da sua esfera, a mesma influncia que o Sol exerce sobre a Terra colocada to abaixo dele; mas, cus e Terra!, que lhe
tenhas concedido uma entrevista durante a noite e na tenda da nossa real esposa, e que oussseis fazer valer esta circunstncia como uma desculpa para a sua desobedincia
e a sua desero! Pela alma de meu pai, Edith, expiars esta falta toda a tua vida, num mosteiro!
- Sir - respondeu Edith - a vossa condio d-vos o privilgio da tirania. A minha honra est to intacta como a vossa e Sua Majestade pode prov-lo se o julga conveniente.
Mas j disse que no estava aqui para me desculpar nem para acusar ningum; no
206
vos peo seno para conceder a um homem que cometeu uma falta apenas como resultado de uma forte tentao, essa merc que vs prprio, sir, tereis de implorar um
dia diante de um tribunal mais elevado e talvez por faltas menos venais.
- Ser esta Edith Plantageneta? - disse o rei, com amargura.
- Ser a prudente e nobre Edith Plantageneta ou no ser antes uma mulher a quem o amor fez perder a razo e que prefere a vida do seu indigno amante  sua reputao?
Pela alma do rei Henrique! No sei por que razo no mando trazer do cadafalso o crnio do teu galante, para fazer dele um ornamento para o crucifixo que vais ter
na tua cela.
- E se o retirais do cadafalso para o colocar para sempre debaixo dos meus olhos - disse Edith - direi que  uma relquia de um bravo cavaleiro cruel e indignamente
mandado para a morte por um... por ordem de um prncipe de que direi somente que deveria ter sabido recompensar melhor a virtude cavalheiresca. Chamai-o meu amante
- continuou com veemncia sempre crescente. Sim. sem dvida, era meu amante, e meu amante fiel; mas nunca procurou as minhas boas graas por uma s palavra ou por
um s olhar, contentando-se em me prestar a homenagem respeitosa que se presta aos santos. E eis porque  necessrio que perea um cavaleiro virtuoso, valente, fiel.
- Silncio! Silncio! por compaixo! - disse-lhe a rainha em voz baixa. - Aumentais ainda a sua clera.
- Que importa? - replicou Edith. - A virgem sem mcula no receia o leo rugidor. Que ele faa o que quiser desse digno cavaleiro. Edith, por quem ele morre, saber
como chorar a sua memria. Que no me falem mais em alianas polticas a sancionar pelo
dom desta pobre mo; no teria podido, no teria querido ser sua esposa durante a sua vida, a diferena das nossas condies era demasiado grande, mas a morte nivela
todas as condies: doravante serei esposa de um morto.
u rei ia dar livre curso  sua indignao quando um carmelita entrou Precipitadamente no seu apartamento. A cabea e toda a sua
pessoa estavam escondidas sob o hbito e o capucho de grosseiro
dedo de mo que distinguia a sua ordem. Lanando-se de joelhos
diante de Ricardo, implorou-lhe em nome de tudo o que havia de
207
mais santo, tanto de viva voz como por meio de gestos expressivos, para conceder um adiamento  execuo:
- Pela espada e pelo ceptro! - exclamou o rei. - Todo o mundo est combinado para me fazer perder a pacincia! Os loucos, as mulheres, os monges, contrariam-me a
cada passo. Como  que ele vive ainda?
- Sir, supliquei a Lorde Gilsland para suspender a execuo at que me tivesse lanado a vossos ps.
- E decidiu aceder ao teu pedido? Mas  uma caracterstica da sua usual teimosia. E que tens tu a dizer-me? Fala, em nome do Diabo!
- Sir, h um segredo importante; foi-me confiado sob o selo da confisso, no me atreveria a revel-lo; mas juro-vos, pela minha santa ordem, pelo hbito que trago,
pelo bem aventurado Elias. nosso fundador, que foi transferido desta vida para a outra sem sofrer as ltimas dores s quais a humanidade est condenada, que este
rapaz me confiou um segredo que, se pudesse divulg-lo, vos faria revogar a sentena sanguinria que ordenaste contra ele.
- bom padre, as armas que uso pela Igreja so uma prova do respeito que tenho por ela. Faz-me conhecer esse segredo e farei em seguida o que julgar conveniente;
mas no sou o cego corcel Bayard, para saltar para as trevas sob o golpe da espora de um padre.
- Sir - respondeu o santo homem, levantando o capuz, entreabrindo o hbito e deixando ver um corpo coberto de peles de cabra e um rosto de tal maneira emagrecido
pelo clima, o jejum e as austeridades, que se assemelhava mais a um esqueleto do que a um ser animado. - H vinte anos que castigo este miservel corpo nas cavernas
d'Engaddi, fazendo penitncia de um grande crime. Pensais que eu, que estou morto para o mundo, quisesse inventar uma mentira para pr a minha alma em perigo? Ou
um homem ligado pelos votos mais solenes, que no tem seno um desejo sobre a Terra, o de ser testemunha da reconstruo da nossa Sio crist, quisesse trair os
segredos do confessionrio? Essa dupla baixeza far-me-ia igualmente horror.
- s pois o ermita de que tanto se fala. Confesso que te pareces bastante com os espritos que ensombram os lugares ridos; mas,
208
Ricardo no teme os espritos. s tambm, segundo creio, aquele a quem os prncipes cristos enviaram o cavaleiro criminoso para iniciar uma negociao com o sulto,
enquanto eu, que deveria ter sido o primeiro a ser consultado, jazia doente, estendido sobre este leito. Fica em paz, e que eles fiquem tambm; no porei o meu pescoo
no n corredio formado pelo cordo de um carmelita. Quanto ao que te enviou, morrer, e tanto mais cedo e mais seguramente quanto tu intercederes em seu favor.
- Que a graa do Cu vos ilumine, sir - disse o ermita com a mais viva emoo. - Ides ordenar um crime que lamentareis em seguida no ter impedido, devesse isso
custar-vos um membro. Homem cego e temerrio? Pra enquanto  tempo.
- Retira-te! - bradou Ricardo batendo com o p. - O sol iluminou a desonra de Inglaterra, e a vingana no rebentou ainda. Mulheres e padre, retirai-vos se no quereis
ouvir ordens que no so feitas para os vossos ouvidos, porque, por So Jorge, juro...
- No jureis - exclamou a voz de algum que entrara nesse momento no pavilho.
- Ah!,  o sbio Hakim - disse o rei. - Espero que no venhas pr  prova a nossa generosidade
- Venho-vos pedir uma audincia imediata e para um assunto do maior interesse.
- Olha primeiro para a minha mulher, Hakim, para que ela conhea em ti o salvador do marido.
- No me compete - respondeu o mdico, cruzando os braos com um ar de modstia e de respeito oriental, e baixando os olhos para a terra. - No me compete olhar
a beleza sem vu e armada de todo o seu esplendor.
- Retirai-vos pois, Berengre - disse o monarca. - E vs tambm, Edith. No voltem a importunar-me; tudo o que vos posso conceder  que a executao ter lugar ao
meio-dia. Que isso vos satisfaa. Ide, minha querida Berengre. Edith - acrescentou com um olhar que levou o terror  alma corajosa da sua parente retirai-vos tambm,
se sois prudente.
As damas saram da tenda, em tropel. Regressaram ao pavilho da rainha, onde se entregaram ao desgosto e a recriminaes inteis. Edith foi a nica que pareceu desprezar
estes meios vulgares
209
para exalar a sua dor. Sem soltar um suspiro, sem verter uma lgrima, sem uma s palavra de censura, prodigalizou os seus cuidados  rainha, cujo carcter fraco
mostrou a sua aflio por meio de choros, lamentaes e ataques de nervos, crise que Edith tentou adoar com benevolncia e at com afecto.
-  impossvel que ela tenha amado este cavaleiro - disse Florisa a Caliste, que tinha um grau acima do seu na casa da rainha. Enganmo-nos; no se interessa por
ele seno como por um estrangeiro e unicamente porque foi a causa involuntria da desgraa que lhe aconteceu.
- Caluda! - respondeu a sua companheira, que tinha melhores olhos e maior experincia. - Ela pertence  orgulhosa casa dos Plantagenetas, que nunca do a entender
que uma ferida lhes di. J se viram alguns que, banhados em sangue aps terem recebido um golpe mortal, tratavam dos seus camaradas dotados de uma alma menos forte.
Florisa, procedemos muito mal e, quanto a mim, daria at  minha ltima jia para nunca ter pensado nesta fatal brincadeira.
210

CAPITULO XVIII
"Para operar esta obra necessitamos o concurso Dos astros governando os nossos destinos no seu curso.  preciso que o Sol, de acordo com Mercrio, Esteja em conjuno
to poderosa quanto segura. So grandes espritos, fantsticos, orgulhosos. Para que por vezes se dignem vetar, do alto dos cus. Sobre a sorte dos mortais que rastejam
sobre a terra. So precisos grandes motivos."
ALBUMAZAR 1
O ermita seguiu as damas que saam do pavilho de Ricardo, mas parou na soleira da porta e, virando-se para o rei, disse-lhe, com o brao estendido, num tom proftico
e numa atitude quase ameaadora:
- Ai daquele que rejeita o conselho da Igreja e recorre ao div imundo dos infiis! Rei Ricardo, no sacudo ainda a poeira dos meus ps para sair do teu acampamento.
A espada no cai ainda; mas no est suspensa seno por um cabelo. Monarca altivo, voltaremos a ver-nos.
Ricardo respondeu-lhe, ao v-lo sair:
- Pois bem, seja, orgulhoso padre, mais orgulhoso sob as tuas peles de cabra do que os prncipes sob a prpura e o linho.
Quando o ermita saiu da tenda, o rei continuou, dirigindo-se ao mdico:
1 Traduo livre.
211
- Sbio Hakim - disse-lhe - os dervixes do Oriente falam tambm assim com tanta familiaridade aos seus prncipes?
- Um dervixe - respondeu Adonebec - deve ser um sbio ou um louco; no h meio termo para quem usa o kirkhah 1; vela de noite e jejua de dia. Da resulta que tem
a prudncia suficiente para se comportar com discrio em presena dos prncipes, ou que, no tendo recebido o dom da razo, no  responsvel pelas suas aces.
- Parece-me que os nossos monges adoptaram sobretudo esta ltima caracterstica - disse Ricardo. - Mas vamos aos factos. Que posso fazer por ti, meu digno mdico?
- Grande rei - disse El Hakim, saudando-o  maneira oriental
- permiti que o vosso servidor vos dirija a palavra em segurana. Queria recordar-vos que deveis, no a mim, que no sou seno o seu humilde instrumento, mas s
inteligncias que se servem de mim para espalhar as suas benesses sobre os mortais, uma vida...
- Que querias que te pagasse concedendo-te uma outra, no  assim?
- Tal  a humilde prece que dirige ao grande Melec Ric; peo-Lhe a vida do bom cavaleiro que foi condenado  morte por uma falta semelhante  que cometeu o sulto
Ado apelidado de Aboul Beschar, quer dizer o pai de todos os homens.
- E a tua sabedoria, Hakim, ter-te-ia podido lembrar que foi por esta falta que Ado foi condenado  morte? - disse Ricardo em tom grave, mas com certa emoo. -
Merc de Deus! Eis uma pobre vida que condenei justamente, e eu rei, eu soldado, por ordem de quem a morte foi dada a milhares de homens, eu cuja mo imolou algumas
vintenas, no poderei ser dela o senhor, embora a honra das minhas armas, da minha casa e at da minha esposa, tenha sido manchada pelo culpado! Por So Jorge, e
esta ideia far-me-ia rir! Por So Lus! esta aventura faz-me lembrar a pequena fbula de Blondel, que fala de um castelo encantado onde um cavaleiro queria
1 A letra significa o vestido rasgado, nome que se d  veste que trazem os dervixes.
212
entrar e a propsito do qual seres revestidos de diferentes formas se opunham sucessivamente; logo que um desaparecia, um outro tomava o seu lugar. Mulher, parente,
ermita, mdico, mal triunfei de um, logo outro aparece na lia;  um cavaleiro sozinho, forado a combater contra toda a multido num torneio! Ah! ah! ah!
E Ricardo ps-se a rir com vontade, porque comeava a acalmar-se, visto que a sua fria era em geral demasiado violenta para poder ser de longa durao.
Durante este tempo, El Hakim olhava-o com um ar de supresa, porque os Orientais consideram o riso, quase em todas as ocasies, como degradante para a dignidade do
homem, no convindo seno s mulheres e s crianas. Por fim, o sbio dirigiu de novo a palavra ao rei, quando o viu um pouco mais calmo.
- Uma sentena de morte no pode sair de lbios que sorriem disse. - Permite ao teu servidor esperar que lhe concedeste a vida deste homem.
- Recebe a liberdade de mil cativos - respondeu Ricardo. Devolve um milhar dos teus concidados s suas tendas e s suas famlias; vou-te assinar uma ordem para
isso, imediatamente. A vida deste homem no te pode servir para nada e ele est condenado  morte.
- Todos estamos condenados a morrer - disse Hakim - mas o nosso grande credor  misericordioso e no exige o pagamento da dvida nem com um excesso de rigor nem
antes de tempo.
- No podes provar-me teres qualquer interesse especial em interceder junto de mim para impedir um acto de justia, justia que me compete fazer executar como rei
coroado.
- Compete-vos praticar actos de merc como de justia, grande rei; mas  a vossa vontade que quereis fazer executar. Quanto ao interesse especial que tenho em fazer-vos
este pedido, sabei que a yida de muitos homens depende do sucesso que obtiver.
- Explica-te, no tentes impor-te com falsos pretextos.
- O vosso servidor est muito longe de ter tal propsito, sir. Sabei, pois, que a bebida  qual, assim como muitos outros, devei' a vossa cura,  um talism composto
sob certos aspectos do firma mento nos instantes em que as divinas inteligncias so mais propcias. No sou seno o pobre administrador das suas virtudes.
213
Mergulho-o numa taa de gua, observo a hora conveniente para o administrar ao doente, e a eficcia da poo opera a cura.
-  um remdio to precioso quanto  cmodo - disse Ricardo.
- E, como o mdico o pode trazer na sua bolsa, poupa a caravana dos camelos que  necessrio ter para o transporte das drogas. Estou surpreendido por a arte da medicina
empregar outros meios.
- Est escrito - respondeu El Hakim, com uma gravidade imperturbvel. - No insultes o corcel que te trouxe da batalha. Sabei pois que  possvel, na verdade, fazer
semelhantes talisms; mas bem fraco  o nmero de adeptos que ousaram empreender ou aplicar as suas virtudes. Severas restries, prticas penosas, jejuns e penitncias,
so indispensveis ao sbio que emprega este meio para curar; e se, ao negligenciar estas preparaes solenes, entregando-se aos prazeres sensuais, omite curar pelo
menos doze doentes por lua, todas as virtudes do dom divino deixaro o amuleto: ele fica exposto  maiores desgraas assim como o seu ltimo doente e todos descem
ao tmulo antes do fim desse ano.  necessrio que salve ainda uma vida para completar o nmero exigido.
- Vai dar uma volta pelo acampamento, bom Hakim, e no te faltaro ai doentes para curar. No entanto no tires os dos nossos mdicos, pois que no convm a um sbio
como tu ir buscar os despojos dos outros. Alis, no vejo como, ao arrancar um criminoso  morte que mereceu, poderias completar a conta das tuas curas milagrosas.
- Quando puderes explicar por que razo um copo de gua fria te curou, quando as drogas mais preciosas tinham falhado, poders raciocinar sobre semelhantes mistrios.
Quanto a mim, sou incapaz de operar hoje esta grande obra, tendo tocado esta manh um animal imundo. No me faas mais perguntas a este respeito, grande rei, e que
vos baste saber que, poupando a meu pedido a vida deste homem, livrarei de um grande perigo o vosso servidor e a vossa prpria pessoa.
- Escuta, Adonebec, no ponho objeces a que os mdicos envolvam as suas palavras de obscuridade e pretendam tirar dos astros os seus conhecimentos: mas quando
dizes a Ricardo Plantageneta recear um perigo para ele prprio, por causa da omisso de qualquer cerimnia ou como consequncia de algum vo pressgio, fica sabendo
214
que no falas a um saxo ignorante ou a uma velha disparatada que renuncia ao que queria fazer porque uma lebre se lhe atravessa no caminho, porque um corvo crucita
ou porque um gato espirra.
- No posso fazer nada para que deixeis de duvidar da minha palavra, sir; no entanto, que Vossa Majestade concorde por um instante que a verdade est na boca do
seu servidor; julgais justo privar das virtudes deste precioso talism o mundo inteiro e todos os desafortunados que jazem no leito de dor sobre o qual vs prprio
estveis estendido h to pouco tempo, de preferncia a conceder o perdo de um pobre criminoso? Pensai, grande rei, que, embora pudsseis dar a morte a milhares
de homens, no podeis restituir a sade a um nico. Os reis tm o poder de Satans para destruir, e os sbios o de Al para curar; pensai pois que ides roubar 
humanidade um benefcio que no lhe podeis conceder; podeis fazer tombar uma cabea, mas no podeis curar uma dor de dentes.
-  demasiada insolncia - disse o rei, comeando a encolerizar-se de novo  medida que El Hakim tomava um tom mais elevado e quase imperioso. - Tommos-te como
mdico, mas no como conselheiro ou director da nossa conscincia.
-  assim que o prncipe mais famoso do Frangisto paga um servio prestado  sua real pessoa? - disse Adonebec abandonando a sua atitude at a humilde e respeitosa,
para tomar um ar imponente e quase ameaador. - Fica ento sabendo que em todas as Cortes de Europa e da sia, aos muulmanos e aos nazarenos, aos cavaleiros e s
damas, por toda a parte onde se ouvir uma harpa e se cingir uma espada, onde quer que se respeite a honra e de deteste a infmia, em todas as regies do mundo, denunciar-te-ei,
Melec Ric, como no possuindo nem reconhecimento nem generosidade. Mesmo os pases, se existirem, que nunca ouviram falar da tua glria, ressoaro com o barulho
da tua vergonha.
-  assim que ousas falar-me, vil infiel? - bradou Ricardo, avanando para ele furiosamente. - Estars farto da vida?
- Bate! - respondeu El Hakim. - As tuas prprias obras descrever-te-o ainda melhor do que poderiam fazer as minhas palavras, ainda que cada uma delas fosse munida
do aguilho de uma vespa.
215
Ricardo afastou-se dele, bruscamente, recomeou a andar pela tenda, de braos cruzados, e exclamou em seguida:
- Nem reconhecimento nem generosidade, mais valia ser chamado cobarde e infiel! Hakim, escolheste a tua recompensa; e embora preferisse que me tivesses pedido a
minha coroa de pedras preciosas, no agiria como rei se ta recusasse. Toma pois esse escocs sob a tua guarda; vou-te dar uma ordem para que o mestre das armas to
entregue.
Traou  pressa duas ou trs linhas e entregou-as ao mdico.
- Faz dele teu escravo; dispe dele como bem te parecer. Somente que tome cuidado em alguma vez se apresentar perante os olhos de Ricardo. Escuta-me: s sbio, ele
foi demasiado audacioso no meio daquelas de doces olhos e fraco julgamento a quem confiamos a nossa honra no Ocidente, tal como vs, orientais, colocais os vossos
tesouros em cofres de fios de prata to lassos e frgeis como os que tece o bicho-da-seda.
- O vosso servidor compreende as palavras do grande rei respondeu o sbio, retomando o ar e o tom respeitoso que tivera no comeo da entrevista. - Quando o rico
tapete est manchado, o louco mostra a mancha; o sbio cobre-a com o seu manto. Ouvi a vontade de Vossa Majestade e "ouvir  obedecer" 1.
- Basta; que ele vele pela sua segurana no se apresentando nunca diante de mim. H mais alguma coisa que possa fazer por ti?
- A bondade do rei encheu a minha taa at aos bordos; sim, com a mesma liberdade com que a nascente brotou no meio do acampamento dos descendentes de Israel, quando
o rochedo foi tocado pela vara de Moussa Ben Amran 2.
- Sim - disse o rei, sorrindo - mas aqui, como no deserto, foi preciso um golpe terrvel no rochedo para que ele prodigalizasse os seus tesouros. Gostava de fazer
por ti algo que corresse to livremente como a fonte que naturalmente concede as suas guas.
- Permiti-me tocar essa mo vitoriosa - respondeu o sbio -
1 Frmula oriental.
2 Moiss filho de Amran.
216
em sinal de que, se Adonebec El Hakim tiver um dia um favor a pedir a Ricardo de Inglaterra, ele possa faz-lo e dizer-se a isso autorizado.
- Tens para isso a minha mo e a minha luva - disse Ricardo.
- Somente, se de futuro pudesses completar a tua conta de doentes curados sem me vir pedir para isentar do castigo aqueles que to justamente condenei, saldaria
de melhor vontade a minha dvida de qualquer maneira.
- Que os vossos dias se multipliquem! - respondeu El Hakim; e retirou-se, fazendo-lhe a saudao usada no Oriente.
Enquanto saa, Ricardo seguiu-o com os olhos, como homem que no estava inteiramente satisfeito com o que acabara de se passar.
- Estranha obstinao a deste El Hakim! - disse para consigo.
- Singular acaso que arranca o audacioso escocs ao castigo que to justamente mereceu! Que viva pois, haver um bravo a mais no mundo. Agora pensemos no austraco.
Ol! o baro de Gilsland est a?
Sir Thomas de Vaux, chamado deste modo, em breve mostrou a sua espessa figura  entrada da tenda do rei. Por detrs dele deslizou, como um espectro, sem ser anunciado,
sem que ningum se opusesse  sua passagem, o magro ermita d'Engaddi.
Ricardo, sem prestar ateno a este ltimo, disse em voz alta ao baro:
- Sir Thomas Multon de Vaux, baro de Lanercott e de Gilsland, pegai numa trombeta e num arauto, e dirigi-vos imediatamente  tenda daquele a quem chamam arquiduque
da ustria, e que seja no momento em que tiver  volta dele o maior nmero dos seus cavaleiros e vassalos. Apresentai-vos diante dele com to pouco respeito quanto
for possvel, e acusai-o da parte de Ricardo de Inglaterra de ter esta noite, de sua prpria mo, ou empregando a de outros, arrancado da haste a nossa bandeira
real. Pelo que, dir-Lhe-eis, a nossa vontade  que, no espao de uma hora, a contar do instante em que vos falo, faa substituir a dita bandeira com toda a honra,
devendo ele e os seus principais bares assistir a isso com a cabea descoberta e sem trazer as insgnias das suas dignidades. Que alm disso arvore, por um lado,
a bandeira da ustria, derrubada, como tendo sido desonrada pelo roubo e a perfdia, e por
217
outro, uma lana ostentando a cabea do que foi seu principal conselheiro ou seu ajudante nesta traio. Acrescentareis que, se estas ordens que lhe damos forem
pontualmente executadas, consentimos, em virtude do nosso voto e para o bem da Terra Santa, em lhe perdoar as suas outras patifarias.
- E se o arquiduque da ustria negar que tenha tomado parte neste acto de injustia e de perfdia? - perguntou de Vaux.
- Diz-lhe que provaremos essa acusao contra ele de armas na mo - replicou Ricardo. - Sim, mesmo que fosse apoiado pelos seus dois mais valentes campees. Prov-lo-emos
como cavaleiros. a p ou a cavalo, no deserto ou no acampamento; dar-lhe-emos a escolha do local, da hora e das armas.
- Pensais vs, sir - disse o baro de Gilsland - na paz de Deus e da Igreja, que deve ser mantida entre os prncipes empenhados nesta santa cruzada?
- Pensais vs que deveis executar as minhas ordens, vassalo? exclamou Ricardo, com impacincia. - Parece que imaginam que basta um sopro para modificar os nossos
projectos. A paz da Igreja! Diz-me, quem pensa nela presentemente? A paz da Igreja entre os cruzados compreende a guerra aos sarracenos, com os quais os prncipes
concluram uma trgua; o comeo de uma e o fim de outra. Alm disso no vs que cada um destes prncipes no procura seno o seu interesse particular? Quero pensar
no meu tambm, e o meu interesse  a minha honra; foi pela honra que vim para aqui, e se no a poder adquirir combatendo contra os sarracenos, pelo menos no quero
perd-la frente a esse miservel arquiduque, mesmo que todos os prncipes da cruzada lhe servissem de baluarte.
De Vaux dispunha-se a obedecer s ordens do rei, com um leve encolher de ombros, no podendo na sua brusca franqueza esconder que estas ordens no estavam de acordo
com a sua opinio.
Mas o ermita d'Engaddi avanou, tomando o ar inspirado de um homem encarregado de ordens mais elevadas do que as que podem ser dadas por qualquer potentado da Terra.
com efeito, as suas vestes de peles de cabra, a sua barba e os cabelos em desordem, tudo oferecia nele o retrato que podemos imaginar dos profetas das Escrituras,
que desciam dos rochedos e saam das cavernas onde viviam em profunda solido, para confundir os tiranos da Terra no meio do
218
seu orgulho, fulminando contra eles as ameaas terrveis da majestade divina.
No meio dos seus maiores acessos de clera, Ricardo respeitava a Igreja e os seus ministros e, embora descontente por ver o ermita entrar na sua tenda com to pouca
cerimnia, saudou-o com ar bondoso e fez sinal ao mesmo tempo, a Sir Thomas de Vaux, para se apressar a cumprir a sua misso.
Mas o ermita, por meio de gestos, olhares e palavras, proibiu ao baro dar um nico passo para se desempenhar de uma tal mensagem e, levantando o brao nu, voltou-se
para o rei.
- Em nome de Deus e do muito Santo Padre, vice-rei sobre a Terra, da Igreja crist - disse - probo esse cartel profano, brutal e sanguinrio, entre dois prncipes
cristos, cujo ombro traz a bem-aventurada insgnia pela qual se juraram fraternidade. Desgraado daquele que quebrar este elo! Ricardo de Inglaterra, revoga as
ordens mpias que acabas de dar a este baro. O perigo e a morte esto perto de ti. O punhal brilha perto da tua garganta, e...
- O perigo e a morte so os companheiros de Ricardo - respondeu o monarca. - J desafiou a espada vezes de mais para temer o punhal.
- O perigo e a morte esto perto de ti! - repetiu o anacoreta e depois da morte o julgamento!
- bom, padre, respeito a vossa pessoa e a vossa santidade, mas...
- No me respeites! Respeita antes o vil insecto que rasteja sobre as margens do mar Morto e que se alimenta do seu maldito lodo; mas respeita o juramento de concrdia
que todos vos haveis prestado, e no rompas o elo prateado de unio e fidelidade que rene todos os prncipes confederados.
- Bom, padre, vs, gentes da Igreja, pareceis-me ter um pouco de presuno, se  permitido a um leigo falar assim, e contais demasiado sobre a dignidade do vosso
santo carcter. Sem pr em dvida o direito que tendes em tomar o cuidado da nossa conscincia, creio que nos podereis deixar o de velar pela nossa honra.
- Presuno, rei Ricardo! Estou eu no direito de ter presuno. eu que no sou seno a humilde campainha que obedece  mo do sacristo, o vil insensvel clarim
que transmite as ordens daquele
219
que o toca? Vs, rojo-me a teus ps para te implorar que tenhas piedade da cristandade, da Inglaterra e de ti mesmo.
- Levantai-vos, levantai-vos - disse Ricardo levantando-o ele prprio. - No convm que o joelho que to frequentemente se flecte diante da Divindade toque a terra
em honra de um homem. Que perigo nos ameaa, reverendo padre? Desde quando  que o poder da Inglaterra est to decado para que a insolncia clamorosa deste arquiduque
de nova fbrica a deva alarmar, a ela e ao seu monarca?
- -Levantei os olhos do alto da minha montanha sobre o exrcito dos cus, enquanto os astros, no seu curso nocturno, comunicavam a sua sabedoria uns aos outros e
derramavam conhecimentos sobre o pequeno nmero daqueles que sabem entender a sua linguagem. Um inimigo reside na tua Casa de Vida, altivo monarca, um inimigo perigoso
para o teu renome e para a tua prosperidade; uma emanao de Saturno, que te ameaa com um perigo prximo e sangrento, e que, a menos que vergues a tua altiva vontade
sob o jugo do teu dever, te esmagar em breve no meio do teu prprio orgulho.
- Cala-te! Cala-te!  uma cincia pag; os cristos no a praticam; os homens sbios no acreditam nela; s louco, velho!
- No sou louco, Ricardo; no sou suficientemente feliz para o ser. Conheo a minha situao e sei que uma parcela de razo me  dada ainda, no para mim, mas para
vantagem da Igreja e os interesses da cruz; sou o cego que segura uma tocha para os outros, embora no lhe veja a luz. Interroga-me sobre o que respeita o bem da
cristandade e o desta cruzada, e responder-te-ei como o mais sbio conselheiro da boca do qual a persuaso alguma vez se escoou. Fala-me do que respeita ao meu miservel
indivduo, e as minhas palavras sero as do desprezvel insensato que sou.
- No gostaria de romper os ns que unem os prncipes da cruzada - disse Ricardo, em tom mais brando. - Mas como podem eles reparar o insulto e a injustia que acabo
de sofrer?
-  uma pergunta  qual estou pronto a responder, e estou at autorizado a faz-lo pelo Conselho que, convocado por Filipe de Frana, se reuniu  pressa e j tomou
medidas para esse efeito.
-  estranho que outros resolvam decidir o que  devido  majestade ultrajada da Inglaterra!
220
- Os prncipes cruzados esto dispostos a ir ao encontro, se possvel, de todos os vossos pedidos a esse respeito. Consentem, unanimemente, em que a bandeira de
Inglaterra seja de novo colocada sobre o monte So Jorge; castigaro o autor ou os autores audaciosos deste ultraje; prometero uma recompensa real a quem denunciar
o culpado e a sua carne servir de pasto aos lobos e aos corvos.
- E o austraco, sobre quem pesam to fortes suspeitas de ter sido o autor deste insulto?
- Para evitar a discrdia no exrcito, o arquiduque justificar-se- das suspeitas que pairam sobre ele, submetendo-se a qualquer prova que o patriarca de Jerusalm
quiser indicar.
- Justificar-se- ele pela prova do combate?
- O seu juramento probe-lho. Alm disso o Conselho dos Prncipes...
- No quer autorizar o combate, nem contra os sarracenos nem contra nenhum outro - bradou Ricardo impetuosamente. - Mas basta, meu padre; demonstraste-me que era
loucura a maneira como ia agir neste assunto. No h honra nenhuma em ganhar contra o austraco, no pensemos nele. Quero no entanto que ele cometa perjrio; insistirei
para que se submeta  prova. Como hei-de rir quando vir os seus gordos dedos estremecerem ao pegar no ferro rubro, ou, quando abrir a sua grande boca, sufocar para
engolir o po consagrado!
- Paz, Ricardo! - disse o ermita - paz, por vergonha se no for por caridade! Quem h-de louvar e honrar prncipes que se insultam e se caluniam uns aos outros?
O ermita ficou um momento como que a meditar, os olhos baixados para a terra, e acrescentou em seguida:
- Mas o Cu, que conhece as imperfeies da nossa natureza, aceita a tua obedincia imperfeita e, sem revogar a sentena ditada contra ti, adia-lhe a execuo. O
anjo exterminador ficou parado como outrora sobre o limiar da porta d'Araunah, o Jbusen; mas tem na mo a espada que num tempo no muito distante, rebaixar Ricardo,
o Corao de Leo, ao nvel do mais humilde campons.
- Ser ento assim to depressa? - disse Ricardo. - Pois bem, seja! Que a minha vida seja brilhante se tem de ser breve.
- Ai de ti, nobre rei - disse o solitrio, e pareceu que uma
221
lgrima rolou dos seus olhos - a tua vida ser curta, triste, cheia de mortificaes e perturbada pelo cativeiro. Tal ser o espao que te separa ainda do tmulo
no qual sers colocado sem deixar descendncia, sem ser seguido pelas lgrimas de um povo que ters extenuado com as tuas guerras sem fim, sem ter aumentado os conhecimentos
dos teus sbditos, sem ter feito nada pela sua felicidade.
- Mas no sem renome, monge, no sem as lgrimas da dama que eu amo. Estas consolaes que no podes conhecer nem apreciar, seguiro Ricardo no tmulo.
- Crs que no conheo, que no posso apreciar o valor dos elogios de um menestrel e o amor de uma dama? - exclamou o ermita, que pareceu por instantes rivalizar
de entusiasmo com o prprio Ricardo. - Rei da Inglaterra! - continuou estendendo o brao descarnado. - O sangue que corre nas tuas veias no  mais nobre do que
aquele que estagna nas minhas. Por frias que sejam as gotas que a se encontram ainda, elas pertencem ao sangue real de Lusignan, do heri, do santo Godofredo. Sou,
quero dizer, era, quando vivia no mundo, Albric de Mortemar.
- Cujas proezas tantas vezes fizeram ressoar as trombetas da fama! - exclamou Ricardo. - Ser verdade? Ser possvel que um astro semelhante tenha desaparecido do
horizonte da cavalaria, sem que tenham sequer sabido onde repousavam as suas cinzas?
- Procura uma estrela cada - respondeu o ermita - e no encontrars seno um pouco de gua estagnada. Ricardo, se pensasse que, levantando o vu sangrento que cobre
o meu horrvel destino, poderia tornar submisso  disciplina da Igreja o teu corao orgulhoso, creio que encontraria a coragem suficiente para te fazer o relato
de factos que mantive at agora cuidadosamente escondidos no meu peito. Escuta ento, Ricardo, e que o desgosto e o desespero, que no so de nehuma utilidade ao
miservel resto do que foi outrora um homem, possam tornar-se um exemplo vivo para um ser to nobre mas to impetuoso como tu. Sim, sim, reabrirei as feridas tanto
tempo mantidas secretas, mesmo que devessem, ao reabrir-se, sangrar a ponto de me dar a morte na tua presena.
O rei Ricardo, a quem a histria de Albric de Mortemar impressionara profundamente na sua juventude, quando menestris cantavam
222
no palcio de seu pai as lendas da Terra Santa, escutou atentamente o relato abreviado que, embora obscuro e imperfeito, era o suficiente para indicar a causa da
quase demncia deste homem to singular quanto infeliz.
- No tenho necessidade de te contar - disso o anacoreta que era nobre de nascimento, elevado pela minha fortuna, bravo no uso das armas, prudente nos conselhos.
Era tudo isso, mas enquanto as mais nobres damas da Palestina disputavam sobre quem havia de fazer grinaldas para o meu capacete, o meu corao prendera-se apaixonadamente
a uma rapariga de origem humilde. Seu pai, antigo soldado da cruz, apercebeu-se do nosso amor e, receando a diferena de condio que nos separava, no viu outro
refgio para a honra de sua filha seno na sombra do claustro. Ao regressar de uma expedio longnqua, rico de glria e de despojos encontrei a minha felicidade
destruda para sempre e fechei-me tambm num claustro. Foi a que Satans, que me marcara como sua presa, lanou no meu corao um sopro de orgulho espiritual, que
no podia ter a sua origem seno nas regies infernais. Elevara-me na Igreja to alto como outrora no estado. Apelidavam-me de sbio, justo, incorruptvel; era o
conselheiro dos conclios e o director dos bispos. Como teria podido dar um passo em falso? Como teria eu podido temer a tentao? Ai de mim! Tornei-me confessor
de um convento e nesse convento encontrei aquela que amava h tanto tempo, que h tanto tempo perdera.
"Poupai-me mais amplas confisses. Uma religiosa culpada, que se puniu do seu crime por meio de suicdio, repousa sob as abbadas das cavernas de Engaddi, enquanto
sobre a sua sepultura chora, geme e se desespera um ser a quem no resta a razo suficiente para sentir a extenso da sua desgraa e do seu crime.
- Desgraado - disse Ricardo - j no me espantam os teus lamentos. Mas como escapaste aos castigos que pronunciam os cnones da Igreja contra um tal crime?
- Pergunta-o quele que est ainda mergulhado no fel da amargura mundana - respondeu o ermita - e falar-te- de uma vida poupada por respeito pessoal e considerao
por uma condio elevada. Mas dir-te-ei, Ricardo, que a providncia me conservou para fazer de mim um farol sobre um promontrio, e cujas cinzas,
223
quando o seu fogo terrestre for extinto, podero ser lanadas ao vento. Por extenuado que esteja o pobre corpo que vs, dois espritos o animam ainda, um activo,
empreendedor, poderoso para sustentar a causa da Igreja de Jerusalm, e outro vil, abjecto, flutuando entre a loucura e o desespero, para deplorar a minha misria
e guardar santas relquias sobre as quais no poderia elevar os olhos sem cometer um crime.
"No tenhas piedade de mim, mas aproveita o meu exemplo. Ests colocado sobre o pinculo mais elevado e, por conseguinte mais perigoso, que um prncipe cristo ocupa;
o teu corao alimenta-se de orgulho, a tua vida passa-se na luxria, a tua mo est tingida de sangue.
Afasta de ti os pecados que so as mulheres e escorraa essas frias que o teu corao adoptou, a soberba, a luxria, a tua sede de sangue.
- Est a delirar - disse Ricardo, afastando-se do solitrio com o ar de um homem ferido por um sarcasmo. Mas logo, olhando o anacoreta com uma calma que se aproximava
do desprezo, disse-lhe -: Arranjas-me um lindo enxame de mulheres, reverendo padre, embora no esteja casado seno h alguns meses; mas, j que  preciso que as
expulse do tecto paterno, convm que um bom pai lhes procure estabelecimentos adequados. Darei pois a minha soberba aos nobres prncipes da Igreja, a minha luxria
aos monges da tua ordem, e a minha sede de sangue aos cavaleiros do Templo.
- Corao de ao, mo de ferro para quem os exemplos e os conselhos esto igualmente perdidos - bradou o anacoreta. - Sers contudo poupado por algum tempo, para
que possas mudar de vida e fazer o que agrada ao Cu. Quanto a mim,  preciso que regresse  minha gruta. "Kyrie Eleison". Sou aquele por quem os raios da graa
celeste incidem, como os do Sol, a ponto de o queimar e o incendiar, enquanto o vidro permanece frio e intacto. "Kyre Eleison".  preciso chamar o pobre, porque
o rico recusou assistir ao banquete. "Kyrie Eleison".
E com estas palavras saiu da tenda, soltando grandes gritos.
- Este padre  louco - exclamou Ricardo. - Segue-o, de Vaux, e vela para que no lhe acontea nenhum acidente; porque, por muito cruzados que sejamos, um jogral
merece mais respeito no
224
"Pouco a pouco, voltou para elas as msculas feies."
Desenho de A. Desenne, gravado em ao por Pourvoyeur Ed. Gosselin-Santelet et Cie. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.
meio dos nossos soldados do que um monge ou um santo e poderiam pregar-lhe qualquer m partida.
De Vaux obedeceu, e Ricardo abandonou-se aos pensamentos que lhe inspiravam as estranhas profecias do ermita.
- Morrer jovem, sem descendncia, sem deixar saudades  uma sentena severa. Contudo, os sarracenos, que so versados nas cincias msticas, pretendem que aquele
aos olhos do qual a prudncia do sbio no  seno loucura, concede o dom da sabedoria e da profecia ao ser atacado de demncia. Dizem tambm que este anacoreta
sabe ler nos astros. Gostaria de lhe ter feito algumas perguntas sobre a perda da minha bandeira.
- Ento, de Vaux, que novidades h deste padre louco?
- Chamais-lhe louco, sir - respondeu de Vaux. - Creio que se assemelha antes ao bem-aventurado Joo Baptista saindo do deserto. Subiu para uma das nossas mquinas
de guerra e de l prega aos soldados: e nunca ningum pregou como ele, desde o tempo de Pedro-o-Ermita. Todo o acampamento, atrado pelos seus gritos, se aglomera
em volta dele; interrompendo de tempos a tempos o fio principal do seu discurso, dirige-se sucessivamente s diferentes naes, a cada uma na sua lngua, e faz valer
um por um os argumentos mais prprios para decidir cada uma delas a persistir na santa empresa de libertar a Palestina.
- Pelo dia que os ilumina!  um nobre ermita - disse o rei. Mas poder-se-ia esperar outra coisa do sangue de Godofredo? Desespera da sua salvao porque cedeu outrora
ao amor. Obter-lhe-ei do Papa uma boa absolvio, mesmo que a sua bela amiga tivesse sido abadessa.
Enquanto assim falava, vieram avis-lo de que o arcebispo de Tyr pedia uma audincia para convidar Ricardo a assistir, se a sua sade lhe permitisse, a um conselho
secreto dos chefes da cruzada, onde o informariam dos incidentes militares e polticos que se tinham passado durante a sua doena.
225

CAPITULO XIX
"Se li ento necessrio embainhar vergonhosamente
As nossas espadas, at aqui sempre
Hostis,
Quando tantos inimigos morderam a
poeira?
Vamos ns, cobardemente, voltar para trs?
Lanar fora o escudo que, em face dos altares, tommos fazendo juramento solene? Pois sero os nossos votos a promessa efmera que a me fez  criana a fim de a
acalmar e que o vento leva, sem que nada reste?
A Cruzada, Tragdia.
O arcebispo de Tyr era um emissrio perfeitamente escolhido para comunicar a Ricardo notcias que nenhuma outra voz lhe teria podido anunciar sem provocar as mais
terrveis exploses de ressentimento.
O reverendo prelado, apesar de toda a sua sagacidade, encontrou mesmo assim certa dificuldade em o dispor a escutar palavras que destruam toda a sua esperana de
reconquistar o Santo Sepulcro pela fora das armas, e de readquirir o renome que toda a cristandade estava pronta a conceder-lhe unanimemente, como ao campeo da
cruz.
Segundo o relato que lhe fez o arcebispo, parecia que Saladino reunia todas as foras das suas cem tribos, e que os monarcas da Europa, que diferentes motivos desgostavam
j de uma expedio
1 Traduo livre.
227
to acidentada e que todos os dias se tornava ainda mais. tinham resolvido renunciar ao seu projecto. Eram apoiados nesta resoluo pelo exemplo de Filipe da Frana
que, com muitos protestos de amizade, e insistindo que queria ver antes do mais o seu irmo da Inglaterra em segurana, declarara a sua inteno de regressar  Europa.
O seu grande vassalo, o conde de Champagne, adoptara a mesma determinao e no ficaria surpreendido se Leopoldo, insultado como fora por Ricardo, tivesse com prazer
aproveitado a ocasio para abandonar uma causa de que o seu orgulhoso adversrio era considerado o chefe. Outros anunciavam o mesmo propsito, de modo que era e
evidente que se o rei de Inglaterra se obstinasse em permanecer na Palestina, no seria j apoiado seno pelos voluntrios que, em circunstncias to pouco encorajadoras,
se poderiam reunir ao exrcito ingls e pelos auxlios bastante duvidosos de Conrado de Montserrat e dos cavaleiros das ordens militares do Templo de So Joo que,
embora forados pelos seus votos a fazer guerra aos sarracenos, no desejavam contudo que nenhum monarca europeu fizesse a conquista da Palestina onde, com as vistas
estreitas de uma poltica egosta, se propunham formar uma soberania independente. Ricardo no tardou a compreender qual era a sua verdadeira situao.
Depois de um primeiro mpeto de indignao, sentou-se tranquilamente e escutou com um ar sombrio, de cabea baixa e braos cruzados sobre o peito, os argumentos
do arcebispo sobre a impossibilidade em que se encontraria de persistir na cruzada quando os seus companheiros a tivessem abandonado.
Absteve-se at de o interromper quando o prelado, em palavras medidas, se aventurou a fazer sentir que o carcter impetuoso de Ricardo fora uma das principais causas
que haviam desgostado os prncipes desta espedio.
- "Confiteor" - respondeu Ricardo, com um ar abatido e um sorriso de tristeza. - Confesso, respeitvel prelado, que sob certos aspectos quereria dizer "mea culpa".
Mas no ser muito duro punir com uma tal penitncia a fragilidade do meu carcter? O qu! por alguns acessos de arrebatamento bem naturais, estarei condenado a
ver murchar debaixo dos meus olhos esta rica colheita de glria para
228
Deus e de honra para a cavalaria? Mas no! Pela alma do conquistador, plantarei a cruz sobre as torres de Jerusalm, ou plant-la-o sobre o tmulo de Ricardo!
- Podeis faz-lo - disse o arcebispo - sem verter nesta querela nem mais uma gota de sangue cristo.
- Quereis falar de um tratado; mas ento ser preciso que o sangue destes ces infies deixe tambm de correr.
- Haver glria suficiente em ter arrancado a Saladino, pela fora das armas e pelo respeito que a vossa fama inspira, condies que nos entregaro o Santo Sepulcro,
que abriro a entrada da Terra Santa aos peregrinos, que garantiro a sua segurana concedendo-nos praas fortes e que, o que ainda  mais, asseguraro a da Cidade
Santa conferindo a Ricardo o ttulo de rei guardio de Jerusalm.
- Como! - exclamou Ricardo, com os olhos brilhando com um fulgor desusado. - Eu! eu! Eu. rei guardio da Santa Cidade! A vitria, se  que isto no  uma vitria,
no poderia obter mais! Dificilmente poderia esperar tanto, devido s foras desunidas e  m vontade. Mas Saladino prope-se conservar algum poder na Terra Santa?
- Sim. mas a tais ttulos que seria soberano conjuntamente com o poderoso Ricardo, seu aliado e, se isso lhe for permitido, seu parente por casamento.
- Por casamento! - repetiu Ricardo, surpreendido mas menos do que o prelado esperava. - Ah. sim! Edith Plantageneta... Sonhei-o eu? Ou algum me falou nisso? A minha
cabea ressente-se ainda da febre e tive o esprito to agitado... Foi o escocs. Hakim ou o ermita, quem me falou nessse estranho projecto?
- Foi provavelmente o ermita d'Engaddi - disse o arcebispo porque trabalhou muito nesta negociao; e depois, desde que o descontentamento dos prncipes se tornou
evidente, e que a separao das suas foras parece inevitvel, manteve muitas conversaes, tanto com os cristos como com os pagos, para preparar uma paz que possa
assegurar  cristandade uma parte ao menos das vantagens que se propunham obter com esta santa guerra.
- A minha parente a um infiel! - bradou Ricardo, cujos olhos comeavam a relampejar.
229
O prelado apressou-se a desviar a sua clera:
- Evidentemente que  preciso primeiro obter o consentimento do Papa - disse - e o santo ermita, que  bem conhecido em Roma, tratar com o Santo Padre.
- O qu? Sem o nosso consentimento? - exclamou Ricardo.
- com certeza que no - respondeu o arcebispo, em tom brando e insinuante - somente com a vossa especial sano.
- A minha sano para dar a minha parente em casamento a um infiel! - disse Ricardo. No entanto falava mais com um ar de um homem que hesita sobre o que deve fazer
do que com um tom anunciando que reprovava absolutamente uma tal proposta. - Teria eu podido sonhar com um tal arranjo - acrescentou - quando da proa da minha galera
saltei sobre a margem da Sria, tal como um leo corre para a sua presa! E agora... Mas continuai, escutar-vos-ei pacientemente.
To encantado quanto surpreendido por encontrar a sua tarefa muito mais fcil do que esperava, o arcebispo apressou-se a citar a Ricardo numerosos exemplos de alianas
semelhantes que tinham tido lugar em Espanha. Fez-lhe valer as vantagens incalculveis que toda a cristandade retiraria da unio que Ricardo e Saladino contrairiam
por meio de uma tal aliana; e sobretudo falou com muito calor e uno da probabilidade de Saladino, como consequncia do casamento proposto, renunciar  sua f
errnea para abraar a verdadeira.
- O sulto mostrou-se disposto a tornar-se cristo? - perguntou Ricardo. - Se tal acontecesse, no haveria outro rei a quem eu entregasse a mo de uma parente, e
at de uma irm, com mais prazer do que ao nobre Saladino. Sim, mesmo que ele apenas tivesse para lhe oferecer a sua boa cimitarra e o seu corao ainda melhor,
e que um outro pusesse a seus ps ceptros e coroas.
- Saladino ouviu os nossos professores de cristianismo - respondeu o arcebispo, procurando iludir a pergunta - e -nos permitido esperar que se possa tornar um tio
arrancado s chamas. Magna est vcritas, et proevalebit 1. Alis o ermita d'Engaddi.
1 A verdade  grande: ela prevalecer.
230
cujas palavras raramente caem na terra sem produzir frutos, est plenamente convencido de que se aproxima o momento em que os sarracenos e os outros pagos sero
chamados ao conhecimento da verdade e que este casamento poder apress-lo. Sabe ler no curso dos astros; e de facto, mortificando a carne, nestes lugares consagrados
que os santos outrora habitaram, recebe o esprito de Elias, como outrora o recebeu o profeta Eliseu, filho de Saphat, quando lhe deixou o seu manto.
O rei Ricardo escutou os raciocnios do prelado, de olhos baixos e com um ar de perturbao evidente.
- J no me reconheo - disse - parece-me que os frios Conselhos dos Prncipes da Cristandade me atacaram tambm com uma letargia espiritual. Houve tempo em que,
se um leigo me tivesse proposto uma tal aliana, lhe teria despedaado o crnio contra o solo, e se fosse um homem da igreja, ter-lhe-ia cuspido na cara como a um
renegado e a um sacerdote de Baal. E no entanto, presentemente, esta proposta soa aos meus ouvidos de um modo estranho. Porque no haveria eu de aceitar a fraternidade
e a aliana de um sarraceno bravo, justo e generoso, que sabe honrar e amar um inimigo digno de si. como se fosse um amigo, enquanto os prncipes cristos abandonam
cobardemente os seus aliados, a causa do Cu e a honra do cavaleiro? Mas armar-me-ei de pacincia e no pensarei neles. Apenas farei mais uma tentativa para apertar
de novo os laos que unem todo este bravo exrcito. Se no conseguir, voltaremos  vossa proposta; de momento no a aceito nem a rejeito. Dirijamo-nos ao Conselho,
reverendo arcebispo; chegou a hora. Censurais a Ricardo ser altivo e impetuoso: ides v-lo humilde e malevel como a giesta que deu o nome a sua raa.
com a ajuda dos oficiais do seu quarto, o rei vestiu  pressa um gibo e um manto de cor acastanhada e, sem outra insgnia da dignidade real a no ser um crculo
de ouro na cabea, dirigiu-se com o arcebispo de Tyr ao Conselho dos Prncipes onde s se esperava a sua chegada para abrir a sesso.
O pavilho do Conselho era uma grande tenda, diante da qual estavam arvoradas a bandeira da cruz e uma outra sobre a qual se via a imagem de uma mulher de joelhos
com os cabelos e as vestes
231
em desordem; esta imagem representava a Igreja de Jerusalm, e tinha por divisa Afficttie sponsae nc obliviscaris 1.
Guardas cuidadosamente escolhidos no permitiam que ningum se aproximasse da vizinhana desta tenda, a fim de que as discusses, frequentemente tumultuosas, e algumas
vezes mesmo tempestuosas que a tinham lugar, no pudessem chegar a outros ouvidos seno aos que as deviam ouvir.
Era a que os chefes das cruzadas estavam reunidos, esperando a chegada de Ricardo; e o breve atraso que sofreram as suas deliberaes foi aproveitado contra ele
pelos seus inimigos, que o empregaram a contar diversos traos do seu orgulho, e a insinuar que o seu desejo era de se arrogar superioridade sobre os outros, alegando-se
at eximo prova o modo como se fazia esperar neste momento.
Como consequncia, tinha ficado combinado que o receberiam  sua chegada sem muita ateno, e que apenas lhe testemunhariam o respeito estritamente necessrio para
observar as formas de um frio cerimonial. Mas quando viram a nobre estatura, o rosto verdadeiramente real empalidecido pela sua ltima doena, o olhar que os menestris
cantavam como o astro brilhante das batalhas e da vitria, todos se levantaram, at o invejoso monarca da Frana e o sombrio e descontente arquiduque da ustria,
soltaram o grito unnime: "Viva o rei Ricardo de Inglaterra! Longa vida ao valoroso Corao de Leo."
com uma fisionomia que um poeta do Oriente teria comparado ao astro dos cus quando afasta os vapores do meio-dia, Ricardo distribuiu os seus agradecimentos em redor,
e felicitou-se por se reencontrar de novo entre os prncipes cruzados.
Desejava, disse, dirigir algumas palavras  assembleia, embora sobre um assunto indigno de a ocupar, pois que se tratava dele prprio, mesmo com o risco de retardar
por alguns minutos as suas deliberaes para o bem da cristandade e o sucesso da cruzada.
Os prncipes retomaram o seu lugar e fez-se um profundo silncio.
- Este dia  uma grande festa da Igreja - continuou o rei de
1 No esqueam a esposa aflita.
232
Inglaterra - e convm aos cristos, numa poca como esta, reconciliarem-se uns com os outros e confessar as suas faltas. Nobres prncipes nesta santa expedio,
Ricardo  um soldado: o seu brao age melhor do que fala a sua lngua, e a sua lngua est demasiado habituada  brusca linguagem da sua profisso.
Mas que alguns discursos impetuosos ou algumas aces inconsideradas vos no faam abandonar a nobre causa da libertao da Palestina. No renunciem ao renome terrestre
e  salvao eterna que podem merecer aqui, se alguma vez o homem os pode merecer. s porque a conduta de um soldado foi demasiado impetuosa. Se Ricardo  culpado
em relao a algum de vs, Ricardo est pronto a dar-lhe uma satisfao pelas suas palavras e pelas suas aces. Meu nobre irmo de Frana, fui suficientemente infeliz
para vos ofender?
- O rei de Frana no tem qualquer reparao a pedir ao rei de Inglaterra - respondeu Filipe, com uma dignidade verdadeiramente real, aceitando a mo que Ricardo
lhe oferecia. - Qualquer que seja o partido que possa tomar em relao ao prosseguimento desta empresa, ser-me- sugerido por consideraes ditadas pelo interesse
dos meus prprios estados e no certamente por qualquer cime contra o meu digno e mui valoroso irmo.
- O arquiduque da ustria - disse Ricardo, avanando com um misto de franqueza e dignidade em direco a Leopoldo, que se levantou involuntariamente - julga dever
considerar-se ofendido pelo rei de Inglaterra; o rei de Inglaterra cr ter motivo de queixa do arquiduque da ustria; que se perdoem mutuamente para manter a paz
da Europa e conservar a concrdia neste exrcito. Somos todos, os defensores de uma bandeira mais nobre do que qualquer das arvoradas por um monarca da Terra: a
bandeira da salvao. Que no haja pois nenhuma querela entre ns pelo smbolo das nossas dignidades mundanas; mas que Leopoldo torne a colocar no seu lugar a bandeira
de Inglaterra, se estiver em seu poder, e Ricardo dir, sem outro motivo alm do respeito pela Santa Igreja, que se arrepende da maneira precipitada como insultou
o estandarte da ustria.
Leopoldo ficou silencioso, com ar taciturno e sombrio, os olhos baixos e todas as suas feies anunciando um descontentamento refreado, que um receio respeitoso
impede de expressar em palavras.
233
O patriarca de Jerusalm apressou-se a romper o silncio, embaraoso, declarando que o arquiduque da ustria se desculpara por meio de juramento solene de qualquer
conhecimento directo ou indirecto do acto de agresso que fora cometido contra a bandeira de Inglaterra.
- Nesse caso - disse Ricardo - fomos soberanamente injustos com o nobre arquiduque, pedimos-lhe perdo de o ter acusado de um ultraje to cobarde e oferecemos-lhe
a mo em sinal de renovao de paz e de amizade. Que quer dizer isto? Leopoldo recusa tocar a nossa mo nua, tal como antes recusou tocar o nosso guante! O qu!
No podemos ento ser nem seu companheiro na paz nem seu antagonista em campo fechado. Pois bem. seja! Tomaremos a pouca estima que nos concede como uma penitncia
pela falta que cometemos contra ele num momento de efervescncia e, por conseguinte, consideraremos a nossa conta saldada.
A estas palavras, afastou-se do arquiduque com um ar de dignidade mais do que de desprezo. Leopoldo, vendo-o afastar-se, parecia respirar mais livremente, como um
estudante em falta quando o olhar severo do seu pedagogo deixa de se fixar sobre ele.
- Nobre conde de Champagne - continuou Ricardo - prncipe marqus de Montserrat, valoroso gro-mestre dos Templrios, estou aqui como um penitente no confessionrio.
Alguns de vs tendes alguma acusao a fazer contra mim, alguma reparao a pedir?
- No sei qual poderia ser o motivo para isso - respondeu Conrado - a no ser o facto do rei de Inglaterra aambarcar toda a glria que os seus pobres irmos de
armas esperavam alcanar nesta expedio.
- A minha acusao, se sou chamado a fazer alguma - disse o gro-mestre dos Templrios -,  mais grave e mais importante do que a do marqus de Montserrat.
"Podem achar que fica mal a um religioso militar, como eu, elevar a voz quando tantos nobres prncipes guardam silncio; mas est em causa a honra de todo o exrcito
e mesmo a do nobre rei de Inglaterra. Que ele escute algum dizer-lhe na cara o que tantos outros esto dispostos a queixarem-se na sua ausncia. Louvamos e estimamos
a coragem e os altos feitos do rei de Inglaterra; mas
234
estamos desgostosos por o ver em todas as ocasies tomar a procedncia em tudo. Poderamos fazer voluntariamente grandes concesses  sua bravura, ao seu zelo, 
sua riqueza, ao seu poder, mas quem de tudo se apodera como de direito, que nada deixa ao nosso dever,  nossa cortesia e ao nosso valor, trata-nos menos como seus
aliados do que como seus vassalos e mancha aos olhos dos nossos soldados e dos nossos sbditos o brilho de uma autoridade que j no  independente. J que o rei
Ricardo nos pediu a verdade, no deve ficar surpreendido nem zangado de se ouvir responder com franqueza por um homem para quem as pompas do mundo esto interditas,
para quem nada  a autoridade secular quando no pode contribuir para a glria do templo de Deus e para a queda do leo que ronda incessantemente, procurando uma
presa para devorar. Estas verdades, que ouso dizer, no prprio instante em que falo, so confirmadas pelo testemunho do corao de todos os que me ouvem, embora
o respeito lhes feche a boca.
As faces de Ricardo cobriaram-se de vivo rubor enquanto o gro-mestre fazia este ataque preciso e directo contra a sua conduta, e o murmrio confuso que se fez ouvir
na assembleia, no fim deste discurso, provou-lhe de maneira evidente que a justia da acusao era admitida por todos aqueles que estavam presentes. Sentiu contudo
que, se se abandonasse  impetuosidade do seu ressentimento, daria ao sangue-frio do seu acusador a vantagem que ambicionava. Fazendo portanto um violento esforo
sobre si mesmo, guardou silncio at que tivesse mentalmente recitado um patr noster, coisa que o seu confessor lhe aconselhara a fazer todas as vezes que se sentisse
prestes a um movimento de clera. Tomando seguidamente a palavra exprimiu-se com calma, embora no sem um misto de amargura, sobretudo no comeo do seu discurso:
- Ser ento bem verdade? Os nossos irmos preocuparam-se assim tanto a descobrir as enfermidades da nossa natureza e a brusca precipitao do nosso zelo, que algumas
vezes nos levou a dar ordens quando o tempo no permitia deliberar? No teria julgado que ofensas feitas por acaso e sem premeditao, como as minhas, tivessem podido
causar uma impresso to profunda no corao dos aliados desta santa causa. No, no teria podido acreditar que quisessem, por causa de mim, retirar a mo da charrua
quando
235
o sulco est quase inteiramente traado; que pensassem, por causa de mim, voltar as costas ao caminho que conduz a Jerusalm, caminho aberto pela sua espada. Debalde
pensei que os meus fracos servios pudessem cobrir os erros da minha impetuosidade; debalde esperei que, embora se lembrassem da minha insistncia em ir  frente
num assalto, no esquecessem tambm que era sempre o ltimo numa retirada. Sim, se elevava a minha bandeira sobre o campo de batalha abandonado pelo inimigo, era
a nica vantagem que procurava enquanto os outros se disputavam os despojos.
-Posso ter dado o meu nome a uma cidade conquistada, mas cedi a soberania aos outros.
-Se dei conselhos temerrios e audaciosos, creio que no poupei nem o meu sangue nem o dos meus soldados quando se tratava de as executar. Se na precipitao de
uma marcha ou na confuso de uma batalha assumi alguma autoridade sobre os soldados dos outros, sempre os tratei como aos meus, fazendo distribuir as provises e
os remdios que os seus prprios chefes lhes no podiam arranjar. Mas coro ao lembrar-vos o que todos pareceis ter esquecido; ocupemo-nos antes das medidas que temos
de tomar: e acreditem-me, meus nobres irmos - acrescentou - que nem o orgulho nem a clera, nem a ambio de Ricardo constituiro para vs escolhos no caminho para
onde a religio e a glria vos chamam com a trombeta do arcanjo. Oh! no. nunca sobreviveria ao pensa mento de que as minhas franquezas e a minha fragilidade tivessem
cortado o n que rene esta santa assembleia de prncipes. A minha mo direita armar-se-ia para cortar a esquerda, se pudesse com isso dar-vos uma prova da minha
sinceridade. Cederei voluntariamente qualquer direito de comandar o exrcito, mesmo os meus prprios sbditos; ficaro sob as ordens do chefe que lhes quiserem dar;
e o seu rei, que no quer seno trocar o basto de comando pela lana do aventureiro, combater sob a bandeira de Beausaut entre os templrios, at sob a do arquiduque
da ustria, se o arquiduque quiser nomear um homem bravo para comandar as suas foras. Sim. se estais cansados desta guerra, se a vossa armadura vos parece demasiado
pesada, deixai a Ricardo dez a quinze mil dos vossos soldados para a realizao do vosso voto, e quando Sio for nossa inscreveremos sobre as suas portas, no o
nome de Ricardo Plantageneta,
236
mas o dos generosos prncipes que lhe tero fornecido os meios para dela se apoderar.
A eloquncia singela do monarca guerreiro e o seu ar de audcia e resoluo levantaram o esprito abatido dos cruzados, reanimaram a sua devoo e, fixando a ateno
sobre a principal meta do seu empreendimento, fizeram com que a maioria dos prncipes que estavam presentes no Conselho corassem por ter cedido a motivos de queixas
to frvolos como os que antes os haviam ocupado. O fogo dos olhos de Ricardo comunicou-se aos outros e a sua voz deu s outras vozes a coragem de se fazerem ouvir.
O grito de guerra que respondera aos sermes de Pedro-o-Ermita, ressoou sob a tenda, e bradaram de todos os lados.
- Conduz-nos. bravo Corao de Leo; ningum  mais digno de guiar os bravos prontos a seguir-te. Conduz-nos! A Jerusalm! A Jerusalm!  a vontade de Deus! Bem-aventurado
aquele cujo brao puder cooperar na sua execuo!
Estes gritos repentinos fizeram-se ouvir para l do crculo das sentinelas que guardavam o pavilho e foram unanimemente repetidos entre os soldados, que a inaco,
as doenas e a influncia do clima tinham comeado a desmoralizar. A presena de Ricardo, devolvido  sade, e a voz bem conhecida dos outros chefes, reacenderam
o entusiasmo dos cruzados e ao longe ressoavam estes gritos de bravura e de exaltao religiosa: "Sio! Sio! Guerra! Guerra aos infiis! Imediatamente! Imediatamente!
Deus o quer! Deus o quer!
Estas aclamaes do exterior actuaram sobre a coragem renascente dos que estavam sobre a tenda do Concelho. Aqueles que a chama no atingira recearam, pelo menos
de momento, parecer mais frios do que os outros. J no se falou de outra coisa seno em marchar ousadamente sobre Jerusalm logo que a trgua acabasse e, enquanto
esperavam, tomar as medidas necessrias para abastecer o exrcito. O Conselho separou-se. Todos os que tinham assistido pareciam inflamados de um mesmo ardor; mas
no corao de alguns em breve se extinguiu, e no de outros nunca existira verdadeiramente.
Nesta ltima classe estavam o marqus de Montserrat e o gro-mestre dos Templrios, que se retiraram juntos, muito pouco  vontade e descontentes com os acontecimentos
do dia.
237
- Disse-te sempre - repetiu o ltimo, com a expresso de frieza sardnica que lhe era peculiar - disse-te sempre, que Ricardo se livraria das tuas miserveis armadilhas
to facilmente como um leo passaria atravs de uma teia de aranha.
- Mas quando o leo passou - respondeu Conrado - a teia de aranha ressurge.
- No vs, alm disso - volveu o templrio - que se este projecto renovado de conquistas for abandonado, se cada um destes poderosos prncipes se achar livre para
agir como o seu tacanho crebro lhe sugerir, Ricardo no deixar de se tornar rei de Jerusalm em virtude de um tratado com o sulto, aceitando precisamente as condies
que julgavas deverem revolt-lo?
- Por Maom e por Termagnant! - exclamou Conrado, porque os juramentos cristos estavam fora de moda. - Ousas dizer que o orgulho do rei de Inglaterra consentir
em aliar o seu sangue ao de um sulto pago? A minha poltica lanou este ingrediente na taa a fim de que a beberagem que contm lhe causasse nuseas.
- A tua poltica fez um clculo errado e no soube julgar a de Ricardo; conheo as suas intenes de acordo com umas palavras que o arcebispo me disse ou ouvido.
E o teu golpe de mestre em relao  bandeira no fez mais barulho do que mereceriam alguns metros de seda bordada. Marqus de Montserrat, o teu esprito j comea
a no estar em forma. No me fiarei mais nas tuas medidas subtis; experimentarei as minhas. Conheces aqueles homens que os sarracenos nomeiam Charegites?
- Sem dvida, so entusiastas, fanticos desesperados que devotam a sua vida  manuteno da sua religio, e nada os faz parar na execuo dos seus votos.
- Fica sabendo que um destes homens fez voto de imolar o monarca insular, como o principal inimigo da f muulmana.
-  um pago judicioso; que Maom lhe possa conceder o seu paraso como recompensa!
- Foi apanhado no acampamento por um dos meus escudeiros e num interrogatrio secreto confessou-me francamente o seu voto e a sua determinao.
- Que o Cu perdoe aos que impediram a execuo do desgnio do judicioso Charegite!
238
-  meu prisioneiro; no pode comunicar com ningum, como deves supor; mas mais de um cativo se evadiu da priso.
- Sem dvida: uma cadeia mal segura e o prisoneiro escapa-se.  uma antiga mxima, a de que no h priso segura a no ser o tmulo.
- Uma vez em liberdade retomar o seu projecto; porque est na natureza desta espcie de ces nunca perder a pista da sua presa.
- No me digas mais, gro-mestre; vejo a tua poltica;  terrvel, mas a circunstncia  urgente.
- No te falo disso seno para que te acauteles, porque a exploso ser assustadora e no podemos saber sobre quem os Ingleses faro cair a sua raiva. H ainda um
outro risco. Um dos meus pajens conhece os projectos do Charegite; um tipo impertimente e voluntarioso, de que queria ver-me livre porque se d ares de ver com os
seus prprios olhos em vez dos meus. Felizmente que a nossa santa ordem me d os meios de remediar este inconveniente. Ou ento... um momento! Sim, o Charegite pode
encontrar um bom punhal no seu calabouo e garanto que far dele bom uso  primeira vez que o pajem lhe levar a comida.
- Isso dar um certo pitoresco a este assunto - disse Conrado.
- No entanto...
- No entanto e mas - replicou o templrio - so palavras para uso do louco. O sbio no hesita nem recua; toma uma resoluo e executa-a.
239
CAPTULO XX
-A Beatriz de Dante e a Eva de Milton.
Reparem, no foram criadas segundo as suas mulheres.
LORD BYRON. "Don Juan" 1
RICARDO, muito longe de suspeitar a negra traio contra ele alcanara um triunfo restabelecendo, pelo menos por um tempo, a unio entre os prncipes cruzados, e
inspirando-lhes a resoluo de continuar a guerra com vigor. Seguidamente, o que mais o preocupou foi restabelecer a paz na sua prpria famlia. Agora que podia
julgar as coisas com mais sangue-frio, tardava-lhe fazer um inqurito directo sobre as causas que ocasionaram a perda da sua bandeira e certificar-se da natureza
e da extenso da ligao que existia entre a sua parente Edith e o aventureiro escocs que acabara de banir.
Em consequncia, a rainha e todas as damas da sua casa ficaram muito surprendidas ao ver chegar Sir Thomas de Vaux, trazendo a Lady Caliste de Montgaillard, primeira
aia de Berengre, a ordem de se dirigir imediatamente  presena do rei.
- Que lhe hei-de dizer, madame? - perguntou Caliste  rainha, 'remendo. - Vai-nos matar a todas.
1 Traduo livre.
241
- Nada temais, senhora - disse de Vaux. - O rei poupou a vida do cavaleiro escocs, que era o principal culpado, e deu-o ao mdico mouro; no castigar portanto
severamente as faltas de uma dama.
- Imagina algo de hbil, Caliste - disse a rainha. - Ricardo no tem tempo para se informar exactamente da verdade.
- Contai-lhe fielmente tudo o que se passou - disse Lady Edith
- seno eu prpria me encarrego disso.
- com licena de Vossa Majestade - disse o baro de Gilsland
- creio que Lady Edith d um bom conselho; porque embora o rei esteja disposto a acreditar em tudo o que a Vossa Majestade aprouver dizer-lhe, duvido que tenha a
mesma deferncia para com Lady Caliste e sobretudo neste assunto.
- Lorde de Gilsland tem razo - disse Lady Caliste, muito agitada a pensar no interrogatrio a que ia ser submetida.
Foi nestas disposies favorveis  verdade que Lady Caliste foi conduzida at junto do rei. por de Vaux. Tal como se propusera, fez uma confisso completa da artimanha
utilizada para convencer Sir Kenneth a abandonar o seu posto; justificou plenamente Lady Edith. cuidando de se desculpar a si prpria, e lanou a maior parte da
culpa sobre a rainha, sua ama, cujas faltas no ignorava que pareceriam mais venais aos olhos de Corao de Leo. De facto, Ricardo era um marido cheio de bondade
e at mesmo um marido fraco. O seu acesso de clera passara h muito, e no estava disposto a censurar severamente uma falta que era irreparvel. A manhosa aia,
acostumada desde a sua primeira infncia s intrigas da Corte e a espiar os mais ligeiros indcios da vontade do soberano, regressou para junto da rainha, rpida
como uma flecha, e anunciou-lhe da parte do rei que receberia a sua visita dentro de alguns instantes; notcia  qual acrescentou um comentrio baseado sobre as
suas prprias observaes, tendente a demonstrar que Ricardo no tinha teno de manter seno a severidade necessria para inspirar  sua esposa o arrependimento
da sua loucura e que de seguida concederia um gracioso perdo.
- Ento as coisas esto nesse p, Caliste? - disse Berengre. aliviada ao saber as intenes do rei. - Acredita-me, minha filha, Ricardo, por muito grande guerreiro
que seja, achar difcil levar-nos
242
a melhor neste assunto. Como dizem os pastores dos Pirenus, na minha Navarra: "O que vem buscar a l regressa muitas vezes tosquiado.-
Tendo ouvido todas as informaes que Caliste lhe pde fornecer, a rainha, ataviando-se da maneira que julgou mais sedutora, esperou confiante a chegada do heri
seu esposo.
Ao chegar, ele encontrou-se na situao de um prncipe que, julgando no ter seno reprimendas a distribuir e provas de submisso a receber, se v, contra toda a
expectativa, num ambiente de completa inssurreio.
Berengre conhecia perfeitamente o poder dos seus encantos e todo o afecto de Ricardo; sentiu-se segura para pr as suas condies, agora que a primeira exploso
da sua clera se esgotara sem incidentes. Longe de escutar as censuras que lhe fez o rei, e que a ligeireza da sua conduta justamente mereciam, defendeu-, como sendo
uma brincadeira inocente, a aco de que era acusada. Negou, com toda a graa possvel, que tivesse encarregado Nebectamus de conduzir o cavaleiro mais longe do
que o sop do monte So Jorge, onde estava de guarda. Na verdade, talvez no tivesse tido a inteno de o fazer vir at ao seu pavilho. Mas, se fora eloquente ao
defender-se, mostrou-se ainda mais ao acusar por sua vez Ricardo de ter agido com crueldade recusando-lhe um favor to simples como a vida de um desafortunado cavaleiro
que, como consequncia de uma inocente brincadeira, estivera quase a perder a vida com toda a severidade das leis militares. Chorou e soluou, insistindo sobre a
dureza do esposo, que pensara torn-la infeliz para toda a vida, pois que nunca teria podido esquecer que fora a causa involuntria de uma morte to trgica. Os
seus sonhos ter-lhe-iam apresentado sem cessar a imagem da vtima sacrificada.
Esta tirada de eloquncia feminina foi acompanhada dos usuais argumentos, as lgrimas e os suspiros. As queixas foram expressas num tom e com gestos que pareciam
provar que o ressentimento da rainha no tinha a sua origem nem no orgulho nem no capricho, mas sim numa sensibilidade ferida pelo receio de ver que o seu esposo
lhe concedia menos influncia do que supusera.
O bom rei Ricardo estava grandemente embaraado. Tentou em vo argumentar com uma mulher ciosa de todo o seu afecto e que,
243
por essa mesma razo, era incapaz de escutar os seus argumentos; no podia resolver-se a tomar um tom autoritrio com uma criatura que lhe parecia to bela no meio
do seu descontentamento pouco razovel; manteve-se pois na defensiva, procurou banir todas as dvidas que ela parecia ter da sua ternura e apaziguar o seu mau humor.
Por fim, lembrou-lhe que podia pensar no passado sem remorsos e sem receio de ver aparecer um espectro, pois que concedera a vida a Sir Kenneth e que ele fora dado
ao grande mdico mouro que de todos os homens era, sem dvida, o que melhor o saberia manter em boa sade.
Mas estas palavras foram as que mais enfureceram a rainha. Todos os seus desgostos despertaram  ideia de que um sarraceno, um mdico, obtivera uma graa que ela
inutilmente lhe pedira de joelhos.
A esta nova queixa, a pacincia comeou a abandonar Ricardo e ele respondeu num tom grave e srio:
- Berengre, esse mdico salvou-me a vida e, se por ele tivesses algum apreo, no lhe censurarias uma recompensa, a nica que lhe pude fazer aceitar.
A rainha sentiu ento, na sua "coquetterie", que avanara to longe quanto podia sem se arriscar.
- E porque  que o meu Ricardo no me trouxe este sbio exclamou - para que a rainha de Inglaterra lhe pudesse mostrar toda a importncia que dava quele que conservou
o sol da cavalaria, a glria da Inglaterra, a chama da vida e das esperanas da pobre Berengre?
A querela matrimonial terminou finalmente e, para que um justo castigo pudesse cair sobre algum, o rei e a rainha concordaram em lanar toda a culpa deste assunto
sobre Nebectamus. Berengre estava j cansada da estupidez e da disformidade do ano, e ele foi condenado a ser banido da Corte, com a sua esposa real, dama Genivrc;
e se escapou ao castigo das vergastadas foi porque a rainha assegurou ter ele j sido sujeito a uma correo corporal. Ricardo, propondo-se despachar imediatamente
um embaixador a Saladino para o informar da resoluo que o Conselho tomara de recomear as hostilidades, logo que a trgua expirasse, e querendo enviar-lhe ao mesmo
tempo um presente magnfico em reconhecimento dos
244
servios que El Hakim lhe prestara, decidiu que as duas desgraadas criaturas seriam a includas, como raros objectos de curiosidade e dignos, pela sua figura grotesca
e a sua cabea perturbada, de serem oferecidos por um soberano a outro.
Ricardo tinha ainda de se sujeitar, no mesmo dia, a um encontro com outra mulher; mas, em comparao com o primeiro ajuste de contas, este era-lhe quase indiferente.
Embora Edith fosse bela. embora o rei a estimasse, embora as suas suspeitas lhe tivessem verdadeiramente feito a injustia de que Berengre se queixara, ela no
era no entanto nem a sua mulher nem sua amante; e, embora as censuras que lhe pudesse fazer devessem ser mais fundamentadas do que as da rainha, receava-as menos
que as queixas injustas e caprichosas da esposa.
Tendo pedido para lhe falar em particular, fizeram-no entrar no apartamento de Edith. que era vizinho do da rainha, e dois escravos coptas, de joelhos, no canto
mais afastado do quarto, estiveram presentes na entrevista. Um grande vu negro cobria, com as suas compridas pregas, a linda cabea e a figura graciosa da nobre
filha dos Plantagenetas, que no trazia sobre a sua pessoa nenhum outro enfeite. Levantou-se, fez uma profunda reverncia a Ricardo, quando ele entrou, sentou-se
de novo quando ele lho ordenou e, quando tomou lugar perto dela, esperou, sem abrir a boca, que lhe desse a conhecer a sua vontade.
Ricardo, habituado a agir para com Edith com a familiaridade que o seu parentesco permitia, achou este acolhimento glacial e iniciou a conversa com um certo embarao:
- A nossa bela prima est zangada connosco - disse por fim confessamos que graves circunstncias nos levaram despropositadamente a suspeitar de uma conduta contrria
 que sempre vimos nela. Mas, enquanto estivermos neste escuro vale da vida, estamos sujeitos a tomar sombras por realidades. Pode a minha bela prima perdoar a Ricardo,
seu parente um pouco impetuoso?
- Quem poderia recusar-se a perdoar a Ricardo - respondeu Edith - se Ricardo pode obter o seu perdo do rei de Inglaterra?
- Ento, bela prima - replicou Ricardo - isso  tomar um tom demasiado solene. Por Nossa Senhora! Que aparncia melanclica! com este grande vu negro poder-se-ia
julgar que estais viva desde
245
ontem ou, pelo menos, que acabais de perder um amante querido. Retomai a vossa alegria. Sem dvida soubestes que no existe nenhuma verdadeira causa de desgosto;
porqu ento conservar esta lgubre veste de luto?
- Pela honra perdida dos Plantagenetas - disse Edith - pela glria eclipsada da casa de meu pai.
- Honra perdida! Glria eclipsada! - repetiu Ricardo, franzindo o sobrolho e num tom de descontentamento. - Mas a minha prima Edith tem privilgios. Tinha-a julgado
demasiado  pressa. tem o direito de guardar algum rancor. Dizei-me ao menos em que  que falhei.
- Plantageneta devia perdoar uma falta ou puni-la - respondeu Edith. - No lhe fica bem entregar homens livres, cristos, bravos cavaleiros, aos ferros dos infiis.
 indigno dele fazer um negcio, concedendo a vida e tirando a liberdade. Condenar o desafortunado  morte era um acto de severidade que tinha pelo menos uma aparncia
de justia; vot-lo ao exlio e  escravatura  um acto de manifesta tirania.
- Vejo - disse Ricardo - que a minha prima Edith  uma das belas que pensam que um amante ausente j no  nada ou  como se estivesse morto. Tende pacincia! Uma
vintena de cavaleiros ligeiramente armados podem ainda segui-lo e reparar o erro, se o vosso amante  depositrio de algum segredo que torne a sua morte mais desejvel
do que o seu afastamento.
- No vos rebaixeis a indignos gracejos, sir - replicou Edith, cuja fronte se cobriu de forte rubor. - Pensai antes que, para satisfazer a vossa fria, privastes
a vossa grande empresa de um dos seus melhores campees, roubastes  cruz um dos seus mais firmes sustentculos, pusestes um servidor do verdadeiro Deus entre as
mos dos pagos e destes aos espritos desconfiados algum direito de dizer que Ricardo baniu o mais bravo guerreiro do seu acampamento, com receio de que pudesse
adquirir uma nomeada igual  sua.
- Eu! Eu! - exclamou Ricardo, vivamente emocionado. - Serei eu homem para ficar ciumento do renome dos outros? Gostaria que ele estivesse aqui para pretender essa
igualdade. Esqueceria a minha condio, deporia a minha coroa para entrar na lia contra
246
ele, a fim de que vissem se Ricardo Plantageneta tinha motivos para invejar as proezas de quem quer que seja! Vamos. Edith no pensais no que dizeis. Que o desgosto
ou o descontentamento pela ausncia do vosso amante no vos torne injusta para com o vosso parente que, apesar de todo o vosso mau humor, tem em mais conta a vossa
estima do que a de qualquer outra pessoa.
- A ausncia do meu amante! - replicou Lady Edith. - Sim. pode-se chamar com justia meu amante quele que to caro pagou esse ttulo. Mas que eu tenha esquecido
a minha condio, ou que ele tenha tido a presuno de sair da sua,  uma mentira ainda que um rei o afirme.
- No ponhas na minha boca palavras que ela no pode pronunciar, bela prima. No disse que tivesses concedido a este escocs outros favores alm dos que os que um
bom cavaleiro pode obter, mesmo de uma princesa, qualquer que seja a sua condio. mas, por Nossa Senhora! tenho uma certa experincia desse jogo do amor; comea
por um respeito mtuo, por atenes distantes; depois, quando as ocasies se apresentam, a familiaridade cresce, e pouco a pouco... mas  intil falar assim a uma
mulher que julga ter mais prudncia do que a que existe no mundo inteiro.
- De boa vontade escuto os conselhos do meu parente, quando so de molde a no injuriar nem a minha condio nem o meu carcter.
- Os reis no do conselhos, bela prima, ordenam.
- Os sultes ordenam, mas  porque reinam sobre escravos.
- Pacincia! Poderias aprender a desprezar menos os sultes, quando tens to elevada estima por um escocs. Considero Saladino mais fiel  sua palavra do que esse
William da Esccia, que se faz apelidar de o Leo. por minha f! Enganou-me indignamente ao faltar-me com as tropas auxiliares que prometera enviar-me. Digo-te,
Edith, que  possvel que vivas o suficiente para preferir um turco cheio de franqueza a um escocs de m f.
- No. nunca! Mesmo que Ricardo abraasse a falsa religio
que veio extirpar da Palestina sob a bandeira da cruz.
- Queres ter a ltima palavra - disse Ricardo levantando-se.  preciso deixar-ta. Pensa de mim o que quiseres, bela Edith, no esquecerei que o teu pai era meu irmo.
247
com estas palavras retirou-se, aparentemente de bom humor, mas no fundo muito pouco satisfeito com o resultado da sua visita.
No quarto dia depois de Sir Kenneth ter deixado o acampamento, Ricardo estava sentado no seu pavilho, gozando a brisa da tarde. Estava s, pois de Vaux fora enviado
a Ascalon, para de l trazer reforos de homens e de munies, e os seus outros oficiais estavam ocupados cada um no seu departamento, nos preparativos para o retomar
das hostilidades, e para uma grande reviso do exrcito dos cruzados, que devia ter lugar no dia seguinte. Corao de Leo escutava o rudo surdo e confuso que os
ferreiros faziam ao prepararem-se para ferrar os cavalos, os armeiros que reparavam armas e os soldados passando e tornando a passar diante da sua tenda, e cuja
voz exprimia um ardor marcial que parecia um pressgio de vitria. Os ouvidos de Ricardo inebriavam-se, deliciados, com todos estes sons. e, enquanto ele prprio
se entregava s vises de conquista e de glria que eles lhe sugeriam, um escudeiro veio dizer-lhe que acabara de chegar um mensageiro de Saladino.
- F-lo entrar no acampamento, Jocelyn - disse o rei - e com todas as honras convenientes.
O escudeiro ingls fez ento entrar um homem cuja aparncia anunciava simplesmente um escravo da Nbia, mas que inspirava mais interesse do que um escravo vulgar.
Tinha bela figura, perfeitamente formada, e as feies imponentes, embora de um negro de azeviche, no ofereciam nada que pertencesse  raa dos Negros. Trazia sobre
os cabelos, negros como o carvo, um turbante de fino pano; os ombros estavam cobertos de um manto curto da mesma cor, aberto  frente e nas mangas, e via-se por
baixo um gibo de pele de leopardo. As pernas e os braos nervosos estavam nus. a no ser pelo facto de ter sandlias nos ps e um colar e braceletes de prata. Uma
adaga de lmina direita e punho de madeira, numa bainha coberta de pele de serpente, estava suspensa da cintura. Na mo direita tinha uma pequena lana cuja ponta
estava guarnecida por um ao largo e brilhante, e na esquerda conduzia, por meio de uma trela de fio de prata e de seda entrelaados, um grande e magnifico galgo.
O mensageiro ajoelhou-se, descobrindo parte dos ombros, em sinal de humildade; e, tendo tocado a terra com a fronte, levantou-se.
248
ficando apoiado sobre um joelho, e nesta atitude apresentou ao rei uma bolsa de seda que continha uma de tecido de ouro, na qual estava uma carta de Saladino. escrita
em rabe, com uma traduo em anglo-normando e que, traduzida em lngua normanda, dizia o seguinte:
"Saladino, rei dos reis. a Melec Ric. o Leo de Inglaterra. (- J que fomos informados pela tua ltima mensagem, de que preferiste a guerra  paz e a inimizade 
nossa amizade, olhamos-te como um homem cego neste assunto e esperamos em breve convencer-te do teu erro. com a ajuda das foras invencveis das nossas mil tribos,
quando Maom. o profeta de Deus, e Al. o Deus do profeta, julgarem a querela entre ambos.
Quanto ao resto, temos em grande conta os presentes que nos enviastes, especialmente os dois anes to disformes como Ysop e to divertidos como o alade de Isaac.
Em troca destes presentes, tirados do tesouro da tua generosidade, enviamos-te um escravo da Nbia, chamado Zoank, que no deves julgar pela cor como fazem os loucos
da terra, j que o fruto de casca negra  o de mais delicado sabor. Fica sabendo que  fiel na execuo das ordens do amo. como o foi Rustande Zablestan. No o achars
conselheiro menos prudente quando tiveres aprendido a entrar em comunicao com ele, porque a palavra foi condenada ao silncio entre as paredes de marfim do seu
palcio. Recomendamo-lo aos teus cuidados, esperando que no esteja longe a hora em que possa prestar bons servios. E dizemos-te adeus, esperando que o nosso muito
santo Profeta possa ainda chamar-te ao conhecimento da verdade; mas, se esta luz te faltar, o nosso desejo  que a sade te seja prontamente devolvida, a fim de
que Al seja juiz entre ti e mim, no campo de batalha..."
Esta missiva era sancionada pela assinatura e o sinete do sulto.
Ricardo olhou em silncio o nbio que estava de p diante dele. de olhos no cho, braos cruzados sobre o peito, semelhante a uma esttua de mrmore negro do mais
delicado trabalho, no esperando Para se animar seno um toque de Prometeu. O rei de Inglaterra que, como se disse de um dos seus sucessores, Henrique VIII, gostava
249
de ver o que se pode chamar um homem por excelncia, estava encantado com a fora dos msculos e a simetria perfeita de todos os membros daquele que examinava; dirigiu-lhe
a palavra em lngua franca:
- s pago? - perguntou-lhe.
O escravo sacudiu a cabea, levantou um dedo  testa, fez o sinal-da-cruz para provar que era cristo, e retomou humildemente a mesma atitude imvel:
- Um cristo da Nbia, sem dvida - disse Ricardo - a quem esses ces infiis cortaram o rgo da palavra.
O nbio fez ainda um sinal de cabea, negativo, levantou o ndex para o cu e colocou-o seguidamente sobre os lbios.
- Compreendo-te - disse Ricardo. - Sofres esta privao por vontade de Deus e no por crueldade do homem. Sabes limpar um cinturo e as armas, colocar uma armadura
sobre o corpo de um cavaleiro em caso de necessidade?...
O mudo fez um gesto afirmativo e, avanando para uma cota de malha que estava suspensa com o capacete e o escudo do monarca cavaleiro, num dos pilares que sustinham
a tenda, manejou-o com destreza suficiente para provar que conhecia perfeitamente o servio de um escudeiro.
- s um hbil patife e no duvido que te possas tornar til disse o rei. - Ficas ligado  minha pessoa; estars de servio no meu quarto a fim de mostrar a importncia
que dou ao presente do nobre sulto. Como no falas, no podes contar nada do que possas ver e ouvir e no provocars a minha clera por qualquer rplica deslocada.
O nbio ajoelhou-se de novo at tocar o solo com a testa e, levantando-se, afastou-se alguns passos, como para esperar as ordens do amo.
- Vais entrar em funes imediatamente - disse Ricardo. Vejo uma mancha de ferrugem neste escudo; e quando o sacudir em face de Saladino, quero que esteja to claro
e to brilhante como a honra do sulto.
Ouviu-se o som de uma trompa, fora do pavilho, e quase no mesmo instante sir Henry Nevilie entrou com um pacote de despachos.
250
-  de Inglaterra, sir - disse entregando-o ao rei.
- De Inglaterra! Da nossa querida Inglaterra! - exclamou Ricardo, com um entusiasmo melanclico. - Ai de mim! No fazem ideia de como o seu soberano foi atormentado
pela tristeza e pela doena; como encontrou amigos fracos e inimigos activos! Tendo aberto os despachos, acrescentou, depois de lhes ter lanado um olhar apressado:
- Estas cartas no vm de um pas em paz, est tambm agitado por divises. Retira-te. Neville,  preciso que leia estas cartas sozinho e com vagar...
Neville saiu da tenda e Ricardo em breve ficou inteiramente absorvido pelas lamentveis notcias enviadas de Inglaterra, relativamente s faces que despedaavam
os seus domnios ancestrais.
Informavam-no da desunio entre seus irmos Joo e Godofredo; as querelas dos dois prncipes com o grande justiceiro Long Champ, bispo de Ely; a opresso sob a qual
os nobres faziam gemer os camponeses; por fim, a rebelio destes contra os seus senhores, rebelio que originara por toda a parte cenas de discrdia, em alguns locais,
seguidas de efuso de sangue. A este relato de acontecimentos mortificantes para o seu orgulho e autoridade, sucediam-se as veementes preces que lhe faziam os seus
conselheiros mais sbios e mais dedicados, para que regressasse imediatamente a Inglaterra, onde somente a sua presena poderia evitar uma guerra de que a Frana
e a Esccia no deixariam de se aproveitar.
Cheio da mais penosa inquietao, Ricardo leu e releu estas cartas de mau agouro, comparou as notcias que umas continham com os mesmos factos relatados noutras
em termos diferentes, e em breve se tornou totalmente insensvel a tudo o que se passava  sua volta, embora para gozar a frescura se tivesse sentado perto da entrada
da sua tenda, e os cortinados estivessem abertos de modo que podia ver as sentinelas e todos os que se encontravam diante da porta, tal como podia ser visto tambm.
Imerso na sombra do pavilho e ocupado na tarefa que o novo amo lhe dera, o escravo nbio estava sentado com as costas um POUCO voltadas para o lado do rei.
Acabara de limpar e de polir um lorigo e neste momento fazia o mesmo servio a um pavs ou escudo de tamanho extraordinrio, guarnecido de placas de ao de que
Ricardo frequentemente se servia
251
para fazer reconhecimentos ou para assaltar praas fortificadas. Este pavs no trazia nem os lees de Inglaterra nem nenhuma divisa que tivesse podido atrair a
ateno dos inimigos que atacavam quem estivesse coberto com ele. O trabalho do nbio limitava-se, portanto, a tornar-lhe a superfcie brilhante como cristal e parecia
consegui-lo completamente. Por trs dele estava o belo co, que se teria podido chamar seu irmo de escravatura e que, como se tivesse ficado cheio de respeito ao
ver-se com um rei como novo amo, estava deitado perto do mudo. a cabea apoiada em terra, a cauda e as patas encolhidas debaixo do corpo.
Enquanto o monarca e o seu novo servidor estavam deste modo ocupados, um outro actor entrou docemente em cena e misturou-se ao grupo de soldados ingleses, dos quais
uns vinte, de guarda diante da tenda do seu soberano, testemunhavam por meio de um silncio desusado o seu respeito pelo ar pensativo e as reflexes s quais evidentemente
se entregava. No mostravam no entanto maior diligncia do que o costume. Uns jogavam, aos jogos de azar, com pedrinhas; outros conversavam, em voz baixa, do prximo
retomar das hostilidades; vrios estavam estendidos por terra e dormiam, cobertos com o seu grande manto verde.
No meio destes guardas indolentes, deslizou um velho turco de pequena estatura, vestido de marab, ou santo do deserto, espcie de entusiastas que por vezes se aventuravam
no acampamento dos cruzados, embora fossem sempre olhados com desprezo e frequentemente mesmo expostos a maus tratos. A vida dissoluta da maioria dos chefes cristos
atraa para as suas tendas uma multido de msicos. cortesos, mercadores judeus, coplas, turcos e todo o refugo das diversas naes do Oriente; de modo que o caftan
e o turbante, que tinham vindo expulsar da Terra Santa, mostravam-se diariamente no meio dos cruzados sem provocar qualquer alarme.
Quando o ser insignificante, que acabamos de descrever, chegou suficientemente perto dos soldados para ser notado, lanou por terra o seu feio turbante verde e fez
ver que a sua barba e as sobrancelhas estavam rapadas, como era o costume dos bufes de profisso, e que a expresso das suas feies enrugadas e bizarras e dos
seus olhinhos negros e brilhantes como azeviche, anunciava nele um crebro desarranjado.
252
- Dana, marabu! - bradaram os soldados, que conheciam as maneiras destes entusiastas. - Dana, ou acariciar-te-emos com as cordas dos nossos arcos, de modo a fazer-te
rodar como nunca pio rodou sob o chicote de um estudante.
Assim falavam os guardas inconsiderados, encantados por terem um muulmano para atormentar.
O marabu, como se ficasse feliz por poder diverti-los, ps-se logo aos saltos e comeou a rodar sobre si prprio, no meio deles, com singular agilidade, o que, contrastando
com a sua pequena estatura e a sua figura enrugada, o fazia assemelhar-se a uma folha seca rodando ao sabor de um turbilho.
Sobre o alto da cabea, calva  frente e rapada por trs, elevava-se um nico tufo de cabelos, direito como se tivesse servido a um gnio invisvel para o suster;
e, com efeito, dir-se-ia que lhe eram necessrios meios sobrenaturais para executar uma dana capaz de provocar vertigens, e ante a qual apenas se via a ponta dos
ps do danarino tocar a terra. Contudo, enquanto descrevia crculos irregulares, passando de um lado para o outro, aproximava-se sempre, embora quase insensivelmente,
da tenda, e finalmente, aps dois ou trs saltos mais maravilhosos de que todos os que os precederam, deixou-se cair como que esgotado, a cerca de quarenta passos
da pessoa do rei.
- Dem-lhe gua - disse um dos soldados. - Estes ces tm sempre sede depois da sua alegre dana.
- gua. dizes tu, Long Allen? - replicou um outro. - Como  que te acharias tu com uma tal beberagem depois de semelhante dana?
- Ao diabo se houver aqui uma gota de gua - disse um terceiro. -  preciso fazer um cristo deste velho pago de p ligeiro, fazendo-lhe beber vinho de Chipre.
- Sim. sim - acrescentou um outro - e se for teimoso, traz o chifre que Dick Hunter usa para fazer engolir os medicamentos  sua mula.
Imediatamente se formou um crculo  volta do santo, estendido por terra e esgotado, e enquanto um dos soldados o mantinha sentado, um outro aproximou-lhe dos lbios
uma garrafa de vinho.
Sem poder falar, o velho sacudiu a cabea e fez um gesto com.a
253
mo, para repudiar o licor proibido pelas leis do Profeta. Mas aqueles que o atormentavam no se deram por satisfeitos com to pouco.
- O chifre! O chifre! - bradou um deles. - No h grande diferena entre um turco e um cavalo da Turquia;  preciso trat-lo como tal.
- Por So Jorge, vo sufoc-lo! - disse Long Allcn. - E alm disso seria um pecado fazer engolir a um co pago uma quantidade de vinho que chegaria para trs dias
a um cristo.
- No conheces a natureza destes turcos e destes pagos, Long Allen - respondeu Henry Woodstall. - Digo-te que esta garrafa de vinho de Chipre lhe far virar o esprito
em sentido inverso da dana e, por conseguinte, rep-lo- no seu estado natural. Sufoc-lo! Este vinho no o sufocar mais do que uma libra de manteiga sufocaria
a cadela preta de Ben.
- E quanto a censur-lo - acrescentou Tomolin Blacklees -, porque censurarias tu a este pobre diabo pago uma garrafa de bom vinho sobre a Terra, quando sabes que,
durante toda a eternidade, no ter uma gota de gua para refrescar a ponta da lngua?
-  duro - disse Long Allen. - Porque, vejam, ele  turco, porque o seu pai era turco antes dele. Se fosse um cristo que se tivesse tornado pago, concordo com
vocs que o lugar mais quente do Inferno seria o quartel de Inverno que lhe conviria.
- Cala-te, Long Allen - disse Henry Woodstall. - Digo-te que a tua lngua no  o mais curto dos teus membros e predigo-te que ela te causar uma querela com o padre
Francis, como a que j houve por causa da pequena sria de olhos negros. Mas aqui est o chifre. Vamos, algum, depressa! Abram-lhe os dentes  fora, com o cabo
do punhal.
Um momento! Um momento! Ei-lo, ei-lo que toma uma deciso
- exclamou Tomalin. - Vejam, faz sinal para que lhe dem a garrafa. Afastem-se, afastem-se, camaradas. Oop sev es, como dizem os Holandeses, isto desce como o orvalho
do cu! Por minha f, so verdadeiros biberes quando se pem a isso uma vez; nunca um turco tossiu ao beber, nem baixou o cotovelo cedo de mais.
com efeito, o santo, ou quem quer que fosse esse homem, esvaziou, ou pareceu esvaziar, a garrafa at ao fundo e num s trago. Quando a retirou dos lbios, depois
de lhe ter esgotado o contedo,
254
soltando um profundo suspiro, somente pronunciou as palavras: Al kerim. ou Deus  misericordioso. Os soldados, testemunhas desta proeza bquica, soltaram ento
gargalhadas to ruidosas que o rei foi perturbado nas suas reflexes; e, estendendo o brao para eles, exclamou em tom zangado:
- Como, patifes, no h considerao nem respeito? -Logo todos guardaram silncio, conhecendo perfeitamente o carcter de Ricardo e apressaram-se a retirar-se para
uma distncia mais respeitosa; quiseram ficar com cies o marabu, mas este, parecendo esgotado pela fadiga ou cedendo  influncia do vinho que bebera, resistiu a
todos os seus esforos e at soltou alguns gritos.
- Deixem-no tranquilo, loucos que sois - disse Long Allen, em voz baixa. - Por So Cristvo! Vocs pem o nosso Dick1 fora de si. Deixem-no tranquilo, digo-vos
eu; em menos de um minuto estar a dormir como um arganaz.
Nesse momento o monarca lanou sobre eles um outro olhar de impacincia, e todos os soldados se retiraram  pressa deixando o santo que, estendido por terra, parecia
no estar em estado de mexer um membro ou uma articulao. Um instante mais tarde reinava o mesmo silncio e a mesma tranquilidade que antes da chegada do muulmano.
1 Abreviao familiar do nome de Ricardo.
255

CAPITULO XXI
O assassino de feies marcadas, desperto pelo lobo, sua negra sentinela, cujos uivos surdos provam que  fiel, avana em passos furtivos, como marchava Tarqunio
para ir cumprir o seu criminoso desgnio.
SHAKESPEARE. "Macbeth." 1
DURANTE um quarto de hora, e mesmo por mais tempo, Depois do incidente que acabmos de relatar, tudo permaneceu perfeitamente tranquilo, em frente do pavilho do
rei. Ricardo ora lia ora reflectia perto da entrada da sua tenda. Por trs e com as costas viradas para a porta, o escravo nbio acabava de polir o grande pavs.
Em frente, a uns cem passos de distncia, os guardas em p, sentados ou estendidos por terra, divertiam-se com diversos jogos, em silncio, e entre eles e a tenda
via-se o marabu aparentemente privado de qualquer sentimento e que se poderia tomar por um monto de trapos.
Mas o nbio tinha a vantagem de ter um espelho no escudo que acabara de polir e cuja superfcie, tornada brilhante, reflectia tudo o que passava por trs dele. Ficou
to surpreendido como alarmado ao ver, por este meio, o marabu levantar docemente a cabea, e examinar tudo  sua volta, fazendo todos os movimentos com um grau
de ateno que no parecia de modo nenhum compatvel com um estado de embriaguez. Apoiou de novo a cabea em terra e, como estivesse convencido que ningum o observava,
comeou a arrastar-se
257
lentamente e sem ter o ar de fazer esforos voluntrios, de modo a aproximar-se cada vez mais da pessoa do rei. No entanto, parava de tempos a tempos e retomava
o seu estado de imobilidade. Esta espcie de movimento progressivo pareceu suspeita ao nbio que, por seu lado, se preparou tranquilamente para intervir neste assunto,
no momento em que as circunstncias pudessem parecer exigi-lo.
Entretanto, o marabu deslizava gradualmente, como uma serpente, e chegou por fim a doze passos do rei. Levantou-se ento subitamente e lanou-se com um salto de
tigre; em menos de um instante encontrou-se por trs de Ricardo e levantou contra ele um cangiar, ou punhal, que escondera na manga.
A presena de todo o seu exrcito no teria ento podido salvar o monarca; mas os movimentos do nbio tinham sido to bem calculados como os do fantico e, antes
que este tivesse podido atacar, o primeiro pegou-lhe no brao.
Virando a sua raiva contra aquele que to inopinadamente se colocava entre ele e a sua vtima, o charegita, pois tal era o pretenso marabu, deu-lhe uma punhalada
que no lhe aflorou seno o brao, enquanto a fora superior do nbio o derrubou facilmente. Vendo o que se passava, Ricardo levantou-se e, sem mostrar mais surpresa,
clera ou mesmo interesse do que um homem que caa uma vespa furiosa e que a esmaga, pegou no tamborete em que estava sentado, e exclamando apenas: "Ah! co!" -
esmagou o crnio do assassino que, repetindo por duas vezes, primeiro em voz alta e depois em tom quase ininteligvel: Al ackbar! (Deus  vitorioso), caiu morto
aos ps do rei.
- Sois sentinelas muito vigilantes! - disse Ricardo em tom de desdenhosa censura aos seus guardas que tinham ocorrido em tumulto. - Eis aqui uns valentes que me
deixaram executar com a minha prpria mo a tarefa do carrasco! Silncio, calem-se todos! Que significam todos os vossos clamores? Nunca viram um turco morto? Levem
esta carcaa para fora do acampamento; separem a cabea do tronco; ponham-na sobre um pau e tenham o cuidado de virar a cara para o lado de Meca, para que possa
mais facilmente dizer ao infame impostor cuja inspirao o trouxe aqui, como foi sucedido nesta misso. Quanto a ti, meu amigo escuro e silencioso
- acrescentou voltando-se para o nbio... - Mas o qu! Ests 258
ferido e por uma arma envenenada, estou certo, porque um to desprezvel animal no podia esperar, pela fora do seu brao, seno arranhar a pele do leo. Depressa,
que um de vocs chupe a sua ferida: o veneno no  perigoso para os lbios embora seja mortal quando se mistura no sangue.
Os soldados olharam uns para os outros e pareceram hesitar, porque o receio de um perigo desta natureza fazia tremer os que no teriam temido nenhum outro.
- Ento? - continuou o rei. - Os vossos lbios so assim to delicados? Receiam a morte para hesitarem assim?
- Nenhum de ns receia morrer como um homem - respondeu Long Allen que o rei olhava ao falar assim. - Mas no temos interesse em morrer como um rato envenenado por
amor de semelhante gato negro, que se vende e se compra no mercado como um boi na feira de S. Martinho.
- O rei fala em chupar veneno como se fosse engolir groselha
- disse um outro, a meia voz.
- Fiquem sabendo - disse Ricardo - que nunca ordenei a ningum o que no estivesse disposto a fazer eu prprio.
E, sem mais cerimnias, a despeito das admoestaes de todos os que o rodeavam e da resistncia respeitosa que o nbio lhe ops, o rei, sobrepondo-se a toda a oposio,
aplicou ele prprio a boca sobre a ferida do escravo negro. Assim que interrompeu esta operao, singular para um rei, o nbio afastou-se apressadamente, cobriu
o brao com uma "echarpe", e anunciou, por gestos to firmes quanto respeitosos, a sua determinao em no deixar que o rei continuasse com to degradantes cuidados.
Long Allen acrescentou que, se fosse necessrio para impedir o rei de se desempenhar de uma tal funo, os seus lbios, a sua lngua e os seus dentes estavam ao
servio do moreno, como chamou ao nbio, e que o engoliria todo inteiro de preferncia a suportar que a boca do rei Ricardo lhe voltasse a tocar.
Neville e outros oficiais, que chegavam neste momento, juntaram as suas admoestaes s dos soldados.
- Ora vamos - disse Ricardo - no faam tanto barulho sem razo por um veado a que os ces perderam a pista ou por um perigo que passou. Esta ferida no pode ter
consequncias, mal sai
259
uma gota de sangue; um gato encolerizado teria feito um arranho mais profundo e, quanto a mim, basta tomar unrdracma de orvitan como precauo, embora isso seja
intil.
Assim falou Ricardo, talvez ele prprio um pouco envergonhado com a sua condescendncia, embora inspirada pelo reconhecimento e a humanidade. Mas, como Neville continuasse
a fazer-lhe ver o perigo ao qual expusera a sua real pessoa, imps-lhe silncio em tom peremptrio:
- Silncio, Neville! Que no se fale mais nisso! Agi assim para mostrar a estes ignorantes, cheios de preconceitos, como se podem socorrer uns aos outros, quando
estes cobardes bandidos nos vm atacar com armas envenenadas. Mas leva este nbio para o teu aquartelamento, Neville; mudei de opinio a seu respeito, que se cuide
bem dele. Escuta, uma palavra ao ouvido: ele  diferente do que parece; toma ateno, que no se escape, que tenha toda a liberdade no acampamento, mas que no possa
sair dele: e vocs, comedores de carne de vaca, bebedores de vinho, ces de quinta inglesa, regressem ao vosso posto e vejam se so mais vigilantes. No julguem
que esto aqui num pas de jogo franco, onde se fala antes de atacar, onde se d a mo antes de cortar a garganta. Na nossa terra o perigo marcha de fronte erguida,
mas aqui chama-vos LIO combate com uma luva de seda em vez de ser com um guante de ao, apunhala-vos com um gancho e estrangula-vos com a renda do corpete de uma
mulher. Retirem-se, com os olhos abertos e a boca fechada; bebam menos e olhem melhor  vossa volta; ou pr-vos-ei os estmagos vorazes a uma dieta tal que nem a
pacincia de um escocs aguentar.
Os soldados, envergonhados e mortificados, regressaram ao seu posto e Neville comeou a admoestar o rei sobre o perigo que havia em passar to ligeiramente sobre
uma negligncia daquelas e sobre a necessidade de um exemplo.
Ricardo interrompeu-o:
- No me fales nisso, Neville. Querias que punisse o risco que correu a minha pessoa mais severamente do que puni a perda da bandeira de Inglaterra? Desapareceu,
foi roubada por um bandido ou entregue por um traidor; e nem uma gota de sangue correu por este crime. Meu amigo negro, s bom conselheiro pelo que diz o
260
ilustre sulto; dar-te-ei o teu peso em ouro se, evocando um ser ainda mais negro do que tu, ou de qualquer outra maneira que fosse, me pudesses indicar o meio de
descobrir o celerado que manchou a minha honra. Que dizes tu?
O mudo pareceu desejar falar, mas a sua boca no pde exprimir seno os sons imperfeitos que fazem ouvir aqueles que se encontram nesta desgraada situao.
Cruzando ento os braos no peito, fixou no rei os olhos cheios de inteligncia e fez-lhe com a cabea um sinal afirmativo:
- Como! - exclamou o rei, com um movimento de alegria e de impacincia. - Empreenderias fazer semelhante descoberta?
O nbio repetiu o mesmo gesto:
- D-lhe um tinteiro - disse Ricardo a Neville. - Era mais fcil encontrar um na tenda de meu pai do que na minha, mas deve haver aqui um algures, desde que o calor
abrasador deste clima no tenha secado a tinta! Sabes, este patife  um verdadeiro tesouro, Neville, um diamante negro!
- Se me permitis, sir, dizer-vos humildemente o que penso disse Neville - seria perigoso traficar com esta mercadoria.  possvel que este homem seja um feiticeiro...
- Silncio, Neville! - exclamou o rei. - Chama o teu cn nrdico quando est prestes a apanhar o gamo e poders esperar que te escute; mas no procures fazer parar
Plantageneta quando ele tem algumas esperanas em recuperar a sua honra.
O escravo, que escrevera durante esta discusso e que parecia hbil na arte de comunicar as suas ideias pela pena, levantou-se neste momento, levou  fronte o pergaminho
sobre o qual acabara de escrever e, depois de se ter ajoelhado segundo o uso do Oriente, apresentou-o a Ricardo. Era em francs que escrevera, embora Ricardo lhe
tivesse falado at ento em lngua franca.
Ricardo leu o que se segue:
"A Ricardo o conquistador, o invencvel rei de Inglaterra, o mais humilde dos seus escravos dirige estas palavras. Os mistrios so pequenos cofres sobre os quais
o Cu colocou o seu selo; mas ele permite  sabedoria humana encontrar meios para lhes abrir a fechadura. Se o vosso escravo estivesse colocado num local onde os
cheles do exrcito passassem em ordem diante dele, no duvides de
261
que, se aquele que fez ao meu rei a injria de que se queixa se encontra entre eles, a sua iniquidade ser tornada manifesta, estivesse ela coberta por sete vus."
- Por So Jorge! - exclamou Ricardo. - Falaste muito apropsito. Neville, sabes que quando passarmos amanh as nossas tropas em revista, combinaram os prncipes
que, para expiar o insulto feito ao estandarte de Inglaterra, todos os chefes desfilariam diante da nossa nova bandeira arvorada sobre o monte So Jorge e far-lhe-iam
uma pequena saudao. Acredita-me, o traidor ainda desconhecido no ousar no tomar parte nesta justificao solene, com receio que a sua ausncia o exponha s
suspeitas! Velars para que o nosso conselheiro negro a se encontre e, se a sua arte puder descobrir o traidor, deixa-me cuidar do resto.
- Sir - disse Neville, com a franqueza de um baro ingls tomai cuidado com o que ides empreender. Eis, contra toda a expectativa, a concrdia restabelecida na nossa
santa liga; quereis vs, baseado nas suspeitas que vos pode inspirar um escravo negro, reabrir feridas to recentemente fechadas? Quereis fazer de uma cerimnia
solene, cujo fim  a reparao da vossa honra, a ocasio de excitar novos ressentimentos ou de fazer reavivar antigas querelas? No sei mesmo se me exprimiria em
termos demasiado fortes ao dizer que isso seria violar a declarao que Vossa Majestade fez em presena do Conselho dos Prncipes Cruzados.
- Neville - disse o rei em" tom severo, interrompendo-o - o teu zelo inspira-te demasiada ousadia e presuno. Nunca prometi abster-me de empregar todos os meios
para descobrir o infame autor do insulto feito  nossa honra. Antes de fazer tal promessa, teria renunciado ao meu reino e  minha vida. Todas as minhas declaraes
foram feitas sob esta reserva absoluta e indispensvel. Se o austraco tivesse avanado e tivesse confessado como um homem que era o autor desta injria, ter-lhe-ia
perdoado para o bem da cristandade, e cheguei mesmo a propor-lho.
- Mas - objectou Neville, em tom inquieto - que garantia tendes vs que este hbil escravo de Saladino se no impor a Vossa Majestade?
- Paz, Neville - disse Ricardo. - Julgas-te muito sensato e, no s seno um louco. Pensa em executar bem as ordens que te dei
262
relativamente a este homem. Vejo nele mais do que o teu esprito do Westmoreland pode penetrar.
"E tu, meu amigo negro e mudo, prepara-te para executar o que acabas de me prometer e, pela palavra de um rei, escolhers tu prprio a tua recompensa. Ah, ei-lo
ainda que escreve...
O mudo, depois de ter escrito, entregou ao rei, com o mesmo cerimonial da primeira vez, um bocado de pergaminho sobre o qual estava escrito:
"A vontade do rei,  uma lei para o seu escravo; no lhe convm pedir uma recompensa por ter cumprido o seu dever..."
- Recompensa e dever - repetiu Ricardo, interrompendo-se na sua leitura e falando a Nevile em ingls, como tinha feito at a.
- Os orientais aproveitaram com as cruzadas, aprendem j a empregar a linguagem da cavalaria. Examina bem a figura deste patife, Neville; sem a sua cor de pele,
ficaria vermelho. No ficaria surpreendido se compreendesse o que te digo; estes malandros so sbios no conhecimento das lnguas.
- O pobre escravo no pode suportar o fogo dos olhos de Vossa Majestade - respondeu Neville. - No  seno isso.
- Muito bem - disse o rei, batendo com um dedo no pergaminho cuja leitura acabara - mas este escrito audacioso informa-nos que o nosso fiel mudo  encarregado de
uma mensagem de Saladino para Lady Edith Plantageneta e pede a ocasio e os meios de se desempenhar dela. Que pensas deste modesto pedido, Neville?
- No posso dizer que juzo taz Vossa Majestade de uma tal liberdade - respondeu Neville - mas teria fortes receios pelo pescoo do mensageiro que levasse da vossa
parte um pedido semelhante ao sulto.
- Oh! - exclamou Ricardo - dou graas aos Cus por no lhe 'nvejar nenhuma das belezas bronzeadas pelo sol. Mas quanto a castigar este tipo por ter executado as
ordens do seu amo, na altura em que acaba de me salvar a vida, seria uma medida um pouco sumria de mais.
"Vou-te dizer um segredo, Neville, porque mesmo que o nosso ministro preto e mudo nos compreendesse por acaso, sabes que no Poderia revelar nada; dir-te-ei pois,
que de h quinze dias para c fui tocado como que por um feitio e gostaria bem de ser desencantado.
263
Assim que algum acabou de me prestar um bom servio, logo perde todo o mrito fazendo-me qualquer injria; por outro lado, aquele que mereceria que o condenasse
 morte por qualquer insulto ou traio,  precisamente aquele que prestando-me um servio, me fora por honra a revogar a minha sentena. Vs pois que estou privado
da melhor parte das minhas funes reais, pois que no posso punir nem recompensar. At que a influncia malfica deste planeta tenha passado, no quero dizer nada
da petio do nosso servidor negro, a no ser que  extraordinariamente audacioso e que a melhor possibilidade que tem de achar graa a nossos olhos  fazer a descoberta
que nos prometeu. Enquanto esperamos, vela bem sobre ele, e que seja bem tratado. Escuta ainda uma palavra. Procura o ermita d'Engaddi - acrescentou, baixando a
voz - e traz-mo; quer seja santo ou selvagem, privado de razo ou no seu bom-senso, quero-lhe falar em particular.
Neville, fazendo sinal ao nbio para o seguir, saiu da tenda de Ricardo muito surpreendido com tudo o que acabara de ver e de ouvir e sobretudo com a conduta pouco
usual do rei. Em geral tinha-se pouca dificuldade em descobrir de imediato as ideias e os sentimentos de Ricardo, embora fosse mais difcil de lhes calcular a durao;
mas nesta ocasio as suas maneiras pareciam, contra seu costume, constrangidas e misteriosas, e era impossvel decidir se a satisfao ou o descontentamento dominavam
na sua conduta a respeito deste novo membro da sua casa.
O servio que o rei prestara ao nbio, impedindo os efeitos funestos da ferida que lhe fizera o marabu, parecia t-lo desobrigado daquele que ele prprio recebera
ao ser afastado do ferro do assassino. Mas parecia que restava ainda uma conta maior a regularizar entre os dois, que o monarca duvidava ainda se o resultado seria
o de o tomar devedor ou credor, e que consequentemente mantinha uma espcie de neutralidade conveniente em qualquer dos casos.
Quanto ao nbio, quaisquer que fossem os meios pelos quais aprendera a escrever as lnguas da Europa, o baro em breve ficou convencido de que pelo menos a de Inglaterra
lhe era desconhecida, pois tendo-o vigiado de perto durante a ltima parte do dilogo, julgou impossvel que um homem que compreendesse uma conversa de que ele prprio
era o tema se mostrasse to desinteressado.
264

CAPITULO XXII
"Quem vem l? Por minha f,  o meu sbio mdico. Aproximai-vos... De um amigo reconheo a mo."
"Grabbe". SIR EUSTACHE GREY
A nossa histria vai agora reportar-se a uma poca um pouco anterior aos ltimos incidentes que acabmos de relatar, quer dizer, vai retroceder at ao instante em
que o infeliz Cavaleiro do Leopardo, dado por Ricardo ao mdico mouro na qualidade de escravo, foi exilado do acampamento dos cruzados, nas fileiras das quais frequentemente
se distinguira com brilho. Seguiu o seu novo amo, pois era assim que agora devia considerar El Hakim, para as tendas mouriscas que mandara trazer para alojar o seu
squito e tudo o que lhe pertencia. Sir Kenneth experimentava a espcie de estupefaco de um homem que caiu num precipcio e que, ao sair, por um feliz acaso, apenas
 capaz de se afastar do lugar fatal, sem estar em estado de apreciar bem toda a extenso do perigo que correu.
Ao entrar na tenda de Adonebec, o escocs lanou-se, sem pronunciar uma s palavra, sobre um leito de peles de bfalo que o seu Suia lhe mostrou; e, escondendo o
rosto nas mos, soltou profundos gemidos, como se o seu corao estivesse a ponto de se despedaar. O mdico ouviu-o enquanto dava ordens aos seus numerosos escravos
265
para que se preparassem para partir no dia seguinte antes do nascer do Sol; e, tocado de compaixo, interrompeu as suas ocupaes para se ir sentar perto do cavaleiro,
cruzando as pernas  maneira oriental.
- Amigo - disse - tomai coragem; pois que diz o poeta? "Vale mais ser servidor de um bom amo do que escravo das suas fogosas paixes!" Repito-te pois, toma coragem,
pois que Ysoufben Yagoub 1 foi vendido pelos irmos a um rei, ao fara do Egipto, enquanto o teu soberano te deu a um homem que te tratar como um irmo.
Sir Kenneth tentou agradecer a El Hakim; mas o seu corao estava demasiado cheio e os seus esforos vos, para responder, levaram o bom mdico a suspender as suas
consolaes; deixou o seu novo escravo, ou seu hspede, livremente entregue ao seu desgosto; e, tendo dado todas as ordens necessrias para os preparativos da partida,
sentou-se sobre o tapete que estava estendido na tenda e fez uma refeio frugal. Quando terminou, ofereceu uma semelhante ao cavaleiro escocs; mas, embora os escravos
lhe fizessem compreender que a jornada do dia seguinte estaria muito avanada antes que parassem para tomar uns refrescos, Sir Kenneth no conseguiu vencer o nojo
que lhe inspiravam todos os alimentos slidos e apenas conseguiram convenc-lo a tomar um copo de gua.
Ficou ainda acordado muito tempo depois do seu hospedeiro ter adormecido, aps ter terminado as suas usuais devoes.  meia-noite, ainda o sono no o visitara,
quando observou certa agitao entre os escravos que, embora sem falar e com o menor rudo possvel, se aprontavam j a carregar os camelos.  excepo do prprio
mdico, o cavaleiro escocs foi o ltimo indivduo a ser incomodado no decurso destes preparativos: mas, cerca das trs horas da madrugada, uma espcie de mordomo
ou de intendente da casa veio avis-lo de que era tempo de se levantar. Obedeceu imediatamente e  luz do luar seguiu-o para o local onde estavam os camelos, uns
j carregados, outros ainda com os joelhos dobrados  espera que a sua carga ficasse pronta.
1 Jos, filho de Jacob.
266
A alguma distncia dos camelos estavam cavalos selados e com rdeas.
El Hakim, que no tardou a chegar, montou um, com agilidade, e designou um outro, que ordenou que trouxessem a Sir Kenneth.
Um oficial ingls estava presente para os escoltar, enquanto atravessassem o acampamento, e velar para que o deixassem em segurana e tudo estivesse pronto para
a sua partida.
O pavilho que tinha acabado de abandonar foi dobrado com uma prontido quase maravilhosa, e tudo o que o compunha formou a carga do ltimo camelo. Ento, o mdico,
pronunciando em tom solene o versculo do Coro: "Que Al seja o nosso guia e Maom o nosso protector, tanto no deserto como na plancie irrigada", toda a cavalgada
se ps em marcha.
Enquanto atravessavam o acampamento, as diversas sentinelas que estavam de guarda gritaram: "Quem vem l?", e seguidamente deixaram-nos passar, umas em silncio
e as outras mais zelosas, murmurando uma maldio contra o Profeta. Por fim, transpuseram as barreiras do acampamento e comearam ento a marchar com todas as precaues
militares. Dois ou trs cavaleiros, servindo de vanguarda, precediam os outros a certa distncia; igual nmero permanecia na retaguarda, ao alcance de uma flecha
de zagaia, e todas as vezes que o terreno o permitia, outros eram destacados para os flancos. Enquanto avanavam por esta ordem, Sir Kenneth, lanando um olhar para
trs sobre o acampamento que o luar deixava entrever, sentiu que j no era a seus prprios.olhos um banido, um homem a quem tinham tirado a honra e a liberdade;
tornava-se estranho a estas bandeiras brilhantes sob as quais esperara adquirir um glorioso renome; afastava-se para sempre das tendas que cobriam esse momento a
flor da cavalaria crist e Edith Plantageneta.
El Hakim, que estava a seu lado, disse-lhe no seu tom costumado de solene consolao:
- No  prudente olhar para trs quando o fim da viagem  para a frente...
Enquanto assim falava, o cavalo de Sir Kenneth deu um passo em falso to perigoso que quase acrescentou uma moral prtica ao provrbio do mouro.
Foi para o cavaleiro uma advertncia para prestar mais ateno 
267
sua montada; era uma gua, que, por mais de uma vz, teve necessidade de ser refreada, embora de resto nenhum palafrm tivesse marcha mais doce e mais agradvel.
- Este animal pode-se comparar  fortuna humana - disse o mdico, sentencioso. - Mesmo quando marcha com o passo mais doce e mais seguro, aquele que o monta deve
ter cuidado com as quedas. Assim, quando a prosperidade alcanou o ltimo grau da sua elevao, a prudncia deve abrir os olhos para evitar o infortnio.
At o prprio mel enjoa um estmago doente. O cavaleiro, mortificado pela sua desgraa e acabrunhado sob o peso dos seus infortnios, comeava a impacientar-se um
pouco por ouvir a cada instante as suas calamidades tornarem-se um tema de provrbios e apotegmas, por muito justos e bem aplicados que fossem.
- Parece-me - disse com um pouco de impacincia - que no tenho necessidade de novas provas de instabilidade da fortuna. Agradecer-te-ia muito, Hakim, por teres-me
escolhido este corcel se pudesse tropear uma vez por todas, de modo a partir-me o pescoo  custa do seu.
- Meu irmo - respondeu o sbio mouro, com uma gravidade imperturbvel - falas como os que esto privados de razo. Dizes no teu corao que um homem sbio teria
dado ao seu hspede o cavalo melhor e mais jovem, e teria guardado para ele o mais velho. Mas fica sabendo que os defeitos do velho corcel podem compensar-se pela
energia do jovem cavaleiro, e que a impetuosidade do jovem cavalo tem necessidade de ser moderada pelo sangue frio do velho.
Assim falou El Hakim; mas a esta observao Sir Kenneth no respondeu nada que pudesse fornecer os meios de continuar a conversa. O mdico, ento, fatigado talvez
por oferecer consolaes a algum que no as queria receber, fez sinal a um homem de seu squito.
- Hassan - disse-lhe - no tens nada a contar-nos para nos fazer parecer o caminho menos longo?
A este apelo, Hassan, contador de histrias e poeta de profisso, aproximou-se do seu amo para se desempenhar das suas funes:
- Senhor do palcio da vida - disse, dirigindo-se ao mdico -
268
tu diante de quem o anjo Azral abre as asas para fugir, tu mais sbio do que Soliman Ben Daoud 1, no seio do qual estava inscrito o verdadeiro nome que comanda
os espritos dos elementos, no praza ao Cu que, enquanto viajas pelo atalho da benevolncia, levando a esperana e a sade para onde quer que vs, o teu percurso
seja entristecido por falta de histrias e de canes. Eis aqui o teu servidor, a teu lado, e que as vai tirar dos tesouros da sua memria, como de um ribeiro cujas
guas correm perto do caminho para refrescar o viajante.
Depois deste exrdio, Hassan elevou a voz e comeou um canto de amor e de magia, entremeando de feitos belicosos e ornamentados com numerosas citaes dos poetas
persas. Todo o cortejo de El Hakim,  excepo daqueles que eram necessrios para conduzir os camelos, se comprimia  volta do narrador, to perto quanto o permitia
o respeito que inspirava a presena do mestre, para escutar o que foi sempre um dos mais doces passatempos dos habitantes do Oriente.
Noutras circunstncias, e embora conhecesse mal a lngua dos Muulmanos, Sir Kenneth teria podido interessar-se por esta histria que possua muitas analogias com
os romances de cavalaria, ento em moda na Europa. Mas, nas circunstncias em que se encontrava, mal se apercebeu de que um homem, colocado no meio dos cavaleiros,
declamava e cantava alternadamente, tendo o cuidado de dar s entoaes da sua voz o acento das diversas paixes que tinha de descrever, recebendo em resposta ora
murmrios de aprovao ora expresses de surpresa, ora suspiros e lgrimas, e por vezes at, o que era mais difcil de arrancar a semelhante auditrio, sorrisos
e gargalhadas ruidosas.
Durante esta narrativa, a ateno do exilado, ocupado com os seus prprios desgostos, foi algumas vezes distrada pelo rosnar queixoso de um co, fechado num cesto
de verga colocado sobre o dorso de um dos camelos. Como caador experiente, no teve dificuldade em reconhecer a voz do seu fiel galgo e, pelos seus murmrios lamentosos,
no duvidou que ele sentisse que o seu amo estava
1 Salomo, filho de David.
269
perto dele e que implorasse o seu auxlio para lhe restituir a liberdade.
"Pobre Roswall - pensou - chamas em teu auxlio um homem cuja escravido  mais cruel do que a tua. Fingirei no te prestar ateno nem responder ao teu afecto,
pois que isso s tornaria mais amarga a nossa separao."
Assim se passaram as horas da noite e as do romper do dia.
Mas quando a primeira linha do disco do Sol comeou a mostrar-se no horizonte, a voz sonora de El Hakim fez-se ouvir acima da do narrador e interrompeu-o no seu
relato.
- Para a orao! Para a orao! No h outro Deus seno Deus. Para a orao! Para a orao! Maom  o profeta de Deus! Para a orao! Para a orao! O tempo foge
para longe de vs! Para a orao! Para a orao! O julgamento aproxima-se de vs.
Num instante, todos os muulmanos se lanaram abaixo dos cavalos, voltaram o rosto para Meca, e fizeram com a areia uma imitao das ablues que, em qualquer outro
lugar, se devem fazer com a gua enquanto, por umas curtas mas fervorosas exclamaes, invocavam a proteco de Deus e do Profeta e o perdo dos seus pecados.
O prprio Sir Kenneth, cuja razo e preconceitos se revoltaram ao ver os seus companheiros de viagem ocupados no que considerava um acto de idolatria, no se pde
impedir de respeitar a sinceridade da sua devoo e foi estimulado pelo seu fervor em oferecer preces ao Cu.
No entanto, este acto de pura devoo, embora feito em to estranha companhia, partia do sentimento dos seus deveres religiosos, natural no homem, e produziu o efeito
habitual no cavaleiro, levando a calma ao seu esprito ulcerado. Sentiu-se consolado, fortalecido e melhor preparado para fazer tudo o que o seu destino lhe exigisse
e a submeter-se a tudo o que pudesse ser chamado a sofrer.
Entretanto os sarracenos tinham montado de novo a cavalo e hassan retomara o fio interrompido da sua narrao; mas j no se dirigia a auditores atentos. Um cavaleiro
que escalara uma elevao a certa distncia,  direita do pequeno grupo, regressava a galope e dissera algumas palavras em voz baixa a El Hakim; este despachara
quatro ou cinco outros cavaleiros para o mesmo stio e toda a caravana,
270
que podia consistir numas trinta pessoas, os seguia com os olhos, como homens cujos gestos e cuja marcha lhes deviam anunciar boas ou ms notcias.
Hassan, vendo que o seu auditrio j no o escutava ou ocupado ele prprio com o que se passava no flanco direito, interrompeu de novo o seu relato, e a marcha tornou-se
silenciosa, a no ser quando um condutor de camelos dirigia a palavra ao paciente animal que conduzia, para o encorajar, ou que um homem do grupo dizia ao seu vizinho
com ar inquieto algumas palavras em voz baixa.
Este estado de incerteza durou at terem transposto uma cadeia de montculos de areia, que escondiam  caravana a elevao de onde os seus batedores tinham avistado
o objecto que provocara o alarme. Sir Kenneth viu ento,  distncia de mais de uma milha, um corpo negro que parecia mover-se rapidamente no meio do deserto; a
sua vista excitada, em breve reconheceu que era um bando de cavaleiros, muito superior em nmero quele de que fazia parte; e, pelos clares frequentes do sol, no
pde duvidar de que eram europeus armados.
Os olhares de inquietao que os cavaleiros de El Hakim lanaram ento ao seu chefe, pareciam indicar grandes receios, mas este, com um ar to tranquilo como quando
chamara o seu squito para a orao, destacou dois dos seus homens armados, aos quais deu ordem para se aproximarem, tanto quanto a prudncia permitisse, destes
viajantes do deserto e reconhecer com maior exactido o seu nmero, a sua nao, e se possvel as suas intenes.
A aproximao do perigo, ou pelo menos do que parecia considerar-se como tal, foi para Sir Kenneth o que  uma bebida estimulante para um homem mergulhado na apatia,
e f-lo voltar  realidade:
- Estes cavaleiros parecem-me cristos - disse a El Hakim. Que tens a temer?
- A temer? - repetiu Adonebec. - O sbio no teme seno o Cu, mas espera dos maus todo o mal que podem fazer.
- So cristos - replicou Kenneth. - A trgua dura ainda; porque receias que a violem?
- So padres... soldados do templo - respondeu El Hakim -. e fizeram o voto de no conhecer nem paz nem trgua com os adoradores
271
de Al. Possa o Profeta fazer cair o raio do cu sobre a rvore, os ramos e os rebentos! A paz deles  a guerra e a sua f no  seno mentira. Os outros inimigos
dos verdadeiros crentes tm os seus momentos de cortesia. O leo Ricardo poupa aqueles que derrubou, a guia Filipe fecha as asas depois de atacar a sua presa e
o prprio javali austraco adormece quando est saciado; mas este bando de lobos famintos no conhece descanso nem saciedade nas suas rapinas. No vs que destacam
parte da sua tropa para oriente? So os pajens e escudeiros, e enviam-nos como tropas ligeiras para nos cortar o caminho da fonte. Mas enganam-se, pois conheo melhor
do que eles a guerra do deserto.
Disse algumas palavras ao seu oficial principal, e as suas feies assim como o seu aspecto exterior, deixaram de repente o ar de repouso solene de um sbio do Oriente,
mais habituado  contemplao do que  aco, e assumiram a expresso viva e orgulhosa de um bravo soldado cuja energia  estimulada pela aproximao de um perigo
que prev e despreza.
Aos olhos de Sir Kenneth a crise que se avizinhava tomava um aspecto completamente diferente; quando Adonebec lhe disse:
-  preciso que fiques a meu lado. - Recusou-se a isso categoricamente.
- Esto ali meus companheiros de armas - respondeu - os homens com quem fiz voto de combater, de vencer ou morrer. O sinal da nossa bem-aventurada religio brilha
sobre a sua bandeira: no fugirei  cruz para acompanhar o crescente.
- Insensato - disse El Hakim - a sua primeira preocupao seria matar-te, quando mais no fosse para esconder a sua violao da trgua.
- Correrei esse risco - respondeu o cavaleiro. - No trarei os ferros dos infiis nem mais um instante, se me puder subtrair a eles
- Nesse caso saberei forar-te a seguir-me - respondeu Adonc
bec.
- Forar-me! - exclamou Sir Kenneth com altivez. - Se no fosses meu benfeitor, ou pelo menos um homem que mostrou vontade de o ser; se no devesse  tua confiana
a liberdade destes braos, que poderias ter carregado de ferros, provar-te-ia, sem armas, que no seria fcil forar-me a isso.
272
- Basta, basta - disse o mdico mouro. - Perdemos um tempo que comea a tornar-se precioso.
A estas palavras levantou o brao e soltou um grito agudo, a servir de sinal s gentes do seu squito, que se dispersaram no mesmo instante sobre a superfcie do
deserto. Sir Kenneth no teve tempo de ver o que se seguiu, porque as rdeas do seu cavalo foram puxadas por El Hakim e foi como que arrastado por ele, com uma rapidez
que quase lhe cortou a respirao e lhe tirou a possibilidade, mesmo que o quisesse, de fazer parar o seu guia na corrida, por hbil que fosse na arte da equitao;
o cavalo mais veloz que montara at ento no passava de uma tartaruga ao p dos do mdico mouro. Faziam saltar a areia sob as suas patas e pareciam devorar o espao
diante deles. Ter-se-ia quase podido contar as milhas pelos minutos que gastavam a percorr-los e, no entanto, no pareciam mais fatigados e respiravam to livremente
como quando tinham comeado esta corrida extraordinria. Os seus movimentos eram to suaves quanto rpidos.
S ao cabo de uma hora, quando se convenceram de que j no havia possibilidade de serem perseguidos,  que El Hakim abrandou finalmente a corrida dos cavalos e
lhes permitiu tomar um galope usual. Comeou ento, numa voz to calma como se tivesse andado a passo durante esta ltima hora, a fazer o elogio da excelncia dos
seus corcis, ao cavaleiro escocs que, atordoado, meio surdo, meio cego, mal percebia as palavras que o seu companheiro pronunciava:
- Estes cavalos - disse - pertencem  raa daqueles a que chamamos "Alados", e no cedem em rapidez seno ao Borak do Profeta. So alimentados com cevada dourada
do Ymen, misturada com especiarias e um pouco de carne de carneiro seca. Houve reis que deram provncias para os possuir, e a sua velhice  to activa como a sua
juventude. s o primeiro da tua crena, nazareno, a montar um corcel desta nobre raa, dom que o prprio Profeta fez ao bem-aventurado Ali, seu parente e lugar-tenente,
apelidado, a justo ttulo, o Leo de Deus. A marcha do tempo aflora to ligeiramente estes generosos animais, que a gua que montas neste momento viu passar cinco
vezes cinco anos sobre a sua cabea, sem Que nada tenha perdido da sua rapidez e do seu vigor, a no ser ter agora necessidade de ser mantida por um freio seguro,
por uma mo
273
mais experiente do que a tua. Bendito seja o Profeta que deu aos verdadeiros crentes os meios de avanar e bater'em retirada com a mesma facilidade, enquanto os
seus inimigos, cobertos de ferros, esto esmagados sob o peso das suas prprias armas!
O cavaleiro escocs, que comeava a recuperar o flego e a achar-se em estado de prestar ateno ao discurso do seu companheiro, no pde deixar de reconhecer a
vantagem de os guerreiros do Oriente disporem de uma raa de animais to eficazes no ataque como na fuga, e to admiravelmente adaptados aos desertos arenosos da
Arbia e da Sria. Mas, no querendo lisonjear o muulmano concordando com esta superioridade, deixou esmorecer a conversa e, olhando  sua volta, apercebeu-se,
graas ao andamento mais moderado com que marchavam agora, de que se encontravam num local que no lhe era desconhecido.
As margens nuas e as guas sombrias do mar Morto, a cadeia das montanhas ridas e escarpadas que se elevavam  esquerda, o grupo de palmeiras formando um nico ponto
de verdura que se via no seio deste vasto deserto, eram coisas que no se podiam esquecer, quando vistas uma nica vez. Sir Kenneth reconheceu pois que se aproximava
da fonte chamada o Diamante do Deserto, que algum tempo antes fora testemunha da sua entrevista com o emir sarraceno Sheerkhof ou Ilderim. Alguns minutos mais tarde
pararam perto da fonte, e El Hakim convidou Sir Kenneth a descer do cavalo e a repousar. Tiraram os freios aos seus corcis e Adonebec disse que era intil prestar-lhes
outros cuidados, visto que os seus escravos no tardariam ajuntar-se-lhes e fariam tudo o que fosse necessrio.
- Entretanto - acrescentou, colocando alguns alimentos sobre a relva - comamos, bebamos e no desanimemos. A fortuna pode elevar ou abater a coragem de um homem
vulgar; mas o esprito do sbio e do soldado deve estar sempre acima dos seus caprichos.
O cavaleiro escocs procurou agradecer-lhe, mostrando-se dcil; mas embora se esforasse por comer, o contraste aflitivo que existia entre a sua posio actual e
a situao em que se encontrara neste mesmo local quando era o enviado dos prncipes e vencedor num combate singular, era como um peso esmagador para o seu esprito;
e um longo jejum, a fadiga e a inquietao, privavam-no do uso das suas foras. O mdico notou-lhe a respirao ofegante, apalpou-lhe
274
o pulso, que encontrou muito agitado, tocou-lhe as mos ardentes e examinou os olhos vermelhos e inflamados:
- O esprito torna-se sbio com as viglias - disse-lhe. - Mas o corpo, seu irmo, sendo composto de matrias mais grosseiras, precisa de se fortalecer pelo repouso.
 imprescindvel que durmas, para te retemperares; e para que durmas mais facilmente  necessrio que tomes este elixir.
A estas palavras, tirou do peito uma boceta de cristal, rodeada de filigrama de prata e, enchendo de gua uma taa de ouro, deitou-lhe algumas gotas de um lquido
de cor escura:
- Este  um dos produtos que Al concedeu  Terra para felicidade dos homens - disse - embora a sua fraqueza e a sua corrupo por vezes o tenham convertido em maldio.
Este licor  to poderoso como o copo de vinho do nazareno para fazer descer o cortinado das plpebras sobre os olhos que no se conseguem fechar. No receies recorrer
s suas virtudes quando a ocasio o exige, porque o sbio aquece-se ao mesmo lume de que o tolo se serve para incendiar a sua tenda.
- J tive demasiadas provas da tua cincia, sbio Hakim - respondeu Sir Kenneth - para hesitar obedecer.
E tomou a poo narctica misturada com a gua pura da fonte.
Embrulhando-se ento no haik, ou manto rabe, que se encontrava atado  sela, estendeu-se  sombra, seguindo as ordens do mdico, para a esperar o repouso de que
necessitava.
O sono no chegou logo, mas em seu lugar experimentou uma srie de sensaes agradveis que no o tiravam contudo do entorpecimento que comeava a apoderar-se dele.
Seguidamente, embora mantivesse a conscincia da sua posio, achou-se num estado capaz de encarar todos os seus infortnios, no s sem alarme nem desgosto, mas
to tranquilamente como se tivesse visto desenrolar a histria num teatro ou como se tivesse sido um esprito passando em revista as aventuras acontecidas a um corpo
enquanto fora animado. Deste estado de repouso, que ia quase at  apatia relativamente ao passado, os pensamentos de Sir Kenneth rapidamente se viraram para o futuro
e, a despeito de todas as causas que deveriam ensombrar essa perspectiva, viu-o brilhar com cores que, sob auspcios muito mais felizes, a imaginao, privada
275
deste estimulante, nunca fora capaz de produzir. A liberdade, a glria, o amor feliz, pareciam esperar a pouca.distncia o escravo banido, o cavaleiro desonrado,
o amante privado de toda a esperana que to alto colocara os seus desejos de ventura.
Pouco a pouco, estas vises alegres dissiparam-se e desvaneceram-se num total esquecimento e, por fim, Sir Kenneth ficou estendido aos ps de El Hakim, numa imobilidade
to completa que se no respirasse se teria podido tomar por um corpo que a vida cessara de animar.
276

CAPITULO XXIII
"De varinha na mo, um rpido encantamento De um solo misterioso vem mudar a superfcie E julgamos, ao ver a cena que se passa, Que a febre ou um sonho operou esta
mudana."
ADOLFO
QUANDO o Cavaleiro do Leopardo despertou, aps um sono profundo encontrou-se numa situao to diferente daquela em que estava antes de ter adormecido que duvidou
se estaria bem acordado ou se a cena fora mudada por magia. Em vez de estar deitado na terra, repousava num leito de luxo mais do que oriental.
Mos carinhosas tinham-no despojado, durante o sono, do casaco justo, de camura, que trazia sob a armadura, substituindo-o por uma camisa de linho finssimo e
um roupo de seda. Em vez de ter a cabea abrigada pelas palmeiras do deserto, cobria-o um dossel enriquecido com as mais brilhantes cores da China; e um cortinado
de gaze, estendido em redor do leito, estava disposto de maneira a defend-lo, durante o sono, dos insectos de cujos ataques constantes fora vtima desde a sua chegada
a tal clima.
Olhou  sua volta como para se convencer de que estava bem acordado; mas tudo neste local correspondia ao esplendor do seu leito. Uma banheira porttil, de cedro,
com embutidos de prata, fora j cheia para ele, com gua tpida, e a atmosfera estava embalsamada
277
pelo odor dos perfumes usados na sua preparao. Sobre uma pequena mesa de bano via-se uma taa de prata, cheia de sorvete, que a sede que se segue ao uso de um
forte narctico lhe fez parecer duplamente delicioso. Para dissipar os restos da espcie de embriaguez causada pela bebida que tomara, o cavaleiro entrou no banho
que lhe refrescou tanto o esprito como o corpo.
Depois de se ter enxugado com toalhas de l das ndias, o cavaleiro, de bom grado, teria retomado os seus fatos usuais para ir ver em seguida se o mundo estava to
mudado para ele no exterior como no local onde acabara de repousar; mas no conseguiu encontr-los e viu que tinham sido substitudos por um rico traje sarraceno
com uma cimitarra e um punhal, como traziam os emires. No podendo adivinhar o motivo desta amabilidade excessiva, no pde impedir-se de suspeitar que tinha por
fim abal-lo na sua f; pois sabia-se que a elevada estima que o sulto tinha pelos conhecimentos e a coragem dos Europeus lhe inspirava uma generosidade sem limites
por aqueles que, tendo-se tornado seus prisioneiros, se tinham deixado convencer a tomar o turbante.
Fazendo portanto o sinal-da-cruz, com devoo, decidiu desafiar semelhantes armadilhas e, para o fazer com mais firmeza, prometeu a si prprio utilizar com moderao
os objectos de luxo que se multiplicavam  sua volta. Contudo, sentia ainda a cabea pesada e a sua necessidade de dormir no se dissipara ainda; e, como no se
podia mostrar ao ar livre com o roupo, tornou a deitar-se na cama e o sono no tardou a fechar-lhe de novo os olhos.
Mas desta vez o seu sono foi interrompido, porque foi despertado pela voz do mdico mouro, que  porta da tenda lhe perguntava como  que se sentia e se dormira
o suficiente.
- Posso entrar no vosso pavilho? - perguntou, porque o cortinado no fora ainda afastado da porta.
Decidido a demonstrar que no esquecera o estado a que fora reduzido, Sir Kenneth respondeu-lhe;
- O amo no necessita de licena para entrar na tenda do escravo.
- Mas se no vier como amo? - disse El Hakim, sem entrar.
- O mdico - respondeu o cavaleiro - tem sempre livre acesso ao leito do seu doente.
278
- Neste momento no venho como mdico - replicou Adonebec. - E  por isso que te peo licena para entrar na tua tenda.
- Quando aparece um amigo, e provaste-me at agora que o eras
- respondeu Sir Kenneth - a habitao do amigo est sempre aberta para o receber.
- Pois bem - disse o sbio,  maneira dos Orientais, que gostam de rodeios - suponho que no venho como amigo...
- Vens como quiseres - exclamou o cavaleiro escocs, impacientando-se um pouco com todas estas suposies. - Seja como te aprouver; sabes muito bem que no tenho
nem o poder nem a vontade de te recusar a entrada desta tenda.
- Venho pois como teu antigo inimigo - respondeu El Hakim
- mas como um inimigo franco e generoso.
Entrou pronunciando estas palavras e a voz era ainda a de Adonebec, o mdico mouro, mas a figura, o traje e as feies eram as de llderim do Kurdisto, apelidado
de Sheerkohf. Sir Kenneth olhou-o como se esperasse ver desvanecer-se uma viso criada pela sua imaginao.
- Ests surpreendido, tu guerreiro experiente - disse llderim por ver que um soldado conhece alguma coisa na arte de curar? Digo-te, nazareno, que um cavaleiro perfeito
deve saber sangrar to bem o seu corcel como mont-lo; forjar a sua cimitarra na bigorna e atacar com ela o inimigo, limpar as suas armas to bem como servir-se
delas e, sobretudo, ser to hbil na arte de curar as feridas como na de as provocar.
Enquanto assim falava, o cavaleiro cristo fechou vrias vezes os olhos, e a imagem do mdico mouro, com a sua longa veste negra, o grande turbante trtaro e os
seus gestos cheios de gravidade, surgiu no seu esprito; mas, mal os abria, o turbante enfeitado com pedras preciosas graciosamente colocado na cabea daquele que
estava na sua frente, o ligeiro lorigo formado por medalhas de ao e de prata entrelaadas falseando s menores inflexes do seu corpo, feies morenas despidas
da sua expresso solene e cabelos menos espessos e bigodes pretos, anunciavam o soldado mais do que o sbio.
- Continuas ainda espantado? - perguntou-lhe o emir. - Viveste no mundo sem o observar suficientemente para saber que os
279
homens nem sempre so o que parecem ser? Tu prprio s o que aparentas?
- No! no! por Santo Andr! - bradou Sir Kenneth - pois que pareo um traidor aos olhos de todo o acampamento cristo e sei que sou franco e fiel, embora tenha
cometido uma falta.
- Foi assim que te julguei - disse Ilderim e, como tnhamos comido sal juntos, achei-me obrigado a salvar-te da morte e da ignomnia. Mas porque ests ainda no leito
quando o Sol j vai alto no firmamento? Os fatos que te mandei preparar so indignos de ti?
- Decerto que no so indignos, nobre Ilderim; mas no me podem convir. D-me o fato de um escravo, e de bom grado o usarei: mas no me posso resolver a vestir o
traje do guerreiro livre do Oriente e o turbante do Muulmano.
- Nazareno, a tua nao entrega-se to facilmente s suspeitas que no  de espantar que as inspire. No te disse que Saladino no deseja converter seno aqueles
que o Santo Profeta dispe a submeter-se  sua lei? A violncia e a corrupo no so os meios que emprega para expandir a verdadeira f. Escuta-me, meu irmo; quando
a luz foi milagrosamente devolvida ao cego, quando as escamas caram dos seus olhos por vontade de Al, julgas tu que algum mdico da Terra lhe poderia prestar o
mesmo servio? No. Teria atormentado o paciente com os seus instrumentos, suavizaria talvez os seus sofrimentos com blsamos e fortificantes; mas o cego teria permanecido
nas trevas em que fora mergulhado. Acontece o mesmo com a cegueira do esprito.
Se houver entre os francos homens que tenham tomado o turbante do Profeta e abraado as leis do Islamismo por amor de um lucro vil, que a culpa recaia sobre a sua
conscincia! Foram eles prprios a procurar o engodo, no foi o sulto quem lho apresentou. E quando forem condenados como hipcritas a habitar o fosso mais profundo
do Inferno, por baixo do cristo e do judeu, do mgico e do idlatra, ser a eles e no ao sulto que se dever atribuir o seu crime e o castigo de que ser seguido.
Usa, pois, sem hesitaes e sem escrpulos, os fatos que te foram preparados, porque se fores ao acampamento de Saladino, o traje europeu atrairia todos os olhares
para ti de maneira pouco agradvel e expor-te-ia talvez at a insultos.
280
- Se for ao acampamento de Saladino! - repetiu Sir Kenneth.
Ai de mim, sero as minhas vontades livres? No  meu dever ir
para onde te aprouver conduzir-me?
- A tua prpria vontade ser o teu guia, e ela conduzir-te- livremente para o lado que quiser. O nobre inimigo que me combateu e quase me venceu no se pode tornar
meu escravo como aquele que se humilhou sob a minha cimitarra. Se a riqueza e o poder te pudessem decidir a viver para o nosso exrcito, poderia assegurar-tos; mas
receio bem que o homem que desprezou os favores do sulto, quando a espada estava suspensa sobre a sua cabea, no os aceite se lhe deixar a liberdade da escolha.
- Levas a tua generosidade ao auge, nobre emir, mostrando-me um meio de saldar as minhas dvidas para contigo, que a minha conscincia possa aceitar. Permite-me
expressar-te, como meu dever de cortesia, e meu reconhecimento pela tua bondade cavalheiresca, pela tua generosidade to pouco merecida.
- No digas que  to pouco merecida. No foste tu que pela descrio que me fizeste das belezas que ornamentam a corte de Melec Ric, me inspiraste o projecto de
l entrar disfarado, oferecendo-me assim a viso do mais belo espectculo que os meus olhos alguma vez gozaram at se abrirem para ver brilhar a glria do Paraso?
- No te compreendo - respondeu Sir Kenneth, corando e empalidecendo alternadamente ao sentir que a conversa estava a tomar um rumo melindroso.
- No me compreendes! - exclamou o emir. - Se o espectculo que vi na tenda do rei Ricardo escapou  tua observao,  porque a tua vista est mais embotada do que
a lmina do sabre de madeira de um bobo.  verdade que estavas nessa altura sob uma sentena de morte; mas mesmo que a minha cabea estivesse meio separada do meu
tronco, o meu ltimo olhar ter-se-ia fixado deliciado naquela viso adorvel e a minha cabea teria rolado para essa incomparvel huri, para beijar com os lbios
trmulos a fmbria dos seus vestidos. Ah! essa rainha de Inglaterra, pelos seus superiores atractivos merece ser a rainha do Universo! Quanta ternura no seu olhar
azul! que brilho nas tranas de fios de ouro que constituem a sua cabeleira. Pelo tmulo do Profeta, custa-me a crer que a huri
281
que me ir apresentar a taa da imortalidade possa merecer to ternas carcias!
- Sarraceno - disse o cavaleiro, em tom severo - ests a falar da esposa de Ricardo de Inglaterra, e no  permitido pensar ou falar dela seno considerando-a no
como uma mulher que se possa amar mas como uma rainha que se deve respeitar.
- Perdo - disse o emir - tinha esquecido a vossa venerao supersticiosa pelo sexo. No me lembrava que olham as mulheres como objectos de admirao e adorao,
mais do que de amor e prazer! Mas, j que exiges um respeito to profundo por esse dolo frgil, cujos gestos, movimentos e olhares anunciam ser uma verdadeira mulher,
concordo que no se pode deixar de adorar aquela outra cabeleira castanha cujos grandes olhos so to eloquentes. Confesso que, no seu porte nobre e no majestoso
semblante, tem algo de puro e de imponente; mas garanto-te que, ela prpria, no fundo, gostaria que um amante audacioso a tratasse mais como uma mortal do que como
uma deusa.
- Infiel - bradou Sir Kenneth, num tom encolerizado - respeita a parente de Corao de Leo. O sulto  indigno de beijar a terra que foi pisada pelos ps de Edith
Plantageneta! - bradou o cavaleiro cristo saltando do leito.
- Ah! que dizes? - exclamou o emir, levando a mo ao punhal, enquanto a testa brilhava como um metal ardente.
Mas o cavaleiro escocs, a quem a fria de leo, de Ricardo, no aterrorizara, tambm no ficou assustado com o furor de tigre do sarraceno.
- Disse - replicou, cruzando os braos - e sustent-lo-ei a p ou a cavalo contra quem quer que seja, ainda que tenha de usar a minha boa espada contra uma vintena
dessas foices e desses alfinetes...
E mostrava ao mesmo tempo a cimitarra de lmina recurvada e o punhal do sarraceno.
Enquanto Sir Kenneth falava deste modo, o sarraceno tornou-se suficientemente senhor de si para retirar a mo que colocara sobre o seu punhal, como se o movimento
que fizera ao toc-lo fosse apenas ocasional, mas a sua clera ainda no se desvanecera.
- Pela cimitarra do Profeta, que  a chave do Cu e do Inferno,
282
meu irmo,  fazer pouco caso da vida, falar como acabas de o fazer. Acredita-me, se os teus braos estivessem livres, um s crente verdadeiro dar-lhes-ia tanto
que fazer, que em breve desejarias que estivessem carregados de ferros.
- Preferia que mos cortassem at aos ombros - replicou Sir Kenneth.
- Seja! Mas as tuas mos esto ligadas neste momento - disse o emir em tom mais brando. - Esto ligadas pelo sentimento da cortesia e no tenciono dar-lhes a liberdade
por enquanto. J pusemos  prova a nossa fora e a nossa coragem, poderemos encontrar-nos ainda num campo de batalha e ento que se envergonhe o primeiro a separar-se
do seu inimigo! Mas agora somos amigos e esperaria de ti auxlio e socorro em vez de insultos e desafio."
- Somos amigos!... - repetiu o cavaleiro.
Houve alguns minutos de silncio durante os quais o impetuoso sarraceno passeou na tenda, como o leo que, depois de uma violenta irritao, emprega este meio para
arrefecer o ardor do seu sangue antes de se estender no seu antro para repousar. O cristo, mais calmo, conservou o mesmo aspecto e a mesma atitude; mas igualmente
tentava dominar o sentimento de clera que to inopinadamente despertara.
- Raciocinemos tranquilamente - disse por fim o emir. - Sou mdico, como sabes, e aquele que deseja a cura da sua ferida deve suportar pacientemente que a examinem;
vou pois pr o dedo na tua chaga. Amas essa parente de Melec Ric. Levanta o vu que cobre os teus pensamentos ou, se preferires, no o levantes, porque os meus olhos
podem penetrar atravs desse tecido.
- Amei-a como se ama a graa do Cu - respondeu Sir Kenneth aps um momento de silncio. - Desejei as suas boas graas como se deseja o perdo do Cu.
- E j no a amas? - perguntou Ilderim.
- Ai de mim! J no sou digno de a amar. Mas acabemos com esta conversa; as tuas palavras so punhaladas para mim.
- Mais um pouco de pacincia. Quando tu, pobre e obscuro soldado, ousaste erguer to alto o teu afecto, diz-me, concebias alguma esperana favorvel?
283
- O amor no existe sem esperana; mas o meu era quase desesperado. Eu era como o nufrago que tenta salvar-se nadando no meio das ondas.
- E agora a esperana naufragou?
- Para sempre! - repetiu Sir Kenneth.
- Parece-me - disse o emir - que se para a tua felicidade te basta a luz distante de um meteoro, talvez fosse possvel que a chama de um farol se reacendesse e que
as tuas esperanas sassem do fundo das vagas que as tragaram; mesmo que, bravo cavaleiro, amanh gozasses da tua reputao sem mcula, como no passado, aquela que
amas no deixaria por isso de ser a parente de um rei, a esposa destinada a Saladino.
- Quereria que assim fosse - disse o escocs - e ento eu... Calou-se, como um homem que cora por fazer uma ameaa que
as circunstncias no lhe permitem executar. O sarraceno sorriu e terminou a frase interrompida:
- Desafiarias o sulto para um combate singular?
- E porque no - respondeu Sir Kenneth, com altivez. - No seria nem o primeiro nem o melhor turbante contra o qual teria posto a minha lana em riste.
- Sim; mas parece-me que se poderia considerar demasiado desigual essa maneira de pr em risco uma esposa real e o resultado de uma guerra importante.
- Poderia encontr-lo nas primeiras filas, num dia de batalha disse o cavaleiro, com os olhos brilhantes pelas ideias que um tal pensamento lhe inspirava.
- Foi a que sempre o encontraram; no est habituado a virar costas quando um bravo inimigo se apresenta diante dele. Mas no era do sulto que fazia teno de
te falar: em resumo, se te contentas em recuperar a tua boa reputao descobrindo o bandido que roubou a bandeira de Inglaterra, posso-te pr em bom caminho para
realizar esta tarefa, isto , se te quiseres deixar guiar por mim, pois o que diz Lockman?
"Se o ignorante quer aprender,  preciso que o sbio o instrua."
- E tu s sbio, Ilderim; sbio apesar de seres sarraceno e generoso apesar de infiel. No me faltaram ocasies para me certificar disso. S pois o meu guia neste
assunto e, desde que no me peas
284
nada contrrio  minha lealdade e  minha f crist, obedecer-te-ei pontualmente. Executa o que me acabas de me dizer e toma em seguida a minha vida quando esta
tarefa estiver terminada.
- Escuta-me pois. O teu nobre co est agora curado, curado pela virtude deste divino remdio, to salutar aos animais como aos homens. A sua sagacidade reconhecer
quem o feriu.
- Ah! parece-me que te compreendo. Como  que eu prprio no pensei nisso?
- Mas diz-me, tens no acampamento algumas pessoas do teu squito que conheam esse animal?
- Despedi o meu velho escudeiro, aquele que curaste, com um jovem criado que o servia no momento em que mais no esperava do que a morte e dei-lhe cartas para o
meu pas, na Esccia. No existe nenhum outro indivduo para quem o co seja conhecido. Mas eu sou-o geralmente; bastar o som da minha voz para me trair num acampamento
onde durante vrios meses no desempenhei o papel menos importante.
- No importa, o amo e o animal estaro disfarados de maneira a enganar os olhares mais clarividentes. Digo-te que o teu irmo de armas, o teu irmo de sangue,
no te reconhecer se quiseres deixar-te guiar pelos meus conselhos. Viste-me fazer coisas mais difceis. Aquele que pode chamar o moribundo do seio das sombras
da morte, pode facilmente espalhar um nevoeiro diante dos olhos dos vivos. Mas presta ateno s minhas palavras; uma condio est ligada a este servio;  necessrio
que entregues uma carta de Saladino a essa parente de Melec Ric cujo nome  to difcil para os nossos lbios orientais, quanto a sua beleza  admirvel aos nossos
olhos.
Sir Kenneth reflectiu antes de responder, e o sarraceno, vendo-o hesitar, perguntou-lhe se receava encarregar-se desta misso.
- No, mesmo que devesse morrer ao cumpri-la - respondeu o cavaleiro. - Estou apenas a pensar se convm  minha honra ser Portador de uma carta do sulto, e se a
de Edith lhe permite receber uma de um prncipe pago.
- Pela cabea de Maom e pela honra de um soldado, pelo tmulo de um profeta e pela alma de meu pai, juro-te que a carta est escrita com toda a honra e respeito.
Mais depressa o canto do rouxinol
285
murcharia as rosas do bosque, que as palavras do sulto ofenderiam os ouvidos da amvel parente do rei de Inglaterra.
- Nesse caso - disse o cavaleiro - entregarei a carta do sulto to lealmente como se tivesse nascido seu vassalo; bem entendido que,  excepo deste simples servio
do qual me incumbirei fielmente, no deves esperar de mm nem intercesso nem interesse nesta estranha correspondncia de amor, e muito menos de mim do que de qualquer
outra pessoa do mundo.
- Saladino  demasiado nobre e demasiado generoso para querer forar um cavalo a saltar mais alto do que pode fazer - respondeu o emir. - Vem  minha tenda e ficars
munido de um disfarce que te esconder como as trevas da meia-noite, de modo que te possas mostrar em todo o acampamento dos nazarenos como se tivesses no dedo o
anel de Giaougi. 1
1 Provalvelmente o anel de Gygs.
286

CAPTULO XXIV
"Que caia na nossa taa um s gro de poeira,
E depressa rejeitaremos com desdm
O licor que a boca invejava  mo.
Junto de um prego enferrujado, a fiel bssola
Desorienta e faz perecer a crdula barquinha,
A causa mais desprezvel de despeito ou de tanga.
Rompendo os mais doces laos dos soberanos,
Faz assim abortar a mais nobre empresa."
A CRUZADA - tragdia
OS nossos leitores devem sem dvida saber agora perfeitamente quem era o escravo negro que viera para o acampamento de Ricardo, qual o motivo que a o levava e com
que esperana se encontrava junto da pessoa deste monarca quando, rodeado pelos seus valorosos pares de Inglaterra e da Normandia, Corao de Leo, tendo-se dirigido
ao cimo do monte So Jorge, a permanecia em p, perto da bandeira de Inglaterra, levada pelo mais belo homem do seu reino, seu irmo natural, Guilherme, alcunhado
Longa-Espada, conde de Salisbury, filho de Henrique II e da clebre Rosemonde de Woodstock.
De acordo com algumas expresses que escaparam ao rei durante a sua conversa com Neville, no dia anterior, o pretenso nbio j no podia duvidar de que o seu disfarce
fora adivinhado, tanto mais que Ricardo parecia saber de que maneira o co devia colaborar na descoberta do traidor que roubara a bandeira, embora o rei mal se tivesse
apercebido de que um animal desses tinha sido ferido nessa ocasio.
287
No entanto, como Ricardo o continuava a tratar conforme o seu exterior exigia, o pretenso nbio no pde ter a certeza se fora descoberto ou no e resolveu no se
despojar voluntariamente do seu disfarce.
As tropas dos diferentes prncipes cruzados, conduzidas pelos chefes respectivos, avanavam em boa ordem em redor do sop da pequena montanha, para dirigir uma saudao
a Ricardo e ao estandarte de Inglaterra, em sinal de cortesia e de amizade, como expressamente o anunciava o protocolo da cerimnia, e no a ttulo de submisso
e vassalagem. Os dignitrios espirituais, que nesse sculo no descobriam a cabea seno diante dos altares, davam ao rei e ao smbolo do poder uma bno em lugar
de uma saudao.
Numerosos grupos de guerreiros desfilaram assim e, embora diferentes causas tivessem diminudo as fileiras, formavam ainda um exrcito de nobres para quem a conquista
da Palestina podia parecer uma tarefa fcil. Os soldados a quem esta reunio reanimava a confiana erguiam-se nas suas selas, enquanto parecia que as trombetas faziam
ouvir sons mais alegres. As tropas sucediam-se umas s outras, em longa perspectiva; todas as bandeiras estavam desfraldadas; era, enfim, um exrcito composto por
diversas naes, momentaneamente inflamadas e reunidas pelo mesmo santo propsito de libertar do jugo dos infiis a terra que outrora consagrara a presena do Filho
do Homem.  preciso convir aqui que se, em qualquer outra circunstncia, a espcie de homenagem que prestavam ao rei tantos guerreiros que no lhe deviam naturalmente
nenhuma vassalagem, tinha algo de humilhante, no entanto, a natureza e a causa desta guerra dependiam tanto do seu carcter cavalheiresco e dos feitos de armas que
lhe tinham dado fama, que todos esqueciam as pretenses que teriam podido fazer valer noutro lugar; e o bravo prestava voluntariamente homenagem ao mais bravo, numa
expedio cujo xito exigia a perseverana e a energia da maior coragem.
Ricardo, montado no seu corcel, estava mais ou menos a meia escosta do monte So Jorge, tendo na cabea apenas um elmo rematado por uma coroa, que deixava a descoberto
as suas feies varonis.
288
Trazia uma tnica de veludo azul-celeste com alamares de prata e cales de seda vermelha cujas aberturas eram guarnecidas de brocado de ouro. A seu lado estava
o pretenso escravo nbio, tendo  trela o seu nobre galgo. Esta circunstncia no provocou qualquer ateno especial, porque muitos prncipes cruzados tinham escravos
negros, em imitao do esplendor brbaro dos Sarracenos. As compridas dobras da bandeira flutuavam sobre a cabea do rei, que para l levantava os olhos de quando
em quando. Esta cerimnia, que pessoalmente lhe era indiferente, parecia ser para ele de uma grande importncia, na reparao pelo insulto feito ao reino que governava.
Numa tribuna de madeira, construda expressamente na elevao, estava a rainha Berangre, com as principais damas da Corte. O rei levantava tambm os olhos para
esse lado, e fixava-os por vezes no escravo nbio e no co, mas somente quando via avanar chefes que diversas circunstncias anteriores o levavam a considerar como
seus inimigos e que, por conseguinte, suspeitava poderem ser os autores ou os cobardes cmplices do roubo da sua bandeira.
No pensou em deitar um olhar para esse lado quando Filipe Augusto chegou  cabea de uma brilhante tropa de cavaleiros franceses. Pelo contrrio, antecipando os
movimentos desse prncipe, desceu a montanha enquanto o rei de Frana a escalava de modo que se encontraram a meio caminho; saudaram-se com tanta graa e cortesia
que pareciam unidos pelos laos de uma fraterna igualdade. O espectculo dos dois maiores monarcas da Europa crist declarando publicamente a sua concrdia fez partir
de todas as fileiras do exrcito aclamaes ruidosas, que ressoaram a vrias milhas de distncia, a tal ponto que as vedetas rabes do deserto foram lanar o alarme
no acampamento de Saladino, espalharam notcia de que o exrcito cristo se punha em movimento. No entanto, quem pode ler nos coraes dos monarcas, com excepo
do rei dos reis? Sob esta aparncia exterior de amigvel cortesia, Ricardo alimentava um secreto descontentamento contra Filipe, e Filipe projectava retirar-se com
as suas tropas do exrcito dos cruzados, para deixar Ricardo sem outra assistncia alm das suas prprias foras.
A conduta de Ricardo foi completamente diferente quando os cavaleiros do Templo, cobertos com as suas negras armas, se aproximaram com os seus escudeiros, homens
a quem o sol da Palestina
289
queimara a tez como a dos asiticos, e cujos corcis eclipsavam pela sua excelncia e pelo esplendor dos seus arreios os da cavalaria de Frana e de Inglaterra.
O rei lanou um olhar furtivo ao escravo e ao galgo; mas o nbio estava calmo e tranquilo e o fiel co, deitado a seus ps, parecia olhar com satisfao e inteligncia
os guerreiros que desfilavam. Ricardo voltou ento os olhos para os cavaleiros Templrios, e o gro-mestre, aproveitando o seu carcter misto, deu-lhe a bno de
padre em lugar da saudao de um guerreiro.
- O orgulhoso anfbio permite-se ares de monge comigo disse Ricardo ao conde de Salisbury. - Ah! eis o nosso valoroso adversrio, o arquiduque da ustria. Repara
no seu porte e nas suas maneiras, Longa Espada; e tu, nbio, faz com que o co o veja bem. Pelo cu! fez-se acompanhar pelos seus bufes.
com efeito, fosse por hbito ou para exprimir o seu desprezo pelo cerimonial a que se ia submeter, Leopoldo fazia-se acompanhar pelo seu spritchsprecher e pelo seu
bobo, e assobiava por entre dentes, para se dar ares de indiferente, embora as suas feies exprimissem um misto de mau humor e de receio.
Enquanto o arquiduque fazia a contragosto, e com um ar sombrio e embaraado, a saudao que a etiqueta exigia, o spruchsprecher sacudiu o seu basto, e proclamou,
no tom de um arauto, que Leopoldo, arquiduque da ustria, ao agir deste modo, no devia ser considerado como tendo renunciado  categoria e aos privilgios de prncipe
soberano. O bobo respondeu a isto com um "amem", pronunciado em voz sonora e que fez rir todos os que o ouviram.
O rei Ricardo olhou mais de uma vez o nbio e o seu co. O escravo permanecia imvel e o animal conservava a mesma atitude. Ricardo, dirigindo a palavra ao primeiro,
disse-lhe:
- Meu amigo preto, embora tenhas trazido o teu co para que a tua sagacidade fosse auxiliada pela dele, creio que o sucesso que obtiveres nesta empresa no te ir
colocar num lugar de destaque entre os feiticeiros, nem aumentar o teu mrito a nossos olhos.
O pretenso nbio no respondeu, segundo o costume, seno por uma respeitosa saudao.
A seguir chegaram as tropas do marqus de Montserrat, em boa ordem. Este prncipe, poderoso e astuto, para fazer maior alarde das
290
suas legies, dividira-as em dois corpos; pusera o seu irmo Enguerrand  cabea do primeiro, composto pelos seus vassalos, soldados tirados dos seus domnios da
Sria, e marchava ele prprio conduzindo o segundo, que consistia em mil e duzentos estradiotas, espcie de cavalaria ligeira tirados pelos venezianos das suas possesses
na Dalmcia, e que tinham posto sob as ordens do marqus, com o qual a Repblica de Veneza mantinha estreitos laos. Estas tropas eram muito teis nas escaramuas
contra os rabes, embora pouco prprias a figurar numa luta com os homens de armas cobertos de ferro, vindos do Norte e do Ocidente da Europa.
A cabea desta bela tropa marchava Conrado, envergando um traje de tecido to rico que parecia cintilar de oiro e prata. O seu penacho, composto de plumas brancas,
parecia querer elevar-se at s nuvens. O nobre corcel que montava dava provas de ardor e vivacidade que teriam embaraado um cavaleiro menos experiente; mas, guiando-o
graciosamente com uma das mos, segurava na outra o basto do comando, que parecia exercer uma autoridade absoluta sobre os soldados. Esta autoridade era no entanto
mais aparente do que real, pois que se via ao lado dele, sobre um palafrm marchando a passo, um velhote inteiramente vestido de negro, com um ar insignificante
e quase ignbil no meio do brilho e do esplendor que o rodeavam. Mas este velho era um dos delegados que o governo de Veneza enviara aos acampamentos para vigiar
a conduta dos generais aos quais confiava a direco das suas tropas.
Conrado, que ao prestar-se aos caprichos de Ricardo adquirira um certo grau de simpatia junto dele, assim que apareceu no sop do monte de So Jorge logo o rei de
Inglaterra deu alguns passos ao seu encontro, exclamando:
- Ah! marqus de Montserrat, eis-te  cabea dos ligeiros estradiotas e seguido como de costume pela tua sombra negra, quer o sol brilhe quer no. No poderamos
perguntar-te se  o corpo ou a sombra quem comanda estas tropas?
O marqus sorria, antes de responder, quando Roswall, soltando um uivo selvagem, se lanou com tanta fria que arrancou a trela das mos do nbio, saltou sobre o
nobre corcel do marqus e, agarrando Conrado pela garganta, o derrubou. O capacete de penacho caiu na areia e o cavalo assustado fugiu atravs da fileiras.
291
- O teu co encontrou a pista! - disse Ricardo ao nbio. No se enganou, garanto-o. Por So Jorge! Chama-o, seno estrangula Conrado!
Entretanto, uma multido considervel amontoara-se ao p do monte de So Jorge; compunha-se principalmente por oficiais dos estradiotas e outros partidrios do marqus,
que ao ver o seu chefe derrubado, de olhos esgaseados e a cara virada para o cu, soltaram gritos tumultuosos que se ouviram repetir por todos os lados: "Cortem
aos bocados esse escravo e o seu co!"
Mas a voz sonora de Ricardo sobreps-se a todas as outras:
- Morte a quem quer que se atreva a tocar neste co! - bradou ele. - Cumpriu apenas o seu dever servindo-se da sagacidade com que Deus e a natureza o dotaram. Que
esse traidor avance! Conrado, marqus de Montserrat, acuso-te de traio!
Os principais oficiais srios rodearam ento Conrado, que exclamou numa voz que anunciava um misto de despeito, vergonha, contuso e clera:
- Que quer isto dizer? De que me acusam? Porqu este tratamento indigno e estes termos injuriosos? Sero estes os frutos da concrdia de que o rei de Inglaterra
renovou o voto to recentemente?
- Os prncipes cruzados tornaram-se lebres ou cabritos aos olhos do rei Ricardo, para que solte os ces contra ele? - perguntou a voz sepulcral do gro-mestre dos
Templrios.
- No pode deixar de ser qualquer acidente imprevisto, qualquer mal-entendido - disse o rei de Frana, que chegava nesse momento.
- Qualquer armadilha do inimigo dos homens - disse o arcebispo de Tyr.
- Ou algum estratagema dos sarracenos - acrescentou o conde de Champagne. - O co devia ser enforcado e o escravo torturado.
- Que ningum lhes toque se tm amor  vida! - bradou Ricardo. - Conrado, avana se te atreves e responde  acusao que o nobre instinto deste animal acaba de levantar
contra ti, por teres atentado contra a sua vida e insultado a honra de Inglaterra.
- No fui eu que toquei na bandeira - disse o marqus precipitadamente.
292
- Tu prprio te denunciaste, Conrado - exclamou Ricardo. Como havias de saber que se trata do roubo da bandeira se a tua conscincia no te acusasse?
- No foi apenas por isso que fizeste tanto barulho em todo o acampamento? - respondeu o marqus. - Atreves-te a imputar a um prncipe, e um aliado, um crime que
provavelmente foi cometido por qualquer bandido obscuro para se apoderar do galo de ouro que ornamentava o estandarte? Querias acusar um dos teus confederados por
causa do testemunho de um co?
O alarme e o tumulto comeavam a espalhar-se em todas as fileiras e o rei Filipe achou que era tempo de intervir:
- Prncipes e nobres chefes - disse - falais em presena de pessoas que se mataro umas s outras se vos ouvirem falar assim. Em nome do Cu, que cada um de ns
conduza as suas tropas para os respectivos quartis e reunamo-nos dentro de uma hora no pavilho do conselho, a fim de tomar medidas para restabelecer a ordem.
- Consinto - respondeu Ricardo - embora tivesse preferido interrogar este traidor enquanto o seu brilhante traje est ainda sujo de areia. Mas a vontade de Filipe
ser tambm a nossa, nesta ocasio.
Os prncipes separaram-se imediatamente, como o rei da Frana acabava de propor; cada um deles se foi colocar  cabea das suas lorpas e em breve todos os grupos
se puseram em movimento; viram-nos atravessar o acampamento em diferentes direces, cada qual para o seu aquartelamento.
Esta medida evitou qualquer acto imediato de violncia, mas o incidente ocupava todos os espritos: enquanto os ingleses, julgando estar a honra do seu pas interessada
nesta querela, olhavam os dos outros pases como estando mesquinhamente ciumentos da glria da Inglaterra e do nome do seu rei, aqueles que nessa mesma manh tinham
proclamado Ricardo como o guerreiro mais digno de ter o comando geral de todo o exrcito, retomavam os seus antigos agravos e acusavam-no de um esprito orgulhoso
e dominador.
Boatos de toda a espcie foram espalhados nesta ocasio: asseguraram at que a rainha Berangre e as damas do seu squito tinham
293
ficado assustadas pelo tumulto que tivera lugar e que uma delas desmaiara.
O Conselho reuniu-se  hora combinada. Conrado abandonara o fato manchado e simultaneamente refizera-se da vergonha e da confuso provocadas por um to estranho
acidente e uma acusao to sbita.
Entrou no pavilho do Conselho acompanhado pelo arquiduque, pelos dois gros-mestres da Ordem do Templo e de S. Joo de Jerusalm, e por vrios outros prncipes
que sustentavam abertamente a sua causa e tomavam a sua defesa, uns por motivos polticos, outros por dio pessoal contra Ricardo.
Esta aparente coligao a favor de Conrado, de modo nenhum desconcertou o rei de Inglaterra. Entrou na sala do Conselho com o seu habitual ar de indiferena, e lanou
um olhar negligente e quase desdenhoso aos prncipes que se tinham colocado, com estudada afectao,  volta do marqus, como para anunciar que abraavam a sua causa.
Desassombradamente acusou Conrado de Montserrat de ter roubado a bandeira real de Inglaterra e de ter ferido o fiel animal que tomara a sua defesa.
Conrado levantou-se afoitamente e respondeu que, a despeito de homens e brutos, reis e ces, estava inocente do crime de que era acusado.
- Meu irmo de Inglaterra - disse o rei Filipe, que assumiu o carcter de presidente da assembleia - esta acusao  extraordinria. No vos ouvimos declarar de
que o feito em questo  do vosso conhecimento pessoal; a vossa suspeita  fundada apenas no ataque dirigido contra o marqus de Montserrat por um vil animal. Decerto
que a palavra de um cavaleiro, de um prncipe, deve ter mais peso do que os latidos de um co.
- Real irmo - respondeu Ricardo - lembrai-vos de que o Todo-Poderoso, ao dar-nos o co por companheiro dos nossos prazeres e das nossas fadigas, dotou-o com uma
natureza nobre e incapaz de enganar. Este animal no esquece, nem o seu amigo nem o seu inimigo. Tem uma parcela da inteligncia do homem, mas no tem nada da sua
venalidade. Poder-se- corromper um soldado para fazer dele um assassino ou uma falsa testemunha para conduzir um inocente ao cadafalso, mas nunca se conseguir
induzir um co a
294
atacar o seu benfeitor. Ele  o amigo do homem, a no ser quando o homem incorre justamente na sua inimizade. Cobri este marqus com as mais esplndidas vestes,
disfarai a sua aparncia, modificai a sua tez por meio de drogas e de tintas, escondei-o no meio de cem homens e aposto o meu ceptro em como este co o descobrir
e lhe mostrar o seu ressentimento como j o vistes fazer hoje. Este incidente no  novo, embora seja estranho; bandidos e assassinos foram j acusados e condenados
com semelhantes testemunhos, e dizem que se reconheceu a o dedo de Deus. No vosso prprio pas, meu irmo, um assunto semelhante foi decidido por um combate solene
entre o homem e o co. O co saiu vitorioso, o homem confessou o seu crime e foi punido de morte. Acreditai-me, meu irmo, as ms aces secretas foram muitas vezes
postas a nu pelo testemunho de coisas inanimadas, para no falar no de outros animais que, pelo seu instinto e a sua sagacidade, esto muito abaixo do co, amigo
e companheiro da nossa raa.
- Sei, meu irmo - respondeu Filipe - que um combate semelhante teve lugar no reino de um dos nossos predecessores; mas foi num tempo j muito afastado de ns e
no consideramos esse exemplo como aplicvel ao caso de que se trata. Alm disso, o acusado era ento um indivduo de condio e nascimento obscuro; no tinha por
armas ofensivas seno um cajado, por armadura seno um colete de couro. No podemos degradar um prncipe obrigando-o a semelhante combate e com tais armas.
- Nunca pedi isso - disse Ricardo. - Seria injusto arriscar a vida deste nobre co contra a de um traidor dissimulado como  Conrado. Mas eis a nossa luva; desafiamo-lo
para um combate em virtude do testemunho levantado contra ele. Um rei, ao menos, pode ser digno de se medir com um marqus.
Conrado no se apressou a levantar a luva que Ricardo lanou para o meio da assembleia, e Filipe teve tempo para replicar antes que o marqus tivesse feito um movimento
para apanhar o penhor do combate.
- Um rei - disse - seria um adversrio to superior ao marqus quanto um co lhe seria inferior. Rei Ricardo, no podemos consentir este combate. Sois o chefe desta
nossa expedio, a espada e o escudo da cristandade.
295
- Protesto contra um tal combate - disse o embaixador veneziano - at que Ricardo reembolse os cinquenta mil besantes que deve  Repblica. Bem basta corrermos o
risco de perder esta soma se ele sucumbir s mos dos infiis, quanto mais sujeitarmo-nos a v-lo perder a vida numa querela contra um cristo, por causa de um co
e de uma bandeira.
- E eu - disse Guilherme Longa-Espada, conde de Salisbury
- protesto por minha vez contra um combate que poria em perigo, por semelhante causa, uma vida que pertence ao povo ingls. Eis a luva, meu nobre irmo; retomai-a
e fazei de conta que o vento vo-la fez cair das mos. A minha substitu-la-; o filho de um rei, embora o seu braso seja cortado pela barra da bastardia, vale pelo
menos tanto como este marqus bonifrate.
- Prncipes e nobres chefes - disse Conrado - de modo nenhum aceitarei o desafio do rei Ricardo. Escolhemo-lo para chefe contra os sarracenos; e se a sua conscincia
pode responder  acusao e desafiar um aliado por uma querela to frvola, a minha no pode suportar a censura de aceitar este cartel. Mas, quanto ao seu irmo
bastardo, Guilherme de Woodstock, ou a qualquer outro que ousar sustentar a verdade desta falsa acusao e declarar-se dela campeo, defenderei a minha honra contra
ele na lia e provarei que quem quer que me ataque  um caluniador.
- O marqus de Montserrat - disse o arcebispo de Tyr - falou como homem sbio e moderado, e parece-me que sem desonra para ambas as partes, este assunto pode ficar
por aqui.
- Creio que poderia terminar assim - disse Filipe - se o rei Ricardo se quiser desdizer da sua acusao, como estando apoiado em indcios demasiado ligeiros.
- Rei de Frana - respondeu Corao de Leo - as minhas palavras no faro nunca uma tal injria aos meus pensamentos. Acusei Conrado de se ter aproveitado, como
um bandido, da sombra da noite para atacar e roubar o emblema da dignidade da Inglaterra. Repito esta acusao, que creio fundamentada na verdade; e j que Conrado
recusa combater contra mim, encontrarei um campeo para sustentar a minha querela, no dia que for fixado para a resolver: porque a tua longa espada, Guilherme, no
deve ver o dia por esta causa, sem a nossa permisso especial.
296
- J que a minha condio me torna rbitro nesta malfadada questo - disse o rei Filipe - fixo o quinto dia a contar deste paru decidir pela via do combate, segundo
as regras da cavalaria; devendo Ricardo, rei de Inglaterra aparecer como acusador, e Conrado, marqus de Montserrat, como acusado. Confesso, no entanto, no saber
onde encontrar um terreno neutro para resolver esta querela; visto o combate no poder ter lugar na vizinhana do acompamento, onde os soldados poderiam querer tomar
partido por cada um dos combatentes.
- Pois bem - disse Ricardo - podemos apelar para a generosidade do bravo Saladino. Embora pago, nunca conheci um cavaleiro dotado de maior nobreza e na boa-f do
qual nos possamos fiar mais seguramente. Falo assim para os que vem dificuldades neste assunto, porque, para mim, encontro um campo fechado onde quer que encontre
um inimigo.
- Seja! - concordou Filipe. - Daremos a conhecer este assunto ao sulto, conquanto isso seja mostrar a um inimigo o infeliz esprito de discrdia que quereramos
esconder a ns prprios, se tal fosse possvel. Enquanto esperamos, encerro a sesso e recomendo-vos a todos, como cristos e como cavaleiros, que no deixeis que
esta aborrecida querela faa mais barulho no acampamento, mas considerai-a solenemente remetida ao julgamento de Deus, e suplicai-lhe para conceder a vitria quele
que combater pela verdade. Que seja feita a sua vontade!
- Amem! Amem! -. exclamaram, de todos os lados.
- Conrado - disse em voz baixa o gro-mestre dos Templrios, ao marqus, enquanto os prncipes se retiravam - no acrescentaras tu a esta palavra uma prece para
seres libertado do poder do co. como diz Psalmista?
- Cala-te - respondeu Conrado. - H no ar um demnio revelador que poderia relatar, entre outras coisas, at que ponto possuis o esprito da divisa da tua ordem,
"Feriatur leo." Aguentars bravamente o choque?
- No duvides. No ficaria muito encantado por encontrar o
brao de ferro de Ricardo, e no coro ao confessar que no estou
oferecido de ficar dispensado de o combater; mas entre todos os
297
que esto sob as suas ordens, incluindo o irmo bastardo, no existe ningum que eu receie.
- Apraz-me ver a tua confiana; e, neste caso, os dentes de um co contriburam mais para dissolver esta liga de prncipes de que todos os teus ardis ou o punhal
do Charegista. No vs que, apesar da sua fronte coberta por uma pretensa nuvem, Filipe no pode esconder a satisfao que lhe causa a perspectiva de ficar liberto
do pesado jugo desta aliana? Olha para Hentique de Champagne; um sorriso aflora-lhe aos lbios. E o arquiduque da ustria! Sufoca de alegria, ao pensar que a sua
querela vai ser vingada sem correr qualquer risco, sem fazer qualquer esforo; mas chiu!... ele a vem...
- Que aborrecimento, nobre arquiduque, que semelhante brecha seja feita nas muralhas do nosso Sio.
- Se falais desta cruzada - respondeu o arquiduque - gostaria que essa muralha casse em runas e que estivesse cada um de ns em sua casa. Falo-vos confidencialmente.
- Mas - disse o marqus de Montserrat - pensai que esta brecha foi praticada pelas mos do rei Ricardo, pelo bel-prazer do qual suportamos tantas coisas, ao qual
nos submetemos como escravos a um amo, na esperana de que exercesse o seu valor contra os nossos inimigos em lugar de o empregar contra os nossos amigos.
- No vejo que ele tenha mais valor do que qualquer outro respondeu o arquiduque - creio que, se o nobre marqus o tivesse combatido em campo fechado, todas as vantagens
teriam estado de seu lado; porque este monarca insular tenha o brao pesado quando deixa cair a sua maa-de-armas, no  to forte a manejar a lana. Eu prprio
no teria receado fazer-lhe frente em campo fechado quando da nossa ltima querela, se o bem da cristandade tivesse permitido o combate entre dois prncipes soberanos.
Se o desejais, nobre marqus, serei o vosso padrinho na lia.
- E eu tambm - disse o gro-mestre.
- Venham ento tomar a vossa refeio do meio-dia na minha tenda, nobres senhores - disse o arquiduque.
E, seguidamente, retiraram-se os trs juntos.
- Que dizia o nosso patro a estas duas grandes personagens? -
298
perguntou Jonas Schwanker ao seu companheiro, o spruchsprecher, que tomara a liberdade de avanar para junto do amo durante a conversa que acabamos de relatar, enquanto
o bobo ficara a uma distncia mais respeitosa.
- Servidor da loucura - respondeu o spruchsprecher - modera a tua curiosidade; no convm que te diga os segredos do nosso amo.
- Enganas-te, homem de sabedoria - respondeu o hoffnarr. Andamos ambos constantemente atrs do nosso amo e importa-nos igualmente saber qual de ns, sabedoria ou
loucura, tem mais influncia sobre ele.
- Disse ao marqus e ao gro-mestre que estava farto desta guerra e que ficaria encantado por se encontrar em casa, so e salvo.
- Se  sabedoria pens-lo,  loucura diz-lo - exclamou o bobo. - Continua.
- Hum! Disse-lhes seguidamente que Ricardo no era mais valente do que qualquer outro e que no era muito hbil a manejar a lana.
- Pelo meu ceptro,  loucura insigne! E que mais?
- A minha memria no  muito fiel; mas sei que os convidou a beber um copo de nierenstein.
- H a uma aparncia de sabedoria, e podes lev-la  tua conta por agora. Mas se beber demasiado, como  muito provvel, marc-la-ei a meu favor. H mais alguma
coisa?
- Nada que merea ser relatado. Ah, disse que lamentava no ter aproveitado a ocasio para combater Ricardo em campo fechado.
- Irra! - bradou Jonas Schwanker. -  rematada loucura; e estou quase envergonhado por ganhar a partida por tal meio. No entanto, por muito louco que o nosso amo
seja, vamos ter com ele, sbio spruchsprecher, a fim de ter a nossa parte do bom vinho de "ierenstein.
299

CAPITULO XXV
Queixas-te da minha inconstncia; Tu prpria a aprovars. Em mim o amar teria menos influncia Se a honra sobre ele no triunfasse. "
Versos de MONTROSE
QUANDO Ricardo regressou  sua tenda ordenou que trouxessem o nbio  sua presena. Este entrou saudando o rei com o cerimonial do costume e ficou de p diante do
monarca, na atitude de um escravo que espera as ordens do amo; foi talvez afortunado para ele ser obrigado, para bem desempenhar o seu papel, a ter os olhos humildemente
baixados; pois que, se tivesse encontrado o olhar penetrante que Ricardo fixou sobre ele, ter-lhe-ia sido difcil manter a sua personagem de emprstimo.
- s um bom caador - disse-lhe Ricardo, por fim. - Desalojaste a tua caa e perseguiste-a to bem como se o prprio Tristo 1 te tivesse dado lies. Mas  preciso
acabar com ela. No me desagradaria ser eu prprio a levantar a minha lana nesta ocasio, mas parece que certas convenincias o impedem. Vais regressar ao acampamento
do sulto, portador de uma carta a fim de lhe pedir que nos conceda um terreno para a estabelecer o campo de combate
1 Uma tradio geralmente espalhada, atribua a Sir Tristo, clebre pelo seu amor a bela rainha Isolda. as leis respeitantes ao exerccio da caa ou da arte venatria
como era chamada; dava-se a isso muita importncia durante a Idade Mdia.
301
e que se junte a ns para ser o espectador se tal for do seu agrado. Agora, falando somente por conjectura, pensmos que poderias encontrar no seu acampamento qualquer
cavaleiro que, por amor pela verdade e para adquirir uma nova glria, se encarregasse de combater o traidor Montserrat.
O nbio levantou os olhos e fixou-os no rei; ergueu-os em seguida ao Cu com um reconhecimento to solene, que Ricardo viu a brilhar uma lgrima; baixando ento
a cabea, como que para anunciar que faria o que o rei desejava, retomou a sua habitual atitude de atenta submisso:
- Pois bem - disse o rei. - Vejo que desejas servir-me neste assunto; devo dizer que  nisso que consiste a excelncia de um servidor como tu, que no pode tomar
a palavra nem para discutir as nossas ordens nem para pedir a explicao dos nossos projectos. Um dos meus servidores ingleses, no teu lugar, ter-me-ia aborrecido
 fora de me aconselhar para encarregar deste combate qualquer boa lana da minha casa; porque, desde o meu irmo Longa-Espada at ao ltimo de entre eles, todos
esto ansiosos por se bater pela minha causa. Um francs tagarela teria arranjado mil maneiras para procurar descobrir por que razo procuro um campeo no acampamento
dos infiis. Mas tu, agente silencioso do teu rei, podes executar as minhas ordens sem fazer perguntas, e mesmo sem as compreender, pois "ouvir  obedecer" 1
O escravo respondeu a estas observaes inclinando apenas a cabea respeitosamente.
- Agora falemos de outra coisa - disse o rei subitamente em tom mais brusco. - Viste Edith Plantageneta?
O mudo levantou a cabea como para falar, os lbios fizeram at o movimento que teria sido necessrio para pronunciar uma negativa; mas no fizeram ouvir seno o
murmrio indistinto, prprio dos desafortunados privados da faculdade da fala.
- Ora vejam - exclamou o rei - como s o nome de uma princesa de sangue real e de uma beleza to rara como a nossa
1 Estas palavras so uma espcie de frmula com que o escravo do Oriente responde ao amo para lhe dizer que vai ser servido segundo o seu desejo.
302
amvel prima, parece ter tido quase o poder de restituir a fala a um mudo! Que milagre no poderiam ento fazer os seus olhos! Faamos a experincia, amigo escravo;
vers esta beleza na nossa Corte e cumprirs a misso que te deu o nobre sulto.
Mais um olhar de satisfaor mais uma genuflexo; mas quando o nbio se levantou, o rei apoiou-lhe fortemente a mo no ombro e disse-lhe, em tom severo:
- Advirto-te porm de uma coisa, meu negro mensageiro. Mesmo que aquela que vais ver conseguisse, por uma influncia misteriosa, soltar esta lngua actualmente aprisionada
entre as paredes de marfim do teu palcio, como o disse o bravo sulto, toma muito cuidado para no perderes o teu carcter taciturno, nem pronunciar uma s palavra
na sua presena; porque garanto-te que te faria arrancar a lngua e que no deixaria pedra sobre pedra do teu palcio de marfim, o que quer dizer, creio eu, em lngua
franca, que te mandaria tirar todos os dentes. S pois prudente e silencioso.
Ricardo retirou a mo que apoiava no ombro do nbio e este levou as mos aos lbios em sinal de obedincia e silncio.
O rei ps-lhe uma segunda vez a mo no ombro, mas sem a apoiar to fortemente, e acrescentou:
- Falamos-te, amigo, como a um escravo. Se fosses um gentil-homem ou um cavaleiro, apenas te pediramos a tua palavra de honra para guardar silncio; condio da
licena que te concedemos.
O nbio ergueu-se com um ar de altivez, olhou o rei de frente e colocou a sua mo sobre o corao. Ricardo chamou ento o seu camarista:
- Nivelle - disse-lhe - conduz este escravo  tenda da nossa esposa, a quem dirs que a nossa vontade  que obtenha uma audincia particular da nossa prima Edith;
tem uma misso a desempenhar junto dela. Mostrar-lhe-s o caminho, se por acaso tiver necessidade; pois deves ter reparado como conhece j maravilhosamente toda
a disposio do nosso acampamento. E tu, amigo negro, faz depressa o que tens a fazer, e volta daqui a meia hora.
"Estou descoberto - pensou o pretenso nbio. - O rei Ricardo r''econheceu-me no meu disfarce; e no entanto o seu ressentimento contra mim no me parece muito vivo.
Se bem compreendi, as suas
303
palavras, e  impossvel ter-me enganado, oferece-me uma nobre oportunidade para reparar a minha honra combatendo esse prfido marqus. Vi a prova do seu crime nos
olhares consternados e nos lbios trmulos, quando Ricardo o acusou. Roswall, serviste fielmente o teu amo e aquele que te quis dar a morte vai-me pagar caro. Mas
que significa a permisso que Ricardo acaba de me conceder para ver aquela que j desesperara de alguma vez tornar a ver? Por que razo consente Ricardo Plantageneta
que me apresente diante da sua divina parente, seja como mensageiro do pago Saladino, seja como culpado que to recentemente baniu do seu acampamento? Que Ricardo
consinta que ela receba uma carta de um apaixonado muulmano e que a receba das mos de um outro apaixonado de condio to inferior, so duas circunstncias igualmente
incrveis e que no se podem conciliar. Mas Ricardo, quando no est agitado, pelas suas paixes tumultuosas,  liberal, generoso, verdadeiramente nobre e eu agirei
de acordo com o seu carcter; seguirei as suas instrues sem procurar conhecer os motivos."
"E no entanto - pensou ainda, cheio de altivez - Corao de Leo, como lhe chamam, teria podido medir os sentimentos dos outros pelos seus. Mandar-me apresentar
diante da sua parente, a mim que no lhe dirigi uma s palavra quando ela me entregou o prmio de um torneio, procurar aproximar-me dela sob a libr da servido,
quando mais no sou na verdade do que um miservel escravo, quando o meu escudo est manchado! Eu, agir assim! Conheo-me bem pouco! Agradeo-lhe, no entanto, ter-me
proporcionado uma ocasio que pode fazer com que nos conheamos todos melhor."
Discorria deste modo quando Neville e ele pararam diante do pavilho da rainha.
Os guardas deixaram-nos entrar sem dificuldade e Neville, abandonando o nbio numa pequena antecmara, passou para o compartimento que servia de sala de audincia.
Comunicou a Berangre as ordens do rei em tom baixo e respeitoso, muito diferente da brusquido de Thomas de Vaux, para quem Ricardo era tudo e o resto da corte,
incluindo a prpria rainha, nada era. Ouviu-se uma grande gargalhada e uma voz de mulher, em que era fcil reconhecer a de Berangre, perguntou:
304
- E que tal  esse escravo da Nbia que chega como embaixador do sulto? No  um negro, Neville, com a pele escura, os cabelos encarapinhados como a l de um carneiro,
o nariz chato e grossos lbios? Ah! ah! ah! No  assim, Sir Neville?
- Que Vossa Majestade no se esquea - disse numa outra voz
- das suas pernas arqueadas como uma cimitarra sarracena.
- Ou antes como o arco de Cupido - disse a rainha - pois que vem encarregado de uma mensagem amorosa. Meu bom Neville, s sempre complacente para pobres mulheres
que no sabem que fazer do seu tempo;  preciso que vejamos esse mensageiro de amor. Vi muitos turcos e mouros, mas nunca vi um negro.
- Nasci para obedecer s ordens de Vossa Majestade - respondeu o indulgente cavaleiro - desde que se encarregue de me desculpar perante o rei. Contudo, permiti-me
assegurar-vos que o que ireis ver de modo nenhum corresponder  vossa expectativa.
- Tanto melhor - disse Berangre. - Deve ser ainda mais feio do que imaginamos, mas apesar disso foi escolhido pelo galante sulto para ser correio amoroso!
- Senhora - disse Lady Caliste - permiti-me suplicar a Vossa Majestade que consinta que este bom cavaleiro conduza directamente o mensageiro a Lady Edith, a quem
as suas cartas so dirigidas; pensai que ainda recentemente escapmos aos efeitos de uma brincadeira semelhante.
- Escapar, dizes tu! - repetiu a rainha, com desdm. - No entanto o teu conselho pode ser prudente, Caliste. Que esse nbio, como lhe chamam, se desempenhe primeiro
da sua misso perante a nossa prima Edith. Alis, no dizeis que ele  mudo, Neville?
- Sim, real senhora - respondeu o cavaleiro.
- Estas damas do Oriente so muito felizes! - disse Berangre.
- So servidas por pessoas diante das quais podem dizer tudo, pois no podem repetir nada, ao passo que no nosso acampamento, como costuma dizer o prelado de So
Judas, mal ns falamos at os passarinhos repetem o que ouviram.
- Vossa Majestade esquece que fala entre paredes de lona disse Neville.
Esta observao fez com que baixassem a voz e, aps alguns instantes de conversa em tom mais baixo, o cavaleiro ingls foi ter
305
com o escravo negro e fez-lhe sinal para o seguir; o nbio obedeceu e Neville conduziu-o a um pequeno pavilho contguo ao da rainha. Uma das escravas coplas recebeu
a mensagem que lhe comunicou Sir Henry Neville: ao cabo de trs minutos, o nbio foi levado  presena de Edith, e Neville ficou fora da tenda.
O escravo que trouxera o nbio retirou-se a um sinal feito pela ama e foi com todos os sinais de uma humilhao sincera que o infeliz cavaleiro, to estranhamente
disfarado, ps um joelho em terra, com os olhos baixos, os braos cruzados sobre o peito, como um criminoso que espera a sua sentena. Edith estava vestida tal
como quando recebera o rei Ricardo, o seu grande vu negro transparente caindo sobre as suas formas elegantes como a sombra de uma noite de Vero. Tinha na mo uma
lamparina de prata.
Cuando chegou a um passo do escravo ajoelhado e imvel, aproximou-lhe a luz da cara, como para melhor examinar as suas feies; afastando-se em seguida, colocou
a lamparina de modo que a sombra da figura do nbio se desenhasse sobre a lona da tenda. Dirigiu-lhe ento a palavra numa voz doce e tranquila, mas profundamente
melanclica:
- Sois ento vs, bravo Cavaleiro do Leopardo, valoroso Sir Kenneth da Esccia? Sois na verdade vs, sob esse disfarce servil, rodeado de mil perigos?
Ao ouvir a voz da sua dama, que lhe falava de um modo to inesperado e num tom de compaixo quase prximo da ternura, os lbios do cavaleiro entreabriram-se para
lhe responder; e foram as ordens de Ricardo e a promessa que lhe fizera de guardar silncio que a custo o impediram de exclamar que o que acabava de ouvir bastava
para pagar a escravido de toda a sua vida. Dominou-se, e um profundo suspiro foi a nica resposta que deu  resposta de Edith.
- Vejo e sabia que no me enganara - disse Edith. - Reparei em vs desde o instante em que aparecestes perto da plataforma onde estava com a rainha. Reconheci tambm
o vosso belo galgo. No seria digna dos servios de um cavaleiro como vs, a dama a quem uma mudana de traje e de cores pudesse esconder um fiel servidor. Falai
sem receio a Edith Plantageneta.Ela sabe como honrar na adversidade um bom cavaleiro que a serviu e honrou, depois
306
de ter praticado proezas em seu nome quando era bafejado pela fortuna. O qu? Continua silencioso!  o medo ou a vergonha que vos impede de falar? O medo no o devereis
conhecer; a vergonha deixai-a para aqueles que causaram a vossa desgraa.
O cavaleiro, desesperado por ser obrigado a representar um papel mudo numa entrevista to interessante, apenas pde exprimir a sua mortificao por novos suspiros
e colocando um dedo nos lbios, Edith recuou alguns passos, dando mostras de certo descontentamento.
- Pois qu? - disse ela. - Asitico pelo traje e ainda por cima mudo! No esperava isto. Mas talvez me desprezes por confessar to ousadamente que prestei ateno
s homenagens que me consagraste? No deves por isso fazer conceito desfavorvel de Edith, ela conhece os limites que o decoro e a modstia impem a uma donzela
de nascimento elevado, mas tambm sabe quando e at que ponto o reconhecimento lhe permite transp-los e confessar o seu desejo sincero de poder reparar as injustias
s quais um bom cavaleiro foi exposto por sua causa. Porque torces assim as mos, com esse ar de angstia? Seria possvel - acrescentou estremecendo a esta ideia
- que a sua crueldade te tivesse privado do rgo da palavra? Abanas a cabea? Pois bem, no fao mais perguntas. Desempenha a tua misso conforme entenderes. Tambm
posso ser muda.
O cavaleiro disfarado fez um gesto que parecia deplorar a sua situao e lamentar o desagrado da sua dama, aps o que apresentou a carta do sulto, envolvida em
ouro e seda, segundo o costume. Ela pegou-lhe, lanou-lhe um olhar negligente, p-la de lado e, erguendo os olhos mais uma vez para o cavaleiro, disse-lhe em voz
baixa:
- Pois nem sequer uma palavra para me transmitires da tua mensagem?
Ele apertou a cabea entre as mos como para exprimir a dor que sentia por no se encontrar em condies de lhe obedecer; mas ela afastou-se com um ar encolerizado:
- Retira-te - disse. - Falei j bastante, falei de mais para um homem que no se digna perder uma palavra para me responder. Parte e podes dizer que, se te prejudiquei,
j me penitenciei porque,
307
se fui a infeliz causa de teres abandonado um posto de honra, esqueci a minha dignidade nesta entrevista e degradei-me aos teus olhos e aos meus.
Apoiou a mo sobre os olhos e pareceu vivamente agitada. Sir Kenneth fez um movimento para se aproximar, mas ela fez um gesto para o proibir de avanar.
- No te aproximes - disse em seguida - tu a quem o Cu ajustou a alma  sua nova condio. Um ser menos medroso e menos embrutecido do que um escravo dos sarracenos
ter-me-ia ao menos dirigido uma palavra de reconhecimento, quanto mais no fosse para tornar mais suportvel o sentimento da minha degradao. Que esperas tu? Retira-te.
O cavaleiro disfarado lanou um olhar quase involuntrio  carta, como para se desculpar por ficar ainda. E Edith pegou-lhe dizendo num tom de ironia e desprezo:
- J me esquecia. O escravo submisso espera uma resposta a sua mensagem. Que quer dizer esta carta?  do sulto?
Percorreu rapidamente o seu contedo, que estava escrito em rabe e em francs, e depois de a ter lido, disse com um sorriso cheio de amargura e furor:
- Isto vai alm de tudo o que se possa imaginar! Que malabarista poderia operar uma transmutao to habilmente? Pode transformar os besantes em maravedis 1; mas
pode toda a sua arte fazer com que um cavaleiro, considerado como um dos mais valentes da santa cruzada, se torne no escravo que beija a poeira de um sulto infiel?
O portador das suas insolentes propostas a uma donzela crist? Um renegado s leis da honra da cavalaria e da relegio? Mas para qu falar com o escravo voluntrio
de um co pago? Diz ao teu amo, quando as suas varas te soltarem a lngua, o que me vais ver fazer! - atirou ao cho a carta do sulto e pisou-a. Diz-lhe - acrescentou
- que Edith Plantageneta despreza a homenagem de um sulto infiel.
Tendo assim falado, fez um movimento para se retirar, mas o cavaleiro lanando-se-lhe aos ps em grande desespero, aventurou-se a prender-lhe a fmbria do vestido,
para a reter.
1 Moeda holandesa e espanhola.
308
- No ouviste o que disse, escravo? - bradou ela, virando-se para ele e falando com nfase. - Diz ao pago teu amo que desprezo as suas ofertas tanto como as marcas
de respeito de um indigno renegado da f crist e da cavalaria, de Deus e da sua dama.
A estas palavras arrancou-lhe o vestido das mos e saiu do pavilho. Ao mesmo tempo a voz de Neville, fazendo-se ouvir do exterior, chamou o nbio. Acabrunhado e
exausto por tudo o que sofrera durante esta entrevista, que o pusera numa situao embaraosa da qual s se poderia libertar faltando  palavra dada ao rei Ricardo,
o infeliz cavaleiro seguiu quase a cambalear o baro ingls at  entrada da tenda do rei, diante da qual alguns cavaleiros acabavam de desmontar. O interior do
pavilho estava iluminado e parecia reinar a um movimento extraordinrio. Quando Neville entrou com o suposto escravo, encontraram o rei com vrios dos seus nobres,
ocupado a receber os que acabavam de chegar.
309

CAPITULO XXVI
"O meu choro jamais deixar de correr,
Porque no tem a sua nascente na ausncia.
O amante ausente pode voltar amanh,
Pois o tempo muita vez recompensa a constncia
Sobre um tmulo silencioso.
No venho verter lgrimas inteis;
Graas  morte, os amantes infelizes
So reunidos sem receio e sem alarmes.
Ela chorava, na sua dor.
Com o orgulho do seu alto nascimento,
O nome maculado, a injusta desonra
Do seu amante, guerreiro cheio de valentia."
Antiga balada 1
OUVIU-SE a voz sonora de Ricardo exclamar com um
acento de franqueza e de alegria:
- Thomas de Vaux! Meu bravo tom de Gilsland, pela cabea do rei Henrique, s bem-vindo, to bem-vindo como sempre foi uma garrafa de vinho para um amo bbado. Mal
teria sabido como dispor da minha ordem de batalha, se no tivesse a tua corpulenta figura para me servir de mira ao formar as minhas fileiras. Em breve vo chover
os golpes, Thomas, se os santos nos ajudarem; e se tivssemos combatido na tua ausncia, decerto ouviria dizer que te haviam encontrado suspenso dos ramos de alguma
rvore.
1 Traduo livre.
311
- Espero que teria suportado esse desapontamento com mais pacincia crist - disse Thomas de Vaux - do que se tivesse que perecer da morte de um apstata. Mas agradeo
a Vossa Majestade pelo seu bom acolhimento, tanto mais generoso quanto se trata de um festim de pancadaria, em que vs tendes sempre tendncia a apropriar-vos do
melhor quinho; mas trago-vos algum a quem sei que Vossa Majestade far ainda melhor acolhimento.
Aquele que avanou para saudar respeitosamente Ricardo era um rapaz de estatura baixa e franzina. O seu traje era to modesto quanto a sua pessoa era notvel; mas
trazia no bon um alfinete de ouro, guarnecido de um brilhante cujo fulgor apenas era rivalizado pelo dos seus olhos. Ao pescoo trazia suspensa, por uma fita de
seda azul-celeste, um "wrest", como ento se chamava  chave que serve para afinar uma harpa, e que era de o-yro macio.
Fez um movimento para se ajoelhar diante de Ricardo, mas o rei logo se ops e o apertou nos braos com afecto, beijando-o em ambas as faces.
- Blondel de Nesle! - exclamou alegremente. - Bem-vindo sejas, meu rei dos menestris, bem-vindo perante o rei de Inglaterra que no preza mais a sua prpria dignidade
do que a tua. Estive doente e, por minha alma, creio que a causa era a tua ausncia; pois se estivesse a meio caminho do Cu, parece-me que a tua msica teria tido
o poder de me chamar. E que novas trazes tu do pas da harpa, meu mestre? Que cantam os trovadores da Provena? Que cantam os menestris da alegre Normandia? E antes
de tudo, tens andado muito ocupado? Mas no tenho necessidade de fazer esta pergunta. No poderias estar ocioso mesmo que quisesses, os teus nobres talentos so
como o fogo interior que fora a express-lo em msica e em canes.
- Aprendi alguns "lais" 1 e fiz uns outros, nobre rei - respondeu o clebre Blondel, com uma tmida modstia, que a admirao e o entusiasmo de Ricardo nunca tinham
podido diminuir.
- Ouvir-te-emos Blondel, ouvir-te-emos imediatamente - bradou o rei. - E pondo-lhe a mo no ombro, acrescentou bondosamente. - Isto , se no ests demasiado fatigado
da tua viagem:
1 Lai  um pequeno poema medieval.
312
porque prefiro matar de cansao o meu melhor cavalo, a causar o mnimo prejuzo  tua voz.
- A minha voz est agora, como sempre, ao servio do meu real patro - respondeu Blondel. - Mas - acrescentou, olhando para os papis que estavam em cima de uma
mesa - Vossa Magestade parece estar ocupado com assuntos mais importantes, e j  tarde.
- Nem por sombras, meu caro Blondel - respondeu Ricardo.
- Nem por sombras; esboava somente um plano de batalha contra sarracenos,  coisa de um instante: quase que no necessita de mais tempo do que o preciso para os
pr em derrota.
- Parece-me no entanto - disse Thomas de Vaux - que no seria intil ver o nmero de soldados que Vossa Majestade pode arranjar para uma batalha; trago-lhe um relatrio
de Ascalon a este respeito.
- s uma mula, Thomas - exclamou o rei - uma verdadeira mula pela obstinao e a estupidez. Vamos, senhores, em crculo, coloquem-se  sua volta: dem um tamborete
a Blondel; onde est o moo com a harpa. Mas no, um momento, dai-lhe antes a minha, a sua pode ter sofrido com a viagem.
- Desejaria que Vossa Majestade se dignasse ouvir o meu relatrio - disse Sir Thomas de Vaux. - Fiz uma longa viagem e tenho mais vontade de me estender na cama
do que de me fazerem ccegas nos ouvidos.
- Fazer-te ccegas nos ouvidos! - respondeu Ricardo. - Seria antes com uma pena de galinha do que com sons harmoniosos. Diz-me, Thomas, os teus ouvidos sabem distinguir
o canto de Blondel do zurrar de um burro?
- Por minha f, sir, no sei bem que responder-vos - disse de Vaux. - Mas pondo de parte Blondel, que  nobre de nascimento e que, por conseguinte, tem indubitavelmente
grandes talentos, respondo-vos que nunca olharei um menestrel sem pensar num burro.
- Mas por cortesia - replicou Ricardo - no terias podido abrir uma excepo para mim que sou de nobre nascimento como Blondel e que, como ele, sou um confrade da
alegre cincia?
- Vossa Majestade - disse de Vaux sorrindo - deve lembrar-se de que  intil pedir cortesia a uma mula.
313
-  verdade - disse Ricardo. - E sobretudo a uma mula to mal ensinada como tu. Mas vem c, mestre mula, a fim que te alivie da tua carga e que a msica no te impea
de ires chafurdar para a tua cavalaria. Seria um desperdcio dar-te boa msica! Entretanto, meu bom irmo Salisbury, corre  tenda de Berengre e diz-lhe que Blondel
acaba de chegar com tudo o que a arte de menestrel produziu de mais recente. Convido-a a vir c imediatamente: servir-lhe-s de escolta, e cuida de que a nossa prima
Edith Plantageneta venha com ela.
Ao pronunciar estas ltimas palavras, Ricardo olhou o nbio com a expresso equvoca que a sua fisionomia tomava sempre que erguia os olhos para ele.
- Ah! - disse ele. - O nosso discreto e silencioso mensageiro est de regresso! Avana, escravo; coloca-te atrs de Neville e ouvirs sons que te faro dar graas
aos Cus por te ter tornado mudo em vez de surdo.
A estas palavras, no pensando mais no resto da assembleia, voltou-se para de Vaux, e ocupou-se com os detalhes militares que lhe deu o baro.
Quando lorde de Gilsland estava a acabar o seu relato, veio um mensageiro anunciar que a rainha e o seu squito se aproximavam da tenda real.
- Ol! uma garrafa de vinho! - bradou Ricardo. - Do velho vinho de Chipre do rei Isac, que guardamos h tanto tempo e que encontrmos ao tomarmos Famagusta. Enchei
um grande copo ao bravo lord de Gilsland, meus senhores. Nunca um prncipe teve servidor mais diligente e mais fiel.
- Fico encantado - disse Thomas de Vaux - por Vossa Majestade achar que a mula  um animal til, embora a sua voz seja menos harmoniosa do que as cordas de um instrumento.
- O qu? - disse o rei. - Ainda no digeriste esse epteto de mula? F-lo ir para baixo com um copo de vinho, Thomas, seno ficas engasgado. Muito bem! Ningum beberia
melhor. E agora dir-te-ei que s um soldado como eu e por isso temos de suportar os gracejos um do outro no salo, tal como suportamos as pancadas num torneio; e,
quanto mais forte batemos mais nos devemos estimar. Por minha f, se no bateste to fortemente como eu neste
314
ltimo encontro, pelo menos empregaste todo o teu esprito em desviar os meus golpes. Mas eis a diferena que h entre ti e Blondel: tu s apenas o meu camarada,
ou diria antes, meu discpulo na arte da guerra; Blondel  o meu mestre na cincia do canto e da msica. A ti permito certa intimidade, a ele devo-lhe respeito como
meu superior na sua arte. Vamos, Thomas, nada de amuos e fica connosco para ouvir os seus cantares.
- Para ver Vossa Majestade com to boa disposio - respondeu lorde de Gilsland - por minha f que ficaria at Blondel acabar de cantar o grande romance do rei Artur,
que dura trs dias.
- No poremos a tua pacincia a to longa prova - disse Ricardo. - Mas vejo um claro de tochas que anuncia a chegada da nossa esposa; vai receb-la, Thomas, e tenta
tornar-te simptico aos mais lindos olhos da cristandade. No te atrases e arranja com mais elegncia as pregas do teu vesturio; vs, j deixaste que Neville se
colocasse entre o vento e as velas da tua galera!
- Nunca me levou a dianteira no campo de batalha - replicou de Vaux, pouco satisfeito.
- E quem  que alguma vez a levou, meu bom tom de Gilsland
- disse o rei - a no ser talvez ns, de tempos a tempos?.
- Sim, sir - respondeu de Vaux. - Mas faamos justia ao desgraado; vi tambm algumas vezes  minha frente o desafortunado Cavaleiro do Leopardo, mas isso era porque
ele pesa menos sobre o seu cavalo, e portanto...
- Silncio! - bradou Ricardo, interrompendo-se em tom peremptrio. - Que no se pronuncie esse nome diante de mim!
Levantando-se ao mesmo tempo foi receber a esposa  porta do pavilho e apresentou-lhe em seguida Blondel como o rei dos menestris e seu mestre na alegre cincia.
Berengre, que sabia perfeitamente que a paixo de Ricardo pela poesia e a msica era quase igual  sua sede de fama guerreira, e que Blondel era o seu favorito,
teve o cuidado de o receber com todas as distines lisonjeiras devidas a um homem que o rei gostava de honrar. No entanto era evidente que, embora Blondel respondesse
convenientemente aos cumprimentos que a bela rainha lhe prodigalizou sem reserva, foi mais sensvel s maneiras graciosas de Edith, cujo acolhimento lhe pareceu
mais simples e mais sincero.
315
A rainha e o seu augusto esposo aperceberam-se igualmente desta distino e Ricardo, vendo que a esposa ficara um pouco ressentida da preferncia que sua prima obtivera,
e com a qual ele prprio tambm se no sentiu l muito satisfeito, disse suficientemente alto para ser ouvido pelas duas:
- Ns os menestris, Berengre, como podereis depreender pela conduta do nosso mestre Blondel, temos mais respeito por um juiz severo como a nossa parente, do que
por um amigo parcial que est disposto como ns a acreditar sem provas.
Edith ficou picada por seu turno com este sarcasmo e no hesitou em responder que no era a nica, na famlia dos Plantageneta, que era levada a julgar com prontido
e severidade.
E talvez a sua rplica no tivesse ficado por ali, porque ela possua algo do carcter dessa casa que, tirando o seu nome e a sua divisa de um fraco arbusto ("planta
genista"), escolhido como emblema da humanidade, era talvez uma das famlias mais orgulhosas que reinaram na Inglaterra; mas, enquanto assim falava com veemncia,
os seus olhos encontraram os do nbio, embora ele procurasse ocultar-se por trs dos nobres que estavam presentes. Ao v-lo, Edith deixou-se cair sobre uma cadeira
e tornou-se to plida, que a rainha Berengre se julgou obrigada a pedir gua e sais, como  de uso para acudir a uma dama desmaiada.
Ricardo, que sabia apreciar melhor a fora de carcter de Edith, disse a Blondel para se sentar e comear o seu "lai", acrescentando que a msica era uma receita
que valia por todas as outras para chamar  vida um Plantageneta.
- Canta-nos - disse-lhe - aquele poema da "Tnica Ensanguentada", cujo tema me contaste antes da minha partida da ilha de Chipre. Deves agora sab-lo perfeitamente
ou ento o teu arco est quebrado, como dizem os nossos arqueiros.
O olhar inquieto do menestrel continuava contudo fixado em Edith, e s quando viu reaparecer as cores nas suas faces  que obedeceu as reiteradas ordens do rei;
acompanhando-se ento com a sua harpa, de maneira a tornar a voz mais graciosa sem a abafar, cantou, como um recitativo, uma dessas antigas aventuras de amor e de
cavalaria, que eram outrora temas populares para os menestris. Logo que comeou a preludiar, a sua aparncia pouco notvel
316
transfigurou-se imediatamente, um ar inspirado animou a sua fisionomia e todas as suas feies irradiavam uma nobre emergia. Por fim, a sua voz mscula, sonora e
flexvel, encantou todos os ouvidos e penetrou em todos os coraes.
Ricardo, to alegre como depois de uma vitria, rompeu o silncio com uma citao muito a-propsito:
No salo ou no toucador. Escutai-me, nobre assistncia.
Mandou colocar em crculo os ouvintes, com o zelo de um protector das artes e de um discpulo; e, tendo pronunciado um "chiu" final, sentou-se tambm com um ar de
expectativa e de interesse, que no era destitudo da gravidade, de um crtico profissional. Os cortesos fixaram os olhos no rei, a fim de estarem prontos a imitar
todas as emoes que as suas feies pudessem exprimir, e Thomas de Vaux bocejou de maneira escandalosa, como um homem que se submete contra vontade a uma penosa
penitncia. O "lai" de Blondel era em lngua normanda, como era de esperar; mas os versos seguintes, em linguagem mais moderna, podero dar a conhecer o seu sentido.
A TNICA ENSANGUENTADA
CANTO PRIMEIRO
Junto aos muros de Benavente, a bela Quando estava o Sol no seu declnio E numerosos guerreiros com zelo se aprontavam Para " torneio da manh seguinte, Um nobre
e belo pajem da princesa A passos rpidos todo o acampamento percorria Procurando a tenda onde em servido vivia Um bravo ingls, chamado Thomas de Kent.
Para o encontrar teve contudo de fazer Um longo caminho, pois do bom cavaleiro O pavilho modesto e solitrio No brilhava seno como o ferro e ao. Ele prprio
reparava a sua couraa. A falta de
317
dinheiro para pagar os artfices So Joo e sua dama eram o auxlio eficaz Que evocava para colher um louro.
Belo cavaleiro, conheces a minha ama? Disse-lhe o pajem com ar altivo; - De Benavente sabes que  a princesa E que tu no s seno um simples cavaleiro, Que quer
transpor este intervalo imenso E atingir a altura de uma to grande rvore. Por qualquer feito de uma importncia ilustre Deve-se mostrar seu digno servidor.
Escuta pois o que diz a minha ama: A tua couraa deves despir E a tnica que serve a princesa Te proteger em vez do lorigo. Recebe de mim esta nova armadura. No
torneio combate valorosamente E bastando-lhe um olhar da tua bela Morre em glria ou vive honrosamente.
com ar sereno, to altivo como a sua ama, O cavaleiro recebe o fatal presente - Pajem, responde, diz  minha nobre dama Que obedeo ao seu primeiro sinal. Combaterei,
coberto com esta armadura Todos os campees que se apresentarem Mas se for vencedor, por sua vez sem murmurar A minha dama a qualquer prova tambm se submeter.
1
- Amigo Blondel, disse Ricardo, mudas de medidas nos dois
ltimos versos.
- Tendes razo, sir - respondeu Blondel. - Traduzi estes versos do italiano, segundo a verso de um velho menestrel que encontrei na ilha de Chipre, e no tendo
tido tempo nem de os traduzir nem de os gravar muito fielmente na memria, sou obrigado a preencher as lacunas que se encontram na msica e nos versos, to bem quanto
me  possvel, segundo a inspirao de momento; do mesmo modo que se vem os camponeses arranjar uma sebe viva com molhos de madeira morta.
- Por minha f, Blondel - volveu o rei - gosto desses alexandrinos
1 Traduo livre.
318
sonoros e bombsticos; parece-me que esta medida convm mais  msica do que a que tem duas slabas a menos.
- Vossa Majestade sabe que ambas so sancionadas pelo uso respondeu Blondel.
- Sem dvida - replicou Ricardo. - Mas agora, que vo sem dvida chover os golpes, parece-me que estes alexandrinos, retumbantes como o trovo, conviriam melhor
para descrever esta cena. Seria como uma carga de cavalaria, ao passo que a outra medida  como o andar a passo de palafrm de uma dama.
- Ser como aprouver a Vossa Majestade - disse Blondel. comeando um novo preldio.
- Primeiro, aquece a tua imaginao com um copo deste bom vinho de Chipre - disse o rei. - E, se quiseres acreditar-me, poupar-te-s ao trabalho de procurar rimas
para todos os versos e para os fazer marchar com tanta regularidade.  pr um travo ao pensamento;  assemelhar-se a um malabarista que dana com ferros nos ps.
- Pelo menos so ferros de que  fcil desembaraar-nos - respondeu Blondel, passando de novo os dedos pelas cordas da sua harpa, como homem que preferia cantar
a escutar uma crtica.
- Ento para qu mant-los? - continuou Ricardo. - Por que razo pr no teu gnio braceletes de bronze? Estou surpreendido que possas marchar assim. Estou certo
de que no seria capaz de compor uma nica dessas estrofes submetendo-me a semelhante constrangimento.
Blondel baixou os olhos e fingiu afinar a sua harpa para esconder um sorriso que se desenhou involuntariamente nas suas feies, mas que no pde escapar aos olhares
penetrantes de Ricardo:
- Por minha f, ests-te a rir de mim, Blondel! - exclamou. Mas  o que merece quem queira assumir um tom de mestre quando no passa de um discpulo. Ns, os reis,
temos o mau costume de ter uma opinio demasiado elevada de ns prprios. Mas vamos, meu caro Blondel, continua o teu "lai" e segue a medida que te convier. O que
tu cantares, valer mais de que tudo o que pudssemos sugerir-te, embora tenhamos sempre de falar.
Blondel continuou o "lai" que comeara; mas como estava habituado a compor de improviso, no deixou de se conformar com as
319
observaes do rei, e talvez mesmo no ficasse aborrecido por aproveitar uma ocasio para provar com que facilidade podia manejar versos, mesmo enquanto os declamava.
A TNICA ENSANGUENTADA
CANTO SEGUNDO
Por fim inicia-se o torneio e vem-se de uma s vez Vinte rivaix cheios de ardor disputar a vitria. Mas qual ser o fruto das suas nobres proezas? Para o vencido
o tmulo, para o vencedor a glria. Renem o sangue frio  intrepidez: Mas pelos golpes que desfere, um de entre eles os suplanta, E  o cavaleiro que no tem entra
couraa Seno uma simples veste que usou a sua dama.
Evitam-no, envergonham-se de uma luta desigual. Julgam que fui voto feito pelo cavaleiro, Mas a mais de um heri a sua bravura e fatal E muito brao levanta contra
ele o ferro assassino. O seu corpo j  apenas uma grande chaga,O seu sangue corre jorros. Testemunha o seu valor. O prncipe fez um gesto; e sem que algum discorde
Os arautos em altos gritos, o proclamam vencedor. Terminado o torneio, prepararam uma festa; Mas enquanto a princesa para brilhar se apronta, Chega um escudeiro
trazendo uma veste Que a sua dama, por seu turno, o amante destinava! Esta tnica, que lhe serviu de armadura, Coberta de suor, de poeira e de sangue, Rasgada um
bocado, em que todo o tecido, Nem um s ponto branco apresentava aos olhos.
Princesa, disse-lhe Thomas de Kent, - meu amo Trasps o intervalo, e d-vos isso a conhecer Pondo sob os vossos olhos esta veste Quem sobe  rvore deve colher dela
o fruto O sangue que vedes  o preo da sua glria! Foi demasiado por vs, e se vs por vosso lado No ousardes esta noite este fato na Corte No vosso afecto meu
amo no pode crer Apertando contra o peito a veste ensaguentada A princesa respondeu; - Sim com ela me enfeita-
320
"Nada temas, nobre arquiduque, disse Saladino."
Desenho de F. Johannot, gravado em ao por Prudhomme.
Ed. Furne-Gosselin-Perrotin, 1835.
Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

rei Perante toda a Corte ser usada;! Quando mais testemunhos tiver, mais orgulhosa estarei,Manteve a sua palavra e esse foi o traje com que se cobriu para aparecer
no banquete,Deus sabe quanto falaram, embora soubessem da aventura, Mas seu pai em breve fez calar todos os mexericos.
J que vens assim alardear a tua loucura, Este cavaleiro disse ele. teu esposo deve ser.Mas foge para longe dos meus olhos, porque a minha justa clera Para sempre
da minha Corte te declara banida,- Pois bem, disse sir Thomas, se longe de Benavente Por ordem de seu pai vive exilada,Ter ela de se envergonhar, quando toda a
Inglaterra Lhe der o nome de condessa de Kent?... 1
Fez-se ouvir um murmrio de aplausos em toda a assembleia; o prprio Ricardo deu o exemplo pelos elogios com que cumulou o seu menestrel favorito, a quem acabou
por presentear com anel de elevado preo. A rainha apressou-se a oferecer-lhe tambm um rico bracelete, e a maioria dos nobres que estavam presentes logo diligenciaram
imitar os reais esposos.
- A nossa prima Edith - disse o rei - tornou-se insensvel aos sons das harpas, que tanto amava outrora?
- Ela agradece a Blondel o seu "lai" - respondeu Edith. Mas sente mais vivamente ainda toda a bondade do parente que lhe sugeriu o tema.
- Estais zangada, prima - disse Ricardo - porque acabais de ouvir celebrar uma mulher ainda mais caprichosa que vs. Mas no vos escapeis. Reconduzir-vos-ei ao pavilho
da rainha, pois  necessrio que tenha uma conversa convosco antes que esta noite acabe.
A rainha e as damas do seu squito estavam j levantadas. Todos os senhores que estavam na tenda do rei saram um a um.
Escravos levando tochas, e uma escolta de homens de armas, esperavam Brengre  porta, para a conduzir ao seu pavilho, e ela em breve se dirigiu para l. Ricardo
ps-se ao lado de Edith, e tendo-a obrigado a apoiar-se ao seu brao, manteve-se a distncia suficiente do resto do cortejo para conversar sem correr o risco de
serem ouvidos.
321
- Ento que resposta devo eu dar ao nobre sulto? - disse Ricardo. - Os reis e os prncipes vo-me abandonar; Edith, esta nova querela afastou-os de mim mais uma
vez. Gostaria contudo de fazer algo pelo Santo Sepulcro em virtude de um tratado, se no for pelos direitos da vitria; e a possibilidade que tenho depende, infelizmente,
do capricho de uma mulher; preferia ter de atacar sozinho as dez melhores lanas de toda a cristandade do que ter de argumentar com uma rapariga voluntariosa que
no sabe onde esto as suas vantagens. Vejamos que resposta devo dar ao sulto?  preciso que
seja definitiva.
- Respondei-lhe - disse Edith - que a mais pobre das Plantagenetas preferiria desposar um mendigo a um infiel.
- No ser melhor dizer "um escravo", Edith? Parece-me que seria aproximar-me mais do vosso pensamento.
- No tendes qualquer motivo para uma suspeita to grosseira. A escravatura do corpo poderia ter inspirado a compaixo, mas a da nossa alma no deve excitar seno
o desprezo. Que vergonha para vs, rei de Inglaterra, ter carregado de ferros o corpo e alma de um cavaleiro cujo renome outrora pouco inferior era ao vosso!
- No deveria eu impedir a minha parente de engolir veneno sujando o recipiente que o contm, se no visse nenhum outro meio para evitar que bebesse esse fatal licor?
- Sois vs prprio quem me instiga a tomar veneno, s porque me  apresentado numa taa dourada.
- Edith, no posso forar a vossa resoluo; mas tomai cuidado porque fechais uma porta aberta pelo Cu. O ermita de Engaddi, esse homem que Papas e conclios consideraram
como um profeta, leu nos astros que o vosso casamento me reconciliava com um poderoso inimigo e que o vosso marido seria cristo. Tenho todos os motivos para esperar
que a converso do sulto e a submisso dos filhos de Ismael  verdadeira igreja sero a consequncia do vosso casamento com Saladino. No sereis capaz de fazer
um sacrifcio para no deixar desvanecer-se uma to bela esperana?
- Podem-se sacrificar carneiros e cabras, mas nunca a honra e a conscincia. Ouvi dizer que foi a desonra de uma rapariga crist que levou os sarracenos para a Espanha;
no  provvel que a vergonha de uma seja o meio para os expulsar da Palestina.
322
-  ento uma vergonha, segundo vs, tornar-se esposa de um monarca poderoso?
- Em minha opinio  uma vergonha e uma desonra profanar um sacramento; e profan-lo-ia se contrasse uma unio com um infiel; se eu, descendente de uma princesa
crist, consentisse voluntariamente em tornar-me a rainha de um harm de concubinas pags.
- No quero discutir convosco, Edith; julgava no entanto que o vosso estado de dependncia tivesse podido inspirar-vos mais complacncia.
- Sir, sois digno herdeiro da riqueza, das honras e de todos os domnios da casa de Plantageneta: portanto no deveis censurar  vossa pobre parente a pequena parcela
que conservou do seu orgulho.
- Por minha f, prima, desarmaste-me com essa resposta. Abracemo-nos pois e fiquemos amigos. Vou informar Saladino da vossa recusa. Mas afinal, Edith, no valeria
mais adiar a vossa resposta at que o tivesses visto? Dizem que  muito belo.
- No h qualquer possibilidade de nos encontrarmos, sir.
- Por So Jorge! H quase uma certeza. Saladino conceder-nos- sem dvida um terreno neutro para este novo combate do estandarte e ele certamente querer assistir.
Berengre morre de desejos de o ver e creio que sucede o mesmo com todas as outras, e at mesmo convosco, bela prima. Mas eis-nos chegados ao pavilho;  preciso
que nos separemos em paz. Pois bem,  preciso sel-la com um beijo, visto que, como soberano,  meu direito beijar as minhas vassalas.
Beijou-a com o maior respeito e afeio, e retomou ao luar o caminho da sua tenda, assobiando alguns fragmentos da cano de Blondel, que lhe acudiram  lembrana.
Ao chegar, preparou os despachos para Saladino, sem perda de um instante, e entregou-os ao nbio ordenando-lhe que partisse ao romper do dia para os levar ao sulto.
323
CAPTULO XXVII
"Ouve-se o Tecbir,  assim que como chama o rabe. A estes ruidosos gritos que solta o infiel Quando vai para o combate e pede ao Cu Para cingir de louros a fronte
vitoriosa." 1
HUGUES - "O Cerco de Damasco"
NA manh seguinte, Filipe de Frana convidou Ricardo para uma conferncia na qual, aps os protestos da sua elevada estima pelo seu irmo de Inglaterra, lhe comunicou
em termos corteses mas inequvocos a sua firme resoluo de regressar  Europa para dar ao seu reino os cuidados que exigia, visto que a diminuio de foras dos
cruzados e as dissenes que entre eles existiam no permitiam conservar a menor esperana de sucesso na sua empresa. Ricardo procurou dissuadi-lo, mas foi intil,
e quando a conferncia terminou recebeu, sem ficar surpreendido, um manifesto assinado pelo arquiduque da ustria e por vrios outros prncipes, que lhe declaravam
ter tomado a mesma resoluo, acrescentando, que se abandonavam a causa da cruz, era devido  ambio desenfreada e ao esprito desptico de Ricardo de Inglaterra.
Corao de Leo abandonou ento toda a esperana de continuar a guerra com algum sucesso e, ao derramar lgrimas amargas sobre o desmoronar dos seus projectos de
glria, a ideia
1 Traduo livre.
325
que devia at certo ponto atribuir este desaire  vantagem que o seu carcter impetuoso e imprudente dera aos seus inimigos, no foi para ele um grande motivo de
consolao:
- No teriam ousado abandonar assim o meu pai - disse a de Vaux, na amargura do seu despeito. - Ningum, em toda a cristandade, teria acreditado nas calnias que
tivessem podido espalhar contra um monarca to prudente, enquanto eu fui um louco em lhes ter dado pretexto no somente para me abandonar mas para lanar sobre os
meus desgraados defeitos toda a culpa desta ruptura.
Estas ideias atormentavam Ricardo a tal ponto que de Vaux ouviu com grande prazer anunciar a chegada de um embaixador de Saladino, o que desviou os pensamentos do
rei.
Este enviado era um emir que Saladino estimava muito e que se chamava Abdallab El Hadgi. Descendia da famlia do Profeta e era da raa ou tribo de Hasmen, genealogia
cuja prova visvel era o seu turbante verde de enormes dimenses.
Fizera por trs vezes a viagem a Meca, o que lhe valera a alcunha de El Hadgi, quer dizer, o peregrino. Apesar destas diversas pretenses  santidade, Abdallab era,
para um rabe, um folgazo. Gostava de ouvir contar uma anedota e punha de lado a sua gravidade, at ao ponto de esvaziar uma garrafa com prazer, quando o segredo
lhe oferecia uma garantia contra a m-lngua. Era tambm um estadista; e Saladino empregara os seus talentos em diversas negociaes com os prncipes cristos, e
particularmente com Ricardo, que conhecia El Hadgi a quem apreciava muito. Encantado com a prontido com que este enviado consentiu, da parte do seu amo, em fornecer
um terreno neutro para o combate, conceder um salvo-conduto para todos os que quisessem assistir e oferecer-se para ele prprio ficar como refm como garantia da
boa-f de Saladino, Ricardo em breve esqueceu a prxima dissoluo da Liga dos Prncipes Cristos, para se entregar  interessante discusso dos preliminares de
um combate em recinto fechado. O local, chamado o Diamante do Deserto, foi designado para ser o stio do combate como estando mais ou menos a igual distncia do
acampamento dos cristos e dos sarracenos. Ficou combinado que Conrado de Montserrat e os seus padrinhos, o arquiduque da ustria e o gro-mestre dos Templrios,
se encontrariam a no dia fixado para o combate;
326
que Ricardo de Inglaterra e o seu irmo Salisbury se dirigiriam para l com semelhante nmero de homens para proteger o campeo que sustentaria a acusao; por fim,
que o sulto traria com ele uma guarda de quinhentos homens, nmero que Ricardo considerava igual a duzentas lanas crists. Todas as pessoas de considerao que
um ou outro partido quisesse convidar a assistir ao combate no deveriam ter qualquer outra arma defensiva a no ser a sua espada. O sulto encarregava-se de mandar
preparar o recinto, assim como os refrescos e tudo que pudesse ser necessrio a todos aqueles que estivessem presentes neste combate solene. A sua carta exprimia
com muita cortesia o prazer que lhe dava a perspectiva de uma entrevista pessoal e pacfica com Melec Ric e o desejo que tinha de lhe fazer o mais caloroso acolhimento.
Tendo todos os preliminares sido regulados e comunicados ao marqus de Montserrat e seus padrinhos, Abdallah El Hadgi foi admitido a uma entrevista mais ntima,
em que ouviu deliciado a voz melodiosa de Blondel. Tirando em seguida o seu turbante verde e pondo em seu lugar uma boina grega, cantou uma cano bquica persa
e bebeu uma garrafa inteira de vinho de Chipre, para provar que juntava a prtica  teoria. No dia seguinte, to grave e to sbrio como o abstmio de Mirglip, curvou
a fronte at ao solo, diante do trono de Saladino, e prestou contas ao sulto da sua embaixada...
Na vpera do dia fixado para o combate, Conrado e os seus amigos partiram ao romper do dia para se dirigirem ao local designado. Ricardo deixou o acampamento  mesma
hora, com o mesmo propsito, mas por uma outra estrada, precauo que fora julgada necessria para evitar a possibilidade de uma querela entre os homens de armas
dos diferentes prncipes.
O prprio rei no tinha ento nenhuma vontade de provocar questes com ningum. Nada teria podido aumentar o prazer de ir assistir a um combate em recinto fechado,
a no ser a expectativa de poder figurar nele, como um dos campees; Conrado de Montserrat parecia-lhe quase to digno de inveja como culpado. Ligeiramente armado,
sumptuosamente vestido, to alegre como um apaixonado na vspera do dia da boda, fazia caracolear o seu cavalo junto da liteira da rainha Berangre. Quando fora
em peregrinao a Engaddi,
327
a rainha dirigira-se para l pelo outro lado das montanhas, de modo que nem ela nem as damas do seu squito faziam a menor
ideia do deserto.
Berangre conhecia demasiado bem o carcter do seu esposo para no mostrar grande interesse no que a ele lhe agradava dizer ou cantar. No entanto, no pde deixar
de conceber alguns receios, bastante naturais numa mulher, quando se viu no vasto deserto de uma plancie arenosa, com uma escolta to fraca que apenas parecia um
ponto no espao. Reflectiu ao mesmo tempo que no estavam a uma distncia suficientemente grande do campo de Saladino para que no pudessem ser surpreendidos e raptados
por um destacamento superior da sua cavalaria ligeira. Mas quando se aventurava a exprimir os seus receios, Ricardo repudiava-os com desprezo e descontentamento:
"Seria mais do que ingratido - dizia ele - suspeitar da boa-f do generoso sulto."
Contudo, as mesmas dvidas e as mesmas suspeitas se apresentaram por diversas vezes, no somente ao esprito tmido da rainha, mas  alma nobre e mais firme de Edith
Plantageneta, que no tinha um excesso de confiana na boa-f dos muulmanos.
Os seus receios no diminuram nada quando,  tardinha, aperceberam um cavaleiro que o seu turbante e a sua comprida lana faziam reconhecer como rabe, colocado
sobre o cimo de uma elevao e que, logo que viu aparecer o cortejo do rei, partiu com rapidez e desapareceu no horizonte.
- Devemos estar perto do local indicado - disse o rei. - Este cavaleiro  sem dvida uma vedeta destacada por Saladino. Parece-me que ouo o rudo das trompas e
dos timbales dos infiis. Ponham-se por ordem, camaradas, e alinhem-se em redor destas damas, como soldados bravos e bem disciplinados.
A estas palavras, cada cavaleiro, cada escudeiro, cada arqueiro, tomou o seu posto e a escolta marchou em fileiras cerradas, o que fez parecer ainda menos numerosa.
Para dizer a verdade, podia haver tanta inquietao como curiosidade na ateno com que cada um escutava os sons bizarros da msica mourisca, que partiam do lado
para o qual tinham visto o cavaleiro rabe dirigir a sua montada. De Vaux aproximou-se do rei e disse-lhe em voz baixa:
- No seria conveniente, sir, enviar um pajem para o alto desta
328
elevao de areia? Ou desejais que eu v  frente? A avaliar por toda esta algazarra parece-me que se no h seno quinhentos homens por detrs desta elevao, metade
da comitiva de Saladino deve ser composta por msicos? Posso ir ento?
O baro ingls superara as rdeas do seu corcel e dispunha-se a espore-lo quando Ricardo exclamou:
- No, de forma alguma! Uma tal precauo mostraria desconfiana e no impediria uma traio, que alis no receio...
Continuaram pois a marchar ordenadamente e em fileiras cerradas, at que viram o lugar de encontro onde um espectculo esplndido, mas quase assustador, os esperava.
O Diamante do Deserto, essa fonte outrora isolada que somente um grupo de palmeiras solitrias separava da vasta expanso do deserto, tornava-se o centro de um acampamento
cujos ornamentos e estandartes bordados reflectiam em mil matizes diferentes os raios do Sol poente. Os tecidos que cobriam os pavilhes maiores exibiam as cores
mais brilhantes, mas independentes destes pavilhes muito ornamentados, viam-se numerosas tendas negras dos rabes, que Thomas de Vaux considerou de mau agouro,
porque, segundo os costumes do Oriente, elas teriam bastado, em seu entender, para alojar um exrcito de cinco mil homens. rabes e kurdos reuniam-se apressadamente,
enquanto se ouvia o rudo ensurdecedor da msica marcial que, em todos os sculos, animou os rabes no momento de combate.
Em breve formaram uma massa enorme e confusa na frente do acampamento e ao sinal que lhes deu um grito agudo que se fez ouvir acima do barulho da msica, cada cavaleiro
que estava de p saltou para a sua sela. Uma nuvem de poeira, que se ergueu no momento desta manobra, escondeu aos olhos de Ricardo e do seu squito o acampamento,
as palmeiras, as montanhas que se viam ao longe, e as tropas cujo movimento sbito fizera nascer esta nuvem.
Um grito, no menos agudo do que o primeiro, saiu das entranhas desta regio tenebrosa; era um sinal de partida para a cavalaria, e logo ela avanou, fazendo as
manobras necessrias para chegar ao mesmo tempo  frente, aos flancos e  retaguarda do pequeno grupo de Ricardo, que se encontrou assim cercado por todos os lados.
329
enquanto aqueles que o compunham eram envolvidos e quase sufocados pela espessa nuvem de poeira, atravs da qual se distinguia por vezes o traje bizarro e a figura
bravia dos sarracenos. Sacudiam e brandiam as suas lanas em todas as direces, soltando gritos selvagens, e avanavam algumas vezes at junto das lanas dos cristos
enquanto os que estavam nas ltimas filas lanavam flechas por cima das cabeas dos outros. Uma destas flechas caiu sobre a liteira de Berangre, que soltou um grande
grito e Ricardo logo
corou de indignao.
- Por So Jorge! - bradou. -  preciso meter esta escumalha
de infiis na ordem.
Mas Edith, cuja liteira era vizinha da da rainha, ps a cabea de fora e segurando na mo uma das flechas, exclamou:
- Rei Ricardo, tomai cuidado com o que ides fazer! Vede, estas
flechas no tm ponta.
- Pelo Cu! - exclamou Ricardo - envergonhas-nos a todos, nobre donzela, pela justia do teu bom-senso e pela prontido do teu olhar. Camaradas - disse  sua pequena
tropa - nada de inquietaes! As suas flechas no tm ponta, e vejam, o ferro foi arrancado das suas lanas;  uma maneira selvagem de nos dizer que somos bem-vindos,
embora no duvide que ficassem encantados por nos verem inquietos e assustados. Marchai pois para a frente, num
passo lento e firme.
A pequena falange avanou pois, sempre rodeada pelos rabes que continuavam a soltar gritos estridentes; os arqueiros despediam as suas flechas de modo a provar
a sua destreza fazendo-as passar o mais perto possvel dos capacetes dos cristos, sem lhes tocar; os lanceiros atacavam-se uns aos outros com as suas armas desguarnecidas
de ferro, e davam pancadas to violentas que frequentemente tombavam do cavalo arriscando-se a partir os ossos; estas demonstraes, embora destinadas a festejar
os europeus, tinham aos olhos destes um carcter um pouco suspeito.
Quando chegaram mais ou menos a meio do caminho do acampamento, com Ricardo e o seu squito constituindo o ncleo  volta do qual esta multido tumultuosa circulava,
um outro grito agudo se fez ouvir, e no mesmo instante, todos os rabes que estavam  frente e nos flancos do pequeno corpo de europeus, deram meia
330
volta e foram-se colocar em boa ordem numa longa coluna por trs do grupo de Ricardo, que seguiram quase em silncio.
A poeira mal se comeava a dissipar  frente dos ingleses, quando aperceberam, atravs deste vu sombrio, um corpo de cavalaria mais regular e de aspecto completamente
diferente. Estes cavaleiros estavam munidos de armas ofensivas e defensivas, e teriam podido servir de guarda-costas ao mais altivo dos monarcas do Oriente.
Cada cavalo desta coluna, que consistia em quinhentos homens, valia o resgate de um conde. Os elmos dos cavaleiros e os seus coletes eram de um ao to bem polido
que pareciam de prata; estavam vestidos de tecido das mais vistosas cores; e alguns traziam at brocados de ouro ou de prata.
Esta brilhante tropa avanou ao som de uma msica militar e, quando chegou junto dos cristos, abriu-se e formou duas Ulas para os deixar passar. Ricardo ps-se
ento  cabea da sua pequena escolta, convencido de que se aproximava o prprio Saladino. Efectivamente, alguns instantes mais tarde, no meio dos seus guarda-costas
e dos oficiais da sua casa, chegou o sulto, com o ar e as maneiras de um homem sobre a fronte do qual a natureza escrevera: Eis um rei!" com o seu turbante, a sua
tnica e as largas calas  oriental, tudo branco como a neve e o seu cinto de seda escarlate sem qualquer enfeite, Saladino poderia parecer estar vestido mais simplesmente
do que qualquer dos seus guardas. mas, contemplando-o com mais ateno, via-se no seu turbante a prola inestimvel a que os poetas chamaram "mar de luz"; o diamante
sobre o qual o seu sinete estava gravado, e o que trazia no dedo, encastoado num anel, valia provavelmente todas as jias da coroa de Inglaterra, e uma safira que
terminava o punho do seu alfange no lhe era inferior.  bom acrescentar que, para se proteger da poeira que nos arredores do mar Morto se assemelha a cinzas, o
sulto trazia agarrado ao seu turbante um vu que dissimulava em parte as suas nobres feies. Montava um cavalo rabe, branco como o leite, e este corcel transportava-o
como se conhecesse o valor do fardo que trazia e se sentisse orgulhoso por isso.
No houve necessidade de qualquer apresentao cerimoniosa. Os dois heris, porque tanto um como outro mereciam esse nome.
331
puseram p em terra e abordaram-se ao mesmo tempo, enquanto as duas tropas faziam alto e os msicos ficavam silenciosos. Saudaram-se cortesmente e beijaram-se como
irmos e como iguais. A pompa exibida pelos dois lados no atraa agora os olhos de ningum; no viam seno Ricardo e Saladino, e cada um deles tambm via apenas
o outro. No entanto, havia mais curiosidade nos olhares que Ricardo fixava sobre Saladino, do que naqueles que o sulto lanou ao monarca ingls. O prncipe foi
o primeiro a romper o
silncio:
- A presena de Melec Ric  to agradvel a Saladino - disse
- como a vista da gua ao viajante no deserto. Lisonjeia-me que veja sem desconfiana esta tropa numerosa.  excepo dos escravos armados que compem a minha casa,
aqueles que nos rodeiam, com os olhos cheios de admirao e de bom acolhimento, so at ao ltimo de entre eles os nobres das minhas mil tribos; pois qual  aquele
que, podendo reclamar o direito de estar presente, se quereria ausentar quando pode ver um prncipe como Ricardo, cujo nome, inspirando o terror, se no pode pronunciar,
mesmo nas areias do Ymen, sem que a areia faa calar a criana e que o rabe
livre o seu corcel fogoso?
- E todos estes guerreiros so nobres rabes? - disse Ricardo passando o olhar por aqueles seres meio selvagens. Os seus rostos estavam tisnados pelo sol, os dentes
eram brancos como o marfim e os olhos brilhavam com um fogo altivo e quase sobrenatural, mas o seu traje, em geral, era de uma simplicidade tal que quase assemelhava
 negligncia.
- Tm direito a esse ttulo - respondeu Saladino. - Mas, embora sejam numerosos, as condies da nossa conveno no foram violadas. No possuem outras armas alm
das cimitarras; tiraram at as pontas de ferro s suas lanas.
- Desconfio - disse em ingls lorde de Vaux a Ricardo - que as deixaram em qualquer stio onde ser fcil encontr-las de novo. Confesso que vejo aqui uma cmara
de nobres muito florescente; Westminster Hall teria dificuldade em os conter.
- Silncio, de Vaux! - disse o rei. - Ordeno-te! Nobre Saladino - acrescentou - tu e a desconfiana no podem andar a par. Vs - continuou, mostrando-lhe as liteiras,
trouxe tambm comigo
332
alguns campees, completamente armados em contraveno do tratado; porque belos olhos e lindas faces so armas que no se podem deixar para trs.
O sulto, voltando os olhos para as liteiras, inclinou-se to profundamente como se se voltasse para Meca, e beijou a areia em sinal de respeito.
- Elas no receiam encontrar-te mais de perto, meu irmo disse Ricardo. - No te queres aproximar? Abriro as cortinas.
- Al me defenda! - respondeu o sulto. - Todos os rabes que nos rodeiam considerariam indecoroso para estas damas v-las de rosto descoberto.
- Nesse caso, meu irmo - replicou Ricardo - v-las-s em particular.
- Para qu? - disse Saladino, em tom melanclico. - A tua ltima carta foi como gua lanada no fogo das esperanas que concebera. Para qu, pois, procurar reacender
uma chama que me pode consumir inutilmente? Mas o meu irmo no entra na tenda que lhe foi preparada? O meu primeiro escravo negro recebeu as minhas ordens para
a recepo das princesas. Os oficiais da minha casa cuidaro da tua comitiva, e eu prprio serei o camarista de rei Ricardo.
Conduziu Corao de Leo para um pavilho magnfico, onde se encontrava tudo o que o luxo pode conceber para um rei. De Vaux, que seguira o amo, tirou-lhe ento
o longo manto que Ricardo utilizara para a viagem, e a fora e as propores dos seus membros, valorizados por um traje justo, formavam singular contraste com a
veste flutuante que cobria a figura franzina do monarca oriental.
A ateno do sulto foi atrada sobretudo pela espada de dois gumes de Ricardo, cuja lmina direita, larga e pesada, era quase to alta como o ombro do monarca:
- Se no tivesse visto esta espada - disse Saladino - flamejar sobre o campo de batalha como a de Azral, dificilmente acreditaria que pudesse ser manejada pelo
brao de um homem. Posso pedir a Melec Ric para o ver desferir um golpe, unicamente como uma prova da sua fora?
- com todo o gosto, nobre Saladino - respondeu Ricardo, procurando em redor um objecto para exercitar o seu vigor. Viu uma maa de ao, que um escravo trazia e cujo
cabo do mesmo metal.
333
tinha cerca de uma polegada e meia de dimetro. Pegou-lhe e colocou-a sobre um bloco de madeira.
A preocupao que de Vaux tinha pela honra do seu amo levou-o
a dizer-lhe em ingls:
- Por amor da Santa Virgem, pensai no que ides fazer, sir. No recuperastes ainda todas as vossas foras; e ides fazer triunfar um
infiel!
- Silncio, louco! - respondeu Ricardo, olhando  sua volta com altivez. - Julgas que as foras me possam faltar na sua presena?
A espada cintilante, segura pelas duas mos, elevou-se acima do ombro esquerdo do rei, volteou sobre a cabea, desceu como se fosse empurrada pela fora irresistvel
de uma mquina de guerra e a barra de ferro caiu por terra em dois pedaos, como um ramo de rvore cortado pela podoa de um lenhador.
- Pela cabea do Profeta, que golpe maravilhoso! - disse o sulto, examinando com os olhos e o cuidado de um crtico a barra de ferro que acabara de ser cortada,
e a lmina da espada, to bem temperada, que em nada sofrera golpe que acabara de dar. Pegou-Lhe ento na sua grande mo e sorriu ao p-la ao lado da sua.
magra e descarnada.
- Sim, olha bem - disse de Vaux em ingls. - Passar-se  muito tempo antes que os teus compridos dedos de macaco possam desferir um golpe semelhante com a tua bela
fouce dourada.
- Silncio, de Vaux - disse Ricardo. - Por nossa Senhora! Ele compreende o que tu dizes ou adivinha-o: fala com mais respeito, peo-te.
- Gostaria - disse o sulto, alguns momentos depois - de experimentar por meu turno... mas porque h-de o fraco mostrar a sua inferioridade em presena do forte?
"No entanto, cada pas tem os seus exerccios e este pode ter, pelo menos para Melec Ric, o mrito da novidade... - falando assim, pegou numa almofada de seda cheia
de penas, e perguntou a Ricardo: - A tua espada pode cortar esta almofada?
- Certamente que no, respondeu o rei; nenhuma espada, fosse ela a "Excalibur" do rei Artur, poderia cortar um corpo que no oferece resistncia.
334
- Olha para mim, ento - disse Saladino. E, levantando a manga da tnica, mostrou um brao magro mas vigoroso e desembainhou a cimitarra, cuja lmina estreita e
recurvada no brilhava como as espadas dos francos, mas era de azul mate e marcada por uma infinidade de linhas cruzadas em todos os sentidos. Levantando esta arma,
aparentemente frgil em comparao com a espada de Ricardo, o sulto apoiou todo o peso do corpo para a frente, balouou-se um momento como para visar com mais preciso;
e avanando de repente, cortou a almofada em duas partes, utilizando o gume da sua cimitarra com tanta destreza e aparentemente com to pouco esforo, que a almofada
pareceu tombar sozinha.
-  um truque de malabarista - disse de Vaux, em ingls, adiantando-se para apanhar a parte da almofada que ficara separada da outra, como se se quisesse certificar
da realidade do feito. Aqui h bruxedo.
O sulto pareceu compreend-lo porque desprendeu o vu que usara at a, suspendeu-o dobrado sobre a lmina da cimitarra, levantou-a e, por um movimento repentino,
separou-a em duas partes que caram uma para cada lado, mostrando simultaneamente a excelncia da tmpera e do gume da sua lmina, e a sua incomparvel destreza.
- Sinceramente, meu irmo - disse Ricardo - no tens rival para manejar a cimitarra, e um recontro contigo no deixaria de ser perigoso: contudo, tenho certa confiana
num bom golpe  inglesa, e o que no podemos fazer pela percia conseguimo-lo pela fora. Seja como for, s to hbil a fazer feridas como o prudente Hakim a cur-las:
espero ver este sbio mdico; tenho muitos agradecimentos a dar-lhe e trouxe-lhe alguns presentes.
Enquanto falava deste modo, Saladino tirou o turbante para envergar um outro em forma de barrete trtaro; mal o colocou na cabea, logo de Vaux ficou de boca aberta
e olhos esbugalhados e Ricardo no se mostrou menos surpreendido; enquanto o sulto, mudando de voz, disse em tom grave:
- O doente, diz o poeta, reconhece o mdico pelo barulho dos seus passos mas, quando est curado, nem sequer reconhece as suas feies quando as v.
-  um milagre, um verdadeiro milagre! - bradou Ricardo.
335
-  sem dvida  maneira de Maom - disse Thomas de Vaux.
- Parece impossvel que no tenha reconhecido o meu sbio Hakim, por uma mudana de vesturio - exclamou Ricardo - e que o torne a encontrar no meu irmo Saladino.
-  o que frequentemente se v no mundo - respondeu Saladino. - No  o fato esfarrapado que faz o dervixe.
- E foi por tua intercesso - disse Ricardo - que o Cavaleiro do Leopardo evitou a morte! E foi por teu artifcio que voltou disfarado para o meu acampamento!
- Exactamente - respondeu o sulto. - Bastava ser mdico para saber que, a menos que as feridas sangrentas da sua honra no fossem cicatrizadas, os dias da sua vida
estavam contados. Descobriste o seu disfarce mais facilmente do que esperava, depois do
sucesso do meu.
- Foi um acidente - disse Ricardo, aludindo sem dvida ao momento em que aplicara os seus lbios sobre a ferida do pretenso nbio - que me fez primeiramente reconhecer
que a cor da sua pele no era natural. Uma vez feita esta descoberta, o resto no era difcil de adivinhar, porque a sua estatura e as suas feies no se esquecem
facilmente. Conto com ele para ser amanh o meu campeo no combate.
- Est-se a preparar para isso, e cheio de esperana. Dei-lhe armas e um cavalo; pois pelo que dele vi sob diversos disfarces, considero-o um nobre cavaleiro.
- Ele j sabe a quem deve tantos favores?
- Sim, sabe. Fui obrigado a dar-me a conhecer, quando lhe falei
dos meus projectos.
- E no vos fez quaisquer outras confidncias?
- No me disse nada de positivo; mas, pelo que se passou entre ns, deduzo que elevou o seu amor demasiado alto para que possa
esperar ser feliz.
- E sabereis vs que a sua audaciosa paixo era contrria aos
vosos prprios desejos.
- Adivinhei-o; mas a sua paixo j existia antes de os meus desejos terem nascido, e devo acrescentar que  agora mais do que provvel que ela lhes sobreviva. No
posso vingar-me do meu desapontamento sobre aquele que no  dele o causador. Ou se esta
336
dama de elevada condio o prefere em relao a mim, quem pode dizer que no faz justia a um cavaleiro cheio de nobreza?
- Mas de linhagem demasiado baixa para se aliar ao sangue dos Plantageneta - disse Ricardo, com altivez.
- Tais podem ser as vossas mximas no Frangisto - respondeu Saladino. - Mas, nos pases orientais, os nossos poetas dizem que um condutor de camelos cheio de bravura
 digno de beijar os lbios de uma bela rainha e que um prncipe cobarde no merece sequer tocar a fmbria do seu vestido. Mas, com vossa permisso, meu nobre irmo,
 necessrio que vos deixe por agora, para ir receber o arquiduque da ustria e esse cavaleiro nazareno, indubitavelmente menos dignos de serem bem acolhidos, mas
a quem devo prestar os deveres da hospitalidade, no por considerao por eles mas por minha prpria honra. Porque, o que diz o sbio Lockman? "No digas que desperdiaste
o alimento que ds ao estrangeiro, porque se ele serve para fortificar o seu corpo, no  menos til para aumentar e espalhar a tua honra e o teu renome."
O monarca sarraceno deixou o rei Ricardo; e tendo-lhe indicado por gestos, mais do que por palavras, o local onde era o pavilho da rainha e das damas do seu squito,
foi receber o marqus de Montserrat e os seus dois padrinhos, para quem o sulto magnificente mandara preparar pavilhes, seno com o mesmo prazer pelo menos com
o mesmo esplendor. Mandou oferecer aos seus hspedes, a cada um na sua tenda, refrescos  oriental e  europeia, e levou a ateno pelos seus gostos e pelos seus
hbitos at ao ponto de encarregar escravos gregos de lhes oferecer vinho, que  a abominao dos Muulmanos.
Ricardo no acabara ainda a sua refeio quando o velho Omrah, que lhe trouxera ao acampamento a carta do sulto, lhe veio apresentar um plano do cerimonial que
deveria ser observado no dia seguinte para o combate; o rei, que sabia da inclinao do seu velho conhecido, convidou-o a fazer com ele honras a uma garrafa de vinho
de Schiraz; mas Abdallah fez-se compreender, embora num ar que mostrava todo o seu pesar, que a sua vida correria perigo se no se abstivesse nesse momento; porque,
embora Saladino fosse tolerante em muitos aspectos, observava fielmente as leis do Profeta e exigia severamente que as observassem.
337
- Nesse caso - disse Ricardo - se no gosta de vinho, esse licor que alegra o corao do homem, no podemos ter esperana de que ele se converta, e a predio desse
louco do ermita de Engaddi no  seno palha dispersa pelo vento.
O rei ocupou-se depois em organizar tudo para o combate, o que levou um tempo considervel, visto que foi necessrio consultar tanto o sulto como as partes adversrias
acerca de diversas questes.
Finalmente, ficou tudo combinado, e arranjou-se um protocolo em francs e em rabe, que foi assinado por Saladino, como rbitro do combate, e por Ricardo e Leopoldo
como garantes dos dois
combatentes.
Despedia-se Omrah do rei quando o baro de Vaux tornou a entrar no pavilho de Ricardo.
- O bom cavaleiro que vai amanh combater - disse - pede se lhe  permitido apresentar esta noite as suas homenagens ao seu real
padrinho.
- Viste-o, de Vaux? - perguntou-lhe o rei sorrindo. - Reconheceste nele um antigo conhecimento?
- Por Nossa Senhora de Lanercos! H tantas surpresas e mudanas neste pas, sir, que a minha pobre cabea at anda  roda; dificilmente teria reconhecido Sir Kenneth
da Esccia se o seu bom co, que esteve durante alguns instantes entregue aos meus cuidados, no tivesse vindo fazer-me uma festa; e s o reconheci pela amplitude
do seu arcabouo, pelas patas e pela maneira como ladra, pois o pobre animal estava pintado como uma cortes de Veneza.
- Conheces melhor os ces do que os homens, de Vaux.
- No o nego, sir, e j achei por vezes que a raa animal era a mais honesta; alis, apraz a Vossa Majestade dar-me de tempos a tempos o nome de bruto e, alm disso,
tenho a honra de servir o leo, que todos reconhecem como rei dos animais.
- Por minha f, quebraste a tua lana no meu capacete, de Vaux. Sempre disse que possuas algum esprito;  pena que seja preciso bater-te na cabea com um martelo
para fazer saltar de l uma fasca. Mas falemos de negcios: o bravo cavaleiro est bem
armado e equipado?
- Completa e nobremente, sir. Conheo a armadura,  a que o
338
comissrio veneziano ofereceu a Vossa Majestade antes da sua doena, por quinhentos besantes.
- E garanto que a vendeu ao sulto infiel por alguns ducados mais e a pronto. Estes venezianos eram capazes de vender at o Santo Sepulcro.
- Rogo a Deus que Vossa Majestade queira ter mais circunspeco. Eis-nos abandonados por todos os nossos aliados, por alguns motivos de agravo causados a uns e a
outros; no podemos esperar vencer em terra, s nos faltava agora uma querela com esta repblica anfbia para que perdssemos os meios de fazer a nossa retirada
por mar.
- Farei os possveis - disse Ricardo, impaciente. - Mas poupa-me as lies. Diz-me antes, porque isso  interessante, se o cavaleiro tem um confessor?
- Sim, tem - respondeu de Vaux - o ermita de Engaddi, que preencher essas funes quando se preparar para a morte, est com ele neste momento, em que o rudo do
combate o trouxe at aqui.
- Est bem - continuou Ricardo. - Quanto ao pedido do cavaleiro, diz-lhe que Ricardo o receber quando tiver cumprido o seu dever no Diamante do Deserto, de maneira
a reparar a falta que cometeu no monte So Jorge; e ao atravessares o acampamento, previne a rainha de que a irei ver  sua tenda; depois diz a Blondel para ir ter
l comigo.
De Vaux partiu. Cerca de uma hora mais tarde, Ricardo envolvendo-se num grande manto e com a sua gittern 1 na mo, tomou o caminho do pavilho da rainha. Encontrou
vrios rabes, mas todos baixavam os olhos e voltavam a cabea, embora observasse que depois de ter passado, eles se voltavam para o examinar atentamente; da concluiu
com razo que a sua pessoa lhes era conhecida, mas que as ordens do sulto, ou a sua cortesia oriental, os compeliam a pretender no reconhecer um soberano que desejava
guardar o incgnito.
Quando o rei chegou junto do pavilho da rainha, achou-o guardado por essas desgraadas criaturas com que o cime oriental rodeia o znana. Blondel passeava diante
da porta, tocando na sua
1 Espcie de harpa ou de ctara.
339
harpa de tempos a tempos, e os africanos que o escutavam, mostrando os dentes de prazer, batiam o compasso com gestos bizarros e acompanhavam-no com as suas vozes
estridentes e selvagens.
- Que fazes tu aqui com este rebanho negro, Blondel? - perguntou Ricardo. - Porque  que no entraste no pavilho?
- Porque a minha profisso no pode prescindir nem da cabea nem dos dedos, sir - respondeu Blondel - e eles ameaaram cortar-me em bocados se desse um passo para
l entrar.
- Entra comigo - replicou o rei -; serei a tua salvaguarda. Os negros baixaram as suas cimitarras e as suas lanas diante de
Ricardo, conservando os olhos no cho, como se fossem indignos de os erguer para ele. No interior do pavilho encontraram Thomas de Vaux, com a rainha. Enquanto
Berangre acolhia Blondel incitando-o a cantar, Ricardo aproveitou esta ocasio para dizer algumas palavras em particular  sua bela parente.
- Ainda somos inimigos, bela Edith? - perguntou-lhe a meia
voz.
- No, sir - respondeu Edith, suficientemente baixo para no interromper a msica. - Ningum pode ser inimigo do rei Ricardo, quando ele se mostra tal como  realmente,
to nobre e generoso quanto  valente e honrado.
Falando assim, estendeu-lhe a mo e Ricardo beijou-a em sinal de
reconciliao:
- Julgais, bela prima - continuou - que a minha clera era fingida naquela ocasio; mas enganai-vos. A pena que pronunciara contra o cavaleiro era justa; porque
qualquer que fosse a tentao a que fora exposto, trara a confiana que depositara nele. Mas estou talvez to satisfeito como vs com o facto de o dia de amanh
lhe oferecer a possibilidade de recuperar a honra lanando sobre o verdadeiro culpado a mancha com que momentaneamente foi coberto. Sim, bela prima, a posteridade
poder acusar Ricardo de uma louca impetuosidade, mas ela dir que ao pronunciar uma sentena ele usava a justia quando tal era necessrio e de merc quando isso
era
possvel.
- No faais vs mesmo o vosso elogio, rei meu primo! A posteridade poderia muito bem chamar  vossa justia, crueldade, e  vossa merc, capricho.
340
- E no sejais orgulhosa, bela prima, como se o vosso cavaleiro, que ainda no endossou a sua armadura, a deixasse com as honras do triunfo. Conrado de Montserrat
 considerado uma boa lana; que direis vs se o escocs fosse vencido?- Impossvel - respondeu Edith com firmeza. - Eu prpria vicom os meus olhos Conrado tremer
e mudar de cor como o mais vil dos criminosos.  culpado, e o combate judicial  um apelo  justia de Deus. Eu prpria, numa causa destas, iria sem receio ao seu
encontro na lia.
- Por minha alma, acredito-o e acredito at que o vencerias; porque no houve nunca Plantageneta mais verdadeiro do que tu - depois acrescentou, em tom mais srio:
continuai a lembrar-vos do que deveis ao vosso nascimento.
- Que significa este aviso dado to seriamente neste momento?
- perguntou Edith. - Alguma vez mostrei leviandade para que se deva julgar que pudesse esquecer o meu nome e a minha condio?
- Vou-me explicar mais claramente, Edith, e falar-vos como um amigo. Que ser para vs este cavaleiro se sair vencedor do combate?
- Para mim! - repetiu Edith, corando de vergonha e de descontentamento. - Que poder ele ser para mim alm de um honrado cavaleiro, digno de todos os favores que
a prpria rainha Berangre lhe poderia conceder se ele a tivesse elegido como sua dama em vez de ter fixado a sua escolha sobre um objecto menos digno? O ltimo
dos cavaleiros pode dedicar-se ao servio de uma imperatriz; mas a glria da sua escolha - acrescentou orgulhosamente - deve ser a sua nica recompensa.
- E no entanto ele serviu-vos e sofreu muito por vs.
- Paguei os seus servios com honras e aplausos, e os seus sofrimentos com lgrimas. Se tivesse desejado uma outra recompensa, teria escolhido uma dama na sua prpria
esfera.
- Ento no vestirias por ele a tnica ensanguentada?
- F-lo-ia tanto como pedir-lhe para expor a sua vida numa ac'o em que exista mais loucura do que honra.
-  sempre assim que falam as donzelas; mas quando o apaixonado favorecido se torna insistente, dizem suspirando que os astros  que decidiram de maneira diferente.
341
- J  a segunda vez que Vossa Majestade me ameaa com a influncia do meu horscopo - disse Edith, altivamente. Acreditai-me, sir, qualquer que seja o poder dos
astros, a vossa pobre parente no desposar nunca nem um infiel nem um obscuro aventureiro. Mas permiti-me escutar as canes de Blondel, que me so mais agradveis
do que o tom das admoestaes de Vossa Majestade.
Durante o resto do sero no aconteceu nada que merea ser relatado.
342

CAPITULO XXVIII
"Estais a ouvir o rudo que fazem estes guerreiros? O embate do ferro e dos corcis?"
GRAY 1
DEVIDO  ardncia do clima, ficara combinado que o combate, motivo da reunio de tantas naes diferentes no Diamante do Deserto, teria lugar uma hora aps o nascer
do Sol.
A lia, que fora preparada sob a vigilncia do Cavaleiro do Leopardo, cercava um espao arenoso de sessenta toesas de comprimento por vinte de largura, estendendo-se
de norte para sul, de modo a que o Sol nascente desse igual vantagem aos dois adversrios. Perto das barreiras que formavam a vedao deste vasto recinto e do lado
ocidental, fora colocado o trono de Saladino, precisamente em frente do ponto central onde estava previsto o recontro dos dois contendores.
Do outro lado estava uma galeria fechada por um gradeamento arranjado de forma que as damas, a quem era destinada, pudessem ver sem serem vistas. Em cada extremidade
da lia estava uma barreira que se podia abrir e fechar  vontade. Tambm tinham sido instalados tronos para o rei de Inglaterra e o arquiduque da ustria,
1 Traduo livre.
343
mas Leopoldo, vendo que o seu era menos elevado do que o de Ricardo, recusou-se a ocup-lo; e Corao de Leo, que preferia submeter-se a tudo de preferncia a deixar
que uma formalidade impedisse ou retardasse o combate, consentiu imediatamente que os padrinhos permanecessem a cavalo durante todo o tempo que durasse o combate.
Numa extremidade da lia estava a comitiva de Ricardo, na outra a do marqus de Montserrat. Em redor do trono destinado ao sulto fora colocada a sua bela guarda
georgiana. O resto do valado estava ocupado pelos espectadores cristos e muulmanos.
Muito antes do romper do dia j a lia se encontrava rodeada por um nmero de sarracenos ainda mais considervel do que o que Saladino mostrara na vspera. Quando
o primeiro raio de sol caiu sobre o deserto, a voz sonora do sulto fez ouvir o grito: " orao!  orao!" Este grito foi repetido por todos aqueles a quem a sua
categoria e o seu fervor davam o direito de desempenhar as funes de "muezzins". Era um espectculo imponente ver todos estes soldados prostrarem-se na terra, com
o rosto virado para Meca. Mas quando se levantavam, o disco do Sol j mais alto pareceu confirmar as suspeitas que Thomas de Vaux manifestara na vspera, porque
os seus raios eram reflectidos pelas lanas dos rabes que, embora desguarnecidas de ferro, na noite anterior, os tinham certamente naquela altura. De Vaux no deixou
de chamar a ateno do seu amo, que lhe respondeu em tom impaciente que no se podia ter quaisquer dvidas sobre a boa-f de Saladino, e que se ele sentia algum
receio se podia retirar.
Pouco depois ouviu-se um barulho de tambores e todos os cavaleiros sarracenos desceram precipitadamente dos cavalos e se prosternaram como se fossem orar pela segunda
vez: era para deixar passar a rainha, Edith e as damas que as acompanhavam, do seu pavilho para a galeria que lhes estava destinada. Eram escoltadas por cinquenta
guardas do serralho de Saladino, de cimitarra na mo, com ordem de despedaar quem quer que ousasse lanar um olhar sobre as damas durante a sua passagem, fosse
ele prncipe ou vilo, ou levantasse a cabea at que os tambores deixassem de se fazer ouvir; o fim desta msica anunciou que elas tinham entrado na galeria, ao
abrigo de olhares indiscretos.
344
Este indcio supersticioso do respeito dos Orientais pelo belo sexo levou a rainha Berengre a fazer algumas observaes crticas que no eram nada favorveis a
Saladino e ao seu pas; mas, estando a sua caverna, como a bela rainha chamou  galeria, bem fechada e bem guardada, no teve outro remdio seno contentar-se com
o prazer de ver sem poder gozar do prazer mais doce de ser vista.
Entretanto, os padrinhos dos dois campees examinaram, como era seu dever, se eles estavam convenientemente armados e preparados para o combate. O arquiduque da
ustria no teve muita pressa em cumprir esta parte do cerimonial, pois fizera na vspera uma orgia de vinho de Schiraz, maior do que era costume; mas o gro-mestre
dos Templrios, muito mais interessado no resultado do combate, chegou cedo  tenda do marqus de Montserrat. Para seu grande espanto, recusaram-lhe a entrada:
- No me conheces, malandro? - perguntou o gro-mestre, irritado.
- Perdoai-me, valente e reverendo gro-mestre - respondeu o escudeiro de Conrado. - Mas nem mesmo vs podeis entrar neste momento. O meu amo vai-se confessar.
- Confessar-se! - exclamou o gro-mestre, num tom que indicava tanto alarme como surpresa. - E a quem?
- O meu amo ordenou-me segredo - respondeu o escudeiro. Mas o gro-mestre, empurrando-o bruscamente, entrou na tenda. Encontrou o marqus de Montserrat ajoelhado
diante do ermita de Engaddi, prestes a comear a sua confisso.
- Que significa isto, marqus? - bradou o gro-mestre. Levantai-vos, se quereis confessar-vos, no estou eu aqui?
- J me confessei a vs vezes de mais - respondeu Conrado, plido e titubeante. - Pelo amor de Deus, gro-mestre. retirai-vos. e deixai abrir a minha conscincia
a este santo homem.
- Em que  ele mais santo do que eu? - disse o gro-mestre. Ermita, profeta, louco, diz-me, se te atreves, no que  que s tu mais santo do que eu?
- Homem temerrio e perverso - replicou o eremita - fica sabendo que eu sou a grade atravs da qual passa a luz divina para iluminar os outros, embora eu prprio
dela no me aproveite; e tu. tu s o biombo de ferro que no recebe nem comunica a claridade.
345
- Basta de palavreado e sai desta tenda imediatamente! - bra dou o gro-mestre. - O marqus no se confessar esta manh a no ser a mim, pois no me afastarei do
seu lado.
-  da tua vontade que me retire? - perguntou o ermita a Con rado. - Pois no julgues que vou obedecer a este homem - orgulhoso, se continuares a desejar os meus
socorros espirituais.
- Ai de mim! - respondeu o marqus, num tom irresoluto. -. Que quereis que vos diga? Retirai-vos um instante, tornaremos a ver-nos mais tarde.
-  funesto esprito do homem, que deixa sempre para o dia seguinte o que deveria fazer imediatamente, s tu o assassino da alma! - bradou o ermita. - Adeus, desgraado
no por um instante, mas at que nos voltemos a encontrar, no importa onde! Quanto a ti - acrescentou, voltando-se para o gro-mestre - treme!
- Eu, tremer! - repetiu o gro-mestre com desdm. - N, poderia, ainda que o quisesse.
O ermita no ouviu esta resposta, porque havia j sado da tenda.
- Vamos - disse o gro-mestre - desfia depressa o teu rosrio, se queres entoar a tua litania; mas escuta, creio que j sei de cor todos os teus pecadilhos, portanto
poupa-me os pormenores, que nos levariam talvez demasiado longe. Para qu contar as ndoas que temos nas mos, quando as vamos lavar?
- Sabendo o que tu s - disse Conrado - blasfemas ao falar em absolver os outros.
- Isso no est de acordo com os cnones, marqus - respondeu o gro-mestre. - s mais escrupuloso do que ortodoxo. A absolvio de um padre pecador  to boa como
a de um santo, ou que Deus tenha piedade de um pobre penitente! Qual  o ferido que se preocupa em saber se o cirurgio que examina as feridas tem mos brancas?
Vamos, pronuncia a famosa frmula?
- No - respondeu Conrado. - Prefiro morrer sem confisso do que profanar o sacramento.
- Pois bem, nobre marqus, reanimai a vossa coragem e no faleis assim. Dentro de uma hora tereis triunfado na lia ou confessar-vos-eis sob o elmo, como um valoroso
cavaleiro.
- Ai de mim! gro-mestre, s vejo tristes pressgios neste
346
assunto. O instinto de um co de caa que me reconhece de maneira to estranha, esse cavaleiro escocs que reaparece subitamente para se mostrar na lia como um
espectro; tudo isto  de mau agouro.
- Loucura! Vi-te quebrar uma lana contra ele numa justa, e com igual possibilidade de sucesso. Faz de conta que no se trata seno de um torneio; quem figurar
a com mais vantagem que tu? Escudeiros, vamos, avanai,  tempo de armar o vosso amo para o combate.
Os escudeiros entraram e comearam a armar o marqus.
- Que tempo faz esta manh? - perguntou Conrado.
- Est enevoado - respondeu um dos escudeiros.
- Vs, que nada nos sorri - disse o marqus ao gro-mestre.
- Estars mais fresco para combater, meu filho - respondeu o templrio. - Agradece ao Cu ter moderado em teu favor o calor escaldante do sol da Palestina.
Assim gracejava o gro-mestre; mas os seus gracejos tinham perdido a influncia sobre o esprito do marqus de Montserrat; e, apesar de todos os seus esforos para
manter a alegria, os sombrios pressentimentos do marqus comunicaram-se insensivelmente ao templrio.
"Este poltro - pensou - vai-se deixar vencer pelo que ele chama escrpulo de conscincia e que no  seno fraqueza e cobardia. Eu, que nem vises nem agouros abalam,
que sou firme como uma rocha nos meus projectos, deveria ter-me apresentado eu prprio para combater. Praza ao Cu que o escocs o mate logo! Depois da vitria,
era o que podia acontecer de melhor. O que quer que possa sobrevir, no ter outro confessor a no ser eu. O que ele chama os nossos pecados, so comuns a ambos
e era confessar a minha parte tanto como a dele".
Enquanto estes pensamentos se sucediam no seu esprito, continuava a ajudar o marqus a armar-se, mas em silncio.
Chegou a hora, por fim; as trombetas soaram, e os dois cavaleiros entraram na lia armados dos ps  cabea e montados como campees que vo combater pela honra
de um reino. Tinham a viseira levantada e mostraram-se aos espectadores dando trs voltas  arena. Ambos eram de forte compleio, cheios de nobreza, mas via-se
no rosto do escocs um ar de mscula confiana e uma
347
esperana quase entusistica, enquanto Conrado, apesar dos esforos que o seu orgulho fizera para chamar a si a natural bravura, parecia acabrunhado por um desnimo
de mau agouro. At o seu corcel marchava com menos ardor e ligeireza, ao som das trombetas, do que o nobre cavalo rabe que Sir Kenneth montava. O spruchsprecher
abanou a cabea ao ver que enquanto o cavaleiro escocs dava a volta  lia seguindo o curso do Sol, isto  da direita para a esquerda, Conrado fazia o mesmo circuito
"widersinn" 1, isto , da esquerda para a direita, o que  considerado um mau pressgio em muitos pases.
Junto da tribuna ocupada pela rainha, fora erigido um altar perto do qual se viam diversos eclesisticos e o ermita de Engaddi, enxergando o hbito da sua ordem,
isto , uma veste de carmelita. Os padrinhos dos dois campees conduziram-nos para a, alternadamente. Pondo o p em terra, cada um dos cavaleiros proclamou a justia
da sua causa por meio de um juramento solene prestado sobre o Evangelho, e rogou ao Cu conceder a vitria no combate, de acordo com a verdade ou falsidade do juramento
que acabava de prestar. Juraram tambm combater como francos cavaleiros e com as armas usuais, sem recorrer a sortilgios ou talisms, nem ao auxlio da magia, para
alcanar a vitria. Sir Kenneth fez este juramento com voz firme e viril e com ar resoluto e bem-disposto. Quando terminou esta formalidade, levantou os olhos para
a galeria e inclinou-se profundamente como que para prestar homenagem s belezas invisveis que ela continha. Seguidamente, embora carregado com o peso da sua armadura,
saltou ligeiramente para o seu corcel, sem se servir do estribo, e f-lo virar caracoleando at ao ponto que devia ocupar numa das extremidades da lia. Conrado
apresentou-se tambm por seu turno diante do altar, com bastante ousadia; mas, ao pronunciar o juramento, a sua voz era cava e como que sufocada pelo elmo. Quando
pediu ao Cu para conceder a vitria ao partido da justia, os seus lbios empalideceram ao proferir este sacrilgio. Quando se voltou para tornar a montar a cavalo,
o
1  Em sentido contrrio. N. T.
348
gro-mestre aproximou-se dele como para lhe arranjar qualquer coisa, e disse-lhe ao ouvido:
- Louco! Cobarde! Controla-te e trata de combater com bravura, seno, pelo Cu, mesmo que lhe escapes, no me escapars a mim!
O tom selvagem com que pronunciou estas palavras acabou provavelmente por levar ao paroxismo a agitao do marqus, pois que tropeou no instante em que queria montar
a cavalo. No entanto, levantou-se imediatamente, subiu para a sela com a habitual agilidade e fez admirar a sua elegncia ao ir tomar o seu posto na outra extremidade
da lia. Mas este incidente no deixou de ser notado pelos que estavam de sobreaviso para procurar pressgios, e julgaram poder desde j predizer qual seria o resultado
do combate. Os padres, depois de uma prece solene para que Deus concedesse a vitria  causa da justia, saram da arena. As trombetas de Inglaterra fizeram ressoar
uma fanfarra, e um arauto, avanando ao lado do cavaleiro escocs, proclamou em voz alta:
- Eis aqui o bom cavaleiro Sir Kenneth da Esccia, campeo de Ricardo, rei de Inglaterra, que acusa Conrado, marqus de Montserrat, de traio cobarde e desonrosa
para com o dito rei.
Quando as palavras "Kenneth da Esccia" anunciaram qual era o campeo que se apresentava na lia, porque at agora o seu nome era ignorado pela maioria, elevaram-se
aclamaes ruidosas e alegres no meio dos homens de armas e dos oficiais da comitiva de Ricardo e, embora por vrias vezes fosse reiterada a ordem de silncio, elas
dificilmente deixaram ouvir a resposta do marqus de Montserrat.
Como era de prever, Conrado protestou a sua inocncia e declarou que estava pronto a prov-la por meio do combate, com risco da sua prpria vida. Os escudeiros dos
combatentes aproximaram-se ento dos seus amos, entregaram-lhe as lanas e suspenderam-lhes os escudos  volta do pescoo, a fim de que tivessem as duas mos livres,
uma para segurar as rdeas do cavalo e a outra para empunhar a lana.
Sobre o escudo do cavaleiro estavam as suas divisas habituais, um leopardo; mas acrescentara-lhes uma coleira e uma cadeia de ferro quebrada, como aluso ao seu
cativeiro. O do marqus trazia uma montanha escarpada, que recordava o seu nome, "monte serrato". Cada um deles brandiu a sua lana como que para lhe tomar o
349
peso e a fora, e p-la em repouso. Os padrinhos, os arautos e os escudeiros, retiraram-se e eles ficaram frente a frente, com a lana em riste, a viseira baixada
e to bem cobertos pela sua armadura que se assemelhavam mais a esttuas de ferro do que a criaturas de carne e sangue.
O silncio da expectativa tornou-se ento geral; todos pareciam respirar com dificuldade e no se ouvia outro rudo alm do relinchar e do bater dos cascos dos dois
nobres corcis que mostravam a sua impacincia por se lanarem na corrida.
Os dois campees permaneceram assim durante cerca de trs minutos.
Ento, a um sinal dado pelo sulto, cem instrumentos vibraram no ar com os seus clamores guerreiros; os corcis partiram a galope e os campees encontraram-se no
meio da lia, com um embate semelhante ao do trovo; a vitria no foi duvidosa nem por um s instante. Na verdade, Conrado mostrou-se bom guerreiro, porque dirigiu
a sua lana com tanta habilidade e fora que ela embateu no meio do escudo do seu adversrio e partiu-se em bocados. O cavalo de Sir Kenneth recuou dois ou trs
passos e caiu sobre o flanco, mas o seu cavaleiro facilmente o levantou apertando as rdeas. Conrado teve um destino completamente diferente; a lana do cavaleiro
escocs, atravessando o seu escudo, uma placa de ao de Milo, que lhe servia de couraa, e uma cota de malha que trazia por baixo penetrara-lhe profundamente no
peito, derrubara-o do cavalo e quebrara-se deixando um troo na ferida.
Os padrinhos, os arautos e o prprio Saladino, descendo do seu trono, acorreram para junto do ferido enquanto Sir Kenneth, que desembainhara a sua espada antes de
se aperceber de que o seu antagonista no estava em estado de se defender, o exortava a confessar o seu crime.
Tiraram-lhe apressadamente o elmo e Conrado, com os olhos esgazeados e voltados para o cu, disse:
- Que mais quereis? Deus deu a justa sentena; sou culpado, mas existem no acampamento traidores piores do que eu. Por piedade para com a minha alma, dai-me um confessor!
- O talism, o remdio todo-poderoso, meu irmo - disse Ricardo a Saladino.
350
- O que o traidor merecia - respondeu o sulto, era que o arrastassem pelos ps da lia para uma forca, em vez de se aproveitar das virtudes deste talism. E vejo
na sua fisionomia algo que lhe prognostica uma sorte mais ou menos semelhante - acrescentou depois de ter olhado o ferido com ateno. - Pois que, embora a sua ferida
se possa curar, a sombra de Azral paira sobre a fronte deste miservel.
- Rogo-te contudo, meu irmo - disse Ricardo - que faas por ele tudo o que for possvel a fim de que tenha pelo menos tempo para se confessar. No devemos matar
a alma com o corpo. Uma meia hora pode ser para ele mais preciosa do que dez mil vezes a vida do patriarca que mais tempo viveu.
- Os desejos de meu irmo sero executados - respondeu Saladino. - Escravos, levem o ferido para a minha tenda.
- No faam nada - bradou o gro-mestre, que at ento observara o que se estava a passar, mantendo um silncio sombrio. O arquiduque da ustria e eu no consentiremos
que este infeliz prncipe cristo seja entregue aos sarracenos para que experimentem os seus sortilgios nele. Somos seus padrinhos e pedimos que seja confiado aos
nossos cuidados.
- Quer dizer que recusam os meios certos que vos oferecemos para o curar? - disse Saladino.
- De modo nenhum - respondeu o gro-mestre, retomando a sua presena de esprito. - Se o sulto se serve de meios legtimos, pode vir ver o ferido  minha tenda.
- Fazei-o, meu bom irmo - disse Ricardo a Saladino. Fazei-o, peo-vos, embora a permisso seja concedida pouco graciosamente. Mas agora ocupemo-nos de coisas mais
alegres. Soem trombetas; bravos ingleses, uma aclamao em honra do campeo da Inglaterra.
Os tambores, os clarins, as trombetas e os timbales fizeram-se ouvir ao mesmo tempo, e o ar ressoou com as aclamaes ruidosas e regulares usadas em Inglaterra h
sculos, e que, acompanhadas pelos gritos agudos e selvagens dos rabes, teriam podido ser comparadas ao diapaso do rgo no meio dos estrondos de uma tempestade.
Por fim restabeleceu-se o silncio:
- Bravo Cavaleiro do Leopardo - disse Corao de Leo -
351
mostraste que o etope pode mudar a pele e o leopardo as manchas, embora os clrigos citem a Escritura para provar que  impossvel; mas dir-te-ei mais quando te
tiver conduzido  presena das que sabem julgar e compensar melhor os altos feitos da cavalaria.
O Cavaleiro do Leopardo apenas respondeu com uma saudao respeitosa:
- E tu, nobre Saladino - continuou Ricardo -  preciso que as vejas tambm; podes ficar certo de que a rainha de Inglaterra no acharia ter sido bem recebida se
no tivesse oportunidade de agradecer ao nosso hospedeiro o seu acolhimento verdadeiramente principesco.
Saladino inclinou graciosamente a cabea, mas declinou o convite:
- Preciso de ir ver o ferido - disse. - Assim, tal como o campeo no abandona a lia, tambm o mdico no deixa o seu doente, mesmo que fosse chamado para uma estada
no Paraso. Alis, fica sabendo, rei Ricardo, que o sangue oriental no corre com tanta calma como o do Frangisto, em presena da beleza. Que diz o livro a esse
respeito? O seu olhar  como a lmina da espada do Profeta; quem ousar olh-lo? Quem no se quer queimar evita andar sobre carves incandescentes e o homem prudente
no estende a estopa ao p de uma tocha inflamada. Aquele que abandona um tesouro, diz o sbio, no deve virar a cabea.
Ricardo, como  de supor, respeitou o motivo de delicadeza que ia buscar a sua origem em costumes to diferentes dos da Europa, e no insistiu mais:
- Espero - disse o sulto, ao retirar-se - que ao meio-dia todos aceitem uma refeio frugal na tenda de peles de camelo negro de um chefe kurdo.
O mesmo convite foi feito da sua parte a todos os cristos, a quem a sua condio permitia serem admitidos a um festim destinado a prncipes.
- Escutai! - disse Ricardo. - Os tambores anunciam que a rainha e as suas damas saem da galeria, e vede! Todos os turbantes caem por terra como se fossem atacados
pelo anjo exterminador; eis todos os muulmanos prosternados como se o olhar de um rabe pudesse manchar a frescura das faces de uma mulher! Vamos,
352
dirijamo-nos ao pavilho de Berengre e em triunfo conduzamos para a o nosso vencedor. Quanto lamento este nobre sulto, por no conhecer o amor seno como o conhecem
as criaturas de uma natureza inferior  nossa!
Blondel afinou a sua harpa para cantar uma rea guerreira no instante em que o vencedor se iria apresentar diante da rainha. Kenneth entrou na tenda entre os dois
padrinhos, Ricardo e Guilherme Longa-Espada, e ajoelhou-se graciosamente diante de Berengre. embora esta homenagem fosse antes prestada silenciosamente a Edith,
que estava sentada  direita da rainha:
- Vamos, senhoras, desarmai-o! - exclamou Ricardo, que gostava de ver cumpridas todas as prticas da cavalaria. - Que a beleza honre a bravura! Tira-lhe as esporas,
Berengre; embora sejas rainha deves dar-lhe todas as provas de considerao que esto em teu poder. Desata-lhe o elmo, Edith; tirar-lho-s com essa mo embora sejas
a mais orgulhosa Plantageneta da tua raa e ele o mais pobre dos cavaleiros sobre a Terra.
As duas damas obedeceram s ordens do rei: Berengre, com uma afectada solicitude, como se estivesse cheia de zelo e de condescendncia pelas vontades do esposo;
Edith, corando e empalidecendo alternadamente, enquanto lenta e desajeitadamente desatava, ajudada pelo conde de Salisbury, os cordes que apertavam o capacete 
gargantilha.
- E quem esperais vs ver sob esta concha de ferro? - disse Ricardo quando, ao ser retirado o elmo, ficaram a descoberto as nobres feies de Sir Kenneth, animadas
pelo combate que acabara de travar e pela emoo que experimentava neste momento. - Que pensais vs, nobres cavaleiros e belas damas? Assemelha-se ele a um escravo
nbio? Tem ele o ar de um aventureiro obscuro e sem nome? No, pela minha boa espada! Mas aqui terminam os seus variados disfarces. Diante de vs se ajoelhou sem
ser conhecido de outro modo a no ser pelo seu mrito. Aquele que agora se levanta, to distinto pelo seu nascimento como pelo seu valor,  David, conde de Huntingdon,
prncipe real da Esccia.
Houve uma exclamao geral de surpresa e Edith deixou escapar o elmo que segurava na mo.
- Sim, meus senhores - acrescentou o rei.  um facto certo.
353
Sabem que a Esccia no manteve a promessa que nos fizera de enviar este valoroso conde  cabea de uma tropa dos seus mais nobres e bravos guerreiros para nos ajudar
a conquistar a Palestina. Este nobre jovem, que devia comandar os cruzados escoceses, no se conformou em no poder tomar parte nesta santa empresa e veio reunir-se
a ns na Siclia  cabea de alguns fiis e dedicados servidores e de outros escoceses dos quais no era conhecido. Os confidentes do jovem prncipe morreram todos,
 excepo de um velho escudeiro, e o seu segredo, demasiado bem guardado, ps-me em risco de cortar pela raiz uma das mais belas esperanas da Europa. Porque no
vos destes a conhecer, nobre Huntingdon, quando a vossa vida foi posta em perigo por uma sentena ditada pela clera e a precipitao? Suspeitveis vs de ser Ricardo
capaz de abusar da vantagem de ter nas mos o herdeiro de um rei que foi frequentemente seu inimigo?
- No era to injusto para convosco, sir - respondeu o conde de Huntingdon. - Mas o meu orgulho proibia-me que me declarasse prncipe da Esccia para salvar uma
vida que tinha merecido perder ao abandonar o meu posto. Alis, fizera voto de manter o incgnito at ao fim da cruzada, e no o revelei a ningum, a no ser ao
reverendo ermita de Engaddi "in articulo mortis" e sob o selo da confisso.
- Foi ento o conhecimento desse segredo - disse Ricardo que inspirou ao digno homem tais instncias para me fazer revogar a minha cruel sentena. Tinha razo em
dizer que, se este bravo cavaleiro recebesse a morte por minhas ordens, teria querido poder resgatar os seus dias mesmo  custa de um dos meus membros. De um dos
meus membros teria dado a vida para lhe restituir a sua, pois que ter-se-ia podido dizer que Ricardo abusara da situao em que se tinha colocado o herdeiro do reino
da Esccia ao confiar-se  sua generosidade.
- Mas poderemos ns saber por que estranho e feliz acaso Vossa Majestade descobriu por fim esse segredo? - perguntou a rainha Berengre.
- Chegaram-nos de Inglaterra - respondeu Ricardo - cartas que nos informaram, entre outras coisas pouco agradveis, de que o rei da Esccia se apoderara de trs
dos nossos principais nobres que
354
faziam uma perigrinao a Saint-Ninian 1, alegando que o seu filho, que julgava estar nas fileiras dos cavaleiros teutnicos combatendo os pagos da Borssia, estava
na realidade no nosso acampamento e em nosso poder e que, por conseguinte, entendia dever guard-los como refns pela sua segurana. Foi o primeiro raio de luz que
me iluminou sobre a verdadeira condio do Cavaleiro do Leopardo; mas de Vaux, no seu regresso de Ascalon, transformou as minha suspeitas em certeza ao trazer com
ele o escudeiro do conde de Huntingdon, servo de cabea dura, que fizera trinta milhas para revelar a de Vaux um segredo que deveria ter confiado a mim.
- Devemos desculpar o velho Strachan - disse o lorde de Gilsland. - Ele sabia por experincia que tenho o corao um pouco mais terno do que se a minha assinatura
fosse Plantageneta.
- O teu corao mais terno, maa de ferro, calhau de Cumhirrland! - bradou Ricardo. - Ns, os Plantagenetas,  que temos o corao terno. No  verdade, Edith? -
acrescentou, lanando um olhar cuja expresso a fez corar. - Dai-me a vossa mo, bela prima; e vs, prncipe da Esccia, dai-me tambm a vossa.
- Tomai cuidado, sir - disse Edith, dando um passo para trs e procurando esconder o embarao sob um ar de gracejo a expensas da credulidade de Ricardo - recordai-vos
que a minha mo devia servir para converter  f crist os sarracenos e os rabes, Saladino e todos os portadores de turbante.
- Sim - respondeu Ricardo - mas o vento da profecia mudou e agora sopra de um outro lado.
- No brinques, para que os vossos laos se tornem fortes disse o ermita de Engaddi, avanando. - O exrcito do Cu no escreve seno a verdade nos seus brilhantes
registos. Fica sabendo que na noite que Saladino e Kenneth da Esccia passaram na minha gruta, li nos astros que se encontrava nesse momento sob o meu humilde tecto
um prncipe inimigo natural de Ricardo, a quem Edith Plantageneta se devia unir. Podia eu duvidar que fosse o sulto, cuja condio me era conhecida, pois que viera
muitas vezes
1 Famosa abadia perto de Stirling. N. T.
355
visitar-me na minha cela para conversar comigo sobre as revolues dos corpos celestes? Li a ainda que esse prncipe, esposo de Edith Plantageneta, seria cristo.
E eu, fraco e ignorante intrprete, deduzi da a converso do nobre Saladino, cujas boas qualidades pareciam frequentemente inclin-lo para a verdadeira f. O sentimento
da minha ignorncia humilhou-me, mas deu-me tambm certo consolo. No soube ler o destino dos outros; quem me assegura que li bem o meu? Deus no quer que procuremos
descobrir os seus mistrios. Devemos esperar os seus julgamentos nas viglias e nas oraes, no temor e na esperana. Vim aqui como profeta, orgulhoso por poder
ler no futuro, julgando-me capaz de instruir os prncipes e dotado at de poderes sobrenaturais, mas esmagado por um peso que eu pensava s os meus ombros podiam
suportar. Agora parto, humilhado pela minha ignorncia, arrependido mas no sem esperana.
Mal pronunciou estas palavras saiu do pavilho e dizem que, desde esta altura, os seus acessos delirantes tornaram-se menos frequentes, a sua pernitncia tomou um
carcter mais calmo e foi acompanhada pela esperana. H tanto amor-prprio, mesmo na demncia, que a ideia de ter feito to confiadamente uma predio errada pareceu
produzir o efeito de uma sangria para apaziguar a febre do seu crebro.
 intil entrar em maiores detalhes sobre o que se passou na tenda da rainha e procurar saber se David, conde de Huntingdon, ficou to mudo em presena de Edith
Plantageneta como quando era obrigado a desempenhar o papel de um aventureiro obscuro e sem nome. Podemos supor que ele lhe exprimiu ento com todo o ardor adequado,
a paixo que at a achara difcil descrever por palavras.
Entretanto, aproximava-se a hora do meio-dia, e Saladino esperava os prncipes cristos numa tenda que apenas pelas dimenses se diferenava da de qualquer chefe
kurdo ou rabe. Mas sob a sua vasta abbada negra estava preparado o mais faustoso dos banquetes  moda oriental. No nos deteremos a fazer a descrio dos brocados
de ouro e de prata, dos soberbos bordados em arabesco, dos xailes de caxemira e das musselinas das ndias que se viram brilhar na sala do banquete. Falaremos ainda
menos dos manjares acompanhados de arro colorido de diferentes maneiras e dos outros mistrios
356
da cozinha oriental. Cordeiros assados inteiros, "pilaus" de carne de caa e de galinha, eram servidos em grandes travessas de ouro, prata e porcelana, entremeados
com grandes taas cheias de licor arrefecido na neve e no gelo que se tiravam das cavernas do monte Lbano.
Magnficos coxins, amontuados num extremo da mesa, pareciam destinados ao sulto e aos convivas que ele gostaria de honrar particularmente. A toda a volta da tenda
estavam suspensas bandeiras e estandartes, trofeus das batalhas que Saladino ganhara e dos reinos que conquistara. Mas notava-se sobretudo um comprido pano preto,
preso na extremidade de uma longa lana; era a bandeira da morte e lia-se nela esta inscrio: "Saladino, rei dos reis; Saladino vencedor dos vencedores, deve morrer."
Enquanto esperava a chegada dos prncipes seus hspedes, o sulto que, como a maioria deles, no estava isento das supersties do seu sculo, examinou um horscopo
acompanhado por uma explicao que o ermita de Engaddi lhe mandara entregar quando partira do acampamento:
- Cincia estranha e misteriosa - disse para consigo - que ao pretender erguer a cortina que nos esconde o futuro desorienta aqueles que parece guiar e obscurece
a cena que quer iluminar. Quem no teria acreditado que era o inimigo perigoso para Ricardo, cuja inimizade devia ser terminada por um casamento com a sua parente?
E no entanto parece agora que a unio deste bravo conde com esta dama restabelecer a amizade entre Ricardo e o rei da Esccia, inimigo mais terrvel para ele do
que eu; pois que o gato pardo encerrado num quarto  mais perigoso do que o leo num deserto longnquo. Mas - continuou - a conjuno dos astros anunciava tambm
que este esposo devia ser cristo. Cristo! - repetiu aps uma pausa. - Era o que fazia com que aquele louco fantico tivesse esperana que eu renunciasse  minha
f. Mas a mim, fiel servidor do Profeta, esta circunstncia deveria ter-me desenganado. Fica a, estranho e misterioso escrito. As tuas predies so to bizarras
quanto fatais... Ento? O que te tornou to ousado para te apresentares diante de mim sem ser chamado?
Falava assim ao ano Nebectamus, que irrompera pela tenda com um ar de agitao desusada; as suas feies estranhas e desproporcionadas
357
estavam ainda mais repelentes pelo horror que exprimiam, e abria os braos cujas mos de dedos enrugados e descarnados tremiam convulsivamente.
- O que h ento? - perguntou o sulto em tom severo.
- Accipe hoc! 1 - respondeu o ano, respirando com dificuldade.
- Como? Que dizes? - exclamou Saladino.
- Accipe hoc! - disse ainda o ano, cujo esprito estava to perturbado que provavelmente nem notava que repetia as mesmas palavras.
- Retira-te - disse Saladino. - No estou com disposio para ouvir as tuas loucuras.
- No estou louco, ainda que a minha loucura me sirva para ganhar o meu po, pobre miservel que sou - respondeu Nebectamus. - Mas escutai-me, grande sulto, escutai-me!
- Quer sejas louco ou sensato - disse Saladino - se tens qualquer queixa justa a fazer-me, o dever de um rei  escut-la. Segue-me.
Levou-o para um compartimento interior; mas qualquer que fosse o tema da sua conferncia, esta foi interrompida pelo som das trombetas que anunciavam sucessivamente
a chegada dos diferentes prncipes cristos. Saladino recebeu-os com a cortesia que convinha  sua condio e  deles, mas fez um acolhimento particularmente caloroso
ao jovem conde de Huntingdon a quem teve a generosidade suficiente de felicitar pela perspectiva que se lhe abria, embora ela tivesse contrariado e desarranjado
os projectos que ele prprio formara algum tempo antes:
- Mas no julgues, nobre jovem - disse o sulto - que Saladino v com mais prazer o prncipe da Esccia do que Ilderim viu Kenneth quando o encontrou no deserto,
ou Adonebec El Hakim o nbio em desgraa. Uma alma generosa como a tua tem um valor independente da condio social e do nascimento, da mesma maneira que a bebida
refrescante que te ofereo neste momento  to deliciosa num recipiente de barro como numa taa de ouro.
1 Recebe isto.
358
O conde de Huntingdon deu uma resposta adequada  circunstncia e testemunhou ao generoso sulto o seu reconhecimento pelos servios que dele recebera. Mas, quando
acabou de saborear a grande taa de licor que Saladino lhe ofereceu, no pde deixar de acrescentar, sorrindo:
- O bravo cavaleiro Ilderim no conhecia a formao do gelo. mas o magnfico sulto arrefece a sua bebida na neve.
- Querias que um rabe ou um kurdo tivessem a cincia de um Hakim? - respondeu Saladino. - Aquele que usa um disfarce deve fazer concordar os sentimentos do seu
corao e os conhecimentos do seu esprito com o traje que tomou de emprstimo. Queria ver como  que um cavaleiro do Frangisto cheio de bravura e de franqueza
manteria uma discusso com um chefe como o que eu ento parecia, e pus em dvida a verdade de um facto bem conhecido para saber com que argumentos apoiarias a tua
afirmao.
Enquanto falavam, o arquiduque da ustria, que se mantinha um pouco afastado, aproximou-se ao ouvir falar de bebida gelada e pegou com prazer e sem cerimria na
taa que o conde de Huntingdon se preparava para pousar:
- Delicioso! - exclamou, depois de ter sorvido um grande trago que o calor e a orgia que fizera na vspera lhe tornaram duplamente agradveis. com um suspiro, passou
a taa ao gro-mestre dos Templrios.
 Saladino fez um gesto ao ano que se aproximava, pronunciando [em voz estridente as palavras: "Accipe hoc". O templrio estremeceu como um corcel que v um leo
sair-lhe ao caminho por detrs [de uma moita. Contudo recomps-se logo; e provavelmente para [esconder a perturbao, aproximou a taa dos lbios, mas os lbios
[no chegaram sequer a tocar a borda da taa. A cimitarra de Saladino saiu da bainha com a mesma rapidez com que o raio atravessa a nuvem, viram-no brandi-la no
ar por um instante e a cabea do gro-mestre rolou para um extremo da tenda. O tronco permaneceu de p por um segundo, com a mo segurando ainda a taa; seguidamente
caiu e o licor misturou-se com o sangue que jorrava dassuas veias.
I O grito "traio! traio!", fez-se ouvir de todos os lados. O arquiduque da ustria, junto do qual Saladino se encontrava com a
 359
cimitarra ensaguentada na mo, recuou alguns passos como se temesse que fosse agora a sua vez. Ricardo e vrios outros levaram as mos s espadas:
- No receies nada. nobre arquiduque - disse Saladino, num tom to calmo como se nada se tivesse passado de extraordinrio.
- E tu meu irmo Ricardo de Inglaterra, no fiques quase encolerizado com o que acabas de ver. Se matei este celerado, no foi para o punir por todas as suas traies;
no por ter atentado contra os dias de Ricardo, como o pode atestar o seu prprio escudeiro; no por nos ter perseguido, ao prncipe da Esccia e a mim, no deserto.
de tal maneira que no ficmos a dever a vida seno  rapidez dos nossos corcis, nem porque excitou os Moronitas a atacar-nos hoje o que teriam feito se eu no
tivesse trazido, contra a sua expectativa, um nmero bastante elevado de rabes armados para fazer gorar esse atentado; no  por nenhum destes crimes, nem por todos
os seus crimes, que o vs ali estendido, alagado em sangue: foi porque h meia hora, apunhalou o seu companheiro de armas e o seu cmplice Conrado de Montserrat,
com receio de que ele confessasse as intrigas infames que tinham tramado juntos.
- Como! - bradou Ricardo - Conrado assassinado pelo gr-mestre! o seu mais ntimo amigo, aquele que acabava de lhe servir de padrinho! Nobre sulto, no duvido das
tuas palavras, mas este feito deve ser comprovado, sem o que,..
- Eis a testemunha - disse Saladino, mostrando o ano ainda aterrado. - Al, que envia o verme luminoso para nos alumiar  noite, pode descobrir os crimes secretos
pelos meios mais desprezveis...
O sulto relatou ento o que o ano lhe referira. Por um movimento de louca curiosidade ou, como quase confessou, para ver se encontrava alguma coisa a que pudesse
deitar a mo, Nebectamus entrara na tenda do marqus, que todo o seu squito abandonara, tendo uns partido para levar a seu irmo a notcia da derrota e os outros
no pensando seno em divertir-se  custa de Saladino, que mandara distribuir por todo o acampamento provises abundantes. O ferido dormia graas  influncia do
maravilhoso talism do sulto; de modo que o ano pde examinar tudo  vontade.
Contudo, ao ouvir o barulho de passos pesados, ficou assustado e
360
escondeu-se atrs de um cortinado, o que no o impedia, no entanto, nem de ver nem de ouvir tudo o que se passava. O gro-mestre entrou e fechou com cuidado a lona
que cobria a entrada da tenda. Aproximou-se da sua vtima, que acordou em sobressalto, e parece at que o marqus desconfiou imediatamente qual era o projecto do
seu antigo companheiro, porque foi em tom de alarme que lhe perguntou porque  que o vinha perturbar.
"- Venho confessar-te e dar-te a absolvio - respondeu o gro-mestre.
O ano, aterrorizado, s vagamente se recordava do resto da conversa, a no ser ter Conrado suplicado ao gro-mestre que no acabasse de quebrar um junco despedaado
e que o templrio lhe enterrara um punhal turco no corao, pronunciando as palavras "Accipe hoc" que to funda impresso tinha feito sobre a imaginao horrorizada
da testemunha.
- Certifiquei-me da veracidade do feito mandando examinar o corpo do defunto - continuou Saladino. - Ordenei a esta desgraada criatura, que Al mandou servir de
instrumento para a descoberta do crime, para repetir na vossa presena as palavras que pronunciara o assassino, e vs mesmos vistes o efeito produzido na sua conscincia.
O sulto calou-se, e o rei de Inglaterra tomou a palavra:
- Se tudo isso  verdade, como j no duvido - disse - fomos testemunhas de um grande acto de justia; mas por que razo foi necessrio ter ele tido lugar na nossa
presena e por tua prpria mo?
- No era meu propsito - respondeu Saladino. - Mas, se no tivesse precipitado o seu destino, ele teria escapado. Porque se eu o tivesse deixado beber na minha
taa, como  que teria podido, sem violar as leis da hospitalidade, faz-lo sofrer a morte como merecera? Mesmo que tivesse assassinado o meu pai, depois de ter
bebido na minha taa estaria ao abrigo da minha vingana; no teria podido arrancar um s cabelo da sua cabea. Mas j nos ocupmos dele o suficiente. Que o seu
cadver seja afastado dos nossos olhos e esqueamos os seus crimes.
O corpo foi levado, e as marcas ensanguentadas da cena que acabava de se passar foram apagadas ou escondidas com tanta prontido
361
e rapidez, que podemos deduzir que acontecimento semelhante no era assim to raro que os oficiais da casa de Saladino ficassem embaraados ou desconcertados.
No entanto, o espectculo de que acabavam de ser testemunhas pesava sobre o esprito dos prncipes cristos. A insistente convite de Saladino tomaram o lugar que
lhes era destinado  mesa, mas permaneceram mergulhados no silncio da inquietao e da desconfiana. Ricardo foi o nico que pareceu no conservar no seu corao
nem temor nem dvida, nem embarao, porm parecia ele prprio reflectir em qualquer proposta que queria fazer em termos suficientemente agradveis para que ela fosse
aceite. Por fim, esvaindo um grande copo de vinho e dirigindo-se ao sulto, perguntou-lhe se era verdade ter dado ao conde de Huntingdon a honra de ter tido um recontro
com ele.
Saladino respondeu que pusera  prova o seu corcel e as suas armas com o prncipe da Esccia, como tinham por costume fazer os cavaleiros que se encontravam no deserto,
e acrescentou modestamente que, embora o combate no tivesse sido decisivo, no entanto no tinha sido de molde a que dele se pudesse glorificar. O escocs, por seu
lado, contradisse a superioridade que o sulto lhe concedia e quis-lha atribuir:
- No interessa! No interessa! - exclamou Ricardo. - S o recontro te honra j suficientemente e invejo-to mais do que todos os sorrisos de Edith Plantageneta,
embora um nico te baste para recompensar de um combate como o que acabas de ter. Mas que dizeis vs, nobres prncipes? Acham bem que uma assembleia real de cavalaria,
como esta, se separe sem ter feito nada de que se possa falar nos sculos futuros? O que so a confuso e a morte de um traidor para uma grinalda de honra tal como
a que est reunida neste local e que no se deve separar sem ter visto qualquer feito mais digno dos seus olhares? Que pensais, nobre sulto, por que razo vs e
eu, e em presena desta ilustre assembleia, no havamos de decidir a questo to longamente discutida da posse desta terra da Palestina, a fim de pr termo a estas
guerras fatigantes? Temos uma lia j preparada; o Islamismo no poder nunca esperar um campeo melhor que tu; eu prprio lanarei a minha luva como sendo a da
Cristandade, a menos que se apresente algum mais
362
digno, e com toda a honra e amizade defrontar-nos-emos num combate pela posse de Jerusalm.
O sulto permaneceu algum tempo sem responder. Um vivo rubor coloriu-lhe a fronte e a maioria dos convivas julgou estar ele disposto a aceitar o cartel.
- Combatendo pela Cidade Santa - disse, por fim - contra aqueles que consideramos como idlatras, como adoradores de pedras esculpidas e imagens pintadas, poderia
esperar que Al fortalecesse o meu brao; ou, se casse sob a lana de Melec Ric, no poderia alcanar o Paraso por meio de morte mais gloriosa. Mas Al j concedeu
Jerusalm aos verdadeiros crentes e seria tentar o deus do Profeta se, presumindo das minhas foras e dos meus talentos, pusesse em perigo o que tenho como certo
pela superioridade das minhas armas.
- Pois bem - disse Ricardo no tom de homem que estivesse a pedir um favor a um amigo - se no for por Jerusalm que seja pela honra. Faamos ao menos trs assaltos
com lanas embotadas.
- No posso em conscincia satisfazer-vos, nem sequer sobre esse ponto - respondeu Saladino, sorrindo pela insistncia amigvel de Ricardo.
"O amo d um pastor ao rebanho para benefcio do rebanho, e no do pastor. Se tivesse um filho a que pudesse confiar o meu ceptro quando eu deixasse de existir,
teria a liberdade, como tenho o desejo, de me pr  prova nesse nobre recontro. Mas as vossas prprias Escrituras afirmam que quando o pastor  atacado, o rebanho
dispersa-se.
- A sorte foi toda para ti - disse Ricardo, suspirando, para o conde de Huntingdon. - Teria dado o melhor ano da minha vida pela tua meia hora no Diamante do Deserto!
A extravagncia cavalheiresca de Ricardo reanimou a alegria da assembleia; e quando, por fim, se levantaram para se despedir, Saladino aproximou-se de Corao de
Leo e disse-lhe, pegando-lhe na mo.
- Nobre rei de Inglaterra, separamo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. Sei to bem como vs que a vossa liga est dissolvida para no se voltar a reunir e
que as vossas foras sozinhas so insuficientes para vos permitir continuar o vosso empreendimento.
363
No vos posso ceder esta Jerusalm que tanto desejais. Esta cidade  para ns, como para vs, uma cidade santa.
Mas qualquer outro pedido que Ricardo possa fazer a Saladino ser-lhe- concedido to livremente como esta fonte concede as suas guas; sim e Saladino manteria esta
promessa, mesmo que Ricardo se encontrasse no deserto, com dois archeiros como nica escolta.
No dia seguinte, Ricardo regressou ao acampamento, e alguns dias mais tarde, o jovem conde de Huntingdon desposou Edith Plantageneta. O sulto enviou-lhe, como presente
de casamento, o clebre talism. Deveu-se-lhe um grande nmero de curas na Europa, mas nenhuma igualou em celebridade as que Saladino operara. Este talism existe
ainda, pois que o conde de Huntingdon o legou a um bravo cavaleiro escocs, Sir Mungo de Lee, cuja antiga e honrada famlia o conserva cuidadosamente, e embora a
farmacopeia moderna tenha rejeitado o uso das pedras milagrosas, empregam-no ainda como sucesso para fazer parar o sangue e contra a raiva dos ces 1.
Aqui termina a nossa histria.
Em qualquer crnica da poca se podem encontrar as condies do tratado que Ricardo assinou ao abandonar a Palestina.
1  um trao epigramtico sobre as receitas de famlia, to comuns na Gr-Bretanha.
FIM DO TALISM
364

NDICE
Captulo I 5
Captulo II 13
Captulo iii 27
Captulo IV 51
Captulo V 65
Captulo VI 71
Captulo VII 83
Captulo VIII 97
Captulo IX 111
Captulo X 125
Captulo XI 135
Captulo XII 155
Captulo XIII 165
Captulo XIV 175
Captulo XV 185
Captulo XVI 195
Captulo XVII 201
Captulo XVIII 211
Captulo XIX 227
Captulo XX 241
Captulo XXI 259
Captulo XXII 265
Captulo XXIII 277
Captulo XXIV 287
Captulo XXV 301
Captulo XXVI 311
Captulo XXVII 325
Captulo XXVIII 343

Realizado
segundo maquetas originais.
Foi composto em Times New Roman corpo 10
impresso em papel pluma de luxo
e encadernado por
AMIGOS DO LIVRO, EDITORES, LDA. Rua Azedo Gneco, 56 - Lisboa 3

Fim
