Mais que um amigo


Elizabeth Winfrey










Traduo de Joo Alcino Andrade Martins
Editora tica

"Nunca tive um namorado.
Mas isso vai mudar...e rpido.
S preciso encontrar o meu verdadeiro amor antes de Steve achara garota dos seus sonhos. 
 a NOSSA APOSTA, e no posso deix-lo vencer.
Mas por que ao pensar no amor pressinto que est escondido bem debaixo do meu nariz?" pensa Kelly.

RESUMO

UM PERIGOSO JOGO DE AMOR

Para Steve, sua melhor amiga Kelly, tem medo de se aproximar dos garotos. Ela acha que ser rejeitada, sem perceber como  bonita, inteligente e charmosa.
Ento ele resolve lanar-lhe um desafio. At o Baile de Vero, no final do ano, deve arranjar um namorado. Para sua surpresa, Kelly no s aceita, como o desafia 
tambm. Os DOIS devem encontrar uma nova paixo.
 s quando ela comea a sair com Derrick que Steve percebe como foi tolo.
De que lhe adianta ter conquistado a insinuante Claudia, se seus pensamentos jamais se afastam de Kelly?
Por causa de uma aposta inconseqente, corre o risco de perder seu verdadeiro amor...

1 - KELLY

Naquele dia alguma coisa mudou em mim de verdade, e nunca vou saber ao certo por que isso aconteceu. Pode ter sido o cu muito azul ou o cheiro forte e gostoso das 
rosas no ar. Ou porque passei os anos todos do colgio s assistindo de longe aos namorados, enquanto minhas colegas entravam nessa o tempo todo. Talvez porque j 
fazia quase dois meses que no via Chris e por isso me sentisse um pouco perturbada. Ou, quem sabe mesmo, pode ter sido apenas porque eu estava a fim de me apaixonar.
- Voc sabe qual  o seu problema, Kelly Byrne?
- Sim, eu sei. Meu problema  voc me perguntar a toda hora se eu sei qual  o meu problema - respondi a Steve Parson ele, meu melhor amigo e, infelizmente, meu 
crtico mais severo.
- Errou de novo. - ele fez que no com a cabea e deitou-se na grama.
Ns estvamos em um piquenique no Lago Gambler, numa conversa meio sem graa sobre como tnhamos passado s frias de inverno. Isso provavelmente estava aborrecendo 
Steve.
Passar o feriado do Dia do Trabalho no lago era desde muito tempo uma espcie de tradio entre ns. Quando uma pessoa  nossa melhor amiga e vice-versa, certos 
rituais se tornam to importantes que passar por cima deles faz com que ambos se sintam como se algo muito grave estivesse acontecendo. Foi por essa razo que no 
aproveitei a oportunidade de ficar  toa, curtindo com minhas colegas do Acampamento de Vero, e acabei vindo de avio do Minessota dois dias antes do fim do perodo 
de frias.
No estou querendo me fazer de vtima, porque sei que Steve tambm deixou de ir a um passeio de barco com seu amigo Andrew Rice, para passar aquele dia comigo. Por 
outro lado, isso no significava que eu estivesse louca para uma sesso "vamos analisar Kelly". Para deixar bem claro meu tdio, suspirei da maneira mais dramtica 
que pude.
- Certo, doutor Parson. Por favor, ento me esclarea.
Steve sentou-se e tirou da boca o talinho de grama que estava mordendo. 
-Steve: Falando diretamente, voc  tipo de garota que segue ao p da letra a dieta do ch gelado. E, o pior:  sempre sabor de limo, nunca pssego ou morango.
Steve sorriu (meio irnico para o meu gosto) e tornou a deitar-se. Ele se comportava como se tivesse acabado de resolver o problema da fome no mundo, mas para mim 
tudo no passava de um papo-furado confuso sobre ch gelado.
Se eu tivesse um pingo de crebro, trataria de colocar o fone de ouvido de meu walkman e ignorar aquele comentrio. Mas Steve tem essa mania irritante de me encaixar 
na marra dentro de suas teorias.
- Mais alguma coisa - perguntei - Ou voc acha que s preciso parar de tomar ch gelado e, assim, meu ltimo ano no colgio vai me trazer fama, fortuna, beleza e 
um grande e verdadeiro amor?
- AHHHHH!!!!! A senhorita ficou curiosa! - ele dramatizou enquanto falava, olhando pra frente, como se essa conversa estivesse sendo testemunhada por milhares de 
pessoas muito interessadas.
- Na verdade tem mais. Veja, Kelly. Quando vamos ao mercado, temos muitos tipos de bebidas para escolher. Mesmo para quem procura um simples ch,  possvel escolher 
entre dzias de sabores diferentes.
- Sim, e da?
Se eu no apressar Steve enquanto ele fala, poderemos ficar sentados por horas, eu ouvindo e ele dando milhes de voltas em torno de um assunto.
- Ento porque voc nunca escolhe maa, por exemplo? Ou at mesmo manga?
- Nunca ouvi falar que manga fosse um sabor de ch.
- Est certo, mas a questo no  essa. O fato  que voc nunca varia. No diz: "Ei, manga pode ser interessante. Acho que vou experimentar". Em vez disso, segue 
sempre a mesma dieta de ch gelado e faz dele a sua nica companhia.
- Ch gelado no  a minha nica companhia. Voc  que .
Steve pegou a garrafa de ch gelado de minhas mos, j meio vazia, e tomou um grande gole.
- Kelly, eu estou falando por metforas, v se me acompanha no raciocnio.
- Sim, estou acompanhando. Estou acompanhando...
- Em qualquer situao, voc escolhe sempre o caminho mais seguro. Tem medo de tentar coisas novas. Tem vivido a sua vida toda como uma freira que prometeu seguir 
apenas um caminho, e s aquele caminho. Encare a verdade, voc precisa variar.
- Por qu?
- Por qu?, POR QU? Porque se fizer isso, coisas incrveis podem acontecer.
- Por exemplo? - como comentei antes, Steve tem a mania de me meter na marra dentro de suas teorias.
- Voc poderia ser uma inventora, como o cara que inventou o telefone. Poderia ser uma cantora de sucesso. E, o que  mais excitante, poderia se apaixonar. Ou arranjar 
um namorado, ou pelo menos ter um encontro.
Suspirei profundamente. Minha vida amorosa, ou melhor, minha falta de uma, era um dos assuntos favoritos dele. Nos momentos mais inesperados - por exemplo, quando 
estvamos estudando matemtica, eu podia contar com ele para me lembrar de minha existncia sem namorados. "Esta equao  igual a sua vida amorosa, um monte de 
fatores desinteressantes que so iguais a zero."
Sei que estou passando a impresso de que Steve  uma pessoa insensvel e s fala sobre coisas sem graa, mas no  nada disso. Acontece que ele no entende como 
ns, as pessoas normais, levamos a vida. Por normal eu quero dizer aqueles que no tem quase um metro e oitenta, cabelos sedosos e lindos, olhos verdes e um corpo 
absolutamente incrvel. Para quem ainda no adivinhou essa  a descrio de Steve, como meu amigo tambm  chamado, se no citei essa observao antes. Ele tambm 
 muito charmoso e tem um jeito irritante de fazer todo mundo gostar dele logo de cara.
Mas aquilo que ele estava dizendo sobre o medo, na verdade, tinha sentido. Eu sinto medo, em relao a um monte de outras coisas. E, principalmente, convivo com 
o terror da rejeio. Quero dizer, tenho visto tantas garotas chorando no banheiro, com o corao partido por causa de algum cara que decidiu lhes dar um fora bem 
no meio do ptio da escola! Da, quando olho para essas garotas, sempre retocando o batom e saindo para o ptio para se mostrarem de novo disponveis para a tortura, 
experimento a maior simpatia por elas. De Verdade. Mas me pergunto tambm porque  que elas se colocam nessa situao. Ter um namorado  mesmo to bom assim? Vale 
a pena sentir-se to mal toda vez que se v o garoto de quem se gosta colocar o brao em volta de outra garota? Eu acho que no, de jeito nenhum!
Sou o que minha me costuma chamar de Dona Arrepiandinha. Ela quer dizer com isso que no deixo ningum chegar muito perto, papo de psicologia popular. Mas sempre 
digo a minha me que odeio psicologia popular. Ter todo mundo rotulado bonitinho, como se fosse apenas uma caixa de absorventes ou de lminas usadas descartveis, 
me parece uma coisa desumanizadora. Ns somos todos indivduos diferentes, e at mesmo excntricos. Por que reduzir nossa vida a uma definio que se pode ser encontrada 
num dicionrio ou numa enciclopdia.
Como Steve estava dizendo, sou muito travada pelo medo. Mas, pergunto de novo, quem no ?
- Medo, ? - Apertei os olhos e encarei Steve.
Ele tinha voltado de um perodo na fazenda de seu av. Eu no pude deixar de notar que o trabalho na fazenda tinha feito maravilha por seus msculos do brao e do 
peito. Se, ao menos, ensinar jazz a um bando de meninas de dez anos pudesse fazer o mesmo por meu corpo!
Steve concordou muito srio.
- Olhe para si mesma. Voc tem dezessete anos e nunca namorou. Tem certeza de que quer passar seu ltimo ano de colgio sozinha?
Assim j era demais! Agora era a hora de virar o jogo.
- E voc, Steve? Est certo que voc tem uma coleo de namoradas, dessas que vai pegando por a afora, de qualquer jeito. Vai me dizer, que quando est no seu carro, 
com uma dessas garotas, voc no se sente sozinho, solitrio?
- Pelo menos estou tentando arranjar companhia.
- EU TAMBM tento...apenas no tenho o mesmo sucesso.
Steve deu um risada.
- Voc colocou isso na sua cabea e no muda. O seu prncipe encantado poderia vir, com seu cavalo branco e tudo o mais,que voc o deixaria passar.
- No  bem assim no.
Infelizmente, quanto mais essa conversa se prolongava, mais eu sentia que Steve estava levantando uma questo importante. Como desejava que ele fosse direto a questo 
e depois me deixasse comer meu sanduche em paz!
- Prove ento.
- Provar o qu?
Perguntei desviando o olhar para o cho, j arrependida por ter prolongado aquela conversa. At comecei a pensar em algumas piadas sobre garotas de dez anos a quem 
ensinaria jazz. Faria qualquer coisa para que Steve deixasse de lado os assuntos pessoas.
- Mostre-me que voc quer mesmo se apaixonar.
- Como?
- Ora como? Se apaixonando,  claro.
- Steve, isso no  como tirar um dez em histria. A gente no sai simplesmente por a e se apaixona porque quer.
- Como voc sabe, se nunca tentou?
O papo j estava ficando ridculo. Steve no iria desistir, e eu j estava me sentindo envergonhada. Ele adorava me ver em situao embaraosa. Por algum motivo 
achava isso uma demonstrao de afeto. Eu achava humilhante.
- Esquea.
Disse com firmeza e mordi meu sanduche e liguei meu i-pod. Se no prestasse ateno nele, talvez Steve acabasse desistindo.
Steve se aproximou e tirou meus fones de ouvido. Ainda pude ouvir a voz de Aretha Franklin abafada e meio estridente saindo dos fones.
- Preste ateno no que eu vou falar Kelly. Eu DESAFIO voc a se apaixonar.
J tinha percebido antes que virar o jogo contra ele acabava dando errado. Mas que chance eu tinha? Fiz uma tentativa desesperada.
- Est certo! Pois eu desafio VOC a se apaixonar. E no estou me referindo a um namorico de duas semanas com a garota que trabalha no Pizzas Hut, no t?
De repente fiquei animada, pensando em todas as condies que poderia impor sobre o romance de Steve.
- Nem estou falando de alguns encontros com a Sarah Fain, aquela peituda nanica. Estou falando de COMPROMISSO. Um encontro de personalidades.
Ele deu de ombros.
- Est certo. Voc conseguiu.
- O qu?
Eu no esperava que ele realmente aceitasse isso tudo. Contava apenas obter um recuo de Steve e uma chance de esquecermos toda aquela conversa.
- Eu desafiei voc. Voc me desafiou. Aquele que conseguir vence.
Sua expresso era muito sria, mas eu ainda tinha esperana de que a idia toda fosse uma brincadeira.
- Voc quer mesmo que nos desafiemos mutuamente a nos apaixonar?
- Por que no?
Perguntou ele, cruzando os braos e ainda srio.
Confesso que, para minha surpresa, eu estava comeando a me interessar pelo assunto. Quem sabe Steve no tinha razo? Talvez j fosse tempo de Kelly Byrne mostrar 
aos garotos, ou ao menos a um dos garotos do colgio Jefferson, do que ela era capaz. Alm disso era nosso ltimo ano do segundo grau. Se desse uma mancada, o pior 
que poderia acontecer seria ter de sofrer pelo resto do ano, e depois o jeito seria nunca mais mostrar minha cara nas reunies. De qualquer modo, eu provavelmente 
no iria mesmo as reunies de turma do colgio. Mas se quisesse continuar com a idia maluca de Steve teria de fazer direito. 
Eu no estava disposta a correr o risco de ter meu corao magoado s para encarar um desafio do meu amigo.
Ento concordei, balanando a cabea lentamente.
- Voc est certo.
- Estou?
Pela primeira vez ele me pareceu um tanto inseguro.
- Claro que est. Mas vamos fazer disso uma aposta.
Os olhos de Steve se iluminaram. Ele adora apostar.
- Agora voc sacou o lance, Kelly. Vamos fazer uma aposta das grandes.
Eu estava deitada, apoiada nos cotovelos e ento me sentei.
- Alguma idia?
- O perdedor tem de preparar o almoo do vencedor por um ms?
Balancei a cabea negativamente. Se a gente ia entrar nessa de desafio, ento precisvamos fazer da forma correta. Se ganhar no tivesse muita importncia, provavelmente 
ns dois deixaramos a aposta de lado e logo voltaramos a nosso antigo comportamento.
Ele tentou de novo....
- Que tal o perdedor ter de limpar o quarto do vencedor uma vez por semana, durante um ano?
- Isso no seria muito justo. Eu sou uma verdadeira manaca por arrumao, e voc, um bagunceiro.
- O perdedor dever usar uma placa com as palavras "chute-me" por uma semana.
- No. Isso no seria muito original.
- Cinqenta pratas?
- AH, qual  Parson? Voc pode fazer melhor que isso!
Steve deitou-se na grama de novo, espreguiou-se e fechou os olhos por causa do sol.
- Me deixe pensar um minuto. Vou fazer uma proposta que vai deixar o cabelinho da sua nuca arrepiado.
Eu me deitei de bruos, apoiando a cabea nos braos. Estava a fim de descansar meus olhos e pretendia pensar em uma aposta legal, mas tinha problemas para me concentrar. 
Ento, enquanto Steve pensava, deixei a imaginao correndo solta.
Eu me vi, no primeiro grande jogo de futebol do ano, segurando uma bandeira do Jefferson. Assistia a tudo, enquanto meu annimo verdadeiro amor caminhava pelo campo. 
Ele se virava olhando a platia, at que seu olhar encontrasse o meu. Ento faria o sinal de positivo para mim, antes de chamar seu time para o comeo do jogo.
Ri da idia. Jogadores de futebol no fazem o meu tipo.
Ento eu me vi no palco, danando o lago do cisne. Ao final da apresentao, trs dzias de rosas vermelhas eram lanadas aos meus ps. Em meus sonhos, eu sorria 
ternamente e lanava um beijo a meu maravilhoso namorado. Esta seria uma cena muito linda, com um detalhe: o Lago do Cisne est totalmente superado.
Steve sentou-se de repente e bateu palmas.
- J sei! Se voc est querendo mesmo um desafio, acaba de conseguir um.
Eu me ergui, apoiando-me nos cotovelos.
- Ento me diga.
- Est certo. Se perder, voc ter de cortar o cabelo bem curto e tingir de loiro oxigenado - Props, me olhando e mexendo as sobrancelhas.
- O QU????? - gritei.
Steve devia estar maluco. Ele sabia muito bem que o cabelo era meu nico ponto forte, cheio, escuro e comprido. Quase sempre quando estava no banheiro do Jefferson 
e alguma garota de cabelos ralos entrava, ela suspirava de inveja quando olhava para meus cabelos. Essa era minha nica vaidade, e Steve queria tir-la de mim?
Acho que ele percebeu minha indignao.
- O que foi Kelly? Voc tem tanta certeza assim de que vai pedir?
Como odeio o orgulho! O orgulho obriga a gente a fazer cada bobagem! Naquele caso foi o orgulho que me fez concordar com os termos de Steve.
- Tudo bem, senhor Invencvel. E o que acontece se eu ganhar?
- Simples, eu terei de furar minha orelha.
- AHHH, no!!! De jeito nenhum! Voc est falando toda hora sobre furar a orelha. Isso no conta.
- Est bem. Ento pense em alguma coisa.
No costumo ter momentos de brilhantismo, mas quando acontecem so muito inspirados mesmo. Aquele foi um de meus pices de inspirao.
- Se eu ganhar a aposta, ento, VOC, Steve Parson, ter de cortar o cabelo com a inscrio da palavra "perdedor". Para facilitar o acordo eu mesma farei o corte. 
- disse, lanando minha proposta.
Ele no pareceu muito contente com a idia de ter o cabelo cortado de forma a proclamar ao mundo em alto e bom som que era um perdedor. Mas Steve no recuaria agora. 
No  de seu estilo.
- Vamos selar o acordo.
Ento apertamos as mos solenemente, e foi quando me lembrei de que nosso acordo no dizia nada sobre o prazo.
Imaginei que precisssemos de tempo suficiente para nos apaixonar, mas no tanto tempo at estarmos como dois velhinhos gags, quando fssemos comparar as respectivas 
anotaes.
Parece at que Steve leu meus pensamentos.
- Nosso acordo vai at o Baile de Vero. Aquele que aparecer primeiro com seu verdadeiro amor vence a parada.
Um novo pensamento me ocorreu.
- Ei, e o que acontece se ns dois nos apaixonarmos?
Ele se ergueu e me deu um tapinha na testa.
- Ento ns dois vencemos. D empate.
Enquanto Steve e eu guardvamos a comida, a manta e nosso material de leitura, comecei a experimentar uma estranha sensao de frio no estmago. Nos prximos meses 
iria precisar mais do que trabalho duro e uma boa dose de sorte. Eu precisaria de um milagre...

2 - STEVE

Na tera-feira de manh eu me levantei com um pensamento na mente: "Mas que aposta estpida eu fiz com a Kelly" . Nunca teria proposto a coisa toda se imaginasse 
que ela iria at o fim. Mas toda vez que penso que posso prever cada movimento de Kelly ela decide fazer algo inesperado. Da agora eu tinha de me apaixonar.
Analisando assim superficialmente, pode-se pensar que a tarefa seria mais fcil para mim do que para Kelly. Afinal de contas, nunca tive problemas para arranjar 
encontros, sou confiante e nem um pouco tmido. Kelly, ao contrrio,  muito fechada. Ela  uma das garotas mais bonitas da escola, seno a mais. S que, quando 
algum lhe diz isso, sua resposta  um "obrigada" e ela sai pensando que o cara est louco. Ela escapa pela tangente e fala sobre favorecimento, condescendncia 
masculina e homens que pensam que podem fazer uma mulher se sentir bem dizendo a ela alguma coisa que  obviamente mentira. O que posso dizer? Minha melhor amiga 
tem um complexo.
Mas agora que ela estava decidida a se apaixonar, eu tinha certeza de que cumpriria o trato. Kelly sempre batalha para conseguir seu objetivo. Eu havia lanado um 
desafio, e ela ficaria pensando sobre o caso at ter um plano. Diferente de mim, que no tenho nem idia de como elaborar um.
Kelly provavelmente procuraria em sua sala de aula e, batendo os olhos em algum panaca, se apaixonaria por ele. Enquanto isso, eu estaria empacado no banco traseiro 
do meu carro, lugar predileto para Kelly me imaginar com as garotas, com algum muito legal, mas que na verdade no se importaria se eu estivesse vivo ou morto. 
E, para coroar isso tudo, a palavra "perdedor" estaria gravada em meu corte de cabelo esquisito. 
Enquanto andava na escola, naquela manh ensolarada de tera-feira, eu procurava Kelly no ptio. Quem poderia saber? Talvez ela tivesse acordado recusando a coisa 
toda tambm. Se fosse assim, eu concordaria de imediato, e ela nunca precisaria ficar sabendo que minha confiana tinha sido abalada. Mas, por azar, ela no estava 
l...
Ela provavelmente estaria fazendo um cronograma para o seu primeiro encontro, o seu primeiro beijo e o primeiro "Eu te amo" .
E, conhecendo Kelly, sabia que ela ia adiar o "Eu te amo" at momentos antes de entrar no salo do Baile de Vero com seu amado. Ela tem uma queda por cenas dramticas.
Eu tinha comeado a subir o quarto andar, contando os degraus dos lances de escada, a caminho de minha nova sala, quando Andrew Rice, meu melhor amigo depois de 
Kelly, se aproximou. Eu no o via fazia bastante tempo, j que faltei a nosso passeio de barco.
- Oi Parson. Achou algum anjo na fazenda?
- No, mas encontrei um po-duro, que  o meu av. Ele me pagou cem pratas. Depois de eu ter dado um duro danado o ms inteiro.
- Bem vindo ao mundo real. Por isso  que trabalho para o meu pai.
O Senhor Rice  advogado, e todas as frias Andrew trabalha no escritrio dele. Passa a maior parte do tempo tirando cpias e enviando mensagens por fax. Se estivesse 
no lugar dele, eu ficaria doido.
Chegamos ao ltimo andar. Com uma certa satisfao, percebi que Andrew estava bufando e sem muito flego. meses dentro de um escritrio debaixo de luz fluorescente 
e ar condicionado no deixam ningum com muito pique.
- No olhe agora. Debbie Jackson a sua direita.
Disse Andrew me cutucando.
Suspirei. Debbie tinha sido minha namorada por um ms durante o outono passado. Gostei bastante dela no comeo,mas depois de certo tempo ela estava me deixando doente. 
O jeito dela de falar...parecia que estava sempre perguntando alguma coisa. Mas quando fazia uma pergunta o tom de voz soava como uma afirmao. eu me sentia num 
daqueles jogos de programa de televiso com perguntas e respostas.
Ainda pensei em me agachar atrs de um armrio, mas j tinha sido visto.
- Oi, Steve? - Ela falou, me beijando no rosto. Percebi que estava mais bonita do que no ano passado. Tinha cortado curto o cabelo loiro, e sua franja caa sobre 
os olhos de um jeito bel legal.
- Oi, Debbie.Como passou as frias?
Pensei que poderia estar errado sobre Debbie. Talvez ela fosse meu verdadeiro amor, e eu tivesse me enganado por sua forma de falar. Talvez no tivesse percebido 
isso antes.
- Foi muito bom. Eu trabalhei em uma butique. E voc?
Naquele momento soube que no havia futuro para mim e Debbie. Podem me chamar de maluco, mas gosto de uma conversa que no seja inteiramente irritante para mim. 
Pude sentir Andrew a meu lado se segurando para no dar risada. Considerando a maturidade, ele est no mesmo nvel de Barney, o vizinho de Fred Flinstone nos desenhos 
da TV.
- Foi bom. Bom. - Respondi olhando para o relgio. - Caramba! O primeiro sinal j vai bater, e o senhor Maughn  o nosso orientador.
- Eu entendo. Ele foi meu orientador no segundo ano. - ela ento falou virando-se para ir embora - Voc gostaria de sair um dia desses?
- Andrew: Sim pode ser - Adiantou-se Andrew respodendo por mim. No foi legal, mas no consegui segurar um incio de risada. Minha prpria maturidade parece que 
me faltou quela hora.
Debbie deu uma olhada meio estranha para ns e foi embora para o ptio.
Sentei-me em uma carteira no fundo da sala do Sr. Maughn e fiquei pensando. Eu tivera encontros com algumas garotas muito legais mas tambm sara com outras que 
ainda nem deveriam andar sozinhas pela rua, quanto mais ser minhas namoradas.
- Cara, no tem nenhuma garota que valha a pena nessa escola. - Reclamei com Andrew.
Andrew fez que no ligava encolhendo os ombros.
- Voc lembra de quando estvamos no primeiro grau. Parecia que todo o segundo grau estava cheio de garotas bonitas e excitantes. Pelo jeito elas todas devem ter 
se formado h muito tempo.
- Steve, eu acabei de fazer uma lista de vinte tremendas gatas, com as quais eu gostaria de sair e ter um encontro esse ano. Como  que voc vem me dizer que aqui 
no tem garota bonita?
Eu balancei a cabea negativamente.
- Estou falando de algum especial. Alguma garota por quem eu pudesse me apaixonar.
- Apaixonar? AHHHH, d um tempo cara... - Andrew me disse isso, e voltou para a sua lista de nomes.
Dei uma olhada no caderno para ver a lista.  medida que ia lendo os nomes, ia fazendo mentalmente o cruzamento com a minha relao de garotas com quem j tivera 
um encontro. Quando cheguei ao nmero onze, meus olhos se arregalaram.
- Kelly?
Pronunciei quase me engasgando.
- Claro. - Andrew confirmou - Ela preenche todos os meus requisitos. - E desenhou um asterisco ao lado do nome de Kelly.
Fiquei contemplando a lista fixamente. Ele tinha colocado o nome de Kelly entre os de Amanda Wright e Carrie Starks. Inacreditvel! No que eu no ache Kelly atraente, 
inteligente e outras coisas mais. S que o fato de ver o nome dela includo em uma lista com outras intenes me incomodou. Era com se Andrew no entendesse que 
Kelly era um caso especial. Ela no  do tipo que se coloca em uma lista feita s pelo teso de sair com uma garota gostosa. Ela  uma pessoa.
- Voc  um babaca. - desabafei - Faz idia de como ela ficaria furiosa se soubesse disso? - Perguntei, pegando a folha de papel e sacudindo na frente de seu rosto.
Ele deu de ombros.
- Eu pessoalmente duvido que Kelly esteja preocupada em como eu gasto meu tempo durante as palestras de orientao, antes do incio das aulas. - ele disse, olhando 
para mim e levantando as sobrancelhas. - VOC  o nico que parece se importar com isso, Parson.
- O que voc quer dizer?
- Que voc est com cimes. - Respondeu ele estalando so dedos.
- Voc pirou. - respondi.
H anos que eu tenho esse problema de as pessoas me provocarem sobre eu curtir uma paixo secreta pela Kelly. Mas nunca nenhuma dessas idiotices me perturbou.
Naquele instante tocou o segundo sinal. pulei para o meu lugar vendo o sr.Maughn tirar um mao de documentos de dentro da pasta. Ele pigarreou e comeou seu discurso 
sobre os males de chegar atrasado e perambular pelos corredores. Depois de trs anos de colgio esse era o tipo de conversa a que no era preciso prestar muita ateno.Se 
algum j ouviu um desses discursos sobre o primeiro dia de aula, conhece todos.
Eu podia sentir meu rosto ficando vermelho enquanto pensava no que Andrew tinha dito. Est certo que sempre fui bastante paternalista quando o assunto era Kelly. 
Mas isso porque eu sei como so os caras. E no quero que ningum fique falando dela do mesmo jeito sacana e grosseiro como falam sobre as outras garotas.
Depois de alguns minutos, Maughn terminou seu discurso de boas-vindas ao colgio Jefferson. Ento deu incio a chamada dos alunos pela lista, outra coisa muito chata 
do incio das aulas. L pelo meio da letra D a porta abriu com um estrondo. Pude perceber pelo rosto de Maughn que ele no gostou. Os professores sempre acreditam 
que, se conseguirem controlar os alunos no primeiro dia de aula, ento podero passar o resto do anos sem enfrentar maiores problemas. Claro que Maughn detestou 
ver seu "plano A" em relao a disciplina ir por gua abaixo.
Virei a cabea para olhar quem estava entrando. Ela deu alguns passos para dentro da sala e parou como se no estivesse certa de poder entrar. carregava um monte 
de cadernos que pareciam prestes a cair a qualquer momento.
Seu cabelo loiro e comprido estava preso por um rabo de cavalo meio frouxo, mostrando o queixo muito bonito e os olhos arredondados. Vestia mini-saia e uma camiseta 
listrada de alas. Suspeitei profundamente, absorvendo os efeitos de olhar para aquela pernas bronzeadas. De repente a lista de Andrew era a ltima de minhas preocupaes.
-Nome?- Rosnou o Maughn.
A garota deu uma olhada pela classe como se estivesse procurando por amigos. Cruzamos nossos olhares. Por uma frao de segundos ns nos encaramos. Ento eu sorri.
- Rebecca Foster. - Respondeu ela, calma e indiferente ao fato de que toda a classe havia parado por causa dela. Acho que percebeu bem a situao e deve ter concludo 
que no havia motivo para se sentir intimidada.
Maughn correu o dedo pela lista.
- Foster, Foster... - murmurou para si mesmo - Sabe que horas so, senhorita Schmith?
Ela deu uma olhada para o relgio na parede atrs da mesa do Sr.Maughn...
- HAmmm...nove e dezoito?
- Sim. - concordou ele - O horrio de entrada e s oito e cinqenta e cinco. Qual  a sua desculpa?
Ela andou at a frente da classe e entregou a ele um papel verde.
- Eu estava na secretaria da escola por causa de minha transferncia.
Maughn pareceu alvoroado, a classe inteira permanecia quieta. Existe alguma coisa nas mulheres muito bonitas que leva as pessoas a parar de conversar e prestar 
ateno nelas.
- Ento est certo. - concordou Maughn - Por que no se senta? Mais tarde eu passo as instrues que voc perdeu.
Rebecca armou um sorriso gracioso e deslizou para uma carteira na primeira fila. Ficou olhando direto para o Sr.Maughn como se ele fosse um grande sbio a revelar 
os segredos da vida. Praguejei comigo mesmo por ter escolhido um lugar to no fundo da sala.
Maughn pegou sua lista e continuou de onde havia parado, mas com uma voz mais descontrada e amistosa. Acho que ele resolveu mudar para o "plano B": faa com que 
os garotos amem voc e eles ficaro contente por se comportar direitinho.
Eu estava to concentrado analisando a nuca de Rebecca que Maughn precisou chamar meu nome duas vezes. Pode ter sido minha imaginao, mas juraria que Rebecca at 
se endireitou na cadeira quando pigarreei e respondi  chamada.
Andrew enviou um bilhete curto e direto: "Garota linda  sua frente". Fiquei encabulado, rasguei a folha e coloquei os pedaos no bolso. No permitiria que ele transformasse 
Rebecca em apenas mais um nome de sua lista. Achei nela alguma coisa especial. E o friozinho no meu estmago avisava que ela seria minha. Logo.
Passei o resto da aula pensando muito. Como eu chegaria at ela? Deveria ser forte e agressivo? Ou calmo e educado? Como no sabia nada sobre a garota,era difcil 
planejar a proximao. No fazia a menor idia da espcie de cara com quem ela namorava.No sabia se era do tipo que gosta de msica, de praticar esportes, ou romntica. 
E tambm no sabia se tinha algum namorado. Em silncio, rezei para que ela tivesse sido transferida de um lugar bem longe, porque assim o namorado no seria um 
problema.
No so muitas as pessoas que deixam passar a oportunidade de ter um bom relacionamento com algum s por causa de um namorico  toa.  o que chamo de sndrome dos 
acampamentos de vero. A pessoa vai acampar, ento conhece algum, e todas as noites trocam beijos debaixo de uma arvore ou em uma canoa. Terminado o vero, os dois 
declaram seu amor um pelo outro e dizem que at o prximo acampamento do ano que vem o tempo vai passar voando. Depois de poucas cartas e um ou dois telefonemas 
meio embaraosos, a coisa toda cai no esquecimento.no ano seguinte os dois vo achar que j esto muito velhos para o acampamento de vero. Sim, estou falando por 
experincia prpria. No entanto, nunca me esqueci das noites estreladas que passei ao lado de Elaine Mason. 
Minhas ruminaes sobre Rebecca e os romances desastrosos dos acampamentos de vero no estavam me levando a lugar algum. Ento decidi voltar a ser eu mesmo - ou 
mais ou menos isso - e esperar que o melhor acontecesse. Esta  a ttica que normalmente uso com as garotas. No segundo ano do colegial conheci uma garota na pista 
de atletismo, Gna Roslin, e ento lhe disse que era praticamente avanado em salto de vara. Ela pediu uma demonstrao, e quase quebrei o queixo quando cai de cara 
no colcho duro. A experincia (assim como algumas palavras sbias de minha amiga Kelly) me deixou ciente de que as mulheres, em sua maioria, so muito espertas 
para conferir as informaes. E, assim que descobrem uma jogada em falso, elas caem fora. 
Quando o sinal tocou, continuei em minha carteira. Ainda estava indeciso sobre me aproximar ou no de Rebecca. Ento ouvi o Sr.Maughn pedir que ela ficasse um pouco 
mais para que ele pudesse repetir as normas sobre a rotina do colgio Jefferson. Essa era a minha chance para fazer um primeiro contato simptico com ela.
Antes de seguir atrs de Andrew, dei uma ltima olhada na direo de Rebecca. Ela sorriu e fez um movimento disfarado, mexendo com os ombros. Senti um calafrio. 
Naquele exato momento tive a certeza de que ganharia a aposta com Kelly.
E era ela quem estava me esperando no saguo. Ns assistamos a aula de fsica juntos no primeiro perodo.
- Sobre a nossa aposta... - Kelly comeou a falar.
Levantei a mo interrompendo a frase.
- Nem pense em desistir, Byrne. - cortei - Acabei de encontrar a garota dos meus sonhos. Voc j pode ir preparando a tesoura e a gua oxigenada.
Ela fez uma cara de surpresa.
- Ahh, eu no ia desistir. S queria dizer que o nosso acordo deve ser colocado por escrito. E nem pense em inventar um jeito de se livrar.
- Que o melhor romance ganhe. - concordei.
Enquanto voltamos para a sala eu mal podia esperar at nossa prxima aula de orientao.

3 - KELLY

Eu sabia que, mesmo em um dia que estivesse de bom humor, odiaria ter fsica nas primeiras aulas. Nos prximos seis meses, logo de manh, estaria lidando com equaes 
confusas e experincias de laboratrio chatas. Acho que ningum deveria ter de encarar assuntos como matemtica ou coisa parecida antes do almoo.
Sentada, ouvindo a voz da Sra. Gordon para l e para c resmungando alguma coisa sobre velocidade, eu olhava para o rosto de Steve. A expresso dele variava como 
se estivesse meditando sobre algum fato que tivesse achado realmente interessante. Pressenti que pensava sobre a nossa aposta, e a maneira arrogante com que se sentava, 
com os ombros jogados para trs, me provocou uma sensao de mal-estar.
No era justo. Steve sempre tinha muita sorte e eu, no. Uma vez ele tinha me convencido a ir junto com ele e sua av a um bingo em um centro para pessoas da terceira 
idade. No fim da noite, Steve havia ganho uma boa grana. Quando finalmente consegui vencer uma rodada, o prmio no era em dinheiro, mas uma daquelas camisetas com 
a inscrio: "Minha v esteve nas cataratas do Nigara e tudo que ela me trouxe foi esta camiseta vagabunda". Depois daquela noite, toda vez que a av dele estava 
por perto, ele insistia para que eu usasse essa camiseta. E ainda por cima verde-limo NO  uma das minhas cores preferidas!
Quando o sinal tocou, a Sra. Gordon ainda resolvia o primeiro conjunto de questes. Tinha tanta coisa anotada que dava a impresso de que a gente estava escrevendo 
um tratado.acho que  assim mesmo que se parecem todos os problemas fsicos.
Antes de sairmos da sala, Steve me passou um pedao de papel que estivera rabiscando durante a aula. Tinha desenhado a si mesmo dentro de um grande corao e eu 
do lado de fora, tentando lanar uma flecha. Sobre a cabea da minha figura estava um balo com a inscrio: "As de cabelos vermelho intenso se divertem mais".
- R,r, r.- disse secamente - Voc vai ficar s pensando nessa aposta idiota durante os prximos quatro meses? 
Steve arreganhou um sorriso meio safado e me deu um tapinha nas costas.
- Claro que no. Logo, logo vou estar apaixonado que no vou ter mais muito tempo para curtir a minha vitria. - Respondeu dando um puxonzinho em meu cabelo, e 
foi embora.
Arrastei para meu armrio aquele enorme livro de fsica que mais parecia de chumbo. Mal tinham dado s dez horas, e o dia j estava com cara de ser o pior de toda 
a minha vida no colegial.
Fechei a porta do armrio com tanta fora que, alm do barulho, fiz chacoalhar todo o conjunto de madeira em volta.
- Mal dia no trabalho, querida? - comentou uma voz sacana, se fazendo de meiga.
- Ellen....Liguei pra voc umas cinco vezes ontem.
- Desculpe. Meu pai insistiu para que ns visitssemos o Museu de Cera, quando voltvamos de Monterrey. Da demoramos mais meio dia andando de carro e s chegamos 
tarde da noite. Meu traseiro ainda est adormecido de tanto tempo que fiquei sentada.
Dei uma risada e a abracei forte. Depois de Steve, Ellen Frazier era a minha melhor amiga. Muito alta, magra e morena, ela tinha aquele olhar perdido que se v nas 
modelos de revistas de moda. Era, porm, muito realista e no se considerava nada de especial. Ao contrrio, chegava mesmo a se achar um tanto esquisita por no 
ter muito seio.
- Ento, como foi a reunio da famlia Frazier? - perguntei.
Ela olhou para o teto e juntou as mos como quem reza:
- Meu pai e meus tios ficaram trs dias competindo para ver quem era o melhor pescador. A noite eles jogavam xadrez at tarde, e isso provocava chiliques em minha 
me. Enquanto isso, meus priminhos a toda hora precisavam trocar as fraldas. E adivinhe quem  que sobrou para tomar conta dos pimpolhos?
- Em outras palavras, foi exatamente como voc esperava.
Peguei um pente de dentes largos em meu bolso. A umidade estava fazendo com que meu cabelo ficasse todo crespo e, se no cuidasse dele, iria acabar parecendo que 
tinha um vassouro na cabea. Ellen segurou meu livro de historia para que eu pudesse me pentear direito. Fazia mais de dois anos que a gente fazia essas mesmas 
coisas.
- Sim, foi exatamente como eu pensava.- ela confirmou - Mas aconteceu uma surpresa legal.
- J sei, voc se apaixonou pelo seu instrutor de equitao - arrisquei, pegando de volta o livro de historia.
- Muito melhor. - respondeu ela, com um sorriso malandro.
Como naquele momento se apaixonar era um assunto da maior importncia para mim, no consegui imaginar o que poderia ser melhor.
- O qu? - perguntei.
- Em duas palavras. Suti Maravilha. Minha tia me deu um.
- Voc  uma doida. - suspirei.
- No sou mais. Com esses truques de mulher, eu finalmente vou ter aquilo que mereo. - retrucou Ellen, faiscando com olhos verdes.
Comeamos a caminhar pelo saguo. Olhei para ela e, at onde podia perceber. Ellen parecia a mesma.
- No quero ser desmancha-prazeres, mas no estou notando nenhuma diferena.
- Bem,  que no estou usando agora. Hoje de manh fazia tanto calor que eu no estava a fim de todo aquele enchimento colado no corpo. Mas deixa estar, quando o 
outono chegar vou mandar ver.
Dei uma risadinha. Ellen sempre arranjava um jeito de fazer com que at o argumento mais furado parecesse totalmente lgico. Essa era uma das coisas que eu adorava 
nela.
- Tenho certeza de que voc vai fazer inveja na Dolly Parton - concordei, lembrando a cantora peituda, rainha da musica country.
Estvamos indo para a aula de redao, que era uma das matrias que eu queria fazer desde o primeiro ano. Ellen e eu adorvamos fazer poesias e s vezes escrevamos 
histrias juntas, cada uma redigindo uma sentena.
- Isso vai ser antes ou depois de ganhar o premio de melhor musical da Broadway?
Havamos chegado na sala da Sra. Heinsonh. Como a porta estava aberta pude v-la arrumando as classes em crculo. Ela acenou quando nos avistou, chamando para sentar.
- Kelly e Ellen, que bom v-las. Sabiam que vocs sero as vtimas de minha primeira atividade em classe. Sempre tenho dificuldades para arrumar algum que leia 
os textos para o resto da turma.
- No olhe para mim. - disse Ellen - No vou ler nada em voz alta no primeiro dia de aula.
A Sra. Heinsonh virou pra mim.
- Kelly, posso contar com voc?
Dei de ombros. no tinha certeza se estava a fim de fazer a leitura.
- Pode ser. - respondi.
Ellen e eu sentamos uma ao lado da outra.Peguei meu caderno novo(tinha uma capa preta brilhante com um calendrio impresso dentro) e usei corretivo liquido para 
escrever e estava "Redao" na capa. Quando estava quase pintando meu dedinho com o corretivo, Ellen me cutucou..
James Sutton circulava pela sala de aula e vinha direto para nosso lado. Fiquei sem flego por um instante e, sem querer, coloquei a mo em cima do ttulo "Redao", 
que ainda estava molhado.
Eu sentia uma grande queda por James desde o dia em que tinha assistido sua atuao, durante a apresentao dos calouros do Jefferson. Cabelos loiros, olhos azuis 
e covinhas nas bochechas, James sempre chamava a ateno. Agora era o vocalista principal de uma banda chamada Radio Waves, e todas as garotas de todos os graus 
eram caidinhas por ele. Nos ltimos trs anos fomos colegas em vrias matrias, porm mal nos falvamos. Uma das razes  que ele namorava Tanya, a bonita lder 
de torcida que estudava um ano a nossa frente. E, mesmo que estivesse sozinho, uma garota como eu no teria a menor chance. Ele poderia namorar qualquer aluna da 
escola. 
Ellen debruou-se para o meu lado.
- A fofoca  que Tanya deu o fora em James quando ela se formou. E que ele agora est livre.
Procurei manter a calma me lembrando de que no havia chance de James vir se interssar por mim. Tudo o que a notcia inesperada de Ellen significava era o fato de 
que eu teria que me acostumar com a idia de ver James abraando uma garota diferente a cada dia...mas nunca a mim. No era isso o que eu queria. Apoiei o queixo 
sobre uma das mos de tal maneira que meus dedos podiam esconder uma pequena pinta que tenho na bochecha do dado esquerdo, s para o caso de ele olhar em minha direo.
Mesmo adorando a aula de Redao, fiquei a maior parte do tempo disfarando umas olhadinhas para James. O fato de ele ter escolhido esta matria o tornava mais misterioso 
e atraente. Talvez ele fosse um novo Ernest Hemingway. Suas pernas longas esticadas cortavam o crculo formado pelas cadeiras. No me lembro nunca de ter achado 
uma cala jeans to fascinante.
Depois que a Sra. Heinsonh explicou a estrutura dos poemas haiku, nos deu quinze minutos para escrever um. Tudo o que consegui foi colocar meu nome no alto da folha. 
Acho que a Sra. Heinsonh percebeu que eu estava distrada e pediu para Jack Duarte lesse seu poema para a classe.
Num dado momento Ellen me passou um bilhetinho perguntando: "Como vai o Steve?". Um dia ela tinha tido uma grande queda por Steve, mas, se me lembro bem, nunca fez 
nada em relao ao assunto. Acho que era porque ela sabia das histrias de Steve com as garotas e no o considerava um bom candidato a namorado. Ellen tinha uma 
teoria esquisita de que nosso destino, meu e de Steve, seria ficarmos juntos. Cansei de falar que no sairia com Steve mesmo que ele fosse o ltimo dos garotos disponveis 
na face da Terra, e ela apenas me encarava com um sorrisinho nos lbios.
Nos ltimos minutos de aula a Sra. Heinsonh determinou a tarefa para a prxima sexta-feira. Ns teramos de escolher uma poesia, ler em voz alta na sala e depois 
explicar seu contedo. Mentalmente repassei a lista de meus poemas favoritos, sempre relembrando o que cada um deles significava para mim...
- Me encontre na fila do almoo. - pedi a Ellen, enquanto ela saia para aula de calculo.
Ela fez um gesto de cabea, que concordava, e me voltei, seguindo at o armrio. Ainda tinha mais duas horas de aulas antes de enfrentar aquele ambiente chato do 
restaurante. Antes que eu sasse, porm, senti algum pegando em meu brao. Fiquei vermelha imediatamente. Mesmo ele nunca tendo tocado em mim, meu sexto sentido 
me dizia que, quando me virasse, daria de cara com James Sutton.
- Oi Kelly, como vai? - Seus olhos castanhos azuis eram quentes, e me senti quase desmaiando, como uma donzela dos tempos antigos, ou da Idade Mdia.
- Ah, bem. Eu estou bem. - Odiei a mim mesma naquele momento. James provavelmente era um poeta incrvel, e eu acabara de murmurar a resposta mais sem graa do mundo.
Ele se aproximou ainda mais de mim, o que me fez sentir um arrepio. Troquei os livros de brao e procurei parecer descontrada.
- Voc me faria um grande favor? Pelos velhos tempos? - perguntou ele.
No sabia que velhos tempos eram esses de que ele falava, mas eu estava, sim, querendo lhe fazer um grande favor.
- Claro - respondi sem fazer idia do que se tratava - Como posso ajudar?
- Eu no sei muito sobre poesia. Voc poderia me dar umas dicas? Talvez me explicar sobre o que  bom e o que no , e todas aquelas coisas?
Ele parecia envergonhado de verdade, e isso me derreteu o corao.
- Sem problemas. - respondi - Mas, se voc no  muito chegado em poesia, porque escolheu essa matria?
Ele fez uma cara de surpresa e apontou a secretaria.
- Problemas com o horrio
Concordei em silncio. Mesmo que James no fosse o prximo Quintana, ainda continua sendo um dos garotos mais bonitos da escola.
- A gente se encontra na biblioteca, amanh depois da aula. - combinei, como se aquele encontro fosse normal.
Ele me deu um apertonzinho no brao e foi embora. Pensei em minha aposta com Steve enquanto reparava que toda garota no saguo arriscava um olhar na direo de 
James. Era possvel que um novo dia estivesse nascendo na vida de Kelly Byrne. E no me importava qual era o motivo, se o destino, se uma confuso de horrio, o 
que quer que fosse. James Sutton tinha pedido a minha ajuda para o trabalho.
Depois da aula encontrei Steve correndo na pista de atletismo do colgio. Ele dizia que gostava de usar aquela pista porque era fcil de saber quantos quilmetros 
havia corrido. Mas sempre achei que gostava mesmo era de ter todas as garotas olhando pra ele.
Ele diminuiu a velocidade quando me viu. Eu estava contente e no pude esconder um sorriso. No era sempre que tinha a oportunidade de apresentar boas notcias a 
Steve a respeito de minha vida amorosa.
- Ei, Kel. O que foi? - Perguntou ele, apoiando-se em meu ombro para poder esticar e alongar os msculos da perna.
- Bem, acho que no vai dar em nada, mas James Sutton me pediu ajuda com o trabalho de redao.
Nunca fui de falar sobre meus romances sem me subestimar, ento esperei que Steve comentasse para ter certeza de que o pedido de James significava alguma coisa.
Ele ficou quieto por alguns instantes. Em seguida voltou a ficar em p normalmente e me olhou...
- James Sutton? No me diga que voc gosta daquele panaca?
No acreditei que Steve acabara de chamar James de panaca.
- Ah, qual ? - respondi em voz alta - James  maravilhoso, talentoso, sexy...
Ele deu uma risada.
- Cai na real, Dulce. O cara  um cabea-oca. Alm disso, namora a toninha da Tanya desde garotinho.
Balancei a cabea negativamente. Sempre me surpreendo com a falta de percepo dos homens em saber o que as mulheres vem de atraente em um rapaz.
- S para voc ficar sabendo. Tanya foi para uma faculdade bem longe. James est disponvel.
- Bem, ento sorte sua.
Steve comeou a se exercitar sem sair do lugar e senti que ele no teria mais nada de til para dizer sobre o assunto.
-  isso a. Pelo menos dessa vez, SORTE MINHA. Agora se me der licena, tenho de ir a biblioteca.
No disse a ele que queria pesquisar alguns poemas antes de ajudar James no trabalho, porque Steve no entenderia o que significava se preparar. 
Sa da pista com a cabea erguida. Claro que o deixei com cimes. Eu tinha conseguido um timo comeo em relao a nossa aposta, e ele certamente no aguentaria 
pensar que poderia perder. Corri para o meu carro, com a mochila balanando nas costas.
Tarde da noite eu ainda me revirava na cama, tentando pensar no poema perfeito para James ler em sala de aula na sexta-feira. Podia antever seu rosto se iluminando 
enquanto lia e a forma como iria entender o porqu de eu ter escolhido precisamente aquele poema. Ele tomaria minhas mos nas suas e sua boca se aproximaria da minha. 
Bem na parte em que James se preparava para me beijar apaixonadamente, meu telefone tocou. (Meus pais me deram minha prpria linha telefnica aos catorze anos, j 
que praticamente vivia pendurada no nosso telefone.) O som do toque fez meu corao acelerar. Ser que James e eu podamos nos comunicar mentalmente?
- Al?
- Sou eu.
Imediatamente me senti uma boba. Sempre ficava contente em ouvir a voz de Steve, mas no era bem ele quem estava esperando ouvir.
Olhei para o relgio na cabeceira.
- O que foi?  tarde.
-  sim. Adivinhe o que o seu super amigo tem para contar?
- Voc j se apaixonou?
S mesmo Steve para achar que encontrara a garota perfeita em apenas oito horas depois da ltima vez que tnhamos nos visto.
- No, CASABLANCA est passando na "Sesso Corujo". Canal quatro.
- Ligo para voc em seguida.
Desliguei e pulei da cama, indo para o estdio onde temos uma televiso e um telefone. Meus pais estavam dormindo e, por isso, no acendi luz nenhuma. Sob o claro 
vindo do aparelho de Tv, disquei o nmero de Steve. Ele atendeu ao primeiro toque. 
- Humphrey Bogart acabou de v-la pela primeira vez. Ela est ouvindo Sam tocar piano.
- Eu sei. Acabei de ligar a TV.
Sentei-me no sof com o telefone ao ouvido. Steve e eu s vezes assistamos a um filme falando ao telefone. Mesmo que no conversssemos muito, gostvamos de ter 
algum para comentar as passagens que nos emocionavam mais. Casablanca era nosso filme favorito de todos os tempos.
Uma hora e meia depois eu tentava abafar meus soluos, mas mesmo assim Steve sabia que eu sempre chorava quando ficava claro como era impossvel o amor entre Rick 
e Ilsa.
- Kel, est chorando de novo? Voc j viu esse filme umas trinta vezes.
- Eu sei - respondi enxugando os olhos - Mas mesmo assim continua sendo triste cada vez que vejo.
Eu estava quase sussurrando, porque no queria acordar meus pais.
Steve riu delicadamente.
- Voc  romntica mesmo, no ?
- Ah, eu apenas sou sensvel a filmes romnticos.
- Bons sonhos, Kelly.
- Bom sonhos, Steve.
Desliguei o telefone e a televiso. Enquanto voltava para meu quarto, lembrei de que no tinha escolhido o poema para James.
- Chama-se"Cano para beber" - disse James - Olha, Yeats criou uma metfora entre beber vinho e estar apaixonado.
Quase desmontei quando percebi o que havia dito, me senti mortalmente envergonhada. Ser que James ia pensar que escolhi aquele poema de propsito, que estaria sugerindo 
que ele e eu ficssemos apaixonados ou coisa parecida?Ento resolvi no esquentar a cabea. A maioria dos poemas  sobre amor, ele no iria pensar que eu tinha segundas 
intenes.
James sorria de modo irnico ao meu lado.
- Heinsohn vai ver s uma coisa. Ela sempre est falando sobre metforas e coisas do tipo e tudo o mais sobre poesias.
- Sim, ela vai gostar deste. Podemos conversar mais sobre a interpretao depois da aula... se voc quiser.
Ele fechou o livro de poesias e colocou a mo sobre meus joelhos. Tocou por apenas um instante, mas me fez estremecer toda.
- Voc  a melhor Kelly.
Ento se levantou segurando o livro. Fiquei observando enquanto ele ia embora e admirando seu jeans desbotado, que realava seu corpo. Ser que James nunca me enxergaria 
com 
O amor da sua vida, desses amores escritos nos poemas de Shakespeare? Ser que algum rapaz alguma vez me veria daquele jeito? Toquei meu joelho onde James havia 
colocado a mo e pensei no que Steve poderia dizer nesse caso:"Voc tem de ir a luta, Kelly. Ou a vida vai passar sobre voc como um rolo compressor."
Bem, mesmo Steve no achando que James fosse grande coisa, eu adotaria a filosofia de vida do meu melhor amigo. J estava cansada de ficar de fora do jogo do amor... 
Droga! Vai ver que eu andara lendo poesia demais...

4 - STEVE

Quinta-feira, 12 de setembro
Nove horas da manh.
Puxa!j se passaram seis semanas de aula, mas at parecem seis dias. Ainda no sa com Rebecca, mas tenho conversado com ela muitas vezes. Hoje ns tivemos um papo 
interessante.
- Voc vai ao jogo de futebol amanh? - perguntei.
- Por que iria? - retrucou ela.
Dei de ombros.
- Eu vou estar l.
Ela sorriu to longa e demoradamente que me deu vontade de agarr-la e beijar aqueles lbios vermelhos.
- Bom, se  assim ento acho melhor consultar a minha agenda - disse.
Na aula de orientao de hoje no pude falar com ela frente a frente. Mas tenho a impresso de que ela vai ao jogo. Acho que amanh vai ser uma grande noite. Kelly 
vai ficar chateada por eu estar ganhando a posta, mas isso  problema dela. De qualquer jeito ela no vai cair na real em relao a James Sutton. S por que esta 
ajudando o cara nas tarefas de redao, ela pensa que esta apaixonada. Mas, pelo que ela me contou, James no  l muito bom de papo. Meio sem querer, peguei uma 
conversa dos dois na biblioteca e tive que tapar a boca pra no dar uma risada.
Kelly (falando de um livro que tinha na mo): Eu adorei 1984. o que voc achou?
Sutton: gostei. Foi um ano legal. Eu adorava andar de skate naquela poca. 
Kelly: mas eu estava falando do livro de George Orwell. Aquele sobre o futuro.
Sutton: ah, sim. Acho que assisti o filme na tv.  aquele sobre o computador chamado Hal, no ?
Kelly: ah,  sim...
Quando ser que ela vai enxergar que:

1) o cara s tem aquele cabelo cheio de luzes e outras coisas horrorosas porque as garotas adoram.
2) Ele ainda sonha com a Tanya-qualquer-coisa.

Acho que preciso ter uma conversa de verdade com ela. A vida da Kelly ta ficando quase ridcula.
- Steve, voc tem de fazer alguma coisa em relao a esse carro. - disse Kelly enquanto chegvamos ao colgio na sexta-feira.
- Por qu? - respondi, procurando um lugar grande o suficiente para que coubesse meu Oldsmobile 1972. 
- Est nojento. Eu acho que at tem alguma coisa nascendo dentro daquela garrafa.
Ela me mostrou ento uma garrafa plstica com um lquido meio esverdeado balanando l dentro. Depois apontou para o assoalho, ao lado do passageiro, onde seus ps 
se apoiavam sobre uma pilha de jornais velhos e latinhas vazias de refrigerante.
- Est certo. Como pagamento pela carona at o estdio de futebol, porque voc no d uma limpada no meu carro? Eu at passo com ele pela sua casa amanh, s para 
facilitar as coisas pra voc.
Estacionei o Oldsmobile entre um pequeno Toyota e um Fiat, enquanto Kelly destravava o cinto de segurana.
- Sem chance. Provavelmente iria parar no hospital, vtima de algum veneno criado aqui. 
Fechamos as portas e fomos para o estdio. Parecia que todo o colgio Jefferson tinha vindo assistir o primeiro jogo dos Raiders da temporada.
Kelly se enveredou pelo meio do amontoado de calouros que zanzavam fazendo hora perto das arquibancadas. Ela foi abrindo caminho em direo  parte mais alta das 
arquibancadas onde Ellen Frazier e Mike Feldman j estavam sentados.
- Oi pessoal - cumprimentou Kelly - J entraram no clima do jogo dos Raiders?
Ellen fez careta.
- Claro. Mal posso esperar para comear a torcer. Adoro assistir a Amanda Wright chacoalhando seus pompons.
- Que coincidncia! Eu tambm! - disse Mike, mexendo com suas sobrancelhas pretas.
- Ento por que a gente vem assistir? - Kelly perguntou a Elles, enquanto se sentava perto de mim - At parece que a gente gosta de futebol.
-Estamos aqui pela mesma razo que todas as outras garotas - respondeu Ellen - Esperamos encontrar nosso verdadeiro amor nas arquibancadas d Colgio Jefferson.
Desliguei da conversa de Kelly e Ellen e olhei as arquibancadas. Mesmo achando que Rebecca Foster no aparecia no jogo de futebol, tinha uma pequena esperana no 
intimo de que poderia topar de repente com aquele cabelo loiro e aqueles olhos azuis no meio da multido.
Rebecca e eu tnhamos conversado durante todos os dias daquela semana. Ela andava flertando comigo, sorrindo, jogando o cabelo para trs de modo provocante e tinha 
olhado para mim de um modo especial. Porm depois da aula de orientao ela sempre desaparecia pelo saguo, e at aquele momento eu no tivera oportunidade de combinar 
um encontro. Mas sabia que ainda conseguiria. Toda vez que a via entrando na sala de Maughn com se fosse a dona do colgio, eu tinha a certeza que no descansaria 
enquanto no a beijasse.
Meu corao veio parar na boca quando vi Rebecca, sentada com um panfleto de futebol nas mos, do outro lado das arquibancadas. De agasalho e uma camiseta preta 
justinha, mesmo daquela distncia pude perceber que ela estava linda. E, o melhor de tudo, sozinha. Era exatamente a oportunidade que esperava.
Quando me levantei senti Kelly me puxar pelo bolso de trs de meu jeans.
- Aonde  que voc vai? A gente acabou de chegar.
- Vi o Andrew. - respondi, apontando para algum lugar nas arquibancadas do outro lado do campo - Vou at l conversar com ele.
No estava a fim de agentar as gozaes de duas amigas sobre ir paquerar uma garota. No tinha certeza se Rebecca me receberia bem ou no e, se tivesse de voltar 
sem conseguir nada. No queria que todos ficassem comentando pelo resto da noite. 
Antes que algum dissesse alguma coisa, me mandei arquibancada abaixo, de olho no ponto onde Rebecca estava sentada. Para o caso de Kelly estar olhando fui para 
o lado da numeradas e fiquei na fila por alguns minutos. Dei uma espiada no placar e vi que os raiders ganhavam por 7 a 0, dando-me conta subitamente de que at 
o momento no tinha assistido um minuto do jogo. Corri para o lado das arquibancadas em direo a Rebecca.
 noite ela parecia ainda mais bonita do que s cinco para as nove da manh. Seu cabelo brilhava ainda mais sob as luzes dos refletores do estdio. Quando me viu 
caminhando em sua direo, sorriu e deslizou para o lado do assento. Entendi que era um convite para que me sentasse ao seu lado.
- O Doce Steve. Como est? - ela cumprimentou quando me aproximei. O pessoal tem me chamado por esse apelido para fazer graa sobre minhas conquistas. Normalmente 
isso me irrita um pouco. Mas, vindo dos lbios dela, o apelido acendeu uma esperana. 
-Steve: Tudo legal, vim para assistir ao jogo.
Quando me sentei a seu lado dei um jeito para que nossos joelhos se tocassem. Mesmo esbarrando pela cala jeans, pude sentir um choque percorrendo minha perna de 
cima a baixo.
Rebecca olhou para o campo e suspirou.
- Eu ia ficar em casa hoje, mas  to solitrio. No consigo ficar assistindo aos programas de tv de sexta  noite.
Concordei balanando com a cabea e quase no acreditando na minha boa sorte. Claro que ela estava procurando algum para curtir a noite. Com certeza era uma garota 
tmida e sensvel e talvez fosse por isso que sempre saia to depressa depois dos perodos de aula.
- No esquenta, Rebecca. Eu posso ser seu guia pelos prximos jogos das noites de sexta-feira no colgio Jefferson.
Ela deu uma risadinha e chegou um pouco mais perto.
- Ouvi algumas garotas comentando que vai ter uma festa na casa de Patrick Mayor depois do jogo.
Suspirei disfaradamente pensei que depois ns poderamos sair para comer um hambrguer ou uma pizza. Patrick Mayor era um jogador de futebol de quem muita gente 
no gostava. Porem, se ela queria um pouco do outro lado do Jefferson, no seria eu quem iria contrariar sua vontade.
- Legal. Vou falar com a turma e vamos todos juntos. Voc poder conhecer um monte de pessoas.
- Quem so seus amigos? - perguntou ela.
- Bem, voc conhece Andrew Rice. Ele est em nossa turma de orientao.
- Sim. Ele joga futebol.
Confirmei meio surpreso por ela saber o esporte preferido de Andrew. Vai ver ele tinha andado dando em cima dela quando eu no estava por perto. Tpico.
-  isso, ele joga como centroavante.
- Quem mais?
Ela olhava para mim com expectativa e no pude deixar de reparar em seus clios, os mais longos que j tinha visto.
Por um segundo fiquei indeciso. Achei que no ia pegar bem falar de Kelly. Muita gente no compreendia nossa relao, e eu no queria que Rebecca entendesse errado 
tambm. Contudo, se no falasse e ela descobrisse mais tarde que ramos grandes amigos, seria ainda pior. Disfarcei e procurei falar com a maior naturalidade possvel.
- Kelly Byrne  minha melhor amiga. Ela est sentada nas arquibancadas do outro lado, junto com nossos amigos.
Rebecca olhou para o povo.
- El no  lder de torcida?
Dei uma risada. Imaginar Kelly como lder de torcida era to engraado como se eu estivesse l no campo comandando a turma. Kelly no era do tipo de garota que veste 
uma minissaia e fica gritando as letras do nome de um jogador para pentelhar a torcida. Kelly prefere sentar e fazer comentrios cnicos a respeito da vida dos adolesncentes 
do segundo grau de hoje em dia. Balancei a cabea negativamente.
- No, mas ela  danarina. Ela ensina jazz durante o vero em um acampamento em Minnesota.
- Que legal. - disse Rebecca, franzindo o nariz.
- Chega de falar de Kelly. Conte mais sobre voc senhorita Foster.
Rebecca ficou quieta durante um instante como se estivesse organizando os pensamentos.
- Bem , eu disse que era da cidade de Nova York.
- Disse sim.
Eu estava tentando prestar ateno no que ela falava, mas me distrai olhando uma mecha de cabelo castanho brilhoso que caa sobre seus olhos. No pude resistir e, 
passando a mo coloquei o cabelo preso atrs de sua orelha.
- J contei que nos mudamos para c porque meu pai e minha me queriam que meu irmo e eu tivssemos uma vida melhor em uma cidade pequena?
- Contou.
Continuei pensando em como era sedoso o seu cabelo que acabara de tocar. Ela no se afastara quando esbocei o gesto, o que achei promissor.
- J disse que acho voc uma gracinha? - ela mordeu o lbio ao falar, e ficou me olhando com aqueles longos clios.
Fiquei momentaneamente to chocado que no consegui responder nada. Mas me recuperei em seguida:
- No, no me disse.
Ela fez que nem se importou.
- Ento me lembre durante a festa que eu direi.
Sorri imaginando Anah andando pela escola com aquele cabelo vermelho intenso. Eu j podia sentir o gostinho da vitria.

*

O resultado do jogo foi 2 a 1. Foi uma grande vitria do Elite, para um comeo de temporada, e todo mundo invadiu o campo para cumprimentar os jogadores, Peguei 
na mo de Rebecca enquanto a gente andava pelo meio da multido. Tinha certeza de que Kelly podia arranjar uma carona para casa com Ellen, mas se ela estivesse esperando 
por mim no queria deix-la desapontada.
Ela no estava na arquibancada e, mesmo depois de dar uma volta pelo campo, no consegui encontr-la em lugar algum. Rebecca no gostou desse passeio pela praa 
de esportes do Jefferson e ento decidi que Kelly seria perfeitamente capaz de se virar sozinha.
- Podemos dar uma passadinha em casa para eu me trocar? - Ela perguntou enquanto nos dirigamos a meu carro no estacionamento.
- Voc est linda assim mesmo. - disse eu, admirando-a pela centsima vs naquele dia.
- Obrigada. Mas como no conheo o pessoal acho melhor eu no parecer desarrumada
Entramos no carro, o que terminou a conversa.
Enquanto dirigia para a casa dela fiquei pensando como iria se vestir, j que se achava desarrumada agora.
Algum tempo depois estava sentado na sala da casa dos Foster, esperando Rebecca acabar de se arrumar. Os pais dela tinham sado e a casa permanecia silenciosa. A 
sala era grande com um p direito alto e grandes portas francesas. A sra. Foster tinha instalado um carpete grosso cor de creme e colocado alguns quadros na parede.
- Meu irmozinho ainda vai acabar com esse carpete - pude ouvi-la dizendo minutos depois. Ela estava parada na porta do corredor de sada e parecia maravilhosa. 
Trajava um vestido vermelho curto e decotado. Usava um colar to fininho que parecia prestes a se arrebentar a qualquer instante.
- Tchau, desarrumada. - eu disse por pura gozao.
Ela deu uma voltinha e em seguida pegou em meu brao.
- Vou considerar isso um elogio. - respondeu bem humorada.
- Mas foi essa mesmo a inteno.
Samos para a noite quente e gostosa e Rebecca trancou a porta da casa. Caminhamos at o carro, e seu salto fazia pequenos rudos contra a calada. No escuro da 
noite, cada passo sussurrava uma promessa. Apesar do calor, experimentei um calafrio.
Quando chegamos a casa de Martin, havia carros estacionados por todo o quarteiro. Paramos a umas dez casas de distncia e seguimos juntos com uma turma de colegas 
do Jefferson at a porta da casa. Bem antes de chegar  entrada j se podia ouvir a msica vindo de caixas acsticas potentes. Rebecca agarrou a minha mo com fora 
e retribui com um suave aperto. Imaginei como poderia ser constrangedor ficar andando por uma casa desconhecida cheia de pessoas estranhas.
De repente Andrew saiu de dentro da casa de Martin na maior correria. Atrs dele vinha uma garota gritando esganiadamente com uma metralhadora de brinquedo espirrando 
gua.
- Vou pegar voc. - gritava ela, enquanto passava por ns feito uma bala.
Andrew correu para trs de mim como se eu fosse um escudo.
- Aqui  territrio neutro - gritou - Steve  como se fosse a Sua.
A garota que s ento reconheci, era Carrie Starks (a nmero dez da lista de Andrew) e baixou a arma de brinquedo.
- Est certo. - concordou ela - Mas estou esperando voc l dentro.
Andrew saiu de trs de mim e me cumprimentou.
- Grande festa, no ?
Concordei de imediato.
- Realmente tem uma festa a,  o que posso dizer.
Andrew se abaixou para amarrar um dos tnis.
- O que aconteceu com voc no jogo? Kelly me disse que voc tinha ido me procurar para conversar, mas no o encontrei. Quando disse que o no tinha visto, ela fez 
aquela cara de quem no gostou muito e murmurou alguma coisa sobre uma aposta.
Por um instante me senti culpado por largar Kelly no estdio. Mas no havia porque me preocupar. Eu poderia muito bem telefonar para ela de manh cedo para me desculpar. 
Em vez de responder a pergunta eu me virei para Rebecca.
- Andrew, voc conhece Rebecca?
Ele olhou ainda abaixado e reparou pela primeira vez que ela estava comigo.
-Claro que conheo. Qualquer pessoa que tire sarro do Maughn  algum que eu considero uma amigo.
Andrew se curvou diante dela e a beijou a mo.
- Eu no fiz de propsito para contrariar - insistiu ela - Acho que ele apenas costuma dizer a coisa errada na hora errada.
Andrew e eu camos na risada. Era um comentrio suave diante do que tinha acontecido.
- De qualquer modo, Kelly esta l dentro - disse ele- ela e Ellen esto gastando o cho de tanto danar.
-Steve:  mesmo?
No sei porque fiquei surpreso em ouvir que minha amiga estava na festa. Provavelmente porque sempre era eu que a levava a todos os eventos sociais. Na maioria das 
vezes ela ficava irritada durante as festas e ento comeava a me perturbar para lev-la para embora para casa, no mximo depois de uma hora e meia.
-  isso a, cara. D uma conferida.
Andrew voltou correndo para dentro de casa, gritando cumprimentos para todos que encontrava pelo caminho.
Seguimos atrs dele e, enquanto entravamos, eu ia dizendo o nome e fazia algum comentrio sobre cada uma das pessoas que estavam no jardim. Rebecca parecia estar 
absorvendo cada palavra que ouvia, balanando a cabea e prestando muita ateno a tudo o que se passava em volta.
Quando entramos, ela quis ir para perto de onde vinha a msica. O tapete tinha sido enrolado e colocado em um canto na sala de Mayor, e todas as poltronas e sofs 
estavam encostados as paredes.
Assim que entramos na sala, a msica foi trocada e valeu como uma deixa para que eu tirasse Rebecca para danar. Ela me pareceu contente e, por isso, apertei um 
pouco mais meu brao contra a sua cintura.
Enquanto danvamos pela sala, vi uma cena que me deixou de boca aberta. Kelly estava danando bem do nosso lado, quase ombro a ombro.
Seus olhos estavam fechados e sua cabea se recostava contra o peito de James Sutton. Eu no ficaria mais chocado se avistasse um elefante entrando de repente pelo 
meio da sala. Kelly no era o tipo de garota que chama a ateno por estar danando devagar e coladinha (na verdade, eles estavam parados se abraando), bem no meio 
de uma festa lotada de gente. 
Quando Kelly abriu os olhos, ela me viu encarando-a de frente. Pensei que ficaria sem graa e se afastaria de James, mas no foi isso que aconteceu. Ela deu uma 
piscadinha e, e fez sinal de positivo.
- Oi, Steve. - disse, parecendo muito orgulhosa de si mesma, como se danar com James Sutton fosse equivalente a ganhar o prmio Nobel da Paz ou coisa parecida.
- Ah, oi. - respondi.
- Oi, Parson. - James cumprimentou, dando-me um tapinha nas costas - Quem  a sua nova amiga?
Por uma frao de segundo esqueci o nome de Rebecca. Mas isso no teve muita importncia porque Kelly respondeu.
- Rebecca, certo? Eu sou Kelly e, esse  James.
Notei que Kelly puxou James um pouco mais para perto, como se estivesse querendo indicar a Rebecca que aquele era seu namorado.
- Oi, James. - respondeu Rebecca, e no disse nada para Kelly.
Houve um longo silncio que me deixou desesperado para quebrar.
- A gente se encontra por a mais tarde. - Falei, puxando Rebecca para outro lado.
- , pode ser. - Kelly respondeu.
Mas ela nem me olhou. Encarava James, e de repente senti que alguma coisa muito importante estava acontecendo, algo como por exemplo Kelly estar me vencendo na aposta.
Esfreguei o queixo no cabelo macio de Rebecca enquanto tinha uma viso desagradvel de mim mesmo com a palavra "perdedor" escrita no corte de cabelo.
No era uma cena muito bonita.

*

Conversei com Kelly no domingo a noite.
-Kelly: Ento, como vai a adorvel Rebecca? - Ela perguntou assim que atendi ao telefone.
- Adorvel. - respondi secamente.
Estava esperando que ela comentasse como tinha feito papel de boba agarrando Sutton.
- Sexta foi demais, no ?
- Incrvel. - respondi. Ela no estava entendendo minha ironia.
- Uma pena que Rebecca no seja o tipo de garota pela qual voc poderia se apaixonar. Acho que estou na frente na corrida para achar o par perfeito.
- O QU? - gritei. Agora ela estava me sacaneando de verdade. - Por que no deveria me apaixonar por Rebecca?
- Voc no viu o jeito como ela ficou olhando para James? Quase ficou vesga. Espero que James no a convide para sair. Ela  muito bonita.
- Ah, d um tempo. Rebecca nunca sairia com James. Ele  totalmente inferior a mim.
- Ele era, no era?
Kelly deu uma risada.
- Por favor, desculpe. Esqueci com quem estava falando. Voc  o maior cara do mundo.
- No precisa vir com gozao. - Falei, me sentindo magoado.
Kelly ficou quieta por um instante.
- Falei srio Steve. Voc  o melhor.  s observar quem escolhe como seus melhores amigos para a gente perceber isso.
Como sempre eu no conseguia ficar bravo com Kelly.
-Steve: Durma bem Kelly.
-Kelly: Durma bem Steve.
Desliguei o telefone sorrindo. Kelly Byrne era nica, especial.

5 - KELLY

Quarta-feira, 18 de outubro
Sim, sim, sim! hoje foi simplesmente demais, nem sei se vou conseguir dormir. antes de entrar em detalhes, devo dizer que at danar com James na festa de Martin 
no fim de semana passado, meu progresso com ele no vinha sendo l muito grande. Na verdade, tinha sido o mnimo.
Exemplo: numa ocasio, depois de vrias semanas ajudando James no trabalho de redao, eu estava olhando para ele por cima de um livro de poesias de Wallace Stevens. 
Ele percebeu que eu olhava e me perguntou:
- o que foi? meu rosto est sujo?
Ento sem pensar respondi:
- ah, eu s estava aqui sentada, sonhando acordada com o fim de semana. o que voc vai fazer no sbado  noite?
Grande sacada, certo? errado! ele respondeu:
- sbado eu tenho ensaio com a banda.
- ahhh...- Foi minha resposta, e voltei ao livro de Wallace Stevens
- e voc, vai ter um encontro com quem? - Ele perguntou em seguida.
- encontro?- Engoli em seco.
- sim. voc disse que estava sonhando sobre o final de semana. Ento deduzi que voc deve ter um encontro, que  sobre o que eu costumo fantasiar.
- ah, ningum que voc conhea.- Desconversei de modo meio esfarrapado.
J tinha dado toques demais.
Uma semana depois James me perguntou como estava indo o romance com meu misterioso namorado e, sorrindo enigmaticamente(bem, pelo menos esperava que sim), respondi 
que no tinha dado certo.Ele no respondeu mas me deu uma olhada muito significativa. Depois comentou:
- voc realmente mudou muito, dulce. antes voc era mais uma garota do tipo grande amiga, mas agora...sei l...agora  mais como uma mulher.
Da ele saiu andando, sem perceber que meu corao estava quase saindo pela boca. 
Ento, depois da aula de redao, James me pegou pela mo e puxou para uma sala de laboratrio vazia. Ele me abraou e comeou a danar igual na sexta-feira passada. 
Ele parou e disse exatamente:
- que tal se a gente fosse danar mais no sbado  noite? 
Admito que foi uma situao meio boboca e antiquada, mas o que  que tem isso? O que importa  que ele me convidou para um encontro de verdade. Claro que, quando 
contei para Steve, eu estava meio gaguejante e ele tirou o maior sarro da minha cara. Mas, pergunto de novo, qual o problema? Agora s preciso fazer acontecer no 
sbado... 

Engraado como na vida da gente, o tempo s vezes parece voar e, em outras simplesmente parece que para, desafiando qualquer conceito lgico! Eu explico. Meus dois 
primeiros anos de colgio rastejaram como se o tempo fosse uma tortura. Cada aula parecia que ia durar at o prximo sculo, as noites de sexta-feira se arrastavam 
interminavelmente e as tardes de domingo eram como uma sentena de priso dentro da biblioteca.
No ltimo ano tudo mudou. Nas primeiras semanas de outubro minha vida quase me deixou tonta. Entre minha paquera com James, papeando com Steve e estudando, eu me 
senti como se estivesse em ao durante as vinte e quatro horas do dia. Percebi tambm que, com um pouco de maquiagem, meus olhos ficavam exatamente como Steve sempre 
disse que gostava. Tambm estive trabalhando como bab, em alguns dias da semana depois das aulas e ganhando uma grana (nem me importei que viesse na forma de notas 
amarrotadas, e no como um cheque limpo e profissional), o que me fazia sentir como uma adulta.
Quinta-feira de manh acordei antes que o relgio tocasse. Meio no escuro, ainda fui tropeando at o calendrio quase em branco na parede. Peguei uma velha caneta 
com tinta perfumada (vermelho framboesa, mais exatamente) e marquei o dia 21 de setembro. No era para no esquecer qual o dia em que tinha um encontro com James, 
s queria ficar acompanhando os dias que faltavam at a data.
Quando chegou o sbado (achava que o mundo ia acabar antes do final de semana), meu estmago dava voltas. L pelas seis horas me tranquei no banheiro para vomitar. 
Isso no foi muito legal.
Depois que me recuperei fiquei olhando para o dia marcado no calendrio. Claro que sempre pensei naquele primeiro dia na biblioteca como o de nosso aniversrio. 
Depois daquele dia estava certa - ou mais ou menos...bem, no, na verdade - de que iria vencer a aposta com Steve. Ele com certeza se encheria de Rebecca em uns 
dois meses, mas eu estaria namorando firme com James. Durante as aulas de redao ficava olhando para ele e pensando em ns dois, velhinhos, de cabelos brancos, 
rodeados de netinhos. Ellen no conseguia acreditar que eu pudesse me comportar assim to estupidamente, at agora ela nunca tinha me visto assim, caminhando nas 
nuvens. Na verdade, at hoje nem eu mesma tinha me visto assim, nas nuvens.
L pelas oito horas contemplava a mim mesma na frente do espelho em meu quarto. Estava com um vestido preto curto e casaquinho preto. Meu cabelo comprido caa pelo 
rosto e, nos lbios, tinha aplicado um batom rosa clarinho. Quando ouvi uma buzina l fora, apanhei a bolsa e corri escadaria abaixo.
- Tchau. - Gritei para meus pais, que estavam assistindo TV no estdio.
- Steve sempre vem at a porta. - Minha me comentou.
- Steve  um pateta.
James me esperava em seu jipe vermelho, mas o jipe tinha a capota abaixada e o vento desalinhara alguns fios de seu cabelo. Ele parecia muito bonito, e por um momento 
quase no acreditei que ns estvamos saindo para um encontro de verdade.
Ele se inclinou e empurrou, abrindo a pequena porta do jipe, enquanto sorria para mim. Entrei quase tendo um troo. Ns j tnhamos ficado sozinhos antes, mas sempre 
no meio de outras pessoas. Sentar perto de James e ver sua mo pegando a alavanca de cmbio me fez sentir como se apenas ns dois existssemos no mundo.
- Poderamos ir a pizzaria do Jon. - Sugeriu ele, enquanto eu tentava afivelar o cinto de segurana com as mos tremendo.
- Legal. - Respondi baixinho.
Por algum tempo andamos em silncio. No cu as estrelas j brilhavam. Olhei e escolhi a mais brilhante. "LUZ DA ESTRELA, BRILHO ESTELAR,  PRIMEIRA ESTRELA QUE VEJO 
ESTA NOITE, EU PEO, EU DESEJO...VENCER A APOSTA COM STEVE". "Estou pronta para me apaixonar" pensei. Por uma questo de nfase, fechei os olhos e visualizei a estrela 
em minha mente.
Quando abri os olhos, James estava me olhando com uma expresso de encanto.
- Olho para voc e suspiro. - disse ele - Voc  linda.
Meu corao acelerou. James acabara de citar uma frase do poema "Uma cano para beber", de Willian Butler Yeats, um dos que selecionei para ele incluir em seu trabalho 
de redao de algumas semanas atrs. Sua voz era profunda e rouca, produzindo calafrios que me percorriam a espinha.
Jon faz uma pizza na pedra deliciosa, e era um lugar5 muito popular na poca. Estivera l um milho de vezes com Steve e Ellen, sempre secretamente invejando os 
casais sentados nas mesas ao longo da parede do restaurante. Agora estava radiante toda garota l olharia para ns desejando estar em meu lugar.
- Gosto de pepperoni - ele falou quando nos sentamos.
Olhei para o menu. Steve e eu gostvamos de inventar combinaes de pizzas. Nossa favorita era berinjela, bacon e cogumelos.
- Para mim est bom. - concordei.
James recostou-se apoiando s mos sobre a mesa. Sem saber bem o que conversar, fiz o mesmo. De repente ele se inclinou para a frente. 
- Ento voc e Steve Parson no tm nenhum caso? - perguntou.
Gelei.
- O qu?
- Voc e o Parson. Todo mundo na escola sabe que vocs dois so como dois irmos siameses.
No pude resistir  risada. Steve tinha tido umas vinte namoradas s nos ltimos dois anos. Ser que James pensava que eu era o tipo de garota capaz de se envolver 
com um cara que vivia correndo atrs de outras?
- Steve tem um monte de namoradas, mas definitivamente no sou uma delas. Ns somos apenas amigos.
James fez o pedido  garonete e, olhando para mim, levantou as sobrancelhas.
- No acredito que pessoas de sexos diferentes possam ser amigas. - afirmou - Acho que sempre vai haver uma certa...tenso.
- No no meu caso. - respondi rapidamente.
Estava desesperada para mudar de assunto, mas ao mesmo tempo curiosa para saber o que as pessoas pensavam sobre minha amizade com Steve. Algum seria capaz de acreditar 
que eu e ele fossemos namorados? Ser que todos achavam mesmo que eu me limitava a ficar sentada, esperando pacientemente enquanto ele saa para namorar todas as 
garotas da escola? Era um pensamento humilhante. Sempre me vi como uma mulher forte e indomvel, no o tipo que aceita um segundo lugar. Mas poderia ser que os outros 
no me enxergassem desse modo. Talvez me considerassem uma bonequinha apaixonada.
- Bem, de uma coisa eu sei. - disse ele, pegando na minha mo.
- O qu?... 
Os pensamentos sobre Steve fugiram de minha cabea assim que senti seus dedos fortes que se entrelaavam com os meus.
- Ns dois nunca poderemos ser amigos.
Seus olhos brilhavam e seus lbios vermelhos pareciam irresistveis.
- Por qu? - murmurei
- Porque eu sempre vou querer beijar voc, assim como estou querendo agora.
Precisamente nesse instante a garonete veio trazer nossos refrigerantes. Isso quebrou a tenso, mas eu tinha certeza que meu rosto estava em brasa. No sabia como 
interpretar tudo que James dizia. Por um lado, sonhava com esse momento. Por outro, a situao no parecia muito real. Sempre pensei que um romance florescesse como 
um turbilho. Eu me imaginava trocando frases poticas e olhares apaixonados com meu amado. No entanto, ali estava James, me falando daquele modo e eu totalmente 
sem graa. Ele quase no me conhecia de verdade, pensei. Ser que aquelas palavras eram sinceras?
Mais tarde a garonete veio trazer nossa pizza. Enquanto via James cortando um pedao e dando uma grande mordida, outro pensamento me veio a cabea. Se James fosse 
mesmo to legal, por que iria me querer? Afinal de contas, ningum jamais tinha se interessado por mim.
Apesar de sentir o estmago embrulhado, resolvi tambm comear a comer meu pedao de pizza. James me olhava intensamente, e quase me engasguei com o queijo, que 
pareceu entalar na garganta, impedindo-me de respirar direito. Tossi e tomei um grande gole do meu refrigerante. Imaginei ento que, se James tivesse sentido alguma 
atrao por mim, eu acabara de arruinar minhas chances. Esse pensamento provocou uma estranha sensao excitante. Sempre adorei um desafio.
- Ento, James, o que voc acha das aulas de redao? - Perguntei, tentando levar o assunto para um campo mais seguro.
- Redao  muito legal. - respondeu ele.
- Acha mesmo?
-Claro. Acho at que vou escrever algumas das letras de msica para a minha banda. Normalmente quem escreve  outro, mas suas poesias so muito sem graa. 
Ele pegou outro pedao e um guardanapo.
- Que bom. Eu gostaria de ler algumas de suas letras de msica qualquer dia destes, se voc deixar.
- Acho que vou compor uma musica para voc.
Novamente fiquei envergonhada. Olhei para baixo, concentrando-me na comida. Flertar no era o meu ponto forte e, mesmo me esforando, no conseguia achar nada de 
interessante para dizer em resposta.
James parecia no gostar de falar enquanto comia, e ento fiquei prestando ateno nas conversas das outras mesas. Sempre que estou nervosa, consigo me acalmar prestando 
ateno em alguma outra coisa que no em mim mesma. Este era um truque que minha me tinha me ensinado.
Ouvia o que as pessoas atrs de ns nas mesas falavam. A primeira voz era de uma garota que j havia visto quando entramos no Jon's. 
- Papai me tomou o carto de credito por um ms. Ele ficou histrico s porque comprei uma jaqueta de couro na semana passada, pode? Nunca vi um cara to chato!
Revirei os olhos. Se eu usasse o carto de credito do meu pai, ficaria trancada em meu quarto por um ano de castigo.
- No  justo! - disse o garoto ao lado dela - Ser que ele no percebe que, sem carto, voc no  ningum?...
- O que eu posso fazer? Ele no tem noo do que  ser jovem. Estou pensando em processa-lo por negligencia e abandono.
Dei uma risada alta. A conversa atrs de ns parecia a fala de personagens de um filme de segunda categoria. Pode uma coisa dessas?
- Voc ouviu essas duas? - Cochichei para James.
Ele negou balanando a cabea.
- O que esto conversando? 
Limpei a garganta e me preparei para fazer uma imitao de uma garotinha rica. Era uma mistura se sra. Howell do programa A ilha de Gilligan e aquilo que imaginava 
ser a voz de uma aristocrata.
-  to cruel. - imitei a garotinha - Papai tirou meu Roll's Royce. Ele me obrigou a ficar com a BMW. Estou to humilhada. 
Tornei a rir.
O rosto de James estava totalmente inexpressivo. Ao ouvir a voz delas, sussurrei sacudindo a cabea na direo da mesa di casal.
- Escute.
- Adorei a reforma que fizeram no clube de campo. - comentou a garota - Mas acho que o painel de mogno atrs da churrasqueira ficou exagerado.
Pisquei para James, mas ele olhava para mim como se eu estivesse maluca. Pelo jeito, no achara a menor graa na minha imitao. Suspirei. Se Steve estivesse comigo, 
quando imitei a menina ele teria imitado a outra. Provavelmente ficaramos imitando as duas pelo resto da noite e rindo o tempo todo.
Fiquei envergonhada quando vi James estava srio. Reconheo que no era muito simptico fazer pouco de outras pessoas. Percebi, que para Buffy (o nome que inventei 
para a garota que imitei), ficar sem o carto de crdito era mesmo uma grande tragdia.
James empurrou seu prato vazio.
- Sabe, o Radio Waves est se preparando para assinar contrato com uma gravadora independente. Poderemos lanar um CD daqui a um ano.
Fiquei impressionada. Imediatamente me vi como a namorada de um astro do rock... 
Poderia ir ao camarim, andar de limusine, ingressos grtis.
- Ah ? Voc me mostrar as msicas em particular, antes do lanamento? - Perguntei, enquanto abria um grande sorriso.
"Isso", pensei. "Acabei de flertar". No foi nada fcil e me senti meio idiota, mas sobrevivi. Talvez at o lanamento do CD de James eu j seja uma perita em flerte.
Ele colocou a mo por baixo da mesa e bateu no meu joelho.
- No momento que voc quiser Kelly, Quando quiser.
Eram quase onze horas quando voltamos para casa. Eu estava nervosa e procurava pela maaneta da porta do carro. Mas James me pegou pelo brao e puxou.
- Voc  um barato, Kelly. - murmurou.
Um barato? Essa no era a expresso que eu esperava ouvir.
- Gostaria de ter voc sempre por perto. - ele acrescentou.
Ento se inclinou para a frente e me beijou. A nica coisa que pude pensar naquele instante foi: "Oh, Meu Deus, estou realmente beijando James Sutton!". Mas ento 
relaxei um pouco e me concentrei em seus lbios quentes e macios. Fiquei contente por estar sentada, porque meus joelhos tremiam, e se estivesse em p provavelmente 
perderia o equilbrio.
Beijei tambm tentando no pensar em minhas mos suadas e que meu hlito provavelmente estava cheirando a queijo. Quando ele ser afastou, eu me sentia trmula e 
desorientada.
- Bons sonhos, Kelly. - murmurou.
Enquanto caminhava para casa, refleti que "bons sonhos" era aquilo que Steve sempre me desejava. Por algum motivo, a expresso me pareceu imensamente diferente vindo 
de um rapaz que tinha acabado de me beijar na boca.
Domingo de manh fui at a casa dos Jonhson. Em certos dias da semana tomo conta de Nina, a filha deles de dez anos. Quando cheguei, Nina estava no jardim praticando 
alguns passos de dana. Desde que ela ficara sabendo que eu ensinava dana, insistia em estabelecer essa como sua prioridade nmero um. A prioridade nmero dois 
era bater papo com os garotos da sua escola Lincoln.
- Ei, Nina. - cumprimentei - Est ensaiando aquela seqncia de passos que ensinei na quinta-feira?
Andei pela calada e desabei sobre a grama. Tinha dormido pouco  noite, pensando em meu encontro com James, e a falta de sono tem seu preo.
- Claro. Quer me ver danar com msica? 
Ela saltitava enquanto esperava minha resposta.
- Gostaria muito. Por que no vai buscar seu CD player porttil? Eu espero aqui.
Fechei os olhos contra a claridade do sol e fiquei contente por ainda estar quente o bastante para ficar no jardim.
Em seguida Nina voltou com seus pais e o toca fitas pendurado pela ala. Enquanto eles gritavam instrues de ltima hora, Nina colocava o CD que gravei para ela.
A garotinha praticava a rotina pela dcima quinta vez quando Steve apareceu. Ele adorava ir me encontrar nos Jonhson porque Nina tinha simplesmente venerao por 
ele.
Nina interrompeu a seqncia e correu para ele.
- Quer ver minha nova dana? - perguntou.
Ele caminhou at a escada e sentou-se no primeiro degrau.
- Claro que quero. Ou voc pensa que eu vim at aqui s para ver Kelly?
Nina deu uma risada e foi preparar o CD. Eu me sentei perto de Steve, aliviada. s vezes uma garotinha de dez anos tem mais energia do que posso dar conta.
- Ento, como foi o grande encontro ontem  noite? - Perguntou, enquanto contemplava Nina saltitando feliz pelo gramado.
- Maravilhoso.
Imaginei se Steve poderia saber, apenas me olhando, que James tinha me beijado. Ainda lembrava do toque gentil de seus lbios nos meus. 
Ele me olhou levantando as sobrancelhas.
- Tem certeza de que voc no est dizendo isso s para ganhar a aposta?
- Fique sabendo que essa nossa aposta idiota  a ltima coisa que me preocupa agora.
Era mentira, mas estava cheia de Steve ficar lendo nas entrelinhas o tempo todo.
- Voc no achou o cara um chato? - Steve bateu palmas quando Nina terminou a dana e fez uma reverncia. - BIS!!!
Fiz um sinal para Nina recomear a dana e virei-me para Steve.
- S para voc ficar sabendo o Radio Waves est para assinar contrato com uma gravadora independente - revelei, melindrando.
Steve ficou bravo.
- Em primeiro lugar, fique sabendo que James j vem dizendo isso h mais de um ano. Aqueles caras tm tanta chance de entrar no mundo da msica quanto eu! Em segundo 
lugar, voc no respondeu a minha pergunta. Ele  ou no  um chato?
- Ele  fascinante. E, o que  mais importante, acha que eu sou fascinante.
- No duvido - Steve retrucou - Para ele, depois de namorar com Tanya Reed, voc poderia ter a aparncia que tivesse.
- Obrigada pelo cumprimento.
Steve estava comeando a me irritar. Apesar de nossa aposta, eu tinha chegado a pensar que ele ficaria feliz se eu arranjasse um namorado. No dia do trabalho ele 
parecia se importar muito com essa perspectiva.
- Desculpe. De verdade. Mas me diga s mais uma coisa.
- O qu? - perguntei, suspirando profundamente.
- Quantas vezes ele se olhou no espelho para arrumar o cabelo?
Tive de dar risada. James era muito vaidoso. Cheguei a surpreend-lo tentando ver seu reflexo na frma de pizza metlica vazia.
Steve comeou a imitar James se enfeitando diante de um espelho, e camos os dois na gargalhada. Bem nesse preciso instante Nina terminou a dana e deve ter pensado 
que ns dois estvamos malucos.
Caminhei com Steve at o carro e deixei Nina recolhendo as coisas para levar para dentro, a fim de que pudssemos entrar e preparar o almoo. Ela mostrava-se desapontada 
porque Steve estava indo embora. Adorava ficar se exibindo diante dele.
- Agora, falando srio. At que ponto voc gosta de James? - Abriu a porta do carro e ficou me olhando.
Fiquei quieta por um instante. Nunca havia pensado que um cara como James seria meu namorado. Eu seria uma doida se deixasse passar uma oportunidade como aquela. 
Mesmo que mais tarde acontecesse de terminar com ele e ficar de corao partido, eu tinha de encarar a batalha.
- Gosto muito dele. - confessei finalmente - Acho que pode ser o cara certo para mim.
Steve balanou a cabea.
- Bem, no pegue a tesoura ainda. Muita coisa pode acontecer de agora at o Baile de Inverno. Muita coisa.
Steve acelerou, cantando pneu, em direo  avenida. Enquanto observava seu carro desaparecer na esquina, tive a clara sensao de que meu melhor amigo tinha um 
problema. 
Mas quando era que ele no tinha, afinal?

6 - STEVE

Tera-feira, 24 de outubro

No consigo tirar Kelly e James da cabea. Nos ltimos dias eu os tenho visto na paquera. Um par de vezes at os vi "ficando", de mos dadas.  esquisito ver Kelly 
agindo de forma to boba. Ela parece at outra pessoa, e no estou certo de que gosto disso. Quando disse a ela em setembro que deveria se apaixonar, no sabia que 
tudo aconteceria to rpido.
James  um cara bonito, para quem gosta do tipo arrumadinho. E ele  muito popular na escola. Mas sua personalidade no  l essas coisas. E me chamou a ateno 
o fato de que nunca vi Kelly rindo quando est junto com ele. Quando est comigo, ela no pra de rir o tempo todo.
Rebecca viajou com os pais no fim de semana, mas ns temos um encontro marcado para sbado. Se no sair como planejei, ento vou ter problemas.

Sem dvida eu estava comeando a ficar nervoso sobre a possibilidade de perder a aposta. Se perdesse, iria parecer um perfeito idiota, e Kelly nunca, nunca mais 
me deixaria esquecer isso.Tambm no podia me esquecer de que Andrew iria pegar no meu p pelos prximos cinqenta anos. E ento tnhamos o assunto complicado de 
se apaixonar. Eu j estava cansado de ficar sozinho ou tendo encontros com qualquer garota que aparecesse. Queria mais do que apenas uma boa diverso.
Estava pronto para levar a srio o papo com Rebecca. J tinha pensado que ela era uma das mulheres mais bonitas que eu jamais havia conhecido. E era esperta. Sem 
mencionar que era sofisticada. E sexy. Est bem, ela era perfeita.
No sei porque estava to ansioso quando fui at a casa dela sbado  tarde. Ser que era porque tinha encontrado uma garota com quem eu realmente me preocupava 
e agora sentia medo de ser rejeitado? Ou apenas estava sem jeito?
De qualquer forma, pela primeira vez limpei meu carro por fora e por dentro. No assento traseiro trazia uma cesta de piquenique com sanduches, batatinhas, biscoitos 
de chocolate e refrigerantes (preparados por minha generosa me). Enquanto andava em direo  casa dos Foster, eu assobiava contente. No momento em que estivesse 
numa boa com Rebecca, Kelly estaria passando por um aperto.
Um garotinho loiro atendeu a porta. Estava vestindo uma camiseta do Power Rangers e parecia que estivera brincando na terra.
- Quem  voc? - perguntou, medindo-me de alto a baixo.
- Steve Parson, meu senhor. O cavalheiro  o dono da casa? 
Usei minha melhor entonao de voz, como um vendedor, e ele riu. Abriu mais a porta e fez um sinal para que eu entrasse.
- Voc  o namorado da minha irm?
Ele me olhava como se eu fosse um bichinho de laboratrio.
- No sei. Melhor a gente perguntar para ela.
-Jason, est fazendo arte de novo? - Rebecca falou descendo a escada.
Ela estava maravilhosa como sempre, em um jeans preto e uma blusa verde justa. Seu cabelo estava preso em um coque frouxo, mas vrias mechas escapavam e formavam 
uma moldura para seu rosto.
- No - respondeu Jason, dando um passo para trs.
- Cai fora. Volta para teu bolo de terra.
Jason correu at ela, deu uma pisada no seu p e saiu correndo pelo corredor adentro.
- Gracinha de garoto. E a irm mais velha  mais gracinha ainda.
Rebecca deu um beijinho em minha bochecha.
- Ele  um monstrinho. Por que as crianas no nascem j crescidas?
Pelo jeito, ela no gostava muito de crianas.
- Acho que seria um pouco difcil para as mes.
- Falando nisso,  melhor a gente ir antes que minha me venha conhecer voc. Em quem ela pe as garras, acaba por convencer que o melhor  sentar na cozinha e ficar 
tomando caf com ela.
Rebecca pegou uma jaqueta jeans desbotada e jogou sobre os ombros.
Enquanto eu dirigia, ela procurava alguma coisa para ouvir no rdio.
- Quantas estaes boas tem nesta cidade? Essas aqui seriam cassadas em Manhattan.
- Tem uma boa, que toca jazz - disse eu, mudando a sintonia at localizar uma de que gostava.
- Tudo bem. Esta  legal - ela concordou. No sinal vermelho paramos e olhei para ela.
- Voc no se importa de comer essas coisas de piquenique, n?
- Claro que no. S no quero comer formiga. - Ela soltou o cinto de segurana e chegou mais perto de mim. - Onde estamos indo?
- Lago Gambler - respondi, orgulhoso.
No costumo ter meus encontros l, mas como Rebecca era uma garota especial achei que merecia que eu o partilhasse com ela.
- Parece algum lugar que saiu de uma msica de Kenny Rogers.
Dei uma risada. Kelly tinha dito a mesma coisa na primeira vez que viemos ao lago juntos.
-  bonito, pode crer.
- To bonito quanto o Central Park?
- Bem, no tem charretes para passear. Mas garanto que no tem nem sombra de esgoto no lago.
Coloquei o brao em seu ombro. Aquele seria um grande dia.
- Bem, acho que vou me arriscar.
Entrei na estrada de terra que leva ao lago.
- E como voc est indo no Jefferson?
- Tudo bem. Andei levando um papo com algumas lderes de torcida e acho que vou entrar para a equipe na temporada que vem. E, pelo que tenho visto sobre as lideranas 
estudantis, acho que tenho grandes chances de vir a ser presidente.
- Uau! Voc  bastante ambiciosa.
Rebecca nunca tinha me parecido uma pessoa politicamente ativa na escola.
- Eu gosto de deixar a minha marca. E pense tambm como ser bom para o meu currculo quando for para a faculdade.
- Acho que agora sim voc est falando como uma nova-iorquina.
Parei o carro no final da estrada ao lado do lago Gambler. Mesmo sendo um dia ensolarado e quente de outono, ns ramos os nicos presentes.
- Este lugar  mesmo bonito - comentou Rebecca, como se sentisse aliviada por eu no a ter levado a algum depsito de lixo.
- Senhorita Foster, apresento-lhe o lago Gambler.
Ela deu uma risada e desceu do carro. Peguei a cesta de piquenique e a manta, e corri para chegar junto dela.
- Que acolhedor - disse ela, enquanto eu caminhava bem atrs.
- , sim. Apenas voc, eu e o sol - respondi.
Pegamos a manta, cada um de um lado e a estendemos na grama.
Coloquei uma pedra em cada canto e me sentei. Inclinado e apoiando-me nos cotovelos, bati na grama ao meu lado:
- Madame, sua mesa est pronta.
Rebecca ajoelhou-se ao meu lado e abriu a cesta.
- Oh, manteiga de amendoim e gelia.
- Eu traria caviar mas o A & P estava com a data vencida.
- Caviar seria um pouco de exagero para um lanche. Manteiga de amendoim e gelia est bom.
Ela comeou a tirar a comida da cesta. Parecia bem  vontade e me senti como se fizssemos piqueniques juntos desde muitos anos antes.
- Talvez devssemos trazer Jason aqui um dia - disse eu. - Pense nos montes de incrveis tortas de lama que ele poderia fazer.
Rebecca me olhou como se eu acabasse de propor que aprontssemos uma tremenda orgia.
- Acho que no - ela respondeu. - No me parece que com ele aqui ns teramos um grande encontro.
Abri uma latinha de refrigerante e enchi um copo plstico grande que tinha trazido.
- Que tal um brinde? - perguntei. Ela deu um sorriso largo.
- Contanto que no envolva o meu irmozinho, eu topo.  nossa volta folhas vermelhas e amarelas caam silenciosamente no cho. O lago estava azul-claro e o sol cintilava 
na gua como se ela estivesse salpicada de diamantes. S faltava aparecer um cara com um violino para o fundo musical, e o lago Gambler seria o lugar mais romntico 
da face da terra. Levantei meu copo.
- Ao lago Gambler e, nas palavras de John Denver,  luz do sol que banha seus ombros.
-A ns e a minha nova vida na Amrica das razes.
Rebecca tocou seu copo no meu, olhando fixamente por de trs de seus longos clios.
Coloquei meu copo de refrigerante na grama e me aproximei de Rebecca. Nossos lbios se encontraram e eu a beijei suavemente. Na hora senti uma fasca me queimando 
por dentro. Os lbios de Rebecca tinham um sabor melhor do que parecia. Meu corao disparou quando me aproximei mais ainda sobre a manta. A medida que nossos beijos 
iam se tornando mais e mais demorados, eu desejava que Kelly estivesse ali para ver. Ela ficaria de uma vez para trs no que se referia a nossa aposta. Ento Rebecca 
passou os dedos pelos meus cabelos e no consegui pensar em mais nada.
- Foi muito legal. Eu pedi a Rebecca para vir at em casa - contei para Andrew. Acabramos de terminar uma partida de basquete um contra um na quadra externa do 
colgio Jefferson. O tempo tinha se tornado um tanto frio, mas eu estava suando e um pouco sem flego.
- E ela concordou?
Ele girou a bola na ponta do dedo indicador, um malabarismo que vinha treinando havia anos.
- Cara, claro que ela disse sim. Voc conhece alguma mulher que conseguiu resistir ao meu charme?
- Eu me lembro de uma.
Andrew lanou a bola na minha barriga, e me fez gemer.
- Quem?
Levantei do banco onde estvamos sentados e comecei a bater bola.
- Quem voc acha? Kelly.
- O qu?
Segurei a bola e fiquei imvel.
- Kelly Byrne. A garota que voc vem enrolando h anos. Ela nunca entrou na sua de macho.
- Kelly e eu somos amigos. Veja o que quer dizer isso no dicionrio.
- Por que voc no olha no dicionrio o significado de dissimulao? Voc no est com nada, cara.
- Pensei que o assunto era Rebecca.
Pegamos nossas mochilas e fomos andando em direo ao estacionamento.
- E era. Para falar a verdade, no entendo por que voc anda correndo tanto atrs de uma namorada. Ainda faltam muitas semanas para o baile. Pode ser que voc encontre 
algum melhor.
Balancei a cabea numa negativa. A total falta de sensibilidade de Andrew nunca deixou de me surpreender. Mesmo sendo um rapaz, parecia que ele via as garotas como 
pragas.
- Veja, Andrew. Tem umas coisas na vida que so realmente legais. Coisas como amor, satisfao e felicidade.
- E?
Paramos, e ele ficou me encarando.
- E o qu?
- E voc pensa que vai ter isso tudo com Rebecca? Andrew pegou a bola e girou sobre a ponta do dedo indicador de novo.
- Claro. Por que no?
Andrew levantou os braos em rendio.
- Eu s no consigo entender como  que voc pode amar uma garota que conheceu apenas h dois meses. 
- Olha eu estou a fim de alguma coisa sria. No vejo nada de errado nisso.
Comecei a andar de novo, e Andrew me seguiu.
- Bem eu gosto de experimentar bastante. Garotas so uma grande enxaqueca, se voc quer saber.
- Eu no perguntei nada a voc.
- Pois deveria. Rebecca s est atrs de farra, cara. Ela no  o tipo de garota por quem voc gostaria de se apaixonar.
- Vou considerar isso como um conselho. Agora, pode devolver minha bola?
- Toma - ele respondeu. - Pode acreditar, voc est se metendo em encrenca.
Ele esticou o brao segurando a bola.
Dei um tranco no brao de Andrew. O que ele sabia sobre mulheres?

7 - KELLY

Quarta-feira, 1 de novembro 
10 horas da manh

Ontem James me convidou para o Baile de Boas-Vindas. Estvamos na festa do Dia das Bruxas na casa de Caroline Sung (eu estava de bruxa e ele, de pirata), e ele me 
convidou sob a luz negra que criava efeitos especiais no salo. No comeo da noite confesso que fiquei aborrecida quando ele passou um tempo me contando como havia 
sido a festa do Dia das Bruxas no ano passado, quando ainda estava namorando Tanya. Eu no estava com o humor muito bom porque Steve no tinha aparecido. Ele e Rebecca 
tinham ido  casa de um certo jogador de futebol.
Mas o que importa  que James me convidou para o Baile de Boas-Vindas: ser minha primeira festa na escola em que terei um namorado oficial. Ser que isso significa 
que estamos apaixonados um pelo outro?
P.S.: Mal posso esperar para contar a Steve as novidades. Parece que a gente no conversa h anos.

O inverno chegava. Todos estavam vestindo suas blusas de l e comentando que podiam enxergar a prpria respirao no ar frio fora de casa.  noite, fechei a janela 
de meu quarto e me perguntei se j era hora de ligar meu cobertor eltrico. Quando fui dar aula para Nina Johnson, nosso espao passou a ser a sala de jogos no poro, 
e no mais o jardim. Ellen Frazier decidiu que podia comear a usar seu Suti Maravilha.
Mesmo repetindo a todo instante que essa coisa de baile de escola  muito infantil e idiota, eu ardia de ansiedade pelo momento de entrar no salo tendo o brao 
de James em minha cintura. Via a mim mesma com um pequeno buqu de rosas vermelhas no vestido, brincos de zircnia pendendo sobre os ombros expostos, os tornozelos 
provocantes rodeados pelas tiras das sandlias de salto alto.
A banda Radio Waves estaria tocando no baile, e por isso eu no poderia ficar muito tempo junto de James. Mas eu me sentia feliz sabendo que qualquer uma das garotas 
no salo se derreteria de cimes por saber que era eu quem acompanhava o grande astro.
Na sexta  tarde, Ellen e eu fomos ao shopping ver umas roupas. Ela havia concordado em ir ao baile com um dos amigos de James, embora no estivesse muito a fim.
- Que tal este? - Ellen perguntou.
Ela ria e segurava um vestido de tafet rosa, com uma blusa balo. Em volta dos ombros tinha desenhos de fadas ou qualquer coisa assim. O vestido era horrvel.
- Se eu me vestisse assim, s faltaria me embrulhar em folhas de gibi pra ficar parecendo um chiclete de bola.
Fui olhar em outros cabides e peguei um vestido preto curto. Tinha um bolero com aplicaes de contas e era perfeito.
Ellen pegou um vestido de seda verde, e ento entramos no provador.
- Acho que Steve e a tal de Rebecca esto namorando srio - comentou Ellen.
Ela estava tirando a blusa de l, e por isso sua voz saiu meio abafada, mas mesmo assim eu entendi.
Comecei a desamarrar minhas botas pretas.
- Eles iro ao Baile de Boas-Vindas juntos, se  isso que voc quer dizer.
Arranquei as botas e tirei as meias pretas grossas, imaginando que elas no combinariam de jeito nenhum com um vestido de baile.
Ellen virou de costas para mim e puxei o fecho do vestido verde. Eu podia dizer que o "auxiliar da natureza", que era como ela chamava o seu Suti Maravilha, combinava 
muito bem com aquele vestido.
- Sim. Sei que eles vo ao baile - minha amiga comentou. - Faz um tempo que o Steve convidou a Rebecca. Mas aquele bracelete que ele deu a ela me parece um bocado 
caro. Andrew Rice me contou que Steve detonou uma boa parte do dinheiro que ganhou com seu trabalho durante as frias de vero.
Parei o fecho pela metade.
- Que papo  esse? Que bracelete?
Pelo espelho, pude ver Ellen levantar as sobrancelhas.
- Voc no sabe?
Balancei a cabea, tentando parecer indiferente.
- No, acho que ele se esqueceu de me falar sobre isso. No tem problema.
- Bem,  de ouro com uma opala. Opala  a pedra da sorte dela. Vi o bracelete quando estvamos no banheiro ontem. Alis, do jeito que ela fazia com as mos, era 
preciso ser cego para no ver.
Fiz de conta que no tinha interesse no que ela dizia:
- Hum, no sabia que Steve era do tipo que apela para coisas como comprar uma pedra da sorte para uma garota. Que coisa mais antiga, papo dos anos 60...
- Tenho certeza de que ele vai comentar com voc sobre o bracelete. Vai ver nem teve a chance ainda. - Ellen ficou na ponta dos ps para ver qual vestido caa melhor.
- Claro. Tenho certeza de que ele se esqueceu.
Mas eu estava furiosa. Como Steve tinha deixado de contar uma coisa to importante quanto essa a sua melhor amiga? E eu tinha certeza absoluta de que ele havia conversado 
com Andrew sobre o presente, e at mesmo consultado Andrew sobre o que deveria comprar. Steve nunca foi de dar presentes a suas namoradas, especialmente jias caras. 
Quanto a mim, a nica coisa que ele algum dia me deu foi um peixinho dourado (que, por sinal, morreu trs dias depois).
Afinal era possvel que Steve realmente estivesse amando Rebecca. Se isso era verdade, nossa aposta daria em empate. Eu estava certa de que amava James. Mas ser 
que Steve ia me abandonar, agora que tinha achado algum melhor que eu? No passado nossa amizade sempre estivera em primeiro lugar. Ele me contava tudo a respeito 
de tudo que acontecia em seu dia-a-dia, incluindo sua vida amorosa. Agora parecia que ele no estava precisando mais de mim. Talvez eu tivesse de dizer adeus ao 
meu melhor amigo. Era um pensamento muito deprimente, para dizer o mnimo.
Ellen girava em frente aos trs espelhos e alisava o vestido de seda na altura do peito. Ela parecia usar pelo menos manequim quarenta.
- Bem, acho que Steve namorando Rebecca Foster  um desperdcio de um cara legal. Ela  horrorosa.
- Por que diz isso?
Admito que no gostava muito de Rebecca. Toda vez que a encontrava ela me ignorava. Porm j estava bem acostumada a receber um gelo das namoradas de Steve, e isso 
no me incomodava. Na verdade at que essa atitude delas me fazia bem. Mas ainda estava surpresa por Ellen ter essa opinio negativa sobre a ltima conquista de 
Steve.
- Argh. A garota s quer aparecer. Eu a ouvi jogando conversa fora sobre Steve no banheiro das garotas. S ficava falando de como ele era bonito, mas no disse uma 
palavra sobre a personalidade interessante dele, por exemplo. - Ela abriu o fecho e tirou o vestido.
- Verdade? - Eu ainda me olhava no espelho. Por algum motivo, o vestido preto perdera o encanto. Sentia meu estmago se revirando e j no estava com muita vontade 
de fazer compras.
- Ela disse a Amanda Wright que Steve seria o seu bilhete para a popularidade. Como todo mundo o conhecia, ela acabaria sendo reconhecida tambm. Contou que, quando 
estava no terceiro ano, era a chefe das lderes de torcida e namorava o quarto zagueiro. Como  possvel ser uma pessoa to superficial?
Segurei o vestido preto e o bolero.
- Voc est com cimes de Rebecca, no est? Quero dizer, sei que voc tem uma queda por Steve, mas ele no seria um bom namorado, ele  muito galinha. Acredite 
em mim, melhor ficar na amizade.
Ellen franziu a testa:
- Kelly, eu no estou com cimes. Voc est?
- No me faa rir - respondi indignada. - Eu nunca sairia com Steve para namoro. J disse isso pra voc umas cem vezes.
- Eu sei que voc disse. - Ellen vestiu os jeans e procurou pelos sapatos. - Mas voc nunca me explicou de verdade por que no quer sair com ele.
Suspirei.
- Por uma razo muito simples. Eu estou com James. E, mesmo que no estivesse, Steve e eu no fomos feitos um para o outro.
- Continue explicando - ela pediu, levantando as sobrancelhas e olhando para mim.
- Ele  como um irmo para mim, no sabe assumir um compromisso,  arrogante, gosta de outros sabores de sorvete de que eu no gosto, e sempre temos brigas idiotas 
para ver quem fica com o controle remoto da TV.
Eu sabia que era s conversa inconseqente, mas a cutucada de Ellen me pegou de jeito. Falar de Steve desse modo to pessoal me deixava encabulada.
Ellen riu.
- Bem, posso ver que vocs formam uma dupla e tanto. Desisto deste papo. Sei que voc detesta falar sobre Steve.
- Obrigada. Agora vamos sair logo daqui. No estou encontrando o vestido que queria.
Enquanto saamos da loja, tentei ignorar a sensao de enjo. Ainda no podia acreditar que Steve no me dissera nada sobre o tal bracelete. Assim que cheguei em 
casa, telefonei para ele. Steve teria de me explicar um monte de coisas.

Enrolava o fio do telefone no dedo indicador, enquanto esperava que algum atendesse a ligao na casa de Steve. Ao terceiro toque, ouvi a voz suave da sra. Parson.
- Al, senhora Parson. Posso falar com Steve?
Chutei as botas para longe e me estendi de costas na cama.
- Kelly, que bom ouvir sua voz. Parece que faz tanto tempo que no nos falamos.
- Bem, tenho estado muito ocupada. Acho que Steve tambm.
Gostava muito da sra. Parson. Ela era como uma segunda me para mim.
- Kel? - Steve atendeu na extenso enquanto a sra. Parson desligava.
- Oi.
Por alguma razo meu corao disparou. De repente Steve me parecia um estranho.
- O que voc vai fazer hoje  noite?
Sabia que ele estava comendo alguma coisa pelo barulho que fazia com a boca e imaginei que seria salgadinho de milho. Ele devorava um saco desses salgadinhos todo 
santo dia.
- Tenho um encontro com James.
Levei o telefone para perto do armrio. James viria me apanhar em meia hora, e eu ainda no tinha idia do que vestir.
- Parece que nossa aposta pode dar em discusso.
Pelo jeito de falar, ele parecia cansado, como se no quisesse conversar comigo.
-  isso a - respondi, sem conseguir disfarar o tom de voz; amargo.
- O que voc quer dizer com isso?
Ele estava irritado, mas nem me importei com isso.
- Voc e Rebecca esto ficando muito ntimos. Todo mundo est comentando sobre o extravagante bracelete que voc fez questo de dar a ela.
- Era o aniversrio dela. E da?
- Por que voc no me contou que estava to apaixonado por ela, que quis detonar o dinheiro que ganhou trabalhando durante o vero? Eu no significo nada para voc 
para me contar o que anda acontecendo em sua vida?
Estava ficando cada vez mais brava. Steve poderia ter pelo menos me pedido ajuda para escolher o presente. Tenho um gosto bem melhor que o dele.
- Me desculpe por ter nascido. Achei que voc estava ocupada demais, beijando James Cara-de-Otrio pelos sagues da escola, para prestar ateno em mim.
Agora Steve tambm estava nervoso, e nosso papo estava indo para o brejo.
- Ah, e voc, que parece ter os lbios grudados nos de Rebecca! J estou achando que vocs so irmos siameses. De repente Steve parou de mastigar.
- Acho que voc est preocupada porque vou ganhar a aposta. Voc j est se cansando dessa desculpa para ter um namorado e sabe que esse seu namoro no vai durar 
at o Baile de Inverno.
Peguei uma cala de malha e uma blusa de gola rol e bati a porta do armrio.
- Pois saiba que estou total e absolutamente apaixonada por James Sutton. Por outro lado, voc no saberia o que  amor mesmo se tropeasse nele. Tudo o que importa 
para voc  um rostinho bonito.
Com a mo livre, tirei a cala jeans. O tempo passava e eu ainda no tinha trocado de roupa. Usava de todo meu autocontrole para no desligar na cara de Steve.
- Kelly, voc no me conhece. Parece que passou os ltimos trs anos em uma nuvem de fumaa.
- Claro que sim - respondi com ironia. - Agora, se voc me d licena, preciso me arrumar para um encontro. Boa tarde.
- O mesmo para voc. Mal consegui ouvir sua voz.
- Tchau.
Bati o telefone no gancho. Quase tinha chorado de raiva, e dentro de dez minutos James estaria buzinando l fora.
Mesmo furiosa com Steve, no podia acreditar como nossa conversa tivesse terminado to mal. Nunca havamos ficado to bravos um com o outro e no estava certa de 
que a gente poderia passar por isso numa boa.
Tentei me animar com a idia de que ia ter um encontro com James, mas as lgrimas escorriam pelo meu rosto. Olhando no espelho, eu me vi plida, com olhos vermelhos. 
Poderia estar namorando, mas parecia que tinha perdido meu melhor amigo.

- Voc sabe o quanto est bonita hoje? -perguntou James, me puxando para mais perto.
Encostei a cabea em seu peito, ouvindo as batidas de seu corao.
- E voc at que no  feio. Depois de um jantar italiano sensacional, estvamos parados em frente de casa. James fora to atencioso e gentil a noite toda que eu 
me sentira uma princesa.
- Kelly, estou to feliz por termos nos encontrado. O comeo do ano estava uma chatice. Depois que Tanya foi embora, pensei que ficaria sozinho pelo resto da vida. 
Da fui para a classe de redao e encontrei voc.
- Para mim  coisa do destino.
Olhei para James, admirando seus olhos castanhos. Eu estava lealmente vivendo um conto de fadas.
- Para mim tambm.
A boca de James estava to perto da minha que eu podia sentir suas palavras, em vez de ouvi-las. Passei os braos pelo pescoo dele e puxei-o mais. Ele tocou meu 
rosto como se fosse de cetim. Acariciei sua nuca com a ponta dos dedos e pude senti-lo estremecer em meus braos.
Por um instante ficamos apenas nos encarando. Depois James me beijou, apertando seus lbios contra os meus. Uma espcie de formigamento percorreu meu corpo, enquanto 
um sentimento estranho de confuso misturada com satisfao tomava conta de mim. Eu tinha aquilo que queria, mas mesmo assim havia essa constante sensao de uma 
grande desiluso. Por qu?
Ignorei o raciocnio lgico e me apertei mais contra ele, fechando os olhos, sob a luz tnue da lua que iluminava toda a nossa varanda.
No sei quanto tempo ficamos em p ali, abraados como se nunca tivssemos ficado juntos. Quando finalmente nos afastamos, estvamos os dois quase sem flego.
Naquele instante a luz da varanda acendeu e apagou algumas vezes. Minha me sabia que estvamos ali fora e achava que eu j tinha aproveitado muito por uma noite. 
Dei uma risada meio sem graa.
James sorriu, passando a mo por meus cabelos e colocando-os para trs das orelhas. Inclinou-se para a frente e me deu um beijinho na testa, e em seguida se abaixou 
para sussurrar em meu ouvido.
- Vou cantar uma msica s para voc no baile.
Entrei em casa e percebi que minha me discretamente j sara do corredor de entrada. Fui at a janela da sala e abri a cortina branca de fil. James entrara no 
jipe e seu rosto estava mergulhado nas sombras. Fechei a cortina, que fez um som abafado de assobio.
Enquanto subia as escadas na ponta dos ps, uma parte de mim se sentia nas nuvens. J tinha conseguido atingir meu objetivo para o ltimo ano da escola. Ainda nem 
havamos passado pelas frias e eu me apaixonara pela primeira vez em minha vida. Quem poderia imaginar que a cnica Kelly Byrne poderia fazer brilhar os olhos de 
James, como naquela noite? Parecia mesmo um milagre.
Contudo uma outra parte de mim se sentia como se tivesse sido atropelada. Embora pudesse ligar para Ellen e contar os detalhes da minha romntica noite com James, 
Steve se afastara de mim. Se eu no podia partilhar as coisas boas da minha vida com a pessoa que eu considerava a mais importante no mundo, era quase como se elas 
nunca tivessem acontecido.

8 - STEVE

Quando cheguei  sala de fsica, na segunda-feira pela manh, eu me sentia muito ansioso para ver Kelly. A gente no conversava desde aquele papo-furado pelo telefone 
no sbado  noite, e eu ainda no tinha conseguido sacar o que nos levara a brigar daquele jeito. Falvamos como pessoas normais, mas de repente discutamos e gritvamos 
como se fssemos inimigos em guerra. Ainda no tinha passado a bronca e tambm no conseguia tirar a briga da minha cabea.
Kelly entrou na sala depois de mim e sentou-se em uma carteira a meu lado. Como havia vrios outros lugares vazios, entendi que ela estava com vontade de fazer as 
pazes.
A sra. Gordon discorria sobre alguma coisa a respeito de atirar moedas do alto do edifcio mais alto de Nova York, e aproveitei para rasgar um pedao de uma folha 
do caderno. Escrevi em letras de frma, bem grandes, "PAZ". (Procurava dar o primeiro passo, mas no tanto a ponto de me desculpar.)
Nos ltimos quinze minutos, Kelly fizera grandes manobras tentando manter o rosto longe de meus olhos. Tive de cutuc-la com o lpis para entregar o bilhetinho. 
Ela deu uma olhadela em volta. Quando viu o pedao de papel, sorriu discretamente. Estiquei o brao, dei um puxozinho em seu cabelo e entreguei o bilhetinho. De 
repente me senti como se tivesse tirado um grande peso de cima dos ombros.
Quando o sinal tocou, Kelly se levantou e, aproximando-se de mim, colocou a mo em meu ombro.
- Amigos? - perguntou.
Concordei balanando a cabea e apertando sua mo.
- Sempre.
Quando saamos da sala, falei com ela.
- Vamos ao Winstead's depois das aulas. Podemos comer umas fritas e lembrar que ns no temos motivo para brigar.
- Boa idia, Parson. Encontro voc l s trs horas.
Rebecca me esperava no saguo. O bracelete que tinha dado a ela pendia do seu pulso. Dei uma olhada para Kelly e vi que tinha um sorriso forado no rosto.
- Oi, gente - cumprimentou Rebecca, olhando para mim.
- Ol, Rebecca - respondeu Kelly -, que lindo bracelete!
Parecia que Kelly falava com sua melhor amiga, e senti um grande alvio ao ver que ela tentava ser gentil com Rebecca.
Rebecca segurou o pulso.
- Obrigada, Kelly. Foi o Doce Steve quem me deu. Ela no  mesmo um docinho?
Ela agarrou minha mo e chegou mais perto.
Percebi Kelly revirando os olhos. Seus olhos muito castanhos brilhavam, mas no pude compreender exatamente o que se passava em sua cabea.
- Doce como acar - Kelly concordou. - Vejo vocs mais tarde, pombinhos.
Enquanto Kelly andava rpido pelo saguo; Rebecca se esticou e me deu um beijo no rosto.
- Adivinha? - perguntou.
- O qu?
Ainda olhava para Kelly, que agora estava com James perto da sada de incndio. Ela ria, e era difcil de acreditar que ns havamos brigado pelo telefone no sbado 
 noite.
- Conversei com Carrie Starks. Combinamos de sairmos juntos, ela e Patrick Mayor. Iremos ao baile de sbado  noite todos juntos.
Fiquei preocupado ao me lembrar de como Patrick Mayor se mostrava detestvel em ambientes como os bailes da escola. Ele no era uma pessoa com quem eu estivesse 
morrendo de desejos de me enturmar. Desde que Patrick e Carrie Starks tinham comeado a namorar, os dois eram freqentemente vistos dando um showzinho em pblico. 
No era nada agradvel ver aquele robusto jogador de futebol americano socando sua namorada em plena luz do dia. Mas Rebecca aparentemente nem percebeu que eu no 
estava nem um pouco contente.
- No vai ser legal? - perguntou. - Vamos curtir um bocado juntos! E se eu ficar amiga de Carrie, ser um primeiro passo para entrar na equipe das lderes de torcida.
Se ir ao baile com Carrie e Patrick era assim to importante para ela, por que eu haveria de me preocupar? Afinal, quanto mais contente ela estivesse, mais romntica 
se sentiria. E bailes so feitos para o romance.
- Vai ser muito legal - respondi, colocando meus braos em volta dela. - Eu topo.
Ns nos separamos na porta da sala onde Rebecca teria a prxima aula e depois corri escada acima para a biblioteca, subindo dois degraus a cada passo. Andrew e eu 
estvamos fazendo um trabalho de histria e estudvamos tambm durante o segundo perodo.
Ele estava em uma mesa bem no meio da biblioteca, rodeado por uns vinte livros dos grandes. Mordia um lpis, compenetrado, e parecia mesmo um estudante muito mais 
srio do que realmente era.
- Como , Rice? - cumprimentei, puxando uma cadeira.
- Psiu! Isso  uma biblioteca - disse Andrew com o dedo indicador sobre os lbios.
Eu me inclinei para que ele pudesse ouvir o cochicho.
- Como vai o garoto bem-comportado? - perguntei, olhando para os lados para ver se o diretor no estava de olho em ns.
Andrew apontou para uma garota na mesa da recepo. Muitos calouros ficam atrapalhados com as normas da biblioteca, mas nunca tinha visto Andrew se preocupar com 
isso. A garota tinha cabelos castanhos compridos. Ele se virou para mim.
- Prometi a Rachel que ficaria quieto - confidenciou.
Fiquei surpreso. Teriam seres extraterrestres raptado Andrew e colocado um clone em seu lugar? Nunca fora de meu conhecimento que ele se preocupasse em cumprir uma 
promessa feita a uma bibliotecria.
- E da?
- Da que ela  uma garota maravilhosa. Vamos respeit-la - sussurrou Andrew, enquanto olhava para mim e para Rachel, que digitava alguma coisa no computador.
Estiquei o brao e coloquei a mo em sua testa.
- Voc est com febre? Ou ficou maluco?
Ele empurrou minha mo.
- Vamos fazer o trabalho. Rachel foi muito legal em pegar esses livros para ns. Vamos us-los.
Apanhei o livro mais prximo e comecei a folhe-lo. Pouco depois, levantei a cabea para perguntar a Andrew como ele gostaria de dividir o trabalho. Ele encarava 
Rachel com a boca aberta. Acenei, com a mo  frente dos seus olhos, tentando chamar a ateno.
Percebi que ele ficou envergonhado, e um pensamento interessante cruzou minha mente. Ciente do fato ou no, Andrew tinha se apaixonado pela garota que trabalha na 
biblioteca.

- O nome dela  Rachel - disse eu a Kelly, segurando a porta de vidro do Winstead's. - Ela trabalha na biblioteca.
O Winstead's era um lugar muito legal. Tinha de tudo, de hambrguer a burritos, apesar de toda a comida ter sempre o mesmo gosto. As mesas eram gastas, e havia uma 
velha mquina toca-discos automtica em um canto. Acho que Kelly e eu gastamos metade da nossa vida social nessa lanchonete, principalmente depois que tiramos nossa 
carteira de motorista. O Winstead's era um local muito popular entre os calouros, que ali costumavam fazer hora, porque dava para ir de bicicleta, j que fica prximo 
da cidade.
- Rachel Hall? - perguntou Kelly, indo direto para sua mesa favorita.
Ficava bem junto ao toca-discos. Kelly tinha a tendncia de se apossar da mquina e selecionar as msicas enquanto estava por ali.
- Acho que sim. Andrew disse que o nome era Rachel. E ele fazia aquela cara de pateta toda vez que dizia o nome dela.
Pendurei nossas jaquetas em um cabide perto da mesa e desabei na cadeira. Tinha sido um dia longo e cansativo.
- Muito interessante. Acho que Rachel no estava na lista de Andrew.
Kelly abriu o cardpio e tive de esticar o pescoo para ler as palavras de ponta-cabea.
- Bem, deu para ver que ele tem uma queda por ela.
- Imagino se ela vai querer alguma coisa com ele - argumentou Kelly, passando-me o cardpio.
- Vamos dividir uma poro de nachos?
- Puxa, eu estava mesmo a fim de uma poro de nachos, desde que almoamos aquele sanduche de atum - concordei.
- De qualquer jeito, eles no parecem que so do tipo nascidos um para o outro. Mas o amor tem seus caprichos.
- Se algum entende disso, somos ns - concordou Kelly.
Ela fez o pedido  garonete. Depois foi at a mquina e colocou uma moeda.
- Verdade. Quero dizer, h trs meses ns dois pensvamos que nunca poderamos nos apaixonar. E agora veja s.
Sorri para Kelly, que retribuiu o sorriso. A garonete voltou com nosso pedido em seguida. Esses nachos no passam de uma poro de fritas recobertas com molho de 
queijo. Em um lado do prato se estendia uma fileira de tremoos. Eu poderia jurar que essa poro de nachos do Winstead's era o meu prato predileto.
Kelly pegou um punhadinho e colocou na boca.
- Sabe, Steve, tenho de admitir uma coisa.
- O qu? - perguntei.
- Estou contente de que voc me tenha feito concordar com essa aposta idiota. No sei se teria paquerado James e se estaria com ele agora no fosse a ameaa de ter 
de sair por a de loira oxigenada.
- Bem, fico feliz por voc estar nessa de garota apaixonada, mas ainda acho que James  um panaca.
Comi outra batata, saboreando o queijo derretido.
- Voc diz isso s porque quer ganhar a aposta. No ficaria contente nem um empate?
Sabia que ela no aceitaria nenhum conselho meu, mas enfim no deixara de dar minha opinio. Era o meu jeito de ser.
- No estou dizendo isso s para ganhar a aposta. Estou sendo totalmente sincero.
- E que voc responderia se eu lhe dissesse que Rebecca no  uma garota para voc?
Uma das msicas que Kelly havia selecionado na mquina comeou a tocar, e ela se ps a balanar o corpo, acompanhando o ritmo.
- Eu responderia que no  da sua conta - declarei.
- Pois exatamente.
- Isso quer dizer que no  da minha conta?
- Isso mesmo, adivinho.
Agitei meu guardanapo como uma bandeira branca.
- Tudo bem.
Ela concordou acenando com a cabea.
- Pensei que voc conseguiria enxergar as coisas do meu ponto de vista.
Kelly empurrou o prato de fritas, pegou o copo de gua e tomou tudo de um gole s. Vendo a cena, no pude deixar de cair na risada. Ela era realmente uma em um milho.

Novembro tinha chegado, e o dia 11, sbado, dia do Baile de Boas-Vindas, amanheceu frio mas ensolarado. Na sexta  tarde j tinha preparado tudo para a festa: minha 
me me ajudara a escolher um buqu de rosas vermelhas para Rebecca, eu tinha mandado meu nico terno para a lavanderia e at mesmo lavara o meu carro. Estava tudo 
arrumado.
Como Patrick era um jogador e Carrie a lder de torcida, Rebecca e eu fomos sozinhos ao jogo dos Raiders. Depois voltaramos para casa para trocar de roupa, e todos 
nos encontraramos por volta das nove horas. Ainda no estava muito contente por ter a companhia de Patrick e Carrie, mas j estava mais conformado com a idia.
Chegando ao estdio, Rebecca quis sentar nas arquibancadas em frente s garotas da torcida.
- Vamos sentar aqui - ela pediu. - Assim podemos ver todos os nossos amigos.
Ela acenou para Carrie, que respondeu chacoalhando um pompom vermelho.
Vi Andrew sozinho em um canto e fiz sinal para ele vir se sentar conosco. A expresso de desolao que ele tinha no era normal.
Rebecca ficou em p e deu um abrao nele, que em seguida sentou-se.
- Oi, Andy, como vai?
Ele coou a cabea e esfregou o rosto, o que fez as bochechas ficarem vermelhas.
- Para falar a verdade, j estive melhor. Aparentemente Rebecca nem ouviu sua resposta.
- Ento, quem voc vai levar ao baile? Andrew balanou a cabea negativamente.
- Eu no vou ao baile.
- Pensei que voc fosse convidar a Rachel Hall - disse eu.
Ele andara criando coragem durante uns dois dias e tinha jurado que ia pedir a Rachel na sexta-feira depois das aulas.
- Eu achei que ela no iria gostar. Ficaria parecendo que eu achava que ela no tinha conseguido um acompanhante.
- Rachel Hall? Aquela garota desajeitada da biblioteca? Dei uma cutucada nas costelas de Rebecca. Ela era bonita e
inteligente, mas diplomacia no era o seu ponto forte.
- Eu acho ela uma gracinha - falei. Andrew fez que no se importava.
- Acho que Rebecca est certa. Afinal o que eu tenho em comum com uma garota que trabalha numa biblioteca?
- No acho que vai querer sair com ela. Tenho certeza de que voc pode conseguir algum muito mais popular.
- Kelly gosta de Rachel - comentei. - Elas estavam na mesma turma de ingls no ano passado, e as duas viviam conversando sobre livros.
Atirei um olhar para Rebecca tentando fazer sinal para que ela deixasse Andrew em paz. Rachel era a primeira garota por quem ele manifestava interesse, e no me 
agradava ver Rebecca colocando pedras em seu caminho.
- Bem, o fato de Kelly gostar no quer dizer muita coisa. Ela no  exatamente a pessoa mais por dentro do que acontece no colgio.
A voz dela era suave, mas as palavras fizeram meu estmago revirar.
- O que voc quer dizer?
Quase esquecera que Andrew estava sentado perto de ns. Minha ateno total se voltava para Rebecca.
- Bem, duvido que Kelly seja popular entre a turma do ltimo ano. Ela  legal, mas...
Rebecca deixou uma interrogao no ar como se tivesse dito tudo que h para dizer sobre Kelly.
- Mas o qu? Kel no fica de papo-furado com a turma por que tem um monte de coisas muito melhores para fazer. Como, por exemplo, danar. Ou escrever. Ou passar 
uma parte de seu tempo conversando comigo.
Sabia que soara meio irritado, mas no deu para segurar. Se havia uma coisa que me tirava do srio era ouvir algum falando mal de Kelly. Eu poderia discorrer por 
horas sobre todas as coisas que ela faz que me perturbam, mas quando algum falava mal dela eu perdia a linha.
- Desculpe, Steve. Eu s quis fazer uma simples observao. Pareceu que Rebecca tinha ficado sentida, e na hora achei
que talvez tivesse jogado pesado demais com ela. Afinal este  um pais livre. Ela podia falar o que quisesse. Alm do mais, Kelly no precisava de que eu a defendesse.
- Desculpe - disse eu, arrependido. - Acho que s estou sendo superprotetor em relao a Kelly Byrne. Andrew sabe o que quero dizei, no ?
Virei-me para a esquerda, esperando que Andrew confirmasse. Mas ele no estava mais ali. Ainda deu para v-lo caminhando em direo s numeradas.
- Tudo bem, esquece - disse Rebecca, colocando a mo em meu joelho. - Tenho certeza de que a gente pode se divertir bastante com outras coisas e no precisamos ficar 
falando de Kelly.
Concordei em silncio e coloquei meu brao em seus ombros.
- Concordo plenamente. Vamos falar de ns mesmos. Enquanto Rebecca comentava sem parar de como eu iria
gostar de seu vestido de baile, eu olhava disfaradamente para as arquibancadas.
A nossa direita e algumas fileiras acima, Kelly estava sentada
com James. Eles tinham um grande cobertor xadrez enrolado em
volta deles, e no dava para ver se ela e o Cara-de-Panaca (era
assim que chamava James em meus pensamentos) estavam de mos dadas. No que me importasse. Porm, de um ponto de vista social, achava muito interessante observar 
Kelly se comportando de um modo totalmente contrrio ao que era normal para ela. Em outras palavras, estava curioso.
Ellen Frazier estava sentada atrs deles. Com certeza o cara ao lado dela era o seu par para o baile, mas eles se sentavam a um metro um do outro. Ellen tinha uma 
tremenda cara de pouco-caso, e no consegui segurar a risada. Kelly me contara sobre Ellen e o suti milagroso, e ento eu me esforcei para conseguir dar uma boa 
olhada nela. Pelo que pude ver, parecia igual ao de sempre. Mas tambm ela vestia um casaco grosso, e por isso anotei mentalmente para conferir mais tarde, durante 
o baile.
Olhei meio sem querer para Kelly. Estava morto de curiosidade para saber o que se passava debaixo daquele cobertor xadrez.
Nessa mesma hora Kelly olhou para mim. Ela arregalou os olhos
e em seguida desviou o olhar. Senti meu rosto avermelhando. Ela
teria achado que eu a estava encarando?
A voz de Rebecca cortou meus pensamentos.
- Meu pai disse que hoje posso ficar duas horas a mais do que o normal. No  legal?
Cheguei mais perto de Rebecca e dei um abrao grande e apertado nela.
- Legal! Muito legal mesmo!
- Eu sei. Especialmente porque vai ter uma festinha particular depois do baile e  s para convidados, mas tenho certeza de que vou estar na lista.
Concordei em silncio, virando meu rosto em direo a Kelly. Nossos olhares se cruzaram brevemente e ela se mexeu. O cobertor escorregou do seu colo, e finalmente 
pude ver que ela e o Cara-de-Panaca estavam mesmo de mos dadas.
Fechei os olhos imaginando se ela sentia tanto quanto eu que encontrar o verdadeiro amor era assim to difcil. Por alguma razo achei que no caso dela, no.

9 - Kelly

Por que ser que todo baile de colgio sempre tem um tema? Nunca tem uma festa s com luzes, uma banda e ponche.. Deve ser alguma lei no escrita que os estudantes 
devam ser submetidos aos caprichos de um comit de decorao. Para o Baile de Boas-Vindas o comit escolheu o tema "Uma noite em Paris".
Admito que o ginsio estava bem bonito, para os padres do colgio Jefferson. Havia cordes de luzes em volta de todas as paredes, e at no teto, e alinhavam-se 
filas e filas daquelas mesinhas para caf por todo o salo, com cadeiras de ferro e candelabros. Grandes painis de lugares famosos em Paris pintados pelos estudantes 
estavam pendurados nas paredes. Bem embaixo da tabela de basquete destacava-se uma escultura da Torre Eiffel de papel mach. No era exatamente um espetculo magnificente, 
mas reconheo que o comit havia se esforado. Deviam ter gasto horas e horas instalando aquelas luzes.
James e eu chegamos mais cedo porque o Radio Waves precisava arrumar os equipamentos de som. Agora a banda j tocava, apesar de no ter chegado muita gente ainda. 
Eu me divertia olhando James cantar e observando as garotas que o viam cantar. Adorava a expresso embevecida em todos os rostos, o olhar vidrado que parecia o meu 
prprio olhar.
- O que voc acha da divertida "Parri"? - Ellen brincou, aproximando-se.
Por mais legal que fosse assistir  apresentao de James no palco, eu j estava cheia de ficar sozinha.
- Um lugar que merece uma visita. Mas onde est o Sena?
Ellen deu uma risada.
Se derramarem mais uns copos de ponche, vai ter um rio
correndo bem no meio do ginsio.
- Ei, o que aconteceu com Sam?
O acompanhante de Ellen era Sam, amigo de James. Eles vieram de carro com a gente, mas Sam no estava por perto.
- Deve estar jogando conversa fora com seus amiguinhos l no estacionamento. Acho que a gente pode descart-lo como candidato a namorado.
- Bom, voc est linda. Fique de olho aberto que vai aparecer algum candidato.
Ellen estava linda de verdade. Ns tnhamos voltado  loja e acabamos comprando os vestidos que tnhamos experimentado antes. Ellen at parecia a rainha do baile. 
E acho que nem precisaria do tal suti milagroso.
- Na verdade, conheci um cara. Ele estava sozinho em p ali pela Torre Eiffel. Acho que vou l falar com ele. Partilhar opinies culturais com um companheiro de 
viagem  sempre mais agradvel.
Depois que Ellen saiu, fiquei ali tomando um ch de cadeira. O ginsio j estava cheio de estudantes e parecia que no havia ningum sozinho por ali. Eu me sentia 
cheia de tdio e frustrada. O Radio Waves iria tocar a noite toda e todo mundo estaria danando na pista.
Meus sapatos novos estavam me matando e ento decidi sentar em umas das mesinhas de caf. Uma vez no lugar que escolhi, pude ver Steve chegando com Rebecca, Patrick 
Mayor e Carrie Starks. Sempre senti a presena de Steve em uma sala. Nos ltimos anos cheguei a desenvolver uma espcie de senso de percepo que me alertava quando 
ele andava por perto. s vezes at achava que ramos como os irmos gmeos que se comunicavam por telepatia, aqueles que tinham se tornado tema de notcia e comentrio 
no mundo todo.
Depois que vi Steve e Rebecca indo para a pista de dana, recostei minha cabea na parede e fechei os olhos. J tivera um dia bem cansativo e ainda tinha muitas 
horas pela frente.
Abri os olhos quando ouvi a voz de James falando no microfone.
- Eu gostaria de dedicar essa msica a Kelly Byrne - declarou com sua voz grave e rouca. - Ela  a minha Garota dos olhos castanhos.
Pelo menos uns cem pares de olhos imediatamente se voltaram para mim. Fiquei em p e acenei para James, mesmo me sentindo um pouco envergonhada. Meu corao disparou. 
Nunca ningum havia cantado para mim antes, era uma idia bastante romntica. Olhando para o rosto sorridente de James, tive um calafrio de satisfao. Ento o Radio 
Waves comeou a tocar sua verso de Garota dos olhos castanhos, de Van Morrison. O ritmo era lento e apaixonado, perfeito para "Uma noite em Paris".
Mesmo ouvindo uma cano dedicada a mim, continuava me sentindo deprimida. No tinha ido  pista de dana nem uma vez e agora teria de ficar em p ali, ao lado, 
olhando todo mundo se divertir.
- Me d o prazer desta dana, senhorita?
Virei-me rapidinho. Steve chegou por trs de mim, com os olhos azuis brilhando. Ele estava muito elegante e sofisticado em seu terno azul-claro e gravata xadrez. 
Tinha o cabelo escuro bem cortado e parecia um modelo de capa de revista.
- Ser um prazer, senhor - respondi, segurando o seu brao.
Steve olhava para o salo e pensei que procurava por
Rebecca. Errei.
- Parece que Andrew no vir mesmo - comentou.
- Rachel Hall no veio tambm. Eu conferi. Steve balanou a cabea.
- Que desperdcio, no ? Vai ver os dois esto em casa se sentindo pssimos.
- Ainda bem que no somos ns - disse. Steve me apertou um pouco mais.
- Ainda bem - concordou ele. Ficamos quietos por algum tempo.
Ns no danvamos muito. Ele estivera em todos os bailes da escola, mas eu tinha ido apenas a alguns. E, normalmente, assim que eu chegava ao baile ficava imaginando 
um jeito de despistar meu acompanhante e dar o fora. Como j disse antes, nunca tivera sorte com namorados.
- Voc est linda, Kel - ele disse me olhando nos olhos. Tnhamos ido parar no meio do salo e no pude deixar de sentir como seus braos estavam me apertando. Mas 
no era para menos, estvamos danando uma msica lenta e ele tinha de me
apertar assim.
- Voc acha mesmo? - perguntei.
Steve nunca me elogiava, nosso estilo era mais de ficar gozando um com a cara do outro. Ele acenou com a cabea:
- Claro.
- Obrigada. Mas... por que est sendo to gentil? J estou ficando preocupada.
Ouvia a voz sexy de James cantando a cano ao fundo, mas minha ateno se concentrava em Steve.
Ele deu uma risada.
- Eu? Gentil? No liga, no.
Ele deu um giro e me inclinou at quase o cho. E abandonou aquele ar de srio.
- Ei, voc acha que esse vestido  bem forte? Parece que vai descosturar.
Agora sim, esse era o Steve que eu conhecera bem.
-Ah, ? Pois vou lhe perguntar uma coisa - falei dando uma risada. - Quantos tubos de gel voc gastou esta noite no cabelo? Trs ou quatro?
Ns dois camos na risada. Ento, quando James acelerou um pouco o ritmo da msica, puxei Steve pelo salo como em um tango. Varamos pela pista de dana, forando 
os outros pares a dar passagem livre.
Assim que a msica retomou o ritmo, nos tnhamos ido parar do outro lado do ginsio. No era muito iluminado, e ficamos danando nas sombras. Steve me apertou mais 
ainda e acabei passando os braos pelo seu pescoo.
De repente me senti completamente sem ar. Sabia que meu corao estava disparado e sentia o mesmo no pescoo de Steve.
Inclinei a cabea para olhar seu rosto e vi sua boca bem perto da minha. Pareceu-me que o tempo tinha parado, e no conseguia me desviar da luz que se refletia em 
seus olhos. " isso o que as outras garotas vem", pensei. "Este  o Steve que eu nunca tinha visto antes."
Aproximei minha cabea dele e fechei os olhos. Senti o estmago meio enjoado, mas no conseguia me conter.
- Posso interromper? - ouvi uma voz em tom bem alto, gritando em meu ouvido.
- Rebecca! - Steve disse, se afastando de mim. - Eu estava indo procurar voc.
- Pois ento achou - disse ela, me ignorando de propsito.
-  isso a - disse eu, e me afastei mais ainda de Steve. - Vejo voc mais tarde, Parson.
Atravessei o salo pelo meio dos pares que danavam, querendo encontrar Ellen, Precisava desesperadamente de uma boa gozao, bem cnica, sobre como so ridculos 
esses bailes de escola.
No meio do caminho me virei e dei uma olhada na direo de Steve. Ele estava me encarando, mas longe demais para que pudesse ver a expresso em seus olhos. Engoli 
em seco e me senti paralisada.
Nesse instante Rebecca puxou Steve para beij-lo, e toda a magia do momento se quebrou, No sei dizer ao certo o que ocorrera entre ele e eu, mas esperava e rezava 
para que no acontecesse nunca mais.

- Que sufoco - disse James, horas mais tarde. - Sempre gosto de cantar para uma poro de gente.
Era quase uma hora da manh e eu havia telefonado para minha me uma hora antes explicando que ia me atrasar. O baile acabara, mas James e o pessoal do Radio Waves 
precisavam desmontar e carregar os equipamentos.
- Vocs foram timos - disse eu, colocando um monte de cabos eltricos dentro de uma sacola.
- Todo mundo adorou.
- O que posso dizer? Tenho msica nas veias. James pegou sua guitarra e sentou-se em uma das cadeiras de ferro.Ele tocou uns acordes de blues, cantarolando alguma 
coisa. - O que mais posso fazer para ajudar? - perguntei, olhando para o palco quase vazio.
Estava exausta e ainda tinha de levantar cedo para tomar conta de Nina.
James esticou o brao e me pegou pela mo, puxando-me para uma cadeira a seu lado.
- Acabei de compor esse blues Eu-no-quero-levar-Ketty-para-casa - cantarolou ele, repetindo o acorde na guitarra.
Dei uma risada.
- Qual , Mick Jagger. Meu pai vai chamar a polcia se eu no chegar em casa logo.
Quando James estacionou em frente de casa, aquela lmpada na varanda estava acesa. Pude ver a silhueta de minha me, atravs da cortina, esperando por mim no sof.
Ele desligou o motor e apagou as luzes do jipe. Virou-se no banco e esticou o brao, colocando a mo em minha cintura. Em seguida me puxou para mais perto e me beijou 
com fora, como nunca tinha beijado antes.
No meio da noite escura, eu me sentia abrigada como em um ninho aconchegante. As imagens do jogo de futebol, do baile e mesmo da minha me esperando na sala simplesmente 
desapareceram. Eu prestava ateno apenas nos lbios, nas mos e no som de nossa respirao.
Um calafrio subiu pela minhas costas e cada parte do meu corpo tremia de excitao.
- Steve - sussurrei, sentindo seu cabelo macio entre meus dedos.
No instante seguinte meu corao quase parou. Abri os olhos e me recusei a acreditar no que tinha acabado de falar.
Cada vez mais espantada, percebi que tinha chamado James pelo nome de Steve. O que estaria pensando? Ser que ele tinha percebido?
Afastei a cabea um pouco para atrs e olhei para James. Ele me abraou, apertando meus ombros com fora. No tinha ouvido que eu dissera o nome de Steve. Uma enorme 
sensao de alvio bateu em mim. Mas no conseguia mais me concentrar nos beijos de James. O nome de Steve no me saa da cabea. Por que eu dissera o nome dele? 
O que tinha de errado comigo?
Balancei a cabea levemente, tentando clarear os pensamentos. Raciocinando logicamente, tentei me convencer de que pronunciar o nome de Steve no significava nada. 
Tinha acabado de v-lo e estivera pensando nele.
- No me canso de beijar voc - disse James, segurando meu rosto com gentileza.
- Eu te amo - murmurei, encostando o rosto em seu ombro, Nunca havia dito antes essas palavras a um rapaz (exceto a Steve, mas era um caso diferente), e sempre imaginei 
sinos tocando e fogos de artifcio explodindo nos cus quando a hora certa chegasse. No sentia nenhuma dessas coisas com James, mas achei que era esperar demais. 
Naquele momento tinha certeza de que falava o que estava sentindo. James Sutton era o meu destino. Ponto final.
At o instante em que desliguei a luz de meu abajur de cabeceira, no tinha reparado que James no havia dito eu te amo em resposta. Contudo eu tinha certeza de 
que diria - e logo.

- Voc danou a noite toda? - Nina perguntou, enquanto tirava sorvete do congelador.
Peguei duas taas e colheres.
- No. A banda de James estava tocando, e ento eu no tinha ningum com quem danar.
Nina deu um suspiro dramtico.
- Bailes so to romnticos. Gostaria de ir.
Nos ltimos meses Nina vinha se mostrando muito interessada nesse lance de garotos e namoricos. Ela sempre ficava me perguntando sobre Steve e James e sobre "garoto 
que  amigo" e "namorado".
Ao chegar  casa da garotinha naquela manh, ela estava pulando para cima e para baixo, morrendo de vontade de saber sobre o baile. Imaginei se em algum tempo eu 
teria encarado um Baile de Boas-Vindas na escola com tamanho otimismo. Contemplando o rosto meigo e contente de Nina, me senti uma mulher velha e azeda.
- No se preocupe, voc ainda ir a muitos e muitos bailes. Aposto que todo garoto da sua classe vai querer ser seu acompa-nhante no Baile de Boas-Vindas.
Coloquei duas bolas de sorvete na taa e passei para ela. - Steve foi ao baile?
Desde que ela e suas amiguinhas comearam a se interessar por garotos, Nina tivera uma queda por Steve.
- Claro. Ele foi com a namorada, Rebecca.
Nina fez uma careta, deixando claro que no aceitava a idia de que Steve estivesse saindo com uma garota que ela no conhecia.
- Bom, mas pelo menos voc danou com ele?
- Dancei, uma vez.
Torci para que ela no percebesse que fiquei envergonhada. Pude sentir meu rosto ficando vermelho e quente s de lembrar o que tinha se passado entre Steve e eu, 
nos poucos minutos em que danramos Garota dos olhos castanhos. Isso era uma coisa que no estava nem um pouco disposta a discutir com Nina.
- Voc acha que Steve me levaria ao baile? Dei uma risada.
- Ele no  um pouco velho para voc? Nina deu de ombros.
- Sou madura para minha idade.
Coloquei uma grande colherada de sorvete de chocolate na boca.
- Vou dar um toque para ele - respondi sorrindo.
Nina tomava o sorvete em silncio e ento olhou para mim com cara de sria.
- Voc e Steve vo se casar um dia? Quase engasguei com o sorvete.
- No!
Nina e eu j havamos conversado muitas vezes sobre o fato de Steve ser apenas um grande amigo meu, mas ela simplesmente se recusava a aceitar que ele no fosse 
meu ideal de namorado.
Nina me olhou pensativa.
- Bem, eu acho que voc deveria se casar com ele. E eu seria a dama de honra.
Sabia que no adiantava discutir com ela, ento apenas balancei a cabea e revirei os olhos. Aquela menina precisava aprender muito sobre o amor.

10 - STEVE

Rebecca e eu estvamos deitados de bruos em um grosso cobertor xadrez, tomando sol no lago Gambler. Eu olhava para a gua, pensando como era feliz por ser jovem 
e apaixonado.
Ao ouvir o som agudo de uma risada feminina, virei a cabea. No era Rebecca que ria. Era Kelly. Ela protegia os olhos do sol com a mo e suas pernas bronzeadas 
e bem-feitas estavam esticadas.
Sem me preocupar em como ela tinha vindo parar ali, deitei minha cabea em seu colo, sorrindo e olhando seus olhos brilhantes. Devagar, ela se curvou e roou de 
leve os lbios na minha orelha. Depois sua boca tocou a minha e, esticando meu brao, passei a mo por seus grossos cabelos negros. Depois me levantei, sentando 
e apertando mais ainda meus lbios contra os dela. Em seguida, estvamos nos abraando to forte que parecamos uma mesma pessoa.

Bem na hora em que beijava Kelly, acordei. Meu corao batia forte, e eu at suava um pouco na testa. Meu mundo estava fora de controle. O que poderia estar me acontecendo?
 Claro que j tinha sonhado com Kelly outras vezes. Todo mundo que conhecia j tinha estado presente em meus sonhos uma vez ou outra. Mas nunca sonhara que a beijava. 
Senti como um bofeto. Rebecca era a garota que deveria estar em minhas fantasias. Ela era minha namorada, e eu estava apaixonado por ela. Mas aquele longo beijo 
em Kelly me pareceu to real que meus lbios ainda sentiam os dela.
O relgio na cabeceira mostrava 12h15. Um pouco envergonhado por estar dormindo at to tarde, fui para o banheiro escovar os dentes e afastar da mente qualquer 
pensamento sobre Kelly.
Todo mundo sabe que os sonhos no significam nada. S porque sonhei que beijava Kelly, isso no queria dizer que realmente desejava beij-la. A gente tinha danado 
uma msica romntica na noite anterior, e ter um sonho inocente com ela era muito natural.
Lavei o rosto com gua fria e decidi ir procurar algum para um joguinho de basquete. Eu estava precisando de um pouco de exerccio. O sonho com Kelly no significava 
nada. 
- No tem nada a ver - declarei para meu reflexo mo espelho. - Nris. Nerusca. Nadica de nada. 

- Fala, Parson, como foi o baile? - perguntou Andrew, na segunda-feira de manh.
Estvamos na biblioteca outra vez, para fazermos o trabalho de histria. O assunto eram as pirmides do Egito. Eu estudava a parte histrica e Andrew trabalha na 
epca atual, sobre as pirmides e as tumbas.
- A banda estava um saco, mas dei sorte e curti bastante - respondi.
Andrew ergueu uma das sobrancelhas.
- Engraado. Eu j vi o Radio Waves outras vezes e achei legal.
- Legal para quem gosta - observei, abrindo um livro. - A propsito, Rachel no estava no baile.
Como pensei, o comentrio que fiz tirou da cabea de Andrew o interesse pelo assunto sobre a banda ridcula de James Sutton. Ele ento atirou uma olhada  recepo 
e viu Rachel Hall entrando na biblioteca e indo tomar seu lugar, em frente ao computador. Vi que ela olhou disfaradamente em nossa direo e logo se voltou.
Andrew afastou sua cadeira.
- Lembrei agora que me esqueci de devolver um livro. Volto j, j
Inclinei-me para ver Andrew paquerando. Queria que ele simplesmente convidasse Rachel para um encontro e sasse dessa enrascada. Andrew pegou um livro e comeou 
a esfregar as mos por um instante. Depois de um curto papo, ele voltou para nossa mesa, todo desengonado.
- Como  que foi? - perguntei, dando-lhe um tapinha nas costas.
- Uma droga. Eu me sinto um idiota total perto dela
Ele colocou as mos no rosto mas vi que espiou para Rachel por entre o vo dos dedos. Resolvi deix-lo entregue s suas lamentaes e voltei para o livro de histria. 
O prazo era de apenas uma semana, e ainda tnhamos de aprender um bocado sobre os faras e pirmides.


- Estou aqui no faz um semestre e j sou amiga de todas as pessoas certas - disse Rebecca na quarta-feira  tarde. Ns estvamos sentados em meu carro e estivramos 
nos beijando por uns quinze minutos.
Minha barriga deu um n. Como sempre acontecia quando Rebecca comeava a falar de seu ndice de popularidade. No comeo eu pensava que ela s queira conhecer as 
pessoas. Mas agora achava que era uma obsesso.  at mesmo j tinha observado como chegava a ser grosseira com algumas pessoas que no estavam na lista dos mais 
populares
- Puxa, que legal - falei - Agora sua vida est completa
Rebecca concordou
- E tudo isso graas a voc - ela jogou os longos cabelos para trs e ficou me olhando, enamorada - Ainda bem que encontrei voc
- O que voc quer dizer?
Procurei ser gentil mas por dentro achei uma basbaquice
- Bem, como todo mundo gosta de voc, automaticamente passam a gostar tambm de mim. Voc  meu anjo
Nas ultimas semanas vinha pensando que Rebecca me amava, e que eu a amava. Mas algumas dvidas no saiam da minha cabea.
Rebecca no demonstrava nenhum interesse em conhecer meus amigos a menos que fossem lideres de torcida ou atletas. E sempre que ela dizia que me amava a palavra 
"popularidade" vinha logo em seguida. Basicamente, Rebecca me tratava mais como um trofu de que como namorado.
De repente me bateu um pensamento de que eu tinha forado a mim mesmo a me apaixonar por Rebecca porque queria ganhar a posta com Kelly. Mesmo sabendo que Rebecca 
s se interessava em ser popular, meus motivos afinal no eram muito melhores que os dela
A voz animadinha de Rebecca cortou meu devaneio
- Eu acho que ns o casal mais bonito do Colgio Jefferson High. Voc no acha?
Balancei a cabea, concordando em silncio, mas sentindo que meu mundo se espatifara em mil pedacinhos


Quinta-feira  noite Kelly e eu estvamos batendo papo no escritrio da casa dela, assistindo ao filme Uma jornada inesquecvel. Esse era outro de nossos favoritos, 
e eu me sentia relaxado pela primeira vez depois que Rebecca me chamara de "meu anjo".
Kelly olhava fixamente para a televiso, comendo pipoca direto. Eu no estava a fim de que ela ficasse zombando de mim no caso de eu perder a posta. Mas, ainda assim, 
queria falar sobre Rebecca. Afinal ela era minha melhor amiga a e sabia bem mais sobre as mulheres do que eu.
- Kel, eu acho que Rebecca s quer aparecer - disse eu, enchendo a mo de pipoca
- No brinca - Kelly respondeu suspirando
- Pensando bem, no estou to apaixonado por ela como achava
- Hmmm - disse Kelly.
- Kel, voc est me ouvindo? - cutuquei seu brao
- Acha que james ainda ama Tanya? - perguntou em vez de responder a minha pergunta
- Kelly, acabei de dizer que acho que no amo Rebecca
Ela deixou de lado a pipoca e me olhou
O caso  que a senhora Heinsohn chamou James para ler o poema, que ele tinha escrito, em voz alta
Pelo jeito Kelly no estava nem um pouco interessada em ouvir o que eu tinha a dizer
- E da? - perguntei
- Era um poema de amor
- Por favor, me poupe dos detalhes - No estava a fim de ouvir nada sobre james Cara-de-panaca.
- O poema no era sobre mim
- O que?
Admito que agora ficara curioso
- Bom, as palavras eram sobre perda e "distncia cruel", como ele escreveu - Kelly mordeu o lbio e balanou a cabea.
- E da? - tinha a impresso de que ela queria chegar a algum ponto
- Acho que ele escreveu o poema para Tanya, o que significa que no est apaixonado por mim.
Poderia jura que vi uma lgrima dependurada no olho dela
- Esse cara  um saco. Voc ficar melhor se ele ainda amar Tanya
De repente me ocorreu uma idia. Se Kelly terminasse com James e eu terminasse com Rebecca, a gente ainda estaria empatado em relao  nossa aposta. Quem sabe? 
Podia ser que eu me apaixonasse de novo at o Baile de Inverno. Tudo era possvel
- James no  um saco - respondeu Kelly, elevando a voz - Se disser isso mais uma vez, eu detono voc. Fique quieto!
Estava ficando chateado com Kelly. Ela acabara de dizer que James ainda gostava da antiga namorada. Se isso no era realmente um saco, ento o que seria?
- Est bom, o que voc queria que eu dissesse?
Kelly recostou-se no sof
- Tanya vir para o Dia de Ao de Graas. Voc acha que devo me preocupar com isso?
- Se voc no quer que eu diga que James  um saco, ento no tenho nada a dizer - falei com firmeza
Kelly enfiou o rosto em uma almofada do sof.
- Steve, voc se importa em ir embora agora? No estou a fim de papo
Ela desligou a televiso pelo controle e fechou os olhos
Sem me despedir, da pisando duro. Precisava levar um papo srio com Kelly sobre o fato dela s se importar consigo mesma e com o pateta do seu namorado.
No caminha de volta comecei a pensar em Rebecca de uma forma diferente. Ela devia ter seus probleminhas, mas quem no tinha? Pelo menos se mostrava sempre feliz 
quando me vi a nunca tinha me chutado pra fora de sua casa...
Tinha dado uma completa meia-volta. Na verdade, Rebecca ficaria feliz em ver nesse momento.

CAPITULO 11 KELLY

Domingo, dia 19 de novembro.
Bem no meio de uma tarde chata...

O tempo est um pouco frio agora. Mas meu humor no est muito melhor. Desde a leitura de James, de seu poema ridculo, na aula de redao. Ellen e eu temos analisado 
qual o real significado disso muitas vezes. Agora, com a ameaa de Tanya pairando sobre minha cabea, tenho sido cada vez mais possessiva em relao a James. E no 
estou gostando disso.

James no mencionou o nome dela e claro que no perguntei nada sobre o poema. Seria muita humilhao. Devo confessar que  por causa desse tipo de situao que sempre 
evitei me apaixonar. Mas tudo vai dar certo. Espero. 

Na quarta-feira antes do dia de Ao de Graas a turma do segundo grau do Jefferson foi liberada a partir do meio-dia, e no teramos aula at segunda-feira. Depois 
das aulas encontrei James perto de seu armrio, conversando com um amigo que fazia parte da banda. Quando me aproximei eles interromperam o papo e olharam para mim.
- Tudo certo para amnh a noite? - Perguntei passando o brao pela cintura dele.
- No perderia por nada. - Respondeu James, me beijando na cabea. Ele estava lindo de cala jeans preta e camisa xadrez bem colorida.
- Vejo voc s oito horas.
Caminhei pelo saguo, sentindo-me contente como na sentia desde a leitura daquele poema idiota.
Se James quisesse ficar com Tanya, no combinaria de vir para minha casa no feriado de Ao de Graas. Como Ellen dissera eu devia estar paranica. 
Era quinta-feira  tardinha e minha me e eu estavamos arrumando a mesa para a tradicional ceia de peru.
- Ento o Steve no vir hoje  noite? - perguntou minha me, enquanto me passava uma pilha dos nossos melhores pratos.
Balancei a cabea. Steve costumava vir para nossa casa nos principais feriados, mas nesse ano ns convenientemente deixamos de lado essa tradio. Desde a discusso 
durante o filme na semana anterior, nossa amizade no vinha mais sendo a mesma.
- Ele e James no so muito chegados. - respondi, colocando os pratos na mesa, e deixando um espao bem grande para o candelabro de prata que minha me sempre colocava 
em ocasies especiais.
- Ah, que pena! - lamentou minha me. - A vov queria tanto conversar com ele. Diz que ele sempre a faz rir e esquecer a dor da artrite.
Eu fiz que no me importava.
- Bem, ela ficar feliz em conhecer James, quero dizer, ele, que  o meu namorado.
-Ei, no precisa se arrepiar toda, chuchuzinho. Certamente a voc e o vov esto esperando conhecer James. Eu estava apenas lembrando que eles tambm gostam de Steve.
- talvez no Natal, me.
O telefone tocou, e minha intuio feminina fez com que sentisse um frio na barriga, enquanto ia atender.
- Al?
- Oi, Kelly. - respondeu James.
Sua voz era sexy como sempre.
- Oi, James.
Respirei fundo. Podia ser que ele estivesse ligando s para saber o que trazer para o jantar.
- Escute, no vai dar para ir a sua casa hoje  noite.
Tentei esconder o desapontamento.
- Ahh, que pena. Os seus pais insistiram para voc ficar com eles?
Olhei para mame, que tentava disfarar que no estava interessada em minha conversa.
- Ah,  sim. Voc sabe como so essas coisas. Meus avs vieram para casa hoje. E tudo o mais.
-  sim, os meus estaro aqui tambm.
Estiquei o fio do telefone tanto quanto era possvel para que minha me no escutasse nossa conversa.
- Eu ligo no fim de semana.
- Est certo.
Desliguei o telefone e me preparei para ouvir os comentrios da mame. Tinha certeza de que no mnimo, ela diria que Steve nunca teria cancelado um compromisso em 
cima da hora daquela maneira.
Ela, contudo, no disse nada e s apareceu na porta da cozinha.
-O jantar est pronto. - chamou. - Vamos nos sentar.
Sentando-me em meu lugar, peguei uma poro de peru fatiado no prato ao lado do de papai. Estava me sentindo to mal quanto aquele peru. De repente perdi o apetite.



Quando a campainha tocou, pulei do meu lugar na mesa e corri para atender a porta. Esperava encontrar James, possivelmente com um buqu de flores nas mos. Mas era 
Steve. Ele segurava um bolo de chocolate e tinha um pouco de neve em seu casaco. 
- Entrega especial para a famlia Byrne. - Falou j entrando.
Um impulso me fez dar um grande abrao nele. Tinha me esquecido de que sempre pudera contar com Steve para melhorar meu humor, mesmo quando estivesse firmemente 
decidida a ficar deprimida.
- Voc no deveria levar o bolo de chocolate de sua me para Rebecca? - perguntei.
Ele abriu o fecho do casaco e o tirou.
- Eles foram viajar, visitar amigos. Alm disso, voc no acreditou que eu ia deixar de lado essa tradiao, acreditou?
Ele deu um puxozinho em meu rabo-de-cavalo e caminhou para a sala de jantar.
- Steve Parson. - Ouvi minha v exclamando. - Est nevando?
Steve foi at vov e a beijou no rosto.
- Comeou nesse instante, vov. A me natureza soube que vocs estariam na cidade hoje.
Como j disse antes, Steve tem uma grande habilidade para agradar s pessoas. E no importava se suas piadas eram ruins, minha av sempre ria tanto que parecia que 
ele era o melhor dos comediantes.
- Crianas! - exclamou vov - Fico feliz de v-lo aqui. Kelly tem se arrastado de um lado para o outro da casa como se fosse um traste.
Steve me olhou, e fiz de conta de que no era comigo.
- No fique a parado com esta sobremesa nas mos. - disse meu pai - Vamos, pegue um prato para voc tambm.
Enquanto Steve ia at a cozinha, eu me sentei  mesa. De repente o bolo de chocolate parecia o remdio para a minha tristeza.

- Vamos andar na neve. - Sugeriu Steve, uma hora mais tarde.
Estavamos sentados perto da lareira depois de comer bolo de chocolate. Meus avs tinham adormecido em suas poltronas, e meu pai aparentemente lhes seguira o exemplo.
L fora nevava forte, e nosso jardim j estava coberto com uma gorssa camada branca brilhante.
- Vocs podem achar divertido agora. - mame disse - Mas amanh vai ser uma luta. 
- Preciso de exerccio depois de comer esse bolo. - Disse eu, tirando a manta na qual me enrolara.
Steve me seguiu at a entrada e peguei nossos casacos. Enquanto eu vestia o meu, ele ficou xeretando em nosso armrio da entrada, onde guardavamos chapus, luvas, 
guarda-chuva e outras coisas do tipo. Achou um chapu antigo, listrado de roxo e verde, com uma bola colorida em cima, e me colocou na cabea.
- Ei, eu no vou usar isso. No quero atrapalhar o trnsito. - disse eu.
Steve mexeu as sobrancelhas.
- Se voc usar, eu ponho este. - disse. Tirou a mo das costas e mostrou um chapu laranja brilhante, que meu pai tinha trazido de uma viagem de caa. O chapu tinha 
proteo para as orelhas e trazia escrito na frente: "faa-me um carinho, no atire".
Dei risada, colocando um velho cachecol no pescoo.
- Bem, esta  uma oferta que no posso recusar. Vamos assustar a vizinhana.
Steve fechou a porta atrs de ns e saimos pelo jardim chutando neve. Na rua, viramos  esquerda. A duas quadras de casa havia uma rua quase deserta, e eu sabia 
que estavamos indo para l.
Por algum tempo andamos em silncio. Nevava bastante forte, mas como no ventava eu me sentia aquecida e confortvel em meu casaco. A toda hora colocava neve na 
boca para sentir o gostinho gelado. Steve andava em ziguezague para deixar o maior nmero de pegadas possvel.
- A gente podia chamar o Andrew. - Disse eu, para quebrar o silncio. 
Steve deu de ombros.
- Ele no vai querer vir. Acho que anda estudando secretamente as fotos de Rachel Hall em antigos livros da escola. 
- Por que ele simplesmente no a convida para sair? - perguntei, chutndo uma pedra no caminho.
- Ele disse que ela no quer se amarrar, mas eu acho que ele tem medo da rejeio. No me lembro de ele ter se preocupado tanto antes com o fato de receber um sim 
ou um no de uma garota.
Concordei.
- Podemos relacionar isso com sentimento. - comentei.
- Voc preferia estar com James? - Steve perguntou andando em volta de mim.
Demorei para responder. Na ltima hora e meia tinha me esquecido completamente de meu desapontamento com o fato de James ter cancelado nosso encontro. Estar com 
Steve parecia ser a maneira perfeita de aproveitar a neve eo clima festivo no ar.
- No, estou contente aqui com voc. - finalmente respondi - Por qu? Voc queria estar com Rebecca?
Steve encheu a mo de neve e fez uma bola.
- No. No  muito divertido jogar bolas de neve em Rebecca.
Steve atirou uma bola de neve em mim e riu alto na noite escura. A bola me acertou em cheio no rosto e gritei. Na mesma hora me ajoelhei e, usando as mos, juntei 
tanta neve quanto consegui. Corri para cima de Steve, que ainda ria, e joguie tudo em suas costas.
Ele reclamou, tentando desesperadamente sacudir a neve do casaco.
- Isso foi uma declarao de guerra.- gritou.
Chegamos a rua deserta perto de casa, e por todo lado ainda havia neve intacta. Por quinze minutos ficamos parecendo uns malucos, jogando bolas de neve e derrubando 
um ao outro no cho. Dei tanta risada que minhas costelas doam.
Finalmente nos deitamos no cho. Eu estava to cansada que fiquei ali estendida de costas, olhando para o cu e retomando o flego. Quando me toquei que meu traseiro 
estava molhado e quase congelado, virei-me para Steve.
- Essa foi legal, mas acho que j era hora de a gente se esquentar com um chocolate quente. - falei.
- Antes vamos construir anjos de neve. - Steve sugeriu - No tenho feito isso h anos.
Ele deitou-se antes de minha resposta e comeou a mexer os braos e pernas.
- No tem tanta neve assim, para fazer anjos bonitos. - argumentei - Precisa de pelo menos um palmo de neve.
Steve colocou uma bola de neve na boca e arotou. 
- E da? O que vale  a inteno.
No podia discutir com sua lgica, ento procurei fazer o melhor anjo que pude e depois me levantei para ver o resultado.
- , no est mal.
- Nada mal mesmo. - Steve concordou - Agora ser que ouvi algum falando em chocolate quente, e a palavra-chave  "quente"?
Minutos depois estavamos na cozinha de minha casa, quase sem flego. Tiramos nossas botas, meias e blusas, tentando ver se alguma coisa ainda estava seca. O cabelo 
de Steve estava ensopado mais ainda penteado, e seus lbios tinham um toque azulado. 
Todo mundo tinha ido dormir, e ento fui na ponta dos dedos at a lavanderia e peguei uma cala e uma camiseta de malha de meu pai para Steve. A seguir fui at meu 
quarto e troquei minha roupa por um pijama de flanela. Quando nos sentamos perto da lareira, com nossos chocolates quentes, estavamos secos e aquecidos.
Sem mais, Steve deu um longo suspiro.
- O que foi? - perguntei.
- Sei l. Estava pensando que est  uma noite perfeita para um romance.
Olhei para o fogo, pensando se James estaria com Tanya em algum lugar, tomando chocolate quente e dizendo a ela o quanto sentiu sua falta. Senti um n na garganta 
e engoli em seco.
- Sim, eu sei o que voc quer dizer. - murmurei.
Quando Steve se voltou para mim, seus olhos pareciam totalmente verdes. Ele se aproximou no sof e enrolou algums fios do meu cabelo em seu dedo indicador. Meu corao 
disparou e senti a mesma emoo confusa daquela noite no Baile de Boas-Vindas.
- Sabe aquela msica? - ele perguntou.
Balancei a cabea sem tirar os olhos dele.
- Que msica?
- Se no pode estar com quem ama...
- Ame quem est com voc. - finalizei.
Meu olhar se fixou em seus lbios e me senti hipnotizada por sua proximidade.
Steve colocou a mo em minha nuca e me puxou para mais perto. Fechei os olhos, desejando que seus lbios tocassem os meus.
Assim que senti seu beijo, um fogo lquido se espalhou em mim. Sem pensar, agarrei sua camiseta como se no quisesse que ele se afastasse mais. Nossas bocas se encontraram 
com perfeio, como se fossem feitas uma para a outra. Os fogos de artificio que esperava com James finalmente aconteceram. Cada parte do meu corpo estava viva e 
em chamas, como se estivesse no meio de uma experincia nuclear. o mundo l fora evaporou-se e Steve era a nica coisa que ainda existia no planeta.
Um pouco depois ele se afastou. 
Assim que o beijo terminou, senti uma onda de vergonha. Era possvel que eu tivesse feito aquilo? Era possvel ter beijado Steve, meu melhor amigo no mundo? Um milho 
de questes invadiu minha mente, e fiquei sem fala.
- Uau, no sei se isso foi uma idia muito boa. - Disse ele, passando a mo pelo meu cabelo.
Minha sensao de atordoamento transformou-se em raiva.
- Por que voc fez isso? - perguntei.
-Steve: O que voc quer dizer com eu fiz? - perguntou Steve - Voc participou tambm.
Fechei a mo, mostrando o punho.
- Foi sua idia. No negue.
Procurava manter a voz baixa, mas me sentia como se estivesse gritando.
Steve me fulminou com o olhar.
- Bem, claro que no foi uma boa idia. - falou, dando um murro no sof.
- Voc no pode suportar o fato de existir uma garota nesta cidade que no queira sair com voc. - desabafei.
- No se lisonjeie, Kelly. Isso nunca mais vai acontecer.
- Est certo. - Falei cruzando os braos.
- Est certo. - Ele respondeu ficando em p.
- Diga obrigado a seu pai pelas roupas. Devolverei o mais depressa possvel.
- No se apresse. - Respondi, caminhando para a entrada.
- No se preocupe.
Ele pegou suas roupas ainda molhadas.
- Por mim, est bem. - Abri a porta e fiquei olhando para ele. Minhas mos estavam tremendo, e me senti muito perto de chorar.
- D um oi meu para seus pais.
Ento ele se foi pela noite nevada, e eu bati a porta atrs dele. Aquela altura no estava mais me importando se acordava a casa toda. Esse dia tinha sido um dos 
piores de minha vida, e a nica coisa que eu queria era me lamentar at conseguir dormir.
Enquanto ouvia Steve dar a partida no carro e dirigir para a avenida, s lgrimas que estava segurando brotaram em meus olhos. Fui para meu quarto cambaleando e 
me desmanchando em soluos que pareciam no ter mais fim.
Uma vez mais tinha feito uma grande, uma imensa baguna com minha vida.
- Por que eu? - Murmurei na escurido do quarto. - Por que eu?

12 - Steve

Quando abri os olhos na sexta-feira de manh, sabia que alguma coisa tinha dado errado. Mas levei um bom tempo para juntar as peas e lembrar o desastre da noite 
anterior. Lembrei que beijara Kelly.
Sorri e bati minha cabea de leve na parede acima da cabeceira de minha cama. Experimentei um frio na barriga ao perceber que tinha quebrado a principal regra de 
uma amizade platnica. Agora Kelly me odiava e eu no podia fazer nada sobre isso.
Fiquei relembrando vrias vezes o acontecido. O que ser que me tinha feito beij-la? Teriam sido as brincadeiras na neve? A lareira? Balancei a cabea. Os motivos 
j no importavam muito - alm de dolorosos, eram irrelevantes. Eu tinha estragado completamente uma coisa muito legal, e nenhuma racionalizao poderia mudar esse 
fato.
E ainda tinha a questo de Rebecca. Falando friamente, eu a tinha enganado. Mesmo considerando que o beijo em Kelly acontecera durante um momento de insanidade temporria, 
no havia como negar que tinha acontecido, ainda que Rebecca nunca viesse a descobrir.
Outra questo me perturbava. Se Rebecca descobrisse sobre o beijo, o que ela faria? Certamente seria ferida em seu orgulho. Mas ficaria mesmo magoada, ou apenas 
aborrecida? Ela dissera que telefonaria de Nova York, mas at aquele momento no tinha dado notcia. Teria ido visitar seu antigo namorado?
O pensamento de que ela estivesse beijando um outro cara me pareceu estranhamente confortador. Embora a imagem da minha namorada nos braos de algum nova-iorquino 
gosmento no fosse das melhores, a imagem aliviava minha sensao de culpa. Rebecca e eu ramos jovens, e era compreensvel que ns dois cometssemos erros. Certo? 
Certo!
Resolvida esta questo, meus pensamentos passaram de Rebecca para Kelly. Mas antes mesmo que pudesse construir uma desculpa decente, mame bateu a minha porta.
- Steve? Est acordado? - ela perguntou, abrindo a porta s um tantinho.
- Estou, infelizmente.
Rolei na cama e me deitei de bruos, esperando que ela percebesse que eu no estava a fim de papo.
- Kelly est l embaixo, querido.
- Est? - Sentei na cama rapidinho e empurrei meu acolchoado para o p da cama. - Me d dois minutos, me, e depois diga para ela subir.
Pulei em um p s pelo quarto, tentando vestir a cala e pentear o cabelo ao mesmo tempo. A porta se abriu enquanto estava abotoando a camisa, e Kelly enfiou a cabea 
para dentro do quarto.
- Ser que voc teria um tempo para a sua antiga melhor amiga? - ela perguntou.
Na hora, a sensao ruim que experimentava desde que tinha acordado desapareceu. A voz de Kelly soara amistosa, e tudo
iria ficar bem.
- S se voc retirar o "antiga" da pergunta - respondi,
abrindo toda a porta.
- Trouxe uma oferta de paz - declarou Kelly, entrando no quarto. Ela me deu uma caixa de rosquinhas e sentou-se em uma velha poltrona que tenho no quarto.
- Sabe, Kelly, acordei esta manh louco para comer umas rosquinhas. E ento voc apareceu com elas.
- Conheo voc muito bem, Parson.
Kelly colocou as pernas no brao da poltrona e apoiou a cabea na mo.
- No consegui dormir direito ontem  noite.
- Tambm no. Me senti pssimo.
Peguei uma rosquinha e passei a caixa a Kelly. Ela se serviu de uma e mordeu metade de uma vez s.
- No podemos deixar isso estragar nossa amizade. Nossas reaes foram exageradas.
- Concordo plenamente - respondi.
Pensando bem, a coisa toda no parecia to grave. Ns nos beijamos. Um beijo no  o fim do mundo. Alm disso, somos jovens normais e ativos. Jovens se beijam o 
tempo todo. No era como se tivssemos cometido um assassinato ou coisa assim.
Kelly mastigou pensativa por um instante.
- Quero dizer, se a gente chegou a gostar realmente do beijo, ento acho que temos mesmo um problema.
Concordei, imaginando aonde ela queria chegar com esse raciocnio. Sempre podia perceber quando Kelly estava armando uma de suas teorias.
- Mas, analisando tudo que aconteceu racionalmente, aquele nosso beijo foi quase uma coisa boa.
Ela parou por um momento, esperando minha reao. Como no disse nada, continuou:
- Aqui estamos ns, dois amigos de sexos opostos.  natural que experimentemos uma certa dose de... ahh, curiosidade um pelo outro.
- Curiosidade - repeti, apenas para que ela soubesse que estava prestando ateno.
- Sim. E agora que j colocamos o nosso beijo fora do caminho, podemos deixar essa histria toda desaparecer no passado. Sabemos que nunca mais queremos nos beijar 
e no vamos faz-lo. Ponto final.
Estava um pouco aborrecido por ela ter se desfeito de meu beijo assim to fcil. Para mim, a experincia tinha sido como ser mandado para o espao montado no lombo 
de um foguete. Quando finalmente me dera conta do que tinha se passado, levar uns dez segundos para sentir os ps no cho novamente! No poderia negar que ela me 
excitava, a um nvel perigoso.
Mas no estava a disposto a discutir com Kelly. Naquela altura da conversa concordaria at se ela dissesse que a Terra era quadrada. S queria que voltssemos a 
nossa amizade e prosseguir dali.
- Ponto final - confirmei.
Kelly estendeu a mo e a apertei com firmeza.
- Bem, estou contente de que tenhamos resolvido isso - observou ela, como se a discusso fosse sobre quem lavaria os pratros do jantar.
Sorri para ela.
- Eu tambm, Kelly. Estou certo de que vamos dormir bem melhor esta noite.
- Claro. Com certeza.
- Com certeza.
Inclinei-me sobre meu travesseiro e me senti como se tivesse renascido. Afinal de contas, meu mundo no tinha desmoronado, eu no poderia estar mais agradecido.

Sentia meu estmago revirando enquanto dirigia para a casa de Rebecca no domingo  tarde. Ela me telefonara assim que tinha chegado de Nova York naquela tarde, e 
agora eu estava apenas a alguns minutos de rever aquele rostinho lindo. Queria ouvir sua voz, especialmente porque sentia como se fssemos ter um novo comeo. Desde 
o caso do beijo em Kelly tinha percebido que talvez no estivesse dando tanta ateno a Rebecca quanto ela merecia. Claro que devia ter projetado esses sentimentos 
em Kelly, que por sua vez devia ter projetado os sentimentos dela por James em mim, e no final dera no que dera.
Domingo a temperatura ainda estava abaixo de zero. Ento, quando Rebecca dissera que queria ir patinar no gelo no parque Hamilton, achei uma boa idia. J imaginava 
ns dois de mos dadas patinando em crculos no lago. Com exceo de algumas crianas pelo gelo, estaramos em nosso mundinho particular. Depois iramos para a casa 
dela beber chocolate quente (na verdade, cidra quente seria melhor) e ficar nos beijando at tarde da noite. Mal podia esperar por aquilo.
Quando cheguei, Rebecca abriu a porta. Antes que eu pudesse dar um beijo ou um al, ela se virou, ainda na entrada da casa.
- Olha! O que voc acha da minha roupa nova para patinar? - perguntou.
- Uau! - No pude pensar em nada melhor como resposta.
Rebecca vestia uma roupa rosa para patinao. O material devia ser cem por cento malha elstica, porque estava colado ao corpo como uma segunda pele. Ela usava uma 
bermuda cor da pele e segurava em uma das mos os patins imaculadamente brancos. Para ser honesto, todo mundo que conheo patina de jeans e blusa de l e nunca me 
ocorreria que Rebecca se vestiria como uma bailarina de patinao no gelo. Mas no seria eu quem iria reclamar. Ela parecia uma atleta olmpica transformada em supermodelo.
- Vamos nessa. Todo mundo vai estar l. 
Ela apanhou o casaco e fomos embora.
No entendi o que ela quisera dizer com "todo mundo", mas ainda estava meio sem fala pelo efeito de sua roupa. Se tentasse falar, provavelmente minha voz pareceria 
um guincho.
Dentro do carro, puxei Rebecca para mais perto. Beij-la apagaria a horrvel noite do incidente com Kelly. Assim que meus lbios tocassem os dela, o Dia de Ao 
de Graas seria apenas um sonho ruim. Pelo menos era o que eu esperava.
Senti Rebecca viva e aconchegante em meus braos, e o tecido macio da sua roupa parecia seda. Beijei seus lbios, seu rosto e sua testa. No me senti voando pelo 
espao mas isso me excitava. Beijei mais forte ainda, tentando esquecer o beijo em Kelly. Depois de uns minutos sem flego, decidi que a exploso que experimentara 
com Kelly deveria ter sido porque sentia falta da minha namorada e ficara preocupado de que ela estivesse com outro cara em Nova York. Estava apenas liberando as 
emoes que surgiram. Existem muitas explicaes psicolgicas. A mente  muito poderosa... no  o que todo mundo vive dizendo? Rebecca ajeitou o meu cabelo, sorrindo.
- Estivemos s quatro dias separados e voc parece um cara que atravessou o deserto todo sem nem um cantil.
Beijei-a de novo.
-  assim que me sinto.
- Bem, fico feliz de saber que voc gosta de mim. No  toda garota que rev seu ex-namorado em Nova York e resiste a toda a conversa para voltar a ficar junto.
Dei uma olhadela em Rebecca, maravilhado pela capacidade que as mulheres tm de dizer a coisa exata para que um cara se sinta um completo idiota. Fiquei contente 
de que o sol estivesse desaparecendo rpido, porque tinha certeza de que a culpa me faria ficar com o rosto vermelho.
- Melhor a gente ir - disse.
O estacionamento do parque Hamilton j estava com metade da lotao, e reconheci alguns dos carros. De repente captei o que Rebecca quisera dizer com "todo mundo".
- A turma toda est aqui! - ela exclamou, contente, enquanto andvamos pelo meio do pessoal que circulava pelo lago.
- Voc no me disse que quase o colgio inteiro estaria patinando aqui esta noite - falei, um pouco mais duro do que pretendia.
- E no  legal? Estou to feliz em ver todo mundo. - Ela correu na minha frente, desaparecendo atrs da barraca de aluguel de patins.
Poucos segundos depois ouvi os gritinhos de Rebecca. Quando pude v-la, estava abraando Carrie Starks como se a garota fosse sua irm que no via h muito tempo. 
Achei uma palhaada. Mesmo Rebecca gostando das lderes de torcida, Carrie Starks e Amanda Wright, penso que elas so superficiais e burrinhas, na melhor das hipteses, 
e caluniadoras e manipuladoras, na pior delas. So do tipo de garotas que oferecem o rosto para os beijinhos de cumprimento, mas so muito impacientes para esperar 
serem beijadas e nos fazem acabar beijando apenas o ar.
Confiante, Carrie veio para o meu lado.
- Voc no vai me dar um beijinho, Steve? - perguntou ela chegando mais perto. .
Preparei os lbios e me curvei. Como esperava, dei um beijo gostoso bem onde a bochecha deveria estar, mas foi intil, pois beijei s o ar.
Rebecca me arrastou pelo lago, enquanto eu tirava meus patins de hquei de dentro da mochila. Vi Patrick Mayor, Bart Langley e Josh Nielson, e meus sonhos de uma 
tarde romntica se evaporaram. Minhas opinies sobre Patrick no melhoraram desde a noite da festa que ele dera, quando vi Ketty agarrada de um jeito quase indecente 
com James. E odiava Josh Nielson.
Josh sentira uma quedinha por Kelly durante o segundo ano no colgio. Ela saiu com ele uma vez, detestou e nunca mais falou com ele de novo. O cara  um troglodita. 
Josh ento comeou a fazer crueldades contra Kelly na escola. Como ela no entrou na dele, Josh pichou as paredes do banheiro masculino com frases pouco agradveis. 
Um dia eu o vi fazendo isso e samos no brao, a nica vez em que fiz isso na vida. Depois que o treinador veio nos separar, jurei que nunca mais socaria ningum. 
No ano seguinte ele trocou de escola porque os pais se mudaram para outro bairro, e eu no o tinha mais visto. (A propsito, Kelly nunca soube dessa briga.)
Amarrei meus patins rapidamente, dizendo a mim mesmo que, depois de um ano e meio, provavelmente Josh teria melhorado seu comportamento. Portanto, se fosse gentil 
com ele, no haveria motivo para cenas.
Peguei Rebecca pela mo e circulamos pelo lago. Ignorando a presena de Josh, realmente estava comeando a me divertir.
- Isto  to romntico - disse Rebecca, olhando para o cu estrelado e a lua cheia.
- E porque voc est aqui - respondi, pegando suas duas mos e girando em crculos.
Fiz uma parada rpida, como no hquei, ao ver pelo canto do olho que Josh Nielson vinha em nossa direo. Ele tinha uma expresso de gozao no rosto e me esforcei 
para ficar relaxado e me mostrar amistoso.
- Oi, Josh - cumprimentei. - Conhece Rebecca Foster? Ele a olhou de cima a baixo e deu um sorriso seboso.
- S de ouvir falar, at agora. Prazer em conhec-la, Rebecca. 
Ela olhou para ele e sorriu, flertando.
- Como no vi voc por aqui antes?
- Eu estou no colgio Rosedale. Mas gosto de manter contato com os velhos amigos.
Josh me olhou e pude ver pelo brilho em seus olhos que ele estava doidinho para me contar alguma coisa.
No estava nem um pouco interessado fosse l no que fosse que ele tivesse para me dizer. Tomei Rebecca pela mo de novo.
- Vamos continuar de onde paramos? - perguntei a ela, me despedindo de Josh.
Nesse instante ele colocou a mo em meu ombro:
- Falando em velhos amigos, Mayor me disse que a nossa queridinha Kelly Byrne est de caso com James Sutton.
Percebi que Rebecca fechara ligeiramente os olhos e no a culpei, Josh falou de um jeito que parecia que Kelly e eu tnhamos alguma coisa. Mas no queria que isso 
ficasse estranho, e ento decidi explicar a Rebecca mais tarde.
- Sim, ela est apaixonada - respondi, satisfeito por ver o sorriso malicioso se transformar em uma cara de preocupado.
- Bem, voc poderia dar um recado para ela - Josh disse.
- Sobre o qu? Senti os msculos de minhas costas se contrarem, mas no deixei que ele percebesse que estava me atingindo.
- Eu vi James e Tanya Reed parecendo muito amiginhos na pizzaria do Jon, numa noite dessas. Na verdade, eles estavam botando para quebrar, em uma mesa no canto.
Ele sorriu para mim e depois riu alto.
-  mentira - falei.
- No estou nem a se voc acredita ou no, Parson. Mas voc deveria dizer a sua amiga que Sutton s a est usando at poder colocar as mos de novo em Tanya.
Eu estava trmulo de raiva e no pude me controlar ao dar um passo em direo a Nielson. Se era verdade ou no o que ele dizia, j no importava mais, queria mais 
era tirar aquele sorriso idiota da cara dele.
- Isso deve ser cimes porque Kelly no quis sair com voc, seu pateta - falei com raiva.
- Kelly  uma panaca - Josh contra-atacou. - Pode perguntar a qualquer um.
Ento Rebecca resolveu entrar na discusso.
- Ele tem razo, Steve. Todo mundo sabe que Kelly  assim, tipo... estranha.
- Obrigado pela sua opinio, Rebecca. Mas isso  entre Josh e eu.
- Quer sair no brao, Parson? - provocou ele, chegando o rosto perto do meu.
- Voc no vale isso - respondi.
Percebi que Patrick e Bart tinham vindo para perto e nos obsevavam com curiosidade.
Quando olhei para o outro lado, Josh aproveitou a oportunidade. Vindo do nada, seu punho me acertou bem no queixo. Cai para trs, sentado, com um gemido.
- Kelly  a garota mais legal que conheo - gritei. - Ela pe qualquer namoradinha sua no bolso.
Enquanto tentava me levantar, Josh pulou sobre mim. Mas antes que ele me batesse de novo, Patrick e Bart o agarraram. Eles o puxaram para o lado, segurando os seus 
braos.
- Acho que essa patinao acabou - disse Bart. Ele e Patrick levaram Josh para fora do lago.
Fiquei em p sobre o gelo, ainda furioso. Quando tirei os olhos de Josh e fitei Rebecca, ela estava me encarando com as mos na cintura.
- Se voc gosta tanto assim de Kelly, talvez deva sair com ela - gritou. - Vocs dois merecem um ao outro.
Fiquei s olhando para ela, to espantado que no podia nem falar. Como no disse nada, ela me sorriu gelado:
- Est tudo acabado entre ns.
Olhei ela patinando a distncia e me senti como se fosse um balo que acabara de estourar. Quando ela chegou  beira do lago, desamarrou os patins e correu para 
o estacionamento.
- Josh, espere! - pude ouvi-la gritando.
Ento no consegui mais v-la. Enfiei a cabea em um monte de neve de to cansado que me sentia. Estava magoado por Rebecca ter terminado comigo, mas no fundo sabia 
que nosso caso no tinha muito futuro. Ela sempre tivera mais coisas em comum com Carrie e Amanda do que eu quisera admitir, e agora podia ver at que ponto era 
superficial.
Um vento frio soprou em meus ouvidos, mas fora isso a noite estava silenciosa. Os feriados do Dia de Ao de Graas tinham terminado para mim, e tambm o relacionamento 
com Rebecca Foster.
Olhei para o lagoa, agora deserta, e balancei a cabea negativamente:
- Bem, acho que isso significa que perdi a aposta - disse em voz alta.

13- Kelly

Quando Ellen e eu fomos para a aula de redao na segunda-feira de manh, minhas mos estavam suadas e sentia meu estmago enjoado. No conversava com James desde 
a noite do Dia de Ao de Graas e passara a maior parte do domingo tentando convencer a mim mesma de que haveria uma boa razo para que ele no tivesse me telefonado. 
Um motivo seria porque seus avs estavam na cidade. E tambm sabia que o Radio Waves teria uma apresentao em um colgio em breve, e eles provavelmente estariam 
ensaiando. E at levei a nevasca da noite anterior em considerao, era bem possvel que ele tivesse passado metade da sexta-feira tirando neve da calada.
Minhas mos ainda tremiam ao pensar em encontr-lo. A Kelly pessimista tinha reaparecido, mais forte do que nunca. Quase esperava que ele surgisse com uma placa 
dizendo: Passei o fim de semana com Tanya Reed.
- Tenho certeza de que ele s estava ocupado - assegurou Ellen. - Tanya Reed no  ningum comparada com voc. Ela  pura aparncia, sem nenhum contedo.
- Oh, eu me sinto muito melhor agora - respondi com ironia. - Todo mundo sabe que os garotos de dezessete anos preferem mil vezes o contedo  reles aparncia,  
claro... De que planeta voc veio, Ellen?
Ela deu de ombros:
- Ei, pelo menos estou olhando pelo lado bom da coisa. 
- No tem lado bom nessa histria - respondi meio deprimida. Quando Ellen e eu nos sentamos no havia sinal de James. A sra. Heinsohn ento pediu que entregssemos 
o exerccio de escrever uma histria curta. Eu abri meu caderno mas mantinha um olho grudado na direo da porta.
- Sobre o que  a sua histria? - perguntou Ellen, esticando o pescoo para espiar meu caderno.
- Nada interessante. Na verdade  meio idiota - respondi rapidinho.
Minha histria era sobre uma garota e um garoto que eram muito amigos. Uma certa noite eles se beijam romanticamente isso quase arruina a amizade entre eles. No 
fim da histria eles fazem as pazes. A idia no era muito original, mas todos dizem que escrever alivia as culpas. Imaginei que escrever sobre o que acontecera 
comigo e com Steve seria uma boa terapia, e pode parecer estranho mas foi mesmo.
Voltei-me para Ellen:
- E a sua?
- A minha  meio idiota tambm - ela respondeu.
Dei uma espiada na histria de Ellen. Em letras maisculas ela tinha escrito no topo da pgina SOCORRO! TENHO UMA QUEDA PELO MELHOR AMIGO DE MINHA MELHOR AMIGA! 
Pelo ttulo dava para ter uma boa idia sobre o que era a histria de Ellen. Se a sra. Heinsohn fosse apenas um pouquinho esperta, certamente conseguiria perceber 
as semelhanas entre os personagens masculinos de nossas histrias. Suspirei. A segunda-feira no estava sendo um dia bom.
Cinco minutos depois de tocar o sinal, James chegou. Ele sorriu e se desculpou com a sra. Heinsohn, sentando-se em uma carteira prximo da porta. Tentei olh-lo 
nos olhos, mas ele estava concentrado em ler a tarefa que a professora havia colocado em sua carteira.
Pelos quinze minutos que se seguiram procurei resistir  tentao de ficar olhando para onde ele estava sentado. Se ele queria me ignorar, eu  que no iria ficar 
de olho comprido, atravessando a sala, para o lado dele. Acabou, repetia para mim mesma, ele ainda ama Tanya.
Quando Ellen me deu um tapinha no ombro, quase pulei na carteira. Ela me passou um papel todo dobrado e sacudiu a cabea na direo de James.
Meu corao disparou ao abrir o bilhete: Kelly, me encontre assim que acabarem as aulas. Amor, James.
Dei uma olhadela e percebi que ele estava me encarando. Fiz que sim com a cabea e sorri, voltando a ateno para a sra. Heinsohn. Meu corao se aliviou. Talvez 
ele tivesse mesmo uma boa razo para no ter telefonado no final de semana. Por enquanto a soluo era esperar pelo melhor.

- No posso me demorar muito - expliquei a James, fechando a porta do jipe dele. - Tenho de estar na casa de Nina Johnson dentro de meia hora.
James estava bonito como sempre, vestindo uma blusa preta de gola olmpica e um jeans desbotado. Seus olhos brilhavam muito. "Ele est feliz por me ver", pensei. 
Um arrepio gostoso correu pela minha espinha. Finalmente as coisas iriam voltar ao normal.
- Espero que me desculpe por no ter ligado este fim de semana - disse ele.
Fiz que no me importava, como se no tivesse nem percebido que o telefone havia ficado mudo por trs dias inteiros.
- Oh, tudo bem. Eu estava ocupada com meus avs. 
James concordou.
- Sim, eu estava ocupado tambm.
Decidi olhar diretamente em seus olhos e perguntar sobre sua ex-namorada. Se o passado era passado, ento no haveria motivo para cimes.
- Ento, teve chance de ver Tanya no fim de semana? - perguntei. - Ouvi dizer que ela estava na cidade.
James mordeu o lbio e ficou olhando fixamente para o volante do jipe, como se fosse um quadro de Picasso em vez de alguns quilos de metal e plstico.
- Ahh, sim. Na verdade, foi por isso que estive ocupado.
- Oh.
No havia mais nada a dizer. Deveria sair do carro e nunca mais falar com James. A mistura de excitao e culpa em sua voz j havia dito tudo o que eu precisava 
saber. De repente estava cara a cara com a possibilidade real de ser descartada.
Como uma boba, no sa do carro. Apenas fiquei sentada ali, parada, em silncio, esperando que ele dissesse mais alguma coisa.
- Ela no sai com ningum na escola. E realmente sente a minha falta... e acho que sinto falta dela tambm.
- Oh - disse de novo.
Lgrimas tentavam brotar de meus olhos e pisquei rapidamente. Quase permitira que James percebesse quanto me sentia humilhada e magoada.
- Vamos tentar uma relao a longa distncia - prosseguiu. - No  que eu no ame voc, acho voc muito legal. Mas acho que... Tanya e eu estamos destinados a ficar 
juntos, sabe?
Engoli em seco e me endireitei no assento do jipe.
- Acho isso muito bacana, James - falei. Surpreendentemente minha voz parecia natural e suave.
- E mesmo? - ele perguntou, espantado.
- Sim. Porque tem uma coisa que preciso dizer a voc tambm.
Enfiei as mos nos bolsos do casaco para que ele no percebesse que estavam trmulas.
- Tem, ?
De novo ele pareceu surpreso. Suas belas sobrancelhas estavam levantadas, e ele me encarava direto nos olhos.
- Sim. Nesse fim de semana, Steve e eu percebemos que estamos apaixonados um pelo outro.
Mesmo enquanto falava, no podia acreditar que aquelas palavras estivessem saindo de minha boca. "Desculpe, Steve", pensei.
- Oh.
Senti uma certa satisfao quando notei que James ficava abalado.
- No  uma coincidncia muito engraada? - perguntei. - Temos tanta sorte que terminamos sem magoar um ao outro.
- Sim - concordou James, embora parecendo confuso.
- Bem, acho que nos veremos por a. - Inclinei-me e dei um beijo no rosto dele. Abri a porta e sa do carro.
- Tchau, Kelly.
- Tchau, James - respondi, fechando a porta atrs de mim.
Quando ele saiu do estacionamento, meus joelhos se dobraram e ca no cho em soluos.

Normalmente gosto de tomar conta de Nina. Naquela tarde, porm, isso parecia mais uma sentena de priso que um trabalho. Ela ficou me perguntando coisas sobre a 
relao entre meninos e meninas a cada minuto.
- Marcy Stein vai dar uma festa na sexta-feira - disse ela. Ns estvamos no estdio da casa dos Johnson, pois eu ajudava a garotinha em um projeto de artes para 
a escola.
- Legal - respondi vagamente. No estava l morrendo de vontade de falar sobre festas.
- Ela vai convidar uns garotos - continuou Nina. Ela parecia ansiosa por conhecer minha reao.
- Que emocionante.
Percebi na hora que no estava sendo justa com Nina, e o olhar magoado em seu rosto me fez sentir uma onda de culpa.
- Desculpe - disse, dando um abrao nela. - Tenho certeza de que vocs vo se divertir muito.
Nina era uma garotinha, mas no era boba. Ela sabia que alguma coisa tinha acontecido.
- O que foi, Kelly? Voc parece triste.
Fiz que no liguei, tentando conter as lgrimas.
- James e eu terminamos hoje. Por isso estou triste.
- Eu no gostava dele mesmo - retrucou ela, como se essa declarao encerrasse o assunto.
- Voc nem o conhecia - lembrei a ela.
- Certo, mas Steve me falou dele,
Ela recortou um corao de papel e escreveu suas iniciais nele.
- E o que ele disse?
- Disse que James era um grande pateta e que voc merecia algum muito melhor.
Quase ca na risada. Desde quando Steve discutia minha vida amorosa com uma garotinha de dez anos?
- Acho que ele no deveria ter dito isso. Com quem eu saio no  da conta dele. Ou da sua.
Vi Nina escrever outras iniciais no corao de papel, H.R , que deveria ser sua paixo mais recente.
- Mas ele estava certo. No estava?
Ela me olhou com seus olhos azuis, grandes e confiantes.
- Sim - suspirei. - Acho que ele acertou.

Fiquei em p na entrada da casa dos Parson tremendo de frio. Tinha sado to depressa que nem me lembrara de pegar o casaco.
- Kelly!
No instante em que me viu, Steve me deu um grande abrao.
- Sinto muito - cochichou em meu ouvido.
Enxuguei as lgrimas na manga da blusa dele e o encarei com curiosidade.
- Como voc soube?
- Pela expresso do seu rosto, poderia dizer que algum de sua famlia tinha morrido ou que voc e James tinham terminado. Como sua me me pareceu normal quando 
falei com ela ao telefone, imaginei que seria a outra coisa.
Cobri meu rosto com as mos e me atirei no sof da sala de estar dos Parson.
- Me sinto pssima.
- Sei exatamente como voc se sente.
Ele sentou-se perto de mim e me deu uns tapinhas nas costas.
- Como voc pode saber o que estou sentindo?
- Rebecca me chutou quando estvamos patinando domingo - respondeu ele com voz natural.
- Por qu?
Essa novidade era chocante o bastante para me fazer esquecer minha prpria dor por um instante.
- Quem sabe?
Ele atirou-se no sof, todo torto.
- Eu nunca fui com a cara dela. - Dei todo o meu apoio a Steve e no ia sentir nenhuma falta de ser boazinha com a rainha Rebecca.
- E eu nunca gostei do James.
- Falando em James, disse a ele uma coisa realmente idiota.
Eu tinha decidido me confessar. Steve estava prestes a me ouvir contar que eu anunciara que ns dois estvamos apaixonados.
- O qu? - perguntou ele.
- Promete que no vai ficar zangado.
- O qu? Fala logo. Sua voz soava impaciente, e eu no queria irrit-lo mais ainda antes de colocar para fora o que tinha a dizer.
- Bem, quando James me disse que ele e Tanya estavam reatando, eu me senti to completamente humilhada...
- Oue...? - Steve pressionou.
- Que, para salvar as aparncias, disse a ele que ns dois estvamos apaixonados um pelo outro.
Fiquei olhando fixamente para um vaso, esperando por seu ataque de raiva. Para minha surpresa, ele soltou uma gargalhada.
- E quem se importa? - disse.
Pelo menos era uma preocupao a menos na minha cabea.
- Claro. O pessoal vive dizendo que somos apaixonados, voc sabe disso. Em uma semana a gente diz para todo mundo que decidimos que o melhor  ser apenas bons amigos 
e tudo fica por isso mesmo.
Pela primeira vez desde que James tinha terminado comigo, sorri.
- Voc est certo. O que a gente faz no  da conta de ningum.
Steve concordou balanando a cabea.
- E mal posso esperar para ver a cara de Rebecca. Ser um momento digno de uma foto.

14 - Steve

Quinta-feira, 30 de novembro 
23h30
Hoje vi Rebecca flertando com Patrick Mayor no saguo. E sabe de uma coisa? No senti nada. Bom, quem sabe tenha sentido peninha de Patrick (r, brincadeirinha!). 
Na verdade, eu me senti um pouco magoado. Ser que signifiquei alguma coisa para ela? E, mais uma vez, ser que ela significou algo para mim? Talvez Kelly estivesse 
certa o tempo todo.  provvel que eu no saiba mesmo o que  um amor verdadeiro. Mas quem sabe?

Na sexta-feira  noite Kelly e eu estvamos curtindo nossa fossa atacando um banana split no Swenson's. Andrew estava com a gente, mas quase no conversava. Ele 
s ficava olhando para o sorvete como se o futuro estivesse escrito na calda de caramelo. Ns trs formvamos um grupo bem melanclico.
- Voc sabe qual  o seu problema, Kelly Byrne? - perguntei.
- Sei. E voc ficar sempre me perguntando se eu sei qual  o meu problema - ela respondeu automaticamente.
J tivramos muitas e muitas conversas que comeavam exatamente daquela forma.
- Errou de novo. Seu problema  que voc se apaixona muito facilmente.
- Ahh, no acredito que ouvi isso do cara que me desafiou a me apaixonar. Que hipcrita!
- Mas agora estou mais velho e mais sbio - respondi. - E
decidi que o amor est absolutamente fora dos limites. Ela batucou a colher na taa de sorvete, pensativa.
- Acho que tenho uma sugesto que vai fazer voc reconsiderar a sua fuga do amor.
- Duvido, mas experimente.
- Voc pode convidar Ellen para sair - respondeu ela, e se recostou na cadeira, com uma expresso satisfeita.
- Ellen Frazier? - perguntei, surpreso.
Sabia que Ellen arrastava uma asinha para o meu lado, mas nunca tinha pensado em sair com ela. Quero dizer, depois de mim, ela era a melhor amiga de Kelly. A idia 
de sair com ela me parecia muito esquisita.
- Claro que Ellen Frazier. Ela  bonita, inteligente e dez vezes mais legal do que qualquer outra garota com quem voc tenha sado.
- No, obrigado. Acho que vou ficar na minha. Naquele momento Andrew desviou o olhar de sua taa de sorvete.
- Concordo com Kelly. O que voc tem a perder? 
Eu o encarei:
- Ei! Voc no  o cara que ainda est sem namorada desde o comeo do semestre?
- Mas  diferente - respondeu ele.
- Por qu?
Fiquei na expectativa do que ele ia dizer e percebi que Kelly tambm estava curiosa. Ultimamente Andrew tem feito muito segredo sobre o que se passa em sua cabea.
Ele lambeu a colher e limpou a boca com um guardanapo.
- Porque eu vou pedir Rachel Hall, em breve. Muito breve. 
Revirei os olhos.
- Ah, sei. Do mesmo jeito que voc ia falar com ela uma dzia de vezes nos ltimos dois meses.
Andrew corou um pouco.
- Eu teria falado com ela, mas estava em um processo de eliminao. Agora, depois de estudar quarenta e duas garotas do colgio Jefferson, conclu que Rachel  a 
nica que merece. Sem ofensa, Kelly.
Kelly fez que no se importava. J estava acostumada aos comentrios detestveis sobre as mulheres da parte dele.
- Voc  um mentiroso - declarei. - No falou com ela ainda porque morre de medo de levar um fora.
Andrew colocou dinheiro sobre a mesa.
- Pense o que quiser, Steve. Mas aceite o conselho de Kelly e saia com Ellen. Ficar em casa no sbado  noite no  uma boa.
Ele se levantou.
- Vejo vocs mais tarde, pessoal.
Depois que Andrew saiu, Kelly colocou sua colher na mesa.
- No diga que no tentei. Se voc morrer velho, grisalho e sozinho, no diga que Kelly no tentou ajudar.
- Vou pensar nisso - concordei. - Mas por ora todas as minhas energias esto concentradas em esquecer que Rebecca Foster existe. E  um trabalho de tempo integral.
- Ento temos o mesmo patro. Muito trabalho, pouco salrio - Kelly comentou. - Termina isso.
Ela empurrou para mim a taa de sorvete quase vazia. Dei umas colheradas e raspei a calda de caramelo no fundo da taa, saboreando o gostinho doce.
- Que tal a gente dar uma olhada no que vai passar na "Sesso Coruja"? - perguntei antes mesmo de engolir a calda.
- Legal - Kelly concordou.
-  a semana Cary Grant no canal quatro.
Ela se levantou e pegou o casaco e o chapu do cabide. Enquanto a ajudava com o casaco, captei nossa imagem no velho espelho pendurado na parede perto dos cabides.
Estvamos sorrindo, e percebi que nos parecamos com qualquer outro casal na sorveteria. Se no conhecesse a situao, pensaria que ramos o casal mais vibrante 
do colgio, jovens e apaixonados.

Duas horas e meia mais tarde, Kelly desligou a televiso, no estdio de sua casa, suspirando. Acabramos de assistir Philadelphia Story e ela tinha uma expresso 
sonhadora nos olhos, que eu j tinha visto muitas vezes antes. Apesar de sua aparncia meio durona, Kelly sempre foi do tipo manteiga derretida em relao a romances.
- Voc acha que algum cara pode me amar tanto quanto James Stewart amou Katherine Hepburn no filme? - perguntou. - Que pergunta boba - respondi.
- Porque voc acha que ningum nunca vai me amar tanto assim, por isso? - perguntou com a voz triste. Kelly estava esticada no sof, com as pernas em meu colo. Quando 
olhei para seu rosto, observei que a expresso sonhadora fora substituda por um ar de tristeza.
- No, Kel. Porque tenho certeza de que tem um monte de caras que podem e vo amar voc tanto quanto Jimmy amou Kate.
Ela sorriu.
- Voc acha? De verdade?
- Kelly, voc  a garota mais maravilhosa do colgio Jefferson. E d mundo. Qualquer cara que no se apaixone por voc s pode ser doido.
Ela sentou e me abraou. Retribu o abrao, aliviado por ver que ela sorria novamente.
- Estou to contente por voc ser meu melhor amigo - falou com a voz abafada por minha camiseta.
- Nem metade do que eu estou - respondi.
Dei um aperto em seu ombro e a abracei mais forte ainda.
- Eu te amo - Kelly falou, com o rosto contra meu peito.
- Tambm te amo. Sempre.
Kelly e eu usvamos a palavra "amor" com freqncia. Ns sabamos que era no sentido de "como amigos , e nunca nos incomodamos em dizer isso. Mas naquela noite as 
palavras pareceram mais verdadeiras do que nunca. Pensei que fosse porque ns dois passramos por maus bocados e descobrimos que, mais do que nunca, acreditvamos 
em nossa amizade.
Kelly inclinou a cabea e me deu um beijo amistoso na bochecha. Retribu o beijo. Depois ela me beijou do outro lado do rosto E eu retribu. Ficamos nessa beijao 
de face a face at contar uns vinte beijos.
Num dado momento, quando ia beijar sua bochecha, meus lbios, assim meio sem-querer-querendo, tocaram os lbios dela.
Em vez de recuar, dei-lhe um beijo na boca. Ela retribuiu. De repente, ns nos beijamos de verdade e queramos mais e mais.
Kelly retribua com seus lbios aconchegantes. Meus dedos passeavam por seus cabelos, e ela se agarrava a minha camiseta. Perdi at a noo do tempo, parado no ar 
e sentindo a eletricidade fluir por todo o meu corpo. Senti como se fssemos as duas metades de um todo.
Com um salto, Kelly se afastou. Ficou em p para em seguida desabar em uma cadeira perto da lareira. Sem aviso, desatou a chorar. Ela cobria o rosto com as mos, 
chorando em silncio.
Fui tomado por uma sensao de desamparo e me levantei. Tentei consol-la com palavras amenas e dando tapinhas nas suas costas.
Instantes depois, ela tentou falar.
- Com James... beijar... nunca... eu no...
S podia entender uma em cada dez palavras, mas nem precisava ser um gnio para sacar que ela estava muito aborrecida com James. Estava claro que, ao me beijar, 
ela se lembrara de que o cara a quem realmente amava tinha lhe dado o fora.
- Kelly, no esquenta. Tudo vai dar certo -falei, no muito certo sobre at que ponto aquilo seria verdade.
- Vai? - perguntou olhando para mim por entre as lgrimas. 
Concordei prontamente.
- Olha. Ns dois estamos muito chateados com o fim de nossos namoros. No  difcil entender que nos voltamos um para o outro. Prometo que nada entre ns vai mudar.
- Voc est certo - concordou ela, limpando as lgrimas na manga da blusa. - S estava chateada por causa de James,  isso.
Kelly pareceu ganhar novamente a compostura. Eu estava contente, embora tenha notado que o tempo todo ela pensava no Cara-de-Panaca. Em meu caso, achava que os nossos 
beijos foram muito explosivos. De novo representei o papel de melhor amigo, de uma forma digna de um ator premiado com o Oscar da academia.
- Somos amigos, como sempre fomos - declarei com firmeza. Kelly deu um sorriso largo e esticou o brao, oferecendo a mo para um cumprimento.
- Amigos - repetiu.
Apertamos as mos como em um acordo de negcios.
- Essa  a palavra mais bonita da lngua inglesa - disse eu, imitando voz de professor.
Kelly pareceu deprimida.
- Sim - respondeu. - Apenas fiquei triste com o caso de James.
De repente senti vontade de cair fora para no ouvir Kelly se lamentando sobre James. Queria ir para casa, onde poderia pensar melhor.
- Bom, acho que ns dois perdemos a aposta - observei para amenizar o clima.
-  isso a.
A voz de Kelly era uma combinao de distrao com tristeza, mas a expresso do seu rosto era neutra.
Para falar a verdade, no sabia bem o que fazer diante da situao toda.

Voltando para casa, no conseguia tirar da cabea as lamentaes e choramingos de Kelly a respeito de James. No entendia o que ela pudesse ter visto no cara, alm 
da figura do macho.
Contudo, depois de me trocar e deitar na cama, uma idia se formou em minha mente: eu estava irritado porque Kelly ficava sempre elogiando James Cara-de-Panaca. 
Francamente, era o fim do mundo.
Olhando fixamente para o teto, pensava em todas as garotas que j tinha beijado. Todas as garotas do colgio que valessem a pena tinham sado comigo e Rebecca fora 
a nica que tinha tomado a iniciativa de romper o namoro. Mas mesmo com Rebecca sabia que ela tinha rompido por uma questo de orgulho. Ficara magoada por eu ter 
defendido Kelly e ento se mandara. Embora no tivesse contado nada a Kelly, sabia que Rebecca me aceitaria de volta se eu pedisse. A semana inteira ela ficara de 
olho em mim, jogando charme, na sala do sr. Maughn.
Mas no queria reatar com Rebecca. Apenas queria que Kelly percebesse que muitas garotas desejariam estar em seu lugar naquela noite. E nenhuma delas despencaria 
a chorar depois que eu as beijasse. Muito pelo contrrio.
Sentei e ajeitei meu travesseiro. Precisava parar de filosofar e cair na real. O fato de ter beijado Kelly e de que agora estava obcecado pela obsesso dela por 
James era uma indicao de que tinha tempo sobrando. Assim que convidasse outra garota qualquer para sair (claro que no para me apaixonar), tudo em minha vida voltaria 
ao normal.
Num relance, lembrei que Kelly tinha sugerido que eu sasse com Ellen. At o momento nunca havia tido nenhuma inteno de sair com Ellen Frazier. Mas se Kelly estava 
to segura de que era uma boa idia, ento talvez valesse a tentativa. Pelo menos, estaria provando a ela que, enquanto ela ficava se lamentando por ter rompido 
com aquele panaca que chamava de namorado, a minha vida seguia em frente. E certamente ela no precisaria se preocupar de que eu fosse beij-la de novo. Eu tinha 
aprendido bem a lio.
Fechei os olhos, sentindo que j estava sonolento. A primeira coisa que faria pela manh seria telefonar a Ellen Frazier. Ia sair com a melhor amiga de Kelly e me 
divertir - mesmo que isso me matasse de tdio.

15 - Kelly

Passei a maior parte da manh de domingo zanzando pela casa. Meus pais tinham ido a uma exposio de arte e a casa estava quieta demais. Mais tarde deveria tomar 
conta de Nina, mas at l no tinha nada para fazer. Percebi ento como  triste para uma adolescente quando tudo o que ela tem pela frente  passar a tarde com 
uma garotinha de dez anos.
Por volta do meio-dia sentei ao computador para fazer uma redao que tinha de lio de casa. Mas meus dedos apenas passeavam pelo teclado, eu no encontrava nada 
a dizer. Pensamentos sobre a noite anterior rolavam pela minha mente, mas no conseguia organiz-los. Eu me sentia como se estivesse suspensa no ar, aguardando que 
alguma coisa acontecesse - s no fazia a menor idia do que pudesse ser.
Quando a campainha tocou, voei escada abaixo. Naquela hora ficaria feliz em sentar e bater papo at mesmo com um vendedor ambulante qualquer. Qualquer coisa que 
me mantivesse ocupada.
Imediatamente meu humor melhorou quando vi o carro da Ellen estacionado na frente de casa. Decidi contar a ela o que tinha acontecido entre Steve e eu na noite anterior.
- Tenho uma novidade para contar que vai deixar voc de boca aberta - disse ela assim que abri a porta.
- Fomos invadidos por extraterrestres? - sugeri enquanto pegava o casaco azul-marinho de sua mo.
- Os ETs no so nada em comparao com o que me aconteceu esta manh - ela disse com os olhos brilhando.
Fomos at a cozinha, onde peguei dois refrigerantes para nos.
- No faa tanto suspense! Diga logo!
Ela abriu a latinha de refrigerante.
- Estava lendo o jornal esta manh, cuidando das minhas coisas.Quero dizer, no esperava que nada acontecesse durante todo o dia. Nada de nada.
-Quer fazer o favor de ir logo ao que interessa! - interrompi. - No agento tanto suspense.
- Steve me ligou e convidou para sair com ele esta noite. 
Tossi, engasgando com o refrigerante.
- Est brincando? 
Ela balanou a cabea.
- No estou. Vamos sair para um jantar.
- Uau. - Senti como se tivesse acabado de levar um soco.
Ellen me olhou nos olhos.
- Voc no se importa, certo? Quero dizer, achei que tinha sido voc que tinha dado um toque para ele.
Esforcei-me para sorrir
- Claro que no me importo. S fiquei surpresa por ele no ter me dito nada, s isso.
- Voc parece que ficou meio verde - ela dalou, observando do meu rosto.
- Ei, sempre achei que vocs formariam um par maravilhoso. Fiquei muito alegre em saber. At perdi a fala.
Ellen sorriu de novo.
- Tudo bem. Vou acreditar em voc. Ento, tem alguma coisa que voc possa me emprestar para vestir?
- Vamos encontrar a coisa certa. Quando Steve vir voc, Rebecca Foster vai ser apenas uma lembrana distante.
Apesar de minhas palavras, eu me sentia vazia. Verdade que tinha sido minha a idia de dizer a Steve para sair com Ellen. Porm acreditava que ele nunca faria isso.
Uma coisa era certa. No poderia contar a Ellen que tinha beijado Steve. Podia at imaginar os dois rindo sobre isso no jantar. "Coitada da Kelly", pensaria Steve, 
"ela nunca vai arranjar um namorado".
Estremeci. No podia deixar, nem por um instante, que Steve e Ellen percebessem como eu ficaria chateada por eles estarem saindo juntos.
- Vamos l para cima - convidei, ficando em p. - No temos nem um minuto a perder.
- Obrigada, Kelly. Sabia que poderia contar com voc para um apoio moral.
Ela me abraou e quando olhei para seu rosto vi que estava radiante.
Em meu quarto, comecei a procurar pelo armrio. Peguei um vestido rodado verde e passei para Ellen.
- Experimente este - sugeri.
- Quando me olhar, lembre-se de que esta noite vou estar usando o suti milagroso - disse Ellen alegremente. - Imagine dois dedos a mais aqui em cima.
Atirei-me na cama e fiquei a observ-la enquanto se despia.
- Esse tal suti  o seu seguro - comentei.
Ela deu uma risada.
- Como ficou?
- Muito legal. - Ela j tinha colocado o vestido, que definitivamente parecia bem melhor nela do que em mim. - Na verdade, melhor voc ficar com ele de uma vez. 
O corte cai muito melhor em voc.
Ellen se revirava na frente do espelho.
- Voc acha que Steve vai gostar dele?
- Claro que vai.
Ellen foi at meu espelho de corpo inteiro e examinou seu rosto:
- Acho que tem uma espinha aparecendo no meu queixo.
- No, no tem nada - disse eu, procurando parecer feliz e encorajadora.
Ellen sentou-se na minha cadeira.
- Estou ficando nervosa - confessou.
- No tem motivo. Voc  um milho de vezes mais legal que qualquer garota com quem Steve j tenha sado.
De repente Ellen endireitou-se na cadeira.
- Ei, voc conhece Steve melhor do que ningum. Me d umas dicas do que devo fazer para que ele goste de mim.
Fechei os olhos por um momento, pensando. Como resumir tudo o que sabia de Steve em poucas frases? Mentalmente repassei todos os pequenos detalhes que poderia dizer 
a ela sobre meu melhor amigo. Respirei fundo.
- Ele odeia picles no hambrguer. No diga a ele que voc se acha gorda. Ele no importa que voc cante dentro do carro, mesmo que sua voz parea uma vaca mugindo. 
Ele gosta de representaes. Se voc no conseguir adivinhar qual personagem ele esta tentando imitar, diga que  o Elvis Presley. Quando um pequeno msculo perto 
dos olhos dele comea a pular ele est tentando no demonstrar que est zangado...
Agora que tinha comeado no podia parar. Senti como se tivessem aberto as comportas de uma barragem. Ellen estava sentada em silncio, me observando. Ela parecia 
estar prestando ateno, e ento continuei.
- Sua cor favorita  o verde. Ele  f de msica de discoteca.  noite ouve rdio. Odeia garotas superficiais, embora voc nunca viesse a saber disso a julgar por 
sua ltima namorada. Ele prefere morrer a trabalhar em um escritrio. Ele  engraado quando...
- Kelly! Voc est passando bem? - Ellen perguntou de repente.
Ela fazia um gesto com a mo para que eu interrompesse a enxurrada de frases que desembestara a falar. Eu tinha quase me esquecido de que minha amiga estava ali.
- O qu? Oh, desculpe. Acho que falei mais sobre Steve do que voc queria saber.
Ellen estava ocupada tirando as cutculas. Vi que mordeu o lbio e depois deu uma olhada para mim.
- Voc est apaixonada por Steve, no est?
Falara delicadamente mas cada palavra martelou em minha cabea.
- O qu? - gaguejei.
Para ocupar as mos, peguei um travesseiro e o abracei. Ellen ergueu a sobrancelha:
- Voc me ouviu. Acho que voc est apaixonada por Steve Parson.
- Esta  a coisa mais idiota que j ouvi - retruquei, desviando meu olhar. - No seja ridcula.
- Kelly, o modo como voc falava sobre ele,  como se...
- Eu no estou apaixonada por Steve. E fim de papo. Sabia que minha voz soava alterada, mas no consegui me controlar.
- Se voc tem certeza...
- Claro que tenho certeza. Agora pegue o vestido e v se arrumar. Preciso sair. 
Algum tempo depois fechei a porta da frente com cuidado, atrs de Ellen. Fiquei na entrada, sem me mexer, prestando ateno no silncio da casa vazia. "Eu no estou 
apaixonada por Steve", disse a mim mesma. Quando as palavras ecoaram em minha cabea quase acreditei que era verdade.

Sbado  noite Nina estava muito agitada e quase precisei arrast-la pela escada acima na hora de dormir. Ela tinha estado na casa de Marcy Stein, numa festa de 
meninos e meninas, na noite anterior, e queria me contar cada um dos detalhes de tudo o que tinha acontecido no grande evento.
- Ento Peter Ross colocou um cubo de gelo nas minhas costas - disse ela, enquanto relutava em vestir um pijama de flores amarelas.
- E o que voc fez? - Peguei a escova e fiz sinal para que ela se sentasse na beirada da cama.
- Primeiro eu gritei. Depois dei o troco. Todo mundo riu tanto que pensei que a gente ia fazer xixi na cala.
Ela ria s de lembrar.
- V se fica quieta. Tem um n no seu cabelo. - Enquanto a penteava, esperava pela continuao da histria.
- Ainda no contei a melhor parte - ela falou.
- E tem mais?
Apesar do mau humor, no pude deixar de rir. O entusiasmo de Nina pela vida era contagioso. 
Ela fez que sim com a cabea.
- S vou contar para voc se prometer no dizer nada a mame e papai - falou com expresso sria.
- Juro que no conto.
Ela se virou para mim, e no pude deixar de perceber que estava quase estourando de vontade de contar seu segredo.
- Ns brincamos de girar a garrafa.
- No!!
Tentei parecer escandalizada o melhor que pude. Tinha certeza de que Nina esperava por uma reao dramtica.
- Sim! Os meninos eram uns tipos to nojentos que pensei que eu ia vomitar.
- Quem voc teve de beijar? - perguntei.
Ajudei-a a levantar-se da cama para poder arrumar as cobertas.
- Peter Ross! Eca!
Nina fez cara feia e colocou a lngua para fora. Dei uma risada:
- Estou certa de que voc sobreviver. E pode ser que at venha a querer beij-lo algum dia.
Ela sacudiu a cabea, protestando com uma careta.
- Nem em um milho de anos!
- Se voc  quem diz - comentei ligeiramente, dando-lhe um beijo de boa-noite.
Estiquei o brao e apaguei a luz de cabeceira. Quando estava saindo do quarto, porm, Nina sentou-se na cama e acendeu a luz.
- Ei, Kelly.
- O que foi? - perguntei colocando as mos na cintura.
- Voc acha que vou me casar com Peter Ross, agora que nos beijamos?
- Sim, e vocs vo viver felizes para sempre.
Apaguei a luz esperando que ela no reparasse no tom amargo de minha voz.
Sa do quarto certa de que em poucos minutos ela estaria dormindo e sonhando com Peter "Eca" Ross. Estava contente por no ter tido coragem de lhe dizer que, depois 
da quinta srie, os romances comeavam a ir por gua abaixo. Ela iria descobrir isso logo.
Uma vez tendo descido as escadas, no havia muita coisa com que me distrair. Finalmente peguei um saco de salgadinhos e liguei a televiso na MTV. Enquanto comia 
os salgadinhos, desejava que Steve e Ellen estivessem se divertindo. Eu esperava de verdade, de verdade mesmo, que eles estivessem tendo os melhores momentos de 
suas vidas.
Depois de uma hora de vdeos e msicas, estava chateada, irritada e morrendo de curiosidade. No podia esperar mais para saber como tinha sido o encontro de Ellen. 
Olhei para o relgio e pensei que Ellen j deveria ter voltado para casa. Quanto tempo teria durado o jantar?
O telefone de Ellen tocou trs vezes antes que a me dela atendesse. Sabia que a sra. Frazier dormia cedo, e a voz dela me pareceu meio grogue e ligeiramente aborrecida. 
Se Ellen estivesse em casa, ela seguramente no se daria ao incomodo de atender. Coloquei o aparelho no gancho.
Ellen no tinha voltado para casa, o que significava que ela e Steve estavam ainda juntos. O encontro havia sido um sucesso ento. Em seguida haveria novos encontros. 
E mais. Logo eles estariam de mos dadas em lugares pblicos. E eu, no mximo, estaria segurando vela. Sozinha e indesejada.
Nunca tinha conseguido saber de Steve qual era a dele em relao a Ellen. Nossa amizade no englobava esse tipo de presso. Mas no seria eu quem ficaria no caminho 
da felicidade dele, ou de Ellen.
- Vou deixar o caminho livre - falei para a TV. - Ser a melhor soluo para todos ns.

16 - STEVE

- Esse vestido  de Kelly? - perguntei a Ellen repentinamente.
Ela baixou o olhar, sorrindo.
- Sim, ela me deu.
- Por qu?
Sabia que no estava sendo muito educado, mas no entendia porque Kelly lhe daria seu 
vestido verde. Era um de meus favoritos, e no pude dixar de reparar que o caimento parecia muito melhor em Kel.
- Acho que ela se cansou de us-lo. - respondeu Ellen, dando de ombros.
- Assim ela vai me frustrar muito. - comentei como se Ellen no estivesse ali.
Estavamos no Anthony's, casa de massas, e minha cabea parecia que ia explodir. Conseguira passar por todas as entradas e petiscos sem mencionar o nome de Kelly, 
fazendo o maior esforo para ser atencioso e enxergar Ellen como algum com quem poderia ter encontros. 
Quando o garon trouxera o caf, um romance com Ellen j estava definitivamente fora de cogitao na mimha cabea. Do jeito que a via, ela era a melhor amiga de 
Kelly. Acho que ela  uma grande agrota, mas toda vez que a olhava via Kelly. Agora estava me deixando discorrer  vontade sobre o assunto que tinha ocupado minha 
mente o dia todo: Kelly Byrne.
- Presumo que estamos falando de Kelly. - comentou ela, erguendo as sobrancelhas.
- Sim.
- Acho que voc a frustrou tambm. - observou Ellen com voz sria. Depois tomou um gole do caf, esperando que eu dissesse alguma coisa.
- Eu a amo demais. - Coloquei mais creme na xcara e comecei a mexer, pensativo.
- Ela ama voc tambm. - disse Ellen com um suspiro.
- Verdade?
- Sim, verdade. E pensar que cheguei a acreditar que tinha sido convidada para um encontro hoje  noite. Parece que voc realmente precisa  de um analista.
Balanou a cabea e riu para si mesma. Naquele instante percebi a mancada que tinha dado.
- Ellen, me desculpe. No tinha inteno de ficar o tempo todo falando de Kelly. Vamos conversar sobre outra coisa. Como...ah, para qual faculdade voc vai?
Ela sorriu delicadamente de novo. 
- Steve, no venha me dizer que est interessado em saber para qual faculdade irei. Para ser honesta, voc n  to bom ator assim.
- Puxa, sou to transparente assim? - perguntei envergonhado. 
- Desde que foi me buscar, percebi que sua mente tem estado muito longe.
Ela recostou-se, dobrando e desdobrando um guardanapo de papel.
- Pensei que se a gente sasse, esqueceria como...
No estava bem certo do que tentava dizer.
- Esqueceria que voc est apaixonado por Kelly. - completou Ellen maliciosamente.
- No! - Protestei mais que depressa. - Quero dizer, esqueceria que acabei o namoro com Rebecca e tudo o mais.
- Por favor, me poupe. Voc e Kelly esto apaixonados, e todo o mundo no Jefferson sabe disso h anos. Se pelo menos vocs encarassem a realidade e ficassem juntos, 
o resto de ns tocariamos nossas vidas.
Meu corao estava disparado e quase perdi o flego.
- Voc acha mesmo que Kelly me ama?
Ela colocou a xcara de caf sobre a mesa com fora.
- Steve, eu sei que ela est apaixonada por voc. Precisava v-la outro dia. Ela dizia que no se importava de que voc me convidasse para sair, mas estava quase 
chorando!
- Voc est me dizendo a verdade?
Minha boca estava seca e estiquei o brao para pegar um copo de gua gelada.
Ellen esfregou a testa.
- Pense nisso, Steve. Voc sabe, eu tenho sentido uma queda por voc nos ltimos dois anos. Agora, finalmente, estamos tendo o que parecia ser um encontro. Acredita 
realmente que eu passaria a noite dizendo que Kelly e voc deveriam estar juntos, se no tivesse cem por cento de certeza?
Ela terminou de falar e fez sinal para o garon trazer a conta.
- Entendo seu ponto de vista. - disse eu, quase sussurando.
- Bom. Agora vamos embora. Tenho certeza de que voc quer ir para casa e pensar em Kelly.
- Ellen, me promete que no vai dizer nada para Kelly sobre o que ns conversamos esta noite.
Prendi a respirao, esperando que ela concordasse em manter o bico fechado.
- Prometo. - respondeu ela.
Respirei aliviado.
- Como posso agradecer por voc ser to legal? - perguntei. - O cu  o limite.
Ela apontou para a nota em cima da mesa.
- Diga voc. Vou deixar que pague o meu jantar.
- Feito. - disse.
Claro que teria pago o jantar dela de qualquer modo.
- E poderia me fazer um outro favor? - ela perguntou colocando o casaco.
- Qualquer coisa.
- Nunca mais me convide para outro encontro. - ela sorriu e pude ver por seus olhos que estava contente.
Peguei em sua mo e beijei-lhe a testa.
- Sabe, Ellen Frazier, voc  muito legal.
Estava assoviando quando samos dop restaurante. Na verdade, cantei por todo o caminho de volta.


Assim que cheguei em casa subi para meu quarto. Em minha cabea j estava ligando para Kelly. Tinhamos muito o que conversar.
Mas quando sentei na cama, com o telefone a meu lado, de repente me senti meio desmotivado. Conversando com Ellen, tudo parecera simples. Agora que estava sozinho, 
meus entimentos eram muito mais complicados. Kelly e eu temos sido amigos h anos. Nossa relao tinha se acertado de uma forma que eu no queria mudar.
Coloquei o telefone de volta na cabeceira e caminhei at o qudro de avisos pendurado na parede. Toda a superfcie estava coberta com fotos dos dois primeiros anos 
no Jefferson. Kelly aparecia em quase metade das fotos. Uma das grandes chamou minha ateno.
Minha me tinha tirado a foto durante a primavera de nosso ano de calouro. Kelly e eu estavamos trabalhando, junto com um monte de colegas, em um lava-rpido. Recordei-me 
de que levantamos fundos para ajudar um hospital de crianas...
L pelas trs horas da tarde o movimento caiu um pouco. Estavamos mortos de cansados e todos meio no bagao. De repente, peguei a mangueira de gua e espirrei em 
Kelly. Ela reagiu virando um balde de gua com sabo sobre a minha cabea. Depois disso todo mundo entrou na brincadeira. Aps vrios minutos de gua e sabo voando 
por todos os lados, camos na risada geral.
Quando larguei a mangueira de lado, vi que minha me tinha trazido nosso carro para lavar. Ela segurava uma cmera e estava a uma distncia fora do alcance da gua. 
No momento anterior, Kelly tinha chegado perto para me cumprimentar. Ainda me lembro de que nossas mos estavam cheias de sabo e escorregadias. Minha me tirou 
a foto exatamente nesse instante.
Mesmo em p no meu quarto, sozinho, a imagem me fez rir alto. rindo e me cumprimentando, Kelly era a imagem perfeita dela mesma. Foi num relance que sua essncia 
saltou da foto e se aninhou em meu corao.
Olhei para outras fotos pregadas no quadro. Em algumas apareciamos Andrew e eu, jogando basquete ou outra coisa. Mas minhas favoritas eram todas com Kelly e eu - 
e minha me, andando a cavalo, fazendo bonecos na neve.
O que aconteceria se dissesse a Kelly sobre os meus reais sentimentos e ela no sentisse a mesma coisa? Eu ficaria humilhado, para no dizer que perderia uma amiga. 
Nossas gozaes e confidncias estariam acabadas para sempre.
Mas e se Kelly e eu comeassemos a sair juntos e o relacionamento terminasse como todos os outros? No havia garantias de que nosso anor perdurasse. Ela poderia 
conhecer algum de quem gostasse mais, resolver que meus beijos no eram to bons assim, ou descobrir que minhas piadinhas no eram mais engraadas. Ficaria de corao 
partido e eu perderia tudo o que mais importava no mundo para mim.
Suspirei profundamente e deitei-me na cama. O telefone mudo parecia estar rindo de mim, e senti como se o atirasse na parede. Em vez disso, peguei o fone e digitei 
os seis primeiros nmeros da casa de Byrne.
Quando estava prestes a digitar o ltimo, contudo parei. Por vrios segundos fiquei imvel, olhando para o teto. No podia fazer isso, percebi. No podia arriscar 
minha amizade. O preo era muito alto.
Sem me importar em tirar a roupa, apaguei a luz e me enfiei na cama. "Kelly nunca vai saber como me sinto", prometi a mim mesmo. "Nunca".

17 - KELLY

Levantei no domingo de manh com uma dor de cabea de rachar. Podia ouvir que, l embaixo meus pais conversavam sobre comprar ou no um novo aquecedor. Resmunguei 
e enfiei a cabea sob o travesseiro, uma vez que a sltimas vinte e quatro horas tinham sido terveis. 
Steve e Ellen. Ellen e Steve. Kelly e ningum. Deveria ser umas cinco e meia da manh, sim, fiquei acordada quase a noite toda olhando as trincas no teto, quando 
percebi como estava me sentindo mal. Agora disse as palavras em voz alta, para ver se ainda eram verdade:
- Estou apaixonada por Steve. - murmurei - Mas ele no me ama.
Falar isso era muito mais difcil do que simplesmente pensar. Enxuguei algumas lgrimas do rosto. Ainda nem eram dez horas e eu j estava chorando. Uau, que vida, 
pensei ironicamente. Rolei na cama, forando a mim mesma a repetir a verdade inmeras vezes.
Quando j no aguentava mais meus prprios pensamentos consegui me arrastar para fora da cama. Ainda era cedo, mas no dava para deixar de lado o inevitvel. Tinha 
de me afastar de Steve e teria de ser hoje.
Coloquei um jeans bem velho e uma blusa desbotada do Jefferson. Para completar enterrei um bon na cabea e calcei um par de tnis j bem malhado. Enquanto brigava 
para pentear o cabelo, decidi que iria cort-lo, mesmo que Steve no fizesse questo de cobrar a aposta quando eu perdesse. Para que me importar com a aparncia? 
A partir de ento, iria passar todos os fins de semana com meus pais mesmo.
Do armrio da entrada peguei uma caixa de papelo e coloquei no meio da cama, ainda desfeita. Vagarosamente, caminhei pelo meu quarto, passando as mos em cada uma 
das coisas que lembravam momentos dos anos do colgio. A maioria me lembrava Steve, de uma forma ou de outra, e senti mais lgrimas a rolar pelo meu rosto. precisava 
me livrar dessas coisas. At mesmo a menor das lembranas que me recordasse nossa amizade seria torturante de ter por perto. 
Cuidadosamente coloquei no lugar o ursinho que Steve ganhara para mim naquela festa do colgio, no segundo ano, e que batizei de Risadinha, porque Steve sempre me 
fazia rir. depois do ursinho, guardei um par de brincos pingentes de prata, que Steve tinha me dado em meu aniversrio de dezesseis anos. 
Fui at a parede perto de minha mesa e peguei a foto de Steve e minha no lava-rpido. Observei nossos sorrisos, com as caras cobertas por espuma de sabo, e mais 
uma vez meu corao doeu. Depois de colocar a foto na caixa, fui olhar nas gavetas de roupas da cmoda. Nos ltimos anos, tinha acumulado um monto de camisetas 
dele, que nunca me dera ao trabalho de devolver.
- Ele vai gostar de receber de volta essas camisetas. - murmurei, passando uma delas em meu rosto.
Aps o que pareceram alguns minutos, a caixa estava cheia. Dei uma olhada pelo quarto, que agora tinha ficado vazio e impessoal. A maior parte de minha vida estava 
dentro daquela caixa de papelo. No sobrara nada.
Peguei a caixa e empurrei para a porta do quarto.
- Adeus Risadinha. - me despedi - Foi bom conhecer voc.

A Senhora Parson nem tentou me impedir quando passei por ela a caminho das escadas. Eu estava em plena misso, e nada ou ningum se interporia em meu caminho. As 
escadas pareciam mais compridas do que nunca, e o peso da caixa deixava doloridos meus braos e minhas costas. 
Coloquei a caixa na porta do quarto de Steve. o barulho ecoou pela casa anunciando que eu estava por ali. Bati com fora  porta, pouco ligando se os pais dele pensassem 
que eu estava doida.
- Quem ? - gritou Steve l de dentro.
Sua voz era to familiar, to prpria dele, que quase virei as costas e fui me reconciliar com meus sentimentos. Porm balancei a cabea com toda firmeza e me afastei 
da tentao. Sabia que no seria fcil enfrentar Steve.
- Sou eu. - respondi, esperando que a voz no denunciasse meu estado.
Abri a porta e empurrei a caixa para dentro do quarto com o p. Ento entrei e cruzei os braos.
- O que foi? - Steve perguntou, parecendo sonolento. Seu cabelo estava todo desarrumado e tinha as cobertas enroladas pelo corpo. Mesmo assim parecia maravilhoso. 
Poderia perfeitamente ser o garoto de um comercial de colches.
- Trouxe de volta as suas coisas. - falei direto. No sabia como comearia a explicar que ns dois no poderiamos ser amigos nunca mais. - Saquei que tinha um monte 
de camisetas suas nas minhas gavetas.
Ele deu uma olhada no relgio.
- Voc sentiu vontade de me devolver as minhas camisetas s dez horas da manh de domingo?
- Tinha de fazer. - respondi, como se isso explicasse tudo. - Tenho certeza de que voc deve estar muito cansado depois de seu grande enconto com Ellen, ento vou 
deix-lo voltar a dormir.
Virei as costas, pronta para ir embora.
- Espere! - Steve gritou, agora bem acordado. - Ser que daria pra voc me dizer o que est acontecendo? Voc no est agindo normalmente.
Fiquei olhando para o cho, tentando achar alguma coisa para dizer. Parecia que meu plano tinha alguns furos.
- No podemos ser mais amigos nunca mais. - disse finalmente. 
Uma vez que j tinha falado, no pude segurar as lgrimas que brotaram em meus olhos. Steve estava srio, e sua aparncia era to adorvel e confivel que no desejava 
nada mais do que me atirar em seus braos e pedir que se apaixonasse por mim. Mas meu olhar ousou em seus lbios e o imaginei beijando Ellen. Eles provavelmente 
tinham arrastado a sobremesa por um tempo enorme, trocando amassos em pleno restaurante. Essa ima gem me fez doer o corao.
- Por que no? - perguntou Steve com a voz alta e forte.
- As coisas entre ns j no so mais as mesmas. - Explodi soluando. - No sei como explicar isso.
Ele estava silencioso, me encarando com aboca ligeiramente aberta. Desejei que o cho se abrisse para me engolir, mas nada disso aconteceu, nem mesmo um pequeno 
relmpago cruzou o espao.
- Voc e Ellen vo formar um belo casal. - disse. - Desejo a vocs toda a felicidade do mundo.
- Ellen e eu? Ns no...
- No diga mais nenhuma palavra! - Gritei. - Por favor no quero ouvir nada sobre isso.
- mas Kelly, voc pirou! Ou pior que isso. - ele tinha se levantado e caminhava em minha direo.
- Desculpe, Steve. Eu falhei como amiga e estou sabendo disso. Mas, por favor, no precisa dizer nada. S me deixe sozinha...para sempre.
Sa do quarto e batia aporta atrs de mim. Desci a escada com o corao partido e as lgrimas embaando minha viso.
No final das escada rumei direto para a porta, ignorando a cara de assustada da sra.Parson. Ouvia a voz de Steve gritando meu nome, mas consegui bloquear o som de 
sua voz.
Saindo da casa, corri para o de minha me, que eu tinha estacionado na entrada da garagem. Olhando para trs, vi Steve parado na porta da frente. Ele sacudia o brao 
e pulava. 
Bravamente, segui em frente.
Acelerei pela rua quieta, deixando meu corao para trs... 


Apesar do dia muito frio, abri a janela do carro para deixar entrar o ar. Eu me sentia sufocada, e o vento frio era um alvio. Dirigia inconsolvel, esperando me 
recuperar  medida que me afastasse de Steve.
Liguei o rdio. Uma voz grave, baixa e melodiosa, se espalhou pelo carro, e me afundei no assento, agradecida por ouvir uma outra pessoa. Eu tentava mas no conseguia 
arrancar da mente a voz de Steve me chamando.
- E agora essa bela cano antiga, "Vamos nos apaixonar", vai de Andrew para Manuela. Ele manda dizer que se divertiu muito ontem  noite e est muito feliz por 
finalmente conseguir pedi-la em namoro. - dizia o locutor.
Desliguei o rdio, sorrindo amargamente. A ironia era muito grande e precisei estacionar o carro para poder me recompor. Quais seriam as chances de eu ligar o rdio 
e ouvir uma dedicatria de Andrew para Mannu? Parecia que todo mundo no Jefferson tinha sorte no amor. Todo mundo menos eu.
Apoiei a cabea no volante, retomando o flego. Estava decidida a no ir a meu baile de formatura. No compareceria  noite de colao de grau. Ellen e eu no deveriamos 
nos encontrar no Baile de Inverno. Steve e eu no trocariamos presentes no Natal, nem iriamos esquiar. A partir de agora, ficaria apenas andando pelos corredores 
do Jefferson como um fantasma de mim mesma.
Comecei a fantasiar sobre a possibilidade de fazer os exames antecipadamente e deixar o colgio mais cedo. Poderia me mudar de cidade, arranjar um emprego e comear 
uma vida nova. J me via morando em Nova York, danando em algum musical da Broadway. Ento imaginei uma vida nova no Meio-Oeste. Poderia me mudar para Nebrasca 
e me tornar fazendeira, por exemplo. Ou quem sabe chegaria dirigindo at Califrnia e me tornasse uma Hippie. Talvez at assumisse uma nova identidade, passandoa 
me chamar Arco-ris ou Lua.
Finalmente me sentei e enxuguei as lgrimas dos olhos. Por enquanto ainda era a velha Kelly. E me sentia pssima. Meus pais no me deixariam mudar para outro pas, 
se quer outro estado ou fazer nada do que imaginara. Eles me fariam ficar e sofrer minha pobre existncia, encarando um dia aps o outro.
Liguei o carro e comecei a andar. Depois de dirigir no sei por quanto tempo, fui parar na frente do Cine Tivoli. O Tivoli sempre passava filmes antigos e os clssicos 
do cinema aos sbados e domingos. Quando vi que CASABLANCA estava na sesso que comeava  uma hora, entrei com o carro no estacionamento vazio.
CASABLANCA era o filme a que Steve e eu tinhamos assistido enquanto conversavamos pelo telefone em setembro ltimo. Naquela poca, nossos sentimentos ainda eram 
puros e descomplicados. Se pudesse fazer voltar o tempo, desfazer tudo o que acontecera desde aquela noite inocente.
Quando comprei o ingresso, a bilheteira me olhou de um modo estranho.
- A sesso demora quarenta e cinco minutos para comear. - Disse ela. - Voc pode voltar mais tarde.
Concordei, embora sabendo que no teria nenhum lugar para ir. Um cinema vazio era um bom local para ficar sozinha.
- Vou esperar.- Respondi, com voz de choro.
- Est bem, querida. - concordou ela, gentilmente. - Pode entrar.
Deserto, o cinema parecia sinistr e surrealista. Assim mesmo ocupei um assento. Arrasada, fechei os olhos, ignorando a viso das filas de assentos vazios. Se ia 
esperar quarenta e cinco minutos ou at o fim dos meus dias, no importava mais. A vida tinha perdido o sentido.

18 - STEVE

Fiquei em p na porta, olhando at que o carro de Kelly desaparecesse ao virar a esquina. Minha me, em p ao meu lado, parecia mais chocada do que eu.
- Mas o que foi isso? - ela perguntou.
-  uma histria muito comprida. - Respondi, suspirando.
Sem dizer mais nada, subi as escadas e coloquei a caixa de papelo que Kelly havia trazido em cima da cama. Com o corao partido, comecei a contemplar cada coisa 
que se encontrava ali dentro. Quando encontrei o Risadinha no fundo, eu o abracei e me enfiei sob as cobertas.
No sabia o que tinha se passado pela cabea de Kelly. Ser que Ellen contara sobre nossa conversa de ontem  noite? Sacudi a cabea. Tinha acreditado na palavra 
de Ellen, quando me prometera que guardaria segredo.
Rememorei tudo o que tinha se passado desde o feriado em que fizemos a aposta. Embora ns tivessemos briagdo mais do que de costume (muito mais), nuna pensei que 
Kelly fosse se desfazer de nossa amizade. Para mim a idia de no sermos amigos era to esquisita quanto a de no respirar. Ns deviamos era ficar juntos e, no entanto, 
agora ela estava nos separando. Por qu?
De todo meu corao, preferia acreditar que ela estivesse com cimes de Ellen. Mas se fora a prpria Kelly quem dera a idia de convidar sua amiga para sair...Ela 
queria que eu me esquecesse de Rebecca e continuasse tocando a vida. E era Kelly quem estava toda entusiasmada com James, agindo como se o mundo tivesse vindo abaixo 
quando ele rompera com ela e voltara para Tanya. E mais, quando eu a havia beijado na sexta-feira, fora ela quem pusera os ps na terra primeiro. Quando me lembro 
dela se lamentando por James, meu estmago d voltas.
Por toda a manh fiquei remexendo em tudo o que Kelly tinha colocado na caixa para me devolver. A cada vez que olhava para a cara marrom do ursinho sentia uma pontada 
no corao. Kelly tinha pedido que eu a deixasse em paz, e no havia mais nada que eu pudesse fazer. 
Finalmente fiquei zangado. Quem ela pensava que era? Desde quando tomava decises sobre nossa amizade, sobre nossa vida? Peguei o telefone. Iria for-la a conversar 
comigo mesmo que tivesse de ir a sua casa e acampar em seu quarto.
Desliguei quando a secretria eletrnica atendeu. No sei por qu, mas a idia de deixar uma mensagem desesperada, com a possibilidade de que ela estivesse no quarto 
ouvindo, era muito para minha cabea. No poderia forar Kelly a falar comigo. Ela simplesmente ficaria brava e me chamaria de animal. Tudo o que eu poderia fazer 
era... exatamente nada.
Estava em estado de choque quando o telefone tocou. Atendi ao primeiro toque, esperando que Kelly tivesse reconsiderado e voltado ao normal.
- Al, Parson? - ouvi a voz de Andrew.
- Ei, Andrew.
Meu corao desabou e comecei a procurar uma desculpa para desligar o mais rpido possvel.
- Finalmente tomei coragem e fiz aquilo. - Ele comentou com entusiasmo.
- O que voc quer dizer com isso? - Perguntei, massageando o pescoo com uma das mos.
- Rachel. Ontem  noite convidei Rachel para sair. Foi demais, cara. Acordei pela manh e disse a mim mesmo: "Christie, hoje voc vai tomar coragem e convidar para 
sair a garota que est fazendo pirar a sua cabea". Ento telefonei para ela, ela disse sim, e o resto  uma histria romntica.
- Imagino que vocs se divertiram um bocado. - Respondi, procurando disfarar a ironia na voz.
- Cara, foi como se tivessemos sido feitos um para o outro. E sabe da melhor parte? - ele perguntou.
- O qu?
Apertei o Risadinha to forte quanto pude, desejando me sentir contente por ver a felicidade de Christie e Rachel.
- Ela me confessou que est apaixonada por mim desde o comeo do semestre. No  demais?
-  maravilhoso. - respondi.
No podia acreditar que Andrew Rice estava apaixonado. Ele sempre fora o cara que mais pegava no p pelas minhas idias de procurar a garota certa. Agora era quem 
falava pelos cotovelos sobre isso, feliz como eu nuna tinha visto.
- Quer saber o que fiz esta manh?
- Fala.
Andrew no tinha percebido que eu no estava to a fim de papo quanto ele.
- Liguei para uma estao de rdio e pedi ao locutor para fazer uma dedicatria. Ento liguei para Marina e disse pra ela ligar o rdio. Ficamos os dois ao telefone, 
a gente nem mesmo falava, apenas esperando pela msica.
Andrew suspirou profundamente.
- Parece que o amor pegou voc fundo. - Comentei, no sabendo bem o que dizer a ele naquele momento as declaraes de amor eram para mim como uma faca cravada no 
corao.
- At mesmo a convidei para o Baile de Inverno. - prosseguia Andrew. - Ei, quem sabe a gente pode formar uma dupla de casais!
- Bom, no sei se vou ao Baile. 
- Steve, claro que voc vai. Se no tiver outro jeito, voc pode ir com Kelly. Os dois esto sozinhos mesmo, e a maioria das pessoas acha que vocs namoram, ento..
Comecei arir, amargurado. Continuar a conversar com Andrew iria me fazer pular pela janela.
- Olha cara, minha me est me chamando. Mas estou realmente muito feliz por voc e marina. Continue assim, cara.
Desliguei o telefone antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu tinha apenas dezoito anos e minha vida no era nada mais que dor e soldo. Deitado ali, no 
sabia quanto mais poderia suportar.


No sei quanto tempo tinha se passado quando minha me colocou acabea pela porta do meu quarto. Podem ter sido minutos, horas, dias.
- Papai e eu estamos indo a um leilo. - disse ela. - Quer vir conosco? 
Enfiei o Risadinha debaixo do cobertor e balancei a cabea.
- Vou ficar por aqui mesmo.
Mame deu um sorriso maternal, que me fez sentir como se tivesse cinco anos.
- Est bem, querido. Mas no fique na cama o dia todo. No  saudvel.
Ela fechou a porta, e eu peguei o Risadinha de novo de seu esconderijo.
Quando ouvi a porta da garagem abrir, rolei para fora da cama. Fui ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Mas at mesmo pensear em pentear o cabelo me pareceu 
um esforo excessivo.
Ainda me sentindo como se estivesse em um vcuo, fui para a cozinha pegar uma xcara de caf preto. Ento me pus a folhear o jornal, meio indiferente, esperando 
tirar Kelly do pensamento.

Passei pela sesso de esportes, mas assim que vi os resultados dos jogos percebi que j nem lembrava de quem tinha vencido quem no futebol. Percebi que tambm nem 
me importava com isso.
Fui para a sesso de artes. Talvez um filme me distrasse da dura realidade. Notei um grande anncio de CASABLANCA. O filme estava passando no Tivoli, e a primeira 
sesso era  uma da tarde. lembrei-me da ltima vez que havia assistido aquele clssico. Kelly j estava na cama quando telefonei avisando, mas se levantou e viu 
o filme inteiro.
Dei uma olhada no relgio. A sesso teria incio em quinze minutos. Corri para a porta, vesti a jaqueta e peguei as chaves. Ento automaticamente fui ao telefone 
para chamar Kelly e pergunatr se queria ir comigo.
Assim que toquei meu telefone, recuei. Por um instante tinha me esquecido de que a idia de ir ao cinema era para esquecer o que tinha acontecido naquela manh. 
Afastei-me do aparelho sentindo o estmago meio embrulhado. Kelly tinha pedido para que no a chamasse nunca mais. Precisava me acostumar a ir ao cinema sozinho. 
nenhum dos meus amigos apreciava os encantos de um filme em preto e branco.
Dirigindo at o cinema, saquei que assistir Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no ia contribuir para afastar Kelly de meus pensamentos. Ainda mais que eu chorava 
na parte em que Sam toca AS TIME GOES BY para Ilsa...
Comprei a entrada, de qualquer jeito. Nada iria me distrair e fazer esquecer Kelly, ento achei que era melhor esconder minha depresso na escurido do cinema.
- Voc tem um encontro com algum aqui? - a senhora da bilheteria perguntou enquanto me dava o troco.
- No, muito pelo contrrio. - respondi.
Ela fez que no se importava.
- Deve ser alguma coisa no ar hoje. - Observou, quase que para si mesma.
- Acho que sim. - Concordei, sem saber do que ela estava falando, e pouco me importando tambm.
Como j estava atrasado mesmo, fui comprar pipoca. No tinha comido nada o dia inteiro, e o estmago estava reclamando. No tinha certeza se conseguiria comer todo 
o pacote, mas por via das dvidas pedi manteiga extra.
L dentro do pequeno cinema meio vazio Humphrey Bogart estava na tela e havia msica ao fundo. Naquele momento me identifiquei com Bogart e seu personagem Rick. 
Rick havia perdido seu nico e verdadeiro amor e agora estava sendo forado a viver uma vida sem sentido. Era sempre muito frio e intocvel, porque no se importava 
com nada. Decidi ser como ele dali em diante, um declarado macho man que vai pela vida afora sem ser afetado por emoes ou desejos.
Perdido em meus pensamentos trgicos, esperei que meus olhos se acostumassem com a escurido. Caminhei devagar, procurando um lugar no muito cheio de gente. Queria 
ficar sozinho se por acaso viesse a ter um chilique.
Quando cheguei  terceira fila do corredor, meu corao pareceu querer sair do peito. Um cabelo ruivo com jeito conhecido estava a poucas fileiras  minha frente. 
Parei, quase derrubando o saco de pipoca.
Com uma das mos esfreguei primeiro um olho e depois o outro. Achei que ra alucinao. Quais seriam as chances de Kelly estar sentada bem a minha frente bem a minha 
frente, quase como se soubesse que eu viria encontr-la?
Fechei os olhos por um momento e , quando abri, ela ainda estava ali. Quando recomecei a andar, no conseguia controlar o sentimento de que, ao contrrio de Rick 
na tela, meu romance poderia ter um final feliz.

19 - KELLY

Ingrid Bergman ainda no tinha aparecido na tela e eu j estava de novo engolindo as lgrimas. Normalmente no choro at a parte em que Rick ouve Sam tocando AS 
TIME GOES BY para Ilsa, ao piano. Pensando na fora dela, decidi no agir como uma idiota. Ilsa nunca teria chorado durante um filme, ela nunca choraria nem mesmo 
durante toda uma guerra.
Enxuguei meus olhos na camiseta e procurei me endireitar na cadeira. Sem querer, meus pensamentos se voltaram para Steve. Contudo, em vez de me lembrar de como nossa 
amizade tinha terminado, pensei em todos os bons momentos que tnhamos vivido juntos.

Seqncias de cenas em comum com Steve me atravessavam a mente e me faziam sorrir. Primeiro, a lembrana de ns dois em uma canoa no Lago Gambler. Depois me recordei 
de quando ele apareceu em minha porta vestido de coelho da Pscoa. E ri alto a me lembrar de steve saltando montanha abaixo esquiando, em um passeio da escola. Ele 
ficara em p depois da demonstrao e agradecera com uma reverencia perante um monte de esquiadores perplexos.
E ento havia a imagem de nosso beijo. Podia quase sentir seus lbios quentes nos meus, seus dedos passando pelos meus cabelos. E quando danvamos no Baile de Boas-Vindas 
eu me senti como se estivesse os em nosso mundo particular. Seus braos me seguravam apertado, e por minutos inteiros me esqueci de que deveria estar apaixonada 
por James.
Que grande piada, pensei. Nunca amei James. No sabia nem mesmo se gostava dele. Confundi o desejo de ter um namorado com o amor verdadeiro. Agora a lembrana de 
ter chegado a chorar por ele ter voltado para Tanya me parecia ridcula.
Estava to distrada pensando em Steve que nem percebi que uma pessoa chegava perto de mim. No havia mais ningum na minha fileira, mas de repente algum se sentou 
a meu lado. Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Mesmo antes de me virar, eu sabia que era Steve.
- Algum pediu pipoca? - Sussurrou ele ao meu ouvido.
Fiquei paralisada, olhando para ele com os pensamentos em total desordem. Era quase como se o tivesse conjurado, de tanto que pensara nele. Agora Steve estava do 
meu lado, e mesmo no escuro do cinema eu podia sentir o calor de seus olhos. Olhei para baixo e percebi que usava sapatos trocados. "Ele parece pior do que eu", 
pensei com o corao disparado.
No podia nem falar mas estiquei o brao e peguei uma poro de pipoca. Da voltei a assistir ao filme. Estava quase chorando de novo. No tinha certeza do que sentia, 
mas fiquei contente de ter Steve a meu lado. Com ele ali, a dor de perder um amigo era amenizada. Pelo menos durante a prxima hora e meia, aproximadamente, ns 
estaramos juntos.
E ali ficamos, ao longo do que pareceu uma eternidade, sentados duros em nossas cadeiras. Dias e noites se passaram em CASABLANCA, mas eu nem prestava ateno s 
cenas. Minha mente estava ocupada com a proximidade de Steve. 
Ns no nos tocvamos, mas o calor do seu corpo parecia me envolver. Num dado momento ns dois colocamos a mo no saco de pipoca. Recuamos mais que depressa, cada 
um se afastando para o seu lado.
Todavia, durante  ltima cena do filme, nossos ombros e braos se colaram, e eu quase no respirava. Nunca havia sentido tanto a proximidade de uma pessoa. Mas 
ele no era apenas uma pessoa. Era Steve, meu melhor amigo e meu verdadeiro amor. 
Enquanto ouvia Humphrey Bogart dizendo "Ns sempre teremos Paris", as lgrimas rolavam pelo meu rosto, pela primeira vez desde que Steve se sentara na poltrona ao 
lado. 
De repente senti sua respirao em meu rosto e inclinei  cabea. Cada msculo de meu corpo se retesava, esperando que alguma coisa acontecesse.
- Ns sempre... - Steve cochichou ao meu ouvido. Pensei que fosse terminar a frase com "teremos Paris", mas ele no o fez... - nos teremos para sempre.
Estiquei o brao e peguei sua mo, apertando to forte quanto podia. Quando me virei, ele gentilmente me acariciou o rosto, desenhando o contorno de meus lbios. 
Tinha certeza de que todo mundo no cinema podia ouvir meu corao batendo, mas no me importava.
- Eu te amo. - murmurei.
- Eu te amo. - murmurou ele tambm.
Ns nos beijamos enquanto o filme terminava. Beijei-o com todo o desejo de semanas, meses, anos que se passaram. O beijo de Steve era igualmente apaixonado, e senti 
que pela primeira vez na vida ns dois nos entendiamos completamente.
Quanto mais ficavamos juntos, mais nosso beijo se aprofundava, e me esqueci completamente de onde estavamos. Nada mais importava. O mundo era s Steve e eu...eu 
e Steve...Tudo o mais era miragem evaporando-se no ar.
Sem aviso, as luzes se acenderam. Ns ainda nos beijavamos. S paramos quando todos no cinema comearam a aplaudir espontaneamente. Olhamos um para o outro com ar 
cmplice e camos na risada. Um assobio longo e forte de algum no corredor nos fez rir mais ainda. Mas no parvamos de nos olhar. Estavamos completamente absorvidos 
pela magia do momento.
Depois que todos saram do cinema, Steve me tomou pela mo e me puxou da cadeira. Andamos pelo corredor estreito abraados, sem nos importarmos com o fato de que 
a cada passo tropeavamos um no outro. 
Na entrada toda iluminada a mulher da bilheteria estava parada, com as mos na cintura.
- EU SABIA! - exclamou ela quando nos viu saindo juntos - Como eu disse, deve ser alguma coisa no ar!
Andamos pela rua, sorrindo e rindo feito bobos. Todos apaixonados, pensei.
De repente Steve parou e me abraou. Eu o abracei tambm, to apertado quanto podia.
- Ei, Kelly. - disse ele.
- O qu?
Tirei o cabelo dele do rosto, adorando aquele toque em meus dedos.
- Voc j tem um par para o Baile de Inverno? - ele perguntou - sabe, preciso ganhar uma certa aposta.
Puxei-o para mais perto, beijando-o de leve. Depois dei uma risada e um soco ligeiro em seu brao.
- Acho que voc quis dizer que tem uma aposta que EU preciso ganhar. - Falei, olhando em seus olhos.
Steve fez cara de srio e colocou as mos em torno de minha cabea.
- Acho que NS dois ganhamos. - Sussurou gentilmente.
Ento ele me beijou, e no estou bem certa do que aconteceu depois. Tudo de que me lembro  que a noite terminou com chocolate quente e uma lareira. Adivinhe o resto...


FIM


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